sexta-feira, janeiro 12, 2007

O CARTEIRO JÁ NÃO BATE À PORTA




fotos rocha de sousa
O que mais me fascinava na minha infância era a chegada do carteiro, que batia com uma só pancada no batente da porta da rua e gritava arrastadamente correio.O homem apoiava o grande saco de cabedal no poial (a mala), e retirava de lá, em resmas, as cartas que meu pai recebia em abundância. Todos os dias acontecia assim e era certeiro.
Quando vim estudar para Lisboa é que tomei contacto com as caixas de correio por habitação, no hall dos prédios, casinhas como pombais, de ranhuras na parte superior. Enquanto houve porteiro, sinal luxuoso da civilização, as casinhas eram bem conservadas e os pombos-correio
retirados à tarde ou à noite, pelos residentes do edifício. As civilizações parecem grandes barcos à vela e todas elas se afundaram, no passado, com o peso cada vez maior dessas lonas e o lixo que acumulavam. Assim também acabaram os porteiros e as casinhas de lata começaram a ser desrespeitadas por meninos ladinos, brancos e pretos, enquanto os mais velhos, na esquina da rua, fumando o seu cigarrinho, se preparavam para coisas de homens, mais arriscadas e produtivas.
Hoje, em muitos lugares da cidade, ou da civilização decadente, os carteiros deixam o correio em lances de porta a porta, ou no senhor Silva, merceeiro, vizinho dos vizinhos todos.
Era eu menino, vejo agora nitidamente, e todos nós associávamos a vinda do correio com a chegada à cidade de um combóio madrugador, de passageiros e mercadorias, conhecido por combóio da manhã ou combóio do correio.
Rocha de Sousa

segunda-feira, janeiro 08, 2007

TEIXEIRA LOPES, GRANDE ARTISTA MAL-AMADO


desenhos em técnica mista de Gil Teixeira Lopes
Janeiro 2007, Palácio Galveias
«O que simboliza a arte senão a alegria e a tragédia?»
Esta frase de Álvaro Lapa adapta-se bem ao percurso de Gil Teixeira Lopes e às injustas omissões que o meio português lhe tem aplicado. Como noutros exemplos relevantes. Num trabalho incessante, sempre nasceram de Gil os sinais de uma forte alegria telúrica e as marcas veementes da dor, da memória trágica ou das perdas indizíveis. Agora, entre o espólio de desennhos incontáveis, provas ensurdecedoras do seu gosto pela largueza do gesto projectado na impressão de gente sem retrato, tintas dominadas a meio do acaso, riscos de renúncia e descoberta, a alegria, enfim, da mistura com os sulcos da tragédia, paradoxo da arte, ou desfocagem da morte, ou a sagração das formas que se acomodam em albuns manchados, improváveis, vividos sob o olhar de uma nova emoção. Esta presença, que recupera obras dos anos setenta é bem um pórtico para a compreensão da importante obra gravada de Teixeira Lopes.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

A CULPA DOS CULPADOS


dos jornais

Um sobrevivente de Auschwitz regozijou-se, num sorriso melancólico, com a morte de Saddam Hussein. Fizeram-lhe ver que, nas actuais circunstâncias, era impossível estabelecer comparações com Nuremberga, por exemplo. O velho judeu encolheu os ombros e não falou mais durante toda a tarde, acomodado a um canto da sala daquele debate semi-institucional.

Sinto-me como aquele velho, embora não seja capaz de assumir a silenciosa dignidade dele ao escutar jornalistas qualificados esgrimirem sobre questões como a pena de morte, a prisão perpétua, o vil enforcamento de um homem (tirano embora) nos últimos instantes em que aparelhavam o equipamento do acto final. Não sou capaz porque a mancha de hipocrisia em que assentam os nossos conceitos, e permanece em geral escondida por protocolos e etiquetas, explode um pouco por toda a parte, de súbito muita gente civilizada falando de direito, de oportunidade, de propaganda, de vingança, de moral, de respeito humano, de mera política legitimando-se no caos -- tudo isso como se o nosso rosto tivesse de cobrir-se de vergonha com o acto cuja origem, no fundo, se ligava a anteriores decisões de Busch e de um tribunal titubeante (além de encurralado) na frente da guerra do Iraque, dos interesses jogados sobre a mesa pobre de populações mal-amadas. O que me faz alinhar aqui estas palavras, e apesar de também de discordar da pena de morte, é a pulverização de uma causa que, perante todos os mal entendidos da história e da história dos déspotas, só se pode abordar sem emocionalidades patéticas como as debitadas em torno (ou a propósito) da condenação executada de Saddam. A teoria política da justiça, a este nível, tem de fundamentar-se no plano científico, na medida ética e moral, em sentido perfeitamente ontológico e não na babugem das raivas menores, na obscuridade de um homem que praticou crimes contra a humanidade e poderia ser levado para o pequeno jardim prisional, destinando-o a regar as plantas durante a vida, até à morte. A demagogia que se espalhou pela comunicação social, os pruridos de políticos ingénuos ou manhosos, os culpados julgando a culpa, tudo isso me conduziu à indignação.

Continuando imóvel durante três horas, pelo menos, o velho sobrevivente de Auschwitz talvez se lembre de coisas mais próximas, os militares provocando ou sancionando a morte, em meses, de oitocentos mil africanos, entre países ´contíguos. Talvez pense nos gaseificados, na tortura ainda em uso, ou no enforcamento, na cadeira eléctrica, na injecção letal, que se praticam nos Estados Unidos. A beleza funconal da guilhotina. A morte pela fome. Os efeitos, assim, da ira irracional dos homens, que fazem despertar a habitual ira de Deus. Como deveriam ter sito tratados (se o não fizessem eles mesmos) Hitler e Staline? O julgamento de Nuremberga serviu para quê? Para exercer a justiça, tomar decisões dedicadas à memória futura? Há crimes graves, políticos ou outros, por todo o mundo, a maior parte deles impunes. Não façamos da nossa culpa, por inteiro, mero espelho dos verdadeiros culpados.

Rocha de Sousa ! Jan.07

quarta-feira, janeiro 03, 2007

POR AMADEO DE SOUZA-CARDOSO



Não vou abrir os livros, dicionários, enciclopédias, tratados. Amadeo de Souza-Cardoso, agora largamente apresentado na Fundação Calouste Gulbenkian e contextualizado com outros autores da sua época e de outras latitudes, mostra-nos bem quanto é importante o nosso patrimóno cultural (entre casos e casos), aliás definitivamente avançado em muitos tempos ao longo do percurso civilizacional que ajudámos a formar nestes últimos dois mil anos. Um país configurado a partir dos movimentos territoriais e vontades de ultrapassar os escassos limites da sobrevivência, dotado de perto de dois milhões de almas, caldeado por diversos povos, unificado na diversidade da sua origem, Portugal não tem que se humilhar, mesmo agora, perante os altos e baixos da sua história e da história que o envolveu. Até porque, descontando os gigantismos alheios, preparados nos grandes actos coloniais e de expansão, a leste e a oeste, os portugueses foram dos principais construtores do mundo conemporâneo e chegaram a estar a montante da linha de saberes que abriram o mundo ao mundo. Esquecemo-nos disso, com frequência, deprimidos por comparação com os consumismos que nos chegam de fora, produções fúteis, condicionamentos de grandeza física, escalas tecnológicas e outras. Nada disso deve nortear o nosso comportamento, até porque petencemos, de facto, à Europa -- esta junção mitigada de vinte e sete nações -- centro de uma civilização que chegou bem longe no entendimento do ser humano, dos valores, direitos e deveres que o definem, prática social, avanço nas áreas de ponta do conhecimento. Estamos aí. E, além do mais, deixámos marcas sensíveis por todo o mundo, grandes países que falam a nossa língua e podem evoluir até espaços temporais de sobrevivência do próprio planeta. Dar exemplos é inútil. Falar dos heróis, das aventuras marítimas, das crises do século XX e de emigrações gloriosas, também pouco importa. Ou melhor: pouco importa quando nos desejamos focar num dos primeiros grandes pintores do século anterior, importante sem dúvida, pioneiro da arte moderna e das vanguardas igualmente, embora os poderes actuais das outras culturas o não tivessem descoberto à dimensão a que merecia, tanto mais que morreu novo e o seu país entrou em crises de regime, em ostracismos culturais. Os que menos se atemorizam com tais distorções da história, sabem que Amadeo deverá ser revisto, reconquistado e projectado no plano europeu, para não falar de outros. Porque o seu pioneirismo se situa efectivamente no vértice de uma revolução artística travada sobretudo a partir de França mas que hoje se distende, se reafirma e se contradiz no plano global (por muito perverso que este conceito possa vir a revelar-se).
Amadeo de Souza-Cardoso, cuja formação mais avançada decorreu em Paris, mas também nessa espécie de «exílio em casa» que o atingiu durante a Primeira Grande Guerra e que o haveria de recolher pela trágica epidemia, a pneumónica, que assolou o mundo na segunda década do século, mostra-se, a partir da maturidade mínima, capaz de seguir ou antecipar particularidades estruturais e conceptuais nas artes plásticas então a abrir-se em diversos caminhos. A «espátula» que Cézanne aplicava à geometrização ou nivelameno das formas, no próprio terreno da paisagem, isso levou Amadeo para as planificações das áreas pictóricas, entre configurações representativas e encenações bidimensionais do campo. A cor que pratica, dispara no espaço, utilizada com sabedoria entre os tons negros, concentrando toda a dinâmica interna do quadro. Tem forma. É espontânea, da larga escala à arrumação quase caseira de certos aglomerados figurativos. E, além disso, a tranformação foi mais longe, a outros pontos (como «A Cabeça Verde»), fronteiras do expressionismo e do surrealismo, premonições de alguns territórios cubistas, enre vários. Não estão lá as teorias, porque não teve tempo de as reescrever, mas estão as consequências antes mesmo das confirmações a jusante.
Seria bom que este homem fosse mais estudado. Qua a sua obra fosse divulgada e contextualizada por peças dos media, audio-visuais, interpretação tratadista. Não como hoje se faz para alguns autores engalanados a despropósito com livros imensos, catálogos e textos a triplicar, enviesando a história pelo ostracismo ideológico ou meramente preconceituoso que os mandantes dedicam a muitos outros. É que em vez de um Amadeo poderíamos ter vários -- nas artes plásticas, nas artes do tempo e do espaço, cinema, teatro, dança, controlando o efeito colonial nocivo (porque nem sempre o é) dos espectáculos megalónamos.
Rocha de Sousa

sábado, dezembro 30, 2006

NOTÍCIA SOBRE A AULA EXTRA





AULAextra

Aula extra foi o nome atribuído à exposição homenageando antigos professores da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Belo trabalho instalador num pavilhão rectilíneo, em esferovite. Uma quantidade de obras de qualidade apreciável, demonstrando como a passagem do tempo tem alterado os meios e os modos de formar, entre várias gerações e autores de cunho actual, representativos do processo contemporâneo português. Obras apelativas que muitos tentaram esquecer ou fazer esquecer. Na inauguração, aliás concorrida, faltava a comunicaçlão social, excepto um solitário câmara man que deve ter filmado durante três minutos. Parece que um canal de televisão dedicou ao acontecimento cerca de 30 segundos.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

JANELAS PARA UM MEMORIAL DA INDÚSTRIA CORTICEIRA

fotografias

de Rocha de Sousa





AS JANELAS DO TESTEMUNHO

MEMORIAL DA INDÚSTRIA CORTICEIRA

AS BARCAÇAS FLUVIAIS

AS MIGRAÇÕES DOLOROSAS






As ruas ribeirinhas da pequena cidade do sul, tortuosas, recebiam as grandes vias verticais, radiantes, que desciam o monte arábico. Entre camiões velhos e artesanais carros de tracção aninal, os assalariáveis deambulavam por ali, horas a fio, à espera das barcaças que subiam o rio e vinham carregar fardos de aparas de cortiça. Portugal tem sido o maior produtor dessa matéria vegetal, em quantidade e qualidade. Fechado à exportação do produto virgem, a fim de segurar uma exclusividade transfirmadora, o país retirava deste sector parte importante das suas receitas, rolhas, bóias para redes de pesca, placas para a feitua de tapetes de banho, ariculáveis. Mas a grande concentração de operários, cerca de cinco mil, pelo menos, criava ali um polo de tensão. Nem sequer os salários eram a questão maior deste espaço social.
Manhosamente, oferecido a pressões exteriores e combatendo a força reivindicativa das unidades fabris do sul, o governo decretou no sentido de abrir ao mundo a exportação da cortiça em prancha, preciosidade arancada às árvores de nove em nove anos, com reservas de alternância durante esse tempo, e levada para os cargueiros que a esperavam perto das praias. As barcaças recnvertiam-se para este serviço, aliás praticamente igual, e apontavam, em vabas, aos costados dos navios. Por seu lado, os camiões, com ganhos relevantes, também transportavam as pranchas de cortiça, atadas em torre à caixa traseira do veículo, levando-a para o porto de Lisboa, mais seguro e operativo relativamente a estas operações de grande calado.

A crise fora desencadeada depressa, politicamente, e as fábricas assim acossadas começaram a arder, uma após outra. O material que detinham permitia provocar incêndios colossais, assombrosos, sem que se conseguisse descobrir de forma irrefutável a causa, um processo natural ou provocado. Tudo ardia a velocidade indiscritível e erfam chamados de todos os lados bombeiros para tais batalhas, não tanto a fim de apagarem o fogo mas de evitarem que ele saltasse para outras fábricas e casas em redor. Dias depois, com velhos rebuscando as ruinas fumegantes, os operários partiam para o note, para o Montijo e Alhos Vedros, entre outros sítios. Os donos da empresas deslocavam-nas, com o dinheiro do seguro, para lugares mais compatíveis com a competição dos custos de transporte. Entretanto, os trabalhadores migrados chamavam para junto de si a família, mulheres e filhos. Mas a sua vida profissional abreviava-se: hove bem depressa novos fogos e novas deslocações, fábricas repartidas em unidades menores, salários encolhidos. Na pequena cidade do sul, as ruas estavam desertas e nunca mais tocara o sino ao meio dia, nem se viram os grupos de trabalhadores deslocando-se então, na hora do almoço.

Os potugueses viveram longamente assim. Circularam amplamente nos mares e traziam para o país especiarias do Oriente. Mas não passavam desse lucro para o investimento na transformação e distribuição das novas matérias. Dois milhões de almas, apenas, fizeram o Brasil, usando tudo e todos os escravos possíveis.Quando se lê a história de Manaus, na área da borrecha, onde foi mesmo construído um teatro de ópera, com pedras trabalhadas idas de Lisboa, percebe-se que o sonho é grande demais para sobreviver aos poços que lhe seguem no tempo. Lá ficaram, no Brasil, cidadezinhas interiores, com a sua igrejinha, e engenhos e fazendas, porque, enquanto isso se fazia, o negócio intercalar absorvia toda a criação futura. Como os citrinos do Algarve, que os produtores, incapazes de criarem empresas absorventes da laranja local, bemcomo a sua distribuição, foram soçobrando aos intermediários e muitos deles vendem hoje nos mercados as pequenas e luzidias laranjas vindas de Espanha. Que farão eles, os espanhóis, das nossas belas laranjas?

Presos a uma crise, presos à cauda desta Europa mole e sonolenta de mordomias, os portugueses continuam a traficar: vem jogadores de futebol, com intermediários e tudo.

Rocha de Sousa


quarta-feira, dezembro 27, 2006

UMA GUERRA SEM INIMIGOS


dos jornais

Se, durante a longa guerra colonial, o nosso país registou, em catorze anos, cerca de nove mil mortos, imangine-se quantas perdas se registaram na antiga Metrópole, nas estradas, em igual período de tempo. Por outro lado, antes das auto-estradas (e mesmo com estas) as filas de trânsito foram alcançando densidades irreparáveis e muitos acidentes. Causas: cansados, os portugueses ouvem há dezenas de anos, invariavelmente, as mesmas -- velocidade excessiva, abuso do alcool, manobras perigosas.


Esta sinopse da tragédia revela-se claramente redutora e peca pela falta de uma análise mais exaustiva: em Portugal, por exemplo, é possível enfrentar uma ultrapassagem em rampa limpa, sem sinalização, que afinal, e de súbito, se trata de uma lomba e oferece hipóteses terríveis de desastre.


Os sinais dentro das localidades constituem uma espécie de jogo do adivinha, labiríntinco, sem nexo, nem o devido escalonamento no sentido das saídas ou das entradas. Nas estradas os pecados institucionais são muitos: falta de sinalização, nenhuma razoabilidade das nuances de cada percurso. A velocidade máxima é única para todo o lado, quer num percurso de curvas, quer numa recta de oito quilómetros, aberta de ambos os lados.


E quanto à metodologia da polícia de trânsito, ao contrário do que se diz, a «prevenção» é feita de esperas, armadilhas mecânicas ou estratégicas. Parar. Vasculhar tudo. Criar tensão e nunca distensão. Radar, vídeo, carros disfarçados a duplicarem a infracção de quem perseguem. Além do mais, patrulhas estacionadas entre os arbustos, na berma da estrada, na modorra da tarde. Ao lado é o trânsito denso, os camiões e as filas de carros por quilómetros. Tudo isso ntraumatiza e leva facilmente o condutor a cometer erros. A polícia não tem que esperar ninguém, de radar na mão. A polícia tem que dispor de meios móveis (motas, por exemplo) para acompanhar o trânsito, o seu pulsar, decidindo quando deve desfazer uma fila, parando os camiões durante minutos e descomprimindo os ligeiros da excessiva pressão acumulada. Assim abrirá espaço e gestos soltos, evitando-se os disparos de irracionalidade dos condutores enlatados.


Aqueles carros estacionados, com agentes por ali, que levantam de tempos a tempos o sinal de paragem, são uma forma arcaica de exercer vigilância. O sinal de paragem usado assim é psicologicamente errado, simula a vontade totalitária, torna-se aleatório em demasia. Nada disso tem a ver com a vigilância e tratamento do trânsito rodoviário, nem com a necessidade de minimizar as estatísticas da morte. É preciso estudar toda esta problemática, a par dos traçados e outros aspectos das rodovias, acabando-se com as confusas explicações para a habitual carnificina.

APOCALIPSE NOW

quinta-feira, dezembro 21, 2006

PREFERÊNCIAS




Quero deixar aqui bem expressa a minha confiante admiração

por estes dois jornalistas e colonistas ou comentadores.

Quero declarar que a voz certa de Sousa Tavares

tanto nos alerta

seriamente para os bens e os males do mundo

como sobretudo a escrita de Clara Ferreira Alves

numa espécie de nomadismo antropológico e sociológico,

nos compromete através das suas crónicas na Única.

Digo assim a minha posição, num voluntarismo que a alguns

pode parecer mitificante ou político,

mas que se circuncreve ao olhar e à percepção

que tenho das coisas,

o gosto por elas, e também a viagem através da escrita

destas pessoas

invulgarmente apetrechadas no seu campo de trabalho.

A lucidez de ambas, passando pelo nosso crivo de avaliação,

convida-nos a melhorar a nossa própria prestação

nos meios e pelos instrumentos

onde e com que nos afirmamos.








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domingo, dezembro 17, 2006

AS NOITES DOS SEM TECTO



O que vemos aqui é apenas o que resta de uma sociedade profndamente marcada por processos de exclusão, cujas noites albergam milhares de pessoas sem tecto, os sem-abrigo, vidas inteiras dormindo nos recantos da arquitectura, sob a bruma das luzes ou a claridade das montras ainda acesas. As fotografias aqui propostas são da autoria de Paulo Alexandrino, a quais, entre outras, ilustraram um trabalho de entrevista a sem-abrigos desenvolvido por Carla Amaro. (revista do Diário de Notícias, 3 de Dezembro, 2006.

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A CÉU ABERTO

Jacinto achava soberba a reabilitação do Carlos ao livrar-se da dependência do álcool. A sua língua, enregelada pelas drogas, não deixava por isso de chalacear sobre o papel dos ricos nessa reconversão. Mas há códigos de honra entre esta gente da noite, os sem tecto, os sem-abrigo, o que implica a partilha de certos valores e bens -- a comida, por exemplo. Jacinto só leva a comida que lhe é distribuída «para evitar que uns comam duas ou três doses e outros nenhuma» Tem as suas exigências: «Este pão não é de hoje. E ouça lá, trouxe-me os pijamas que lhe pedi? Onde estão os cobertores casaco-cama que me prometeu na semana passada? Os que tina roubaram-me. A mim roubam-me tudo. Mas não estou para apanhar porrada dos meus semelhantes, já bastam os pontapés que às vezes levo dos putos ricos que saiem bêbados das discotecas. Que é isso do albergue. Já lhe disse que não me deixaram ficar nesse sítio com a desculpa de eu ter abandonado o programa de desabituação do consumo de álcool.Também não me quiseram nos Ascólicos Anónimos porque não gostavam que eu usasse nas reuniões a bomba da asma. Nunca mais lá pus os pés. Há vícios e vícios. No Intendente, contam-se pelos dedos os que não são viciados em heroína. O padre Henrique aparece por aí. Diz que a sua missão é tirar da rua os que puder. Mas os nossos traumas fazem com que gostemos destes cantinhos em pedra, sentimo-nos com mais liberdade. Que raio, o pão está mesmo duro. Eles pensam que, lá por não termos onde cair mortos, perdemos o paladar, comendo por comer, comendo tudo só para encher a barriga. Digo mesmo que alguns desses pãozinhos-de-leite que andam a dar-nos sopa, mais valia que se metessem nas casas deles, confortáveis e quentinhas. Como isto anda, é caso para lhe dizer: aproveitem as casinhas enquanto as têm. A mim já me tiraram tudo, só não me tiraram a vida. eAí a sonhora da máquina fotográfica o que pensa que anda a fazer. E aquele que escreve tudo o que digo? Vieram espreitar a pobreza alheia? Se calhar ainda a acham bonita, era só o que nos faltava. Ó minha senhora, para que quer saber a minha história? Vai resolver o meu problema? Arranjar-me um emprego? Vá-se lá embora que a minha miséria não interessa a ninguém,

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Esta recriação em torno da entrevista já referida respeita as frases citadas, embora aqui aglutinadas em forma de fala única como reforço da sua intenção expressiva e de testemunho.

3 de Dezembro de 2006

dois graus positivos







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segunda-feira, dezembro 11, 2006

PROJECTO K



O Cidadão, chamado ao Palácio, como o agrimensor do Castelo, em Kafka, era consultor do Projecto K. Mas, quando chegou ao Palácio, ninguém lhe respondeu, apesar da sua longa insistência. Usou as campainhas e o forte batente do portão mas, com efeito, não obteve resultados. Resolveu então descer o caminho até a aldeia, no sopé do monte, e foi sentar-se num café que por lá havia. Bebeu leite fresco, esperou o tempo que a paciência lhe consentiu e acabou por fazer uma primeira chamada para o número de telefone que lhe haviam confiado quando da solicitação dos seus serviços. Ao cabo de um ou dois minutos de espera sob a monótona repetição da campainha, retinindo renitente na distância, ninguém veio atender-lhe a chamada. Ficou surpreendido. Fumou um cigarro e esperou um pouco mais. Quando accionou o telefone pela segunda vez, pareceu-lhe que o toque era mais forte, e dispôs-se a falar. A campainha retinia de cinco em cinco segundos, obviamente remitente, e o tempo parecia uma toalha de àgua espalhando-se pelo chão do café, obrigando os freguese a sairem dos lugares, alcançando uma especie de palco onde havia igualmente mesas e um móvel antigo cheio de loiças. O cidadão esperava, desesperava, aterrado com o destino de quem o chamara e lhe dissera da urgência em tratar novos problemas do Projecto K. Pensava, ao fim de três horas de telefonemas, que vivia num Estado de Direito, beneficiando da liberdade própria do regime democrático, e isso conferia-lhe o poder, nestas circunstâncias, de retirar-se. Contudo, procurando achar um pouco de calma, voltou ao Palácio, premiu as campainhas com força e usou o batente do portão com grande veemência. Mesmo assim, nada obteve através dessa mudança no uso dos meios. Olhou para as câmaras de vigilância, imóveis, mas claramente apontadas ao lugar em que se encontrava. Pareciam mortas, as lentes estavam cheias de pó. Ancioso, o cidadão decidiu rever os dados que apontara, retirando da algibeira do casaco um pequeno maço de papéis, nos quais, logo na primeira folha, podia ver as notas que tomara durante a chamada do Palácio - o lugar, o dia e a hora, problemas ligados ao Projecto K. Em boa verdade, ele ignorava em que consistia tal projecto, quais seriam os seus objectivos finais, após anos e anos de trabalho sectorial, em construções principalmente de metal e betão, algo que se parecia, sob o papel e nas maquetas com as antigas refinarias do século XX. O seu trabalho, circunscrito a uma determina área de terras expropriadas, estava no entanto aparentemente ligada à energia de fusão, trabalho secreto, fraccionado para despistar os intuitos mais legíveis. Tudo começara nas fundas caves do Palácio, obra que parecia revestida por sucessivas reconstruções, evocando estranhamente a Idade Média. Paradoxalmente, o primeiro piso surgia bastante iluminado, paredes lisas, paredes brancas, espaço que contornava um grande suporte central de trabalho. Esse "cenário" ocupava pouca gente, apesar da sua amplitude, embora parte dos circunstantes fossem altas patentes militares, tratados com deferência, a par de professores, ciêntistas e muitos técnicos informáticos. Essa gente não primava por grande actividade, aparecia e desaparecia tomando notas, acrescentado aqui e além simulações nos módulos de trabalho e nos computadores portáteis espalhados pela mesa. O cidadão convocado era especializado em fisica das particulas, trabalhara em estudos de fusão atómica, mas ali pediam-lhe sobretudo que operasse cálculos do efeito de certas forças em modelos naturais minuciosamente elaborados à escala.

Naquele dia, suscitado cada vez mais pela importância de tudo o que podia abarcar relativamente ao trabalhos ali em curso, o cidadão decidiu permanecer mais tempo na zona e foi hospedar-se num pequeno hotel da aldeia, espécie de residêncial do século XX. Aí tomou um banho quente, procurando aliviar o corpo e o espírito, acedendo entretanto aos jornais do dia, aos noticiários da televisão, e dispondo-se finalmente a dormir na comodidade desta insólita solidão. Não deixou de telefonar, por vezes e de novo, para o Palácio. Não obtendo nenhum sinal desse lugar, resolveu dormir e esperar tranquilamente pela manhã. Mas não dormiu de forma satisfatória. Estava perplexo. Afinal desejava com impaciência que a luz do dia surgisse. Já estava sentado na cama quando o telefone, colocado sobre a mesa de cabeceira, tocou. O cidadão levantou rapidamente o auscultador e ouviu o recepcionista a anunciar-lhe uma chamada. Depois, do outro lado da linha, a voz de um homem solicitava-lhe que confirmasse com quem falava e disse depois, apenas:

"Diga-me o seu código, por favor".

"Não sei a que código se refere".

"O código de enquadramento no Projecto K".

O cidadão ficou supreendido.

"Mas eu não tenho esse código".

"Não tem? Que quer dizer com isso?"

"Que não tenho nenhum cartão de código respeitante ao Projecto K".

"Mas é a primeira vez que vem trabalhar no Projecto?"

"Não. Trabalho desde da primeira comissão."

Silêncio do outro lado da linha.

Alguém parecia ter tocado na porta. Só então ele acordou de uma noite agitada. Olhou em volta, com a graganta seca. Estava no quarto da sua casa e a mulher (o seu anjo da guarda, como ele a nomeava por vezes) trazia um tabuleiro com frutas e sumos, hábito que mantinha aos fins de semana, desde de sempre.

Rocha de Sousa






segunda-feira, novembro 27, 2006

MORREU MÁRO CESARINY DE VASCONCELOS



Filho
de ourives
joalheiro,
o poeta da
«Pena Capital» e
«Nobilíssima Visão»,
além de tod o espólio
que aí fica a
enriquecer-nos,
passou do literal
ao simbólico: da
ouriveria à alquimia
das teclas à que na
poesia incorporou

dos jornais

_____________________________________________________
Sou um homem
um poeta
uma máquina de passar vidro colorido
um copo
uma pedra
uma pedra configurada
um avião que sobe levando-me nos seus braços
que atravessam agora o último glaciar da terra.

domingo, novembro 26, 2006

SAUDANDO ÁLVARO LAPA E A SUA OBRA


Campéstico (com muro vermelho), 2005

A vida noutros tempos, 1974


Um orgão, a consciência.
Conforme o seu objecto a consciência vive.
Toda a vantagem em escolher os objectos, mas se não puder ser, qualquer um serve.
Nas obras de arte encontramos: o fausto, a ruptura, a amizade, as emoções pela Natureza,
o inominável e a mão que dispõe.
A minha preferência pela pintura chinesa e japonesa corresponde a uma antropologia e não a uma a uma metafísica.
Nos festins da consciência encontramos uma compensação.

***********

Este pequeno texto foi extraído de uma introdução de Álvaro Lapa à sua rópria exposição realizada em 1985, na galeria Emi, Valentim de Carvalho. Na sua globalidade, este artista mal conhecido no país, disponde de uma obra invulgar, enigmática, que aborda a consciência do ser, obteve o prémio edp de 2004 e só agora é exposto, antologicamente, no Palácio da Cidade de Lisboa, nos dois pavilhões existentes. Exposição digna, bem contextualizada, e publicação de três volumes, dois sobre as fases da obra plástica e um em torno de muitos dos textos do artista. A sua obra escrita, de grande qualidade, deveria ser reordenada e publicada.
Significativamente, Álavro Lapa faleceu quando ainda decorriam os preparativos para esta exposição e respectivos catálogos.

sábado, novembro 25, 2006

HOMENAGEM A ÁLVARO LAPA

O que smboliza a arte senão a alegria e a tragédia?
Quem não considera o não-ser compreende a arte sem distância,
O não-ser corresponde à imaginação que trabalha e ao animal.
Emociona-me a palavra «lenda» como sentido do que faço.
Naecicismo do indivíduo ou da Natureza tanto faz.
Entre a elite e a claque a escolha impõe-se.
Trabalhanos em ultrapassar os nossos limites ou trabalhamos em amar.

Este extracto foi obtido de um texto de Álvaro Lapa para uma exposição sua, em 1985, na galeria Emi, ajusta-se bem à lembrança dele e da sua obra, agora presente no Palácio da Cidade de Lisboa, e na qual emerge bem uma escrita assim, na «pintura com escrita» e o modo raro como utiliza as palavras propriamente ditas, num discurso ao mesmo tempo hermético, angular e deslumbrante. Mas é preciso apontar o dedo ao país para anunciar os desacertos de alguns actos, posto que Álvaro Lapa faleceu este ano, 2006, quando ainda decorriam os trabalhos de preparação desta exposição e catálogo.

sábado, novembro 18, 2006

MEMÓRIA RURAL NA LINHA FÉRREA



A nossa viagem pelos testemunhos do passado, entre utensílios comuns e patrimónios quase lendários, implica um projecto cultural sem preconceitos, alinhado pela longa parábola que o tempo parece descrever. Num velho estaleiro de ferramentas agrícolas, este velho carro de tracção animal oferece-nos a beleza da idade, dos materiais, do design que os formava e funcionalizava. Penso que estas imagens não são para esquecer

Com este intencional enquadramento do rodado de um suporte de contentores, desenhado para combóios de mercadorias, estabelecemos uma medida de tempo que não chega a um século e contudo já nos parece que o ferro envelheceu, que foi abandonado aqui. O envelhecimento das coisas parece acontecer um pouco a par do nosso próprio envelhecimento.
Prefiro sentar-me no carro de madeira, meio desmanchado. Foi feito para pessoas como eu e não para contentores das ferrovias.


fotos de Rocha de Sousa




A MADRASTA


É bom rever-se obras como esta, «A Madrasta», de Paula Rego. A pintura vai ser leiloada, o que quer dizer que ficará, mais do que até agora, afastada dos nossos olhos. De resto, embora já se tratasse de uma história, não pertence ao ciclo de produção que mais tem mobilizado, ultimamente, a pintora e os seus admiradores, todos sob a campânula da comunicação social.
Rever obras deste modo de formar é imperioso para quem sabe haver nestas figuras, e elipses de sentido, o que de melhor a arte contemporânea portuguesa produziu.

sexta-feira, novembro 17, 2006

EM TUDO HÁ DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS





fotos de Rocha de Sousa


A realidade portuguesa actual padece de uma enorme acumulação de males, entre os quais a presença de figuras habituadas e medir tudo com dois pesos e duas medidas, assim avaliando o que fazem, entre personagens, como vimos, que se situam no oportunismo e na farsa para persuadiram o público de que o espectáculo é popular, necessariamente popular, e que os factores que conduzem a uma cultura erudita pertencem a um outro tipo de sociedade, nada fazem crescer, favorecem o conservadorismo da tinta académica ou abrem rupturas que não importam a ninguém.
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MEU DEUS, O PESO
MEU DEUS, QUE PESO
MEU DEUS, SEM PESO
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FEIRA DE VAIDADES E RECOMPOSIÇÕES POLÍTICAS




UM LIVRO
SEM CÓDIGOS,
NEM DEUS,
NEM DA VINCI,
PELO QUAL SANTANA
SE EXPLICA
E RECONSAGRA



Santana Lopes, após um tempo de oficina e a habitual travessia do deserto, apresentou um livro - Percepções e Realidade - em que procura «branquear» o período agitado do seu governo, substituindo Durão Barroso, cujo natural salivar o atraíra para a presidência da Comissão Europeia. Ouvi ontem a entrevista de Santana à Judite de Sousa, ritual que esta mantém com apreciável profissionalismo, e verifiquei mais uma vez a ductilidade representativa daquele político: as palavras escorriam-lhe da boca e procurava não dar espaço à entrevistadora, apesar de alguns entrechoques sem duração e valor. Ele falava com uma «bondade» explícita, parecendo contrariar muitos pontos de leitura que Judite de Sousa teria encontrado no livro, entretanto sem reflexo no discurso televisivo que Santana lhe debitava.Há qualquer coisa em Santana Lopes, penso eu, que lhe trava, desvia ou adoça as qualidades de político. Claro que ele conserva uma formação mediática que vem de longe: basta ver o que aconteceu agora (e ele quase se limitou a reaparecer) com a roda vivia em torno do livro, a rápida convocatória para uma entrevista de primeiro plano, em prime time, e a concentração de comentadores nos jornais e nas rádios. E será esta figura, feita nas bancas do pós 25 de Abril, na deriva partidária, no rápido acesso a importantes personalidades, nos corredores e mentideros da Assembleia da República, tão decisiva e gigantesca assim? Servirá o livro apenas (ou sobretudo) para que a sua memória futura, entre a família e os estudiosos isentos, fique transparente, pronta a iluminar a cabeça dos filhos e futuros netos?

Vejamos alguns excertos dos comentários jornalísticos em cima do acontecimento consagrado pelo livro e os dedinhos do autor já dedilhando o futuro (que para ele é o passado). A selecção seginte baseia-se numa outra, a partir da Quadratura do Círculo,
por Francisco Sena Santos, «Diário de Notícias» 16.11.2006:

O centro do livro é uma tese conspirativa: a de que tudo o que aconteceu a Pedro Santana Lopes deve-se à actuação de três pessoas que actuaram concertadamente com o objectivo de derrubar o Governo, afastar PSL da vida política e criar condições para o que temos hoje, Cavaco Silva em Belém e José Sócrates em S.Bento. Essas três pessoas são Cavaco Silva, Marcelo Rebelo de Sousa e Jorge Sampaio (junta-lhes Carmona Rodrigues. É uma tese conspirativa sem fundamento e o que escreve nada acrescenta. (Pacheco Pereira)

O livro de Santana Lopes aviva-nos a memória para um facto indesmentível, o de que todos os que agora, dentro do PSD, diaolizam os erros e desgraças trazidas PSL, naquele tempo eram (com a rara excepção de Pacheco Pereira) seus apoiantes e muitos foram por ele nomeados. (Jorge Coelho)

Durante a entrevista, Santa Lopes, demarcou-se de tudo o que se dissera durante a tarde - a clara dedução de que Durão Barroso preparara a sua saída antecipadamente e pressionou Santana no sentido de o substituir. Lobo Xavier, no programa acima referido, também se referiu a isso: O que Santana Lopes conta sobre Durão Barroso é algo que hoje já não é novidade. Sabe-se que Durão Barroso, durante muito tempo, friamente, preparou a saída do Governo para saltar para a Comissão Europeia.

O falhado governo de Santana, e as convulsões assíduas que nele eclodiam e não valiam nada, tudo isso vai sendo esbatido. A entrevista de ontem, em que o livro não é analisada nem posto em causa, nem no menor capricho, será a porta luminosa capaz de contribuir para os não muito distantes reaparecimentos políticos de Santana, ancorado nos portos de ocasião mais favoráveis. É verdade que não falava muito quando aparecia a debater futebol na televisão. Mas nos Congressos e outras ocasiões propícias, o amante da política voltará a desconfirmar, como acabou por fazer ontem, que nunca mais dirá nunca.


domingo, novembro 12, 2006

APÓS O RETORNO COMPLETO DO BIGBANG




Blockhaus

EM BUSCA DAS MARCAS PRINCIPAIS


Durante a nossa vida, no longo percurso dos dias e dos anos, somos tentados a procurar uma relação próxima, sensível e explicável, com as coisas. Mas, no fundo, a realidade que nos envolve é muito mais complexa do que parece na deriva pelo tempo: os velhos vão sentindo que já não procuram as pequenas coisas e sentem o peso da espera, o dia da morte, essa noite inexplicável que torna a própria actividade profissional um sonho breve. Então os velhos limitam-se ao jardim do bairro, vendo os pombos desfocados batendo desfocadamente as asas - e, conforme a situação ou a temperatura, abotoam e desabotoam os botões do casaco.

Há qualquer coisa nas minhas memórias que talvez tenha a ver com esse quadro do corpo e do tempo: a pedra preciosa de um brinco da minha companheira tombou para a carpete e tornou-se invisível. Começámos a esgaravatar aquele universo obscuro e a certa altura julguei haver encontrado a pedra. Cá cima, à luz plena, a pedra não passava de um pequeno fragmento de pão seco. Nem jóia, nem sinal de Deus, nem anunciação da morte.

Com as fotografias de que dispomos nesta brevíssima reflexão vemos dedos impróprios para tocarem o início do infinito. Até a própria ideia de deus apenas espreita, como palavra, no canto de uma revista que foi temporariamente afastada do seu lugar a fim de que o pão seco nos adie a espera.






quinta-feira, novembro 09, 2006

A MEDÍOCRE FALA COMO CULTURA POPULAR

Os protagonistas da tertúlia cor-de-rosa, línguas sujas.
Sujas? São rosas, Senhor, são rosas para distribir pelo povo.
A mãe da Ruth Marlene é um bocado castradora. (Cláudio Ramos). Se Cristiano Ronaldo não tivesse o dinheiro que tem, ninguém olhava para ele. (Maya) Já li uma mensagem de Mário Esteves onde ele dá erros ortográficos gravíssimos. (Valentina Torres) O rabo do Gonçalo Dinis é muito bonito. (Florbela Queirós) Ricardo Pereira deve ter uma fila enorme de candidaturas para ocupar o coração livre. (João Malheiro) Ricardo Pereira deve ser o símbolo da Portugalidade.(Maya) Eu também tenho um ADN kármico e o meu calha sempre para a Elsa Raposo. (Nuno Eiró).

quinta-feira, novembro 02, 2006

DESCONSTRUÇÃO/RECONSTRUÇÃO


Esta composição releva de um trabalho lúdico-criativo a partir do excelente cartaz da exposição de abertura da Ellipse FUNDATION 2006

quarta-feira, novembro 01, 2006





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CONSTRUPINTAR02

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