sexta-feira, junho 23, 2006

APAZIGUAMENTO

Num dia excessivamente nítido,
Dia em que dava a vontade de trabalhar muito
Para nele não trabalhar nada.
Entrevi, como uma estrada por entre as árvores,
O que talvez seja o Grande Segredo,
Aquele Grande Mistério de que os poetas falsos falam

de Alberto Caeiro escultura de Paul Neves

quinta-feira, junho 22, 2006

O CÍRCULO DA QUADRATURA

um problema insolúvel a noite dos sinais vivos











Quando tomei contacto, na altura, com o programa televisivo «A Quadraturado Círculo», antes mesmo de o ver, nunca me passou pela cabeça que ia assistir a demonstrações ou especulações do domínio da geometria. Mas imaginei uma coisa dura de roer -- o que se agravou quando soube que Pacheco Pereira era a figura de proa de uma espécie de debate sem solução. Inscrever um quadrado num círculo não é difícil, mas tornar as suas áreas iguais parece complicado. Lembrei-me daquela maníaca certeza do Almada que afirmava ter encontrado na recôndida convexidade de uma pedra enorme, existente no deserto do México, o sinal cabalístico por excelência, no qual convergiam linhas invisíveis vindas de todo o esboço divino do universo, muitas vezes aí se cruzando em direcção a galáxias distantes, eterna norma que o Mestre parece ter evocado ao «entrançar» as mais diversas figuras geométricas na sua composição para o átrio da Gulbenkian, insidiosamente intitulada «Começar». Aqui se aproximam a cabala artística e o imaginário da ciência após o «Big Ben».
Se Almada Negreiros estivesse vivo e pudesse assistir a dois ou três episódios da série televisiva «A Quadratura do Círculo», diria logo que a geometria da sessão procurava relacionar a análise política com uma composição ruidosa operada através do círculo, do quadrado e do triângulo. Ele encontraria, entre outras hipóteses, uma arrumação por defeito nos pontos relativos aos três participantes no debate; talvez porque a sua relação triangular com a mesa tinha viabilidade completa, mas já era difícil misturar o «pivot» numa simbiose rigorosa, matemática e geométrica, na ausência de um ponto significante . O círculo, esse sim, sendo uma figura absoluta absorve todas as outras.
O mistério da colocação das figuras na lógica do título tem constituído para os espectadores, com efeito, um problema singular enquanto decorre a emissão. Muitos insistem no facto de Pacheco Pereira estar em campo quase metade do tempo, devendo-se tal facto à posição geográfica desse protagonista. Pacheco Pereira acontece sempre como vértice, porventura segundo a ideia de Mestre Almada. No vértice, a que a realização e o próprio «pivot» se submetem, Pacheco Pereira ganha uma imperativa prolixidade circular, sobrepondo-se aos ruídos todos, aliás no modo insidioso ou lasso com que sempre se dirige aos outros, a nós mesmos, cabeça um pouco inclinada, ora para a direita, ora para a esquerda. Nem todos os telespectadores reparam que os outros participantes são remetidos para uma posição sempre lateral: há qualquer coisa de enviesado e secundário neles, pois a verdade é que, nas maiores falas de Pacheco Pereira, seria possível e conveniente fazer planos intercalados dos que estão calados, para se perceber que não sairam da sala nem foram à casa de banho.
O coordenador do programa, pouco telegénico, sentado não se sabe bem onde, exercita, de quando em quando, uma uma nota de pequena sabedoria, inserindo-a nas fendas das falas geralmente baralhadas, como é próprio da vivacidade, da dinâmica, que um programa de televisão deve propor. Quando ele tenta terminar o seu insert oral já a voz de Pacheco Pereira o cavalga, ralacionando-se igualmente com os valores de Pi e de r do círculo da quadratura, pois é esta, segundo diria Almada, a mais adequada designação daquela íntima ou maçónica troca de palavras e rituais. Políticos e política circular: o círculo - resolução de um círculo a um quadrado ou o problema insolúvel. Pacheco Pereira, sempre à espera de falar e sempre a falar na mesma, procura dar consistência verificável ao lado do quadrado, tornando-o vértice de todas as prioridaes. O lugar (cenário) aconchega bem os sacerdotes -- e ocorre-me esta palavra, tanto pela função deles como pelo clima de sacristia em que se confrontam.
Apesar de tudo, entre elipses e novelas que diluem a clareza das opiniões sobre os asuntos, a minha obrigação é a de felicitar Pacheco Pereira por ter suavizado bastante as suas intervenções, embora ainda não consiga apagar a repetida e gritada vontade de ganhar espaço aos outros, aos próprios ouvintes, como acontecia no chinfrim da TSF, «Flash Back», de má memória. É que os ouvintes ou os telespectadores tabém contam. Mal sabe a maior parte deles que Pacheco Pereira se entende bem com a «quadratura do círculo», pois sabe perfeitamente que as suas afogueadas certezas e complexas deduções irão parar inexoravelmente naquele ponto que Almada Negreiros achou no México, debaixo de uma pedra que tinha dez vezes o tamanho dele. E também é certo que ainda ninguém se atreveu a acabar o problema intrínseco do painel «Começar» -- operação que resiste a todos os debates e a todos os ruidos contra a razão. A fala terminal é outra coisa. Por isso o Mestre disse uma só vez: «Há pontos finais».

terça-feira, junho 20, 2006

O MAL DO EIXO.















as vozes na noite

Diz-se do eixo: linha recta real ou imaginária em torno da qual um corpo efectua ou pode efectuar um movimento de rotação. Peça cilíndrica em torno da qual certos corpos têm movimentos giratórios. Mas há dicionários que falam em jogos de badeixo, coisa de crianças, ou nos orgãos dos vegetais. E depois ainda há as coordenadas e as ordenadas, a simetria, o eixo da Terra, o eixo óptico - além das sabidas falas populares como andar fora do eixos, meter as coisas nos eixos, eles que não se cuidem dos eixos e vão ver como elas estalam.
Personalidades simpáticas e cultas, de língua afiada e eixos invulgares, batem papo, uma vez por semana, no programa O EIXO DO MAL. Já falaram muitas vezes do Bush, porque este insólito presidente dos Estados Unidos tem um sétimo sentido que o faz descobrir eixos do mal a torto e a direito. Está bem de ver que o problema dele é encontrar-se fora do eixos. Os senhores do programa, que gozam gostosamente o modo de ser português, o que seria interessante se eles se ouvissem rodando em torno de cada eixo pessoal. Todos eles, luminosos, lusitanos, um pouco enfatuados e em parte letrados, usam tesourinhas entre os dentes para cortar aqui e ali, ora no Sócrates, ora no Cavaco, ora no Soares, ora no poeta, e ainda no Médio Oriente, nas pessoas que se deixaram fotografar desgovernando qualquer província, curiosidades, facilidades, a Educação, a Ministra, os professores.
Estes protagonistas de O MAL DO EIXO são conhecidos dos meios da cultura e é provável que as suas vozes sobrepostas estejam a falar de cultura, talvez para alienígenas e não para portugueses, pois as falas embrulham-se e deixam de fazer sentido. Não vou declarar que lhes devo respeito e à televisão já bajulada por muita gente.
Mas há também uma senhora. E vou dizer o nome da senhora, Clara Ferreira Alves, porque esvreve belíssimas crónicas na ÚNICA, brinca mas sabe com o que brinca e como, é uma bela mundana no sentido de quem conhece o mundo e não precisa de pintar o cabelo para cortar a direito. Eu gostava que ela fizesse três crónicas sequenciais sobre o Eixo do Mal, incluindo um passeio clandestino pela Coreia so Morte.
Falta aqui um pouco da tal pedagogia que desbaratámos há anos para queimar o ensino. Talvez assim, seguindo a chorona e melancólica música do genérico, se conseguisse menos certezas de mercado e melhor faladura sobre aquelas coisas subtis que a Clara faz deslizar aobre a mesa.