sexta-feira, outubro 13, 2006

A ORDEM NATURAL DAS COISAS

foto Rocha de Sousa

num país do desassessego


A ordem natural das coisas é não haver nenhuma ordem natural das coisas. Lembram-se do Noivo, um homem de meia ideia, vestido de smoking, pasta na mão, cabelos sedosamente puxados atrás, como nos velhos tempos da brilhantina - esse excluido que vogava pelos cafés de forma altiva e inabalável? Assim ficara desnatural, com efeito, pelo facto de ter sido abandonado pela noiva em pleno altar. A súbita vontade alheia, contraditória de mil promessas entretanto feitas, implodira a própria cerimónia do casamento e o Noivo perdera-se dele mesmo. Hoje, olhando para o mundo em redor, a verdade é que nos tornámos todos noivos, sem smoking. Convertidos ao desleixo global, luxo aristocrático invertido, homens e mulheres usam calças de ganga das mais diversas maneiras. A rapaziada, entre os jovens semi-universitários e os parlamentares de gabarito, usa barba crescida, aparada uns milímetros acima da pele por uma nova invenção no meio industrial das máquinas de barbear. Mas não se pode assegurar em rigor que tais máquinas tivessem nascido depois das barbas haverem crescido mal aparadas. Pela ordem natural das coisas, primeiro teria crescido a barba, depois a tecnologia para o tratamento da sua qualidade. Nos cafés, no intervalo da discussão sobre futebol, alguém, mais afoito e porventura mais culto, assegura que a máquina apareceu primeiro, que acontece em muitos outros casos, propondo aquele bizarro tratamento da barba. A propósito dos cafés, cada vez mais raros, improisados e de menor gosto, há neles uma persistência curiosa, mais antiga do que as calças de ganga: o hábito de quase toda a gente tomar ali o seu pequeno almoço, café com leite e pão com manteiga, enquanto alguns outros só consomem um copo de vinho, uma dose ou duas de três. Nas tascas também ressoam os telemóveis, há telemóveis por toda a parte, e muitos e muitos jovens passeando com os aparelhos colados às orelhas, passando para as namoradas palavras obscenas. O mundo, aliás, ficou cheio de telemóveis, de primeira, segunda e terceira gerações. Os pais fotografam os filhos quando os levam para a Escola, braços levantados, câmara de telemóvel eficiente e silenciosa - Deus olhando do alto o funcionamento do Seu quotidiano. Apesar de tudo, o país está empobrecido, garantem os economistas e os políticos. Mas as terras estão atulhadas de cidades a perder de vista, paisagens de betão onde abundam o lixo e os consumos, uma pressa de convocar o futuro. E isso caracteriza bem, paradoxalmente, os cidadãos que ainda não chegaram a uma mais profunda consciência do tempo, ou seja, da morte. Náo é por acaso que amentou o número de vagabundos e os sem-abrigo, todos os que, mesmo na enxovia das camas de cartão, deliram com os principais clubes de futebol, desdobrando longos discursos que invadem territórios alheios - até lugares electrónicos como este - para criticarem arbitragens, faltas mal aplicadas, lesões de jogadores, políticas da Federação, da Liga, da Fifa, uma corrupção que deslisa no intervalo dos jogos e nos bares do norte. Exclamam por vezes, num caso de contusão mais grave, que não há Serviço Nacional de Saúde capaz, que os Centros não têm funcionários nem aparelhos, que as urgências migram para o litoral e para as grandes cidades, que as maternidades foram fechando, sobretudo no interior abandonado, ficando assim os doentes e as grávidas a dezenas de quilómetros dos sítios próprios das suas necessidades, o que fez duplicar, só num ano, o número de óbitos e partos nas ambulânvias do INEM e dos Bombeiros. Ao lado dos incêndios, bom negócio de sobras e novos pobres. A par dos lixos atirados um pouco por toda a parte. Ou dos produtos venenosos que fábricas e suiniculturas despejam nos rios e lagos do jardim à beira mar plantado. Nas praias também, calor a prumo, milhares de pessoas encalhando na areia, a lembrar terrivelmente os campos de refugiados de que África está repleta, entre guerras e ditadores cegos. Afinal, somos pobres ou ricos? Talvez remediados, como no tempo rural de Salazar. Havia crianças com a bandeira da Mocidade Portuguesa e cantando o Hino Nacional. Hoje as crianças são geniais, embora banqueteando-se com tecnologia alienante (jogos apocalípticos) e sandes americanas - produto que nos vai colonizando e tornando obesos. Ah, o nosso rico caldo-verde, com uma rodela de linguiça a meio. Os mais pequenos são transportados nas manhãs de folga em carrinhos tipo new look, enquanto os pais ainda vigiam os fotógrafos das redondezas, por causa da pedofilia e do eterno processo da Casa Pia. Há muitos arguidos em Portugal, gente de acasos e da candonga, ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres. Porque os pobres desempregados preferem vender umas gramas de droga a juntar-se à tarefa camarária do lixo, um lixo urbano sempre acumulado, publicidade rasgada com ele, ou nas paredes, em sucessivas gerações desde o 25 de Abril. Nessas noites de bruma, para além das escassas árvores da cidade, há gatunos roubando carros ou assaltando apartamentos, na melhor das imitações das escolas estrangeiras, Nova Iorque e Chicago, por exemplo. A GNR e a PSP são polícias que costumam passear de carro desportivo, linhas azuis e verdes, mas os agentes pedestres, quando se encontram com um bandido, têm de fazer contas para saber se estão em situação de legítima defesa ou não. Antes disso já comeram com um balázio na barriga e as suas velhas armas, encravadas, nem puderam responder. Cada tiro de um polícia é um polícia em tribunal. Mais arguidos, cadeias onde a sobremesa ao almoço pode conter pequenas doses de cocaína, e depois a sida, a tuberculose, coisas assim. Os filhos dos filhos de alguns dos presos mais velhos pagam taxas moderadoras, agora de utilização, são metidos em Casas de integração, dormem lá uns tempos, cortando cartolinas, e depois fogem pelo muro descarnado e ficam adstritos a uma zona de vagabundos, a trabalharem bem a solidariedade dos grupos que andam durante a noite distribuindo mantas e sopinhas quentes. O pior é a televisão, não há sítios para ver os jogos, excepto algumas tabernas, e o futebol, além do eixo do mal, é a sua mística, o país chega a parar, a assembleia nacional faz pausas apropriadas. As rixas repetem-se todas as noites. Os médicos de família não passam de uma ficção. Se não há futebol na televisão, há porrada e notícias com crimes hediondos, já de marca portuguesa, e publicidade a espectáculos que enchem estádios ou novelas cheias de armadilhas onde os bons actores portugueses perdem o seu tempo e a sua dignidade. A balbúrdia dentro e em volta de Lisboa cresce de minuto para minuto, as pessoas mais velhas ficam perplexas, e aqui há dias um velho de setenta anos perdeu-se lá para as bandas do eixo Norte-Sul, Cril, Crel, andou em contramão por estradas sem sinais, ou com poucos sinais, errados, mal escalonados, o que de resto acontece por todo o país e é causa importante dessas tragédias do asfalto, diagnosticadas sempre pela polícia como devidas ao alcool e à velocidade excessiva. O velho deixou o carro num recanto inócuo e voltou de táxi, no outro dia, para o recuperar. Mas o carro tinha desaparecido e o pobre homem nunca mais o viu, perdendo assim o negócio de batatas que transportava de um produtor dos arredores para a zona das Olaias. Nesse dia, quando chegou a casa, lá estavam os papéis do IRS, um pedido por conta, uma esmola solicitada pelas Finanças. Ainda pensou em falar com o filho, mas o desgraçado acabara a licenciatura e estava desempregado há mais de um ano. As Universidades haviam perdido o tino, julgavam-se produtoras de elites cordenadoras, afastando-se do mundo real e procurando assegurar-se de que os Politécnicos iriam produzir tecnólogos, num país a abarrotar de engenheiros, nas empresas, nas estradas, e sobretudo nos Governos. Como os professores dos primeiros níveis do ensino eram nómadas, andavam a ensi-nar um ano na Lousã e no ano seguinte a leccionar em Ourique, o insucesso escolar talvez comece logo por aí. Que não, diz o Ministério. A estratégia da rede escolar tem de ser vista, programas, livros, autonomia das instituições, mesmo aquelas que restaram perdidas no mato. Perdidas na memória daquela paz e daquela medida que faziam das brincadeiras, no recreio, uma verdade calorosa.

Nesta ordem natural das coisas, que não é ordem nem natural, os velhos atrasam-se no caminho para a morte, atrapalhando a Segurança Social. E os meninos, nascendo cada vez menos em nome da cidadania da mulher e de uma escassa procriação, com raízes genéticas mirradas pela economia, vão crescer sem afectos, mordendo o isco dos matulões e dos cigarros. Os velhos esperam sentados nos bancos das ruas brancas do Alentejo ou nos escassos jardins onde ainda podem jogar às cartas. Alguns pensam: a morte nunca mais chega. E outros dizem aos seus botões comprados há muitos anos na retrosaria do Sequeira: deixam atrasar tudo e não há listas que cheguem para tantos atrasos. Sousa Carneiro escreve: desfizeram-se os pomares, abriram cotas estreitas na agricultura, largaram o mar salgado e afundaram as traineiras, perderam a guerra em África e as pistolas que restaram oferceram à PSP; queimam as florestas e toleram os negócios obscuros, falam em mobilidade como se tivéssemos que voltar ao paleolítico e regredir em caminhadas imensas, enquanto o trabalho falta e se apregoa com pompa que nunca haverá mais empregos estáveis, tudo rodará em volta de tudo. Os psiquiatras não, esses não rodam, nunca mais voltarão a ser nómadas: os andarilhos da indústria ou do ensino, e quem sabe, um dia, se da saúde, esses sim, globalizaram-se e frequentam psiquiatras por causa das bipolaridades incandescentes, da nostalgia, e da falta de apoio aos mortos na estrada.

Mas Almada Negreiros disse um dia, e com razão, por três vezes seguidas, entre minutos, sobre a urna de uma celebridade: Há pontos finais.

quarta-feira, outubro 11, 2006

TODAS AS LISTAS DO ATRASO




Devemos aliviar faltas e atrasos por amor à Pátria



Assim: muitas aldeias do norte, perto umas das outras, perderam as escolas, todas as escolas, e os meninos andam agora a pé ou de camioneta, entre os medos da estrada e da chuva, para acederem a uma escola grande, da sede do Concelho, onde as salas têm de ser divididas com armários para albergarem, abarrotadas, duas turmas. Os professores vão permanecer ali durante três anos: alunos e professores perderão os afectos desse tempo para se adaptarem a outras situações.
Sousa Carneiro explica no seu livro «Todas as Listas do Atraso» que o desenho e tais destinos têm contribuído largamente para o insucsso Escolar.
A escassez dos meios não favorece a Pátria


O Ensino Universitário, preso a velhas concepções de currículo e de projecto social em termos de carreira, imaginou-se guardião do espírito relativo ao conhecimento próprio do vértice representativo da arrumação comunitária. A verdade é que nenhum vértice, entre as pirâmides tumulares e outras construções similares, se justifica como mais importante do que a largueza e função da base. Só há poucos anos as tecnologias ganharam espaço, embora a investigação científica tenha ficado abandonada na minimização dos meios e isto apesar da capacidade inventiva que o país tem demonstrado a vários níveis. Toda a gente perseguiu durante anos o sonho de um «dr.», passaporte para o emprego, e a própria alternativa do Politécnico depressa demonstrou que os seus intérpretes não queriam trabalho de mãos e títulos de diplomados; queriam licenciaturas e doutoramentos, e lá foram, entre amigos e governos, conseguindo frutificar a sua ideia. Para alcançar professores do primário e do secundário, após licenciaturas e mestrados, os mestres do Ministério inventaram umas escolinhas com três anos de generalidades quanto às matérias curriculares, seguidos de um ano onde os alunos desenhavam como no mais básico dos velhos cursos de Belas Artes. Pois meus amigos: estes senhores, envolvidos por um celofane de ciências da Educação, passavam por docentes naqueles ciclos - e à frente de licenciados em artes plásticas ou design, com cinco anos de aprendizagens, que eram abandonados à sua sorte ou truques, num mar pantanoso de candidatos ao nomadismo docente, ano a ano, de aldeia em aldeia. O interior precisa disso mas claramente de outra maneira.
veremos depois desenvolvimentos a partir destas duas ideias

*********************************

mas entretanto é preciso adquirir: escolas, estradas rurais, centros de acolhimento, residências para estudantes, equipamento escolar básico, iluminação e aquecimento, rede informática entre universidades e centros de pesquisa, além de laboratórios e linhas de vídeo conferência entre nós e o estran- geiro, estruturas e suportes arquitecturais para a pesquisa artística e sua aplicação ao espaço urbano, exterior e interior. As autarquias têm de ser mobilizadas para estes critérios de relação, transformando a cultura numa relação profunda com o meio, não em festividades caloiras ou cortejos de carnaval.
As grandes cidades, com milhões e milhões de habitantes, são um cime contra a humanidade. Atraem populações carenciadas e mutantes do mimetisno, gente vinda do interior, o qual se deserifica e deforma o ordenamente territorial. As administrações e a descentralização de meios de formação e criativos devem proliferar para o lado profundo do país e ajudar a pacificar a orla marítima, carregada de esquizofrénicos e gastadores de chocolates

domingo, outubro 08, 2006

A CONSOLIDAÇÃO DO MAU GOSTO

parte de uma fotografia deRodrigo da Silva
____________________________________________________________


Sob a presença imperativa da imagem nos nossos dias, entre a publicidade, a televisão e todos os outros géneros de sedução por essa via, rendemos as maiores homenagens à captação mecânica e manual do visível, coisas do nosso apreço, os enquadramentos do mundo. Mas uma imagem não vale mais do que mil palavras, a menos que precisemos de mil palavras para a dizer. É através da palavra, com efeito, que pensamos a imagem. E é na base dos nossos patamares de cultura que acedemos mais ou menos à imagem, reduzindo-a a alguns nomes e adjectivos ou apurando o sentido do que descobrimos nela, invariavelmente por palavras (inerentes a conceitos). A televisão ocupa neste campo um imenso território carregado de lixos, informações, variedades de gosto e rapidez, atando cada um de nós ao vício de sentir visualmente variações inúteis ou de nos julgarmos mais dentro do mundo na vertigem do excesso e das falsas necessidades.
Estes computadores abandonados servem uma breve nota de Nuno Galopim (revista do Diário de Notícias, dia 12), a qual, por sua vez cita a seguinte frase de Isaac Asimov: Não receio computadores. Receio ficar sem eles. E o que receamos na indizível amplitude da televisão, um pouco da mesma maneira, não é a sua utilidade informativa e formativa: é perdê-la cada vez mais a cada dia que passa. Porque, em geral, a fabulosa descoberta da televisão converte-se aos interesses que a compram, não ganha autonomia para trabalhar de forma livre e responsável - inclusive em termos científicos, pela psicologia, sociologia, antropologia. No fundo, a televisão perdeu-se quase à partida, sobrando o que os grupos económicos julgam poder meter nela, sem a respeitar, sem nos respeitar, porque lhes importa que os ecrãs debitem um fluxo aliciante, contínuo e redundante de informações. Programas e publicidade justapõem-se, repetem dados, prolongam a mesma sensacional notícia durante dias.
É falso que os programas oferecidos pela televisão sejam o reflexo do gosto do público. A quantidade de soluções formais em estereótipo, patetas, gritantes, além da própria mediania do cinema, entre sexo, excessos, violências várias, horas e horas de futebol, restos da miséria popuplar, tudo isso, e só isso, pode configurar um dia de televisão, com os melhores programas (raros) a passarem às três da manhã. E é mentira que todos os cidadãos, apesar das perversões que os seduz, prefira viver noticiários e formatos programáticos exclusivamente naquele sentido. É certamente falso, também, que esse público não seja nada suceptível de reajustar hábitos, de se comover com uma novela de grande qualidade humana e existencial. Basta fazer a experiência com dois grupos de participantes, o primeiro exposto à televisão que emitimos todos os dias, o segundo confrontado com obras de valor plástico, estético, surpreendente, entre conteúdos diversos: a reportagem de fundo, que concentra a emoção, o cinema que envolve sequências de beleza, de força, de questionamento sobre a condição humana. Imagino que o resultado estatístico desta experiência premiasse sobretudo o segundo alinhamento.
Lembram-se do Villaret? Do Vitorino Nemésio? Ignoram sempre, na sua simplicidade física, as crónicas de Hermano Saraiva? Enfadam-se com a vivacidade e profundidade do programa «Prós e Contras»? Os estudiosos dos fenómenos da comunicação de massas defendem que a curiosidade pela exposição da tragédia, ou por temas repetitivos e sem valor de fecundidade, embora existam em abundância dada a violência dos nossos contextos, não abandonariam por isso, antes pelo contrário, os cenários de um maior e mais inventivo cuidado na programação televisiva, o seu comprazimento visual em termos abrangentes, variados e consistentes culturalmente. Abordagens ficcionais acima da média, na produção portuguesa, como «Olhos de Água» ou «Nunca digas Adeus» funcionaram em bons termos de audiência - e hoje, a despeito das «bruxas» Laurindas, o espaço nacional mostra-se a ganhar mais valias neste campo e ficou provado que a língua portuguesa, bem trabalhada, não deixa saudades salivares do inglês ou da brutal ressonância que nos chegam pela boca de muitos heróis americanos.
Estamos apenas aflorando o problema a meio da escala possível de valores. Nada do outro mundo. Mas daí para a frente, de forma complementar, crescerão gostos mais avisados, maiores interesses culturais, e talvez um esforço, da parte dos nossos directores de programas, para saírem da camisa de forças em que se deixam amarrar, por vezes com algum prazer, pela voracidade dos anunciantes e jornalistas cúmplices.
Vejam só: para que serve uma televisão que, entre dois programas medíocres, nos obriga a esperar pelo seguinte numa longa colagem de anúncios? Posso garantir-vos que já vi um programa inteiro de outro canal no intervalo da publicidade daquele onde estava inicialmente sincronizado. E falam os comerciantes da imagem mergulhada em poucas palavras, julgando poder assim encher o tempo e o gosto alheios, no cumprimento das regras da livre concorrência. Julgam que ocultar uma obra de Tarkosky às duas da manhã, ainda por cima rasgada por proibitivos blocos de publicidade, lhes alivia a consciência e lhes permite a maior das devassas, a vertente de todas as inutilidades, no chamado prime time, onde nem sequer se cultivam pequenos inserts aliciantes sobre a vida e a invenção do futuro.
Não tenho medo da imagem: tenho medo de perder o sentido dela.

quarta-feira, outubro 04, 2006

O GOSTO DO PÚBLICO É QUEM MAIS ORDENA

Se responder correctamente à pergunta seguinte poderá receber um prémio no valor de 200 euros. Que pergunta? Se estiver em Lisboa deve nomear o monumento onde se encontra a pedra mais degradada a partir de 1325. É impossível? Nenhum prémio é fácil, mas qualquer prémio, por lei, tem de estar dentro dos limites considerados possíveis, à luz da ciência actual. Não queria naturalmente que lhe perguntássemos os nomes dos jogadores do Benfica, ou do Sporting, ou do Porto. Porquê? Porque os sabe todos. Pode, em todo o caso, optar pela música, citando a obra completa de Beethoven, ou enviando-nos os títulos por e-mail até às 19 horas de hoje. O quê? Faltam vinte minutos? E então, queria que lhe pedíssemos para nos dizer o nome de um intérprete da música pimba portuguesa? Claro, é isso mesmo, precisava apenas de dois minutos para escolher e para enviar nome. Era excessivo facilitismo. E as bandas? As Bandas de todos os cantos do mundo? Incluiria essa informação mo capítulo da música? E sabe o nome das bandas de grande espectáculo do mundo inteiro? Mais ou menos não é resposta. E Portugal? Em Portugal conhece todas - isso sim, é obra. Ah, pois, mas tinha de dispor de mais tempo para as escrever sem falhas. Então nada feito. Nada. Nada mesmo. Em todo o caso, um pouco à margem, vamos dar-lhe a oportunidade de concorrer no domínio da literatura. Como? Não costuma ler muito? Mesmo assim, a pergunta é fácil: terá apenas de nos dizer quem é que escreveu «Amnésia», de 1962, e o nome do prémo Nobel desse ano nessa modalidade. Não se lembra? É uma situação comum entre nós, lá isso é verdade. Mas sabe quem meteu o golo do Benfica no início da temporada e qual o presidente desse mesmo clube. Claro? Acha que sim? Olhe que há muita gente que seria incapaz de tamanha proeza, embora conhecendo, noutro capítulo, um desportista português que se chama Carlos Lopes, por exemplo. Já não é praticante de desporto? Está gordo? E a Teresa Mota, diz-lhe alguma coisa? Calculava que lhe dissesse. O quê? Está velha e magra, dedica-se à caridade, já não pode competir. Nem a história lhe vale, coitada. Vejo como a sua cultura borbulha um pouco nesta área. Mudando de assunto, saberá então quantos anos tem José Saramago e quem escreveu «Alegria Breve», ou se Agustina Bessa Luis conhece Manuel de Oliveira, se a Maria João Pires toca clarinete, ou também se Columbano foi companheiro de Júlio Pomar e quem é José Quaresma, e ainda a quem pertencia, depois da conquista do Algarve aos Mouros, a praça de Alvor? E o primeiro rei de Portugal, lembra-se do nome? Muito bem, acertou. O Conde Andeiro, sin senhor. João Fernandes Andeiro, de seu nome completo. O senhor tinha o nome na ponta da língua, mesmo na ponta. E olhe: embora a título excepcional, visto que o nosso plano não era este, decidimos que tem direito de levantar junto do Marquês de Pombal uma varinha mágica, de boa marca, se se apresentar à nossa representação dentro de dois minutos e desde que seja possuidor do cartão de sócio, com as quotas em dia, do Silves Futebol Clube. Sabendo o nome completo do Marquês de Pombal, obviamente.

domingo, outubro 01, 2006

A DOLOROSA PERPLEXIDADE DA GATA

prólogo

Estamos em Outubro, escrevo no seu primeiro dia, e queria apenas agradecer a todos os que me leram ou visitaram, embora lamente que os contactos ou possíveis conversas não resultem de uma mais aturada leitura uns dos outros, independentemente da cultura redutora dos nossos dias de pressa e acumulações indizíveis. Grato por tudo, em todo o caso.
Queria contar-lhes o seguinte, ainda a propósito da morte de meu irmão, fatalidade pela qual recebi o vosso apoio.
*
Pouco depois de meu irmão se ter sentado ao computador, com o qual teqrminava um grande projecto de um grande e humanitário hospital, sucumbiu de forma fulminante, sem connsciência da queda que logo aconteceu. Em casa, uma empregada leal, feita gente de família, que tratava o meu irmão por pai, ouviu o estrondo e correu para o escritório: o pai estava deitado no chão, morto, com uma ferida na cabeça por ter colidido num vaso de flores. Ela abraçou-se a ele, chamou por ele, gritou para fora, telefonou para tudo quanto era eventual sítio de auxílio. Pouco depois, entre outros, dois médicos amigos confirmaram o óbito, ajudaram a arranjar as coisas, na ideia dos procedimentos necessários. O escritório ficou abandonado, silencioso, lavado de alguns fios de sangue escorridos da cabeça.
Daí a pouco, contudo, quando a turbulência dos humanos se diluíu e terminou em toda a casa, alguém podeia ter visto, como aliás aconteceu por acaso, a gata que vivia ali e ali acompanhava o meu irmão, num afecto interminável. A gata deitara-se, numa espécie de dor perplexa, à espera do impossível, no lugar onde o corpo estivera tombado. O nosso sentido imperfeito de transcendência fica por aqui, sem palavras.

sexta-feira, setembro 22, 2006

AS PALAVRAS DIZEM AS COISAS

São horas de vozes ocultas, murmúrios, meninos falando nos quintais, lá fora, eu atrás das persianas e sempre a usar luzes artificiais, doseadas na intensidade que imitava o dia. Fazer e desfazer, quase como nessa extraordinária ideia de que um quadro é uma soma de destruições, sofrendo a minha própria angústia perante os conteúdos indizíveis, alterados em metáforas pobres, em sucedâneos oblíquos, apenas capazes de apontar uma retórica alternativa no caminho aberto à frente, sobre nova tela. Desenhamos e colamos entretanto, quem me fala de longe? As velhas fotografias eram uma dolorosa inspiração, algo que renascia da sua ruína ou da sua referência, ocupando assim o lugar transcendente que se define na obra de arte e do qual não pressentimos senão aquele sopro de existência - a brisa que nos anuncia uma respiração ainda vital.
____________________________________________
pequeno excerto do livro A Culpa de Deus, de Rocha de Sousa

A CULPA DE DEUS
para um ensaio sobre o livre arbítrio
________________________________________________
aqui se dá notícia deste livro que será lançado
brevemente e apresentado em lugar a designar
*
Agora blasfema para o Alexandre, irmão ferido e entretanto sustentado, a par da escrita, pela fé ordenadora do Universo. «Deixem tudo isso, as feridas e os erros, o desalinho dos destinos, tudo, todo o sofrimento, todos os equívocos, meninos mal nascidos, sem olhos ou sem coração; deixem tudo isso porque eu já decidi responsabilizar-me, em declaração universal, por esse horror. Bem sei, só posso estar louco, louco e lúcido como o pobre Leo, esse que dizia viver em paz no jogo paradoxal da cultura da revolta. Godot faltou ao encontro, abandonou-nos junto à raiz da árvore que floresce e se despe de folhas todos os anos, ao correr do tempo, para sempre. Deus está morto, nem o corpo do filho foi encontrado. A terra vai ficar inóspita e silenciosa. Mas podem serenar, eu não vivo de ninguém nem para ninguém. E como é preciso haver um Deus, mesmo culpado ou a quem podemos perdoar, eu fico no lugar Dele».
__________________________________________________
Breve excerto do livro aqui anunciado, de Rocha de Sousa, nas livrarias em Outubro

ESBOÇO PARA UMA POESIA INICIAL


DISTÂNCIA
*
A prumo, de súbito incandescente,
um traço de imagens desfaz-se dentro de mim
e apaga e acende,
ora sim, ora não,
as letras escritas dedo a dedo,
batendo a tecla provável,
talvez tudo outra vez, num torpor,
talvez tudo pela névoa breve do vapor,
deus electrónico aparecendo e desaparecendo
do fundo dessa outra memória,
afinal tão remota e virtual quanto a nossa,
e perto, e longe, e feia numa só dimensão,
plano côncavo,
caverna platónica,
sombra ou sombras
da revelação sem nome de nós talvez,
ontem, hoje, amanhã,
nessa distância, enfim, da luz rápida entre centímetros,
distância sempre, agora e depois,
caverna de silhuetas que, explodindo na luz,
partem em todos os sentidos,
perdendo-se sem retorno, para nunca nais,
na maior das distâncias, o infinito.

quinta-feira, setembro 21, 2006

ESBOÇO PARA UMA POESIA INICIAL

VARANDA
Sorte vã na varanda do entardecer, um caminho talvez,
Sorte entre sombras e verde e laranja nas veredas do céu
ou nas encostas assim ainda salpicadas de luz,
portal, limite, lugar de partidas entretanto.
*
Oiço passos raspando a terra,
trabalhadores retornando do alto da serra,
dedos sobre a carcaça das roupas velhas,
velhos são os trapos que os dedos dedilham,
tudo devagar, em lassidão, perto do fim.
*
A varanda foi parte de certa casa colonial,
é agora amurada de um posto altíssimo e vital,
muito longe a cidade perdida das horas e dos sinos tocando,
embalada de brisas,
sonhos praticamente vogando
com a aragem trazida por milhões de insectos,
sempre acordados,
preparados,
a respirar num ranger afinal manso,
sons breves e surdos, ainda quentes,
entre outros emergentes.
Coisas que o chão abriga, encobre, esconde,
nessa geografia feita de arestas cortantes,
riscos coincidentes,
varanda afinal já cercada de ventos.
*
Oiço entretanto o batimento excessivo das minhas botas
memória de velhos camponeses e das enchadas deles
enquanto misturo a lembrança do areal cinzento
às dunas e encostas e juncos a convidar ao recolhimento.
Por aqui, antes do assalto da morte,
recejo mitos e ritos de quem colonizou a terra em volta,
heróis talvez para anfrentar no futuro a revolta,
cabeças inesperadamente expostas,
a rolar, a rolar, de olhos abertos e cegos.
*
Amanhã vou enterrar o que resta dos meus mortos,
tantos e tão poucos no jardim queimado,
por forma a ver depois,
da sorte vã da varanda ao entardecer
as cruzes toscas da espera inútil
por um verdadeiro dia de ressurreição.

segunda-feira, setembro 18, 2006

COMPRAZIMENTO DO VER


Margarida Cepêda: «Efêmero e Permanente»


Margarida Cepêda é uma pintora actual, intencionalmente vinculada a processos veristas no sentido de alcançar a essencialidade da composição, o lado surreal das coisas em mutação, a vida de complexas simbologias. Por vezes, algumas das suas peças mais complexas evocam pausas de encenações teatrais, o receio e o apelo pelo lugar longínquo de todos os mistérios, um amor imanente, um sonho sobre lagos, planícies, sítios paradoxais e frequentemente enigmáticos. Ao inventar personagens e evocar outras, do quotidiano ao sagrado, a artista congela o instante de uma acção, finge dessa forma a possibilidade de parar o tempo. Surgem assim cenas arrancadas ao visível, tanto diáfanas quanto carnais, e contra elas parece opor-se a a geometria da composição, o despojamento dos elementos e dos actos, a aridez perturbadora do contexto de cada reconhecimento.

AS VOZES ENGANADORAS OU A RELIGIÃO DA MENTIRA

Öyvind Fahlström


Conhece este livro? Nem o autor? Ah, também não conhece. Eu li um artigo que falava desta obra, embora o jornalista não mostrasse grande apreço pela forma. O que o seduzira concentrava-se nas áreas mais agressivas dos assuntos económicos, das sombrias urdiduras dos mercados entre pontos decisivos do mundo, estratégias das transnacionais e do tráfego de estupefacientes, coisas imensas e indizíveis, a vida dos ricos, o porquê dos pobres, doenças avassaladoras que devoram continentes inteiros, como no apocalipse. O que disse? É tudo maquinação dos jornais sensacionalistas e contra-informação das máfias em sucessivos desdobramentos - é essa a sua ideia? «Mais ou menos» não configura qualquer resposta. Ou então direi como Frédéric Beigbeder: «Se os pobres morrem é porque os ricos têm razão para viver» Imaginemos que eles têm razão mas em geral falta-lhes o direito, consoante engordaram e acumularam secretos proventos já lavados. «Em África, um branco que dirige a palavra a um negro já não tem a condescendência racista dos antigos colonialistas; agora é muito mais violento. Agora tem o olhar compadecido do sacerdotde que ministra a extrema-unção a um condenado à morte». De maneira nenhuma, esta agressão de que fala Beigbedec não se resume apenas aos casos verificados em África: o colonialismo vai e retorna, assume novas formas de reiterar falsos princípios, trafica armas e fomenta guerras humanitárias. Não há guerras humanitárias? A televisão, apesar de tudo, mostra-nos a deriva dos monstros. «Toda a gente que critica a Sociedade dos Espectáculos tem televisão em casa». O aborrecimento é inextricável da rede de todas as dependências a que chamam desenvolvimento e que não passam do mais decorativo dos novelos, crescimento apenas, lado a lado com os velhos trapos dos velhos vagabundos, milhares de negros a morrer todos os dias, crianças também, novos autos-de-fé para limpar o mundo dos que caíram em desgraça, etnias empobrecidas e por fim sujeitas ao pragmatismo de meia dúzia de genocídios . O totalitarismo publicitário chega até este inferno, parece o acto de Poncio Pilastos a lavar as mãos diante da decisão sangrenta, rasgada sobre os ombros de Cristo. O sistema que rege o mundo, hoje, vende gatos por lebres, entre representações persuasivas. «Vivemos no primeiro sistema de dominação do homem pelo homem contra o qual até a liberdade é impotente.» Não me olhe dessa maneira, não estou no domínio da heresia. «Os nossos destinos são destruídos e descritos de uma maneira bonita» Lembro-me de Calígula, não sei porquê, quando ele desejava a lua e quebrava todos os dias o espelho da noite. As necessidades não desabrocham do chão, nem da alma, inventam-se e comercializam-se. Imagens que dizem valer por mil palavras e que normalmente só se significam para nós através de nomes e adjectivos. «Nada mudou desde Pascal: o homem continua a fugir da sua própria angústia, entregando-se ao divertimento». Não acha? «O mundo é irreal, salvo quando é chato» Não volto a Beigbedec para dizer frases assim como verdades insofismáveis da nossa filosofia ou para alargar o seu sorriso céptico. Céptico sim, porque se curva na liturgia católica e pensa confusamente em Deus, em todo o caso sem meios para aceder a Ele. O homem inventou-O com a ideia perversa de O substituir um dia, todo poderoso. A fé está sob a alçada da publicidade e das grandes operações comerciais. É tudo nítido quando vemos a multidão na Praça de S. Pedro, em Roma, esperando a imitação do espírito supremo. Não quero ofendê-lo, tento apenas perceber os fios que ligam o Bem e o Mal, que enleiam doutrinas no mais decorativo dos novelos, lado a lado com os velhos trapos dos velhos vagabundos, milhares de negros a morrer todos os dias, crianças também, novos autos-de-fé para limpar o mundo dos que caíram em desgraça, etnias empobrecidas e por fim sujeitas ao pragmatismo de meia dúzia de genocídios. O totalitarismo publicitário chega até ao inferno, parece Poncio Pilatos naquele acto de lavar as mãos diante da decisão sangrenta, rasgada sobre os ombros de Cristo. O sistema que rege o mundo, hoje, vende gatos por lebres, entre representações persuasivas. «Vivemos no primeiro sistema de dominação do homem pelo homem contra o qual até a liberdade é impotente». Não me olhe dessa maneira, não estou no domínio da heresia. «Os nossos destinos são destruídos e descritos de uma maneira bonita». Lembro-me de Calígula, não sei porquê, desejando a lua e quebrando todos os dias o espelho da noite. «Não nos safamos de nenhuma maneira. Está tudo aferrolhado, com um sorriso nos lábios. Bloqueiam-nos com créditos a pagar, mensalidades, rendas. Têm estados de alma? Lá fora, milhões de desempregados esperam que vocês libertem o lugares. Podem refilar o que quiserem, Churchill já respondeu: é o pior sistema à excepção de todos os outros. E não nos apanhou à traição. Não disse o melhor sistema, disse o pior.»
«Em breve os países serão substituídos por empresas. As pessoas já não serão cidadãs de uma nação, mas habitarão marcas: viverão em Microsófia ou em Mcdonaldlândia; serão Calvin Kleinianas ou Pradaisas».
Veja como é inevitável e simples: sempre soubemos que há várias espécies de apocalipses.
____________________________________
Extractos em colagem do livro de Frédérico Beigbeder, «14,99, a outra face da moeda».

domingo, setembro 17, 2006

AS DIFÍCEIS ESPERANÇAS DO «SOL»


José António Saraiva, em plena escassez, lançou um novo jornal - O SOL, semanário - formato aconchegante e papel péssimo, concorrente declarado do EXPRESSO. Falando em entrevista com judite de Sousa, Saraiva ensaiou um futuro vitorioso, uma audiência cujo tecto sonhado parece coiosa da primeira semana, eventualmente seduzindo os leitores viciados nos jornais ruidosos, com grande cópia de notícias e surpresas ou intrigas da política e da sociedade portuguesa em geral.
Naturalmente que desejo bom sucesso ao SOL, mas, enquanto leitor do primeiro número, não posso ocultar que me senti razoavelmente frustrado: há uma pobreza física, intrínseca, nos cadernos desta publicação, mal impressa em papel rasca, com fotografias em quantidade mas quase sempre feridas de falta de qualidade, a par de uma paginação, ou organização formal, de forçada dinâmica, como se os assuntos se misturassem e os recursos do olhar se perdessem no ruído envolvente. Desenhado, o título diz-se fácil e para toda a gente. Mas toda a gente está habituada a logotipos da ciência gráfica, enquanto aqui, sobre uma mancha de céu (presumo) algum menino mais dotado desenhou um círculo amarelo, tortuoso como as duas circunferências sugeridas dentro dele. O S e o L, a preto, ficam pendurados à esquerda e à direita, acentuando a pobreza do conjunto e engolindo o O. «Sol de Esquerda» é, ao que parece, a coluna de Miguel Portas. Margarida Rebelo Pinto defende o espaço «Com muito Prazer» e brinda-nos, desde logo, com o sexo como forma de poder. «Corte & Cultura» mostra-se tão ao gosto do leitor, em tamanho, que nem percebemos se se trata de uma «coluna» A revista TABU acompanha o critério referido, engtre o quase sério e o digestivo, beneficiando de um papel (material) próprio para o fim desta parte da publicação mas perdendo-se no mesmo gosto dos bonecos (más ilustrações) e pouca substância de reflexão. Paulo Portas e Carla Quevedo convivem lá para o fim após páginas mais sedutoras na qualidade gráfica e fotográfica.
Esta minha experiência, olhar corrente e um pouco impulsivo, deve poder corrigir-se, quer do lado do jornal, quer presumivelmente do meu ponto de referência. Não quero nem posso ser definitivo diante de um bebé acabado de nascer e ainda por lavar.
************************************************************************************

sexta-feira, setembro 15, 2006

UM HOMEM DE REFERÊNCIA, HOMENAGEM NO LIMITE



Este homem é meu irmão. Faleceu repentinamente, enquanto trabalhava ao computado, na manhã do dia 13 de Setembro de 2006, aos setenta e seis anos, na cidade de Maputo - no país a quem dedicou uma vida, a todos e sem evasivas, com a maior das solidariedades. Moçambique deve-lhe uma obra esforçada nos caminhos de ferro e em muitos outros trabalhos de natureza técnica e cultural, a par da arquitectura, domínio no qual estava acabando pormenores de um grande hospital com elevado número de valências.
Toda a sua vida, amando a terra e as pessoas, foi assim: na família e na sociedade. O seu currículo poderia encher muitas páginas, mas o que verdadeiramente conta é, entre afectos, a obra que deixou, nas vias férreas, na arquitectura, na pedagogia, sempre a estudar as profundas questões da vida e da realidade universal, recebendo, das personalidades ao lado das quais lutou, o rápido testemunho de uma forte admiração, sob o efeito ensurdecedor desta morte súbita, sem dor, que lega aos outros, afinal despertos, a indeclinável obrigação de acompanhar o amigo, o homem que trabalhou até ao último segundo, crente no futuro e na evolução dos povos.
Este homem é meu irmão, porque a morta não o apaga em mim, memórias de outras memórias, da infância a uma vida afastada no espaço mas consolidada por longas e mútuas devoções, quer nos reencontros, quer pela partilha de sonhos e da semelhança de mitas escolhas. Presto-lhe esta homenagem, como os filhos, pela referência que ele represente e continuará a influenciar os nossos próprios limites, entre a saudade e o espírito solidário, alma da vontade de conhecer e de ser continuadamente - essa identidade cujo aceno nos é possível rever através de uma simples imagem.

quinta-feira, setembro 07, 2006

OS PAIS DO MEU PAI



Se o avô morreu não sei. Bato na porta com a pequena mão de ferro e ninguém responde. Também não sei se o levaram para qualquer outro lugar ou fim. Como sabem, cheguei ontem e decidi ficar.

terça-feira, setembro 05, 2006

A MÃO DE FERRO



Percebi tarde o desamparo
de haver esquecido em casa
esse entrave,
a chave,
segredo para cada retorno
ao esconderijo
de todas as urgências.
Chave mágica

que substitui a mão de ferro
e o seu batimento
por cada volta de quem chega
ao lugar multiplicável,
entre o sofá e a sua negação.

Eu sabia o que significa
ficar preso na rua,
sob a luz crua,
impedido sem prazo
de refazer o esconderijo
onde inventamos
o encantamento
de quando nos entregamos,
descalçando os sapatos,
ao prazer morno da lassidão
e às memórias
de todas as histórias inteiramente lá fora.

Cá fora estou,
horas a fio, enfim,
que o dia levou tempo para o entardecer
a fim da noite tecer
e as luzes dos outros tardiamente,
pobre gente em todo o caso chegando a casa,
contempoprânea da última viagem
do último eléctrico rangente, atroador e plangente.

Comecei então a atravessar a cidade com o fim de alcançar a casa de meu avô.

Uma noite de sono em caridade.

A mão de ferro da porta dele é velha, pintada de prata e ainda grata no seu bater já espalmado, de lata.

E agora a mão de carne empurra o ferro da mão prateada, quase sem tinta e amolgada,

barulho inquietante, parece enorne no silêncio restante.

Se o avô morreu não sei, nem sei se o levaram para qualquer outro lugar ou fim.

Sei, isso sim, que me tornei de súbito vagabundo, neste compacto cimento do mundo.

Sem-abrigo, impensavelmente antigo, enrolado sob a mão de ferro pendurada:

Espécie de vida amargurada

e os meus olhos a sangrar mais tarde já no emergir da madrugada.

quinta-feira, agosto 31, 2006

ESBOÇO DE UMA AGONIA


O calor em volta, passos breves na areia, a lua vai nascer. Há um planeta além que serve de bússola aos pescadores. Daqui a pouco, o mar à direita, começam a aparecer vultos na sombra, trabalhadores da candeia, e com eles vem a ilusão de que se acentua o batimento repetitivo das ondas baixas na orla do mundo. Hoje, com a temperatura morna da noite, vou dormir além, junto das rochas, atrás de uma pequena duna salpicada de juncos.
Aqui estou, acabando de comer uma sardinha seca e um bocado de pão duro. Olho de longe a brutal grandeza dos edifícios, ainda a jorrar luz ao longo da curvatura da baía, outrora uma larga praia de areia branca. Quando o terreno se torna vermelho, em formas tubulares que se desmoronam constantemente, o negro toma conta do espaço, encosta deslizante, aqui e além lances de pinheiros bravos.
Ao voltar a estas paragens do chamado mundo global, vagabundo sem abrigo como sempre, espreitando primeiro a cidade atravessada por multidões e mercados que transbordavam para a rua, a lembrar um velho filme de culto, Blade Runner, decidi conceder-me esta deriva de despedida, sentir na pele o alerta, dar descanso à minha solidão de protoplasma, no limite. O medo que alimentava em torno de muitas coisas, e que me retinha em casa a espreitar o mundo pelo buraco imperfeito da televisão, não era o de há pouco, estava implantado em mim desde criança - e assim mesmo, segundo as regras, tive que realizar o meu percurso humano, entre letras e artes, restos das escolhas ainda possíveis, partilhando as coisas e os lugares com escassos amigos, deixando em escrita manual páginas e páginas de uma propriedade trágica, sobre a qual, agora, nem eu mesmo seria capaz de discutir.
A expansão capitalista das necessidades, em efeitos de sedução que o estado redutor do pensamento ideológico permitia, ultrapassava todo o conjunto das necessidades normais de consumo, agravando de forma radical o alastramento das dependências, das novas epidemias, da fome propriamente dita e da fome patética do sexo, com recursos gravosos no trajecto entre ausências.
De madrugada, ou quando amanhece, vejo, da margem em que ainda posso habitar, imensas filas de carros, lado a lado e a perder-se na lomba longínqua do horizonte. No café de plástico que posso frequentar, a televisão vai mostrando as guerras em curso, no Mediterrâneo, na América do sul, Índia, Ásia, Ilhas da Indonésia - e assim por diante. Cinquenta mil mortos em castástrofes naturais, chuvas diluvianas, terramotos. Oitenta mil mortos nas guerras que decorrem, sobretudo a sul, e linhas sinuosas de colunas humanitárias um pouco por todo o mundo.
Sento-me. Como as sardinhas salgadas. Mijo contra a rocha, a cinco metros do meu habitáculo. Fito, durante muito tempo, a estrela que serve de orientação aos pescadores. Vou dormir, ou tentar dormir, mas acabo por vomitar a comida e por fim uma espécie de espuma branca, algo que me recorda a fronteira do mar, pequenas ondas borbulhantes, um murmúrio, a espera. Sento-me de novo. Penso naquela praia deserta, quando eu era criança e vinha com os meus pais de férias para uma casa alugada a gente do mar. Tenho as pernas em chaga, hoje, inchadas e dormentes - e procuro superar-me fixando a luz circular do farol, esse fogo que avisa os homens embarcados, trabalhando na pesca. Adormeço para acordar mais tarde, afinal já de madrugada, febril e nauseado. A luz do farol está apagada.

quinta-feira, agosto 24, 2006

TUDO ABSURDAMENTE TUDO

AS CICATRIZES SEM ROSTO

UM CÂNTICO PARA AS QUATRO ESTAÇÕES
Aqui estamos de novo. Agosto é uma ficção. O tempo não pode decidir em meu nome o que devo fazer ou quais as escolhas que podem caber-me em manhãs assim. Mas eu posso perceber os sinais dele, do tempo, a favor de quem fui, e contra a definição cronológica das cicatrizes, rasuras imprecisas na vagarosa presença dos muros ou das portas que se fecharam para sempre. Eu sei que estas coisas nunca tiveram um nome verdadeiro, contentam-se com alguns adjectivos. E sei por isso que elas não se olham da janela em movimento, entre as lágrimas produzidas pela brisa. São precisos os passos, a contemplação, o apelo à profundidade do olhar. Passos e paragens decididas, o corpo oferecido à exigência de cada situação, quer na obliquidade que nos permite observar a branca oscilação das paredes empobrecidas, quer nos vestígios de tintas assim. Posso dobrar a coluna para a frente, na aproximação óptica em direcçãao ao objecto, fenda, pedra, um pouco de cal, o cristalino a mover-se para fingir o que fingem as máquinas fotográficas partindo daquela relação orgânica ligada tanto à arquitectura do olho como à sensibilidade do ver.
______________________________________________
Um dia os passos vão acontecer fora do tempo e o olhar terá de perceber o cerco do mundo numa guerra e cheio de lixo. Não bastará a fenda exposta no muro de qualquer fábrica corticeira. Tudo será aburdamente tudo.
O sol queima a pintura antiga das paredes, abrindo pequenas crateras, casca breve e solta, desprendimentos reveladores de outros rostos já sem data, à clara luz do dia. Na esplanada, a manhã ainda fresca, os jornais dizem parcialmente, como é habitual, em página efectivas e titulares...

terça-feira, agosto 22, 2006

TEMPO ENGANADOR DE FLORES E FRUTOS



O sol aparece então queimando vagarosamente os rostos litorais e acentuando a poética das flores. Aparecem assim os jardins suspensos das árvores, o esplendoroso amadurecimento dos frutos. E há uma luz branca que começa a respirar mesmo antes do sol nascer, lembrando a natureza da pintura antiga e o seu encarniçado empenho na representação do real impossível, a morder com ternura os muros de pedra que separam as terras, minifúndios herdados de uma gente longínqua, talvez camponeses enlameados da Idade Média.
Na esplanada, a manhã ainda fresca, os jonais exploram as mitologias do local, manipulando páginas em efectivas e titulares, enquanto os conflitos do Médio Oriente são encobertos temporariamente, nas suas histórias de loucura e barbárie, orientados os objectivos de novo para o Afeganistão, reino inacreditável onde, em nome da civilização, as potências bem armadas acharam por bem escorraçar as gentes de lá, os que mandavam, os talibãs, oa que obrigavam as mulheres a se vestirem da cabeça aos pés, e as imagens eram por sua vez interditas, as estátuas, as pinturas, as fotografias, os livros profanos, o cinema ou o teatro. Os meninos, por outro lado, recolhidos em escolinhas quadradas, em volta de mesas quadradas, aí só aprendiam oralmente o Livro Sabrado, que recitavam liturgicamente horas e horas a fio. A par disso, ouviam as vozes que sangravam o Ocidente, inimigo e senhor de todo o Mal.
Desse lado, com efeito, mal ou bem, as sociedades investem cada vez mais nos grandes espectáculos, trinta mil pessoas sob o choque sonoro de tempestades ensurdecedoras, como aliás no cinema e nos largos espaços do consumo mais frenético do que nunca, apesar de haver gente conservando a memória de uma outra dimensão sagrada e do mítico Extremo Oriente.
A verdade é difícil de iluminar. Os meninos talibãs, depois de rapazes, não confundem tanta informação e consumo como no Ocidente. Se descobrem uma Mullher da Primavera, de pés descalços e rosto destapado, havendo sobre isso indícios de adultério ou coisa muito semelhante, os rapazes quadrados levantam breves autos de acusação.
A Mulher da Primavera é então sumariamente morta à pedrada.

quinta-feira, agosto 17, 2006

A FACE DO TEMPO OUTONAL






foto rocha de sousa
Setembro vive a sua passagem para as contingências da face outonal do tempo. Entre esperanças de recomeços, a fome. Entre olhares para a distância, o sonho. Soltam-se nas cidades reactivadas os jovens da decadência universal e os combates, pelas mais diversas razões, acontececen um pouco poor toda a parte. Os grandes espectáculos do consumo são máquinas de exploração trivial mas engordam comerciantes e gestores de futilidades.
Ali pelo Alentejo, a cheirar a brisas, há um palacete antigo, de latifundiarios emigrados, que se tornou sede do município e foi pintado de um amarlo intenso. Amarelo entretanto esbatido, tocado por manchas vazias, como grandes sobras inertes.
Os velhos, despojados das searas, sentam-se em bancos de pedra, olhando por vezes o cinsento da casca dos sobreiros e ouvindo, longe, bem longe, o ruídos dos carros passando na autoestrada. Os cães, também sem trabalho e gemendo a sua fome e a sua ternura, passam pelos velhos, ficam a olhar para eles, à espera de uma voz, de uma dádiva. Só bem tarde, e antes dos velhos, se arrastam para dentro das casas, sentindo a escassez dos próprios cheiros e deambulando pela tijoleira à espera do osso do jantar.
Neste como noutros casos, os ossos foram sempre duros de roer.

segunda-feira, agosto 14, 2006

O BRANCO LENTAMENTE








fotos rocha de sousa


Um dia, em Setembro, o céu tornou-se branco cinza. Uma aragem cortante atavessou o litoral e deixou as águas do mar paradoxalmente aquecidas. Depois, quando despertou em mim a idade da razão, funcionando cordenadamente com a abertura da consciência, começei a ouvir falar de uma guerra distante, que já abalara o Verão anterior, e que mostrava entretanto as primeiras estratégias a fim de se deslocar para Leste, sob o peso de invernos colossais e temperaturas dezenas de graus abaixo de zero. À noite, em Dezembro, eu ficava a olhar, perplexo, para a figura de meu pai debruçada sobre o rádio, o ouvido colado ao aparelho na expectativa de aceder às notícias emitidas em ondas curtas pela BBC. Durou muito tempo, essa guerra - Segunda Guerra Mundial, sempre se disse - e entretanto a escassez de bens básicos de consumo começou a fazer-se sentir. Eu ía comprar o pão com senhas de racionamento e via as mulheres dos operários corticeiros muito pálidas, brancas de morte, brancas de Inverno, esperando a sua vez na comprida fila de pessoas. Pensava para comigo, vendo a cortiça ser exportada de Portimão em grandes cargueiros, não sei para onde: «a guerra é tão longe, Portugal nem está metido nela, e mesmo assim há esta pobreza imensa, combates visíveis da praia, entre aviões inimigos». E um dia, passeando com um primo meu pelo deserto (nesse tempo) de Monte Clérigo, vi ele correr a fim de observar o corpo carbonizado de um piloto germânico cujo avião fora abatido quase sobre a espuma das manhãs, fogo e frio, carvão sangrento e areia branca, as dunas.
O branco das cidades do sul, inventado pelos árabes por razões têrmicas, acinzentava-se lentamente, ganhava fendas e cicatrizes, retinha a humidade das nuvens em bolsas de cal.

terça-feira, agosto 08, 2006

FUNDAÇÃO INFUNDADA

Guerra Civil Salvador Dali
*
Esta obra fabulosa de Salvador Dali poderia servir de base a uma grande instalação a construir em qualquer dos nossos espaços museológicos - com a vantagem de nos ser dado a ver nela os terríveis males do século passado, as dantescas guerras e os milhões de mortos, advertindo as gentes de hoje, ainda embrulhadas em panos manchados de sangue, para os sinais do apocalipse que parece aproximar-se, trabalhado pelo homem e pela própria nNatureza. Artistas importantes, quer no passado, quer nos dias que correm, seguiram e seguem este caminho - em parte como Picasso com a Guenica - enquanto outros, conceptualmente, o fazem de forma obscura, algo reticente, ao mesmo tempo carregada de angústia colada ao fascínio. E tudo isso me ocorre agora, duvidando dos sonhos e da arte como verdade, ao ler uma notícia sobre Cabrita Reis, artista que se tem notabilizado no nosso país e no estrangeiro, por potencialidades de génio próprias e por acenos e apoios que em Portugal se concedem aos privilegiados, mesmo correndo o risco da desconstrução moral como sucedeu há bem pouco tempo com Maria João Pires, pianista que o país venera e que ela, generalizando, tratou de forma indecorosa, já instalada no Brasil para onde partiu definitivamente, como os reis de outrora - ou os ricos, património às costas, também viajando para aquele país (tão português que nem sabe) na altura conturbada do pós 25 de Abril de 1974.
«Esvaziar-se a grande galeria central do Centro de Arte Moderna Azeredo Perdigão tornou mais pertinente as dúvidas que existiam sobre os planos para o respectivo museu e a sua colecção, além de também ter vindo sublinhar a falta de uma exposição de primeira grandeza no início das comemorações do cinquentenário da Fundação Gulbenkian. Mas o talento e o brio de Pedro Cabrita Reis serão certamente suficientes para ocupar o espaço que lhe foi entregue por Rui Vilar, com vista à criação de uma instalação de grandes dimensões que aí vai ficar exposta até Abril de 2007. Cabrita Reis está diariamente no CAM a instalar à vista do público a sua obra, a que chamou Fundação, com recurso a alguns materiais e objectos vindos dos aramazéns da Gulbenkian e usando também paredes de tijolo, estruturas de acço e lampadas néon. A inauguração será só no dia 15 de Outubro»
(revista actual, Expresso, 5 de Agosto de 2006).
*
Estas atitudes, tomadas entre nós num circuito intermitente da megalomania, aplica-se por inteiro ao actual caso (novo caso) de Cabrita Reis, e é, com efeito, de uma desproporcionalidade gritante, coisa gigantesca onde «flutuam» os materiais do costume: tijolo, madeira, aço, e o muito reaparecido néon. Sou admirador do percurso do autor, tendo seguido a sua produção e reflectido sobre ela, mas para comemorar os cinquenta anos da Fundação Gulbenkian não era preciso, nem talvez conveniente, voltar a isolar o trabalho de Cabrita Reis, como se fez em Veneza, como se faz quando calha, num dos mais fortes cultos de personalidade que as artes também perfilharam outrora, aliás bem assumido e bem gerido pelo autor no que lhe compete, em termos artísticos e pouco mais. A problemática ultimamente abordada por Cabrita Reis inscreve-se em modelos estéticos da actualidade e a prestação dele, em volta de tal campo, é culturalmente muito inteligente e bem coordenada, saborosa na encenação que faz das suas próprias coisas e de si mesmo: ali estava ele, na fotografia da revista, de pé, sem capacete de protecção, fato escuro, um charuto entre os dedos, instalando a obra ao vivo, necessariamente com apoio de operários qualificados. Dos materiais já se falou, juntam-se por uma lógica que nem sequer é recente, e aos quais Cabrita Reis adiciona por vezes coisas capazes de importarem para o domínio do absurdo, restos ou memórias da pessoa humana no seu detalhe anímico.
Sem excluir Pedro Cabrita Reis, se ele aceitasse estar com os outros, penso que esta comemoração deveria aspirar ao que foi a abertura da Gulbekian, as centenas e centenas de artistas que ajudou, as interactividades que gerou: então justificava-se esvaziar o museu e reconstruí-lo de forma plural, na diversidade de meios e explorações, portanto pedagogicamente, científica e poeticamente, onde muita gente se poderia reconhecer. Descontando a desavisada, mas eficaz e grandiosa, construção de dez estádios de futebol, o sentido nacional da obra, que era obviamente de todos para todos, como se viu, agarrou a população numa verdade interior, numa dimensão que Portugal, macerado do século XX, parece sentir necessidade de reencontrar, mesmo imolando-se por vezes no consumismo supérfluo e nas viagens pseudo-turísticas. Serão poucos, apesar de muitos, os visitantes que irão circular durante um ano em volta da soberana instalação de Pedro Cabrita Reis.
____________________________________________________________________

sábado, agosto 05, 2006

A CASA REVISITADA





Cheguei ontem e decidi ficar. Ficar assim, olhando os restos de quem fui, ou de quem foi por mim, entre palavras. Tenho a casa toda para esta disponibilidade porventura irreversível, com o rascunho da morte empilhado ali, num monte de papéis velhos, tinteiros, carimbos, canetas de aparo, postais já sem destinatário.

Alguém morreu no quarto ao lado, ficaram os objectos. Coisas, retratos, roupa escura, ou essas marcas enigmáticas nos calendários de cores desbotadas. Alguém morreu desse modo, um pequeno caos em volta, passos, eu chegando e partindo como se o futuro se atrasasse por cada viagem de novo. Mas o futuro chegou mais cedo, quando a casa se enchia do perfume da roseira, depois de inscrever quase súbitas rasuras no rosto de quem o esperara de outro modo. Chegou a esse rosto, à clara luz do sol, deixando-lhe estranhas assimetrias na boca, a voz soletrada, um fio finíssimo de saliva ao canto dos lábios. Assim, breve, contra a paisagem de cal.

Abertura do romance e Rocha de Sousa, A CASA REVISITADA, distribuído prla Dislivro e impresso na gráfica J&L. A obra divide-se em duas partes: 1 nostalgia dos anos intencionais. 2 reencontro no murmúrio das raizes.

quarta-feira, agosto 02, 2006

O HOMEM DA ILHA



A Madeira é uma ilha portuguesa, com estatuto de autonomia, cujo aspecto, tocado pela vegetação e pelas flores, e hoje também pelo cimento, lhe confere de há muito, na gíria popular, o nome amável de «Jardim». Uma configuração destas, vogando majestaticamente em pleno oceano Atlântico, atrairia na época moderna cada vez mais turistas e a respectiva indústria, transatlântico iluminado à noite, pérola das mais raras e mais sedutoras. Este jardim flutuante tem o seu governo, o seu capitão ou governador, como é próprio de articulações geopolíticas assim. Mas o que surpreende àqueles que apreciam metáforas, trocadilhos ou coisas parecidas, estrangeiros do norte, por exemplo, gente do sul, mediterrânica, é a coincidência da ilha, dita jardim por analogia com esse género de ornato ambiental, ser governada por um homenzinho pitoresco que se chama Jardim, ocasionalidade assaz discordante quanto à configuração dos dois protagonistas. Isso não singnifica que o Governador, homem da ilha, não seja flor que se cheire. Ele apenas se bordaliza através das suas travessuras e pelo rosto de pequenos olhos cuja semelhança com pérolas é coisa longínqua, ostentando uma cabeça redonda e polpas faciais. Portugal, dizem os optimistas, é um país de brandos costumes e as gentes das ilhas, arquipélagos da Madeira e dos Açores, são particularmente doces, afáveis, com um sotaque na fala que mais acentua a ideia de simplicidade e o sentido insular da espera.
João Jardim, o Homem da Ilha, Governador incontornável da Madeira, não tem a grandeza mítica de Fidel de Castro, mas garante que revolucionou o território - e há trinta anos que o engorda com hotéis e grandes apertos de cimento, correndo riscos próximos de matar a galinha dos ovos de ouro, como terá de acontecer no Algarve, mesmo sem autonomia. O desenvolvimento, que não se confunde com crescimento, pode tornar-se explosivo quando se mistura com este ingrediente para além do limite que a Natureza e a natureza humana são capazes de tolerar e (por fim) de sustentar. Até porque a miséria não se irradica à sombra de hotéis de dez estrelas. esse problema tem de passar pelo verdadeiro desenvolvimento social, da coordenação do trabalho e das vocações etárias, de uma economia que não corrompa o ambiente e a justa distribuição da riqueza.
O Homem da Ilha tem os seus talentos, ninguém os nega, mas, talvez por se conservar no poder há trinta anos, perde dia a dia o sentido de Estado e a noção de respeito que deve aos outros, na linguagem e nas contradições. Estou a ser brando, para fazer jus à tradição do país, mas a verdade é que só uma nação pequena em quase tudo consegue arranjar pachorra e silêncios benignos perante as provocações que o senhor Jardim lhe atira, algo que, da última vez, incluía um achincalhamento inacreditável e, como sermpre, um conjunto injustificado de alcunhas O Governador Jardim grita que a Constituição do país, e o próprio Sistema Político, têm de mudar, porventura à sua imagem e semelhança, mas esquece-se do seu frequente comportamento inconstuticuional, na extensão sancional imaginável. A verdade é que aquele Documento, benigno e comprido, não garante, a muitos títulos, medidas fortes contra certas prevaricações - a própria destituição dos líderes partidários malcriados, deputados inconvenientes perante os seus colegas e a comunidade. O Homem da Ilha, ao assumir tais comportamentos de falas soezes, lembra o perfil de certos ditadores sul-americanos, de agora e de outro tempo. Neste caso atirando ditos corrosivos, atrapalhando as liberdades e o sentido da comunicação social, político em desproporção ao cumprir três mil inaugurações numa semana, gente perplexa em volta ao imaginar o que terá acontecido naquele território, a este ritmo, durante trinta anos. Jardim não se detém, muito menos na fala, e por ele os seus colegas, na rua e no parlamento, em Lisboa, são cubanos, canalhas, trafulhas e caloteiros, palhaços incompetentes na Assembleia da República, todo um vocabulário do destempero, do manobrismo, pois a própria dívida económica da Madeira ao país é metida na algibeira do paletó, enquanto se faz apregoar a falta de financiamento à região, apesar do muito milho gasto por lá em termos megalómanos.
Meus senhores - e o dr. Jardim que me desculpe - a verdade encoberta, ou esventrada, é de certeza um dos pecados maiores. Do Jardim insular até ao Inferno são apenas meia dúzia de quilómetros. A Madeira é Portugal e Portugal está certamente sulcado pelos milhares de inaugurações efectuadas, entre impropérios, ao longo de três décadas. Há gente assim, habituada a fazer guisado dos princípios e da ordem democrática. Tais cidadãos não têm vocação para o trabalho imenso que, pela acção governativa, se reflecte na educação das populações a par da edificação harmoniosa do território. Não sou jornalista mas sei que não é preciso escrever despachos ordenando os orgãos da comunicação a se apresentarem decentes nos lugares como a Assembleia Regional e outros lugares litúrgicos. Tenho orgulho no meu sentido de cidadania, deste direito de me expressar na Madeira, como agora, e aqui reitero que considero irreflectidas muitas das afirmações atrás referidas, bem menos adequadas ao bem parecer do que os fatos de trabalho dos homens dos jornais e televisões. É perfeitamente inconcebível que um governante ofenda os seus pares, em Lisboa, no Funchal ou na Europa, sem que o mais leve sinal lhe seja comunicado. Fala-se de cobardia ou de indiferença. Mas uma coisa não anda longe da outra e a educação dos portugueses passa pelo exemplo de quem gere o seu futuro.

quinta-feira, julho 27, 2006

OS DESASTRES PRINCIPAIS

foto de Nasser Nassier
Há dias, na revista Visão, Lisa Beyer escrevia sobre a situação no Médio Oriente: «O Hezbollah, um grupo radical xiita que opera livremente a sul do Líbano, matou oito soldados israelitas no seu ataque inicial de 12 de Julho e, desde então, lançou centenas de foguetes contra Israel, abatendo quatro civis». Desde a «invenção» territorial de Israel, arrancado eufemisticamente a zonas pobres, pouco povoadas, onde outrora tribos ainda nomadizadas se digladiavam por uma pausa em sobrevivência, que os conflitos de rejeição e similares têm marcado o tempo segundo a cadência dos desastres principais, os que tocam de forma indelével a história da humanidade. Digamos que os casos mais graves, envolvendo vários países daquela zona, se situaram em 1948, 1956, 1967 e 1973. Hezbollah, constituído em 1982, não descurou a sua principal finalidade -- a negação e apagamento total do Estado de Israel. Este objectivo tem norteado os vários movimentos que combatem na Palestina, quer se evoquem os mais antigos, sob a batuta de Arafat, quer se refira o Hamas, um dos que mais radicalizaram a sua posição, tendo sido, por estranho que pareça, muito recentemente e de forma maoritária, eleito para enquadrar e dirigir a nova Autoridade Palestiniana. O primeiro ministro desta realidade política, primeira entre todas, nos termos em que se definiu, desde a formação do Estado de Israel, é agora líder do Hamas em Gaza, Ismail Haniya, rodeado de escolhos por todos os lados. Mahmoud Abbas, Presidente da Autoridade Palestiana, procurou, na base inicial das perspectivas entretanto delineadas, estabelecer com Haniya um espaço político onde Israel seria implicitamente reconhecido no quadro das suas fronteiras fundadoras. Israel, contudo, ainda está longe de qualquer aproximação desse género, mesmo se algmas vezes se esboçaram plataformas de entendimento. No momento, com as retaliações dos israelitas em consequência do rapto de um dos seus soldados, a partir de uma operação espectacular desempenhada pelo Hezbollah, os cenários de uma guerra de grandes contornos surge como hipótese temida nos céus da região, contrariando, segundo os turistas em fuga, a missão de Cristo por tais paragens, em nome da salvação dos homens, deixando a marca dos seus passos e das suas palavas, de acordo com a memória bíblica, suspensa do futuro. Um futuro que, bem vistas as coisas, nunca aconteceu consoante o projecto.
Haverá algum dia nesta terra, não uma trégua ou um tempo de paz entre parênteses, mas a verdadeira pacificação de espaços tão erradamente assumidos pelos homens, pelas nações, pelas mitologias religiosas? É terrível, seja qual for a nossa visão do problema, ler o que escreveu, a certa altura do seu texto, Lisa Beyer: «para além dos incentivos que possam obter, o Hamas e o Hezbollah nunca precisariam de uma justificação específica para atacar Israel». Atacar Israel é a sua própria razão de ser. Os Estados Unidos, com ou sem Bush, não podem na sua aliança, e sob pena da destruição universal, amordaçar todo o Médio Oriente, nem o Irão ou o Paquistão podem imolar-se pelas tentações hegemónicas que suscitam um projecto idêntico, com meios de destruição quase total. Mas a verdade é que o pensamento concentrado destes homens distende-se da urgência, porque a história não é feita assim. Para além de um resultado particular, a perspectiva em que funcionam é de longo prazo, sedimentada nos islamitas: «com o tempo, décadas ou séculos, se necessário, Israel acabará por ruir». Seja como for, talvez baste comparar a rapidez e a eficácia dos israelitas em 1967 com o tempo pesado dos últimos anos do século XX, ou mesmo agora diante de um Hezbollah bem treinado e bem armado, para nos interrogarmos, em perplexidade, qual será o fim e a configuração geoestratégica desse anunciado desastre principal. Ou estaremos, também sem data, colocados perante a hipótese de um novo holocausto, com parte dos mesmos protagonistas e outras vítimas, outros milhões de mortos, outras imensas sequelas sem tratamento 8sequer) a médio prazo?

sexta-feira, julho 21, 2006

A CULPA DE DEUS


para um ensaio sobre o livre arbítrio
Após a pausa que sublinha as primeiras deglutições, eu próprio saboreando o deslisamento do café pelo esófago, agradeço a intervenção de Jerónimo, sublinhando que em parte ela servira de introdução à nossa possível conversa sobre os meus textos, o método empírico mas baseado numa lógica de acasos e estatísticas decisivas, a ideia de uma procura multidisciplinar nas fontes e na informação retida, uma pesquisa ética e estética também, tudo isso em torno da possibiulidade de haver sinais plausíveis, embora relativos, sobre o homem enquanto projecto e prática de Deus, ou seja, a natureza da condição humana, a sua origem, o anátema do livre arbítrio como arbitrariedade antecipada do Criador ou consequência de uma Criação afinal limitada, quase cega, destituída da bondade inifinita a montante do caminho universal e responsabilizadora das escolhas humanas a jusante dessa complicada via, o risco da vida, a fronteira da nossa consciência perante a falta de qualquer dimensão cósmica mensujrável, Coisa indeterminada, efectivamente sem nome, mesmo que lhe aceitemos a transcendência e a absurdidade ao falarmos do que suspeitamos pertencer-lhe. Não é do meu interesse, com este trabalho e os cruzamentos de indormação que ele implicou, entre memórias, tragédias ou perdas irreparáveis, atingir a orla falsamente inteligível do mundo, um sinal furtivo da eventual construção de tudo em volta. O meu trajecto tanto pode ser científico como subjectivo e poético, mas não é fixável, no seu termo, em tabelas conhecidas, em iniciações de base, tecnicamente provadas. O devaneio onde circulam lembranças da guerra, dos afectos, da doença e da miséria, acontece marcado a fogo pela angústia de ser, do ser, observando os ditos e convenções de um pensamento ainda epidérmico, inevitavelmente parecido com o dos meus semelhantes. Pode lembrar uma viagem, esse devaneio, a gestação caótica e mesmo infundada na longa espera dentro da Arca de Noé, o Dilúvio cercando a nossa indescritível fragilidade, enquanto muitos dos recolhidos, mais novos, se instruíam (ou se instrumentalizavam) escrevendo bíblias, invenções para o Antigo Testamento e símbolos ajustáveis aos actos ensurdecedores de um Deus impaciente, contraditório, ainda exigindo sacrifícios e proibições sem sentido. Quando choviam rãs do céu, ou outras coisas assim, os sinais da vontade de Deus, em nada explicados, obrigavam os médiuns sacerdotes a imaginar uma legitimidade para cada horror. O desconhecido, mil vezes mais oneroso e complexo do que a nossa actual ignorância, podia por isso mesmo ser abordado a partir do medo e de abusivas interpretações, sempre as menos dispendiosas - desde o efeito dos astros sobre a terra até às práticas de uma cultura mágica, entre nomadismos e guerras tribais, tendo em vista, mais trade, a conquista do território na lógica de uma produção sedentarizada, pela definição de uma ancoragem assente em grandes defesas e no sacrifício da inocência.
OOO
Extracto do livro «A CULPA DE DEUS», de Rocha de Sousa, que se encontra em vias de ser lançado pela Editora Tartaruga, do Porto.

sexta-feira, julho 14, 2006

A MEMÓRIA DOS LIVROS


Lembram-se daquele famoso livro de Bradbury sobre a morte dos livros, levado ao cinema por Truffaut, a história de uma sociedade futura onde os bombeiros não se destinavam propriamente a apagar fogos mas antes, e ao contrário, a procurar o maior número possível de publicaçõess, queimando-as em praça pública com lança chamas. Pragmático, Truffaut narrava esta monstruosidade quotidiana de forma rigorosa e sucinta, como a coisa mais natural deste mundo. Pensamos em «1984», de Orwell, o mundo globalizado na mais vigiada das ditaduras, na qual a «máquina» da repressão era conhecida por Big Brother. Em Bradbury, ou no filme de Truffaut, a realidade repressiva, a castração cultural pela queima inquisitorial dos livros, todos os livros, tocava sobretudo os cidadãos que sabiam os perigos que corriam se lessem um livro, ou se os tivessem em casa. E todos os que os que não se conformassem com tal amarração silenciosa, como sempre acontece, ou se resignavam ou resistiam. E a palavra de ordem (secreta) era resistir. Resistir consistia primeiro em fazer um esforço para esconder muitas obras em casa, frequentemente descobertas pelos bombeiros-polícias e queimadas. Para além disso, muitos cidadãos procuravam um exílio nas montanhas, nas florestas, e aí os intérpretes dessa atitude passeavan de um lado para o outro, decorando os livros, ou dizendo-os em voz alta, ou ensinando-os aos mais novos. Formava-se assim uma biblioteca universal oralizada de geração para geração. A civilização humana, e com toda ela a sua identidade cultural, acabaria por sobreviver contra as mais sofisticadas tecnologias de apagar o seu verdadeiro rosto, apagando-o do conhecimento das pessoas.
Ao lembrar-me deste filme quero afirmar que penso numa situação semelhante relativamente a nós, com ou sem globalização. As editoras florescem por aqui e por ali, em Portugal, e editam toneladas de livros por semena. O que parece positivo. O que parece progressista. Mas quem tem acesso a essas editoras, que prospecção autoral fazem elas nos meios da escrita e do pensamento, sem ligar ao sopro dos poderosos nos ouvidos? Quais são, enfim, os critérios das suas escolhas? Ao falar com um amigo meu desse sector, e perante as minhas próprias queixas quanto aos verdadeiros casos descobertos, que são repelidos pelas editoras, ele disse-me que os livros continuam a ser queimados. O que chega às bancas são ilustres conhecidos, para quem há bastante tráfico de influências, e depois um monte de traduções, de livros da moda, de um outro novo escritor que conseguiu, sabe-se lá como, furar as malhas das fronteiras do Big Brother. «Talvez não seja tanto assim. Tu é do meio e estás pessinista». E ele, sorrindo de soslaio para continuar a marcha, perguntou-me:«Tens livros para publicar?». Respondi que sim, que tinha pelo menos uns seis originais. Com um aceno, este meu amigo lançou-me um repto: «Então tenta, vai lá falar com os chefes livreiros».
Pausa.
Enchi-me de coragem e comecei a percorrer as editoras, algumas dirigidas por pessoas que conheciam a minha obra pictórica, alguns livros didácticos, e muito trabalho de ensaio jornalístico. Esperei um ano pela primeira resposta: que eu escrevia muiro bem, mas o livro não estava ao alcance do público, sendo demasiado ambicioso; outra instituição, dirigida por um amigo meu, devolveu-me o original no dia a seguir ao da entrega, porque não estava dentro do novo plano editorial agora em vigor na Casa, abocanhada em parte pelos espanhóis; um outro director editorial garantiu-me a excelência da obra, embora soubesse de antemão que não venderia maia de cem exmplares do livro.
O país está queimado, florestal e cultruralmente. Os novos livros, de novos autores, têm que ser entendidos como uma prioridade, sem tráfico de influências, porque grande parte deles é muito importante, representam uma porta aberta para um futuro onde os homens dizem livros na floresta. O embuste cresce, sobretudo quando se faz passar gato por livro, da Vinci em dourados ou relevos, luxos caros e nem sequer asiáticos. Qualquer editora que se prese, e que não queira sucumbir ao mercado global, selvagem, redutor, terá de desenvolver actividade prospectiva, por todos os níveis etários com obras inéditas, e terá de reservar anualmente um tecto, uma cota, em ordem à publicação de livros desconhecidos, de autores desconhecidos, jovens ou velhos, que escrevem por vezes obras primas em breve queimadas nas gavetas.
Se percorrermos os circuitos de um livro, desde a sua génese, à sua difícil fecundação no útero dos livreiros, até aos «distribuidores» e revendedores, compreenderemos que as metodoligias do achamento de obras e de tratamento delas está velho e rodeado por pessoas que julgam saber tudo, até de um marketing que continua a gaguejar. Tudo é velho, rotineiro, sem associativismo, carredado de intermediários que ganham mais por unidade do que o criador da obra. Nas livrarias, emergem meia dúzia de últimas peças de um autor, por exemplo, e soçobram bem depressa para a prateleira, pois a nova tonelada de temas paeudo-religiosos e com letras douradas está a chegar.
Os ouvidores da República, de má fama, servem agora para outras coisas bem menores. O Santo Grall é com eles: o que se vende e o que não se vende

terça-feira, julho 11, 2006

UMA GUERRA ESQUECIDA

pintura a de Rocha de Sousa: «Acto Irreal» sobre a guerra colonial, salvamento de uma criança, indeterminação dinâmica da corrida, um ser arrancado aos tiros
Ao ver na televisão, quase todos os dias, mas em fragmentos repetitivos e sem geografia, as guerras que incendeiam o mundo na actualidade, lembro-me de uma outra guerra, praticamente já esquecida, para a qual fui mobilizado de súbito, compelido pelas leis que nesse tempo determinavam a obediência obrigatória, e mesmo cega, às determinações do serviço militar. Depois de ter regressado dessa comissão num mundo de assombro, que nos rasgava e pele com os espinhos da selva e deslumbrava perante os crepúsculos cósmicos, as chuvas imensas, o murmúrio dos insectos ou pássaros deslizantes.
Nas palavras de Salazar, essa guerra - «todos para Angola e em força» - consistia no direito supremo de defender e salvar a nossa Pátria, multiracial e pluricontinental. Projecto ao contrário do que dizia o «terceiro mundo» sentado nas poltronas da ONU. Projecto que já tinha exemplos mansos, mas enganadores, e alcançava a sua errática grandeza nos ano 60 com a «capitulação» de deGaulle na frente já muio larga e duradoura que fervilhara na Argélia. Franz Fanon, defensor dos movimentos de libertação nacional e estudioso dos fenómenos étnicos ou político-militares, conhecia perfeitamente como tudo se gerara depois da II Guerra Mundial, as raizes, os apoios, os níveis e as diferenças tribais entre fronteiras de conveniência. Mas o próprio Fanon murmurava, de forma cauelosa e pertinente, os efeitos da repentina transição de povos situados no limiar da história para o centro civuilizacional do século XX.
Não vou abordar esta matéria, dada sua complexidade e os estudos comparados que é preciso desenvolver. Tudo isto veio apenas a propósito de um quadro que evoca a guerra de Angola, entre outros que produzi, e da estranheza que sempre me acompanha quanto à surdez que, entre nós, desabou sobre esses acontecimentos. Não houve um rasgo nacional, uma campanha literária e artística, debates de estudo sobre a natureza dos respectivos fenómenos e sua projecção no futuro. Alguém costuma dizer que o país tinha vergonha, que os mortos espalhavam o seu peso pelas serranias e pelas aldeias, retornados, tardiamente, em caixões de metal. Só os batalhões passaram a fazer encontros anuais, em almoços de confreternização e uma missa pelos companheiros perdidos. Ainda acontece, já de mistura com famílias e filhos. Acontece mas não tem mediatização, não é analisado como fenómeno humano e de afectos leais, de retratos baços, de rostos jovens que se tornaram pesados, sorrindo novas comoções pelas comoções de outrora.
Há livros escritos, breves centenas sem verdadeiro esforço editorial. Versos em edições de autor. Contos em volta daqueles anos estranhos, diluídos entre a ternura e o medo. Mas isso não tem a dimensão dos encontros institucionais que as universidades poderiam ter desenvolvido, com a ajuda de tanta documentação e testemunhos vivos de que dispomos. Não se trata de defender ou negar a legitimidade da guerra, como ela se fez, bem e mal, e se prolongou por catorze anos apodrecendo. Não é disso que se trata. Aprendemos todos o que havia para aprender, após disfarçadas castrações da ditadura. Mas depois da libertação de 74, depois do abrandamento das feridas principais, os nossos homens pensantes deveriam ter-se interrogado fora dos exílios sombrios, deveriam ter colocado os acentos nas palavras, dizê-las, lembrá-las, tornando legível o nosso «Apocalipse Now» enfim apontado pelos meios de comunicação e pelas artes, incluindo os poucos filmes que tocaram o problema ao de leve, iluminando o país ainda mordido de dor, um país a sentir-se absurdamente culpado.
Quando estoirou a guerra civil em Angola, uma guerra muito mais grave e doentia da que os portugueses fizeram sem arrasar cidades nem parar o desenvolvimento, pensei de novo em Fanon. Escrevi «Angola 61, uma crónica de guerra» e disse tudo o que vi, o que senti, o que perdi. Disse então, ao escrever a última parte, que imagem tinha de Luanda, na distância marítima:
« Uma última torre persiste no horizonte, é como alguém que se distinguisse na multidão, como em Alcântara, e nos acenasse um derradeiro adeus. Depois, na atmosfera lilás, tudo desaparece. Angola deixou de existir».

segunda-feira, julho 10, 2006

O MEIO E O MODO


fig1 fig 2

A propósito dos problemas postos pelas novas tecnologias, a constituição de um meio que atravessa a realidade virtual e pode estabelecer-se nesse mesmo meio, como coisa ou modo, isso não faz desaparecer, nem imutilizar, outros meios, os tradicionais, ou a mistura desse com os outros. A caixa do campo digital que o computador coloca à nosa disposição para vários tipos de registos é um meio elementar de trabalho com o qual, em todo o caso, podemos desenhar e pintar simulando quase por inteiro a manualidade (ver fig 2). Por esta relação, imitando ou libertando a imagem inicial (ver fig. 1) que se trata de um quadro a óleo, podemos observar até que ponto a mudança de meio muda o modo, isto é, a forma, ou se deixa aproximar dela. Esta questão é muito importante no domínio das disciplinas de índole artística, pois a permanência dos antigos e tradicionais meios de operar, dos quais sairam pinturas naturalistas ou violentas no caso expressionista, é uma questão consistente. Não se trata de tornar inúteis os meios entretanto conhecidos, nem a Hitória morreu, como pretenderam alguns, e muito menos a Arte. Vão surgindo novos meios ou processos de manejar os materiais, o que alarga o espectro visual e cultural do nosso espaço. Muitas dessa proposições são arte pública, povoa a realidade urbana, tornando-a mais significativa e habitável.
No exemplo destas duas figuras semelhantes, dois meios diferentes permitiram, por modos similares, obter figuras igualmente idênticas. Não se trata de dizer que isto tem de acontecer ou deve acontecer. A pintura feita a computador mostra diferenças formais advindas das técnica e intrínseca ao meio, mas a outra também não coincide com a realidade conhecida - um homem e um porco, em atitudes terminais, vindos não se sabe donde nem porquê, caíram ali, é uma espécie de metáfora que o pintor inventou. Toda a arte, de resto, passa quase sempre pelo imaginário, mesmo quando imita algum objecto que nos é próximo ou muito familiar. As semelhanças existem, inclusive quando não as sentimos logo. Mas as diferenças de meio para meio, de modo para modo, são incontroláveis. Cada meio tem uma identidade própria