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segunda-feira, janeiro 08, 2018

PRECISAMOS DE UM MILAGRE

Sou um leitor assíduo de Clara Ferreira Alves. Quase não perco uma das suas crónicas no Expresso. No último número da revista, logo na primeira página como sempre, Clara brindou-nos com mais um belo texto que eu colocaria, nas minhas letras ou pinturas, com o já repetido título Desastres Principais. Ela repete o grito de uma sem abrigo de Nova Iorque, apelo brutal dito em plena rua sob uma temperatura de 23º negativos: "PRECISO DE UM MILAGRE" .
Depois de uma pungente narrativa sobre aquela cidade, ruas vazias  e cobertas de neve ou gelo; depois de abordar o problema odioso do comportamento dos ricos perante os mais pobres dos pobres; depois, ainda, de descrever os montes de cartão, peças de embalagens, restos de coisas desconhecidas, mantas, ruídos de sonos apavorados ou silêncios de gente ali dormindo (talvez tentando) e outros porventura já incapazes de respirar, Clara Ferreira Alves dá-nos a ver e a ouvir o grito de uma rapariga nova, envelhecida pelo terrível sofrimento desta vida sem abrigo, noites de inferno, tempo que só Deus poderia reconsiderar. 
O grito repetia-se: Preciso de um Milagre. Precisamos todos,  uns mais do que outros, à medida dos paradoxos e das conflitualidades do mundo  e dos   desastres principais que parecem estar prestes a expulsar a humanidade de  algum discernimento colectivo e por último do próprio planeta, pelo destino próprio e pela nossa ajuda demente.
Ainda cito o fim da crónica de Clara, porque esse direito lhe pertence e agora também a todos nós.

«Ninguém conseguiu ou quis resolver, ou tentou, o problema dos abandonados e vagabundos, os doentes mentais que Reagan resolveu despejar nas ruas e fechar os hospitais psiquiátricos, dos desempregados sem morada certa, dos drogados e alcoólicos, dos loucos de origem misteriosa, dos veteranos de guerra, dos negros, dos adolescentes e dos abusados sexualmente que fogem de casa, das mulheres violentadas e refugiadas nas ruas de todos os que cairam em desgraça  e escaparam pelas malhas do sistema. (...)  Muitos sem abrigo foram atirados para os subúrbios, despejados no tempo de Giuliani. Estão agora debaixo das pontes e nos vãos do Massachusetts ou de  New Jerssy. Estão, finalmente mortos».

segunda-feira, maio 25, 2015

ESCRAVATURA E COBARDIA NO MUNDO GLOBAL


os novos olhares

Há  35,8  milhões   de escravos  em  todo  o  mundo, globalizado  em   nome  da  eficácia,  da mobilidade e da fortuna. No ano passado verificou-se, na soma dos desastres, 29 milhões de escravos  modernos.  Os  homens  transformam-se  cada  vez  mais  em  seres  híbridos,  que nascem aqui e além, experimentando muito cedo a fome de outras paragens, os  paraísos  de betão, informatizados, ainda capazes de encher cidades e  reformatar os  postos de  trabalho que restam depois do avanço meio  cego  a  robotização e o desinteresse pelos espaços quase desertos e contudo perfeitamente adequados a enquadrar populações humanas e a invenção de  novos  alimentos  para  o  corpo  e  o  espírito. O  exclusivismo  das  selvas  de  gente  feia, desordenada  nos  modos  e  nos  vícios,  menos  reprodutiva,  menos  culta,   esquizofrénica, gritando nos concertos de ruídos medonhos, heroicamente metais, que vão co os tímpanos e favorecendo  a  infinita  mastigação  dos   produtos  psicóticos,  que  um  professor  sem  fala acabou  de indicar  na televisão que deviam ser dados à liberdade  (felicidade) de  cada  qual, porque ninguém tem o direito de andar triste.


imigração para a Europa


                                                           a África para os africanos
                                           
Pertenço a uma geração que andou por África, dizia-se que a defender as Colónias, neste caso portuguesas, Angola e Moçambique, sobretudo. Durou tudo 14 anos e num enorme espaço onde a escravatura já acabara há muito. Havia lá famílias com mais de cem anos de fixacção, por isso com direitos em nada vindos da corrupção ou da ocupação. Embalados pelos intelectuais dos anos 60 e por uma América que já intervira em muitos sítios do mundo, ajudara na Segunda Guerra Mundial, contra uma Alemanha ensandecida por Hitler e que hoje, poderosa, praticamente dá ordens na Europa, sem abrir as concepções nem censurar a mania das grandezas dos países nórdicos, sem franquear a solidariedade e actualizar os tratados, todos deixando à Itália a «apanha» dos fugitivos da SUA África, gente que os donos dos países saídos da colonização persegue e assassina em massa. Aqueles que gritaram «África para os africanos», emigram agora para a tal famosa Europa das colonizações, sem parança nem miopia, até mesmo sem qualquer desejo de combater ao lado dos senhores do Estado Islâmico, que se dão ao luxo de «reconquistar» terras e abater preciosidades arquitectónicas e escultóricas da História humana. É um autoproclamado Estado, usando tácticas de homens bomba, todo o género de armas e facas dedegolar gente raptada, vestida como os presos de Guatamano. A guerra imperialista decorre há tempo, valores históricos e artísticos derrubados, milhares de vítimas, mais de um milhão de refugiados. Que África é a esta?

                                                               
O quadro das vítimas

Milhões de pessoas voam para toda a parte, cruzando-se no espaço e procurando ver outras gentes, explorá-las ou arranjar por lá outros empregos, todos técnicos, bem pagos, dentro de casas  «inteligentes» A tecnologia das comunicações põe tudo onde se quiser, compra e vende à distância, mas ninguém se importa com os desastres principais, do Nepal às Filipinas. O planeta não é tão eterno como julgam as tribos desta nossa humanidade da fashion e outras passagens vermelhas.
Um alienígena que se confunde  com os humanos disfarçados de palhaços pergunta à saída do estádio de futebol de Guimarães:
Bom, lindo, divertido, desporto de placagens e despachos, multidões gritando de alegria, apitos, mortos, feridos -- o futebol. Cem anos? E ainda se faz assim? Quando pensam que ele termina? Quem escolhe quem?


os novos deuses
Agora vivemos no presente, aglutinação de passados e memórias. O futebol não é uma mania, é uma indústria, uma religião, uma batalha de coragem.
E os escravos? Depois de povoado (mal) o mundo que vos restam, que razão resta para raptarem trabalhadores e os prenderem a uma plantação de jagunços, beterraba ou lama com diamantes?
O senhor não sabe do que fala. As relações entre zonas da economia e da finança, onde se alimenta a indústria de produtos rapidamente alimentares, são uma conquista moderna onde o trabalho rende pouco mas é uma conquista para amanhã.
Por uma batata amanhã o senhor paga a esta gente desenquadrada um ordenado de 200 a 500 euros, coisa que não dá nem para alimentar um cão, desses de qu etato gostam e tantas vezes abandonam? Asilos de cães. Asilos de velhos. Aldeias do sonho com demografias aviltantes: um habitante, dois, uma família com uma menina que vai à escola pela madrugada e chega a casa às 20 horas da noite, última passageira de uma carrinha da Câmara Municipal que dista daqui cerca de  100 kms.Sabe que isto não é sobrevivência, nem direitos? Sabe que isto é sobejamente um crime?
As pessoas têm apego à sua terra. Trabalham na sua subsistência. É uma gente simples e esforçada.
Claro que sim, mas os que dilatam as cidades com casas vazias, de, luxo, e nem sabem as doenças que desencadeiam, a vileza da vida doméstica, os assassinatos, o excesso de jovens em bandos bebendo, mal sabendo que o mundo restante é direito seu também, lá longe, nas belas serras onde a felicidade é possível sem a canga das celas urbanas?
Já tenho pensado nisso. Há dezenas de guerras em todo o mundo e a mitificação do dinheiro, excesso de coisas e de migrações e o dinheiro todo desviado para cofres secretos debaixo do mar ou na Ilha dos Piratas. A gente indigna-se e a nossa História está cada vez mais desaprendida. (pausa) Afinal, donde veio o senhor ou lá 0 que é?





                                                           mortos à beira da estradas                                                 
                                                                     crucificações

Do outro lado do Universo, desde há um milhão de anos. Nunca intervimos na vossa evolução. Mas se uma guerra Mundial rebentar, estamos prontos para os tratar compulsivamente, sem o vosso vil metal e uma carteira electrónica com a qual viverão o dia a dia durante cem anos. Reordenaremos o território e havemos de transferir para junto de nós 25% de amostras colectivas dos humanos mais ricos e dos mais pobres.Implementaremos um apocalipse de limpeza. Podem lembrar-se a partir de agora: estamos em toda a parte, aqui, e em muitos casos dentro das vossas estruturas mentais. Desde o próximo mês metade das vossas actividades de risco e inúteis, vão começar a ser pulverizadas. Como aquela dos seiscentos milhões nas pensões. É mesquinho e carecido de invenção. Em poucos anos, tudo estará na mesma. As fontes para a Segurança Social, têm de ser várias e capazes de repetição todos os anos. A vossa classe gestora consome milhões e milhões de euros de vencimentos: uma suave fatia a cada membro, proporcionalmente, fará maravilhas todos os anos.E isso será acompanhado por outras baixas nos altos salários, nos altos lucros. Pelas nossas contas, quase sem se dar por isso, triplicarão por ano a verba de reforço da S.Social.A tal TSU pode mesmo ser abandonada no mais fundo do Mar dos Sargaços
Está visto. E bem Visto. E não nos podem ajudar na fundação do Banco de Fomento?
Claro que sim. O dinheiro não foi para lá. Está tudo às escuras, menos os gabinetes daqueles que foram nomeados para os altos cargos e JÁ GANHAM O SEU FARNEL. Também podem falar com o Francisco: ele sabe o que dizer e até sabe o que fazer. Portugal? O último habitante da última aldeia?



                                              Portugal? O último habitante desta aldeia?






quarta-feira, novembro 27, 2013

FRANCISCO CONDENA CAPITALISMO QUE EXCLUI


PAPA FRANCISCO
 
Os efeitos ou defeitos da Globalização estão a verificar-se numa extensa e preocupante crise mundial, a par dos desastres principais provocados pelos homens (de todos os níveis civilizacionais) em todo o planeta Terra, paisagem anunciadora de uma espécie de apocalipse em futuro não muito longínquo, na atmosfera, nos oceanos e nos continentes. Uma medonha ideia expansionista, em todos os sectores das comunidades humanas, tem contribuído, entre guerras, para a hipertrofia das tecnologias, antigas e de ponta, armamentos devastadores, ódios entre povos, má gestão dos territórios e das suas relações que deveriam pugnar pelo equilíbrio, bom senso e harmonia. A inteligência humana, sem dúvida considerável, tem pouco a ver, infelizmente com os perfis da personalidade de cada homem, aspecto sem medida e sujeita aos mais aterradores sinais de mutação, para o crime, para a luta por posses insensatas, para ganhos em monopólios capitalistas em constante ideia de concorrência, quer legal quer ilegal, desde uma simples dose de heroína a um qualquer arsenal de armas nucleares com o poder de destruir por completo tudo o que nos foi dado, não se sabe porquê nem para quê -- menos ainda por quem.
Perante a actual situação do mundo, das várias crises em todas as latitudes, sociedades empobrecidas e grandes estruturas de produção falindo em cadência impensável, o Papa Francisco, personalidade singular e cuja ideia para o seu magistério se tem revelado aberta, dirigida à sensatez das comunidades e da própria Igreja Católica, tem elevado os níveis de intervenção e proposta quanto a uma melhor forma de encarar a vida solidária e os sistemas estruturais de organização social, moderna, contida sobre os valores de espírito e reservada relativamente aos brutais consumos, ao gigantismo do capitalismo que exclui, que gera terrorismos e assimetrias infernais.
 

A exortação evangélica «A Alegra do Evangelho», assumida pelo Papa Francisco, lembrando os termos que fundamentaram o Cristianismo e a consequente Igreja, convoca a ligação espírito e homem, define uma posição que consagra os lados positivos de um regresso às origens, lembrando mesmo o sentido da reforma protestante no século XVI. Francisco mostra claramente que as forças espirituais (na área do Bem) só podem condenar um «capitalismo que mata». E Francisco diz: «A crise mundial, que investe nas finanças e economia, põe a descoberto os seus próprios desequilíbrios e sobretudo a grave carência de uma orientação antropológica que reduz o ser humano apenas a uma das suas necessidades: o consumo.».

 
EXCERTOS de A ALEGRIA DO EVANGELHO
 
Uma economia que mata vem da exclusão e da desigualdade social. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na bolsa,
 
Enquanto não se eliminar a exclusão e aa desigualdade dentro da sociedade e entre os vários povos, será impossível desarreigar a violência. Acusam-se da violência os pobres e as populações isoladas dos meios e dos processos de relação. Mas, sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agregação e de guerra encontrarão um terreno fértil para que, mais tarde ou mais cedo, se verifiquem violência ou a explosão da tensões.
 
O Bispo de Roma declara-se, por inerente competência, a permanecer aberto às sugestões tendentes a um exercício do seu ministério que o torne mais fiel ao significado que Cristo pretendeu conferir aos outros perante as necessidades e maiores privações de valores humanos e espirituais.
 
Estes dados concorrem para um acerto com a ideia, entretanto validada pelas vozes inconformistas, de que a força exercida em todo o mundo pela finança, pelas orientações económicas, pela obsessão do valor espúrio da competitividade e pela força colossal das fontes hegemónicas que especulam com o dinheiro, através de empréstimos à escala dos países, gente sem rosto, defendida atrás de agências orwellianas de notação, operando como num jogo vídeo, dão corpo às maiores vilanias travando créditos, subindo sem regras os juros, face escondida de um capitalismo do terror e da assimetria.
E sobre isso pondera Francisco:
Quando a sociedade -- local, nacional ou mundial -- abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade.
 
Um velho a quem penhoraram a pensão que usufruía, podendo ajudar dois netos, suicidou-se, deixando um recado não se sabe a quem: os desertos são chegados.
 

segunda-feira, setembro 06, 2010

POR MAPUTO: REDESCOLONIZAÇÃO EM VIOLÊNCIA

registos da reportagens televisivas
Já ouvi da boca de vários personalidades conhecidas palavras resmungadas que a descolonização, pelo menos no que se refere a Portugal, não fora precipitada, fora, pelo contrário, indevida, no tempo e nos métodos. Tem-se falado muito, também, num dos autores mais favoráveis aos processos de descolonização, Franz Fanon, que alertou, apesar disso, para os enormes riscos que se corria ao lançar povos inteiros, de súbito e ainda largamente impreparados, para a contemporaneidade. O desajustamento seria, em alguns casos, de efeitos devastadores, entre o desenho das fronteiras e a divisão das etnias ou nações. E foi afinal isso que se fez, apesar de alguns territórios privilegiados por prolongamentos coloniais enviesados, como no caso da antiga Rodésia, hoje um país vandalizado, sem ordem nem produção ordenada, esmagado por uma das mais patéticas ditaduras do Continente. Angola, por sua vez, entregue, por acordo institucional, aos três «movimentos de libertação, em breve se lançou numa terrível guerra civil, muitas vezes mais grave do que a guerra colonial, após a qual cidades haviam desaparecido, populações tinha percorrido fracturas enormes de deslocalização e outras, enquanto Luanda inchava de gente, de perturbação e um vasto tipo de carências, enquanto um núcleo em volta do Presidente e de outras entidades militares ou políticas, enriquecidas desproporcionalmente já nessa época, se entricheiravam na maior grandeza, entre o luxo, os bens e a força sobre todos os que caminhavam esforçadamente, estropiados, num largo horizonte de perigos ocultos e miséria.

Há sempre semelhanças entre estes desastres: Moçambique dividiu-se, logo após o cessar fogo das tropas portuguesas e o seu abandono do território, em duas forças opostas, em litígio bélico de intensidade muito menor do que o de Angola, mas, apesar de tudo, largamente danoso para o país. A FRELIM, desde o início da guerra colonial, apostada nos ditames libertadores, teve à sua ilharga, ainda durante esse tempo, o movimento homónimo RENAM, débil, menos municiado e ideologicamente impreciso. Mas, quando vieram as eleições de tipo democrático, a FRELIM foi vencedora, tendo na Assembleia Nacional de confrontar-se comos deputados que a RENAM conseguiu eleger. Esse perfil das forças que iniciaram os caminhos da independência não era preocupante e a sucessão dos vários presidentes tem decorrido com consensos quase nada pertrubadores. O problema, dada a escassez de meios imediatos de riqueza, coisa já existente em Angola, passou a residir nas políticas de de contenção, realidade agravada pela explosão populacional em Maputo, em termos por vezes capazes de provocar repugnância, desde o lixo, às sujidades dos imóveis e dejectos em avenidas principais. Tudo isto foi sendo combatido, como quem rema contra a corrente, pois o tipo de cultura das populações do interior não era ajustável às regras da vida citadina nesta escala. A situação, há pouco tempo, começou a degradar-se. Até que, em revolta contra o aumento dos bens básicos de consumo, a população, recrutada por SM S, entrou em estado de revolta, bloqueou a cidade, o próprio achefe de aeroporto, acabando por cometer alguns desacatos sobre lojas e pessoas. O governo reagiu em termos de espera, socorrendo-se da PSP para situar algum recato. algumas dispersões. O Chefe de Estado falou em nome do apaziguamento, sublinhado o dinheiro que se perdia em cada dia de paralisação da cidade, o que ocorreu, de forma completa, durante pelo menos dois dias. Apesar dos destroços, mortos e feridos, este incidente esbateu-se depressa: seja como for, não deixa de ser um sério aviso para aqueles que vivem acima de maior parte das pessoas, em assimetrias monstruosas, fio em certa medida anunciador dos erros cometidos nos anos 70, por Portugal e pelas Colónias. Esvaziadas dos quadros técnicos e administrativas competentes, o esforço de equilíbrio e de ordem social gerou ou agravou diversos tipos de «epidemias» que este género de subdesenvolvimento costuma tornar crónico. É o salto na contemporaneidade, seguido de catástrofes indizíveis.


Tudo isto poderia ser diferente, pausado, seguro, equilibrado, partilhado, num Continente que, em vez de entrar em agonia, deveria ser tomado pela humanidade como fundo de garantias em diferentes plataformas de produção e comservação? Por mim, penso que sim, não por achar que a descolonização estava fora do projecto nacional. De resto, a ditadura teve todos os sinais para salvar a face e os povos. Um «génio» chamado Salazar castrou toda um país com as suas sobrevivências e referências através das colónias. O que penso é que a descolonização não devria ter sido feita sob uma espécie de efeito de derrota, sem nada se preservar, indústrias, fecundação da terra, organização social, disciplina. Os portugueses e moçambicanos brancos que tiveram de abandonar de súbito aquele país, como aconteceu ao mesmo tempo em Angola, foram apenas martirizados por slogans e dirigentes cobardes que não souberam negociar e agilizar as tropas numa ajuda pós-militar. Alguém me poderá garantir, com razões técnicas e humanas de valor indesmentível, porque carga de água um exército que combate em três ferentes sem destruir os territórios e as populações tem de se retirar à pressa, com a tralha mal atada à cintura e uma cerveja para refrescar o «regresso» a Metrópole? Tratou-se de um erro grotesco, o que aliás veio reflectir-se em Portugal, num PREC maníaco-depressivo, falsamente chamado de revolucionário, proletarizando o campesinato e procurando mesmo a tomada do poder por um golpezinho patético, o qual o país conseguiu travar em pião -- e sem sanear verdadeiramente os que haviam ensandecido pelos quartéis e pelas quentes veredas do Alentejo. Assim ficaram as coisas, pela teimosia inerente a Salazar, pela incapacidade assombrosa de Caetano, pelo varrimento de toda a ética militar dos chefes que tinham «trabalhado» nas ditas colónias durante 14 anos, conhecedores dos problemas e do apoio que podiam dar no próprio espaço da independência e durante os primeiros tempos da mesma.
Franz Fanon tinha razão. Mas, como muita gente naquele tempo, achou mais rico o espectáculo das bandeiras desfraldadas pelas anharas fora e guardou no bolso as consequências que ele mesmo anunciara. Os militares portugueses, que não queriam meter-se na política, apoiaram um dos maiores desastres políticos sofrido pelo país. Hoje queixam-se de relatos que espreitam a história, como no recente caso de Lobo Antunes, mas esquecem sempre de olhar-se ao espelho e de relembrar uma guerra sobre a qual também se teceram elogios e aceitações de brandura. Não direi tanto, sobretudo nos costumes, até porque uma década dá para ensaiar uma civilização e os seus poderes ou armadilhas encobertas.

um pouco de sangue, nada mais, os motins acabam depressa, mas o futuro ainda não chegou.

sexta-feira, agosto 22, 2008

QUANTO MAIS CRESCEM MAIS TROPEÇAM EM SI MESMOS


Sei perfeitamente que alguns dos meus visitantes, ou mesmo muitos, olhará com desdém para esta fotografia. Digo de propósito desdém, pois todos os que cumprem a quotidiana liturgia do consumo e da competitividade, próprios da civilização contemporânea, têm vindo a tornar-se um pouco maquinais, miméticos, falando em «novo paradigma» e assumindo atitudes de cada vez maior indiferença perante o que os cerca de facto, senhores, enfim, de uma visão do real em colapso de miopia ou culturalmente mais redutora. Sonha-se com o êxodo transitório, férias nas praias do Brasil ou noutras paragens do bem estar turístico, lugares da mornidão indutora do sono. As pessoas sabem que se morre todos os dias em quantidades avassaladoras, da guerra ou das pestes, numa linha que contradiz aquilo que erradamente se costuma chamar evolução, globalização, partilha, humanitarismo. É mentira que isso esteja a acontecer equilibradamente no mundo. Qualquer miserável F16 resolvia a iniciação coordenada, vital, de pelo menos cem famílias, uma aldeia ou uma pequena cidade.
Também não vale a pena classificarem a escolha da imagem, aqui oferecida à reflexão dos meus contemporâneos, como mero sintoma de morbidez. A morbidez atravessa, isso sim, o Iraque, o Afeganistão, o conflito entre paquistaneses e israelitas, as raivas fracturantes da antiga Jugoslávia, a Tetchenia, a Giorgia e os tumores que combate sem os tratar, tropas russas usando estratégias de avanço contra o inimigo que lembram o czarismo ou o stalinismo, arrasando tudo, bombardeando apenas com o critério de bater militares e milhares de civis. Do outro lado do mundo, tratando a interminável luta por meios nefastos, a Colômbia tem um país clandestino e canceroso dentro de si. Em África, o crime ou é brutal e ensurdecedor ou se inscreve na teimosia sonsa e ditatorial de senhores como Mugabe.
Mas o verdadeiro problema, que reside em estratégias de longo prazo para orientação dos povos em função da convivialidade, da verdadeira partilha, não da famosa competitividade e da espantosa ideia de que os mercados, livres, se equilibram pela «lei» da oferta e da procura, terá de criar meios para que não nos digladiemos por conveniências de riqueza e poder: isso é o suicídio a longo prazo, sem contar com uma tecnologia cujo ramo atávico rebenta com os eco-sistemas do planeta. Os objectivos terão de ser desviados para um outro azimute e por forma a que as religiões assim se direccionem. Até nesse campo, os modelos transformaram-se em males, numa cegueira apocalíptica capaz de rasgar muitos mais abismos; porque se juntam à política, à gestão da força e da manipulação das mentes, devorando-se umas às outras ou a si mesmas.
A foto aqui proposta regista um acontecimento que nem sequer resultou de qualquer atentado terrorista ou das emblemáticas batalhas pela justiça. Neste caso, cerca de 150 pessoas, com maioria de mulheres e crianças, além de 50 feridos, fora vítimas da sua insensatez. No domingo, 3 de Agosto, na altura em que uma multidão de crentes entrou em pânico, procurando fugir do templo hindu Naina Devi, no Estado de Humachad Pradesh, a 250 quilómetros de Nova Deli, Índia, indícios fortuitos levaram aquela massa humana à tragédia. Mais de 50.000 peregrinos estavam no templo a participar no festival religioso de nove dias que todos os anos atrai centenas de milhares de fiéis. A queda de um bocado de estuque e o boato de um deslizamento de terras chegaram para provocar esta enorme tragédia, o esmagamento de duas centenas de pessoas.
A fé e os rituais também devem ter as suas regras de segurança, a começar pela arquitectura dos edifícios de culto. Esta falta de rigor traduz uma perversidade intrínseca, desacredita os princípios sagrados, pode levar a alucinações monstruosas, de medo e matança, de fuga e descrença. Não é quanto mais melhor, ocultando os desastres principais. O que importa é descobrir a beleza do mundo, mas sem fundamentalismo, reforçando a consciência das feridas e da investigação para as curar.

sábado, agosto 11, 2007

PORTUGAL DESENVOLVIDO VISTO DO FUTURO




Dubai faz a admiração e o nojo de muita gente. Esta concepção dos espaços para milionários, em pleno mundo da crise, é sem dúvida aberrante e coloca os problemas do lazer e do território novamente na balança das avaliações. As mais atrevidas, luxuosas e caras ideias do espectáculo, dos exclusivismos do bem estar, tudo isso, exposto aos nossos olhos, obriga-nos a passar depressa a barreira dos mimetismos gulosos, a impossibilidade moral de tanta riqueza para nada, e confrontar-nos com esses desastres principais que tomaram conta do mundo e do próprio planeta, entre avalanches de gelo a desfazer-se e chuvas diluvianas que arrasam populações, alojamentos, estruturas logísticas, uma inquietude cósmica, perante a qual, a médio e longo prazos, a ideia da sofisticação urbanística, engenhos conquistados ao oceano, terão de soçobrar em nome da sobrevivência. As antecipações da ficção científica deverão, em certos casos, aparecer como profecias, embora todos saibamos que muitas dessas obras partem de conhecimentos consolidados, restando-lhes a verdade da matemática para dizer o resto dos números. Dubai pode ser uma experiência cheia de erros e de surpreendentes ofertas, feira de propósito para negociar cinicamente com os clientes ricos, susceptível de declarar plausível mercados assim, prontos para receber o dinheiro sujo dos prepotentes do mundo, daqueles que governam povos em estado de miséria no interior de uma redoma imensa, no fundo da qual pode cheirar a petróleo ou existirem caixas blindadas carregadas de diamantes e de armas.
Lembro-me da Idade Média: é como se estivesse a ver e a rever o anverso e o reverso de uma medalha, talvez da moedsa que nos controla. As obras megalómanas, ou simplesmente públicas, colidem com a urgência em mudar os objectivos das sociedades e das civilizações, não apenas segundo a estranha mistura de desenvolvimento com crescimento, aumentando tudo, desvastando o habitat, imaginando mais poder do que mais equilíbrio.
Relendo a importância da reflexão sobre esses problemas, Miguel Sousa Tavares escreveu no «Expresso» sobre vários aspectos desta vasta lista de questões partindo de notícias locais, provincianas e talvez aterradoras. A propósito de obras públicas e privadas (ou tudo à mistura, como também acontece), ele começou por noticiar: «O primeiro Ministro foi ao Algarve anunciar mais sete megaprojectos imobiliário-turísticos, os quais, segundo acusações do engº Macário Correia, determinaram o adiamento da entrada em vigor do PROTAL, o plano de ordenação do território aprovado pelo próprio Governo: é que, à luz das normas do plano, e se este já estiver em vigor, os projectos não poderiam ser aprovados, nem como PIN. Assim, movido pelas melhores intenções, o Governo dispõe-se a pôr alguma ordem no ''desenvolvimento'' do Algarve. Mas, movido ainda por melhores intenções, trata primeiro de aprovar aquilo que possa contrariar as suas próprias leis. Na ria de Alvor, uma das raras paisagens naturais ainda preservadas de Portugal, o primeiro ministro deleitou-se a ouvir sete empresários chegarem-se sucessivamente ao microfone para elogiar a grande compreensão demonstrada pelo Governo em prol do ''desenvolvimento''. E, imaginando já uma paisagem PIN, semeada de hotéis, golfes, vivendas e milhares de camas, onde antes só havia verde, Redes Natura, ''habitats'' protegidos por directivas europeias e ''obstáculos'' quejandos, José Sócrates contemplou este Portugal do futuro e, embevecido pela sua visão, exclamou: Haverá sempre quem faça críticas, mas é disto que o país precisa»
Agora direi eu: como é que este primeiro-ministro, cujo programa inicial apontado ao país parecia incluir uma concepção geral, e bem contextualizada, da tecnologia correctamente aplicada à construção equilibrada, vem agora confundir as normas e as coisas, aceitando Dubais absurdos para uma província cujos erros no território obrigariam a implodir pelo menos metade do caos estabelecido? Picasso sabia bem o que dizia ao afairmar: «Um quadro é uma soma de destruições». O assessor do senhor primeiro-ministro para os assuntos das artes não lhe falou destes temas? Apetece recorrer de novo a Sousa Tavares: «O Governo encomenda, os bancos financiam, os escritórios de advogados do sistema fazem os contratos, as construtoras constroem e os contribuintes pagam. O país está cheio de porches e ferraris que sairam directamente do nosso bolso para ajudar a ''desenvolver'' Portugal.»

quarta-feira, fevereiro 28, 2007





Vostel, exprimindo uma violenta avaliação do mundo em volta, ou mesmo do nosso estado civilizacional, usou a performance e a instalação como quem arremessa à terra formações absurdas de cimento ou como quem recupera, dos lixos e dos lagos pôdres, todos os graffiti de grandes ecrãs de alvenaria, mostrando alegorias herméticas, velhas reconquistas da primeira Idade Industrial e dos seus perversos efeitos colaterais. Para além disso, e de marcas monumentais que imprimiu ou cravou nas encostas de uma via férea, ultrapassou as grandezas da memória pela reconjugação de restos, cemitérios do ferro e das latas vazias, desmontando, com ironia e horror, a sociedade de consumo: um carro cercado por pãos atados uns aos outros, como a muralha da forme ou contra os agentes dela. A instalação das portas dos carros, motorizadas para se abanarem ou estremecerem, é das suas invenções mais orgânicas e mais temíveis: o ruído das portas sugere a substituição insubmissa das orquestrações brutais, metálicas, enquanto a par disso, ou noutras pesquisas pela fotografia, Vostel imprime à imagem certo peso coisal, referência aos desastres principais, esmagamento de pessoas e dos sonhos no indecifrável desabar das humanas construções de ferro, aço, cimento, sangue oculto na permanência dos cadáveres dos escombros, gritos vindos de lá e de súbito conceptuais, teoricamente numeráveis

quinta-feira, julho 27, 2006

OS DESASTRES PRINCIPAIS

foto de Nasser Nassier
Há dias, na revista Visão, Lisa Beyer escrevia sobre a situação no Médio Oriente: «O Hezbollah, um grupo radical xiita que opera livremente a sul do Líbano, matou oito soldados israelitas no seu ataque inicial de 12 de Julho e, desde então, lançou centenas de foguetes contra Israel, abatendo quatro civis». Desde a «invenção» territorial de Israel, arrancado eufemisticamente a zonas pobres, pouco povoadas, onde outrora tribos ainda nomadizadas se digladiavam por uma pausa em sobrevivência, que os conflitos de rejeição e similares têm marcado o tempo segundo a cadência dos desastres principais, os que tocam de forma indelével a história da humanidade. Digamos que os casos mais graves, envolvendo vários países daquela zona, se situaram em 1948, 1956, 1967 e 1973. Hezbollah, constituído em 1982, não descurou a sua principal finalidade -- a negação e apagamento total do Estado de Israel. Este objectivo tem norteado os vários movimentos que combatem na Palestina, quer se evoquem os mais antigos, sob a batuta de Arafat, quer se refira o Hamas, um dos que mais radicalizaram a sua posição, tendo sido, por estranho que pareça, muito recentemente e de forma maoritária, eleito para enquadrar e dirigir a nova Autoridade Palestiniana. O primeiro ministro desta realidade política, primeira entre todas, nos termos em que se definiu, desde a formação do Estado de Israel, é agora líder do Hamas em Gaza, Ismail Haniya, rodeado de escolhos por todos os lados. Mahmoud Abbas, Presidente da Autoridade Palestiana, procurou, na base inicial das perspectivas entretanto delineadas, estabelecer com Haniya um espaço político onde Israel seria implicitamente reconhecido no quadro das suas fronteiras fundadoras. Israel, contudo, ainda está longe de qualquer aproximação desse género, mesmo se algmas vezes se esboçaram plataformas de entendimento. No momento, com as retaliações dos israelitas em consequência do rapto de um dos seus soldados, a partir de uma operação espectacular desempenhada pelo Hezbollah, os cenários de uma guerra de grandes contornos surge como hipótese temida nos céus da região, contrariando, segundo os turistas em fuga, a missão de Cristo por tais paragens, em nome da salvação dos homens, deixando a marca dos seus passos e das suas palavas, de acordo com a memória bíblica, suspensa do futuro. Um futuro que, bem vistas as coisas, nunca aconteceu consoante o projecto.
Haverá algum dia nesta terra, não uma trégua ou um tempo de paz entre parênteses, mas a verdadeira pacificação de espaços tão erradamente assumidos pelos homens, pelas nações, pelas mitologias religiosas? É terrível, seja qual for a nossa visão do problema, ler o que escreveu, a certa altura do seu texto, Lisa Beyer: «para além dos incentivos que possam obter, o Hamas e o Hezbollah nunca precisariam de uma justificação específica para atacar Israel». Atacar Israel é a sua própria razão de ser. Os Estados Unidos, com ou sem Bush, não podem na sua aliança, e sob pena da destruição universal, amordaçar todo o Médio Oriente, nem o Irão ou o Paquistão podem imolar-se pelas tentações hegemónicas que suscitam um projecto idêntico, com meios de destruição quase total. Mas a verdade é que o pensamento concentrado destes homens distende-se da urgência, porque a história não é feita assim. Para além de um resultado particular, a perspectiva em que funcionam é de longo prazo, sedimentada nos islamitas: «com o tempo, décadas ou séculos, se necessário, Israel acabará por ruir». Seja como for, talvez baste comparar a rapidez e a eficácia dos israelitas em 1967 com o tempo pesado dos últimos anos do século XX, ou mesmo agora diante de um Hezbollah bem treinado e bem armado, para nos interrogarmos, em perplexidade, qual será o fim e a configuração geoestratégica desse anunciado desastre principal. Ou estaremos, também sem data, colocados perante a hipótese de um novo holocausto, com parte dos mesmos protagonistas e outras vítimas, outros milhões de mortos, outras imensas sequelas sem tratamento 8sequer) a médio prazo?