sexta-feira, março 16, 2007

O ESTILO E A PETULÂNCIA











Fingimos aqui uma coluna assinada por Constança Cunha e Sá, com o «boneco» da praxe, irreconhecível. Lemos uma crónica sua, no Público de 15 de Março, e verificámos que, falando de José Sócrates, primeiro-ministro, ela procurou enganar o efeito tablóide e usar da menor petulância possível ao abordar a vida normal do homem, quer enquanto menino e rapaz, quer depois quanto à sua prestação política, embora declarando, à cabeça, que «o estilo do primeiro ministro confirma apenas a sua falta de substância».Não encontrando no percurso daquela personalidade, ao longo da vida, nada de relevante, diz claramente: «É com este extraordinário curriculum que (José Sócrates) chega, em 95, ao Governo, pela mão do eng. Guterres, de quem foi sempre um solícito boy.» Parece difícil ser mais eloquente com tão pouco assunto.
Uma grande parte dos nossos comentadores de política e assuntos similares está cada vez mais parecida com os próprios políticos, os quais procuram, paradoxalmente, abater: fazem assim um papel onde abundam os convencimentos, as mentiras, as distorções da realidade, tudo isso em pleno exercício de estilo e frequente redundância, insubstância, petulância. Ora esta sabedoria instantânea, como no caso dos treinadores de bancada, começa a merecer alguma palavra de indignação. Porque o artigo de Constança e Sá, intitulado pomposamente «O Estilo e a Substância», é que não tem mesmo substância e debita banalidades sobre a pouca sorte de José Sócrates. Este político português não beneficiou, com efeito, de um destino menos cinzento, mais colorido e relevante, marcado logo após o nascimento pela predestinação dos grandes homens, alguém que bem cedo, ainda de calções, revelasse claro sentido de liderança e carisma relevante.Tudo isto é abordado, sintomaticamente, em confronto com Aníbal Cavaco Silva, de berço modesto mas cuja entrega aos estudos se fez, como o próprio anunciou, «a pulso».



O CHAMAMENTO DO DESTINO E SUA SUBSTÂNCIA COM BOM ESTILO


A par do «menino Aníbal», Constança fala do «menino Zezito» e esforça-se, com mal disfarçada petulância, em descarnar toda a história deste primeiro-ministro não predestinado que desde novo não se lhe descortinava uma ideia, algo que o distinguisse, um esforço, «uma proeza académica ou profissional». O bacharelato no ISEC será uma coisa menor, de duvidoso valor, aliás como essa «obscura licenciatura» completada vinte anos depois. Sócrates aportara entretanto aos caminhos da política e acompanhava Guterres (senhor que parece estar igualmente votado à menoridade, a vários títulos, pelas Constanças do snobismo intelectual que atravessa a comunicação social portuguesa). Por ela se soube ontem que Sócrates «em 1987, depois de se ter enfiado no sótão do eng Guterres e numas intrigas de maior alcance, chega finalmente ao Parlamento, onde viceja discretamente durante os anos do cavaquismo». O fio de fel e de desprezo continua durante mais alguns parágrafos semelhantes, rotulando Sócrates de «estadista de última hora» e outras coisas não menos ofensivas.

Chama-se a isto encher de lixo e má fé o «espaçopúblico» do jornal. Constança, cujo curriculum deveria vir sempre anotado em rodapé, terá de procurar fazer-nos o favor de trabalhar um pouco mais à clara luz do dia, porque, em termos de jornalismo com bacharelato e/ou licenciatura, a senhora carece de autoridade ética para dar prioridade, e nestes termos, à história comum de uma hora a montante, com omissões peculiares, da vida do primeiro-ministro, desconsiderando o jornal e o seu verdadeiro público, pois nem todos os grandes estadistas foram predestinados, doutorados, rangentes de luta, chefes precoces em associações políticas, eventualmente recheados à francesa ou num estilo anglo-saxónico, linhagem superior a montante, republicanos e laicos a jusante, sob a espuma dos dias após vinte e cinco de Abril de 74.

Será melhor, minha senhora, que se dedique a trabalho mais útil e menos redutor, deixando de sujar as mãos em coisas de cordel. Imagine que o primeiro-ministro tinha um pequeno defeito congénito no polegar esquerdo: isso seria assunto para encher a sua coluna, falando de disfuncionalidades orgânicas da ordem da predestinação e dos requisitos mínimos exigíveis a um homem de Estado? É claramente aconselhável abordar teses do domínio da tecnologia avançada e da necessidade da cultura. Preferir o trajecto do debate de ideias, as suas, minha senhora, e as do próprio Sócrates, sem contribuir de forma jornalisticamente redutora para diluir o perfil genuíno da nossa cidadania. Deixe lá as cores políticas, as emblemáticas dentadas de falso humor nacional, e debata a problemática desta civilização que sufoca no próprio crescimento, só crescimento, e perante a qual não nos ocorre dar espaço de emergência a verdadeiras alternativas de trabalho, aos conceitos de ordem social, inquirindo se as actuais vias de «desenvolvimento» apontam para novos objectivos, colocando ao governo as devidas equações de uma real inovação dos meios e dos modos. Ao contrário dessa linha, e alheia à relação entre as políticas a médio e longo prazo perante o próximo glaciar, o seu texto foi manifestamente conduzido com o fim de minimizar de forma literal o primeiro-ministro, personalidade que, seja como for, mostra uma certa qualidade inventiva no quadro do processo em que o país se inscreve. Ora ao público em geral, isto importa muito mais, saber dos eventos positivos, questionar o quadro da globalização, apreciar o primeiro-ministro nos limites que herdou e dentro dos quais procura, um pouco artesanalmente, alinhar as coisas por uma ordem de melhores perspectivas.

É do nosso interesse, de futuro, cuidar melhor da sua máscara.

quinta-feira, março 15, 2007

«OFERENDA ESQUECIDA» JORGE PIMHEIRO

«Homenagem e Josefa de Óbidos» I

«O Jogo da Macaca III», 2004 II

«O Sacrifício de Isaac», 2002 III
obras do pintor Jorge Pinheiro


DIVULGAÇÃO DE ARTISTAS PORTUGUESES
Na arte de Jorge Pinheiro, muitas vezes uma só pintura corresponde à vastidão englobante de uma série proposicional, pois coexiste consigo um corpo de desenhos. O qual, mais do que uma prévia via para encontrar a causa (e também morada) final -- espécie de conceito metafísico carregado de imagens -- é, em si mesmo, imagem que tenta explicar imagens, servindo-se estas de figuras para explicar figuras. Trazem consigo um limite de realização última; coisa comum, quase sempre, senão sempre, ao óleo que corporiza várias partes ou as categorias de um pensamento acerca de pensamentos corporizados numa pintura e nos estudos desenhados que, de um modo necessário, a ela conduziram. Como um fechamento, como coisa venerada e eleita por um, por vezes vasto, conjunto de partes (ou de categorias), o quadro surge sob a forma de objecto dotado de poder. Um poder real, não imaginário. O objectivo, lançador de pontes sobre veios de subjectividade que guarda e preserva no seio da sua linguagem, que vai tomando a forma de desenho.
I Na «Homenagem a Josefa de Óbidos» essa figura de mulher resulta de uma emanação de forte luminosidade. Há no seu corpo uma transparência que vem do esplendor escarlate, de um vermelhão mesmo, do éter, da atmosfera celeste envolvente. Como que em protecção da pintora, segura, uma figura feminina alada a que poderemos chamar Fama, um imenso chapéu de sol aberto. (...) A Fama ergue na mão esquerda uma festiva coroa de louros, em que tremeluzem uma fita verde e uma outra vermelha. A Fama está sobre uma coluna, de capitel esférico.
II Uma teatralização ocorre em «O Jogo da Macaca III». Por detrás de um cenário projectado, que na pintura organiza um jogo de transparências, riscou-se o desenho infantil de um homem de chapéu, de um avião e de um lobo prestes ao ataque. Charlot e o rapaz espreitam num extremo desse cenário. Observam somente a dor e com ela, com o seu material probatório, constróem a existência de uma memória.
III Sobre um fundo negro, figuras de vestes contemporâneas ligadas ao conflito israelo-palestiniano, movem-se entre um grito de terror e o sacrifício. Sobre um altar de pedra, como aquele que Abraão erigiu no alto da montanha, disposta a lenha em redor, vai ter lugar o holocausto. Não se vê a faca que infligirá o sacrifício, mas a mulher, figura que traz consigo a velocidade da morte, é quem grita com um soar metálico: «Abraão». Este responde-lhe: «Estou aqui, Senhor.» A voz voltou a gritar: «Deixa o teu filho. Não lhe faças mal. Como não me recusaste tão grande sacrifício, sei que o teu coração é perfeito.»
Dos textos publicados numa brochura da Galeria Palmira Susa, em abordagem à maior parte da obra de Jorge Pinheiro João Miguel Fernandes Jorge.

terça-feira, março 13, 2007

A QUE CHAMAMOS PAZ?

Arundhati Roy
Esta mulher cujas ideias se regem pelo lado mais avançado da consciência humana, foi galardoada com o Prémio da Paz de Sydney. Ao aceitá-lo fez questão de assumir a sua condição de escritora, demarcando-se de falsas virtudes, de movimentos de massas e daqueles que são nomeados como «os sem voz». Arundhati aponta para os que são deliberadamente silenciados ou, talvez de outra forma, não ouvidos. Ao receber o prémio disse que o fazia, sem acenar com a bandeira dos despossuídos ou impotentes, como a expressão de solidariedade da Fundação da Paz de Sydney para com uma certa visão do mundo que milhões de nós, um pouco por toda a parte, subscrevemos.
«Está ficando cada vez mais claro que a violação dos direitos humanos é uma parte inerente e necessária do processo de implementação de uma estrutura política e económica coerciva e injusta no mundo. Crescentemente, as violações contra os direitos humanos são mostradas como falha ineliz, quase acidental, de um sistema polítco e económico que, de outro modo, seria perfeitamente aceitável. Como se essas violações fossem um pequeno problema que pode ser varrido do mapa com um pouco mais de atenção da parte de algumas organizações não governamentais. À medida que a batalha pelo controle dos recursos do mundo se intensifica, o colonialismo económico, por meio da agressão militar oficial, ensaia uma volta à cena. O Iraque é a culminação lógica do processo de globalização corporativa, no qual se fundiram o neocolonialismo e o neoliberalismo. Se pudéssemos espiar através de uma fresta da cortina de sangue, vislumbraríamos as impiedosas transações que ocorrem nos bastidores»
Extractos da palestra deita pela escritora indiana Arundhat Roy ao receber o Prémio da Paz de Sydney 2004.
O original pode ser encontrado em
htto://www.planetaportoalegre.net/041125_2.htm.

quarta-feira, março 07, 2007

DO ESQUECIMENTO AOS LEILÕES DE ARTE


Esta imagem corresponde a um leilão de arte, no qual, perante uma grande tela de Sousa Lopes, as cabeças do público parecem (maliciosamente) integradas na pintura pelo fotógrafo. Há quem considere que os leilões de arte constituem um modo de redistribuir muitas obras plásticas pela sociedade. Ora todos sabemos o que se passa com as «indústrias da cultura» e a hipocrisia, disfarçada de falsos saberes e tráfico de influências, actividades que enlameiam os mercados desta área. Em boa verdade, os leilões permitem que os ricos vendam obras a outros ricos ou que alguns «nobres» em decadência passem o seu património cultural a meia dúzia de milionários. A peça que vemos na imagem tem as dimensões de 2,72 por 3,54m. É uma pintura a óleo, com um tema de festas religiosas, e foi vendida a um particular, para espanto de muitos, por 125 mil euros.
Quem era Sousa Lopes, afinal? Um pintor que nasceu em Leiria, no ano de 1897, e veio falecer 65 anos depois, em Lisboa, durante 1944. Como outros do seu nível, por vezes surpreendentes, é tratado com alguma negligência. Anísio Franco, historiador de arte do Museu de Arte Antiga, entende que Sousa Lopes «é conhecido da história da arte, mas tem sido pouco estudado e mostrado». Maria Aires Silveira, conservadora do Museu do Chiado, anota que, apesar de tudo, «não se pode dizer que o pintor seja pouco conhecido. A verdade é que não tem havido grandes exposições e é natural que o grande público não o conheça. Mas não é uma figura desconhecida»». Estas impressões, obtidas de uma reportagem do jornal Público, deixam-me estupefacto. Afinal quem conhece ou não conhece Sousa Lopes? Como se pode falar desta forma de gente cujo trabalho foi longo e fez parte de uma área em geral pouco acalentada pelo país, sobretudo pelos governos e pelos próprios museus? E agora, emergindo do quase esquecimento, uma obra desta autor, «A Procissão», é vendida por 125 mil euros, o que produz algum desconforto. «Não sei o que dizer», considera Aires Silveira: «Esta obra pertence à linha de um naturalismo tardio, muito próximo das peças de Malhoa. É muito ensolarada, com um jogo de sombra e luz muito marcado. Mas está dentro do naturalismo de tendência folclórica. Trata-se de um tema bem ao gosto português. Teve muito sucesso e foi muito apreciada pelo público da altura». Mas os conhecedores desta matéria continuam sem explicar o montante atingido pela obra. A conservadora do Museu do Chiado, embora «não saiba o que dizer», pensa que talvez as largas dimensões da pinturam possam abrir algum indício revelador. «Deve ter-se em conta que é uma obra de grande dimensão. Aguenta-se bem na grande dimensão».Estes comentários são verdadeiramente ensurdecedores. Anísio Franco solta-se: «Inexplicável? Não é nada inexplicável. É uma bela peça para uma obra de Sousa Lopes. Têm surgido poucas obras de arte à venda; por isso, no contexto do mercado de antiguidades português, é explicável!»
E assim vão as coisas das artes e dos mercados, o desentendimento dos naturalismos tardios e coisas assim, mesmo quando toda a gente sabe (nas esferas administrativas) que não houve em Portugal, durante décadas e décadas, até por snobismo, uma vasta retrospectiva de obras de autores deste género, com Malhoa e tudo, por forma a se estabelecerem melhor as verdadeiras grandezas. Importaria saber se outrora o público respeitava e visitava, como se insinua, um Sousa Lopes ou um Malhoa. Pelo menos para se perceber melhor os estímulos «milagrosos» que levaram multidões a esperar horas e horas para puderem ver e deificar Souza Cardoso. 1
1 Adaptado, quase ficcionado, de uma reportagem de Teresa Firmino publicada no Público de 7.03.07

quinta-feira, março 01, 2007

O REAL DENTRO DO HIPERREAL

pintura mural, de grandes dimensões em espao urbano nos EU

O enquadramento usado para realizar esta fotografia apoia uma espécie de desafio a este colossal trompe l'oeil na parede cega de um grande edifício, em ponto urbano, nos Estados Unidos da América. O efeito é poderoso, ainda que discutível em terms estéticos. Seja como for, aqui podemos confrontar-nos com os problemas da percepção visual e o modo como ela pode relacionar-se com um real inevitavelmente ambíguo, movente, e nunca susceptível de ser completamente apropriável através dos nossos meios naturais. É caso para se pensar, com ironia, que os carros pertencem à pintura, em primeiro plano, fingidamente áquem do maciço rochoso. A verdade é que, embora o afastado bloco rochoso pareça gigantesco na distância aérea, ele é apenas uma pintura que se ergue, a prumo, feita numa imensa empena que se ergue a não mais de um ou dois metros da parte da frente dos carros. Tal ensaio coloca-nos de facto os habituais problemas da percepção visual, da aparência e da realidade, numa relação perturbadora com o poder e a fragilidade da representação

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

UM OLHAR RANGENTE SOBRE O MUNDO

des-colagem










elementos da exposição realizada há anos, em Lisboa,
na extinta Galeria Nacional de Arte Moderna


Vostell será, ao primeiro contacto, um ser da cultura urbana. Mas a sua acção sobre o território abana as estruturas de uma estabilidade afinal falsa. E transporta para o espaço público as coisas encobertas, velhos produtos encantatórios, reconstruindo a televisão inócua, absurda e indisponível. A artificialidade dos cenários pode decorrer de uma aspiração simultaneamente de denúncia, testemunho, sátira -- um julgamento sem regras, dividindo em modalidades indescritíveis a arte moderna, a sua fé, rasgando antigas convenções e belos modelos que indiciavam o sagrado, agora de facto sem ornamentos e cargas majestáticas, na perda insanável de todas as santidades.
No domínio dos eventos artísticos, na destruida (pelo fogo) Galeria Nacional de Arte, margem direita do Tejo e resto da Exposição do Mundo Português, devemos lembrar a apresentação antológica de Wolf Vostell, que se revestiu da maior importância e permitiu aos artistas modernos deste país arriscarem posições interventivas por vezes de mérito muito assinalável.

Vostell é um autor, no pleno sentido da palavra. Quando os artistas europeus começaram a procurar os novos estímulos vindos da América, também Vostell viajou para tais distâncias e, nos lugares próprios, desfocou conceitos, apropriou-se de campos operativos recentes como entendeu. O happening interessou-o de maneira particular, mas, ao aceder às correntes emergentes na altura, deu relevo à performance, então tida por original daquela latitude cultural. Ele deu-lhes sentido de contracorrente, política e socialmente.

Um facto relevante decorre pelo seu uso da chamada «des-colagem» como princípio criativo e sintoma de diferentes orientações interventivas. Vostell foi informalmente definido, neste e noutros campos, pela sua constante aproximação das coisificações temáticas ou alegóricas. «Fascina-me (disse) os sintomas e as várias emanações como a constante metamorfose do espaço em redor, expressão artística na sua destruição em geral, sempre como dissolução e justaposição, razão bem forte para operar. Des-colagem é a produção principal no uso da destruição e autoconstrução, em contra-distinção da colagem, aglutinação heterogênea, objectos que não esquecem a assemblage»

A ideia de confrontação das artes teve o seu período mais aceso durante a guerra do Vietnam. A variedade e contundência polémica de diferentes tipos de experiências de índole artística, atravessou a América de costa a costa, derramando-se aqui e além como gesto das tribos em formação possessiva.




Vostel, exprimindo uma violenta avaliação do mundo em volta, ou mesmo do nosso estado civilizacional, usou a performance e a instalação como quem arremessa à terra formações absurdas de cimento ou como quem recupera, dos lixos e dos lagos pôdres, todos os graffiti de grandes ecrãs de alvenaria, mostrando alegorias herméticas, velhas reconquistas da primeira Idade Industrial e dos seus perversos efeitos colaterais. Para além disso, e de marcas monumentais que imprimiu ou cravou nas encostas de uma via férea, ultrapassou as grandezas da memória pela reconjugação de restos, cemitérios do ferro e das latas vazias, desmontando, com ironia e horror, a sociedade de consumo: um carro cercado por pãos atados uns aos outros, como a muralha da forme ou contra os agentes dela. A instalação das portas dos carros, motorizadas para se abanarem ou estremecerem, é das suas invenções mais orgânicas e mais temíveis: o ruído das portas sugere a substituição insubmissa das orquestrações brutais, metálicas, enquanto a par disso, ou noutras pesquisas pela fotografia, Vostel imprime à imagem certo peso coisal, referência aos desastres principais, esmagamento de pessoas e dos sonhos no indecifrável desabar das humanas construções de ferro, aço, cimento, sangue oculto na permanência dos cadáveres dos escombros, gritos vindos de lá e de súbito conceptuais, teoricamente numeráveis

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

CUBA DEPOIS DE JOÃO JARDIM


fotografia do autor deste blog

O CUBANO, ZOOLOGIA E KAFKA

Em anexo ao que se pode ler um pouco abaixo sobre João Jardim, cita-se aqui parte do texto «Jardim zológico», de Joana Amaral Dias no «Diário de Notícias» de 28.02.07:
«Jardim não é um animal político. É todo zológico. O maior dinocamaleão da nossa praça. As suas estratégias vão da intimidação à vitimização. Num ápice, passa das exigências ao continente à insinuação da independência. A Madeira tanto é bem sucedida quanto é carenciada. Para Jardim, basta juntar água. Instantâneo. Quando lhe convém, exibe o PIB e brada que a Madeira é um êxito. Só não diz que esse PIB é um balão cujo ar sopra do offshore. Quando lhe dá jeito, garante que a Madeira precisa de investimentos e que os cubanos a asfixiam. A ilha tem dos concelhos mais pobres de Portugal, apresenta 18% de desemprego e gravíssimas assimetrias. Este jogo do gato e do rato foi resultando. Agora, a Europa e a República decidiram-se por um dos papéis e assumiram que a Madeira é abastada»
Jardim saltou do seu palácio, aterrou na assembleia e na praça pública, atirando ao governo do continente todos os impropérios que foi capaz de reunir -- e todos nós sabemos como esse seu léxico é poluído. Declarou então que se demitia, facto que chamou reviolucionário e democrático. Só lhe faltava, no Carnaval, uma bonita boina à Guevara.
«O que arrisca?. Só espera mais do mesmo. E o resultado que terá em 2007 será melhor do que o que teria em 2008, com a nova lei eleitoral. Assim, recandidata-se ainda sem os efeitos do emagrecimento das verbas e capitalizando o ressentimento dos madeirenses. Desafia Sócrates. Justifica o futuro. Aconteça o que acontecer, a explicação está dada: a culpa é da Lei da Finanças Regionais. E até consegue interpelar Cavaco e piscar o olho à oposição que esteve contra essa lei. Marques Mendes vai para o banco.»
A mutação imposta a Jardim não cabe à administração portuguesa: ele nunca foi o jardim; tem vivido na frescura da ilha, mas Kafka vai materializar-se lá, capaz de metamorfoses que fazem estremecer a zoologia.
«A nova Lei imporá a Jardim uma verdadeira mutação. Já não se trata de uma mera pele ou de uma simples camuflagem. Por mais fatiotas que desfilem, os madeirenses sabem que uma cigarra não passa a formiga. Podem continuar a votar por medo, vingança ou rancor e manter tudo na mesma. Ou podem, finalmente, aprender a moral da história.»
Que será de Portugal quando Jardim passar a chamar-se Gregor?

sábado, fevereiro 24, 2007

O CUBANO

no Diário de Notícias, 22.02.07

Este homem aponta o dedo direito à cabeça, como se ameaçasse suicidar-se, desgraçar os outros ou afirmar a sua grande sabedoria. João Jardim, governador da Ilha da Madeira concorre com outro homem de forte permanência, Fidel de Castro, presidente de Cuba. Curiosamente, o Jardim de certa maneira homónimo do cubano Fidel, não se coibe de chamar cubanos aos seus concidadãos do Continente (Contnente, segundo o peculiar português de João, o construtor).

Habituado a desenvolver o seu território com verbas europeias e os milhões do governo português, Jardim, ao saber da nova lei das finanças regionais, berrou quanto pôde, chamando nomes banais a esta gente de cá -- aldrabões, sacanas, incompetentes, merdas, lacaios, e assim por diante, mais ou menos para pior. Ele não quer compreender que, tendo a Madeira atingido o tecto per capita europeu, deverá ajudar as outras regiões na difícil poupança que têm de realizar.
Pois saibam então que Jardim, não podendo vingar-se de outra maneira, demitiu-se e faz convocar eleições para se pebliscitar, uma vez que os madeirenses concordam em geral com a sua sacralização e mais tempo no poder. Nem em Cuba, apesar do recente precipício. Jardim podia, mais acertadamente, dedicar-se à jardinagem e deixar que outros corriijam os seus erros: abarrotou o navio de coisas, ilha em risco de naufragar, mas não o tornou os passageiros capazes de se alimentarem a eles mesmos, livres de tutelas e empréstimos.

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

A PALAVRA E O RITMO

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A ideia de que se vive numa civilização tecnológica, com grande incidência na imagem, corresponde aproximadamente à realidade que nos rodeia e às concepções estruturantes dos meios operativos disponíveis. O paradigma do tempo encurtado, de uma espécie de urgência em queimar etapas, em vencer cada vez maior quantidade de obstáculos, alcançou grandeza desmuserada sobretudo a partir da «revolução industrial», na presumível necessidade de crescer, de crescer muito, rasgando-se vias de comunicação e unidades fabris de larga escala. A concentração imediatista em torno das matérias combustíveis, madeiras, carvão, derivados de produtos fósseis, apontou, apesar de todos os investimentos necessários, no sentido de muitos caminhos facilitistas, e dassa forma acelerou os processos de produção, concentrações urbanas, novas exigências, abuso do trabalho em massa, desmultiplicação intensiva, enfim, de objectos com as mais diversas características e funções. Do fazer artesanal, e quase bruscamente, passou-se para a produção em série, desde os utensílios mais comuns aos primeiros automóveis. Tudo isto veio alterar as estruturas sociais, a ocupação e ordenamento do território, a velocidade das deslocações e tratamento de projectos, a própria escrita quotidiana ou comercial com o advento da máquina de escrever. Sob o impulso do teclado, a ordem linguística estabelecida teve de adaptar-se a imperativos temporais, consoante os ramos de actividade e um certo sentido alucinatório para cumprir uma melhor e mais rápida resolução na troca de informações Esta realidade, como aparentemente não podia deixar de ser, florescia num grande número de frentes. A escrita iniciada por cada um de nós, à mão ou com máquina, passou a documentar um oceano de iniciativas, entre a edificação urbana, os polos industriais, comerciais, de serviço e ainda redes de contacto capazes de acelerarem as aprendizagens e a cada vez maior complexidade da vida humana
Alguém me dizia há dias que o destino das palavras manuscritas tinha os dias contados. Dantes havia o ritmo da escrita, procurava-se o ritmo e a vida quase autónoma da palavra, quer através dos mais diversos tipos de canetas, quer no perfeccionismo resultante do uso de máquinas electrónicas. Hoje o computador engole tudo, alinha tudo, caligrafia, temperamento gráfico, vitalidade das palavras. A palavra dexou de ser uma afirmação de gosto e ritmo, tornou-se inerte e funcional.
Não penso assim. Desde logo, a palavra é agente estruturante e estrutural de várias linguagens: olhada ou falada, é intrinsecamente ritmo.Cada palavra, feita de caracteres e sílabas, forma um corpo melódico, sacudido ou ondulante, é espaço de notas, frase ela mesma, frase com outras em racord de som e sentido. É arte. É a invenção que salva o homem do silêncio, da solidão e da mudez do cosmos. O ritmo dessa articulação criadora de sentidos faz parte das artes e do comportamento. E, em boa verdade, não existe expressão (comunicação) sem os encaixes dos meios e dos modos, entre o pequenino seixo rolado no rio (a coisa) e as mitologias que vamos tecendo em jeito de tapeçaria. O seixo rola, bate nos outros, em movimento e som, enquanto os dedos dedilham a teia do tear e batem a lã, em baixo, com um largo pente de ferro. São palavras (que reconhecem as coisas e as nomeiam) ou que se descrevem com outras, simulando o bater nas pedras e no cume da tecelagem. Os mudos e os surdos ouvem melhor essas palavras do que nós, a cada gesto pensando adjectivos. Aliás, e para os nossos companheiros que perderam a audição, a fala gestual, indiciando situações, ilustrando realidades, exprimindo conceitos, são bem a alma rítmica das plavras. E o mesmo acontece com o bailado doce dos dedos dos cegos lendo em silêncio, por sistema Braille, palavras umas após outras e vendo através dessa textura.
E não nos esqueçamos: a palavra, pelos significados que desperta e pelo ritmo que modela, tanto no sentido caligráfico como na conjugação das sílabas, é inerente à criação artística em vários níveis. Não há construção das artes, nem das que contêm o tempo como sua estrutura ou o sugerem, sem a palavra, base civilizacional.


QUEM SOMOS NÓS?


Esta imagem corresponde a uma pequena parte do Universo, situada a milhares de anos luz de distância. Algumas destas fotografias que a Nasa publica na Internet são o resultado de um grande desenvolvimento tecnológico e obtidas através de sondas que se deslocam no cosmos, enviadas pelo homem, ou por esse instrumento fabuloso, colocado no espaço, o Hubble Space Telescope. Este aparelho tem permitido penetrar nas camadas mais profundas do espaço, entre milhares de galáxias, fotografando fenómenos nunca vistos anteriormente e abrindo janelas de conhecimento inimagináveis há relativamente pouco tempo.
As estrelas situadas à direita na imagem, são astros de grande escala e uma delas, pelo menos, tem cerca de mais de duzentas vezes a massa do sol. Do lado esquerdo, observam-se explosões de gases e outros materiais que poderão vir a criar sistemas complexos de astros, eventualmente biliões de hipóteses de germinação de planetas semelhantes à Terra. Daqui a milhões de anos, pela relação dos elementos, mas de forma mais rara, em lugares assim desenvolvidos, a vida gerada, é possível imaginar o aparecimento de um ser idêntico ao homem, muito complexo e operativo, mas sem projecto nem nome.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

ARTE CONTEMPORÂNEA PORTUGUESA

ROGÉRIO RIBEIRO


Rogério Ribeiro nasceu em 1930, em Estremoz, e frequentou a Escola de Artes Decorativas António Arroio. A sua formação inicial desenvolveu-se na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, agora Faculdade, onde o artista, como docente de design, prestou relevantes serviços científicos, didácicos e pedagógicas, aliás na sequência da reforma implemnentada por docentes e alunos, além de muita documentação recolhida e coordenada por um dos grupos de trabalho. Isso aconteceu, naturalmente, depois do 25 de Abril de 74 e permitiu convencer os renitentes governantes de que a arte, além de sedimentar e caracterizar uma civilização, é indispensável, a nível superior, para a identidade dos países em que se consolida.
Rogério Ribeiro esteve ligado ao movimento neo-realista português e foi dos artistas que mais diversificou os códigos de uma linguagem plástica integradora daquele movimento. Passou por um período muito dinânico, em que as figuras, nítidas ou desfocadas, apareciam recolhendo as hastes das searas, como numa pintura abstracta, searas vermelhas ou massas humanas metaforicamente sulcando o território. Tudo isso passou depois para uma reflexão intimista, casas alentejanas vazias, abertas para o amanhacer, gente balouçando nos atrelados dos tractores, a caminho do trabalho, o verde e o amarelo, o vermelho também, como na iniciação de um almoço de broa e carne de porco.
Rogério Ribeiro abriu-se então para caminhos de mais amplas consequências, entre um laicismo quotidiano e temas sagrados, por vezes editados por intermédio de duras amarrações com cordas, máquinas de madeira, rodas imensas. Estes temas, se apontavam por vezes para a Bíblia, inclinavam-se mais para outro tipo de nitologias, como a esplendorosa série de Ícaro. Ícaro candidato a Sísifo, construindo as suas asas absurdas, de madeira, partindo, em cortejo, para o limite da falésia e caindo a pique no abismo sem nome. Outras ideias, trabalho em casa, música, aprendizagens várias, orações de desejo, tudo isso foi surgindo nesta obra verdadeiramente significativa da nossa invenção poética, incluindo peças austeras, perfeitas, simbólicas, desde estranhas cosmografias aos aparelhos de cimento e de função misteriosa. O que há de narrativo em Rogério Ribeiro, há também entre metamorfoses de flores, céus, duvidosos medievalismos, a homenagem ao trabalho dos artistas, o trompe l'oeil, a realidade dentro e fora da pintura, os potes, os pincéis, como numa dedicada encenação para um filme ligado à Renascença.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

1 * 2

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A imagem à esquerda (1),dinâmica, é idêntica a muitas outras que corresponderam a uma procura adequada ao neo-realismo. A massa das mondadeiras aglutina-se em vários pontos, e há sem dúvida a sugestão de uma forte dobragem da coluna, hastes, espigas, membros em acção. Esta busca era efectivamente difícil no neo-realismo pictórico, expressão que noutras latitudes adqiria a forma de Realismo Social. O problema complicava-se pela falta de uma iconografia apropriada, pelo que o esforço divergia com frequência para uma figuração retórica. Rogério Ribeiro foi um dos maiores inventores do campo imagístico neste domínio, capaz de juntar a luta e o movimento à permanência de um certo realismo na modernidade.
Na imagem 2, à direita, (mulher amanhando o peixe) a evolução formal, entre o despojamnento e a textura, não desdiz o realismo e até a temática, como se viu no célebre quadro, de Pomar, O Almoço do Trolha.
O neo-realismo é uma criação do pós-guerra e das expectativas democráticas então geradas. Longe A imagem 1, em cima à esquerda, é idêntia a muitas outras, tratando temas socias, com força e com de ser um fenómeno português, esta poética integrou a pintura de países como a França e a Itália, sustentada pela força dos partidos comunistas da região. O seu vínculo artístico aportava sobretudo à literatura: a imagem acompanhava com dificuldade, como é natural, esse universo. O realismo social adequava-se ao lirismo português, mas a expressão neo-realismo, adoptada entre nós, emergia como arte de combate social e político, oposição ao regime vigente em Portugal, embora as obras não tivessem a dureza académica do realismo
socialista petrificado na União Soviética. A imagem da mulher furta-se, apesar da sua verticalidade, à mitificação e lembra mais as soluções muito hábeis de Portinari

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

COLUMBANO REVISITADO

  • Columbano Bordalo Pinheiro, nascido em 21 de Novembro de 1857, há 150 anos, estará entretanto em exposição no Museu do Chiado. Este é um momento exemplar para revisitar o grande artista, irmão do inesquecível caricaturista Rafael Bordalo Pinheiro. Numa poesia aberta à chegada de Columbano de Paris, o humorista Rafael prestou homenagem ao artista, e de tal sorte certeiramente que a si própro fez um retrato de Zé-Povinho, indiciando profeticamente o sucesso do irmão como pintor, homem que efectivamente marcou de forma renovada a pintura naturalista portuguesa.
  • A exposição do Museu do Chiado (Fevereiro 2007) apresenta obras pouco vistas ou talvez nunca reveladas, mas isso mais acentua a importância das prospecções aos patrimónios que recolhemos e Columbano resulta muito do modo como ele soltava ou justapunha manchas cromáticas, numa representação que sabia não estar a copiar o visível, antes o interpretava com rigor e inquietação plástica.Na época em que regressou a Paris, e embora na altura o impressionismo estivesse em voga, Columbano apreciava mais a pintura holandesa do século XVII, a luz dramática, a coesão tonal da matéria pictórica.
  • Columbano foi um autor polémico, na razão da sua técnica inusitada, mas a história não o injustiçou. De resto, em meados do século XIX, ele mostrava um interesse fundado pelos avanços da modernidade, experimentando novas formas, sem perda de coerência e da sua identidade estética. Nesse tempo, Columbano chegou a enviesar as regras, frontalidade e pose, por exemplo, como acontece numa espécie de instantâneo visível em baixo, na figura mais pequena - «A Luva Cinzenta». A senhora é representada um pouco como se estivesse distraída, de lado, acto ocasional que a fotografia haveria de explorar profundamente.
  • Columbano pertencia a uma família numerosa, que o pai regia em bom termo, e mostrou-se muito cedo verdadeiramente dotado para as artes. Devido ao seu empenho e à qualidade da sua produção, o artista terminou um curso de sete anos em quatro. A breve trecho participa nos salões da Sociedade Promotora das Belas Artes.
  • Com a decisão de um mecenas, Columbano obtém uma bolsa de estudo. Paris, o contacto de aprendizagem com Manet e Degas, tudo isso faz com que o pintor evolua. Aliás, também ele tinha talento para conseguir as influências do meio, sobretudo em Lisboa. De novo em Lisboa, em 1883, o artista acabou por agitar o meio intelectual, entre expectativas e rumores antecipados: estava de volta ao Leão de Ouro e aí, intrigando os que nada ainda podiam ver, realizou um provocador retrato colectivo, juntando personalidades importantes, provocando mais (e as habituais) polémicas.
  • A sua obra está espalhada por diversos locais, no país e no estrangeiro, marca a própria Assembleia da República, enquanto o contacto com o século XX lhe trouxe o começo de um declínio nas apreciações, sem deixar de ser reconhecido como um artista de referência. As lutas em torno das Escolas de Belas Artes prejudicaram o clima entre os artistas, e de resto o público das tertúlias já nesse tempo operava pareceres bastante obtusos. Como nos nossos dias, congenitamente, diga-se a verdade.
  • Por mim, penso que Columbano Bordalo Pinheiro é uma das personalidades mais marcantes da nossa pintura. Bem se poderia (ou deveria), para além desta e da próxima exposições, reestudar Columbano, a época e a sua obra, agora certamente com a independência e procurando reconhecer o seu modo especial de anunciar a modernidade. É perfeitamente patético o que o pintor escreve a Francisco Vilaça, em 1885, depois de referir que guardava tudo no seu quarto, revendo mais tarde o trabalho do dia: «Sozinho, em silêncio, faço então a exposição, para mim, dos meus próprios trabalhos e assim passo bons bocados a admirá-los. Hei-de acabar, creio, por ser o único admirador da minha obra». 1
  • _______________________________________________________________

1. Texto apoiado na notícia da exposição por Sílvia Couto (VISÃO), Academia de Belas Artes e Dicionário da Pintura Portugusa, Ed. E. Cor

PINTURAS DE COLUMBANO













Antero de Quental
o serão


Columbano no atelier

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

VOTO FERNANDO PESSOA

retrato de Fernando Pessoa
pelo pintor Júlio Pomar

Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Quando se fala da identidade de Portugal, a propósito do programa da RTP1, «GRANDES PORTUGUESES», o nosso mundo mais profundo e subjectivo é accionado de fora para dentro, retomando um sonho de oito séculos. O programa é copiado de outros que decorreram em vários países, propõe que, durante algum tempo, os cidadãos escolham e comuniquem à estação de televisão qual o português, do passado ou da contemporaneidade, susceptível de nos representar a todos. Entretanto, depois de escolhidos apenas dez finalistas entre cem nomes votados, houve um curioso debate entre personalidades cuja orientação permitiu entender votações surpreendentes e preferências justificadas. A verdade é que os portugueses se esmeraram nas escolhas e, apesar de nos dez últimos grandes nomes da nossa história surgirem Salazar e Álvaro Cunhal, em torno dos quais os pareceres foram trocados a sério, sem azedumes de maior, os «críticos» da noite (04.02.07) salientaram a bondade da lista, o facto de não haver disparates nela e até a centragem em dois dos nossos maiores poetas, Camões e Fernando Pessoa, o que pode abrir caminho a uma final bem própria da realidade poética da cultura portuguesa. Serão passado entretanto pequenos documentários sobre cada um dos dez finalistas, orientados pelas pessoas que entretanto os analisaram e defenderam, após o que se seguirá a votação final e a eleição, na contingência destes jogos, apesar do lado pedagógico deste, sobre qual será o português com qualidades e marcas para ser o «maior», de algum modo capaz de ilustrar perfil do português, a identidade do próprio país.

Tenho uma certa aversão a estes jogos e a lançamentos de sorte. Mas, seja como for, inclusive pelas personalidades implicadas, desta vez, aqui, terei uma participação, concentrando a própria declaração de voto.

Os primeiros versos do poema A TABACARIA, de Fernando Pessoa /Álvaro de Campos, indicam, com um desencanto e uma força peculiar, muito do que frequentemente determina o comportamento português. A distância e o cerco, numa espécie de pobreza congéntia e perante a grandeza de uma história onde não faltou o sangue, a aventura, a identidade territorial, a fabulosa expansão marítima reveladora de espaços inimagináveis, tudo isso aparece naqueles simples versos, fala nostálgica, sentido da solidão, impedimentos da escassez demográfica, entre outras, e, por último, numa grande certeza interior, num rasgo de que o mundo se pode alargar ou somar à atitude civilizacional que nos engrandeceu, o poeta muda a posição da vela e diz -- «à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.» Eis o sonho predizendo ou evocando a História. Esta voz única, e simultaneamente recriada, corresponde ao mito do que é ser português, sendo-o. Sobretudo quando a pequena gesta e a tolice política são superadas pelo espírito plural, universalmente criador. Quem lê a ODE MARÍTIMA nunca mais esquecerá o que de maior existe na nossa cultura, quem somos, quem fomos, e como, por outro lado, OS LUSÍADAS se tornam tão contemporâneos como a ODE, lendários, míticos, descobridores do futuro e do génio na pacatez de um eventual quotidiano cinzento.

o cais é uma saudade de pedra

VOTO FERNANDO PESSOA

Pomar: retrato triplo de Fernando Pessoa, talvez convocação dos principais heterónimos

retrato fotográfico de Fernando Pessoa

domingo, fevereiro 04, 2007

DESPOJOS SEM CÓDIGO E A VOZ DO POVO


fotos Rocha de Sousa
A brigada que trabalhou ontem à noite em VGR dispunha apenas de meios de registo convencional e armamento pouco sofisticado. A barra de código que lhes dizia respeito foi varrida do equipamento do carro e as fotografias encontradas por baixo do banco acrescentam escassos elementos ao desenrolar de toda a operação. Os agentes estão fora de alcance mas parece que, pelo menos um deles, foi ferido na rua onde se encontraram despojos diversos, desde roupas de vagabundos, ou dos sem abrigo, até embalagens de relógios Cartier, ou dois soutien prótese e uma revista dedicada aos consumos raros, claramente dispendiosos. Nã havia outros sinais, além das marcas dos projécteis nas paredes em redor, incluindo na rua empedrada que descia para a ravina.
É presumível que os agentes estejam vivos, tendo em conta o facto de haverem anotado o perfil das fotografias que sobraram, além de outras que não foi possível salvar. Havia só duas legendas segundo a rotina, a que se refere aos despojos com demarcação e a que indica um despojo sintetizado. O registo sintetizado foi apagado, não se sabe ainda por quem e em que circunstâncias.
A criminalidade acentua-se no círculo suburbano a noroeste. Os patrulhamentos têm que ser reforçados por operações de polícia especial, vigilância encoberta durante vinte e quatro horas por vinte e quatro horas. Os outros operativos devem ser cada vez mais treinados na infiltração, preparando operações de grandeza substancial.


dos jornais
Foram encontrados hoje, quatro quilómetros acima da cintura leste, entre lixo e embalagens de latão, os dois agentes que haviam desaparecido após o contacto na quinta feira à noite com um grupo de meliantes armados. Os agentes tinham vários ferimentos de projectéis de 9mm e calcula-se que tenham morrido há dois dias, completamente despojados de meios de comunicação e, ao que parece, forçadamente drogados.
Os atacantes eram seis e morreu um indivíduo a quem todos chamavam Conho, homem ligado à droga e a grupos de distribuição da mesma. Um pouco acima da rua em que tudo aconteceu, os populares da zona manifestavam-se com veemência pela morte do Conho, rapaz que os ajudava sempre e tinha bom trato. O Presidente da Junta foi compelido a aceitar um abaixo assinado reivindicando medidas ao Comando Geral da Polícia para que desgraças deste tipo não se voltem a repetir. E todos insistem que é preciso garantir mais segurança no bairro, de preferência com patrulhas a pé e desarmadas.

sábado, fevereiro 03, 2007

LATAS COMO SARDINHAS EM LATA

criação de Tiago Miranda («Actual») 3.02.07

QUE RECICLAGEM

Não resisti a partilhar convosco esta imagem paradigmática do muito que, à flor da nomeação, tenho apresentado aqui. A grande percentagem de lixos produzidos nas chamadas sociedades de consumo já não cabe nos espaços concebidos para enterramentos e aterramentos diversos. E até nem se pode, nas escalas em redor, falar de abandonar detritos em desertos, ou em terreno baldio, ou na esquina dos subúrbios das grandes cidades. Porque a contaminação atinge níveis generalizáveis e é preciso inventar modos limpos de pulverizar os vários lixos e até de reciclar os que têm possibilidades de cumprir esse ciclo. Timidamente, há por aí uns potezinhos para receber cartões, plásticos e vidros, matérias escrupulosamente trazidas por algumas donas de casa que separam o lixo, fazem um enorme trajecto para chegar aos tais contentorzinhos completamente errados para o fim em vista, e assim cumprem um dever proclamado na televisão. O Estado tem de trabalhar este problema mais a sério: é muito mais eficaz (e livra-nos da enorme poluição visual dos contentores) fornecer sacos aos munícipes, com anilha de fecho, os quais deveriam ser colocados na rua, à noite, mas com a certeza de que seriam recolhidos nas duas ou três horas mais próximas, todos os dias. A recolha dos diversos tipos de lixo tem de ser feita, de facto, todos os dias, incluindo sábados e domingos, com carros e trabalhadores minimamente formados nesta área das contingências urbanas. O que parece, assim, sair caríssimo, é ultrapassado pelos milhares de toneladas de lixo recicláveis em tempo útil.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

A FESTA DA NUDEZ, LITURGIA DE UM LUGAR

reportagem vendida às revistas

Em boa verdade, só li parte do texto que acompanha esta performance colectiva, no qual se dizia que estas pessoas comemoram assim um certo dia dedicado à vida e ao amor. É a sua liturgia do apaziguamento e do sentido de comunidade. Não estamos aqui perante um trecho fotográfico daquele fotógrafo que corre o mundo a encher ruas e praças de gente nua. Mas aí há uma encenação artística. Aqui há uma encenação artística como agradecimento pela dádiva dos encontros.

terça-feira, janeiro 30, 2007

FUTEBOL POS-MODERNO

Os dez grandes estádios que se edificaram em Portugal, a fim

de servirem o EUROPEU correspondem, segundo técnicos

habalizados, a montantes financeiros e grandeza logística

para a edificação de cinco pequenas cidades no

interior do país, incluindo estruturas básicas

num quadro tecnológico de porte

médio. A aposta não passa, quanto a mim, de uma tentativa

escassa de relacionar a grandeza absurda dos edifícios liga-

dos ao futebol com o desperdício improdutivo da sua totalida-

de e financiamentos acessórios.

De cada vez que me defronto com o futebol (mil vezes pela televisão) sinto repulsa por essa ensurdecedora prioridade da comunicação social relativamente a tal desporto, assim capaz de tornar fundamentalista uma boa fatia da população. Lembro-me de ver jogos em Inglaterra em que todos os jogadores se situavam a certas distâncias uns dos outros, trocando a bola, e partindo depois, num golpe surpreendente, em profundidade, para a esquerda ou para a direita -- passo raro e preciso que permitia uma rápida triangulação sobre a baliza. Esse futebol quase perdido em função das «audiências», das trocas de ano para ano, das compras de jogadores por milhões de euros acintosamente desproporcionados, era, para mim, o verdadeiro futebol, e reconheço que a televisão inglesa nos ensinou muito ao transmitir os encontros com uma subtileza enorme, em directo, usando muito bem o plano próximo em belíssima coordenação com os planos médios e gerais. Através da televisão inglesa, nos tempos do preto e branco, tornou-se claro que o futebol (aquele, pelo menos) era fotogénico e tinha um grande aliado nas emissões televisivas. Mas a fotogenia tinha também um sentido literal, decorria muito de modo como os atletas jogavam, sugerindo por vezes a câmara lenta colada na passagem aos disparos rápidos, na corrida e com a bola.

Abarrotando de emissões de futebol, sobre o futebol, numa sufocação intolerável, horas e horas, aqui e além, nos noticiários sem falta, a Televisão Portuguesa, toda ela, comete um grande atentado contra a sanidade mental dos cidadãos e cria neles, a par de analfabetismos de pesos vários, um fundamentalismo inteiramente injustificável. As estatísticas deste tempo pós-moderno mostram a loucura ilusória de cada plantel nos tempos de antena dedicados ao futebol e deixa-nos estupefactos, infectando a razão e tornando redutor o espaço dos nossos desejos. Em boa verdade -- incluindo todas as estruturas administrativas -- o futebol português deveria ser revolucionariamente reformado, encurtado, menos mercantilista, menos perdulário nos gastos e obeso nos privilégios; menos premiável (também) aos negócios pouco limpos, ao tráfico de influências, à desnacionalização ilusória de cada plantel. Com o tempo, o tão elogiado futebol português (pelos fundamentalistas) tem-se comercializado e degradado tanto na técnica como no sentimento. A brutalidade abunda, das mais diversas maneiras. As lesões sucedem-se, pagas a peso de ouro. Tudo deveria ser reformulado: as regras do jogo em geral e a mudança de procedimentos, aberturas e reservas, disciplina, arbitragem, tempo, processos de registo vídeo nas grandes áreas.

Aos presidentes, administradores, capitães de equipa e árbitros seria sempre atribuído um dignificador apito dourado

sexta-feira, janeiro 26, 2007

A LUXUOSA DESTRUIÇÃO DO MUNDO

dos jornais

A grandiosidade aparente das industrializações energéticas que a imagem propõe, e de certo modo engrandece, são de facto uma espécie de cenário da ficção científica, as terríveis premonições de um futuro carregado de ameaças desencadeadas pela própria humanidade. A tecnologia cresce para funções cada vez mais avançadas, entre vertigens de uma pressa que os mais cautelosos não compreendem, mas a ciência começa a ter agentes capazes de fazerem o seu exame de consciência, demonstrando que algumas das actuais transformações climatéricas do planeta resultam do uso de matérias não renováviais, arrancadas à terra e usadas na criação poluente de energia. A par dos ciclos naturais da vida da Terra, enquanto corpo vivo, as grandes concentrações fabris e humanas, quase exclusivamene baseadas no petróleo, só agora percebem com alguma propriedade que os milhões de toneladas diárias expelidas para a atmosfera foram abrindo caminho a um aquecimento do planeta, tendo iniciado, entretanto, as primeiras e catastróficas manifestações da mudança do clima e dos desastres induzidos pela criatividade aprisionada da população -- sociedades de consumo, dizia-se até há pouco, o que não deixa de ser verdade ainda, em termos quase fundamentalistas, adiando as pesquisas já perfiladas para a formação de energias renováveis, porventura influenciando no futuro os próprios objecivos das comunidades.

ARTE CONTEMPORÂNEA PORTUGUESA

pintura actual de Teresa Magalhães

Até aqui não aproveitei devidamente este blog para divulgar casos de referência de artes plásticas quanto a autores contemporâneos portugueses, embora tivesse assinalado há pouco, numa perspectiva cultural e política, no «trecho» sobre os ARTISTAS ENCOBERTOS, a deficiente situação da coordenação e apoio das artes em geral, no nosso país.Passarei a dar atenção ao assunto com mais assiduidade, até porque faço critica de arte no jornal JL e disponho de materiais por vezes de grande relevância, adequados à divulgação É o que acontece agora, com a exposição de pintura de Teresa Magalhães, pouco tempo depois de haver apresentado um projecto de raiz retabular na Sociedade Nacional de Belas Artes.

Durante o mês de Fevereiro, na Galeria Valbom, Teresa Magalhães, nascida em 44 e formada pela Escola Superior de Belas Artes, agora Faculdade da UL, vai expor de novo. Senhora de um vastíssimo curriculo, entre exposições individuais e colectivas, presente em colecções ou Museus e premiada em diversos certames, os seus estudos nesta área beneficiaram de haver seguido a reforma para o Ensino Superior Artístico de 1957, mantendo assim contacto com Professores Assistentes e Professores de novas gerações para o tempo, os quais, embora pressionados negativamente pela Direcção da Escola (arquitecto Paulin Montez). Isto contrariava, em termos conservadores, os próprios termos da reforma. Mas o ensino tornara-se mais aberto, possiblitando o acesso a metodologias novas das aprendizagem e dos actos de formar. Não era ainda grande coisa, mas casos como o da Teresa Magalhães, a par de muitos outros, demonstram o acesso a práticas próprias da revolução artística do século XX, um tempo decisivo que desapossou a obra de arte -- a pintura, por exemplo -- de adereços redundantes e muitos efeitos característicos do naturalismo, da pretensão realista (como no próprio neo-realismo), tudo isso numa larga proliferação de movimentos em busca da essência estrutural e significante das obras, viragem por vezes radical e muitas vezes equívoca. Mas o avanço foi importante, sobretudo na problematização da arte em geral, e em todos os géneros. Teresa Magalhães filiou desce cedo a sua prática nos estudos que rodearam toda a experiência da acção, dos gestos correndo e escorrendo na tela, sugerindo movimento, espacialiade, musicalidade, a criação de um mundo liberto, aberto, colorido, simbolizando indirectamente o apelo, por um lado, à vertigem confiante da segunda metade do século XX, e, por outro, à ressonância das batalhas, dos destroços, a fragmentação de olhares sempre criativos e atormentados com o excesso do mundo contemporâneo.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

OS ARTISTAS ENCOBERTOS

cartazes sobrepostos e rasgados na parede,
um bom símbolo ajustado ao encobrimento dos
nossos escritores e das publicações comerciais
Diogo Pires Aurélio, professor universitário, na coluna CRÓNICA, do Diário de Notícias de 23 de Janeiro do corrente ano, tratou um tema que não nos tem sido alheio, aqui, mas que atinge, de dia para dia, aspectos desastrosas para a literatura portuguesa, um dos maiores bens caracterizadores da nossa cultura. A propósito da poesia de Fiama Hasse Pais Brandão, agora coligida em toda a sua amplitude, Pires Aurélio dizia que certas obras tendem, a despeito da sua grande qualidade, a ficar cada vez mais na sombra, no mais restrito dos restritos círculos de leitores. A observação deste lamentável comportamento, aliás sempre por falsas razões económicas, leva-nos a perceber quais são os produtos que se vendem e porquê. Não, não são as razões económicas nem e grosso formato de alguns livros a interditar o gosto por este mercado. O contínuo desgaste das boas preferências literárias -- aliás como também noutras áreas artísticas -- deve-se a muitos factores sociais e culturais alinhados na distribuição «democrática» de variadíssimos produtos, o que verdadeiramente não fazem, pois a incidência da sua política de consumo é culturalmente redutora e induz o efeito de moda em torno de coisas que parecem necessárias ou surpreendentes. Assim, autores que beneficiam de largo acesso aos media e grandes máquinas de angariação pública, começam a ganhar muito depressa a sedimentação em alvos de preferência. Se o apresentador da televisão escreve aquele livro, e com ele estão logo milhares de pessoas, o caso explode num ápice, a grandeza do acontecimento é desproporcionada para a verdade interior da obra ou para a equidade a subscrever um redor de certas obras qualitativamente equivalentes. As editoras não prospeccionam, esquecem ofertas eventualmente preciosas, e os seus colaboradores da comunicação social vão atrás das chamadas escolhas óbvias que todos os dias escorrem para as livrarias. O encobrimento de muitos autores de qualidade, porque todos os anos surgem autores de qualidade, resulta da incompetência, dos interesses imediatos e do tráfico de influências: neste mesmo instante, livros porventura superiores aos que se penduram no top jazem abandonados nas montras, de súbito velhos. Em geral, a qualidade e progresso da arte depende, em paises pequenos, não da brutalidade do mercado selvagem mas do cuidado cirúrgico de vários operadores a trabalhar consequentemente. Para a literatura, além dos outros campos, é preciso «haver quem permaneça imune à generalização da banalidade e preserve esse tipo de coragem que representa a fidelidade a mais nenhuma verdade que não seja a verdade da obra de arte»*
Já houve tempo em que as coisas não se passavam desta forma. Naturalmente que as obras de qualidade careciam ainda de um público alargado, o acesso aos vários consumos trabalha-se a partir de minorias, e nem sempre, numa medida de proprocionalidade do lançamento dos produtos, da notícia sobre eles, e da própria moda que daí pode decorrer. Hoje, para certa gente, o sacrifício a favor do livro cai em Saramago (ele, ainda por cima prémio Nobel, alagou grande parte dos próprios meios eruditos) e os livros do Saramago são colocados em pilhas nas montras das livrarias, em detrimento de outros, isolados, cuja vida talvez seja mais reveladora. Eu penso que, se fosse livreiro, teria apenas (quando da saída dele) um único exemplar do escritor do prémio Nobel, nobilitando outras presenças que soubesse valiosas e desconhecidas dos maquinais compradores de nóbeis. E porquê? Porque um livro de Saramago, exposto com critério, chama sempre os compradores antecipadamente agarrados. Enquanto que um Nick Tosches, mesmo estrangeiro e bem actual, só toca os muito bem informados. Não sei mesmo se, nos casos mais perdidos da informação, não seria boa a invenção de legendagem original, giratória, bem relativizada. O critério da procura está viciado, pela futilidade, pela notícia escassa e deformada, pelos «códigos», pelo escândalo ou revelação se segredos, entre outros motivos, e por isso os livreiros deveriam fazer também o seu simpósio para estudarem as estratégias de combate à degradação do gosto, aos impulsos esquizofrénicos do mercado, acertando em novos processos de trabalho em coorde-
nação com os vendedores. A este respeito Pires Aurélio escrevia que os «próprios divulgadores da grande arte, para além de garantirem, por vezes contra a evidência, que ela também pode ter público desde que bem divulgada» -- assim o proclamam «porque não dispõem de mais argumentos ou já se renderam à inutilidade de os invocar»*
Assim, ao lamentar-se o possível destino de Fiama, denuncia-se por essa trágica verdade a sombra brumosa que envolve correctos critérios de produção e distribuição. Imaginem que Saramago, justamente aquele que já nem precisa que o empilhem nas montras, escrevia agora, como derradeira obra anunciada, O CÓDIGO DO NOVO TESTAMENTO. Certamente já sabem o que aconteceria. Embora isso não evitasse os que iriam compará-lo com todos os fazedores de códigos e fundamentações de sinal sagrado que ainda sobraram do holocausto.
_______________________________
* da coluna «FIAMA, por Diogo P. Aurélio.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

O ESPECTÁCULO E OS OSSOS





Anorexia é mais um dos vocábulos humilhantes envolvendo o nosso psiquismo manipulado à superfície das montras, vinda de longe e de perto, doença inicial que podemos colar ao aspecto daqueles manequins de plástico que servem para simular o prazer de vestir uma peça de roupa sem que o corpo, de fora, pareça rebentar de hematomas. A magreza é procurada a todo o custo. E os pacientes não comem ou vomitam o qe comem, o que não os impede de se olharem ao espelho, no qual se projecta um esqueleto de Treblinka ou se distorce uma caricatura da verticalidade do corpo humano. A massa muscular quase não existe, os ossos emergem sob a pele, e nada disso evita que tais fundamentalistas ainda sonhem, aqui e além, com volumes ainda a abater.
Os distúrbios produzidos pela readquirida imposião da escravatura têm hoje um glossário técnico, comercial e químico que faria inveja à mais andrajosa das civilizações. Veja-se como a Índia cresce à razão de 10% ao ano, o que é fenomenal e realiza riqueza social insofismável para uma parte da população, enquanto dois terços da massa demográfica tenha de viver com um euro por dia. Muitas das razões que determinam esta assimetria, em pleno crescimento da riqueza nacional, vieram do Ocidente e das grandes mecanizações do fabrico e do consumo.
Nas aulas de anatomia ligada às artes, entre padrões femininos gregos, romanos, e outros, as linhas perpendiculares que desciam virtualmente dos ombros da mulheres vinham cair na curvatura da anca, enquanto pelos seios se podia fazer passar, de mamilo a mamilo, o lado menor de um rectângulo ao alto, que cabia em baixo, em várias alturas, ainda dentro da silhueta do modelo. Conheci uma rapariga, mais ou menos com esse perfil anatómico, alta, clássica, com um corpo sem acentuações e de grande harmonia. Ela veio a candidatar-se a uma dessas famosas casas angariadoras de reféns da moda, procurando aceder à profissão de manequim. Quase nem a viram, porque de soslaio chegaram logo à pérfida conclusão de que tinha anca demais. Contudo, o patrão dos visionamentos acompanhou a rapariga à porta onde aproveitou no sentido de a convidar para jantar -- o que parece contraditório em função do diagnóstico debitado.
o código da aberração
Numa onda que foi crescendo a partir de França e da Itália, o poder das agências de angariação de modelos, abarrotando de candidatas, foram apertando o cerco à alucinadas meninas que aspiravam chegar ao sucesso das passerelles. Era gente sem informação científica e estética sobre a matéria, imaginando, na sua mente snob, o exemplo feminino sem ancas, sem peito ou peito tratado, ombros alinhados pela maior largura na horizontal que passa pelo púbis, mas tudo isso, sob contratos caninos, levados ao absurdo e frequentemente com mocinhas dotadas de um palminho de cara, ponto de interesse que era reelaborado pelo pessoal da maquilhagem. Começou tudo com o código dogmático das medidas 86-60-86, simetria que nada tem a ver com a estrutura do corpo feminino. Em suma, uma indúsria da cultura de massas, uma produtora de meninas anorécticas de difícil recuperação, gente com a morte anunciada algumas vezes, alucinada pelo padrão imposto, as pernas miseravelmente lineares e magras, que trocavam os pés no andar de mero treino, tanta coisa assim enviesada naquelas anatomias descarnadas.
As indústrias do consumo, quase sem o perceber, alinham em rotinas conceptuais insustentáveis, trabalhando alimentos absurdos, padrões de dieta inqualificáveis, manequins cuja vida, em certos casos mitificada por multidões alienadas, passa por uma dureza escrava. Tudo por uma sociedade artificializada nas necessidades e nos gostos, à beira de ter que regulamentar o caso da moda. Mas escrevo ao saber que o peso das raparigas passou a ser exigido nunca abaixo de certa marca e apesar de me sentir ainda impressionado com o caso (entre outros, certamente) da morte de uma modelo -- um corpo prematuramente cansado, corroído pela anorexia e pelos trinta e tal quilos que chegou a pesar nos últimos dias.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

A IMAGEM E O REAL

ilustração de rocha de sousa

Um dos efeitos perversos da sobrecarga de imagens -- televisivas, fotográficas, etc. -- é o desconhecimento da própria imagem como modo de dar a ver. Modo, entenda-se: não o decalque de um qualquer real, mas uma via particular de habitar esse mesmo real, por assim dizer construindo-o e reconstruindo-o, confirmando-o ou desmentindo-o. Daí um elementar princípio pedagógico: fazer imagens, ou apenas contemplá-las, não é reproduzir nenhum real. mas produzi-lo -- cada vez que fabricamos ou olhamos uma imagem, o real transfigura-se.

NB: excerto do artigo «De quem são estas mãos?», de João Lopes, Diário de Notícias, revista «6ª», 19.01.2007

A JUSTIÇA É CEGA


Há muitos anos, estava eu iniciando alguma vida profissional, fui chamado ao Ministério da Justiça, lugar mítico do qual pouco sabia, com indicação de um Secretário de Estado cuja ideia de ramo perdi por completo. Lá atei a gravata ao pescoço, sobre uma camisa nova, e fui. Quando falei com o porteiro, dizendo-lha ao que ía, logo me encaminhou para um gabinete de espera. E disse: «o senhor doutor vem já.» O ambiente era um pouco carregado, a luz muito cortada pelas cortinas, e o mobiliário preto, decorado por retorcidos. De facto não esperei muito e o senhor, cuja graduação tanto podia ser de Secretário de Estado ou de Ministro, pois os meus ouvidos fecharam-se ao som articulado das palavras de apresentação, convidou-me para nos sentarmos. E passou a explicar-se: «O Ministério da Justiça pretende encomendar-lhe o projecto de uma tapeçaria para a grande sala do Palácio da Justiça de Moimenta da Beira, que estará em breve em acabamentos. Soubemos do seu trabalho pedagógico e profissional neste domínio e queremos alargar o leque dos artistas a convidar». Calou-se e ficou a olhar para mim, como se esperasse uma resposta com tão poucas premissas. Disse-lhe que me sentia honrado com a escolha, mas precisava saber contornos do projecto, onde seria manufacturado, se havia ou não, para além da natural premissa de integração, recomendações técnicas, temáticas ou outras. E ele, sorrindo: «Então aceita?» Eu respondi que sim, que em princípio a encomenda me agradava. E ele, antes que eu voltasse à lenga-lenga das condições: «Óptimo. A tapeçaria terá três por quatro metros, será tecida na Manufactura de Portalegre, incluindo a ampliação para papel de tear. O Ministério pagar-lhe-á pelo «cartão» com todas as indicações necessárias entre cem ou cento e vinte contos.» Resmugando um pouco à partida, acabei por aceitar, considerando que a Manufactura ou o Ministério me fornecessem as coordenadas habituais. «Com certeza -- disse ele -- mas tem de respeitar apenas uma condição. A sua linha estética é a que quiser, com ou sem figuras, com ou sem simbologias recorrentes. No entanto, e no caso de desejar representar a figura simbólica da Justiça, o Ministério não aceita qualquer entidade com os olhos vendados e adereços de espada e balança. Entemde a questão?» E eu, estupefacto: «Com certeza.» Antes de terminar, já entre portas, o homem entendeu por bem esclarecer-me sobre as exigências do Ministério: «Este Ministério é de facto da Justiça. Não encontramos razões, na época actual, para apresentar a Justiça como cega (de olhos vendados) e com uma balança e uma espada, indicações de dividir laminarmente para distribuir valores ou de os ter de pesar como se os actos humanos o pudessem ser». Agradeci-lhe a explicalção e fui à vida. Em Moimenta da Beira pode ver-se o resultado. De facto a Justiça não pode julgar sem ver, porque ver é indagar, é julgar o real, enquanto o fio da espada e a balança pouco se ajustam a uma sentença ponderada numa sala e escrita à secretária. Meus amigos, os que me estejam a ler sem vendas nos olhos, esta hitória é verdadeira mas a concepção daquele Secretário ou Ministro é hoje falsa. A Justiça, entre nós, mostra índices de formação e formulação de sentenças por vezes aterradoras. Estamos neste momento a assistir à tentativa, judical, de se retirar a uma família de acolhimento e adopção uma criança que a mãe biológica lhes entregou e pediu que cuidassem, o que fizeram até ao presente, durante cinco anos. O pai biológico, que só apareceu verdadeiramente um ano depois da filha nascer, é chamado a assumir o seu papel de sangue, vivendo a milhas de qualquer cenário capaz. A protecção dos pais biológicos chega a ter aspectos ainda mais absurdos do que este, é sagrada e mítica, a criança acaba sempre em segundo plano, quando devia ser, antes de tudo, a primeira causa a avaliar. O país indigna-se: porque o pai adoptivo foi preso por seis anos e a mãe adoptiva fugiu para parte incerta, a fim de preservar a menina de uma verdadeira catástrofe. E o povo indigna-se porque percebe que o pai adoptivo se deixa prender com honra e na defesa dos valores em causa, protegendo a filha, tanto como a mulher que se oculta da total inconsistência desta decisão do tribunal. Um tribunal que obviamente exerceu uma justiça cega e não sabe nada de ninguém. Um tribunal e que usa a espada para dividir cegamente. Um tribunal que julga poder evocar a lei numa situação que é ontológica e não circunstancial.