segunda-feira, agosto 14, 2006
O BRANCO LENTAMENTE
terça-feira, agosto 08, 2006
FUNDAÇÃO INFUNDADA
sábado, agosto 05, 2006
A CASA REVISITADA



Cheguei ontem e decidi ficar. Ficar assim, olhando os restos de quem fui, ou de quem foi por mim, entre palavras. Tenho a casa toda para esta disponibilidade porventura irreversível, com o rascunho da morte empilhado ali, num monte de papéis velhos, tinteiros, carimbos, canetas de aparo, postais já sem destinatário.
Alguém morreu no quarto ao lado, ficaram os objectos. Coisas, retratos, roupa escura, ou essas marcas enigmáticas nos calendários de cores desbotadas. Alguém morreu desse modo, um pequeno caos em volta, passos, eu chegando e partindo como se o futuro se atrasasse por cada viagem de novo. Mas o futuro chegou mais cedo, quando a casa se enchia do perfume da roseira, depois de inscrever quase súbitas rasuras no rosto de quem o esperara de outro modo. Chegou a esse rosto, à clara luz do sol, deixando-lhe estranhas assimetrias na boca, a voz soletrada, um fio finíssimo de saliva ao canto dos lábios. Assim, breve, contra a paisagem de cal.
Abertura do romance e Rocha de Sousa, A CASA REVISITADA, distribuído prla Dislivro e impresso na gráfica J&L. A obra divide-se em duas partes: 1 nostalgia dos anos intencionais. 2 reencontro no murmúrio das raizes.
quarta-feira, agosto 02, 2006
O HOMEM DA ILHA


quinta-feira, julho 27, 2006
OS DESASTRES PRINCIPAIS
sexta-feira, julho 21, 2006
A CULPA DE DEUS

sexta-feira, julho 14, 2006
A MEMÓRIA DOS LIVROS

Lembram-se daquele famoso livro de Bradbury sobre a morte dos livros, levado ao cinema por Truffaut, a história de uma sociedade futura onde os bombeiros não se destinavam propriamente a apagar fogos mas antes, e ao contrário, a procurar o maior número possível de publicaçõess, queimando-as em praça pública com lança chamas. Pragmático, Truffaut narrava esta monstruosidade quotidiana de forma rigorosa e sucinta, como a coisa mais natural deste mundo. Pensamos em «1984», de Orwell, o mundo globalizado na mais vigiada das ditaduras, na qual a «máquina» da repressão era conhecida por Big Brother. Em Bradbury, ou no filme de Truffaut, a realidade repressiva, a castração cultural pela queima inquisitorial dos livros, todos os livros, tocava sobretudo os cidadãos que sabiam os perigos que corriam se lessem um livro, ou se os tivessem em casa. E todos os que os que não se conformassem com tal amarração silenciosa, como sempre acontece, ou se resignavam ou resistiam. E a palavra de ordem (secreta) era resistir. Resistir consistia primeiro em fazer um esforço para esconder muitas obras em casa, frequentemente descobertas pelos bombeiros-polícias e queimadas. Para além disso, muitos cidadãos procuravam um exílio nas montanhas, nas florestas, e aí os intérpretes dessa atitude passeavan de um lado para o outro, decorando os livros, ou dizendo-os em voz alta, ou ensinando-os aos mais novos. Formava-se assim uma biblioteca universal oralizada de geração para geração. A civilização humana, e com toda ela a sua identidade cultural, acabaria por sobreviver contra as mais sofisticadas tecnologias de apagar o seu verdadeiro rosto, apagando-o do conhecimento das pessoas.
terça-feira, julho 11, 2006
UMA GUERRA ESQUECIDA
pintura a de Rocha de Sousa: «Acto Irreal» sobre a guerra colonial, salvamento de uma criança, indeterminação dinâmica da corrida, um ser arrancado aos tirossegunda-feira, julho 10, 2006
O MEIO E O MODO

fig1 fig 2
quinta-feira, julho 06, 2006
continuação da postagem anterior
cenário interior
TERCEIRO EPISÓDIO
fornatação e sentido
quarta-feira, julho 05, 2006
continuação da postagem anterior


a exploração do grande plano com
forte aproximação expressiva
SEGUNDO EPISÓDIO
linguagem e identidade
O vocabulário qualificativo usado e desenvolvido na área da linguística estendeu-se, não por culpa dos seus cultores, a um significativo número de campos artísticos, o que lhes conferiu estatuto científico, mais afinidade entre os diversos modos de formar, do desenho ao cinema, da pintura à televisão. Passou a ser usual falar-se de linguagem gráfica ou de discurso pitórico. Sendo certo que esta adopção de terminologias se usou noutros tempos e com menos rigor, a verdade é que ela cria pontes funcionais entre disciplinas, entre meios de expressão cuja nomenclatura tem outro intuito. O que parece certo é que esta trasladação linguística acaba com frequência por desaguar num oceano poluído, onde podemos a todo o momento encalhar em coisas estranhos vogando nas águas. A contingência destas permutas e pequenos desastres (uma espécie de globalização nas designações do mundo das artes) parece irreversível, e é bom dizer que, salvo casos patéticos, as escolhas daqui derivadas, bem como as suas aplicações, não tornaram redutoras nem a essência de cada campo nem a sua legibilidade analítica.
A PROPÓSITO DA TELENOVELA

PRIMEIRO EPISÓDIO
caracterização do meio e novelística
segunda-feira, julho 03, 2006
recado do autor

quinta-feira, junho 29, 2006
Matta ClarkPasso e fico, como o Universo.
Alberto Caeiro
O que fica dos passos, como o Universo, é a poeira sem contornos, nem cor, nem substância. São vidas forçadas a viagens entre Escolas e diferentes Cidades ou Aldeias, uma espécie de exílios somando os anos aos anos, entre vigílias nómadas e tímidas. Os professores portugueses têm, na base da sua utilização pedagógica, esta erância que os divide, os separa, os torna intérpretes da tão anunciada precariedade do trabalho outrora consistente e sujeito a normas de progressão num quadro de carreira, numa perspectiva consolidada de futuro. Esse estatuto, cuja base de sustentação, além das licenciaturas dos doutoramentos, das agregações das ciências da educação, era conquistado devagar e o mais seguramente possível. As famílias constituíam, para muitos docentes, lugares sólios de ancoragem ou o porto provisório de uma vontade colectiva de ensinar mais perto das origens. Uma coisa para uma ou duas décadas, permitindo, em todo o caso, que os protagonistas do ensino se ligassem à terra, à sua história, a par das pessoas e dos seus costumes nos diversos enquadramentos distritais. Lisboa atraía os que mais ambicionavam, entre várias coisas da sedução urbana, entre a frivolidade e a cultura, a vida cosmopolita (ou a sua simulação) - porque, à medida que a colonização se alargava em vários sentidos, os prédios urbanos tentavam sugerir certa qualidade de vida, tinha lareira não se sabe porquê, várias casas de banho, fogões eléctricos, porta-lixos, e porteiros ou porteiras e guardas nocturnos abafados por aqui e por al, portadores de chaves de portas, garagens e carros.
Não quero, com estas imagens, fazer a apologia da apatia cinzenta dos tempos de Salazar, mas apontar desde já os indícios do que deveria hoje ter evoluído para grandes patamares de consistência nos encontros e nos projectos de cada profissão. O rumo inquietante das máquinas que se aproximavam, ao ritmo das migrações, era já o aviltamento da terra, o princípio dos chamamentos chantagistas, cortando sem valor de ciência os campos de uma agricultura onde havia ainda uma sedentarização produtiva da ordem dos 30% da população nacional.
NOMADISMO E AVALIAÇÃO DOS PROFESSORES
Matta ClarkPasso e fico, como o Universo.
Alberto Caeiro
O que fica dos passos, como o Universo, é a poeira sem contornos, nem cor, nem substância. São vidas forçadas a viagens entre Escolas e diferentes Cidades ou Aldeias, uma espécie de exílios somando os anos aos anos, entre vigílias nómadas e tímidas. Os professores portugueses têm, na base da sua utilização pedagógica, esta errância que os divide, os separa, os torna intérpretes da tão anunciada precariedade do trabalho outrora consistente e sujeito a normas de progressão num quadro de carreira, numa perspectiva consolidada de futuro. Esse estatuto, cuja base de sustentação, além das licenciaturas, dos doutoramentos, das agregações, das ciências da educação, era conquistado devagar e o mais seguramente possível. As famílias constituíam, para muitos docentes, lugares sólidos de ancoragem ou o porto provisório de uma vontade colectiva de ensinar mais perto das origens. Uma coisa para uma ou duas décadas, permitindo, em todo o caso, que os protagonistas do ensino se ligassem à terra, à sua história, a par das pessoas e dos seus costumes nos diversos enquadramentos distritais. Lisboa atraía os que mais ambicionavam, entre várias coisas da sedução urbana, entre a frivolidade e a cultura, a vida cosmopolita (ou a sua simulação) - porque, à medida que a colonização se alargava em vários sentidos, os prédios urbanos tentavam sugerir certa qualidade de vida, tinham lareira não se sabe porquê, várias casas de banho, fogões eléctricos, porta-lixos, e porteiros ou porteiras e guardas nocturnos abafados por aqui e por ali, portadores de chaves de portas, garagens e carros. O rumor inquietante das máquinas que se aproximavam. ao ritmo das migrações, era já o aviltamento da terra, o princípio dos chamamentos chantagistas, cortando sem valor de ciência os campos de uma agricultura onde havia ainda uma sedentarização produtiva da ordem dos 30% da população nacional.
Não quero, com estas imagens, fazer a apologia da apatia cinzenta dos tempos de Salazar, mas apontar desde já os indícios do que deveria hoje ter evoluído para grandes patamares de consistência nos encontros e nos projectos da uma sedentarização com boa ordenação do território, na racionalidade da distribuição dos meios e unidades produtivas.
Em todo o caso, a promoção de um professor à condição mais alta era penosa, obrigava ao rigor do estudo pedagógico sem projecção prática e ao aprofundamento das metodologias, das técnicas inseridas nos programas, a par de um significativo quadro de orientações profissionalizantes. Havia provas decisivas, como a do Exame de Estado, lição que parecia anteceder o doutoramento e ter solenidades idênticas. Um Curso de Pedagógicas, inspecções, candidaturas e vagas que começavam a tornar-se exíguas - a marca do tempo avançando com as máquinas, carros de combate , como num cerco à cidade, peças indizíveis prontas para ajudar a erguer prédios de quatro andares, cimento, tijolo, casinhas minúsculas, cozinhas apertadas, estendais para secar a roupa, nos subúrbios, à portuguesa, todo o terreno em volta configurado por mato, algumas árvores secas, barracas de madeira e zinco envolvendo o círculo anterior do perímetro citadino, num sonho logo sujo de lixo e fezes, como os arredores de muitas cidades ou povoações médias do terceiro mundo.
Depois do 25 de Abril de 74, entre convulsões, equívocos, segredos e fracturas, quase uma guerra civil nas barbas da outra, a colonial, cento e cinquenta mil homens em três frentes de combate, um sinal de verdadeiro confronto veio dar força política a quadros mais moderados, foi possível instituir a Constituinte, gerindo o país, nessa ravina do sonho, através de governos provisórios de quase sempre triste memória. E é desta dinâmica desencontrada, servida por máquinas administrativas que sempre haviam dado suporte à ditadura, numa rede de postos, guarnições mlitares, polícia política, ministérios pomposos e autoritários, que irá nascer a democracia, rangendo os dentes, sofrendo ainda os calafrios produzidos pelas forças em presença. A Escola, realidade que fora tratada, por razões sociais e não técnicas, segundo estratos de aplicação diversa consoante os planos profissionais, chegara a obter valores de aproveitamento e de qualificação acima da média no período que sucedeu à fase inicial da instauração republicana. Das extintas Escolas Técnicas e Comerciais saíram gerações de profissionais a quem o regime validara acesso às áreas próprias, quer na linha das indústrias embrionárias, quer nos equipamentos comerciais ou outros, sobretudo no sector bancário. Por volta da década de 60, muitos directores dessas Escolas eram escolhidos entre os artistas diplomados pelas Belas-Artes, tendo em conta o seu valor criativo e intelectual, a par de uma assinalável abertura aos problemas nucleares das demais disciplinas. Há todo um estudo a fazer sobre esta via de ensino, reformas, apetrechamentos e reapetrechamentos, a descoberta de campos de pesquisa com incidente aplicação social.
Ao lado de tais instituições, mas entretanto monolíticos, formais, destituídos de liberdade criadora e geridos (frequentemente) por homens de letras, reitores hirtos, capazes de quadricular toda a realidade pedagógica e de convívio sob sua regência, havia então os famosos liceus - máquinas densas e inúteis, preparando os alunos para acederem aos caminhos da Universidade e, mais tarde, constituirem eventualmente a maior parte das nossas elites.
Quando estalou a revolução dos capitães acabara praticamente de se desenhar no papel uma reforma geral do Sistema Educativo, da responsabilidade do Prof. Veiga Simão, pela qual se criavam mais universidades, se concentrava a formação secundária num só eixo unificador (o dos liceus) e se começava a esbater, por completo desonhecimento da sua identidade e prioridade cultural, as disciplinas de índole artística, tanto no ramo unificado que fingia igualizar toda a gente, como a nível superior, onde foi necessário gastar cerca de vinte anos para integrar as Escolas Superiores de Belas-Artes, na condição de Faculdades, em Universidades de Lisboa e Porto. Tudo isso estava largamente adiantado em Espanha, com as suas Faculdades de Belas-Artes e o entendimento delas num quadro plural de prestações em ordem às próprias Universidades ou à comunidade.
Portugal cava as suas feridas: e se outrora podia resignar-se a umas centenas de alunos habilitados que entravam para o Ensino Superior Universitário, ao desatar os diques, sem a rolha das diferenças sociais, justamente quando o ensino se tornava gratuito por ordem da Constitição, viu-se a braços com dezenas de milhares de candidatos, além da vaga de cerca de quatrocentos mil inscritos nos planos dos ensninos básico e secundário. Todos os equilíbrios se estilhaçaram, apesar de muitos méritos que foram deslizando na corrente agitada durante anos e contra a pouca vontade política dos governos já constitucionais.
Em síntese: os problemas logísticos aumentavam de dia para dia; o pessoal auxiliar, desclassificado, perdia-se em exigências de deslocação e de função; os equipamentos de natureza didáctica, escassos, mal se completavam com meia dúzia de projectores de diapositivos por aqui e por ali; as instalações novas envelheciam à nascença, sem ginásios, sem anfiteatros, sem laboratórios; e os professores, recrutados como numa urgência de guerra, com ou sem habilitações, eram lançados por todo o espaço nacional, ano a ano, sem casa, sem referências, ganhando e perdendo os afectos da profissão, impedidos de dilatar (em comunidade) a sua formação e os cuidados sobre a realidade pedagógica da qual se apagava, de forma displicente, toda a poética. Ora um professor é uma chave essencial para a manutenção dos princípios da vontade criadora, da prospecção e investigação, da disciplina e sentido cívico, pessoas de memória para a memória, para serem recordadas e não perdidas após uns meses de conhecimento e partilha de experiências. Há contudo quem os considere caixeiros viajantes, revividos a partir da obra de Arthur Miller, ou os personagens à espera de nada, como no Godot, de Beckett.
Em suma:
É urgente encarar a formação dos professores, mas não como os que desabrocham naquelas escolinhas que os salpicam de condimentos q.b. e os mandam, sem mais, para a condição de docentes efectivos aqui e além. Os verdadeiros agentes do ensino precisam de que lhes facilitem os meios de trabalho através, por exemplo, da Universidade Aberta ou da Internet, incluindo bibliografia adequada às respectivas problemáticas. Não lhes peçam mais precariedade, mais nomadismo, mais exames, mais avaliações pretensamente de vanguarda. A melhor forma que já se esboçou no nosso país a este respeito, e que precisava de configurações actualizadoras quando a deitaram para o lixo, correspondeu à profissionalização em exercício. Num certo número de escolas espalhadas pelo país e bem apetrechadas quanto aos meios tecnológicos e outros, incluindo especialistas em comissão de serviço para assessorar outros docentes «rotativos», o professor começava por reaprender o que aprendera e sobretudo aprendia fazendo aprender. Além da sua própria iniciativa, documentada no fim de dois anos, algumas linhas normativas e identificadoras seriam avançadas consoante as regiões e trabalhadas com orientações e avaliações informais por orientadores e tutores, os quais circulariam por determinadas instituições e teriam a seu cargo a observação e o aconselhamento de certo número de alunos em profissionalização. Este trabalho, sem pompa nem apertos de classsificação, haveria, em todo o caso, de obter certificados finais discutidos pelo docente, pelos orientadores e tutores. Toda a mecânica destas tarefas seria naturalmente controlada por lei e calendarizada por forma a que os orientadores e tutores pudessem trabalhar a sós ou em conjunto com o candidato à profissionalização. Da área das ciências humanas, onde poderia haver simpósios duas vezes por ano, seriam recrutados coordenadores de actividade geral na respectiva zona, prontos a respirar segundo os objectivos da educação e as mudanças estratégicas da ciscunstancialiade nacional, entre outros aspectos a ponderar.
Os professores teriam o direito de escolher uma fixação, um vínculo de tempo indeterminado na Escola, aí ensinariam sem o sobressalto do nomadismo, a par daqueles que seguiriam itinerários trienais até uma certa idade. Aos que desajassem fixar-se no interior, as autarquias providenciariam planos de alojamento e o Estado completaria tais miragens com subsídio de isolamento, habitação e formação.
Quando isto acontecer (a par de normas estruturais de natureza corrente e realidades que têm de ser ponderadas), a qualidade do ensino terá de melhorar e os factos assim gerados poderão cativar os alunos relativamente à sua segunda casa - a Escola.
Do Ensino Superior Universitário é preciso falar com mais tempo e outra disponibilidade dos meus leitores. Mas os acessos terão de mudar por completo, determinados por cada Escola com auxílios a convocar, e a carreira docente, como decorre agora, deverá ser implodida muito a sério, pois as cerimónias de mestrados, pós-graduações, cursos para doutoramento, doutoramento, agregações, tudo isso só deixa na vida dos professores e alunos uma forma babélica de esforço obstruído, sem verdadeiro entrosamento, sem investigação, sem tempo de sobejo de tanto ritual para a verdadeira dedicação ao trabalho com os alunos. E a verdade é que estes podiam fazer parte de períodos de aprofundamento temático, com o professor doutorando, partilhando de uma verdadeira dedicação aos valores do saber. Há outros modos de percorrer a carreira, daquele ponto à abertrura das instituições. O resto, o que tem persistido, vem dos poderes arcaicos, pelo menos entre o feudalismo e Napoleão.
terça-feira, junho 27, 2006
no jardim, uma pequena pausa com Alberto Caeiro
segunda-feira, junho 26, 2006
AS BARATAS IMORTAIS

O velho queria saber se eu tinha sido sujeito a regimes de tortura. Queria saber, em particular, se contraira problemas de percepção, nomedamente a visual. «Que problemas, senhor doutor?» Ele estava sem paciência: «Ó homem, os habituais, distorção das formas, aranhas pequenas subindo lentamente pelas paredes, ruídos estranhos» Cuspi para o chão. «Aranhas nunca, nunca vi aranhas, nem a subir pelas paredes nem a correr pelo chão» O médico rabiscou no seu caderno de notas e na minha imensa ficha, um monte de cartões presos por duas argolas. O homem levantou o rosto e olhou-me com desconfiança, perguntando: «Mais nada». Encolhi os ombros:«Não, mais nada» Deixei a cabeça pender e vi os meus pobres sapatos, sujos, rotos, cambados. «Estou agora a pensar nas baratas, todo aquele pavilhão é imundo». Ele, ansioso: «Baratas? Que baratas? Onde estavam as baratas?» Coçei a cara, já chateado: «A baratas? Naturalmente que no chão» O velho de novo: «Tem a certeza?». Olhei outra vez para os sapatos, sentia os pés frios. «Eu pisava as baratas, esmagando-as com preciosismo, mas elas saíam vivas debaixo das solas. Porque é que as baratas se safam desta maneira?»
domingo, junho 25, 2006
TEMORES E VIGILÂNCIA

TEMORES E VIGILÂNCIA

No dia das folhas de pagamento fico sentado, à espera, ou dou a volta ao edifício por dentro, no labirinto dos corredores. Na casinha das chaves, utilizando uma pequena mesa de pé de galo, assento aí a folha que me corresponde e levo todo o tempo possível a fazer contas, aumentos, descontos, cobrança da segurança social, e assim. Todos me perguntam a razão de ser deste hábito ou desta exigência. E se eu encontrar um erro? Já fui roubado muitas vezes, e outras coisas e por outras razões, até um gato me levaram - e é por tais casos que alguns de nós ganham este género de manias. Ou melhor: um permanente fio de temor e vigilância. Nunca atravesso uma rua sem olhar primeiro para a direita e depois para a esquerda. É uma questão de verdade. Com as contas é também uma questão de direito.
DEMÊNCIA HONRADA

Ser demente não tem importância. O que tem importância é ser demente sem honra, é perder a honra. A menina dorme com o velho, larga tudo e vai a correr para a cave onde ele mora, atirando-se para a cama, toda nua, sempre que lhe apetece. Ele leva todo o tempo do mundo para responder àquele desejo. Ambos sabem que esse pecado não compromete a salvação, e isso também dizem os novos da nova teologia. Trata-se de um acto que sempre teve e tem apenas a ver com a nossa condição de bichos. Há quem lhe chame «pouca vergonha» e há quem diga que tudo se resume à legítima busca do prazer, o qual anda frequentemente associado à felicidade. A Rosa leva porrada do marido e nunca se queixou. A fome dela pode com todo esse peso, cada dentada nas mamas aguça-lhe a onda de gozo que entra nela, por baixo. São coisas vulgares e misteriosas. Está sempre só, a Rosa, leva porrada mas não muda de homem, esperando pela noite e sabendo qual o trabalho sujo do marido e o nome dos gajos que foram para o Tarrafal pela língua dele. Já lá estive, desgraçadamente por causa de um erro judicial, mas eles não sabem distinguir um vagabundo de um doido honrado. A «frigideira» acaba com a gente em dois tempos. Mas o importante é salvar a verdade, se for caso disso, dizendo estrategicamente a mentira. É o que fazem os pintores, os escultores e até mesmo os poetas, em verso. As pombas de pedra não voam mas os artistas inventam a forma de parecer que sim. Há cada vez mais aves negras voando neste quadrado de céu. Serão corvos? Dantes havia mais pombos, pombos simpáticos, diria mesmo indispensáveis, matreiros umas vezes, coniventes quase sempre, rodeando os nossos pés, passos curtos, partidas rápidas. Até que um dia foi a hora do Cunha, professor aposentado, que sabia muitas coisas sobre pássaros e passeava pelo Parque Eduardo VII. Morreu de um derrame cerebral, as artérias inchadas, a voz de canhão, a bondade escondida na fúria. Os alunos gastaram dois séculos para perceberem o que ele queria dizer com o destaque da palavra inquietação. Inquieto é mundo, és tu, e até os desenhos borrados que os filhos-família rabiscavam na sala do Cunha, Mestre de uma aula fatídica. Morreu, caído no banco, rodeado de pardais. 1
GLOBALIZAR OU DESENSINAR

Um dia, na longa depressão do país, os poderosos foram desalojados do seu molde, destituídos portanto, presos preventivamente, por pouco tempo, para logo deixarem o território nacional às mãos de outros poderosos, porventura bem aventurados, que proclamaram optar pela liberdade em democracia, pela descolonização das Províncias Ultramarinas e pelo desenvolvimento da Pátria. Foi assim uma espécie de festa, um primeiro de Maio irrepetível, a súbita desconstrução do Império e do Regulamento de Disciplina Militar, capitães e tenentes a mandar em tente-coronéis e coronéis, e até mesmo em genrais, proclamando-se, ao jeito de um Guevara lusitano, isto é, em proposição romântica, donos provisórios do mundo português, do alto das terras à tribunas da revolução.
sábado, junho 24, 2006
DESENSINAMENTO
O desenvolvimento dos meios de comunicação ganhou elevados suportes tecnológicos que abrem caminhos aignificativos ao nosso trabalho criativo. Mas essas poderosas ferramentas, fertilizando a realidade do trabalho prático, tendem a esbater o espaço da nossa consciência, iludindo-a através da grande massa de informação que lhe impõe
DESENSINAMENTO
PASTÉIS SECOS



comunicação em pastel






