retrato fotográfico de Fernando Pessoa
segunda-feira, fevereiro 05, 2007
domingo, fevereiro 04, 2007
DESPOJOS SEM CÓDIGO E A VOZ DO POVO

dos jornais
sábado, fevereiro 03, 2007
LATAS COMO SARDINHAS EM LATA
QUE RECICLAGEM
Não resisti a partilhar convosco esta imagem paradigmática do muito que, à flor da nomeação, tenho apresentado aqui. A grande percentagem de lixos produzidos nas chamadas sociedades de consumo já não cabe nos espaços concebidos para enterramentos e aterramentos diversos. E até nem se pode, nas escalas em redor, falar de abandonar detritos em desertos, ou em terreno baldio, ou na esquina dos subúrbios das grandes cidades. Porque a contaminação atinge níveis generalizáveis e é preciso inventar modos limpos de pulverizar os vários lixos e até de reciclar os que têm possibilidades de cumprir esse ciclo. Timidamente, há por aí uns potezinhos para receber cartões, plásticos e vidros, matérias escrupulosamente trazidas por algumas donas de casa que separam o lixo, fazem um enorme trajecto para chegar aos tais contentorzinhos completamente errados para o fim em vista, e assim cumprem um dever proclamado na televisão. O Estado tem de trabalhar este problema mais a sério: é muito mais eficaz (e livra-nos da enorme poluição visual dos contentores) fornecer sacos aos munícipes, com anilha de fecho, os quais deveriam ser colocados na rua, à noite, mas com a certeza de que seriam recolhidos nas duas ou três horas mais próximas, todos os dias. A recolha dos diversos tipos de lixo tem de ser feita, de facto, todos os dias, incluindo sábados e domingos, com carros e trabalhadores minimamente formados nesta área das contingências urbanas. O que parece, assim, sair caríssimo, é ultrapassado pelos milhares de toneladas de lixo recicláveis em tempo útil.
quarta-feira, janeiro 31, 2007
A FESTA DA NUDEZ, LITURGIA DE UM LUGAR
reportagem vendida às revistasEm boa verdade, só li parte do texto que acompanha esta performance colectiva, no qual se dizia que estas pessoas comemoram assim um certo dia dedicado à vida e ao amor. É a sua liturgia do apaziguamento e do sentido de comunidade. Não estamos aqui perante um trecho fotográfico daquele fotógrafo que corre o mundo a encher ruas e praças de gente nua. Mas aí há uma encenação artística. Aqui há uma encenação artística como agradecimento pela dádiva dos encontros.
terça-feira, janeiro 30, 2007
FUTEBOL POS-MODERNO
Os dez grandes estádios que se edificaram em Portugal, a fim
de servirem o EUROPEU correspondem, segundo técnicos
habalizados, a montantes financeiros e grandeza logística
para a edificação de cinco pequenas cidades no
interior do país, incluindo estruturas básicas
num quadro tecnológico de porte
médio. A aposta não passa, quanto a mim, de uma tentativa
escassa de relacionar a grandeza absurda dos edifícios liga-
dos ao futebol com o desperdício improdutivo da sua totalida-
de e financiamentos acessórios.
De cada vez que me defronto com o futebol (mil vezes pela televisão) sinto repulsa por essa ensurdecedora prioridade da comunicação social relativamente a tal desporto, assim capaz de tornar fundamentalista uma boa fatia da população. Lembro-me de ver jogos em Inglaterra em que todos os jogadores se situavam a certas distâncias uns dos outros, trocando a bola, e partindo depois, num golpe surpreendente, em profundidade, para a esquerda ou para a direita -- passo raro e preciso que permitia uma rápida triangulação sobre a baliza. Esse futebol quase perdido em função das «audiências», das trocas de ano para ano, das compras de jogadores por milhões de euros acintosamente desproporcionados, era, para mim, o verdadeiro futebol, e reconheço que a televisão inglesa nos ensinou muito ao transmitir os encontros com uma subtileza enorme, em directo, usando muito bem o plano próximo em belíssima coordenação com os planos médios e gerais. Através da televisão inglesa, nos tempos do preto e branco, tornou-se claro que o futebol (aquele, pelo menos) era fotogénico e tinha um grande aliado nas emissões televisivas. Mas a fotogenia tinha também um sentido literal, decorria muito de modo como os atletas jogavam, sugerindo por vezes a câmara lenta colada na passagem aos disparos rápidos, na corrida e com a bola.
Abarrotando de emissões de futebol, sobre o futebol, numa sufocação intolerável, horas e horas, aqui e além, nos noticiários sem falta, a Televisão Portuguesa, toda ela, comete um grande atentado contra a sanidade mental dos cidadãos e cria neles, a par de analfabetismos de pesos vários, um fundamentalismo inteiramente injustificável. As estatísticas deste tempo pós-moderno mostram a loucura ilusória de cada plantel nos tempos de antena dedicados ao futebol e deixa-nos estupefactos, infectando a razão e tornando redutor o espaço dos nossos desejos. Em boa verdade -- incluindo todas as estruturas administrativas -- o futebol português deveria ser revolucionariamente reformado, encurtado, menos mercantilista, menos perdulário nos gastos e obeso nos privilégios; menos premiável (também) aos negócios pouco limpos, ao tráfico de influências, à desnacionalização ilusória de cada plantel. Com o tempo, o tão elogiado futebol português (pelos fundamentalistas) tem-se comercializado e degradado tanto na técnica como no sentimento. A brutalidade abunda, das mais diversas maneiras. As lesões sucedem-se, pagas a peso de ouro. Tudo deveria ser reformulado: as regras do jogo em geral e a mudança de procedimentos, aberturas e reservas, disciplina, arbitragem, tempo, processos de registo vídeo nas grandes áreas.
Aos presidentes, administradores, capitães de equipa e árbitros seria sempre atribuído um dignificador apito dourado
sexta-feira, janeiro 26, 2007
A LUXUOSA DESTRUIÇÃO DO MUNDO
dos jornaisA grandiosidade aparente das industrializações energéticas que a imagem propõe, e de certo modo engrandece, são de facto uma espécie de cenário da ficção científica, as terríveis premonições de um futuro carregado de ameaças desencadeadas pela própria humanidade. A tecnologia cresce para funções cada vez mais avançadas, entre vertigens de uma pressa que os mais cautelosos não compreendem, mas a ciência começa a ter agentes capazes de fazerem o seu exame de consciência, demonstrando que algumas das actuais transformações climatéricas do planeta resultam do uso de matérias não renováviais, arrancadas à terra e usadas na criação poluente de energia. A par dos ciclos naturais da vida da Terra, enquanto corpo vivo, as grandes concentrações fabris e humanas, quase exclusivamene baseadas no petróleo, só agora percebem com alguma propriedade que os milhões de toneladas diárias expelidas para a atmosfera foram abrindo caminho a um aquecimento do planeta, tendo iniciado, entretanto, as primeiras e catastróficas manifestações da mudança do clima e dos desastres induzidos pela criatividade aprisionada da população -- sociedades de consumo, dizia-se até há pouco, o que não deixa de ser verdade ainda, em termos quase fundamentalistas, adiando as pesquisas já perfiladas para a formação de energias renováveis, porventura influenciando no futuro os próprios objecivos das comunidades.
ARTE CONTEMPORÂNEA PORTUGUESA
Até aqui não aproveitei devidamente este blog para divulgar casos de referência de artes plásticas quanto a autores contemporâneos portugueses, embora tivesse assinalado há pouco, numa perspectiva cultural e política, no «trecho» sobre os ARTISTAS ENCOBERTOS, a deficiente situação da coordenação e apoio das artes em geral, no nosso país.Passarei a dar atenção ao assunto com mais assiduidade, até porque faço critica de arte no jornal JL e disponho de materiais por vezes de grande relevância, adequados à divulgação É o que acontece agora, com a exposição de pintura de Teresa Magalhães, pouco tempo depois de haver apresentado um projecto de raiz retabular na Sociedade Nacional de Belas Artes.
Durante o mês de Fevereiro, na Galeria Valbom, Teresa Magalhães, nascida em 44 e formada pela Escola Superior de Belas Artes, agora Faculdade da UL, vai expor de novo. Senhora de um vastíssimo curriculo, entre exposições individuais e colectivas, presente em colecções ou Museus e premiada em diversos certames, os seus estudos nesta área beneficiaram de haver seguido a reforma para o Ensino Superior Artístico de 1957, mantendo assim contacto com Professores Assistentes e Professores de novas gerações para o tempo, os quais, embora pressionados negativamente pela Direcção da Escola (arquitecto Paulin Montez). Isto contrariava, em termos conservadores, os próprios termos da reforma. Mas o ensino tornara-se mais aberto, possiblitando o acesso a metodologias novas das aprendizagem e dos actos de formar. Não era ainda grande coisa, mas casos como o da Teresa Magalhães, a par de muitos outros, demonstram o acesso a práticas próprias da revolução artística do século XX, um tempo decisivo que desapossou a obra de arte -- a pintura, por exemplo -- de adereços redundantes e muitos efeitos característicos do naturalismo, da pretensão realista (como no próprio neo-realismo), tudo isso numa larga proliferação de movimentos em busca da essência estrutural e significante das obras, viragem por vezes radical e muitas vezes equívoca. Mas o avanço foi importante, sobretudo na problematização da arte em geral, e em todos os géneros. Teresa Magalhães filiou desce cedo a sua prática nos estudos que rodearam toda a experiência da acção, dos gestos correndo e escorrendo na tela, sugerindo movimento, espacialiade, musicalidade, a criação de um mundo liberto, aberto, colorido, simbolizando indirectamente o apelo, por um lado, à vertigem confiante da segunda metade do século XX, e, por outro, à ressonância das batalhas, dos destroços, a fragmentação de olhares sempre criativos e atormentados com o excesso do mundo contemporâneo.
quarta-feira, janeiro 24, 2007
OS ARTISTAS ENCOBERTOS
* da coluna «FIAMA, por Diogo P. Aurélio.
segunda-feira, janeiro 22, 2007
O ESPECTÁCULO E OS OSSOS



Anorexia é mais um dos vocábulos humilhantes envolvendo o nosso psiquismo manipulado à superfície das montras, vinda de longe e de perto, doença inicial que podemos colar ao aspecto daqueles manequins de plástico que servem para simular o prazer de vestir uma peça de roupa sem que o corpo, de fora, pareça rebentar de hematomas. A magreza é procurada a todo o custo. E os pacientes não comem ou vomitam o qe comem, o que não os impede de se olharem ao espelho, no qual se projecta um esqueleto de Treblinka ou se distorce uma caricatura da verticalidade do corpo humano. A massa muscular quase não existe, os ossos emergem sob a pele, e nada disso evita que tais fundamentalistas ainda sonhem, aqui e além, com volumes ainda a abater.
sexta-feira, janeiro 19, 2007
A IMAGEM E O REAL
Um dos efeitos perversos da sobrecarga de imagens -- televisivas, fotográficas, etc. -- é o desconhecimento da própria imagem como modo de dar a ver. Modo, entenda-se: não o decalque de um qualquer real, mas uma via particular de habitar esse mesmo real, por assim dizer construindo-o e reconstruindo-o, confirmando-o ou desmentindo-o. Daí um elementar princípio pedagógico: fazer imagens, ou apenas contemplá-las, não é reproduzir nenhum real. mas produzi-lo -- cada vez que fabricamos ou olhamos uma imagem, o real transfigura-se.
NB: excerto do artigo «De quem são estas mãos?», de João Lopes, Diário de Notícias, revista «6ª», 19.01.2007
A JUSTIÇA É CEGA
Há muitos anos, estava eu iniciando alguma vida profissional, fui chamado ao Ministério da Justiça, lugar mítico do qual pouco sabia, com indicação de um Secretário de Estado cuja ideia de ramo perdi por completo. Lá atei a gravata ao pescoço, sobre uma camisa nova, e fui. Quando falei com o porteiro, dizendo-lha ao que ía, logo me encaminhou para um gabinete de espera. E disse: «o senhor doutor vem já.» O ambiente era um pouco carregado, a luz muito cortada pelas cortinas, e o mobiliário preto, decorado por retorcidos. De facto não esperei muito e o senhor, cuja graduação tanto podia ser de Secretário de Estado ou de Ministro, pois os meus ouvidos fecharam-se ao som articulado das palavras de apresentação, convidou-me para nos sentarmos. E passou a explicar-se: «O Ministério da Justiça pretende encomendar-lhe o projecto de uma tapeçaria para a grande sala do Palácio da Justiça de Moimenta da Beira, que estará em breve em acabamentos. Soubemos do seu trabalho pedagógico e profissional neste domínio e queremos alargar o leque dos artistas a convidar». Calou-se e ficou a olhar para mim, como se esperasse uma resposta com tão poucas premissas. Disse-lhe que me sentia honrado com a escolha, mas precisava saber contornos do projecto, onde seria manufacturado, se havia ou não, para além da natural premissa de integração, recomendações técnicas, temáticas ou outras. E ele, sorrindo: «Então aceita?» Eu respondi que sim, que em princípio a encomenda me agradava. E ele, antes que eu voltasse à lenga-lenga das condições: «Óptimo. A tapeçaria terá três por quatro metros, será tecida na Manufactura de Portalegre, incluindo a ampliação para papel de tear. O Ministério pagar-lhe-á pelo «cartão» com todas as indicações necessárias entre cem ou cento e vinte contos.» Resmugando um pouco à partida, acabei por aceitar, considerando que a Manufactura ou o Ministério me fornecessem as coordenadas habituais. «Com certeza -- disse ele -- mas tem de respeitar apenas uma condição. A sua linha estética é a que quiser, com ou sem figuras, com ou sem simbologias recorrentes. No entanto, e no caso de desejar representar a figura simbólica da Justiça, o Ministério não aceita qualquer entidade com os olhos vendados e adereços de espada e balança. Entemde a questão?» E eu, estupefacto: «Com certeza.» Antes de terminar, já entre portas, o homem entendeu por bem esclarecer-me sobre as exigências do Ministério: «Este Ministério é de facto da Justiça. Não encontramos razões, na época actual, para apresentar a Justiça como cega (de olhos vendados) e com uma balança e uma espada, indicações de dividir laminarmente para distribuir valores ou de os ter de pesar como se os actos humanos o pudessem ser». Agradeci-lhe a explicalção e fui à vida. Em Moimenta da Beira pode ver-se o resultado. De facto a Justiça não pode julgar sem ver, porque ver é indagar, é julgar o real, enquanto o fio da espada e a balança pouco se ajustam a uma sentença ponderada numa sala e escrita à secretária. Meus amigos, os que me estejam a ler sem vendas nos olhos, esta hitória é verdadeira mas a concepção daquele Secretário ou Ministro é hoje falsa. A Justiça, entre nós, mostra índices de formação e formulação de sentenças por vezes aterradoras. Estamos neste momento a assistir à tentativa, judical, de se retirar a uma família de acolhimento e adopção uma criança que a mãe biológica lhes entregou e pediu que cuidassem, o que fizeram até ao presente, durante cinco anos. O pai biológico, que só apareceu verdadeiramente um ano depois da filha nascer, é chamado a assumir o seu papel de sangue, vivendo a milhas de qualquer cenário capaz. A protecção dos pais biológicos chega a ter aspectos ainda mais absurdos do que este, é sagrada e mítica, a criança acaba sempre em segundo plano, quando devia ser, antes de tudo, a primeira causa a avaliar. O país indigna-se: porque o pai adoptivo foi preso por seis anos e a mãe adoptiva fugiu para parte incerta, a fim de preservar a menina de uma verdadeira catástrofe. E o povo indigna-se porque percebe que o pai adoptivo se deixa prender com honra e na defesa dos valores em causa, protegendo a filha, tanto como a mulher que se oculta da total inconsistência desta decisão do tribunal. Um tribunal que obviamente exerceu uma justiça cega e não sabe nada de ninguém. Um tribunal e que usa a espada para dividir cegamente. Um tribunal que julga poder evocar a lei numa situação que é ontológica e não circunstancial.
segunda-feira, janeiro 15, 2007
O MELHOR DE TODOS OS PORTUGUESES
O melhor, o maior, o portguês capaz de representar todos os portugueses. Por um lado, é o referendo sobre o aborto, discutido em assembleias devidamente legitimadas, cidadãos procurando saber se já estamos maduros para despenalizarmos aquela eventual escolha de muitas mulheres em situações que lhes colocam o dilema: ter ou não ter este filho. Já falámos sobre este tema e oxalá os cidadãos estejam maduros. Mas, a par desta difícil tarefa de discutir um direito das mulheres que se debatem com aquele problema, a televisão pública achou por bem convidar os portugueses a decidir, à maneira de jogo mas onde se tratam coisas muito sérias, qual é ou terá sido o melhor, o maior, o mais representante de todos os cidadãos deste país. A apresentação dos mais votados para uma primeira volta, foi feita pela retornada Maria Elisa, personalidade que fica sempre a condizer com estes chás ou conversas de cerimónia. Muitos portuguses ilustres falaram sobre outros portugueses ilustres e a bola, podemos dizer assim porque o povo percebe melhor, e de acordo com a contagem dos telefonemas, de muitos foram escolhidos dez cidadãos, entre mortois e vivos. O programa vai assim animado e julgam os promotores que estão a desenrolar uma séria acção pedagógica, sem perder o fio à meada -- reeducar a memória dos maiores símbolos nacionais e controlar as audências com a solene encenação do evento, a fim de que não pareça um reles entretenimento. Mas é, é entretenimento e reles, ao ponto de Padre António Vieira perder para Eusébio e de Pedro Nunes não atingir a craveira dos dez apontados. Afonso Henriques, fosse lá qual fosse o seu feito, é um símbolo de todos, inicia a nacionalidade, não parecia difícil fazer uma escolha dessas, emblemática mas nunca errada. Outros tropeçam com Salazar, o dos brandos costumes, e não hesitam muito em telefonar: porque era um sossego no tempo dele, incluindo a brasa do Tarrafal, a agricultura funcionava, o pão não subia de valor como agora, era garantida a disciplina dos actos e um certo sentido do Império.
E eis ao que chegámos. Andar com uma lanterna, no jeito de Demóstenos, à procura do maior entre os maiores, coisa que nem sequer tem valor científico, artístico, entre a bondade das regras. É rasca e não se concilia com a cultura geral do povo português. Só não decidem utilizar os dados porque o telefone pode garantir a solidão da terrível escolha e sempre rende uns cêntimos. Uma vez que a operação está lançada, concurso e milhões sem boletim, resolvi publicar aqui uma colorida multidão dos cidadãos consumistas, cada qual na sua postura, feira de vaidades vinda directamente dos pincéis do Carlos Carreiro, pintor de uma graça patética, falando um português de imitação e tornando o espaço bem festivo, igual ao que pedem todos os nossos públicos, no cinema, nas artes plásticas, na literatura, no teatro, na música. O público português está cada vez mais habituado aos foguetes (iguais todos os anos) e que toda a gente festeja dizendo «que lindo, que lindo!». Fogo de artifício, meus amigos, este é um outro segredo da escola pela alegria dos nossos concidadãos, embora não se compare com a imensa catarse do futebol. Não há problema, não se inquietem, também há jogadores de futebol na grande tômbola dos maiores.
sábado, janeiro 13, 2007
INTERRUPÇÃO VOLUNTÁRIA DA GRAVIDEZ
![]() |
É verdade que, no pulsar da vida em comunidade, pouca coisa seríamos enquanto gente se ousássemos olhar para o mundo como simples suporte dos nossos mitos, mero espaço dos devaneios do imaginário. Um osso pode começar por ser uma arma de percussão ou de arremesso (como em «2001, Odisseia no Espaço») e dentro em breve aperfeiçoar-se até à lâmina e ao punho. Cumprida a sua função essencial, a ornamentação inicia-se e lavra, em épocas muito posteriores, os cabos onde o punho se personaliza, entre aplicações de metal e caprichosos efeitos decorativos: é o caminho para uma consagração simbólica, coisa diante da qual muitas propiciações podem ser convocadas. Alguns utensílios ou representações casaram-se assim com diversos conceitos. E os conceitos apoiaram a invenção das redes da mitologia, nomeadamente tendo em vista a sagração de elementos estruturais da vida, ela mesma símbolo maior, o que a fez enquadrar uma transcendência que nos finge eternos.A questão do aborto, que está a ser discutida no nosso país, liga-se profundamente ao cunho sagrado que imprimimos à vida, apesar de nada sabermos sobre a origem dela, nem o seu objectivo, ou que finalidades eventualmente encerra. Vivemos ainda presos à ideia de sobrenatural e à invenção da vida como bem sublime. Curiosamente, a Natureza é menos fundamentalista e engana-se com assiduidade na formação do homem, esquecendo-se de partes do corpo, de capacidades fundamentais do ser, do próprio cérebro. As instituições ditas do espírito, religiosas e aproximadas, encaram a fecundação como irreversível, num atávico fervor de protecção da vida a todo o transe. As mães, que emprestam o seu ventre à obra de Deus, são por vezes surpreendidas com uma gravidez impositiva e não esperada nem desejada. E contudo elas vêem-se rodeadas de uma feroz barbárie em todo o mundo, com milhares e milhares de mortos, vontade de governos, sem consulta de Deus, ou de bandos petrificados ideologicamente. Na incerteza de tudo, as mães «compulsivas» não compreendem porque razão as impedem de interromper, ainda numa fase embrionária e absurda, a proliferação das células dentro de si. Muitas estão à beira da exautão, após outros nascimentos, e ainda têm que suportar os acasos naturais incorrigíveis, o erro humano, natural ou divino. Aqui não há escolha porquê? Porque razão a vida, afinal tão contingente, foi colocada no nicho dos símbolos totalitários?A enorme quantidade de espermetozóides produzida para a transcedente batalha da fecundação, tão curta enquanto existência, deixa-nos presos entre a fascinação e o fenómeno intrigante. Em boa verdade, que destino reserva a Natureza aos milhares de agentes da vida, da fecundação, que não conseguem penetrar no óvulo da mulher? A lógica dos ciclos naturais, incluindo a desconcertante adulteração de alguns genes, então responsáveis pela sentença de morte vinda de dentro para fora, enfim dirigida aos seres que geraram e coordenaram, é apenas intrigante ou sinal de perdas calculadas sem intervenção humana?A interrupção voluntária da gravidez é uma conquista como outras do direito e a sua legitimidade cabe ao próprio sentido e qualidade da vida sustentado pelo ser fecundado.
sexta-feira, janeiro 12, 2007
O EIXO DO MAL É CADA VEZ MAIOR
O CARTEIRO JÁ NÃO BATE À PORTA
segunda-feira, janeiro 08, 2007
TEIXEIRA LOPES, GRANDE ARTISTA MAL-AMADO
sexta-feira, janeiro 05, 2007
A CULPA DOS CULPADOS
Um sobrevivente de Auschwitz regozijou-se, num sorriso melancólico, com a morte de Saddam Hussein. Fizeram-lhe ver que, nas actuais circunstâncias, era impossível estabelecer comparações com Nuremberga, por exemplo. O velho judeu encolheu os ombros e não falou mais durante toda a tarde, acomodado a um canto da sala daquele debate semi-institucional.
Sinto-me como aquele velho, embora não seja capaz de assumir a silenciosa dignidade dele ao escutar jornalistas qualificados esgrimirem sobre questões como a pena de morte, a prisão perpétua, o vil enforcamento de um homem (tirano embora) nos últimos instantes em que aparelhavam o equipamento do acto final. Não sou capaz porque a mancha de hipocrisia em que assentam os nossos conceitos, e permanece em geral escondida por protocolos e etiquetas, explode um pouco por toda a parte, de súbito muita gente civilizada falando de direito, de oportunidade, de propaganda, de vingança, de moral, de respeito humano, de mera política legitimando-se no caos -- tudo isso como se o nosso rosto tivesse de cobrir-se de vergonha com o acto cuja origem, no fundo, se ligava a anteriores decisões de Busch e de um tribunal titubeante (além de encurralado) na frente da guerra do Iraque, dos interesses jogados sobre a mesa pobre de populações mal-amadas. O que me faz alinhar aqui estas palavras, e apesar de também de discordar da pena de morte, é a pulverização de uma causa que, perante todos os mal entendidos da história e da história dos déspotas, só se pode abordar sem emocionalidades patéticas como as debitadas em torno (ou a propósito) da condenação executada de Saddam. A teoria política da justiça, a este nível, tem de fundamentar-se no plano científico, na medida ética e moral, em sentido perfeitamente ontológico e não na babugem das raivas menores, na obscuridade de um homem que praticou crimes contra a humanidade e poderia ser levado para o pequeno jardim prisional, destinando-o a regar as plantas durante a vida, até à morte. A demagogia que se espalhou pela comunicação social, os pruridos de políticos ingénuos ou manhosos, os culpados julgando a culpa, tudo isso me conduziu à indignação.
Continuando imóvel durante três horas, pelo menos, o velho sobrevivente de Auschwitz talvez se lembre de coisas mais próximas, os militares provocando ou sancionando a morte, em meses, de oitocentos mil africanos, entre países ´contíguos. Talvez pense nos gaseificados, na tortura ainda em uso, ou no enforcamento, na cadeira eléctrica, na injecção letal, que se praticam nos Estados Unidos. A beleza funconal da guilhotina. A morte pela fome. Os efeitos, assim, da ira irracional dos homens, que fazem despertar a habitual ira de Deus. Como deveriam ter sito tratados (se o não fizessem eles mesmos) Hitler e Staline? O julgamento de Nuremberga serviu para quê? Para exercer a justiça, tomar decisões dedicadas à memória futura? Há crimes graves, políticos ou outros, por todo o mundo, a maior parte deles impunes. Não façamos da nossa culpa, por inteiro, mero espelho dos verdadeiros culpados.
Rocha de Sousa ! Jan.07
quarta-feira, janeiro 03, 2007
POR AMADEO DE SOUZA-CARDOSO
Não vou abrir os livros, dicionários, enciclopédias, tratados. Amadeo de Souza-Cardoso, agora largamente apresentado na Fundação Calouste Gulbenkian e contextualizado com outros autores da sua época e de outras latitudes, mostra-nos bem quanto é importante o nosso patrimóno cultural (entre casos e casos), aliás definitivamente avançado em muitos tempos ao longo do percurso civilizacional que ajudámos a formar nestes últimos dois mil anos. Um país configurado a partir dos movimentos territoriais e vontades de ultrapassar os escassos limites da sobrevivência, dotado de perto de dois milhões de almas, caldeado por diversos povos, unificado na diversidade da sua origem, Portugal não tem que se humilhar, mesmo agora, perante os altos e baixos da sua história e da história que o envolveu. Até porque, descontando os gigantismos alheios, preparados nos grandes actos coloniais e de expansão, a leste e a oeste, os portugueses foram dos principais construtores do mundo conemporâneo e chegaram a estar a montante da linha de saberes que abriram o mundo ao mundo. Esquecemo-nos disso, com frequência, deprimidos por comparação com os consumismos que nos chegam de fora, produções fúteis, condicionamentos de grandeza física, escalas tecnológicas e outras. Nada disso deve nortear o nosso comportamento, até porque petencemos, de facto, à Europa -- esta junção mitigada de vinte e sete nações -- centro de uma civilização que chegou bem longe no entendimento do ser humano, dos valores, direitos e deveres que o definem, prática social, avanço nas áreas de ponta do conhecimento. Estamos aí. E, além do mais, deixámos marcas sensíveis por todo o mundo, grandes países que falam a nossa língua e podem evoluir até espaços temporais de sobrevivência do próprio planeta. Dar exemplos é inútil. Falar dos heróis, das aventuras marítimas, das crises do século XX e de emigrações gloriosas, também pouco importa. Ou melhor: pouco importa quando nos desejamos focar num dos primeiros grandes pintores do século anterior, importante sem dúvida, pioneiro da arte moderna e das vanguardas igualmente, embora os poderes actuais das outras culturas o não tivessem descoberto à dimensão a que merecia, tanto mais que morreu novo e o seu país entrou em crises de regime, em ostracismos culturais. Os que menos se atemorizam com tais distorções da história, sabem que Amadeo deverá ser revisto, reconquistado e projectado no plano europeu, para não falar de outros. Porque o seu pioneirismo se situa efectivamente no vértice de uma revolução artística travada sobretudo a partir de França mas que hoje se distende, se reafirma e se contradiz no plano global (por muito perverso que este conceito possa vir a revelar-se).Amadeo de Souza-Cardoso, cuja formação mais avançada decorreu em Paris, mas também nessa espécie de «exílio em casa» que o atingiu durante a Primeira Grande Guerra e que o haveria de recolher pela trágica epidemia, a pneumónica, que assolou o mundo na segunda década do século, mostra-se, a partir da maturidade mínima, capaz de seguir ou antecipar particularidades estruturais e conceptuais nas artes plásticas então a abrir-se em diversos caminhos. A «espátula» que Cézanne aplicava à geometrização ou nivelameno das formas, no próprio terreno da paisagem, isso levou Amadeo para as planificações das áreas pictóricas, entre configurações representativas e encenações bidimensionais do campo. A cor que pratica, dispara no espaço, utilizada com sabedoria entre os tons negros, concentrando toda a dinâmica interna do quadro. Tem forma. É espontânea, da larga escala à arrumação quase caseira de certos aglomerados figurativos. E, além disso, a tranformação foi mais longe, a outros pontos (como «A Cabeça Verde»), fronteiras do expressionismo e do surrealismo, premonições de alguns territórios cubistas, enre vários. Não estão lá as teorias, porque não teve tempo de as reescrever, mas estão as consequências antes mesmo das confirmações a jusante.Seria bom que este homem fosse mais estudado. Qua a sua obra fosse divulgada e contextualizada por peças dos media, audio-visuais, interpretação tratadista. Não como hoje se faz para alguns autores engalanados a despropósito com livros imensos, catálogos e textos a triplicar, enviesando a história pelo ostracismo ideológico ou meramente preconceituoso que os mandantes dedicam a muitos outros. É que em vez de um Amadeo poderíamos ter vários -- nas artes plásticas, nas artes do tempo e do espaço, cinema, teatro, dança, controlando o efeito colonial nocivo (porque nem sempre o é) dos espectáculos megalónamos.Rocha de Sousa
segunda-feira, janeiro 01, 2007
sábado, dezembro 30, 2006
NOTÍCIA SOBRE A AULA EXTRA
sexta-feira, dezembro 29, 2006
JANELAS PARA UM MEMORIAL DA INDÚSTRIA CORTICEIRA
fotografias
de Rocha de Sousa
AS JANELAS DO TESTEMUNHOMEMORIAL DA INDÚSTRIA CORTICEIRA
AS BARCAÇAS FLUVIAIS
AS MIGRAÇÕES DOLOROSAS
As ruas ribeirinhas da pequena cidade do sul, tortuosas, recebiam as grandes vias verticais, radiantes, que desciam o monte arábico. Entre camiões velhos e artesanais carros de tracção aninal, os assalariáveis deambulavam por ali, horas a fio, à espera das barcaças que subiam o rio e vinham carregar fardos de aparas de cortiça. Portugal tem sido o maior produtor dessa matéria vegetal, em quantidade e qualidade. Fechado à exportação do produto virgem, a fim de segurar uma exclusividade transfirmadora, o país retirava deste sector parte importante das suas receitas, rolhas, bóias para redes de pesca, placas para a feitua de tapetes de banho, ariculáveis. Mas a grande concentração de operários, cerca de cinco mil, pelo menos, criava ali um polo de tensão. Nem sequer os salários eram a questão maior deste espaço social.
Manhosamente, oferecido a pressões exteriores e combatendo a força reivindicativa das unidades fabris do sul, o governo decretou no sentido de abrir ao mundo a exportação da cortiça em prancha, preciosidade arancada às árvores de nove em nove anos, com reservas de alternância durante esse tempo, e levada para os cargueiros que a esperavam perto das praias. As barcaças recnvertiam-se para este serviço, aliás praticamente igual, e apontavam, em vabas, aos costados dos navios. Por seu lado, os camiões, com ganhos relevantes, também transportavam as pranchas de cortiça, atadas em torre à caixa traseira do veículo, levando-a para o porto de Lisboa, mais seguro e operativo relativamente a estas operações de grande calado.A crise fora desencadeada depressa, politicamente, e as fábricas assim acossadas começaram a arder, uma após outra. O material que detinham permitia provocar incêndios colossais, assombrosos, sem que se conseguisse descobrir de forma irrefutável a causa, um processo natural ou provocado. Tudo ardia a velocidade indiscritível e erfam chamados de todos os lados bombeiros para tais batalhas, não tanto a fim de apagarem o fogo mas de evitarem que ele saltasse para outras fábricas e casas em redor. Dias depois, com velhos rebuscando as ruinas fumegantes, os operários partiam para o note, para o Montijo e Alhos Vedros, entre outros sítios. Os donos da empresas deslocavam-nas, com o dinheiro do seguro, para lugares mais compatíveis com a competição dos custos de transporte. Entretanto, os trabalhadores migrados chamavam para junto de si a família, mulheres e filhos. Mas a sua vida profissional abreviava-se: hove bem depressa novos fogos e novas deslocações, fábricas repartidas em unidades menores, salários encolhidos. Na pequena cidade do sul, as ruas estavam desertas e nunca mais tocara o sino ao meio dia, nem se viram os grupos de trabalhadores deslocando-se então, na hora do almoço.
Os potugueses viveram longamente assim. Circularam amplamente nos mares e traziam para o país especiarias do Oriente. Mas não passavam desse lucro para o investimento na transformação e distribuição das novas matérias. Dois milhões de almas, apenas, fizeram o Brasil, usando tudo e todos os escravos possíveis.Quando se lê a história de Manaus, na área da borrecha, onde foi mesmo construído um teatro de ópera, com pedras trabalhadas idas de Lisboa, percebe-se que o sonho é grande demais para sobreviver aos poços que lhe seguem no tempo. Lá ficaram, no Brasil, cidadezinhas interiores, com a sua igrejinha, e engenhos e fazendas, porque, enquanto isso se fazia, o negócio intercalar absorvia toda a criação futura. Como os citrinos do Algarve, que os produtores, incapazes de criarem empresas absorventes da laranja local, bemcomo a sua distribuição, foram soçobrando aos intermediários e muitos deles vendem hoje nos mercados as pequenas e luzidias laranjas vindas de Espanha. Que farão eles, os espanhóis, das nossas belas laranjas?
Presos a uma crise, presos à cauda desta Europa mole e sonolenta de mordomias, os portugueses continuam a traficar: vem jogadores de futebol, com intermediários e tudo.
Rocha de Sousa
quarta-feira, dezembro 27, 2006
UMA GUERRA SEM INIMIGOS
dos jornais
Se, durante a longa guerra colonial, o nosso país registou, em catorze anos, cerca de nove mil mortos, imangine-se quantas perdas se registaram na antiga Metrópole, nas estradas, em igual período de tempo. Por outro lado, antes das auto-estradas (e mesmo com estas) as filas de trânsito foram alcançando densidades irreparáveis e muitos acidentes. Causas: cansados, os portugueses ouvem há dezenas de anos, invariavelmente, as mesmas -- velocidade excessiva, abuso do alcool, manobras perigosas.
Esta sinopse da tragédia revela-se claramente redutora e peca pela falta de uma análise mais exaustiva: em Portugal, por exemplo, é possível enfrentar uma ultrapassagem em rampa limpa, sem sinalização, que afinal, e de súbito, se trata de uma lomba e oferece hipóteses terríveis de desastre.
Os sinais dentro das localidades constituem uma espécie de jogo do adivinha, labiríntinco, sem nexo, nem o devido escalonamento no sentido das saídas ou das entradas. Nas estradas os pecados institucionais são muitos: falta de sinalização, nenhuma razoabilidade das nuances de cada percurso. A velocidade máxima é única para todo o lado, quer num percurso de curvas, quer numa recta de oito quilómetros, aberta de ambos os lados.
E quanto à metodologia da polícia de trânsito, ao contrário do que se diz, a «prevenção» é feita de esperas, armadilhas mecânicas ou estratégicas. Parar. Vasculhar tudo. Criar tensão e nunca distensão. Radar, vídeo, carros disfarçados a duplicarem a infracção de quem perseguem. Além do mais, patrulhas estacionadas entre os arbustos, na berma da estrada, na modorra da tarde. Ao lado é o trânsito denso, os camiões e as filas de carros por quilómetros. Tudo isso ntraumatiza e leva facilmente o condutor a cometer erros. A polícia não tem que esperar ninguém, de radar na mão. A polícia tem que dispor de meios móveis (motas, por exemplo) para acompanhar o trânsito, o seu pulsar, decidindo quando deve desfazer uma fila, parando os camiões durante minutos e descomprimindo os ligeiros da excessiva pressão acumulada. Assim abrirá espaço e gestos soltos, evitando-se os disparos de irracionalidade dos condutores enlatados.
Aqueles carros estacionados, com agentes por ali, que levantam de tempos a tempos o sinal de paragem, são uma forma arcaica de exercer vigilância. O sinal de paragem usado assim é psicologicamente errado, simula a vontade totalitária, torna-se aleatório em demasia. Nada disso tem a ver com a vigilância e tratamento do trânsito rodoviário, nem com a necessidade de minimizar as estatísticas da morte. É preciso estudar toda esta problemática, a par dos traçados e outros aspectos das rodovias, acabando-se com as confusas explicações para a habitual carnificina.
APOCALIPSE NOW
quinta-feira, dezembro 21, 2006
PREFERÊNCIAS
Quero deixar aqui bem expressa a minha confiante admiração
por estes dois jornalistas e colonistas ou comentadores.
Quero declarar que a voz certa de Sousa Tavares
tanto nos alerta
seriamente para os bens e os males do mundo
como sobretudo a escrita de Clara Ferreira Alves
numa espécie de nomadismo antropológico e sociológico,
nos compromete através das suas crónicas na Única.
Digo assim a minha posição, num voluntarismo que a alguns
pode parecer mitificante ou político,
mas que se circuncreve ao olhar e à percepção
que tenho das coisas,
o gosto por elas, e também a viagem através da escrita
destas pessoas
invulgarmente apetrechadas no seu campo de trabalho.
A lucidez de ambas, passando pelo nosso crivo de avaliação,
convida-nos a melhorar a nossa própria prestação
nos meios e pelos instrumentos
onde e com que nos afirmamos.
domingo, dezembro 17, 2006
AS NOITES DOS SEM TECTO
O que vemos aqui é apenas o que resta de uma sociedade profndamente marcada por processos de exclusão, cujas noites albergam milhares de pessoas sem tecto, os sem-abrigo, vidas inteiras dormindo nos recantos da arquitectura, sob a bruma das luzes ou a claridade das montras ainda acesas. As fotografias aqui propostas são da autoria de Paulo Alexandrino, a quais, entre outras, ilustraram um trabalho de entrevista a sem-abrigos desenvolvido por Carla Amaro. (revista do Diário de Notícias, 3 de Dezembro, 2006.
____________________________________________________
A CÉU ABERTO
Jacinto achava soberba a reabilitação do Carlos ao livrar-se da dependência do álcool. A sua língua, enregelada pelas drogas, não deixava por isso de chalacear sobre o papel dos ricos nessa reconversão. Mas há códigos de honra entre esta gente da noite, os sem tecto, os sem-abrigo, o que implica a partilha de certos valores e bens -- a comida, por exemplo. Jacinto só leva a comida que lhe é distribuída «para evitar que uns comam duas ou três doses e outros nenhuma» Tem as suas exigências: «Este pão não é de hoje. E ouça lá, trouxe-me os pijamas que lhe pedi? Onde estão os cobertores casaco-cama que me prometeu na semana passada? Os que tina roubaram-me. A mim roubam-me tudo. Mas não estou para apanhar porrada dos meus semelhantes, já bastam os pontapés que às vezes levo dos putos ricos que saiem bêbados das discotecas. Que é isso do albergue. Já lhe disse que não me deixaram ficar nesse sítio com a desculpa de eu ter abandonado o programa de desabituação do consumo de álcool.Também não me quiseram nos Ascólicos Anónimos porque não gostavam que eu usasse nas reuniões a bomba da asma. Nunca mais lá pus os pés. Há vícios e vícios. No Intendente, contam-se pelos dedos os que não são viciados em heroína. O padre Henrique aparece por aí. Diz que a sua missão é tirar da rua os que puder. Mas os nossos traumas fazem com que gostemos destes cantinhos em pedra, sentimo-nos com mais liberdade. Que raio, o pão está mesmo duro. Eles pensam que, lá por não termos onde cair mortos, perdemos o paladar, comendo por comer, comendo tudo só para encher a barriga. Digo mesmo que alguns desses pãozinhos-de-leite que andam a dar-nos sopa, mais valia que se metessem nas casas deles, confortáveis e quentinhas. Como isto anda, é caso para lhe dizer: aproveitem as casinhas enquanto as têm. A mim já me tiraram tudo, só não me tiraram a vida. eAí a sonhora da máquina fotográfica o que pensa que anda a fazer. E aquele que escreve tudo o que digo? Vieram espreitar a pobreza alheia? Se calhar ainda a acham bonita, era só o que nos faltava. Ó minha senhora, para que quer saber a minha história? Vai resolver o meu problema? Arranjar-me um emprego? Vá-se lá embora que a minha miséria não interessa a ninguém,
Esta recriação em torno da entrevista já referida respeita as frases citadas, embora aqui aglutinadas em forma de fala única como reforço da sua intenção expressiva e de testemunho.
3 de Dezembro de 2006
dois graus positivos
segunda-feira, dezembro 11, 2006
PROJECTO K
O Cidadão, chamado ao Palácio, como o agrimensor do Castelo, em Kafka, era consultor do Projecto K. Mas, quando chegou ao Palácio, ninguém lhe respondeu, apesar da sua longa insistência. Usou as campainhas e o forte batente do portão mas, com efeito, não obteve resultados. Resolveu então descer o caminho até a aldeia, no sopé do monte, e foi sentar-se num café que por lá havia. Bebeu leite fresco, esperou o tempo que a paciência lhe consentiu e acabou por fazer uma primeira chamada para o número de telefone que lhe haviam confiado quando da solicitação dos seus serviços. Ao cabo de um ou dois minutos de espera sob a monótona repetição da campainha, retinindo renitente na distância, ninguém veio atender-lhe a chamada. Ficou surpreendido. Fumou um cigarro e esperou um pouco mais. Quando accionou o telefone pela segunda vez, pareceu-lhe que o toque era mais forte, e dispôs-se a falar. A campainha retinia de cinco em cinco segundos, obviamente remitente, e o tempo parecia uma toalha de àgua espalhando-se pelo chão do café, obrigando os freguese a sairem dos lugares, alcançando uma especie de palco onde havia igualmente mesas e um móvel antigo cheio de loiças. O cidadão esperava, desesperava, aterrado com o destino de quem o chamara e lhe dissera da urgência em tratar novos problemas do Projecto K. Pensava, ao fim de três horas de telefonemas, que vivia num Estado de Direito, beneficiando da liberdade própria do regime democrático, e isso conferia-lhe o poder, nestas circunstâncias, de retirar-se. Contudo, procurando achar um pouco de calma, voltou ao Palácio, premiu as campainhas com força e usou o batente do portão com grande veemência. Mesmo assim, nada obteve através dessa mudança no uso dos meios. Olhou para as câmaras de vigilância, imóveis, mas claramente apontadas ao lugar em que se encontrava. Pareciam mortas, as lentes estavam cheias de pó. Ancioso, o cidadão decidiu rever os dados que apontara, retirando da algibeira do casaco um pequeno maço de papéis, nos quais, logo na primeira folha, podia ver as notas que tomara durante a chamada do Palácio - o lugar, o dia e a hora, problemas ligados ao Projecto K. Em boa verdade, ele ignorava em que consistia tal projecto, quais seriam os seus objectivos finais, após anos e anos de trabalho sectorial, em construções principalmente de metal e betão, algo que se parecia, sob o papel e nas maquetas com as antigas refinarias do século XX. O seu trabalho, circunscrito a uma determina área de terras expropriadas, estava no entanto aparentemente ligada à energia de fusão, trabalho secreto, fraccionado para despistar os intuitos mais legíveis. Tudo começara nas fundas caves do Palácio, obra que parecia revestida por sucessivas reconstruções, evocando estranhamente a Idade Média. Paradoxalmente, o primeiro piso surgia bastante iluminado, paredes lisas, paredes brancas, espaço que contornava um grande suporte central de trabalho. Esse "cenário" ocupava pouca gente, apesar da sua amplitude, embora parte dos circunstantes fossem altas patentes militares, tratados com deferência, a par de professores, ciêntistas e muitos técnicos informáticos. Essa gente não primava por grande actividade, aparecia e desaparecia tomando notas, acrescentado aqui e além simulações nos módulos de trabalho e nos computadores portáteis espalhados pela mesa. O cidadão convocado era especializado em fisica das particulas, trabalhara em estudos de fusão atómica, mas ali pediam-lhe sobretudo que operasse cálculos do efeito de certas forças em modelos naturais minuciosamente elaborados à escala.
Naquele dia, suscitado cada vez mais pela importância de tudo o que podia abarcar relativamente ao trabalhos ali em curso, o cidadão decidiu permanecer mais tempo na zona e foi hospedar-se num pequeno hotel da aldeia, espécie de residêncial do século XX. Aí tomou um banho quente, procurando aliviar o corpo e o espírito, acedendo entretanto aos jornais do dia, aos noticiários da televisão, e dispondo-se finalmente a dormir na comodidade desta insólita solidão. Não deixou de telefonar, por vezes e de novo, para o Palácio. Não obtendo nenhum sinal desse lugar, resolveu dormir e esperar tranquilamente pela manhã. Mas não dormiu de forma satisfatória. Estava perplexo. Afinal desejava com impaciência que a luz do dia surgisse. Já estava sentado na cama quando o telefone, colocado sobre a mesa de cabeceira, tocou. O cidadão levantou rapidamente o auscultador e ouviu o recepcionista a anunciar-lhe uma chamada. Depois, do outro lado da linha, a voz de um homem solicitava-lhe que confirmasse com quem falava e disse depois, apenas:
"Diga-me o seu código, por favor".
"Não sei a que código se refere".
"O código de enquadramento no Projecto K".
O cidadão ficou supreendido.
"Mas eu não tenho esse código".
"Não tem? Que quer dizer com isso?"
"Que não tenho nenhum cartão de código respeitante ao Projecto K".
"Mas é a primeira vez que vem trabalhar no Projecto?"
"Não. Trabalho desde da primeira comissão."
Silêncio do outro lado da linha.
Alguém parecia ter tocado na porta. Só então ele acordou de uma noite agitada. Olhou em volta, com a graganta seca. Estava no quarto da sua casa e a mulher (o seu anjo da guarda, como ele a nomeava por vezes) trazia um tabuleiro com frutas e sumos, hábito que mantinha aos fins de semana, desde de sempre.
Rocha de Sousa
segunda-feira, novembro 27, 2006
MORREU MÁRO CESARINY DE VASCONCELOS


Filho
de ourives
joalheiro,
o poeta da
«Pena Capital» e
«Nobilíssima Visão»,
além de tod o espólio
que aí fica a
enriquecer-nos,
passou do literal
ao simbólico: da
ouriveria à alquimia
das teclas à que na
poesia incorporou
dos jornais







