Esta imagem corresponde a um leilão de arte, no qual, perante uma grande tela de Sousa Lopes, as cabeças do público parecem (maliciosamente) integradas na pintura pelo fotógrafo. Há quem considere que os leilões de arte constituem um modo de redistribuir muitas obras plásticas pela sociedade. Ora todos sabemos o que se passa com as «indústrias da cultura» e a hipocrisia, disfarçada de falsos saberes e tráfico de influências, actividades que enlameiam os mercados desta área. Em boa verdade, os leilões permitem que os ricos vendam obras a outros ricos ou que alguns «nobres» em decadência passem o seu património cultural a meia dúzia de milionários. A peça que vemos na imagem tem as dimensões de 2,72 por 3,54m. É uma pintura a óleo, com um tema de festas religiosas, e foi vendida a um particular, para espanto de muitos, por 125 mil euros.Quem era Sousa Lopes, afinal? Um pintor que nasceu em Leiria, no ano de 1897, e veio falecer 65 anos depois, em Lisboa, durante 1944. Como outros do seu nível, por vezes surpreendentes, é tratado com alguma negligência. Anísio Franco, historiador de arte do Museu de Arte Antiga, entende que Sousa Lopes «é conhecido da história da arte, mas tem sido pouco estudado e mostrado». Maria Aires Silveira, conservadora do Museu do Chiado, anota que, apesar de tudo, «não se pode dizer que o pintor seja pouco conhecido. A verdade é que não tem havido grandes exposições e é natural que o grande público não o conheça. Mas não é uma figura desconhecida»». Estas impressões, obtidas de uma reportagem do jornal Público, deixam-me estupefacto. Afinal quem conhece ou não conhece Sousa Lopes? Como se pode falar desta forma de gente cujo trabalho foi longo e fez parte de uma área em geral pouco acalentada pelo país, sobretudo pelos governos e pelos próprios museus? E agora, emergindo do quase esquecimento, uma obra desta autor, «A Procissão», é vendida por 125 mil euros, o que produz algum desconforto. «Não sei o que dizer», considera Aires Silveira: «Esta obra pertence à linha de um naturalismo tardio, muito próximo das peças de Malhoa. É muito ensolarada, com um jogo de sombra e luz muito marcado. Mas está dentro do naturalismo de tendência folclórica. Trata-se de um tema bem ao gosto português. Teve muito sucesso e foi muito apreciada pelo público da altura». Mas os conhecedores desta matéria continuam sem explicar o montante atingido pela obra. A conservadora do Museu do Chiado, embora «não saiba o que dizer», pensa que talvez as largas dimensões da pinturam possam abrir algum indício revelador. «Deve ter-se em conta que é uma obra de grande dimensão. Aguenta-se bem na grande dimensão».Estes comentários são verdadeiramente ensurdecedores. Anísio Franco solta-se: «Inexplicável? Não é nada inexplicável. É uma bela peça para uma obra de Sousa Lopes. Têm surgido poucas obras de arte à venda; por isso, no contexto do mercado de antiguidades português, é explicável!»E assim vão as coisas das artes e dos mercados, o desentendimento dos naturalismos tardios e coisas assim, mesmo quando toda a gente sabe (nas esferas administrativas) que não houve em Portugal, durante décadas e décadas, até por snobismo, uma vasta retrospectiva de obras de autores deste género, com Malhoa e tudo, por forma a se estabelecerem melhor as verdadeiras grandezas. Importaria saber se outrora o público respeitava e visitava, como se insinua, um Sousa Lopes ou um Malhoa. Pelo menos para se perceber melhor os estímulos «milagrosos» que levaram multidões a esperar horas e horas para puderem ver e deificar Souza Cardoso. 11 Adaptado, quase ficcionado, de uma reportagem de Teresa Firmino publicada no Público de 7.03.07
quarta-feira, março 07, 2007
DO ESQUECIMENTO AOS LEILÕES DE ARTE
quinta-feira, março 01, 2007
O REAL DENTRO DO HIPERREAL
pintura mural, de grandes dimensões em espao urbano nos EU |
O enquadramento usado para realizar esta fotografia apoia uma espécie de desafio a este colossal trompe l'oeil na parede cega de um grande edifício, em ponto urbano, nos Estados Unidos da América. O efeito é poderoso, ainda que discutível em terms estéticos. Seja como for, aqui podemos confrontar-nos com os problemas da percepção visual e o modo como ela pode relacionar-se com um real inevitavelmente ambíguo, movente, e nunca susceptível de ser completamente apropriável através dos nossos meios naturais. É caso para se pensar, com ironia, que os carros pertencem à pintura, em primeiro plano, fingidamente áquem do maciço rochoso. A verdade é que, embora o afastado bloco rochoso pareça gigantesco na distância aérea, ele é apenas uma pintura que se ergue, a prumo, feita numa imensa empena que se ergue a não mais de um ou dois metros da parte da frente dos carros. Tal ensaio coloca-nos de facto os habituais problemas da percepção visual, da aparência e da realidade, numa relação perturbadora com o poder e a fragilidade da representação
quarta-feira, fevereiro 28, 2007
UM OLHAR RANGENTE SOBRE O MUNDO
No domínio dos eventos artísticos, na destruida (pelo fogo) Galeria Nacional de Arte, margem direita do Tejo e resto da Exposição do Mundo Português, devemos lembrar a apresentação antológica de Wolf Vostell, que se revestiu da maior importância e permitiu aos artistas modernos deste país arriscarem posições interventivas por vezes de mérito muito assinalável.
Vostel, exprimindo uma violenta avaliação do mundo em volta, ou mesmo do nosso estado civilizacional, usou a performance e a instalação como quem arremessa à terra formações absurdas de cimento ou como quem recupera, dos lixos e dos lagos pôdres, todos os graffiti de grandes ecrãs de alvenaria, mostrando alegorias herméticas, velhas reconquistas da primeira Idade Industrial e dos seus perversos efeitos colaterais. Para além disso, e de marcas monumentais que imprimiu ou cravou nas encostas de uma via férea, ultrapassou as grandezas da memória pela reconjugação de restos, cemitérios do ferro e das latas vazias, desmontando, com ironia e horror, a sociedade de consumo: um carro cercado por pãos atados uns aos outros, como a muralha da forme ou contra os agentes dela. A instalação das portas dos carros, motorizadas para se abanarem ou estremecerem, é das suas invenções mais orgânicas e mais temíveis: o ruído das portas sugere a substituição insubmissa das orquestrações brutais, metálicas, enquanto a par disso, ou noutras pesquisas pela fotografia, Vostel imprime à imagem certo peso coisal, referência aos desastres principais, esmagamento de pessoas e dos sonhos no indecifrável desabar das humanas construções de ferro, aço, cimento, sangue oculto na permanência dos cadáveres dos escombros, gritos vindos de lá e de súbito conceptuais, teoricamente numeráveis
segunda-feira, fevereiro 26, 2007
O CUBANO, ZOOLOGIA E KAFKA
sábado, fevereiro 24, 2007
O CUBANO
Este homem aponta o dedo direito à cabeça, como se ameaçasse suicidar-se, desgraçar os outros ou afirmar a sua grande sabedoria. João Jardim, governador da Ilha da Madeira concorre com outro homem de forte permanência, Fidel de Castro, presidente de Cuba. Curiosamente, o Jardim de certa maneira homónimo do cubano Fidel, não se coibe de chamar cubanos aos seus concidadãos do Continente (Contnente, segundo o peculiar português de João, o construtor).
Habituado a desenvolver o seu território com verbas europeias e os milhões do governo português, Jardim, ao saber da nova lei das finanças regionais, berrou quanto pôde, chamando nomes banais a esta gente de cá -- aldrabões, sacanas, incompetentes, merdas, lacaios, e assim por diante, mais ou menos para pior. Ele não quer compreender que, tendo a Madeira atingido o tecto per capita europeu, deverá ajudar as outras regiões na difícil poupança que têm de realizar.Pois saibam então que Jardim, não podendo vingar-se de outra maneira, demitiu-se e faz convocar eleições para se pebliscitar, uma vez que os madeirenses concordam em geral com a sua sacralização e mais tempo no poder. Nem em Cuba, apesar do recente precipício. Jardim podia, mais acertadamente, dedicar-se à jardinagem e deixar que outros corriijam os seus erros: abarrotou o navio de coisas, ilha em risco de naufragar, mas não o tornou os passageiros capazes de se alimentarem a eles mesmos, livres de tutelas e empréstimos.
segunda-feira, fevereiro 19, 2007
A PALAVRA E O RITMO
___________________________________________A ideia de que se vive numa civilização tecnológica, com grande incidência na imagem, corresponde aproximadamente à realidade que nos rodeia e às concepções estruturantes dos meios operativos disponíveis. O paradigma do tempo encurtado, de uma espécie de urgência em queimar etapas, em vencer cada vez maior quantidade de obstáculos, alcançou grandeza desmuserada sobretudo a partir da «revolução industrial», na presumível necessidade de crescer, de crescer muito, rasgando-se vias de comunicação e unidades fabris de larga escala. A concentração imediatista em torno das matérias combustíveis, madeiras, carvão, derivados de produtos fósseis, apontou, apesar de todos os investimentos necessários, no sentido de muitos caminhos facilitistas, e dassa forma acelerou os processos de produção, concentrações urbanas, novas exigências, abuso do trabalho em massa, desmultiplicação intensiva, enfim, de objectos com as mais diversas características e funções. Do fazer artesanal, e quase bruscamente, passou-se para a produção em série, desde os utensílios mais comuns aos primeiros automóveis. Tudo isto veio alterar as estruturas sociais, a ocupação e ordenamento do território, a velocidade das deslocações e tratamento de projectos, a própria escrita quotidiana ou comercial com o advento da máquina de escrever. Sob o impulso do teclado, a ordem linguística estabelecida teve de adaptar-se a imperativos temporais, consoante os ramos de actividade e um certo sentido alucinatório para cumprir uma melhor e mais rápida resolução na troca de informações Esta realidade, como aparentemente não podia deixar de ser, florescia num grande número de frentes. A escrita iniciada por cada um de nós, à mão ou com máquina, passou a documentar um oceano de iniciativas, entre a edificação urbana, os polos industriais, comerciais, de serviço e ainda redes de contacto capazes de acelerarem as aprendizagens e a cada vez maior complexidade da vida humanaAlguém me dizia há dias que o destino das palavras manuscritas tinha os dias contados. Dantes havia o ritmo da escrita, procurava-se o ritmo e a vida quase autónoma da palavra, quer através dos mais diversos tipos de canetas, quer no perfeccionismo resultante do uso de máquinas electrónicas. Hoje o computador engole tudo, alinha tudo, caligrafia, temperamento gráfico, vitalidade das palavras. A palavra dexou de ser uma afirmação de gosto e ritmo, tornou-se inerte e funcional.Não penso assim. Desde logo, a palavra é agente estruturante e estrutural de várias linguagens: olhada ou falada, é intrinsecamente ritmo.Cada palavra, feita de caracteres e sílabas, forma um corpo melódico, sacudido ou ondulante, é espaço de notas, frase ela mesma, frase com outras em racord de som e sentido. É arte. É a invenção que salva o homem do silêncio, da solidão e da mudez do cosmos. O ritmo dessa articulação criadora de sentidos faz parte das artes e do comportamento. E, em boa verdade, não existe expressão (comunicação) sem os encaixes dos meios e dos modos, entre o pequenino seixo rolado no rio (a coisa) e as mitologias que vamos tecendo em jeito de tapeçaria. O seixo rola, bate nos outros, em movimento e som, enquanto os dedos dedilham a teia do tear e batem a lã, em baixo, com um largo pente de ferro. São palavras (que reconhecem as coisas e as nomeiam) ou que se descrevem com outras, simulando o bater nas pedras e no cume da tecelagem. Os mudos e os surdos ouvem melhor essas palavras do que nós, a cada gesto pensando adjectivos. Aliás, e para os nossos companheiros que perderam a audição, a fala gestual, indiciando situações, ilustrando realidades, exprimindo conceitos, são bem a alma rítmica das plavras. E o mesmo acontece com o bailado doce dos dedos dos cegos lendo em silêncio, por sistema Braille, palavras umas após outras e vendo através dessa textura.E não nos esqueçamos: a palavra, pelos significados que desperta e pelo ritmo que modela, tanto no sentido caligráfico como na conjugação das sílabas, é inerente à criação artística em vários níveis. Não há construção das artes, nem das que contêm o tempo como sua estrutura ou o sugerem, sem a palavra, base civilizacional.
QUEM SOMOS NÓS?
Esta imagem corresponde a uma pequena parte do Universo, situada a milhares de anos luz de distância. Algumas destas fotografias que a Nasa publica na Internet são o resultado de um grande desenvolvimento tecnológico e obtidas através de sondas que se deslocam no cosmos, enviadas pelo homem, ou por esse instrumento fabuloso, colocado no espaço, o Hubble Space Telescope. Este aparelho tem permitido penetrar nas camadas mais profundas do espaço, entre milhares de galáxias, fotografando fenómenos nunca vistos anteriormente e abrindo janelas de conhecimento inimagináveis há relativamente pouco tempo.
terça-feira, fevereiro 13, 2007
ARTE CONTEMPORÂNEA PORTUGUESA
Rogério Ribeiro nasceu em 1930, em Estremoz, e frequentou a Escola de Artes Decorativas António Arroio. A sua formação inicial desenvolveu-se na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, agora Faculdade, onde o artista, como docente de design, prestou relevantes serviços científicos, didácicos e pedagógicas, aliás na sequência da reforma implemnentada por docentes e alunos, além de muita documentação recolhida e coordenada por um dos grupos de trabalho. Isso aconteceu, naturalmente, depois do 25 de Abril de 74 e permitiu convencer os renitentes governantes de que a arte, além de sedimentar e caracterizar uma civilização, é indispensável, a nível superior, para a identidade dos países em que se consolida.
segunda-feira, fevereiro 12, 2007
1 * 2
____________________________________________A imagem à esquerda (1),dinâmica, é idêntica a muitas outras que corresponderam a uma procura adequada ao neo-realismo. A massa das mondadeiras aglutina-se em vários pontos, e há sem dúvida a sugestão de uma forte dobragem da coluna, hastes, espigas, membros em acção. Esta busca era efectivamente difícil no neo-realismo pictórico, expressão que noutras latitudes adqiria a forma de Realismo Social. O problema complicava-se pela falta de uma iconografia apropriada, pelo que o esforço divergia com frequência para uma figuração retórica. Rogério Ribeiro foi um dos maiores inventores do campo imagístico neste domínio, capaz de juntar a luta e o movimento à permanência de um certo realismo na modernidade.Na imagem 2, à direita, (mulher amanhando o peixe) a evolução formal, entre o despojamnento e a textura, não desdiz o realismo e até a temática, como se viu no célebre quadro, de Pomar, O Almoço do Trolha.O neo-realismo é uma criação do pós-guerra e das expectativas democráticas então geradas. Longe A imagem 1, em cima à esquerda, é idêntia a muitas outras, tratando temas socias, com força e com de ser um fenómeno português, esta poética integrou a pintura de países como a França e a Itália, sustentada pela força dos partidos comunistas da região. O seu vínculo artístico aportava sobretudo à literatura: a imagem acompanhava com dificuldade, como é natural, esse universo. O realismo social adequava-se ao lirismo português, mas a expressão neo-realismo, adoptada entre nós, emergia como arte de combate social e político, oposição ao regime vigente em Portugal, embora as obras não tivessem a dureza académica do realismosocialista petrificado na União Soviética. A imagem da mulher furta-se, apesar da sua verticalidade, à mitificação e lembra mais as soluções muito hábeis de Portinari
quinta-feira, fevereiro 08, 2007
COLUMBANO REVISITADO
- Columbano Bordalo Pinheiro, nascido em 21 de Novembro de 1857, há 150 anos, estará entretanto em exposição no Museu do Chiado. Este é um momento exemplar para revisitar o grande artista, irmão do inesquecível caricaturista Rafael Bordalo Pinheiro. Numa poesia aberta à chegada de Columbano de Paris, o humorista Rafael prestou homenagem ao artista, e de tal sorte certeiramente que a si própro fez um retrato de Zé-Povinho, indiciando profeticamente o sucesso do irmão como pintor, homem que efectivamente marcou de forma renovada a pintura naturalista portuguesa.
- A exposição do Museu do Chiado (Fevereiro 2007) apresenta obras pouco vistas ou talvez nunca reveladas, mas isso mais acentua a importância das prospecções aos patrimónios que recolhemos e Columbano resulta muito do modo como ele soltava ou justapunha manchas cromáticas, numa representação que sabia não estar a copiar o visível, antes o interpretava com rigor e inquietação plástica.Na época em que regressou a Paris, e embora na altura o impressionismo estivesse em voga, Columbano apreciava mais a pintura holandesa do século XVII, a luz dramática, a coesão tonal da matéria pictórica.
- Columbano foi um autor polémico, na razão da sua técnica inusitada, mas a história não o injustiçou. De resto, em meados do século XIX, ele mostrava um interesse fundado pelos avanços da modernidade, experimentando novas formas, sem perda de coerência e da sua identidade estética. Nesse tempo, Columbano chegou a enviesar as regras, frontalidade e pose, por exemplo, como acontece numa espécie de instantâneo visível em baixo, na figura mais pequena - «A Luva Cinzenta». A senhora é representada um pouco como se estivesse distraída, de lado, acto ocasional que a fotografia haveria de explorar profundamente.
- Columbano pertencia a uma família numerosa, que o pai regia em bom termo, e mostrou-se muito cedo verdadeiramente dotado para as artes. Devido ao seu empenho e à qualidade da sua produção, o artista terminou um curso de sete anos em quatro. A breve trecho participa nos salões da Sociedade Promotora das Belas Artes.
- Com a decisão de um mecenas, Columbano obtém uma bolsa de estudo. Paris, o contacto de aprendizagem com Manet e Degas, tudo isso faz com que o pintor evolua. Aliás, também ele tinha talento para conseguir as influências do meio, sobretudo em Lisboa. De novo em Lisboa, em 1883, o artista acabou por agitar o meio intelectual, entre expectativas e rumores antecipados: estava de volta ao Leão de Ouro e aí, intrigando os que nada ainda podiam ver, realizou um provocador retrato colectivo, juntando personalidades importantes, provocando mais (e as habituais) polémicas.
- A sua obra está espalhada por diversos locais, no país e no estrangeiro, marca a própria Assembleia da República, enquanto o contacto com o século XX lhe trouxe o começo de um declínio nas apreciações, sem deixar de ser reconhecido como um artista de referência. As lutas em torno das Escolas de Belas Artes prejudicaram o clima entre os artistas, e de resto o público das tertúlias já nesse tempo operava pareceres bastante obtusos. Como nos nossos dias, congenitamente, diga-se a verdade.
- Por mim, penso que Columbano Bordalo Pinheiro é uma das personalidades mais marcantes da nossa pintura. Bem se poderia (ou deveria), para além desta e da próxima exposições, reestudar Columbano, a época e a sua obra, agora certamente com a independência e procurando reconhecer o seu modo especial de anunciar a modernidade. É perfeitamente patético o que o pintor escreve a Francisco Vilaça, em 1885, depois de referir que guardava tudo no seu quarto, revendo mais tarde o trabalho do dia: «Sozinho, em silêncio, faço então a exposição, para mim, dos meus próprios trabalhos e assim passo bons bocados a admirá-los. Hei-de acabar, creio, por ser o único admirador da minha obra». 1
- _______________________________________________________________
1. Texto apoiado na notícia da exposição por Sílvia Couto (VISÃO), Academia de Belas Artes e Dicionário da Pintura Portugusa, Ed. E. Cor
segunda-feira, fevereiro 05, 2007
VOTO FERNANDO PESSOA
retrato de Fernando Pessoapelo pintor Júlio PomarNão sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Quando se fala da identidade de Portugal, a propósito do programa da RTP1, «GRANDES PORTUGUESES», o nosso mundo mais profundo e subjectivo é accionado de fora para dentro, retomando um sonho de oito séculos. O programa é copiado de outros que decorreram em vários países, propõe que, durante algum tempo, os cidadãos escolham e comuniquem à estação de televisão qual o português, do passado ou da contemporaneidade, susceptível de nos representar a todos. Entretanto, depois de escolhidos apenas dez finalistas entre cem nomes votados, houve um curioso debate entre personalidades cuja orientação permitiu entender votações surpreendentes e preferências justificadas. A verdade é que os portugueses se esmeraram nas escolhas e, apesar de nos dez últimos grandes nomes da nossa história surgirem Salazar e Álvaro Cunhal, em torno dos quais os pareceres foram trocados a sério, sem azedumes de maior, os «críticos» da noite (04.02.07) salientaram a bondade da lista, o facto de não haver disparates nela e até a centragem em dois dos nossos maiores poetas, Camões e Fernando Pessoa, o que pode abrir caminho a uma final bem própria da realidade poética da cultura portuguesa. Serão passado entretanto pequenos documentários sobre cada um dos dez finalistas, orientados pelas pessoas que entretanto os analisaram e defenderam, após o que se seguirá a votação final e a eleição, na contingência destes jogos, apesar do lado pedagógico deste, sobre qual será o português com qualidades e marcas para ser o «maior», de algum modo capaz de ilustrar perfil do português, a identidade do próprio país.
Tenho uma certa aversão a estes jogos e a lançamentos de sorte. Mas, seja como for, inclusive pelas personalidades implicadas, desta vez, aqui, terei uma participação, concentrando a própria declaração de voto.
Os primeiros versos do poema A TABACARIA, de Fernando Pessoa /Álvaro de Campos, indicam, com um desencanto e uma força peculiar, muito do que frequentemente determina o comportamento português. A distância e o cerco, numa espécie de pobreza congéntia e perante a grandeza de uma história onde não faltou o sangue, a aventura, a identidade territorial, a fabulosa expansão marítima reveladora de espaços inimagináveis, tudo isso aparece naqueles simples versos, fala nostálgica, sentido da solidão, impedimentos da escassez demográfica, entre outras, e, por último, numa grande certeza interior, num rasgo de que o mundo se pode alargar ou somar à atitude civilizacional que nos engrandeceu, o poeta muda a posição da vela e diz -- «à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.» Eis o sonho predizendo ou evocando a História. Esta voz única, e simultaneamente recriada, corresponde ao mito do que é ser português, sendo-o. Sobretudo quando a pequena gesta e a tolice política são superadas pelo espírito plural, universalmente criador. Quem lê a ODE MARÍTIMA nunca mais esquecerá o que de maior existe na nossa cultura, quem somos, quem fomos, e como, por outro lado, OS LUSÍADAS se tornam tão contemporâneos como a ODE, lendários, míticos, descobridores do futuro e do génio na pacatez de um eventual quotidiano cinzento.
o cais é uma saudade de pedra
VOTO FERNANDO PESSOA
domingo, fevereiro 04, 2007
DESPOJOS SEM CÓDIGO E A VOZ DO POVO

dos jornais
sábado, fevereiro 03, 2007
LATAS COMO SARDINHAS EM LATA
QUE RECICLAGEM
Não resisti a partilhar convosco esta imagem paradigmática do muito que, à flor da nomeação, tenho apresentado aqui. A grande percentagem de lixos produzidos nas chamadas sociedades de consumo já não cabe nos espaços concebidos para enterramentos e aterramentos diversos. E até nem se pode, nas escalas em redor, falar de abandonar detritos em desertos, ou em terreno baldio, ou na esquina dos subúrbios das grandes cidades. Porque a contaminação atinge níveis generalizáveis e é preciso inventar modos limpos de pulverizar os vários lixos e até de reciclar os que têm possibilidades de cumprir esse ciclo. Timidamente, há por aí uns potezinhos para receber cartões, plásticos e vidros, matérias escrupulosamente trazidas por algumas donas de casa que separam o lixo, fazem um enorme trajecto para chegar aos tais contentorzinhos completamente errados para o fim em vista, e assim cumprem um dever proclamado na televisão. O Estado tem de trabalhar este problema mais a sério: é muito mais eficaz (e livra-nos da enorme poluição visual dos contentores) fornecer sacos aos munícipes, com anilha de fecho, os quais deveriam ser colocados na rua, à noite, mas com a certeza de que seriam recolhidos nas duas ou três horas mais próximas, todos os dias. A recolha dos diversos tipos de lixo tem de ser feita, de facto, todos os dias, incluindo sábados e domingos, com carros e trabalhadores minimamente formados nesta área das contingências urbanas. O que parece, assim, sair caríssimo, é ultrapassado pelos milhares de toneladas de lixo recicláveis em tempo útil.
quarta-feira, janeiro 31, 2007
A FESTA DA NUDEZ, LITURGIA DE UM LUGAR
reportagem vendida às revistasEm boa verdade, só li parte do texto que acompanha esta performance colectiva, no qual se dizia que estas pessoas comemoram assim um certo dia dedicado à vida e ao amor. É a sua liturgia do apaziguamento e do sentido de comunidade. Não estamos aqui perante um trecho fotográfico daquele fotógrafo que corre o mundo a encher ruas e praças de gente nua. Mas aí há uma encenação artística. Aqui há uma encenação artística como agradecimento pela dádiva dos encontros.
terça-feira, janeiro 30, 2007
FUTEBOL POS-MODERNO
Os dez grandes estádios que se edificaram em Portugal, a fim
de servirem o EUROPEU correspondem, segundo técnicos
habalizados, a montantes financeiros e grandeza logística
para a edificação de cinco pequenas cidades no
interior do país, incluindo estruturas básicas
num quadro tecnológico de porte
médio. A aposta não passa, quanto a mim, de uma tentativa
escassa de relacionar a grandeza absurda dos edifícios liga-
dos ao futebol com o desperdício improdutivo da sua totalida-
de e financiamentos acessórios.
De cada vez que me defronto com o futebol (mil vezes pela televisão) sinto repulsa por essa ensurdecedora prioridade da comunicação social relativamente a tal desporto, assim capaz de tornar fundamentalista uma boa fatia da população. Lembro-me de ver jogos em Inglaterra em que todos os jogadores se situavam a certas distâncias uns dos outros, trocando a bola, e partindo depois, num golpe surpreendente, em profundidade, para a esquerda ou para a direita -- passo raro e preciso que permitia uma rápida triangulação sobre a baliza. Esse futebol quase perdido em função das «audiências», das trocas de ano para ano, das compras de jogadores por milhões de euros acintosamente desproporcionados, era, para mim, o verdadeiro futebol, e reconheço que a televisão inglesa nos ensinou muito ao transmitir os encontros com uma subtileza enorme, em directo, usando muito bem o plano próximo em belíssima coordenação com os planos médios e gerais. Através da televisão inglesa, nos tempos do preto e branco, tornou-se claro que o futebol (aquele, pelo menos) era fotogénico e tinha um grande aliado nas emissões televisivas. Mas a fotogenia tinha também um sentido literal, decorria muito de modo como os atletas jogavam, sugerindo por vezes a câmara lenta colada na passagem aos disparos rápidos, na corrida e com a bola.
Abarrotando de emissões de futebol, sobre o futebol, numa sufocação intolerável, horas e horas, aqui e além, nos noticiários sem falta, a Televisão Portuguesa, toda ela, comete um grande atentado contra a sanidade mental dos cidadãos e cria neles, a par de analfabetismos de pesos vários, um fundamentalismo inteiramente injustificável. As estatísticas deste tempo pós-moderno mostram a loucura ilusória de cada plantel nos tempos de antena dedicados ao futebol e deixa-nos estupefactos, infectando a razão e tornando redutor o espaço dos nossos desejos. Em boa verdade -- incluindo todas as estruturas administrativas -- o futebol português deveria ser revolucionariamente reformado, encurtado, menos mercantilista, menos perdulário nos gastos e obeso nos privilégios; menos premiável (também) aos negócios pouco limpos, ao tráfico de influências, à desnacionalização ilusória de cada plantel. Com o tempo, o tão elogiado futebol português (pelos fundamentalistas) tem-se comercializado e degradado tanto na técnica como no sentimento. A brutalidade abunda, das mais diversas maneiras. As lesões sucedem-se, pagas a peso de ouro. Tudo deveria ser reformulado: as regras do jogo em geral e a mudança de procedimentos, aberturas e reservas, disciplina, arbitragem, tempo, processos de registo vídeo nas grandes áreas.
Aos presidentes, administradores, capitães de equipa e árbitros seria sempre atribuído um dignificador apito dourado
sexta-feira, janeiro 26, 2007
A LUXUOSA DESTRUIÇÃO DO MUNDO
dos jornaisA grandiosidade aparente das industrializações energéticas que a imagem propõe, e de certo modo engrandece, são de facto uma espécie de cenário da ficção científica, as terríveis premonições de um futuro carregado de ameaças desencadeadas pela própria humanidade. A tecnologia cresce para funções cada vez mais avançadas, entre vertigens de uma pressa que os mais cautelosos não compreendem, mas a ciência começa a ter agentes capazes de fazerem o seu exame de consciência, demonstrando que algumas das actuais transformações climatéricas do planeta resultam do uso de matérias não renováviais, arrancadas à terra e usadas na criação poluente de energia. A par dos ciclos naturais da vida da Terra, enquanto corpo vivo, as grandes concentrações fabris e humanas, quase exclusivamene baseadas no petróleo, só agora percebem com alguma propriedade que os milhões de toneladas diárias expelidas para a atmosfera foram abrindo caminho a um aquecimento do planeta, tendo iniciado, entretanto, as primeiras e catastróficas manifestações da mudança do clima e dos desastres induzidos pela criatividade aprisionada da população -- sociedades de consumo, dizia-se até há pouco, o que não deixa de ser verdade ainda, em termos quase fundamentalistas, adiando as pesquisas já perfiladas para a formação de energias renováveis, porventura influenciando no futuro os próprios objecivos das comunidades.
ARTE CONTEMPORÂNEA PORTUGUESA
Até aqui não aproveitei devidamente este blog para divulgar casos de referência de artes plásticas quanto a autores contemporâneos portugueses, embora tivesse assinalado há pouco, numa perspectiva cultural e política, no «trecho» sobre os ARTISTAS ENCOBERTOS, a deficiente situação da coordenação e apoio das artes em geral, no nosso país.Passarei a dar atenção ao assunto com mais assiduidade, até porque faço critica de arte no jornal JL e disponho de materiais por vezes de grande relevância, adequados à divulgação É o que acontece agora, com a exposição de pintura de Teresa Magalhães, pouco tempo depois de haver apresentado um projecto de raiz retabular na Sociedade Nacional de Belas Artes.
Durante o mês de Fevereiro, na Galeria Valbom, Teresa Magalhães, nascida em 44 e formada pela Escola Superior de Belas Artes, agora Faculdade da UL, vai expor de novo. Senhora de um vastíssimo curriculo, entre exposições individuais e colectivas, presente em colecções ou Museus e premiada em diversos certames, os seus estudos nesta área beneficiaram de haver seguido a reforma para o Ensino Superior Artístico de 1957, mantendo assim contacto com Professores Assistentes e Professores de novas gerações para o tempo, os quais, embora pressionados negativamente pela Direcção da Escola (arquitecto Paulin Montez). Isto contrariava, em termos conservadores, os próprios termos da reforma. Mas o ensino tornara-se mais aberto, possiblitando o acesso a metodologias novas das aprendizagem e dos actos de formar. Não era ainda grande coisa, mas casos como o da Teresa Magalhães, a par de muitos outros, demonstram o acesso a práticas próprias da revolução artística do século XX, um tempo decisivo que desapossou a obra de arte -- a pintura, por exemplo -- de adereços redundantes e muitos efeitos característicos do naturalismo, da pretensão realista (como no próprio neo-realismo), tudo isso numa larga proliferação de movimentos em busca da essência estrutural e significante das obras, viragem por vezes radical e muitas vezes equívoca. Mas o avanço foi importante, sobretudo na problematização da arte em geral, e em todos os géneros. Teresa Magalhães filiou desce cedo a sua prática nos estudos que rodearam toda a experiência da acção, dos gestos correndo e escorrendo na tela, sugerindo movimento, espacialiade, musicalidade, a criação de um mundo liberto, aberto, colorido, simbolizando indirectamente o apelo, por um lado, à vertigem confiante da segunda metade do século XX, e, por outro, à ressonância das batalhas, dos destroços, a fragmentação de olhares sempre criativos e atormentados com o excesso do mundo contemporâneo.
quarta-feira, janeiro 24, 2007
OS ARTISTAS ENCOBERTOS
* da coluna «FIAMA, por Diogo P. Aurélio.
segunda-feira, janeiro 22, 2007
O ESPECTÁCULO E OS OSSOS



Anorexia é mais um dos vocábulos humilhantes envolvendo o nosso psiquismo manipulado à superfície das montras, vinda de longe e de perto, doença inicial que podemos colar ao aspecto daqueles manequins de plástico que servem para simular o prazer de vestir uma peça de roupa sem que o corpo, de fora, pareça rebentar de hematomas. A magreza é procurada a todo o custo. E os pacientes não comem ou vomitam o qe comem, o que não os impede de se olharem ao espelho, no qual se projecta um esqueleto de Treblinka ou se distorce uma caricatura da verticalidade do corpo humano. A massa muscular quase não existe, os ossos emergem sob a pele, e nada disso evita que tais fundamentalistas ainda sonhem, aqui e além, com volumes ainda a abater.
sexta-feira, janeiro 19, 2007
A IMAGEM E O REAL
Um dos efeitos perversos da sobrecarga de imagens -- televisivas, fotográficas, etc. -- é o desconhecimento da própria imagem como modo de dar a ver. Modo, entenda-se: não o decalque de um qualquer real, mas uma via particular de habitar esse mesmo real, por assim dizer construindo-o e reconstruindo-o, confirmando-o ou desmentindo-o. Daí um elementar princípio pedagógico: fazer imagens, ou apenas contemplá-las, não é reproduzir nenhum real. mas produzi-lo -- cada vez que fabricamos ou olhamos uma imagem, o real transfigura-se.
NB: excerto do artigo «De quem são estas mãos?», de João Lopes, Diário de Notícias, revista «6ª», 19.01.2007
A JUSTIÇA É CEGA
Há muitos anos, estava eu iniciando alguma vida profissional, fui chamado ao Ministério da Justiça, lugar mítico do qual pouco sabia, com indicação de um Secretário de Estado cuja ideia de ramo perdi por completo. Lá atei a gravata ao pescoço, sobre uma camisa nova, e fui. Quando falei com o porteiro, dizendo-lha ao que ía, logo me encaminhou para um gabinete de espera. E disse: «o senhor doutor vem já.» O ambiente era um pouco carregado, a luz muito cortada pelas cortinas, e o mobiliário preto, decorado por retorcidos. De facto não esperei muito e o senhor, cuja graduação tanto podia ser de Secretário de Estado ou de Ministro, pois os meus ouvidos fecharam-se ao som articulado das palavras de apresentação, convidou-me para nos sentarmos. E passou a explicar-se: «O Ministério da Justiça pretende encomendar-lhe o projecto de uma tapeçaria para a grande sala do Palácio da Justiça de Moimenta da Beira, que estará em breve em acabamentos. Soubemos do seu trabalho pedagógico e profissional neste domínio e queremos alargar o leque dos artistas a convidar». Calou-se e ficou a olhar para mim, como se esperasse uma resposta com tão poucas premissas. Disse-lhe que me sentia honrado com a escolha, mas precisava saber contornos do projecto, onde seria manufacturado, se havia ou não, para além da natural premissa de integração, recomendações técnicas, temáticas ou outras. E ele, sorrindo: «Então aceita?» Eu respondi que sim, que em princípio a encomenda me agradava. E ele, antes que eu voltasse à lenga-lenga das condições: «Óptimo. A tapeçaria terá três por quatro metros, será tecida na Manufactura de Portalegre, incluindo a ampliação para papel de tear. O Ministério pagar-lhe-á pelo «cartão» com todas as indicações necessárias entre cem ou cento e vinte contos.» Resmugando um pouco à partida, acabei por aceitar, considerando que a Manufactura ou o Ministério me fornecessem as coordenadas habituais. «Com certeza -- disse ele -- mas tem de respeitar apenas uma condição. A sua linha estética é a que quiser, com ou sem figuras, com ou sem simbologias recorrentes. No entanto, e no caso de desejar representar a figura simbólica da Justiça, o Ministério não aceita qualquer entidade com os olhos vendados e adereços de espada e balança. Entemde a questão?» E eu, estupefacto: «Com certeza.» Antes de terminar, já entre portas, o homem entendeu por bem esclarecer-me sobre as exigências do Ministério: «Este Ministério é de facto da Justiça. Não encontramos razões, na época actual, para apresentar a Justiça como cega (de olhos vendados) e com uma balança e uma espada, indicações de dividir laminarmente para distribuir valores ou de os ter de pesar como se os actos humanos o pudessem ser». Agradeci-lhe a explicalção e fui à vida. Em Moimenta da Beira pode ver-se o resultado. De facto a Justiça não pode julgar sem ver, porque ver é indagar, é julgar o real, enquanto o fio da espada e a balança pouco se ajustam a uma sentença ponderada numa sala e escrita à secretária. Meus amigos, os que me estejam a ler sem vendas nos olhos, esta hitória é verdadeira mas a concepção daquele Secretário ou Ministro é hoje falsa. A Justiça, entre nós, mostra índices de formação e formulação de sentenças por vezes aterradoras. Estamos neste momento a assistir à tentativa, judical, de se retirar a uma família de acolhimento e adopção uma criança que a mãe biológica lhes entregou e pediu que cuidassem, o que fizeram até ao presente, durante cinco anos. O pai biológico, que só apareceu verdadeiramente um ano depois da filha nascer, é chamado a assumir o seu papel de sangue, vivendo a milhas de qualquer cenário capaz. A protecção dos pais biológicos chega a ter aspectos ainda mais absurdos do que este, é sagrada e mítica, a criança acaba sempre em segundo plano, quando devia ser, antes de tudo, a primeira causa a avaliar. O país indigna-se: porque o pai adoptivo foi preso por seis anos e a mãe adoptiva fugiu para parte incerta, a fim de preservar a menina de uma verdadeira catástrofe. E o povo indigna-se porque percebe que o pai adoptivo se deixa prender com honra e na defesa dos valores em causa, protegendo a filha, tanto como a mulher que se oculta da total inconsistência desta decisão do tribunal. Um tribunal que obviamente exerceu uma justiça cega e não sabe nada de ninguém. Um tribunal e que usa a espada para dividir cegamente. Um tribunal que julga poder evocar a lei numa situação que é ontológica e não circunstancial.
segunda-feira, janeiro 15, 2007
O MELHOR DE TODOS OS PORTUGUESES
O melhor, o maior, o portguês capaz de representar todos os portugueses. Por um lado, é o referendo sobre o aborto, discutido em assembleias devidamente legitimadas, cidadãos procurando saber se já estamos maduros para despenalizarmos aquela eventual escolha de muitas mulheres em situações que lhes colocam o dilema: ter ou não ter este filho. Já falámos sobre este tema e oxalá os cidadãos estejam maduros. Mas, a par desta difícil tarefa de discutir um direito das mulheres que se debatem com aquele problema, a televisão pública achou por bem convidar os portugueses a decidir, à maneira de jogo mas onde se tratam coisas muito sérias, qual é ou terá sido o melhor, o maior, o mais representante de todos os cidadãos deste país. A apresentação dos mais votados para uma primeira volta, foi feita pela retornada Maria Elisa, personalidade que fica sempre a condizer com estes chás ou conversas de cerimónia. Muitos portuguses ilustres falaram sobre outros portugueses ilustres e a bola, podemos dizer assim porque o povo percebe melhor, e de acordo com a contagem dos telefonemas, de muitos foram escolhidos dez cidadãos, entre mortois e vivos. O programa vai assim animado e julgam os promotores que estão a desenrolar uma séria acção pedagógica, sem perder o fio à meada -- reeducar a memória dos maiores símbolos nacionais e controlar as audências com a solene encenação do evento, a fim de que não pareça um reles entretenimento. Mas é, é entretenimento e reles, ao ponto de Padre António Vieira perder para Eusébio e de Pedro Nunes não atingir a craveira dos dez apontados. Afonso Henriques, fosse lá qual fosse o seu feito, é um símbolo de todos, inicia a nacionalidade, não parecia difícil fazer uma escolha dessas, emblemática mas nunca errada. Outros tropeçam com Salazar, o dos brandos costumes, e não hesitam muito em telefonar: porque era um sossego no tempo dele, incluindo a brasa do Tarrafal, a agricultura funcionava, o pão não subia de valor como agora, era garantida a disciplina dos actos e um certo sentido do Império.
E eis ao que chegámos. Andar com uma lanterna, no jeito de Demóstenos, à procura do maior entre os maiores, coisa que nem sequer tem valor científico, artístico, entre a bondade das regras. É rasca e não se concilia com a cultura geral do povo português. Só não decidem utilizar os dados porque o telefone pode garantir a solidão da terrível escolha e sempre rende uns cêntimos. Uma vez que a operação está lançada, concurso e milhões sem boletim, resolvi publicar aqui uma colorida multidão dos cidadãos consumistas, cada qual na sua postura, feira de vaidades vinda directamente dos pincéis do Carlos Carreiro, pintor de uma graça patética, falando um português de imitação e tornando o espaço bem festivo, igual ao que pedem todos os nossos públicos, no cinema, nas artes plásticas, na literatura, no teatro, na música. O público português está cada vez mais habituado aos foguetes (iguais todos os anos) e que toda a gente festeja dizendo «que lindo, que lindo!». Fogo de artifício, meus amigos, este é um outro segredo da escola pela alegria dos nossos concidadãos, embora não se compare com a imensa catarse do futebol. Não há problema, não se inquietem, também há jogadores de futebol na grande tômbola dos maiores.
sábado, janeiro 13, 2007
INTERRUPÇÃO VOLUNTÁRIA DA GRAVIDEZ
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É verdade que, no pulsar da vida em comunidade, pouca coisa seríamos enquanto gente se ousássemos olhar para o mundo como simples suporte dos nossos mitos, mero espaço dos devaneios do imaginário. Um osso pode começar por ser uma arma de percussão ou de arremesso (como em «2001, Odisseia no Espaço») e dentro em breve aperfeiçoar-se até à lâmina e ao punho. Cumprida a sua função essencial, a ornamentação inicia-se e lavra, em épocas muito posteriores, os cabos onde o punho se personaliza, entre aplicações de metal e caprichosos efeitos decorativos: é o caminho para uma consagração simbólica, coisa diante da qual muitas propiciações podem ser convocadas. Alguns utensílios ou representações casaram-se assim com diversos conceitos. E os conceitos apoiaram a invenção das redes da mitologia, nomeadamente tendo em vista a sagração de elementos estruturais da vida, ela mesma símbolo maior, o que a fez enquadrar uma transcendência que nos finge eternos.A questão do aborto, que está a ser discutida no nosso país, liga-se profundamente ao cunho sagrado que imprimimos à vida, apesar de nada sabermos sobre a origem dela, nem o seu objectivo, ou que finalidades eventualmente encerra. Vivemos ainda presos à ideia de sobrenatural e à invenção da vida como bem sublime. Curiosamente, a Natureza é menos fundamentalista e engana-se com assiduidade na formação do homem, esquecendo-se de partes do corpo, de capacidades fundamentais do ser, do próprio cérebro. As instituições ditas do espírito, religiosas e aproximadas, encaram a fecundação como irreversível, num atávico fervor de protecção da vida a todo o transe. As mães, que emprestam o seu ventre à obra de Deus, são por vezes surpreendidas com uma gravidez impositiva e não esperada nem desejada. E contudo elas vêem-se rodeadas de uma feroz barbárie em todo o mundo, com milhares e milhares de mortos, vontade de governos, sem consulta de Deus, ou de bandos petrificados ideologicamente. Na incerteza de tudo, as mães «compulsivas» não compreendem porque razão as impedem de interromper, ainda numa fase embrionária e absurda, a proliferação das células dentro de si. Muitas estão à beira da exautão, após outros nascimentos, e ainda têm que suportar os acasos naturais incorrigíveis, o erro humano, natural ou divino. Aqui não há escolha porquê? Porque razão a vida, afinal tão contingente, foi colocada no nicho dos símbolos totalitários?A enorme quantidade de espermetozóides produzida para a transcedente batalha da fecundação, tão curta enquanto existência, deixa-nos presos entre a fascinação e o fenómeno intrigante. Em boa verdade, que destino reserva a Natureza aos milhares de agentes da vida, da fecundação, que não conseguem penetrar no óvulo da mulher? A lógica dos ciclos naturais, incluindo a desconcertante adulteração de alguns genes, então responsáveis pela sentença de morte vinda de dentro para fora, enfim dirigida aos seres que geraram e coordenaram, é apenas intrigante ou sinal de perdas calculadas sem intervenção humana?A interrupção voluntária da gravidez é uma conquista como outras do direito e a sua legitimidade cabe ao próprio sentido e qualidade da vida sustentado pelo ser fecundado.




