sexta-feira, setembro 15, 2006

UM HOMEM DE REFERÊNCIA, HOMENAGEM NO LIMITE



Este homem é meu irmão. Faleceu repentinamente, enquanto trabalhava ao computado, na manhã do dia 13 de Setembro de 2006, aos setenta e seis anos, na cidade de Maputo - no país a quem dedicou uma vida, a todos e sem evasivas, com a maior das solidariedades. Moçambique deve-lhe uma obra esforçada nos caminhos de ferro e em muitos outros trabalhos de natureza técnica e cultural, a par da arquitectura, domínio no qual estava acabando pormenores de um grande hospital com elevado número de valências.
Toda a sua vida, amando a terra e as pessoas, foi assim: na família e na sociedade. O seu currículo poderia encher muitas páginas, mas o que verdadeiramente conta é, entre afectos, a obra que deixou, nas vias férreas, na arquitectura, na pedagogia, sempre a estudar as profundas questões da vida e da realidade universal, recebendo, das personalidades ao lado das quais lutou, o rápido testemunho de uma forte admiração, sob o efeito ensurdecedor desta morte súbita, sem dor, que lega aos outros, afinal despertos, a indeclinável obrigação de acompanhar o amigo, o homem que trabalhou até ao último segundo, crente no futuro e na evolução dos povos.
Este homem é meu irmão, porque a morta não o apaga em mim, memórias de outras memórias, da infância a uma vida afastada no espaço mas consolidada por longas e mútuas devoções, quer nos reencontros, quer pela partilha de sonhos e da semelhança de mitas escolhas. Presto-lhe esta homenagem, como os filhos, pela referência que ele represente e continuará a influenciar os nossos próprios limites, entre a saudade e o espírito solidário, alma da vontade de conhecer e de ser continuadamente - essa identidade cujo aceno nos é possível rever através de uma simples imagem.

quinta-feira, setembro 07, 2006

OS PAIS DO MEU PAI



Se o avô morreu não sei. Bato na porta com a pequena mão de ferro e ninguém responde. Também não sei se o levaram para qualquer outro lugar ou fim. Como sabem, cheguei ontem e decidi ficar.

terça-feira, setembro 05, 2006

A MÃO DE FERRO



Percebi tarde o desamparo
de haver esquecido em casa
esse entrave,
a chave,
segredo para cada retorno
ao esconderijo
de todas as urgências.
Chave mágica

que substitui a mão de ferro
e o seu batimento
por cada volta de quem chega
ao lugar multiplicável,
entre o sofá e a sua negação.

Eu sabia o que significa
ficar preso na rua,
sob a luz crua,
impedido sem prazo
de refazer o esconderijo
onde inventamos
o encantamento
de quando nos entregamos,
descalçando os sapatos,
ao prazer morno da lassidão
e às memórias
de todas as histórias inteiramente lá fora.

Cá fora estou,
horas a fio, enfim,
que o dia levou tempo para o entardecer
a fim da noite tecer
e as luzes dos outros tardiamente,
pobre gente em todo o caso chegando a casa,
contempoprânea da última viagem
do último eléctrico rangente, atroador e plangente.

Comecei então a atravessar a cidade com o fim de alcançar a casa de meu avô.

Uma noite de sono em caridade.

A mão de ferro da porta dele é velha, pintada de prata e ainda grata no seu bater já espalmado, de lata.

E agora a mão de carne empurra o ferro da mão prateada, quase sem tinta e amolgada,

barulho inquietante, parece enorne no silêncio restante.

Se o avô morreu não sei, nem sei se o levaram para qualquer outro lugar ou fim.

Sei, isso sim, que me tornei de súbito vagabundo, neste compacto cimento do mundo.

Sem-abrigo, impensavelmente antigo, enrolado sob a mão de ferro pendurada:

Espécie de vida amargurada

e os meus olhos a sangrar mais tarde já no emergir da madrugada.

quinta-feira, agosto 31, 2006

ESBOÇO DE UMA AGONIA


O calor em volta, passos breves na areia, a lua vai nascer. Há um planeta além que serve de bússola aos pescadores. Daqui a pouco, o mar à direita, começam a aparecer vultos na sombra, trabalhadores da candeia, e com eles vem a ilusão de que se acentua o batimento repetitivo das ondas baixas na orla do mundo. Hoje, com a temperatura morna da noite, vou dormir além, junto das rochas, atrás de uma pequena duna salpicada de juncos.
Aqui estou, acabando de comer uma sardinha seca e um bocado de pão duro. Olho de longe a brutal grandeza dos edifícios, ainda a jorrar luz ao longo da curvatura da baía, outrora uma larga praia de areia branca. Quando o terreno se torna vermelho, em formas tubulares que se desmoronam constantemente, o negro toma conta do espaço, encosta deslizante, aqui e além lances de pinheiros bravos.
Ao voltar a estas paragens do chamado mundo global, vagabundo sem abrigo como sempre, espreitando primeiro a cidade atravessada por multidões e mercados que transbordavam para a rua, a lembrar um velho filme de culto, Blade Runner, decidi conceder-me esta deriva de despedida, sentir na pele o alerta, dar descanso à minha solidão de protoplasma, no limite. O medo que alimentava em torno de muitas coisas, e que me retinha em casa a espreitar o mundo pelo buraco imperfeito da televisão, não era o de há pouco, estava implantado em mim desde criança - e assim mesmo, segundo as regras, tive que realizar o meu percurso humano, entre letras e artes, restos das escolhas ainda possíveis, partilhando as coisas e os lugares com escassos amigos, deixando em escrita manual páginas e páginas de uma propriedade trágica, sobre a qual, agora, nem eu mesmo seria capaz de discutir.
A expansão capitalista das necessidades, em efeitos de sedução que o estado redutor do pensamento ideológico permitia, ultrapassava todo o conjunto das necessidades normais de consumo, agravando de forma radical o alastramento das dependências, das novas epidemias, da fome propriamente dita e da fome patética do sexo, com recursos gravosos no trajecto entre ausências.
De madrugada, ou quando amanhece, vejo, da margem em que ainda posso habitar, imensas filas de carros, lado a lado e a perder-se na lomba longínqua do horizonte. No café de plástico que posso frequentar, a televisão vai mostrando as guerras em curso, no Mediterrâneo, na América do sul, Índia, Ásia, Ilhas da Indonésia - e assim por diante. Cinquenta mil mortos em castástrofes naturais, chuvas diluvianas, terramotos. Oitenta mil mortos nas guerras que decorrem, sobretudo a sul, e linhas sinuosas de colunas humanitárias um pouco por todo o mundo.
Sento-me. Como as sardinhas salgadas. Mijo contra a rocha, a cinco metros do meu habitáculo. Fito, durante muito tempo, a estrela que serve de orientação aos pescadores. Vou dormir, ou tentar dormir, mas acabo por vomitar a comida e por fim uma espécie de espuma branca, algo que me recorda a fronteira do mar, pequenas ondas borbulhantes, um murmúrio, a espera. Sento-me de novo. Penso naquela praia deserta, quando eu era criança e vinha com os meus pais de férias para uma casa alugada a gente do mar. Tenho as pernas em chaga, hoje, inchadas e dormentes - e procuro superar-me fixando a luz circular do farol, esse fogo que avisa os homens embarcados, trabalhando na pesca. Adormeço para acordar mais tarde, afinal já de madrugada, febril e nauseado. A luz do farol está apagada.

quinta-feira, agosto 24, 2006

TUDO ABSURDAMENTE TUDO

AS CICATRIZES SEM ROSTO

UM CÂNTICO PARA AS QUATRO ESTAÇÕES
Aqui estamos de novo. Agosto é uma ficção. O tempo não pode decidir em meu nome o que devo fazer ou quais as escolhas que podem caber-me em manhãs assim. Mas eu posso perceber os sinais dele, do tempo, a favor de quem fui, e contra a definição cronológica das cicatrizes, rasuras imprecisas na vagarosa presença dos muros ou das portas que se fecharam para sempre. Eu sei que estas coisas nunca tiveram um nome verdadeiro, contentam-se com alguns adjectivos. E sei por isso que elas não se olham da janela em movimento, entre as lágrimas produzidas pela brisa. São precisos os passos, a contemplação, o apelo à profundidade do olhar. Passos e paragens decididas, o corpo oferecido à exigência de cada situação, quer na obliquidade que nos permite observar a branca oscilação das paredes empobrecidas, quer nos vestígios de tintas assim. Posso dobrar a coluna para a frente, na aproximação óptica em direcçãao ao objecto, fenda, pedra, um pouco de cal, o cristalino a mover-se para fingir o que fingem as máquinas fotográficas partindo daquela relação orgânica ligada tanto à arquitectura do olho como à sensibilidade do ver.
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Um dia os passos vão acontecer fora do tempo e o olhar terá de perceber o cerco do mundo numa guerra e cheio de lixo. Não bastará a fenda exposta no muro de qualquer fábrica corticeira. Tudo será aburdamente tudo.
O sol queima a pintura antiga das paredes, abrindo pequenas crateras, casca breve e solta, desprendimentos reveladores de outros rostos já sem data, à clara luz do dia. Na esplanada, a manhã ainda fresca, os jornais dizem parcialmente, como é habitual, em página efectivas e titulares...

terça-feira, agosto 22, 2006

TEMPO ENGANADOR DE FLORES E FRUTOS



O sol aparece então queimando vagarosamente os rostos litorais e acentuando a poética das flores. Aparecem assim os jardins suspensos das árvores, o esplendoroso amadurecimento dos frutos. E há uma luz branca que começa a respirar mesmo antes do sol nascer, lembrando a natureza da pintura antiga e o seu encarniçado empenho na representação do real impossível, a morder com ternura os muros de pedra que separam as terras, minifúndios herdados de uma gente longínqua, talvez camponeses enlameados da Idade Média.
Na esplanada, a manhã ainda fresca, os jonais exploram as mitologias do local, manipulando páginas em efectivas e titulares, enquanto os conflitos do Médio Oriente são encobertos temporariamente, nas suas histórias de loucura e barbárie, orientados os objectivos de novo para o Afeganistão, reino inacreditável onde, em nome da civilização, as potências bem armadas acharam por bem escorraçar as gentes de lá, os que mandavam, os talibãs, oa que obrigavam as mulheres a se vestirem da cabeça aos pés, e as imagens eram por sua vez interditas, as estátuas, as pinturas, as fotografias, os livros profanos, o cinema ou o teatro. Os meninos, por outro lado, recolhidos em escolinhas quadradas, em volta de mesas quadradas, aí só aprendiam oralmente o Livro Sabrado, que recitavam liturgicamente horas e horas a fio. A par disso, ouviam as vozes que sangravam o Ocidente, inimigo e senhor de todo o Mal.
Desse lado, com efeito, mal ou bem, as sociedades investem cada vez mais nos grandes espectáculos, trinta mil pessoas sob o choque sonoro de tempestades ensurdecedoras, como aliás no cinema e nos largos espaços do consumo mais frenético do que nunca, apesar de haver gente conservando a memória de uma outra dimensão sagrada e do mítico Extremo Oriente.
A verdade é difícil de iluminar. Os meninos talibãs, depois de rapazes, não confundem tanta informação e consumo como no Ocidente. Se descobrem uma Mullher da Primavera, de pés descalços e rosto destapado, havendo sobre isso indícios de adultério ou coisa muito semelhante, os rapazes quadrados levantam breves autos de acusação.
A Mulher da Primavera é então sumariamente morta à pedrada.

quinta-feira, agosto 17, 2006

A FACE DO TEMPO OUTONAL






foto rocha de sousa
Setembro vive a sua passagem para as contingências da face outonal do tempo. Entre esperanças de recomeços, a fome. Entre olhares para a distância, o sonho. Soltam-se nas cidades reactivadas os jovens da decadência universal e os combates, pelas mais diversas razões, acontececen um pouco poor toda a parte. Os grandes espectáculos do consumo são máquinas de exploração trivial mas engordam comerciantes e gestores de futilidades.
Ali pelo Alentejo, a cheirar a brisas, há um palacete antigo, de latifundiarios emigrados, que se tornou sede do município e foi pintado de um amarlo intenso. Amarelo entretanto esbatido, tocado por manchas vazias, como grandes sobras inertes.
Os velhos, despojados das searas, sentam-se em bancos de pedra, olhando por vezes o cinsento da casca dos sobreiros e ouvindo, longe, bem longe, o ruídos dos carros passando na autoestrada. Os cães, também sem trabalho e gemendo a sua fome e a sua ternura, passam pelos velhos, ficam a olhar para eles, à espera de uma voz, de uma dádiva. Só bem tarde, e antes dos velhos, se arrastam para dentro das casas, sentindo a escassez dos próprios cheiros e deambulando pela tijoleira à espera do osso do jantar.
Neste como noutros casos, os ossos foram sempre duros de roer.

segunda-feira, agosto 14, 2006

O BRANCO LENTAMENTE








fotos rocha de sousa


Um dia, em Setembro, o céu tornou-se branco cinza. Uma aragem cortante atavessou o litoral e deixou as águas do mar paradoxalmente aquecidas. Depois, quando despertou em mim a idade da razão, funcionando cordenadamente com a abertura da consciência, começei a ouvir falar de uma guerra distante, que já abalara o Verão anterior, e que mostrava entretanto as primeiras estratégias a fim de se deslocar para Leste, sob o peso de invernos colossais e temperaturas dezenas de graus abaixo de zero. À noite, em Dezembro, eu ficava a olhar, perplexo, para a figura de meu pai debruçada sobre o rádio, o ouvido colado ao aparelho na expectativa de aceder às notícias emitidas em ondas curtas pela BBC. Durou muito tempo, essa guerra - Segunda Guerra Mundial, sempre se disse - e entretanto a escassez de bens básicos de consumo começou a fazer-se sentir. Eu ía comprar o pão com senhas de racionamento e via as mulheres dos operários corticeiros muito pálidas, brancas de morte, brancas de Inverno, esperando a sua vez na comprida fila de pessoas. Pensava para comigo, vendo a cortiça ser exportada de Portimão em grandes cargueiros, não sei para onde: «a guerra é tão longe, Portugal nem está metido nela, e mesmo assim há esta pobreza imensa, combates visíveis da praia, entre aviões inimigos». E um dia, passeando com um primo meu pelo deserto (nesse tempo) de Monte Clérigo, vi ele correr a fim de observar o corpo carbonizado de um piloto germânico cujo avião fora abatido quase sobre a espuma das manhãs, fogo e frio, carvão sangrento e areia branca, as dunas.
O branco das cidades do sul, inventado pelos árabes por razões têrmicas, acinzentava-se lentamente, ganhava fendas e cicatrizes, retinha a humidade das nuvens em bolsas de cal.

terça-feira, agosto 08, 2006

FUNDAÇÃO INFUNDADA

Guerra Civil Salvador Dali
*
Esta obra fabulosa de Salvador Dali poderia servir de base a uma grande instalação a construir em qualquer dos nossos espaços museológicos - com a vantagem de nos ser dado a ver nela os terríveis males do século passado, as dantescas guerras e os milhões de mortos, advertindo as gentes de hoje, ainda embrulhadas em panos manchados de sangue, para os sinais do apocalipse que parece aproximar-se, trabalhado pelo homem e pela própria nNatureza. Artistas importantes, quer no passado, quer nos dias que correm, seguiram e seguem este caminho - em parte como Picasso com a Guenica - enquanto outros, conceptualmente, o fazem de forma obscura, algo reticente, ao mesmo tempo carregada de angústia colada ao fascínio. E tudo isso me ocorre agora, duvidando dos sonhos e da arte como verdade, ao ler uma notícia sobre Cabrita Reis, artista que se tem notabilizado no nosso país e no estrangeiro, por potencialidades de génio próprias e por acenos e apoios que em Portugal se concedem aos privilegiados, mesmo correndo o risco da desconstrução moral como sucedeu há bem pouco tempo com Maria João Pires, pianista que o país venera e que ela, generalizando, tratou de forma indecorosa, já instalada no Brasil para onde partiu definitivamente, como os reis de outrora - ou os ricos, património às costas, também viajando para aquele país (tão português que nem sabe) na altura conturbada do pós 25 de Abril de 1974.
«Esvaziar-se a grande galeria central do Centro de Arte Moderna Azeredo Perdigão tornou mais pertinente as dúvidas que existiam sobre os planos para o respectivo museu e a sua colecção, além de também ter vindo sublinhar a falta de uma exposição de primeira grandeza no início das comemorações do cinquentenário da Fundação Gulbenkian. Mas o talento e o brio de Pedro Cabrita Reis serão certamente suficientes para ocupar o espaço que lhe foi entregue por Rui Vilar, com vista à criação de uma instalação de grandes dimensões que aí vai ficar exposta até Abril de 2007. Cabrita Reis está diariamente no CAM a instalar à vista do público a sua obra, a que chamou Fundação, com recurso a alguns materiais e objectos vindos dos aramazéns da Gulbenkian e usando também paredes de tijolo, estruturas de acço e lampadas néon. A inauguração será só no dia 15 de Outubro»
(revista actual, Expresso, 5 de Agosto de 2006).
*
Estas atitudes, tomadas entre nós num circuito intermitente da megalomania, aplica-se por inteiro ao actual caso (novo caso) de Cabrita Reis, e é, com efeito, de uma desproporcionalidade gritante, coisa gigantesca onde «flutuam» os materiais do costume: tijolo, madeira, aço, e o muito reaparecido néon. Sou admirador do percurso do autor, tendo seguido a sua produção e reflectido sobre ela, mas para comemorar os cinquenta anos da Fundação Gulbenkian não era preciso, nem talvez conveniente, voltar a isolar o trabalho de Cabrita Reis, como se fez em Veneza, como se faz quando calha, num dos mais fortes cultos de personalidade que as artes também perfilharam outrora, aliás bem assumido e bem gerido pelo autor no que lhe compete, em termos artísticos e pouco mais. A problemática ultimamente abordada por Cabrita Reis inscreve-se em modelos estéticos da actualidade e a prestação dele, em volta de tal campo, é culturalmente muito inteligente e bem coordenada, saborosa na encenação que faz das suas próprias coisas e de si mesmo: ali estava ele, na fotografia da revista, de pé, sem capacete de protecção, fato escuro, um charuto entre os dedos, instalando a obra ao vivo, necessariamente com apoio de operários qualificados. Dos materiais já se falou, juntam-se por uma lógica que nem sequer é recente, e aos quais Cabrita Reis adiciona por vezes coisas capazes de importarem para o domínio do absurdo, restos ou memórias da pessoa humana no seu detalhe anímico.
Sem excluir Pedro Cabrita Reis, se ele aceitasse estar com os outros, penso que esta comemoração deveria aspirar ao que foi a abertura da Gulbekian, as centenas e centenas de artistas que ajudou, as interactividades que gerou: então justificava-se esvaziar o museu e reconstruí-lo de forma plural, na diversidade de meios e explorações, portanto pedagogicamente, científica e poeticamente, onde muita gente se poderia reconhecer. Descontando a desavisada, mas eficaz e grandiosa, construção de dez estádios de futebol, o sentido nacional da obra, que era obviamente de todos para todos, como se viu, agarrou a população numa verdade interior, numa dimensão que Portugal, macerado do século XX, parece sentir necessidade de reencontrar, mesmo imolando-se por vezes no consumismo supérfluo e nas viagens pseudo-turísticas. Serão poucos, apesar de muitos, os visitantes que irão circular durante um ano em volta da soberana instalação de Pedro Cabrita Reis.
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sábado, agosto 05, 2006

A CASA REVISITADA





Cheguei ontem e decidi ficar. Ficar assim, olhando os restos de quem fui, ou de quem foi por mim, entre palavras. Tenho a casa toda para esta disponibilidade porventura irreversível, com o rascunho da morte empilhado ali, num monte de papéis velhos, tinteiros, carimbos, canetas de aparo, postais já sem destinatário.

Alguém morreu no quarto ao lado, ficaram os objectos. Coisas, retratos, roupa escura, ou essas marcas enigmáticas nos calendários de cores desbotadas. Alguém morreu desse modo, um pequeno caos em volta, passos, eu chegando e partindo como se o futuro se atrasasse por cada viagem de novo. Mas o futuro chegou mais cedo, quando a casa se enchia do perfume da roseira, depois de inscrever quase súbitas rasuras no rosto de quem o esperara de outro modo. Chegou a esse rosto, à clara luz do sol, deixando-lhe estranhas assimetrias na boca, a voz soletrada, um fio finíssimo de saliva ao canto dos lábios. Assim, breve, contra a paisagem de cal.

Abertura do romance e Rocha de Sousa, A CASA REVISITADA, distribuído prla Dislivro e impresso na gráfica J&L. A obra divide-se em duas partes: 1 nostalgia dos anos intencionais. 2 reencontro no murmúrio das raizes.

quarta-feira, agosto 02, 2006

O HOMEM DA ILHA



A Madeira é uma ilha portuguesa, com estatuto de autonomia, cujo aspecto, tocado pela vegetação e pelas flores, e hoje também pelo cimento, lhe confere de há muito, na gíria popular, o nome amável de «Jardim». Uma configuração destas, vogando majestaticamente em pleno oceano Atlântico, atrairia na época moderna cada vez mais turistas e a respectiva indústria, transatlântico iluminado à noite, pérola das mais raras e mais sedutoras. Este jardim flutuante tem o seu governo, o seu capitão ou governador, como é próprio de articulações geopolíticas assim. Mas o que surpreende àqueles que apreciam metáforas, trocadilhos ou coisas parecidas, estrangeiros do norte, por exemplo, gente do sul, mediterrânica, é a coincidência da ilha, dita jardim por analogia com esse género de ornato ambiental, ser governada por um homenzinho pitoresco que se chama Jardim, ocasionalidade assaz discordante quanto à configuração dos dois protagonistas. Isso não singnifica que o Governador, homem da ilha, não seja flor que se cheire. Ele apenas se bordaliza através das suas travessuras e pelo rosto de pequenos olhos cuja semelhança com pérolas é coisa longínqua, ostentando uma cabeça redonda e polpas faciais. Portugal, dizem os optimistas, é um país de brandos costumes e as gentes das ilhas, arquipélagos da Madeira e dos Açores, são particularmente doces, afáveis, com um sotaque na fala que mais acentua a ideia de simplicidade e o sentido insular da espera.
João Jardim, o Homem da Ilha, Governador incontornável da Madeira, não tem a grandeza mítica de Fidel de Castro, mas garante que revolucionou o território - e há trinta anos que o engorda com hotéis e grandes apertos de cimento, correndo riscos próximos de matar a galinha dos ovos de ouro, como terá de acontecer no Algarve, mesmo sem autonomia. O desenvolvimento, que não se confunde com crescimento, pode tornar-se explosivo quando se mistura com este ingrediente para além do limite que a Natureza e a natureza humana são capazes de tolerar e (por fim) de sustentar. Até porque a miséria não se irradica à sombra de hotéis de dez estrelas. esse problema tem de passar pelo verdadeiro desenvolvimento social, da coordenação do trabalho e das vocações etárias, de uma economia que não corrompa o ambiente e a justa distribuição da riqueza.
O Homem da Ilha tem os seus talentos, ninguém os nega, mas, talvez por se conservar no poder há trinta anos, perde dia a dia o sentido de Estado e a noção de respeito que deve aos outros, na linguagem e nas contradições. Estou a ser brando, para fazer jus à tradição do país, mas a verdade é que só uma nação pequena em quase tudo consegue arranjar pachorra e silêncios benignos perante as provocações que o senhor Jardim lhe atira, algo que, da última vez, incluía um achincalhamento inacreditável e, como sermpre, um conjunto injustificado de alcunhas O Governador Jardim grita que a Constituição do país, e o próprio Sistema Político, têm de mudar, porventura à sua imagem e semelhança, mas esquece-se do seu frequente comportamento inconstuticuional, na extensão sancional imaginável. A verdade é que aquele Documento, benigno e comprido, não garante, a muitos títulos, medidas fortes contra certas prevaricações - a própria destituição dos líderes partidários malcriados, deputados inconvenientes perante os seus colegas e a comunidade. O Homem da Ilha, ao assumir tais comportamentos de falas soezes, lembra o perfil de certos ditadores sul-americanos, de agora e de outro tempo. Neste caso atirando ditos corrosivos, atrapalhando as liberdades e o sentido da comunicação social, político em desproporção ao cumprir três mil inaugurações numa semana, gente perplexa em volta ao imaginar o que terá acontecido naquele território, a este ritmo, durante trinta anos. Jardim não se detém, muito menos na fala, e por ele os seus colegas, na rua e no parlamento, em Lisboa, são cubanos, canalhas, trafulhas e caloteiros, palhaços incompetentes na Assembleia da República, todo um vocabulário do destempero, do manobrismo, pois a própria dívida económica da Madeira ao país é metida na algibeira do paletó, enquanto se faz apregoar a falta de financiamento à região, apesar do muito milho gasto por lá em termos megalómanos.
Meus senhores - e o dr. Jardim que me desculpe - a verdade encoberta, ou esventrada, é de certeza um dos pecados maiores. Do Jardim insular até ao Inferno são apenas meia dúzia de quilómetros. A Madeira é Portugal e Portugal está certamente sulcado pelos milhares de inaugurações efectuadas, entre impropérios, ao longo de três décadas. Há gente assim, habituada a fazer guisado dos princípios e da ordem democrática. Tais cidadãos não têm vocação para o trabalho imenso que, pela acção governativa, se reflecte na educação das populações a par da edificação harmoniosa do território. Não sou jornalista mas sei que não é preciso escrever despachos ordenando os orgãos da comunicação a se apresentarem decentes nos lugares como a Assembleia Regional e outros lugares litúrgicos. Tenho orgulho no meu sentido de cidadania, deste direito de me expressar na Madeira, como agora, e aqui reitero que considero irreflectidas muitas das afirmações atrás referidas, bem menos adequadas ao bem parecer do que os fatos de trabalho dos homens dos jornais e televisões. É perfeitamente inconcebível que um governante ofenda os seus pares, em Lisboa, no Funchal ou na Europa, sem que o mais leve sinal lhe seja comunicado. Fala-se de cobardia ou de indiferença. Mas uma coisa não anda longe da outra e a educação dos portugueses passa pelo exemplo de quem gere o seu futuro.

quinta-feira, julho 27, 2006

OS DESASTRES PRINCIPAIS

foto de Nasser Nassier
Há dias, na revista Visão, Lisa Beyer escrevia sobre a situação no Médio Oriente: «O Hezbollah, um grupo radical xiita que opera livremente a sul do Líbano, matou oito soldados israelitas no seu ataque inicial de 12 de Julho e, desde então, lançou centenas de foguetes contra Israel, abatendo quatro civis». Desde a «invenção» territorial de Israel, arrancado eufemisticamente a zonas pobres, pouco povoadas, onde outrora tribos ainda nomadizadas se digladiavam por uma pausa em sobrevivência, que os conflitos de rejeição e similares têm marcado o tempo segundo a cadência dos desastres principais, os que tocam de forma indelével a história da humanidade. Digamos que os casos mais graves, envolvendo vários países daquela zona, se situaram em 1948, 1956, 1967 e 1973. Hezbollah, constituído em 1982, não descurou a sua principal finalidade -- a negação e apagamento total do Estado de Israel. Este objectivo tem norteado os vários movimentos que combatem na Palestina, quer se evoquem os mais antigos, sob a batuta de Arafat, quer se refira o Hamas, um dos que mais radicalizaram a sua posição, tendo sido, por estranho que pareça, muito recentemente e de forma maoritária, eleito para enquadrar e dirigir a nova Autoridade Palestiniana. O primeiro ministro desta realidade política, primeira entre todas, nos termos em que se definiu, desde a formação do Estado de Israel, é agora líder do Hamas em Gaza, Ismail Haniya, rodeado de escolhos por todos os lados. Mahmoud Abbas, Presidente da Autoridade Palestiana, procurou, na base inicial das perspectivas entretanto delineadas, estabelecer com Haniya um espaço político onde Israel seria implicitamente reconhecido no quadro das suas fronteiras fundadoras. Israel, contudo, ainda está longe de qualquer aproximação desse género, mesmo se algmas vezes se esboçaram plataformas de entendimento. No momento, com as retaliações dos israelitas em consequência do rapto de um dos seus soldados, a partir de uma operação espectacular desempenhada pelo Hezbollah, os cenários de uma guerra de grandes contornos surge como hipótese temida nos céus da região, contrariando, segundo os turistas em fuga, a missão de Cristo por tais paragens, em nome da salvação dos homens, deixando a marca dos seus passos e das suas palavas, de acordo com a memória bíblica, suspensa do futuro. Um futuro que, bem vistas as coisas, nunca aconteceu consoante o projecto.
Haverá algum dia nesta terra, não uma trégua ou um tempo de paz entre parênteses, mas a verdadeira pacificação de espaços tão erradamente assumidos pelos homens, pelas nações, pelas mitologias religiosas? É terrível, seja qual for a nossa visão do problema, ler o que escreveu, a certa altura do seu texto, Lisa Beyer: «para além dos incentivos que possam obter, o Hamas e o Hezbollah nunca precisariam de uma justificação específica para atacar Israel». Atacar Israel é a sua própria razão de ser. Os Estados Unidos, com ou sem Bush, não podem na sua aliança, e sob pena da destruição universal, amordaçar todo o Médio Oriente, nem o Irão ou o Paquistão podem imolar-se pelas tentações hegemónicas que suscitam um projecto idêntico, com meios de destruição quase total. Mas a verdade é que o pensamento concentrado destes homens distende-se da urgência, porque a história não é feita assim. Para além de um resultado particular, a perspectiva em que funcionam é de longo prazo, sedimentada nos islamitas: «com o tempo, décadas ou séculos, se necessário, Israel acabará por ruir». Seja como for, talvez baste comparar a rapidez e a eficácia dos israelitas em 1967 com o tempo pesado dos últimos anos do século XX, ou mesmo agora diante de um Hezbollah bem treinado e bem armado, para nos interrogarmos, em perplexidade, qual será o fim e a configuração geoestratégica desse anunciado desastre principal. Ou estaremos, também sem data, colocados perante a hipótese de um novo holocausto, com parte dos mesmos protagonistas e outras vítimas, outros milhões de mortos, outras imensas sequelas sem tratamento 8sequer) a médio prazo?

sexta-feira, julho 21, 2006

A CULPA DE DEUS


para um ensaio sobre o livre arbítrio
Após a pausa que sublinha as primeiras deglutições, eu próprio saboreando o deslisamento do café pelo esófago, agradeço a intervenção de Jerónimo, sublinhando que em parte ela servira de introdução à nossa possível conversa sobre os meus textos, o método empírico mas baseado numa lógica de acasos e estatísticas decisivas, a ideia de uma procura multidisciplinar nas fontes e na informação retida, uma pesquisa ética e estética também, tudo isso em torno da possibiulidade de haver sinais plausíveis, embora relativos, sobre o homem enquanto projecto e prática de Deus, ou seja, a natureza da condição humana, a sua origem, o anátema do livre arbítrio como arbitrariedade antecipada do Criador ou consequência de uma Criação afinal limitada, quase cega, destituída da bondade inifinita a montante do caminho universal e responsabilizadora das escolhas humanas a jusante dessa complicada via, o risco da vida, a fronteira da nossa consciência perante a falta de qualquer dimensão cósmica mensujrável, Coisa indeterminada, efectivamente sem nome, mesmo que lhe aceitemos a transcendência e a absurdidade ao falarmos do que suspeitamos pertencer-lhe. Não é do meu interesse, com este trabalho e os cruzamentos de indormação que ele implicou, entre memórias, tragédias ou perdas irreparáveis, atingir a orla falsamente inteligível do mundo, um sinal furtivo da eventual construção de tudo em volta. O meu trajecto tanto pode ser científico como subjectivo e poético, mas não é fixável, no seu termo, em tabelas conhecidas, em iniciações de base, tecnicamente provadas. O devaneio onde circulam lembranças da guerra, dos afectos, da doença e da miséria, acontece marcado a fogo pela angústia de ser, do ser, observando os ditos e convenções de um pensamento ainda epidérmico, inevitavelmente parecido com o dos meus semelhantes. Pode lembrar uma viagem, esse devaneio, a gestação caótica e mesmo infundada na longa espera dentro da Arca de Noé, o Dilúvio cercando a nossa indescritível fragilidade, enquanto muitos dos recolhidos, mais novos, se instruíam (ou se instrumentalizavam) escrevendo bíblias, invenções para o Antigo Testamento e símbolos ajustáveis aos actos ensurdecedores de um Deus impaciente, contraditório, ainda exigindo sacrifícios e proibições sem sentido. Quando choviam rãs do céu, ou outras coisas assim, os sinais da vontade de Deus, em nada explicados, obrigavam os médiuns sacerdotes a imaginar uma legitimidade para cada horror. O desconhecido, mil vezes mais oneroso e complexo do que a nossa actual ignorância, podia por isso mesmo ser abordado a partir do medo e de abusivas interpretações, sempre as menos dispendiosas - desde o efeito dos astros sobre a terra até às práticas de uma cultura mágica, entre nomadismos e guerras tribais, tendo em vista, mais trade, a conquista do território na lógica de uma produção sedentarizada, pela definição de uma ancoragem assente em grandes defesas e no sacrifício da inocência.
OOO
Extracto do livro «A CULPA DE DEUS», de Rocha de Sousa, que se encontra em vias de ser lançado pela Editora Tartaruga, do Porto.

sexta-feira, julho 14, 2006

A MEMÓRIA DOS LIVROS


Lembram-se daquele famoso livro de Bradbury sobre a morte dos livros, levado ao cinema por Truffaut, a história de uma sociedade futura onde os bombeiros não se destinavam propriamente a apagar fogos mas antes, e ao contrário, a procurar o maior número possível de publicaçõess, queimando-as em praça pública com lança chamas. Pragmático, Truffaut narrava esta monstruosidade quotidiana de forma rigorosa e sucinta, como a coisa mais natural deste mundo. Pensamos em «1984», de Orwell, o mundo globalizado na mais vigiada das ditaduras, na qual a «máquina» da repressão era conhecida por Big Brother. Em Bradbury, ou no filme de Truffaut, a realidade repressiva, a castração cultural pela queima inquisitorial dos livros, todos os livros, tocava sobretudo os cidadãos que sabiam os perigos que corriam se lessem um livro, ou se os tivessem em casa. E todos os que os que não se conformassem com tal amarração silenciosa, como sempre acontece, ou se resignavam ou resistiam. E a palavra de ordem (secreta) era resistir. Resistir consistia primeiro em fazer um esforço para esconder muitas obras em casa, frequentemente descobertas pelos bombeiros-polícias e queimadas. Para além disso, muitos cidadãos procuravam um exílio nas montanhas, nas florestas, e aí os intérpretes dessa atitude passeavan de um lado para o outro, decorando os livros, ou dizendo-os em voz alta, ou ensinando-os aos mais novos. Formava-se assim uma biblioteca universal oralizada de geração para geração. A civilização humana, e com toda ela a sua identidade cultural, acabaria por sobreviver contra as mais sofisticadas tecnologias de apagar o seu verdadeiro rosto, apagando-o do conhecimento das pessoas.
Ao lembrar-me deste filme quero afirmar que penso numa situação semelhante relativamente a nós, com ou sem globalização. As editoras florescem por aqui e por ali, em Portugal, e editam toneladas de livros por semena. O que parece positivo. O que parece progressista. Mas quem tem acesso a essas editoras, que prospecção autoral fazem elas nos meios da escrita e do pensamento, sem ligar ao sopro dos poderosos nos ouvidos? Quais são, enfim, os critérios das suas escolhas? Ao falar com um amigo meu desse sector, e perante as minhas próprias queixas quanto aos verdadeiros casos descobertos, que são repelidos pelas editoras, ele disse-me que os livros continuam a ser queimados. O que chega às bancas são ilustres conhecidos, para quem há bastante tráfico de influências, e depois um monte de traduções, de livros da moda, de um outro novo escritor que conseguiu, sabe-se lá como, furar as malhas das fronteiras do Big Brother. «Talvez não seja tanto assim. Tu é do meio e estás pessinista». E ele, sorrindo de soslaio para continuar a marcha, perguntou-me:«Tens livros para publicar?». Respondi que sim, que tinha pelo menos uns seis originais. Com um aceno, este meu amigo lançou-me um repto: «Então tenta, vai lá falar com os chefes livreiros».
Pausa.
Enchi-me de coragem e comecei a percorrer as editoras, algumas dirigidas por pessoas que conheciam a minha obra pictórica, alguns livros didácticos, e muito trabalho de ensaio jornalístico. Esperei um ano pela primeira resposta: que eu escrevia muiro bem, mas o livro não estava ao alcance do público, sendo demasiado ambicioso; outra instituição, dirigida por um amigo meu, devolveu-me o original no dia a seguir ao da entrega, porque não estava dentro do novo plano editorial agora em vigor na Casa, abocanhada em parte pelos espanhóis; um outro director editorial garantiu-me a excelência da obra, embora soubesse de antemão que não venderia maia de cem exmplares do livro.
O país está queimado, florestal e cultruralmente. Os novos livros, de novos autores, têm que ser entendidos como uma prioridade, sem tráfico de influências, porque grande parte deles é muito importante, representam uma porta aberta para um futuro onde os homens dizem livros na floresta. O embuste cresce, sobretudo quando se faz passar gato por livro, da Vinci em dourados ou relevos, luxos caros e nem sequer asiáticos. Qualquer editora que se prese, e que não queira sucumbir ao mercado global, selvagem, redutor, terá de desenvolver actividade prospectiva, por todos os níveis etários com obras inéditas, e terá de reservar anualmente um tecto, uma cota, em ordem à publicação de livros desconhecidos, de autores desconhecidos, jovens ou velhos, que escrevem por vezes obras primas em breve queimadas nas gavetas.
Se percorrermos os circuitos de um livro, desde a sua génese, à sua difícil fecundação no útero dos livreiros, até aos «distribuidores» e revendedores, compreenderemos que as metodoligias do achamento de obras e de tratamento delas está velho e rodeado por pessoas que julgam saber tudo, até de um marketing que continua a gaguejar. Tudo é velho, rotineiro, sem associativismo, carredado de intermediários que ganham mais por unidade do que o criador da obra. Nas livrarias, emergem meia dúzia de últimas peças de um autor, por exemplo, e soçobram bem depressa para a prateleira, pois a nova tonelada de temas paeudo-religiosos e com letras douradas está a chegar.
Os ouvidores da República, de má fama, servem agora para outras coisas bem menores. O Santo Grall é com eles: o que se vende e o que não se vende

terça-feira, julho 11, 2006

UMA GUERRA ESQUECIDA

pintura a de Rocha de Sousa: «Acto Irreal» sobre a guerra colonial, salvamento de uma criança, indeterminação dinâmica da corrida, um ser arrancado aos tiros
Ao ver na televisão, quase todos os dias, mas em fragmentos repetitivos e sem geografia, as guerras que incendeiam o mundo na actualidade, lembro-me de uma outra guerra, praticamente já esquecida, para a qual fui mobilizado de súbito, compelido pelas leis que nesse tempo determinavam a obediência obrigatória, e mesmo cega, às determinações do serviço militar. Depois de ter regressado dessa comissão num mundo de assombro, que nos rasgava e pele com os espinhos da selva e deslumbrava perante os crepúsculos cósmicos, as chuvas imensas, o murmúrio dos insectos ou pássaros deslizantes.
Nas palavras de Salazar, essa guerra - «todos para Angola e em força» - consistia no direito supremo de defender e salvar a nossa Pátria, multiracial e pluricontinental. Projecto ao contrário do que dizia o «terceiro mundo» sentado nas poltronas da ONU. Projecto que já tinha exemplos mansos, mas enganadores, e alcançava a sua errática grandeza nos ano 60 com a «capitulação» de deGaulle na frente já muio larga e duradoura que fervilhara na Argélia. Franz Fanon, defensor dos movimentos de libertação nacional e estudioso dos fenómenos étnicos ou político-militares, conhecia perfeitamente como tudo se gerara depois da II Guerra Mundial, as raizes, os apoios, os níveis e as diferenças tribais entre fronteiras de conveniência. Mas o próprio Fanon murmurava, de forma cauelosa e pertinente, os efeitos da repentina transição de povos situados no limiar da história para o centro civuilizacional do século XX.
Não vou abordar esta matéria, dada sua complexidade e os estudos comparados que é preciso desenvolver. Tudo isto veio apenas a propósito de um quadro que evoca a guerra de Angola, entre outros que produzi, e da estranheza que sempre me acompanha quanto à surdez que, entre nós, desabou sobre esses acontecimentos. Não houve um rasgo nacional, uma campanha literária e artística, debates de estudo sobre a natureza dos respectivos fenómenos e sua projecção no futuro. Alguém costuma dizer que o país tinha vergonha, que os mortos espalhavam o seu peso pelas serranias e pelas aldeias, retornados, tardiamente, em caixões de metal. Só os batalhões passaram a fazer encontros anuais, em almoços de confreternização e uma missa pelos companheiros perdidos. Ainda acontece, já de mistura com famílias e filhos. Acontece mas não tem mediatização, não é analisado como fenómeno humano e de afectos leais, de retratos baços, de rostos jovens que se tornaram pesados, sorrindo novas comoções pelas comoções de outrora.
Há livros escritos, breves centenas sem verdadeiro esforço editorial. Versos em edições de autor. Contos em volta daqueles anos estranhos, diluídos entre a ternura e o medo. Mas isso não tem a dimensão dos encontros institucionais que as universidades poderiam ter desenvolvido, com a ajuda de tanta documentação e testemunhos vivos de que dispomos. Não se trata de defender ou negar a legitimidade da guerra, como ela se fez, bem e mal, e se prolongou por catorze anos apodrecendo. Não é disso que se trata. Aprendemos todos o que havia para aprender, após disfarçadas castrações da ditadura. Mas depois da libertação de 74, depois do abrandamento das feridas principais, os nossos homens pensantes deveriam ter-se interrogado fora dos exílios sombrios, deveriam ter colocado os acentos nas palavras, dizê-las, lembrá-las, tornando legível o nosso «Apocalipse Now» enfim apontado pelos meios de comunicação e pelas artes, incluindo os poucos filmes que tocaram o problema ao de leve, iluminando o país ainda mordido de dor, um país a sentir-se absurdamente culpado.
Quando estoirou a guerra civil em Angola, uma guerra muito mais grave e doentia da que os portugueses fizeram sem arrasar cidades nem parar o desenvolvimento, pensei de novo em Fanon. Escrevi «Angola 61, uma crónica de guerra» e disse tudo o que vi, o que senti, o que perdi. Disse então, ao escrever a última parte, que imagem tinha de Luanda, na distância marítima:
« Uma última torre persiste no horizonte, é como alguém que se distinguisse na multidão, como em Alcântara, e nos acenasse um derradeiro adeus. Depois, na atmosfera lilás, tudo desaparece. Angola deixou de existir».

segunda-feira, julho 10, 2006

O MEIO E O MODO


fig1 fig 2

A propósito dos problemas postos pelas novas tecnologias, a constituição de um meio que atravessa a realidade virtual e pode estabelecer-se nesse mesmo meio, como coisa ou modo, isso não faz desaparecer, nem imutilizar, outros meios, os tradicionais, ou a mistura desse com os outros. A caixa do campo digital que o computador coloca à nosa disposição para vários tipos de registos é um meio elementar de trabalho com o qual, em todo o caso, podemos desenhar e pintar simulando quase por inteiro a manualidade (ver fig 2). Por esta relação, imitando ou libertando a imagem inicial (ver fig. 1) que se trata de um quadro a óleo, podemos observar até que ponto a mudança de meio muda o modo, isto é, a forma, ou se deixa aproximar dela. Esta questão é muito importante no domínio das disciplinas de índole artística, pois a permanência dos antigos e tradicionais meios de operar, dos quais sairam pinturas naturalistas ou violentas no caso expressionista, é uma questão consistente. Não se trata de tornar inúteis os meios entretanto conhecidos, nem a Hitória morreu, como pretenderam alguns, e muito menos a Arte. Vão surgindo novos meios ou processos de manejar os materiais, o que alarga o espectro visual e cultural do nosso espaço. Muitas dessa proposições são arte pública, povoa a realidade urbana, tornando-a mais significativa e habitável.
No exemplo destas duas figuras semelhantes, dois meios diferentes permitiram, por modos similares, obter figuras igualmente idênticas. Não se trata de dizer que isto tem de acontecer ou deve acontecer. A pintura feita a computador mostra diferenças formais advindas das técnica e intrínseca ao meio, mas a outra também não coincide com a realidade conhecida - um homem e um porco, em atitudes terminais, vindos não se sabe donde nem porquê, caíram ali, é uma espécie de metáfora que o pintor inventou. Toda a arte, de resto, passa quase sempre pelo imaginário, mesmo quando imita algum objecto que nos é próximo ou muito familiar. As semelhanças existem, inclusive quando não as sentimos logo. Mas as diferenças de meio para meio, de modo para modo, são incontroláveis. Cada meio tem uma identidade própria

quinta-feira, julho 06, 2006

continuação da postagem anterior

cenário interior









TERCEIRO EPISÓDIO
fornatação e sentido

Voltando propriamente à telenovela (em geral) como tema que nos aproximou da televisão e das pretensões dogmatizantes que a têm envolvido, e apesar da colonização brasileira, devemos primeiro reconhecer que nos últimos anos a ficção novelística neste domínio, incluindo algumas séries de teor histórico e de época, subiram exponencialmente de nível. Provou-se que a formação no plano da representação natural não era nenhum bicho de sete cabeças e que a língua portuguesa tem potencialidades expressivas de bom e variável recorte. Por outro lado, o enquadramento dos técnicos nestas exigências, desde a qualidade do registo à orientação lumínica ou ao desenho e construção dos cenários de permanência, alcançou patamares de verdadeira relevância profissional. A vaga de actores jovens tem mostrado como havia sido necessário, desde há muito, a sua ancoragem nos cânones modernos desta actividade artística.
Muitos aspectos da revolução nas artes plásticas, durante o século XX, a par dos estudos científicos que a despoletaram, trouxeram claros benefícios ao domínio das outras artes. E aqui, a fim de os sintetizarmos a esta escala, teremos de optar (em contradição útil) por alguns termos daquele vocabulário sobre o qual se esboçaram reservas e os acertos possíveis.
1 Roteiro: na esteira dos brasileiros, os guionistas portugueses, salvo dois ou três casos de excepção, procuram ainda (certamente porque a produção quer audiências por essa via) as histórias de absurdos conflitos entre maus e bons, os monstros que armadilham a comunidade para tirar de cada sucesso importantes proveitos, as vinganças retorcidas, os loucos perigosos, a realidade interclassista a um nível sociologicamente difícil de verificar.
2 Edição rotineira: a composição das cenas, o seu desnvolvbimento e motivações espaciais, tropeçam com frequência num jeito maquinal (coisa já metida na concepção dos registos) e muitas vezes sobreponível entre três peças que estejam a ser emitidas numa espécie de bloco. As semelhanças formais daí resultantes alienam a leitura inventiva e obscurecem prestações intercalares de valor decisivo.
3 Ruído: a sobreposição à acção dos actores de um excessivo efeito de ambientação, concentração de elementos insignifiativos na cena, tudo isso compromete a clareza de direcção e desempenho dos personagens. No mesmo sentido, o entrechoque de canções ou músicas batidas com a voz dos actores, por vezes exactamente ao mesmo tempo, e até com um terceiro registo de som ambiental, a isso, como sabemos, chama-se ruído - e o ruído, excepto quando exemplarmente justificado pelas circunstâncias expressivas, impede, com largo prejuizo físico, psicológico ou conceptual, a apropriação clara da forma cénica e dos ses sentidos menos epidérmicos.
4 Ruído visual: excessos idênticos aos anteriores, não justificados quanto à realidade expressiva, adereços a mais, um «labirinto» capaz de comprometer o trabalho dos actores, deve ser evitável; e também hoje os designers e técnicos do embiente cénico conseguem por vezes conjugar de forma certa e calorosa os dados solicitados, como acontece com a casa do «professor João» na novela da TVI, «Dei-te Quase tudo». Aquele lugar tem a marca da passagem do tempo, tem os percursos ambíguos das velhas casas onde os livros e outras coisas ganham presença forte.
5 Iluminação: trata-se de um elemento estrutural da composição da cena e pode assim tornar verosímil, a certa hora do dia e da noite, o conjunto de coisas e seres. Durante muito tempo, porventura em consequência de limitações técnicas, oa brasileiros iluminavam as cenas das suas telenovelas por forma a que não percebíamos se elas se passavam de dia ou de noite. As passagens de iluminação não se distinguiam entre essas horas. Esta é uma questão hoje geralmente ultrapassada. Alé do mais, é preciso ter em conta que a luz, além de estrutural, assume um valor expressivo (e até simbólico) cujo manejo obriga a um particular tratemnto no espaço e no tempo.
6 Luz e expressão: como na pintura, no teatro, no cinema, a luz em televisão é, como vimos, um elemento estrutural absolutamente decisivo. Embora possa dar apenas consistência real ao cenário e aos personagens, ela pode, com toda a vantagem, ser utilizada em termos de subtileza numa linha poética de claro-escuro, acentuação maior ou menor do clima expressivo.
7 Lugares: para além de intrigas básicas ou impensáveis - a que a excelente capacidade actual dos actores confere alguma dignidade - limitações de concepção e talvez financeiras definem os lugares onde a acção decorre, casas, salas, quartos, escritórios, criando aí atmosferas pretensamente condizentes com os seus frequentadores, gestos, sensações, sentimentos; ora essa estreiteza e repetição das posturas técnicas ou de entradas e saídas, teatraliza a expressão. De resto, há quase sempre um ângulo morto que não nos é dado ver, dedicado ao dispositivo das câmaras e justificado na rapidez de produção. O espectador confronta-se com os mesmos sítios, os mesmos ângulos, aproximações ou mediações, ao ponto e se tornar possível, a um espectador avisado sobre a gramática fílmica, predizer, diante de um plano, qual o tipo de plano seguinte, e de quem e observado donde.
Não façamos de notas como estas qualquer esboço académico de uma parte desses manuais que circulam entre nós sobre esta matéria. Gostaria que estes pontos de vista, servindo eventuais debates, pudessem iniciar o nosso juízo crítico perante um produto cujos vícios ainda não mataram uma importante direcção de actores - e o constante achamento deles.
A telenovela, de raizes escassas e de utilização comercial pela televisão usadas como expectaiva subjugante de audiências, pode contudo basear uma boa e frutuosa produção no género, com densidade artística e cultural. Mas, em vez de se acentuar a sua agressividade fácil, é preciso criar equilíbrios entre a tensão e distensão, rompendo com a rotina do enredo caseiro (estamos quase sempre dentro de casa) enquanto os exteriores, repetidos, separam algumas sequências de transição mais acentuada.

quarta-feira, julho 05, 2006

continuação da postagem anterior






a exploração do grande plano com
forte aproximação expressiva



SEGUNDO EPISÓDIO
linguagem e identidade

O vocabulário qualificativo usado e desenvolvido na área da linguística estendeu-se, não por culpa dos seus cultores, a um significativo número de campos artísticos, o que lhes conferiu estatuto científico, mais afinidade entre os diversos modos de formar, do desenho ao cinema, da pintura à televisão. Passou a ser usual falar-se de linguagem gráfica ou de discurso pitórico. Sendo certo que esta adopção de terminologias se usou noutros tempos e com menos rigor, a verdade é que ela cria pontes funcionais entre disciplinas, entre meios de expressão cuja nomenclatura tem outro intuito. O que parece certo é que esta trasladação linguística acaba com frequência por desaguar num oceano poluído, onde podemos a todo o momento encalhar em coisas estranhos vogando nas águas. A contingência destas permutas e pequenos desastres (uma espécie de globalização nas designações do mundo das artes) parece irreversível, e é bom dizer que, salvo casos patéticos, as escolhas daqui derivadas, bem como as suas aplicações, não tornaram redutoras nem a essência de cada campo nem a sua legibilidade analítica.
Com a televisão - e a novelística que produz- este problema seguiu um caminho idêntico: fala-se sem pudor no discurso televisivo e no maior ou menor número das suas adjectivações. Mas a televisão, em sentido corrente, e porque nela se resolvem, com efeito, exemplos de comunicação articulada temporalmente, suporta bem o entendimento de linguagem, embora se trate de um meio, muito rico de efeitos, que alberga e difunde várias linguagens do domínio audiovisual. A simplificação da televisão enquanto linguagem já não é tão líquido na pintura, ou em formas de expressão de suporte fixo, intemporais, sem uma linha narrativa digna desse nome, mesmo quando o adopta, tradutora de valores do espaço mas imóvel durante toda a sua contemplação, a despeito dos sentidos de tempo e de mobilidade visual ou formal que os espectadores podem eventualmente accionar na sua deriva. E entretanto deve dizer-se que uma das grandes questões da televisão é o factor tempo, algo que se torna determinante no espírito da telenovela. Tempo de programas, tempo e ritmo das formas, tudo aquilo que os aficcionados chamam linguagem específica da televisão. Claro que, dada a relação aparelho/recepção, algumas questões se colocam: o uso mais frequente dos grande e médio planos, a menor percentagem de planos gerais, com menos incidência estatística no caso das novelas quando estas se desenrolam sobretudo no interior de arquitecturas e similares. Os mesmos aficionados defendem, para a narrativa de televisão, um ritmo veloz, a curta duração dos planos, a dinâmica e possível simplicidade da história, a clareza do discurso.
Uma dogmatização deste género não pode aplicar-se indiferentemente ao mundo das novelas: nesse caso, tudo conta como nas outras artes narrativas, a vertigem não é regra, a curta duração dos planos só se aplica á funcionalidade do discurso, o tempo tem de resultar psicologicamente de tudo o que interessa aos temas e aos assuntos, ao sentido de tudo isso. A viagem de um personagem num elevador, pronto a saltar no andar que escolheu, disparando o seu revolver, é psicologicamente mais longa se o realizador estudar e pretender transmitir a expectativa e a ansiedade da situação. Uma viagem dessas, mas de regresso e se nada aconteceu, pode parecer calma e curta, mas todos sabemos que o elevador leva o mesmo tempo tanto num caso como no outro.
Fora da problemática da novela (coloquemo-nos aí, por instantes) tudo na televisão gira à volta da publicidade: um dos maiores inventos do século XX, na comunicação auciovisual, só funciona com toneladas de publicidade, na lógica selvagem dos mercados incontrolados, sob a ditadura alucinante das audiências (todas manipuladas), enquanto os «responsáveis» por cada estação insistem (sábios) que a grande menoridade dos conteúdos corresponde apenas ao gosto do público, o que grosseiramente é falso. As escolhas do público sobem e descem, nunca evoluindo, em função de necessidades geradas de fora, são conquistadas pelos mais básicos truques de expectativa e apelo ao nosso plano animal. Está demonstrado que a publicação de duas telenovelas em paralelo, sem recurso à psicopatia, funcionam junto do público, a seu tempo, com maior apelo pela de melhor nível geral, da produção à realização, actores, intencionalidade profunda, grandeza humana dos personagens. O público sai facilmente da desnecessidade com que somos brindados todos os dias e deixa-se conquistar por outros produtos contrariamente de qualidade insofismável. Como no cinema, onde um filme de acção pode estar cravado de milhares de planos curtíssimos, enquanto outro, reflexivo e tematicamente mais difícil, pode decorrer com planos por vezes de grande duração e ser louvado. Cuiriosamente, desde séries televisivas («O Pão que o Diabo Amassou») até filmes longos que já passaram na televisão (Bergman e Tarkosky, por exemplo) contra os quais não consta que tenha havido levantamento de massas. Todos sabemos, de resto, que o cinismo dos roteiristas de programação televisiva se empanham em publicar grandes obras do património fílmico da humanidade, e mesmo teatro sério, a partir da madrugada, frequentemente entre as 24 e 1,30 horas.
O problema, para a educação dentro e fora da Escola, é esse: a televisão, podendo ser por natureza um meio de linguagem autêntico, pedagógico e cultural, ainda não conquistou, vivendo em permanente competição de subprodutos, a sua verdadeira identidade.

A PROPÓSITO DA TELENOVELA


PRIMEIRO EPISÓDIO
caracterização do meio e novelística

A telenovela é uma formulação audiovisual, do âmbito ficcionista, operada tecnologicamente em suporte vídeo ou vídeo digital, organizando-se perante o espectador em episódios diários, de cerca de trinta a quarenta minutos cada, e cujo conteúdo rola muito na área do entretenimento, narrando histórias de maior ou menor densidade expressiva, quer no campo da comédia, quer no espaço das efabulações dramáticas. Hoje puplica-se, quase exclusivamente, na televisão. As origens deste género de obra têm muitas vertentes, mas entre nós ela remonta à chamada literatura de cordel, em fascículos e por vezes ilustrada, que chegava ao público em assinatura e segundo determinadas cadências temporais. A banda desenhada de maior fidelidade à sequência e ao modelo do «ecrã» teve alguns autores que a aproximaram da ideia de telenovela, mas nunca tanto, obviamente, pela natureza dos conteúdos, entre cortes. Por outro lado, as novelas radiofónicas, mais ou menos realistas e com desenvolvimento em sequência, incluindo as mudanças de plano, mudanças de lugar e de tempo, publicadas dia a dia ou com intervalos pequenos, empolgou muita gente, mesmo quando os seus temas não passavam de paixonetas e intrigas opacas, em geral idiotas.

segunda-feira, julho 03, 2006

recado do autor


O meu texto «NOMADISMO E AVALIAÇÃO DOS PROFESSORES» suscitou, junto de colegas e amigos uma avaliação positiva e um protesto sobre a extensão do mesmo. Alguns, mais rodados nestas coisas e na doutrina que já se sacode em ciência sobre a linguagem do blogue, lembraram-me do problema poposto pela televisão e da necessidade da sua linguagem contar com especificidades inalienáveis. «A dinâmica intrínseca da televisão obriga ao encurtamento dos planos e a uma especial montagem dos planos». Este equívoco é velho. Dizia um realizador de televisão americano que, nos audiovisuais, os princípios formadores da linguagem são idênticos e por isso, entre tais meios, os discursos flutuavam em inerente semelhança.»
A verdade é que o blogue é um espaço pessoal de reflexão e comunicação, pode suportar textos mais ou menos longos, pequenas notas, diários, avisos aos combóios, comportando imagem como reprodução de várias fontes. Em defesa do meu texto, direi: aceito que ele não esteja de acordo com as normas da globalização, mas o meu intuito é o de, no tempo real, defender certas ideias sintetizadas no título.

quinta-feira, junho 29, 2006

Matta Clark

Passo e fico, como o Universo.

Alberto Caeiro

O que fica dos passos, como o Universo, é a poeira sem contornos, nem cor, nem substância. São vidas forçadas a viagens entre Escolas e diferentes Cidades ou Aldeias, uma espécie de exílios somando os anos aos anos, entre vigílias nómadas e tímidas. Os professores portugueses têm, na base da sua utilização pedagógica, esta erância que os divide, os separa, os torna intérpretes da tão anunciada precariedade do trabalho outrora consistente e sujeito a normas de progressão num quadro de carreira, numa perspectiva consolidada de futuro. Esse estatuto, cuja base de sustentação, além das licenciaturas dos doutoramentos, das agregações das ciências da educação, era conquistado devagar e o mais seguramente possível. As famílias constituíam, para muitos docentes, lugares sólios de ancoragem ou o porto provisório de uma vontade colectiva de ensinar mais perto das origens. Uma coisa para uma ou duas décadas, permitindo, em todo o caso, que os protagonistas do ensino se ligassem à terra, à sua história, a par das pessoas e dos seus costumes nos diversos enquadramentos distritais. Lisboa atraía os que mais ambicionavam, entre várias coisas da sedução urbana, entre a frivolidade e a cultura, a vida cosmopolita (ou a sua simulação) - porque, à medida que a colonização se alargava em vários sentidos, os prédios urbanos tentavam sugerir certa qualidade de vida, tinha lareira não se sabe porquê, várias casas de banho, fogões eléctricos, porta-lixos, e porteiros ou porteiras e guardas nocturnos abafados por aqui e por al, portadores de chaves de portas, garagens e carros.

Não quero, com estas imagens, fazer a apologia da apatia cinzenta dos tempos de Salazar, mas apontar desde já os indícios do que deveria hoje ter evoluído para grandes patamares de consistência nos encontros e nos projectos de cada profissão. O rumo inquietante das máquinas que se aproximavam, ao ritmo das migrações, era já o aviltamento da terra, o princípio dos chamamentos chantagistas, cortando sem valor de ciência os campos de uma agricultura onde havia ainda uma sedentarização produtiva da ordem dos 30% da população nacional.

NOMADISMO E AVALIAÇÃO DOS PROFESSORES

Matta Clark

Passo e fico, como o Universo.

Alberto Caeiro

O que fica dos passos, como o Universo, é a poeira sem contornos, nem cor, nem substância. São vidas forçadas a viagens entre Escolas e diferentes Cidades ou Aldeias, uma espécie de exílios somando os anos aos anos, entre vigílias nómadas e tímidas. Os professores portugueses têm, na base da sua utilização pedagógica, esta errância que os divide, os separa, os torna intérpretes da tão anunciada precariedade do trabalho outrora consistente e sujeito a normas de progressão num quadro de carreira, numa perspectiva consolidada de futuro. Esse estatuto, cuja base de sustentação, além das licenciaturas, dos doutoramentos, das agregações, das ciências da educação, era conquistado devagar e o mais seguramente possível. As famílias constituíam, para muitos docentes, lugares sólidos de ancoragem ou o porto provisório de uma vontade colectiva de ensinar mais perto das origens. Uma coisa para uma ou duas décadas, permitindo, em todo o caso, que os protagonistas do ensino se ligassem à terra, à sua história, a par das pessoas e dos seus costumes nos diversos enquadramentos distritais. Lisboa atraía os que mais ambicionavam, entre várias coisas da sedução urbana, entre a frivolidade e a cultura, a vida cosmopolita (ou a sua simulação) - porque, à medida que a colonização se alargava em vários sentidos, os prédios urbanos tentavam sugerir certa qualidade de vida, tinham lareira não se sabe porquê, várias casas de banho, fogões eléctricos, porta-lixos, e porteiros ou porteiras e guardas nocturnos abafados por aqui e por ali, portadores de chaves de portas, garagens e carros. O rumor inquietante das máquinas que se aproximavam. ao ritmo das migrações, era já o aviltamento da terra, o princípio dos chamamentos chantagistas, cortando sem valor de ciência os campos de uma agricultura onde havia ainda uma sedentarização produtiva da ordem dos 30% da população nacional.

Não quero, com estas imagens, fazer a apologia da apatia cinzenta dos tempos de Salazar, mas apontar desde já os indícios do que deveria hoje ter evoluído para grandes patamares de consistência nos encontros e nos projectos da uma sedentarização com boa ordenação do território, na racionalidade da distribuição dos meios e unidades produtivas.

Em todo o caso, a promoção de um professor à condição mais alta era penosa, obrigava ao rigor do estudo pedagógico sem projecção prática e ao aprofundamento das metodologias, das técnicas inseridas nos programas, a par de um significativo quadro de orientações profissionalizantes. Havia provas decisivas, como a do Exame de Estado, lição que parecia anteceder o doutoramento e ter solenidades idênticas. Um Curso de Pedagógicas, inspecções, candidaturas e vagas que começavam a tornar-se exíguas - a marca do tempo avançando com as máquinas, carros de combate , como num cerco à cidade, peças indizíveis prontas para ajudar a erguer prédios de quatro andares, cimento, tijolo, casinhas minúsculas, cozinhas apertadas, estendais para secar a roupa, nos subúrbios, à portuguesa, todo o terreno em volta configurado por mato, algumas árvores secas, barracas de madeira e zinco envolvendo o círculo anterior do perímetro citadino, num sonho logo sujo de lixo e fezes, como os arredores de muitas cidades ou povoações médias do terceiro mundo.

Depois do 25 de Abril de 74, entre convulsões, equívocos, segredos e fracturas, quase uma guerra civil nas barbas da outra, a colonial, cento e cinquenta mil homens em três frentes de combate, um sinal de verdadeiro confronto veio dar força política a quadros mais moderados, foi possível instituir a Constituinte, gerindo o país, nessa ravina do sonho, através de governos provisórios de quase sempre triste memória. E é desta dinâmica desencontrada, servida por máquinas administrativas que sempre haviam dado suporte à ditadura, numa rede de postos, guarnições mlitares, polícia política, ministérios pomposos e autoritários, que irá nascer a democracia, rangendo os dentes, sofrendo ainda os calafrios produzidos pelas forças em presença. A Escola, realidade que fora tratada, por razões sociais e não técnicas, segundo estratos de aplicação diversa consoante os planos profissionais, chegara a obter valores de aproveitamento e de qualificação acima da média no período que sucedeu à fase inicial da instauração republicana. Das extintas Escolas Técnicas e Comerciais saíram gerações de profissionais a quem o regime validara acesso às áreas próprias, quer na linha das indústrias embrionárias, quer nos equipamentos comerciais ou outros, sobretudo no sector bancário. Por volta da década de 60, muitos directores dessas Escolas eram escolhidos entre os artistas diplomados pelas Belas-Artes, tendo em conta o seu valor criativo e intelectual, a par de uma assinalável abertura aos problemas nucleares das demais disciplinas. Há todo um estudo a fazer sobre esta via de ensino, reformas, apetrechamentos e reapetrechamentos, a descoberta de campos de pesquisa com incidente aplicação social.

Ao lado de tais instituições, mas entretanto monolíticos, formais, destituídos de liberdade criadora e geridos (frequentemente) por homens de letras, reitores hirtos, capazes de quadricular toda a realidade pedagógica e de convívio sob sua regência, havia então os famosos liceus - máquinas densas e inúteis, preparando os alunos para acederem aos caminhos da Universidade e, mais tarde, constituirem eventualmente a maior parte das nossas elites.

Quando estalou a revolução dos capitães acabara praticamente de se desenhar no papel uma reforma geral do Sistema Educativo, da responsabilidade do Prof. Veiga Simão, pela qual se criavam mais universidades, se concentrava a formação secundária num só eixo unificador (o dos liceus) e se começava a esbater, por completo desonhecimento da sua identidade e prioridade cultural, as disciplinas de índole artística, tanto no ramo unificado que fingia igualizar toda a gente, como a nível superior, onde foi necessário gastar cerca de vinte anos para integrar as Escolas Superiores de Belas-Artes, na condição de Faculdades, em Universidades de Lisboa e Porto. Tudo isso estava largamente adiantado em Espanha, com as suas Faculdades de Belas-Artes e o entendimento delas num quadro plural de prestações em ordem às próprias Universidades ou à comunidade.

Portugal cava as suas feridas: e se outrora podia resignar-se a umas centenas de alunos habilitados que entravam para o Ensino Superior Universitário, ao desatar os diques, sem a rolha das diferenças sociais, justamente quando o ensino se tornava gratuito por ordem da Constitição, viu-se a braços com dezenas de milhares de candidatos, além da vaga de cerca de quatrocentos mil inscritos nos planos dos ensninos básico e secundário. Todos os equilíbrios se estilhaçaram, apesar de muitos méritos que foram deslizando na corrente agitada durante anos e contra a pouca vontade política dos governos já constitucionais.

Em síntese: os problemas logísticos aumentavam de dia para dia; o pessoal auxiliar, desclassificado, perdia-se em exigências de deslocação e de função; os equipamentos de natureza didáctica, escassos, mal se completavam com meia dúzia de projectores de diapositivos por aqui e por ali; as instalações novas envelheciam à nascença, sem ginásios, sem anfiteatros, sem laboratórios; e os professores, recrutados como numa urgência de guerra, com ou sem habilitações, eram lançados por todo o espaço nacional, ano a ano, sem casa, sem referências, ganhando e perdendo os afectos da profissão, impedidos de dilatar (em comunidade) a sua formação e os cuidados sobre a realidade pedagógica da qual se apagava, de forma displicente, toda a poética. Ora um professor é uma chave essencial para a manutenção dos princípios da vontade criadora, da prospecção e investigação, da disciplina e sentido cívico, pessoas de memória para a memória, para serem recordadas e não perdidas após uns meses de conhecimento e partilha de experiências. Há contudo quem os considere caixeiros viajantes, revividos a partir da obra de Arthur Miller, ou os personagens à espera de nada, como no Godot, de Beckett.

Em suma:

É urgente encarar a formação dos professores, mas não como os que desabrocham naquelas escolinhas que os salpicam de condimentos q.b. e os mandam, sem mais, para a condição de docentes efectivos aqui e além. Os verdadeiros agentes do ensino precisam de que lhes facilitem os meios de trabalho através, por exemplo, da Universidade Aberta ou da Internet, incluindo bibliografia adequada às respectivas problemáticas. Não lhes peçam mais precariedade, mais nomadismo, mais exames, mais avaliações pretensamente de vanguarda. A melhor forma que já se esboçou no nosso país a este respeito, e que precisava de configurações actualizadoras quando a deitaram para o lixo, correspondeu à profissionalização em exercício. Num certo número de escolas espalhadas pelo país e bem apetrechadas quanto aos meios tecnológicos e outros, incluindo especialistas em comissão de serviço para assessorar outros docentes «rotativos», o professor começava por reaprender o que aprendera e sobretudo aprendia fazendo aprender. Além da sua própria iniciativa, documentada no fim de dois anos, algumas linhas normativas e identificadoras seriam avançadas consoante as regiões e trabalhadas com orientações e avaliações informais por orientadores e tutores, os quais circulariam por determinadas instituições e teriam a seu cargo a observação e o aconselhamento de certo número de alunos em profissionalização. Este trabalho, sem pompa nem apertos de classsificação, haveria, em todo o caso, de obter certificados finais discutidos pelo docente, pelos orientadores e tutores. Toda a mecânica destas tarefas seria naturalmente controlada por lei e calendarizada por forma a que os orientadores e tutores pudessem trabalhar a sós ou em conjunto com o candidato à profissionalização. Da área das ciências humanas, onde poderia haver simpósios duas vezes por ano, seriam recrutados coordenadores de actividade geral na respectiva zona, prontos a respirar segundo os objectivos da educação e as mudanças estratégicas da ciscunstancialiade nacional, entre outros aspectos a ponderar.

Os professores teriam o direito de escolher uma fixação, um vínculo de tempo indeterminado na Escola, aí ensinariam sem o sobressalto do nomadismo, a par daqueles que seguiriam itinerários trienais até uma certa idade. Aos que desajassem fixar-se no interior, as autarquias providenciariam planos de alojamento e o Estado completaria tais miragens com subsídio de isolamento, habitação e formação.

Quando isto acontecer (a par de normas estruturais de natureza corrente e realidades que têm de ser ponderadas), a qualidade do ensino terá de melhorar e os factos assim gerados poderão cativar os alunos relativamente à sua segunda casa - a Escola.

Do Ensino Superior Universitário é preciso falar com mais tempo e outra disponibilidade dos meus leitores. Mas os acessos terão de mudar por completo, determinados por cada Escola com auxílios a convocar, e a carreira docente, como decorre agora, deverá ser implodida muito a sério, pois as cerimónias de mestrados, pós-graduações, cursos para doutoramento, doutoramento, agregações, tudo isso só deixa na vida dos professores e alunos uma forma babélica de esforço obstruído, sem verdadeiro entrosamento, sem investigação, sem tempo de sobejo de tanto ritual para a verdadeira dedicação ao trabalho com os alunos. E a verdade é que estes podiam fazer parte de períodos de aprofundamento temático, com o professor doutorando, partilhando de uma verdadeira dedicação aos valores do saber. Há outros modos de percorrer a carreira, daquele ponto à abertrura das instituições. O resto, o que tem persistido, vem dos poderes arcaicos, pelo menos entre o feudalismo e Napoleão.

terça-feira, junho 27, 2006

no jardim, uma pequena pausa com Alberto Caeiro


A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra.
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

foto R.Sousa
Palácio da Cidade

segunda-feira, junho 26, 2006

AS BARATAS IMORTAIS


O velho queria saber se eu tinha sido sujeito a regimes de tortura. Queria saber, em particular, se contraira problemas de percepção, nomedamente a visual. «Que problemas, senhor doutor?» Ele estava sem paciência: «Ó homem, os habituais, distorção das formas, aranhas pequenas subindo lentamente pelas paredes, ruídos estranhos» Cuspi para o chão. «Aranhas nunca, nunca vi aranhas, nem a subir pelas paredes nem a correr pelo chão» O médico rabiscou no seu caderno de notas e na minha imensa ficha, um monte de cartões presos por duas argolas. O homem levantou o rosto e olhou-me com desconfiança, perguntando: «Mais nada». Encolhi os ombros:«Não, mais nada» Deixei a cabeça pender e vi os meus pobres sapatos, sujos, rotos, cambados. «Estou agora a pensar nas baratas, todo aquele pavilhão é imundo». Ele, ansioso: «Baratas? Que baratas? Onde estavam as baratas?» Coçei a cara, já chateado: «A baratas? Naturalmente que no chão» O velho de novo: «Tem a certeza?». Olhei outra vez para os sapatos, sentia os pés frios. «Eu pisava as baratas, esmagando-as com preciosismo, mas elas saíam vivas debaixo das solas. Porque é que as baratas se safam desta maneira?»
O médico, com os seus cabelos brancos escorridos, disse secamente e devagar:
«As baratas são imortais».

domingo, junho 25, 2006

TEMORES E VIGILÂNCIA


Erradamente, meteram-me na António Maria Cardoso e desataram a fazer-me perguntas idiotas sobre um tal Jerónimo. Era no tempo em que o governo zelava pelo emprego dos desprotegidos da inteligência, dos coxos, dos arrastadinhos, dos trapalhões - toda essa gente com vocação para contínuos, serventes, vigilantes. Também estive de pé dias seguidos, queriam saber vários nomes de gajos que eu nãp conhecia, porra de noites, porra de dias, ficava cego, acordavam-me batendo com um martelo no tampo da mesa. Deixei de perceber as coisas, a luz em volta. Então despejavam um balde de água fria sobre a minha cabeça ardente e eu só retomava o mundo das aparências pouco depois, rodeado de baratas que andavam pelo chão, montes de baratas sempre vivas mesmo depois de as pisar lentamente, com preciosismo.
Dali fui direitinho para o Júlio de Matos, instituição que conhecia bem. Fui encontrar por lá um arquitecto que já fora professor na Escola, dedicava-se agora à pintura. Pintava umas paisagens com galinhas, terrenos floridos, espaços verdes onde pousavam bonitas vivendas em «estilo português suave». Dois enfermeiros vieram buscar-me e eu fui assim, arrastado, até ao consultório de um médico velho, com os cabelos desalinhados mas pendidos. Perguntou-me se havia sofrido inquéritos dolorosos, o método da estátua, choques eléctricos. E ainda me perguntou se estava a ver bem, se não me debatia com o desfoque das figuras ou se tinha a percepção de pequenas aranhas trepando pelas paredes. «Aranhas não, aranhas nunca». O velho olhou-me com desconfiança e eu voltei a falar, ansioso: «Só vi baratas. Imensas baratas». E ele, de olhos muito abertos: «Onde?» Encolhi os ombros: «Naturalmente que no chão». O velho médico escreveu duas ou três palavras na ficha e disse depois: «Mais nada?» Olhei para os meus pés, os sapatos sujos e rotos. «Mais nada. Eu pisava as baratas, esmagando-as com preciosismo, mas elas saíam vivas debaixo das solas». Então o homem disse secamente, mas devagar:
«As baratas são imortais».
ilustração de Rocha de Sousa, trabalhada por computador.

TEMORES E VIGILÂNCIA


No dia das folhas de pagamento fico sentado, à espera, ou dou a volta ao edifício por dentro, no labirinto dos corredores. Na casinha das chaves, utilizando uma pequena mesa de pé de galo, assento aí a folha que me corresponde e levo todo o tempo possível a fazer contas, aumentos, descontos, cobrança da segurança social, e assim. Todos me perguntam a razão de ser deste hábito ou desta exigência. E se eu encontrar um erro? Já fui roubado muitas vezes, e outras coisas e por outras razões, até um gato me levaram - e é por tais casos que alguns de nós ganham este género de manias. Ou melhor: um permanente fio de temor e vigilância. Nunca atravesso uma rua sem olhar primeiro para a direita e depois para a esquerda. É uma questão de verdade. Com as contas é também uma questão de direito.
No caso da Ermelinda, os que me pagam e a polícia dos que me pagam fizeram aqui, por outro lado, centenas de perguntas. Toda a gente dizia que a Ermelinda era muito boa pessoa, que se relacionava admiravelmente com os alunos e os colegas, que tinha amigas no bairro onde vivia, era viúva, religiosa, tranquila, resignada segundo a sua fé, sempre pronta para ajudar os outros. O inspectopr ouvia. O sub-inspector escrevia. Ventura esperava. E se fosse um crime? A vida é muito parecida com um romance policial, eu sei tudo isso em pormenor, no espaço e no tempo, porque li muita literatura de polícias e ladrões, organizações secretas, matanças arumadas por seitas. No caso da Ermelinda, em vez de se suicidar ela podia ter bebido acidentalmente, com outro líquido, o veneno dos ratos. O Ventura impacientava-se e só veio a sossegar quando a polícia abandonou as investigações e deu o caso por encerrado. Ermelinda suicidara-se. Honradamente, aliás. Deixara a casa num brinco e o resto do veneno no caixote do lixo, impratricável. Hoje estou de pé, encostado ao muro de grés sangrenta, e sinto-me perplexo como nunca: o veneno num caixote do lixo é prova de quê? De que Ermelinda se desfez dele, sem grande preciosismo, ou de alguém menos precavido após a cuidadosa encenação da sopa, ou do leite com muito açucar? Eu sei, Ermelinda, também tu tinhas medo da vigilância permanente. Ermelinda, minha boa amiga, que fizeste tu: esperaste ou decidiste.

DEMÊNCIA HONRADA


Ser demente não tem importância. O que tem importância é ser demente sem honra, é perder a honra. A menina dorme com o velho, larga tudo e vai a correr para a cave onde ele mora, atirando-se para a cama, toda nua, sempre que lhe apetece. Ele leva todo o tempo do mundo para responder àquele desejo. Ambos sabem que esse pecado não compromete a salvação, e isso também dizem os novos da nova teologia. Trata-se de um acto que sempre teve e tem apenas a ver com a nossa condição de bichos. Há quem lhe chame «pouca vergonha» e há quem diga que tudo se resume à legítima busca do prazer, o qual anda frequentemente associado à felicidade. A Rosa leva porrada do marido e nunca se queixou. A fome dela pode com todo esse peso, cada dentada nas mamas aguça-lhe a onda de gozo que entra nela, por baixo. São coisas vulgares e misteriosas. Está sempre só, a Rosa, leva porrada mas não muda de homem, esperando pela noite e sabendo qual o trabalho sujo do marido e o nome dos gajos que foram para o Tarrafal pela língua dele. Já lá estive, desgraçadamente por causa de um erro judicial, mas eles não sabem distinguir um vagabundo de um doido honrado. A «frigideira» acaba com a gente em dois tempos. Mas o importante é salvar a verdade, se for caso disso, dizendo estrategicamente a mentira. É o que fazem os pintores, os escultores e até mesmo os poetas, em verso. As pombas de pedra não voam mas os artistas inventam a forma de parecer que sim. Há cada vez mais aves negras voando neste quadrado de céu. Serão corvos? Dantes havia mais pombos, pombos simpáticos, diria mesmo indispensáveis, matreiros umas vezes, coniventes quase sempre, rodeando os nossos pés, passos curtos, partidas rápidas. Até que um dia foi a hora do Cunha, professor aposentado, que sabia muitas coisas sobre pássaros e passeava pelo Parque Eduardo VII. Morreu de um derrame cerebral, as artérias inchadas, a voz de canhão, a bondade escondida na fúria. Os alunos gastaram dois séculos para perceberem o que ele queria dizer com o destaque da palavra inquietação. Inquieto é mundo, és tu, e até os desenhos borrados que os filhos-família rabiscavam na sala do Cunha, Mestre de uma aula fatídica. Morreu, caído no banco, rodeado de pardais. 1
1 fragmento de «O Bolor e as Reformas de Papel», de Rocha de Sousa, autor igualmente dos desenhos e fotografias publicados neste blogue, excepto os documentos da imprensa ou televisão.