terça-feira, dezembro 25, 2007

O IMAGINÁRIO DA ARQUITECTURA ATRAVÉS DA PINTURA

pintura de Nadir Afonso

Em termos gerais, pelo modo de construir e compor, a pintura aqui presente, «Procissão de Veneza», de Nadir Afonso projecta com integral propriedade o clima coerente de toda a sua obra plástica autor, aquitecto por formação. Não foi intencional esta divulgação de uma peça entretanto integrada numa exposição do artista. Aproveitei essa mesma notícia e esta reprodução para reiterar publicamente aquilo que suponho ser a raiz arquitectónica das obras pictóricas do autor, mesmo as mais abstractas, contra o que ele teimava em afimar há anos - a certeza de que nada havia da sua formação prática, enquanto arquitecto, nas pinturas que realizava. Essa «filiação» nada o deminui, pelo contrário, e a verdade é que, abrindo espaços pequenos à bem sustentada ilusão de imensas construções urbanas, rasgadas em horizontais e oblíquas, pontuadas por planos verticais, dificilmente se pode negar a quase primeira percepção do espectador.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

ARTISTAS PORTUGUESES CONTEMPORÂNEOS | Raúl Perez


Raúl Perez, nascido no Minho, em 1944, realizou a sua primeira exposição individual aos vinte e oito anos. Já veio encontrar praticamente concluída a arrumação das artes, os seus canais de influência e lugares de ancoragem, tudo temperado com molho francês e recentes especiarias da América, entre as culturas a Ocidente e um espaço a Leste, sobretudo depois da queda do muro de Berlim. O currículo de Perez dilatou-se rapidamente. E, na galeria de S. Mamede onde agora expõe a sua última produção, foi assinalado pelos eruditos. Cruzeiro Seixas, na pose da etiqueta surrealista, dirá em jeito de chancela institucional: «Nas suas telas só aparentemente o edifício é tão-somente um edifício, a coluna uma coluna como qualquer outra, o buraco um simples buraco que sugira rato humorístico ou presença erótica. Vazio, ruína, negrura, solidão que são representação de gentes que conhecemos -- e de nós próprios. Praças e ruas, vejo-as povoadas, embora sejam Inverno». Estas palavras traziam o fio da invenção surrealista, a poética dos nomes e o non-snse da paisagem. Para que a actual obra de Perez, belíssimos desenhos de um imaginário ligados a uma espécie de vida alienígena, se garantisse desde ontem. São sonhos transformados em aparência e substância É o inconsciente e expelir uma antiguidade humana indeterminada. Ninguém citou Breton (cuja voz papal influenciou o surrealismo em Portugal), nem Cesariny que, não querendo ser bispo em França nem no nosso país, ficou em cardeal dos criadores portugueses neste sinuoso movimento à medida que o tempo passou. O próprio Cesariny, achando que o surrealismo é quase um buraco negro que tudo absorve, fez-se pintor, entre palavras recomeçadas.
Raúl Perez mostra-se, mais do que nunca, fiel a uma ideia ortodoxa (no melhor sentido) do imaginário surrealista: porque, ao viajarmos pelas suas construções de gente nenhuma e os seres que faz passear de modo absurdo, é a mão hábil que burila a lápis ou tinta uma filigrana do próprio sonho.





obras de Raúl Perez, de pequenas dimensões e sem título

segunda-feira, dezembro 10, 2007

A CIMEIRA DAS NOSSAS INCERTEZAS

Salih Mahmoud Osman
PRÉMIO SAKHAROV 2007



crianças na zona degradada a sul de Harare
de Nyerere

Não é inocente esta abertura à notícia da Cimeira União Europeia-África que decorreu em Lisboa a partir do 6 de Dezembro de 2007 e reuniu grande número de Chefes de Estado, representantes e representações a corresponder, o melhor do aparelho político português, tudo isso numa importante operação de charme diplomático, de enorme aparato de segurança, incluindo, por outro lado, a resposta competente às exigências de algumas personalidades de hábitos inusitados: carros especiais, à prova de bala, carros dos próprios vsitantes, armação da tenda de Kadafi, com vista para o mar, na plataforma do forte S. Julião da Barra, alojamento garantido nos melhores 22 hotéis de Lisboa, instalações para os conzinheiros e outros «ajudantes» de toda esta multidão que manda no mundo, rodeada de pobreza na visão incerta do futuro, os poderosos que lavam as mãos para simbolizar a sua pureza de decisões, salpicando as imagens do horror antes de tomarem a toalha que alguém lhes estende na grave solicitude do momento.

Seja como for, Porugal, em termos convencionais e alguns «anexos», cumpriu com certo preciosismo este enorme encargo, procurando imprimir ao acontecimento (ao contrário do anterior, há sete anos) aquilo a que já se chama um «espírito novo». Os jornais insistem em apontar, como notas dissonantes, os casos do Sudão e do Zimbabwe, dada a forma gritantemente irregular das administrações em tais zonas. Mugabe, que destroçou o Zimababwe por razões difíceis de entender, esteve sob as objectivas, hirto e mudo até quase ao fim, altura em que apontou o dedo à Europa, ao neo-colonialismo, à necessidade de acabar com os fantasmas e tratar de uma colaboração recíproca, sem hipocrisia. Não estou a transcrever à letra mas penso que este velho guerrilheiro já não sabe distinguir a sua luta anterior com a integração moderna do seu país numa perspectiva actual, de prosperidade e novos contextos. Não é ele o único. Darfur foi abordado, essa inexplicável tragédia que se tem mantido pelo tempo fora, provocando duzentos mil mortos e três milhões de deslocados. Para não falar noutros casos, benignidades disfarçadas e alguns pontos positivos de ordenação dos meios e de mobilização das populações. De resto, as conquistas europeias, em termos civilizacionais, comportam o peso e o resto dos benefícios do tempo colonial, os seus impérios, e ainda hoje, quando alguns crimes das próprias guerras civis estão à beira de prescrever, muitos políticos e intelectuais da União fazem projectos em nome da culpa e da salvação do continente africano, agora em grande risco de perda. Difícil é explicar aos antigos «colonos», dos quais também se obtiveram empenhos decisivos no entendimento produtivo daquelas terras, que culpa terão (no caso de Angola, por exemplo) na eclosão de uma guerra civil de forte incumprimento dos acordos das forças enfim aceites pelos portugueses, gesto dos mais tirânicos que arrasou um país tão vasto, como noutros casos, e cujos conquistadores do poder lá estão, certamente pouco atentos aos valores da democracia e dos milhares de estropiados, muitos vítimas das minas que a cegueira dos beligerantes levou a espalhar sem cartografia por milhares de quilómetros quadrados.

Darfur é pior do que as pessoas imaginam, acentua Salih Mahmoud Osman. Ele trabalha em condições muito difíceis. E, tanto nessa zona, como na Somália e outros países bem conhecidos: os mortos no Uganda, a violência um pouco por toda a parte, em geral conduzida por homens que combateram contra o colonianismo e a libertação dos povos. Apesar das suas convicções, Franz Fanon reconheceu os riscos de extrair milhões de pessoas praticamente acabadas de viver na pré-história e colocá-las de súbito na inteira tarefa de assumir a contemporaneidade. Os conflitos, dizia, serão imprevisíveis.

Salih Osman recebe o Prémio Sakharov nesta semana e «acredita que a força de paz da ONU e da União Africana (26.000 soldados) estará no terreno nos próximos dois meses. Os problemas em torno desta operação só muito dificilmente se podem avaliar. Sem conhecer a estratégia pensada, o que sei é que para as infecções espalhadas pelo continente só teriam tratamento relativo (até porque o continente é rico e a riqueza está a ser compactada à margem das populações) com um milhão de agentes bem dirigidos, incluindo grupos sanitários, de agrono-mia, de administração, de formação a diversos níveis. O mundo poderia, entre outras acções sobre o ambiente, tomar esta enorme missão como um dos objectivos mais relevantes de sempre. Porque o crescimento avassalador e invasor (China, por exemplo) pode ser redireccionado a fim de criar riqueza civilizacional, não economiscista e globalizante. E de resto, a China, além de comerciar segundo regras apropriadas, poderia muito bem contribuir com elementos diversos para aquela «força» (utópica?) de salvação.

Se houvesse entretanto um deastre súbito, planetário, de origem cósmica, que fariam as Uniões e os países mais ricos, que fariam as empresas multi e transacionais, assim, diante de uma tragédia gerada em em bola de neve e portanto à escala do planeta? Que fariam todos em tempo relativamente curto? Um dia, as cimeiras podem ser convocadas com urgência e sem partilhas antecipadas, claramente hipócritas.

sexta-feira, dezembro 07, 2007

E QUEREM ELES METER A TELEVISÃO EM TODOS OS BURACOS


Na coluna muito bons somos nós, da revista do «Diário de Notícias» (1.12.07) Joel Neto começou a sua crónica com o seguinte título: quo vadis, televisão. Depois de muito explicar, tendo em conta as agruras dos programas televisivos, confessou que a sua preguiça os fazia ver e soletrar. Temendo que as poucas entidades verdadeiramente representantes da cultura portuguesa ensandeçam de vez, porque o povo já lá vai, clamou desesperadamente assim:
«Concursos com néons encarnados e utentes num esforço de parecerem divertidos, telenovelas com guião esquemático e actores sem gente por dentro, jornalistas sob o efeito de drunfo à procura da marca de sapatos do polícia que anda a investigar o desaparecimento da miúda, ministros excitadinhos que respondem a olhar directamente para a câmara a ver se chegam às emoções do espectador -- e ao fundo a Júlia Pinheiro aos gritos, aos gritos, aos gritos. Não, eu não posso acreditar que conferir a televisão que um determinado povo vê seja ainda a forma mais eficaz de decifrar o seu verdadeiro coração. Eu não posso acreditar que o meu povo seja isto. Se a Júla Pinheiro é este povo, então eu não quero ser este povo com certeza»
Ao ler estas desesperadas palavras (e porque tinha o televisor ligado) apanharam-me quando o José Castelo Branco de etc. apareceu no ecrã, gemendo e contorcendo-se, numa mal imitada snobeira e abordando o transcendente tema das cirurgias plásticas. Troca as pernas, mostra as coxas, inclina a cabeça, estica os beiços, e ergue os braços a meia altura, simétricos, as mãos enclavinhando-se, esquizofrénicas, dedos dobrados, distendidos, como a hipérbole dos dedos dos mais belos bailarinos do fim do mundo. O estereótipo daquilo que ele julga ser uma grande personalidade da sociedade e da televisão apela demais à náusea. No caso da Júlia podemos usar filtros nos ouvidos, como nas mini-salas dos nossos mini e gritantes cinemas, aberração que qualquer autoridade com o 9º ano aboliria do horizone urbano que nos cerca, aperta e deprime. Mas este não é o caso de José Castelo etc. Com ele só nos resta apagar o aparelho, pois se mudarmos de canal encontraremos os mesmos programas, todos alinhados, todos iguais, todos salpicados de rapariguinhas em pose, uma coxa avançada, ou bailando nos intervalos, numa coreografia que talvez inspirasse Pina Bausch. O Joel Neto, se se deixa tombar pela preguiça, vai ter de, num país pobre como o nosso, aguentar filmes americanos, anúncios e outras imagens lixosas até de manhã. Aquilo nunca pára. E os donos querem mais, porque, dizem eles: «Nós sabemos perfeitamente que somos todos um serviço público e só servimos o que o público gosta». Este velho embuste quanto à cultura popular devia pagar coima, não em dinheiro, mas decretando que, em tais circunstâncias, a emissora seria obrigada a passar, durante cinco dias na semana, cinco obras primas do cinema, das grandes coerografias, do próprio teatro -- e em prime time, agora atafulhado de anúncios ou baboseiras de se lhe tirar a baba.

sexta-feira, novembro 30, 2007

QUEM SOMOS NÓS, ALÉM AO FUNDO?


Enquanto convocava esta fotografia da Terra vista da Lua a fim de a trazer para aqui, na linha daquele fascínio que as imagens do espaço cósmico exercem sobre nós. Tinha o televisor ligado, atrás de mim, e ouvia vagamente as vozes de um programa da tarde. A certa altura, ao enquadrar a imagem, ouvi um diálogo onde se citavam vários casos de antropofagia no nosso próprio país, entre o boato e o facto provado, além de outras citações de semelhantes acontecimentos confirmados no estrangeiro. Um noivo mata e decompõe a noiva, comendo-a até ao limite do possível. Os intervenientes falavam de impulsos de origem longínqua na espécie humana e de outras metamorfoses neurológicas inquietantes. Um deles dizia mesmo que é legítimo relacionar estes fenómenos com a situação do feto, durante a gravidez, como um ser dependente de uma alimentação orgânica, vinda da mãe, como se verifica depois do nascimento, pela demorada deglutição do leite materno.
A fotografia tinha surgido, certa e normalizada, mas eu havia esquecido o motivo que me levara a publicá-la. Olhei demoradamente aquela distância diurna e nocturna e apaguei o título que tinha escolhido para esta imagem, trocando-o por este que vos remeto, com uma velha pergunta que as viagens espaciais, concretas e imaginadas, ajudam a colocar cada vez com mais angústia.

terça-feira, novembro 27, 2007

DO MÉDIO ORIENTE A SETUBAL

Entre certas coisas ou circunstâncias, há semelhanças por vezes inquietantes, embora saibamos distingir que não é tudo do mesmo fim. Como símbolo de um conflito que se eterniza, o jornal Público apresentou hoje a fachada de um prédio palestiano em cujos andares semi destruídos se notam as marcas da lepra resultante da fuzilaria, andar após andar, fachadas e fachadas com este aspecto.
O mesmo jornal, também hoje, publica a frente esventrada de um prédio de doze andares, em Setúbal, inutilizado nos últimos andares (isolámos aqui aspectos de três apartamentos) em virtude de uma aparatosa explosão de gás. Na diferença, e até na diferença das causas) a semelhança fisionómica destas arquitecturas, após os colapsos, relevam de um mesmo contentor infernal: a guerra de várias faces no Médio Oriente, e uma outra guerra, em Portugal, que corresponde aos surdos interesses de muitos construtores, erros de edificação, incompetência, negligência, sucessivas batalhas mal ganhas na ocupação desordenada, senão criminosa, do território nacional.


domingo, novembro 25, 2007

UM PERFIL PORTUGUÊS


Pulido Valente, historiador, escritor, cronista, comentador, homem de ideias, surge aqui, na capa da Visão, menos expedito do que costuma ser. Expedito no sentido de atalhar de súbito, entre revelações que ninguém espera, demolindo à esquerda, demolindo à direita, calando vozes, gozando frases, argumentando com agúcia e por vezes após uma colherada de pimenta que nem ele. Sempre gostei muito de o ler, do tempo das crónicas do Independente, mesmo quando caricaturava os próprios erros e os erros dos outros.
Há dias, quando foi vedeta de capa, respondeu a uma entrevista de Ana Soromenho e Rui Castro, assim numa espécie de breve depressão. No início da peça jornalística, foi destacada esta sua fala: Pedi a Cavaco que se candidatasse. Portugal precisava de um polícia. De facto, Vasco Pulido Valente almoçou com Cavaco Silva porque os grandes negócios em Portugal fazem-se com o Estado ou com informação do Estado. Só a presença dele em Belém coíbe muita gente. Referia-se a Cavaco. Mas a seguir considerou que as conversas com os políticos não servem para decidir nada.
Acerca de Sócrates, Pulido disse que nem se lembrava de o ter visto em pessoa e que ele, o primeiro ministro, é de uma pavorosa mediocridade. Pior: é um homem que tem uma linha de pensamento convencional. Que assenta em todos os lugares-comuns deste tempo e reproduz de uma maneira tosca esses mesmos lugares-comuns.
Com este sério depoimento, Vasco Pulido Valente aproximou-se inexoravelmente do perfil dos portugueses.

segunda-feira, novembro 12, 2007

OLHAR PARA PEARL HARBOR EM 7.12.1941


Em 7 de Dezembro de 1941, a esqudra americana do Pacífico, acantonada em Pearl Harbor, foi atacada, subitamente e em massa, pela força aérea japonesa, o que gerou uma das mais impressionantes catástrofes quando acabava a II Guerra Mundial. A situação caótica do momento não permitiu, nem uma verdadeira reacção militar, nem o registo suficiente do que se desenrolou naquele dia. Muitos testemunhos foram usados para a reconstituição do golpe. Os Estados Unidos, com a maior das fidelidades possível, realizou, ainda há pouco tempo, mais um filme sobre a hora maldita de Pearl Harbor.
Mas as fotografias que vemos aqui, por mais extraordinário que pareça, estavam armazenadas numa velha câmara Brownie, desde 1941, e foram encontradas no armário de um marinheiro que serviu no USS Quapaw. A qualidade das fotos é surpreendente e o valor histórico inestimável, pois foram tiradas durante o ataque a Pearl Harbor.















Hoje, em Novembro de 2007, algures numa das guerras que se travam no mundo

sexta-feira, novembro 09, 2007

BREVE VISITA A ANTONIO CLAVÉ

Antoni Calvé «Etrelas e Signos»
Entre as oportunidades que surgem todos os dias para visitarmos criadores de todo o mundo, e na impossibilidade de acedermos a esse mundo de estrelas, aproveitamos uma visita particular para dar a ver algumas obras de um importante pintor espanhol, nascido em Barcelona, em 1913, 5 de Abril. É visivelmente uma personalidade viril, com uma obra que se estende dos anos 30 a 2005, ano em que morreu, em Agosto, França. O seu currículo é inacessível neste tipo de espaço e isso pode avaliar-se, desde logo, pelos museus em que se encontra representado: Museu de Belas Artes de Bilbao, Museu de Arte Moderna de Paris, Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia, em Madrid, além do Museu Britânico e da Tate Gallery, Londres.
É de destacar, em 1984, o pavilhão que lhe foi dedicado na Bienal de Veneza. Antoni fora «avaliado» com uma retrospectiva no Centro Pimpidou Museu de Arte Moderna (Paris, França)
vários anos antes, 1978.
Entre a grande quantidade de textos que foram produzidos sobre a sua obra, destaca-se «Antono Clavé: Fotógrafo», da sua própria autoria, ed Actar. Isto é tanto mais curioso quanto demonstra o universo de factores e apelos em que se moveram os artistas do século XX.
As obras aqui apresentadas, da segunda metade daquele período, geram sinais da tradição plástica espanhola, mas a verdade é que o autor não deixa, na sua identidade e diferença, de mostrar a semelhança com grandes galáxias afins, na ordem estética da pintura, bem pujantes no quadro das transformações verificadas sobretudo desde as primeiras décadas do século XX.



«Sempre ele» 1998

«Natureza Morta com folhas»


«Estrelas de Fogo» 2004


quarta-feira, novembro 07, 2007

ARTISTAS PORTUGUESES CONTEMPORÂNEOS | Isabel Sabino

homenagem 1987



Lugares 1985


Donde, o quê, para onde? 2007




Nestas apresentações sucintas de artristas porugueses contemporâneos, sobretudo no domínio da pintura, ofereço hoje algum espaço a Isabel Sabino cuja obra conheço desde os tempos da Escola Superior de Belas Artes, agora Faculdade (Universidade de Lisboa), instituição onde a pintora lecciona em áreas decisivas para um melhor desenvolvimento da formação dos licenciados, sobretudo por forma a que disponham de capacidades e informações (na múltipla aplicação), coisa que, infelizmente, os governos do nosso país ainda não entenderam. Os autores que saiem daquele espaço, aliás como do Porto, são universitários muito bem qualificados, dos quais, em certas indústrias, autarquias, actividades interdisciplinares, entre outros fins, poderão ser recrutados e adequadamente nobilitados.
Isabel Sabino, com quem trabalhei neste sentido e na concepção de manuais em áreas artísticas na formação a distância da Universidade Aberta, é uma das professoras mais habilitadas, da FBAUL, em termos práticos e teóricos. A sua prestação nesse domínio não a roubou à avançada prática da pintura ou do desenho, o que tem tido reflexos igualmente no campo da investigação e no quadro cultural resultante desse esforço, o que se pode apreciar em algumas peças aqui publicadas, pertencentes a períodos dos anos 80 até ao presente. A apresentação não cronológica destas imagens pretende salientar a coerência formal e conceptual de tão grande percurso. O que se pode apreciar é que a concepção que Sabino tem da pintura não se desprende de noções ancoradas na memória da representação, desdobrando-se por caminhos coerentes, de algum paralelismo, de recursos iconográficos semelhantes, a despeito dos diferentes modos de formar e do trânsito temporal. A idade clássica espreita alguns desenhos, incisões, montagens capazes de gerarem sequências dentro de sequências, marcas de há milénos e da orla mediterrânica dispostas a uma espécie de planificação que torna visíveis objectos imprevistos, figuras, poses, modelos e módulos. Tudo tem uma ordem, dependências arrumadas, projecto, auroras menos definidas aqui e além mas que ajudam a situar os dados da composição numa órbita dentro do tempo, perto ou longe de nós, pequenos usufruidores de cada deriva pelo espaço enleado nas artérias do sonho.

2006


2007 Stridons Lassü


2007 cores sujas



1987 técnica mista


2007

sábado, novembro 03, 2007

ESTRANHEZA E FEALDADE NAS BELAS-ARTES

Hans Memling

Em todos os séculos, filósofos e artistas sempre forneceram definições do belo; por isso, graças aos seus testemunhos, é possível reconstruir uma história das ideias estéticas através dos tempos. Mas, com a fealdade aconteceu de maneira diferente. Na maioria dos casos, definiu-se o feio em oposição ao belo, mas quase nunca se lhe dedicaram tratados extensos, somente alusões parentéticas e marginais. Portanto, embora uma história da beleza se possa servir de uma ampla série de testemunhos teóricos (dos quais se pode deduzir o gosto de uma época), uma história da fealdade terá, na maioria dos casos, de ir procurar os seus documentos às representações visuais ou verbais de coisas ou pessoas, de algum modo, consideradas «feias». Contudo, uma história da fealdade tem algumas características em comum com uma história da beleza. Antes de tudo, podemos somente supor que os gostos das pessoas comuns corresponderiam de algum modo aos gostos dos artistas do seu tempo. Se um visitante vindo do espaço entrasse numa galeria de arte contemporânea e visse rostos femininos pintados por Picasso e ouvisse os visitantes a julgá-los «belos», poderia conceber a ideia errada de que, na realidade quotidiana, os homens do nosso tempo achassem belas e desejáveis criaturas femininas com rostos semelhantes aos representados pelo pintor. Todavia, o visitante espacial poderia corrigir a sua opinião se assistisse a um desfile de moda ou a um concurso de Miss Universo, em que veria celebrados outros tipos de beleza. A nós, ao contrário, isto não é possível, porque, quando visitamos épocas remotas, não podemos fazer verificações nem em relação ao belo nem relativamente ao feio, porque dessas épocas só nos restaram testemunhos artísticos. Outra característica comum tanto à história do feio como do belo é a que devemos limitar-nos a registar as vicissitudes destes dois valores na civilização ocidental. Para as civilizações arcaicas e para os povos chamados primitivos, temos achados artísticos, mas não dispomos de textos teóricos que nos digam se aqueles se destinavam a provocar o deleite estético, o terror sagrado ou hilaridade. ________________________________________________ Citação da abertura da História do Feio dirigida por Umberto Eco

Frank Frazetta


Geor Grosz

Joseph Adams

Quentin Metsys

Hieronymus Bosch

TristanTzara

Este problema, que vimos introduzido acima por Umberto Eco, não escapa, no livro, a considerações que vêm apurar comparações e julgamentos ali aligeirados. Um artista como Picasso, ao defrontar-se com máscaras africanas, e mesmo depois de saber as suas aplicações ou usos, aplicaria certamente, em plena fruição da estranheza, um conceito de beleza ao objecto. E sabemos como tais máscaras contaminaram uma sociedade em transformação, no século XX, adquirindo um inalienável estatuto de beleza. Isso não evita que pessoas menos informadas, menos cultas e abertas à questionação das formas, classificassem ou classifiqem as máscaras como feias. Esta relatividade não depende apenas do testemunho real no tempo de cada antiga escola artística, depende muito da cultura pessoal, da sua sensibilidade e da riqueza do seu imaginário. Quando eu declaro que considero em geral belas as ruínas de antigos patrimónios, formas que provocam alguma agonia noutras pessoas, isso decorre de identidades culturais peculiares. As próprias imagens que se publicam aqui, do livro citado, são, para muitos de nós, exemplares do belo, ou da estranheza, ou desta e do belo simultaneamente. Ou apenas feias.
A sensibilidade humana, e a longa viagem do seu imaginário, entre guerras e santificações, não é mensurável de tal modo -- ou não é mesmo de nenhum modo.

domingo, outubro 28, 2007

UM GANHADOR QUE NÃO QUER ENVELHECER

Jardim Gonçalves

O Comendador Marques Correia exprimiu a Jardim Gonçalves, em carta de 22 de Outubro de 2007 a perplexidade que o assaltara perante o clamor que se levantara contra aquele banqueiro inaposentável, clamor que se ficou a dever, pensa ele, às dívidas entretanto pagas (paternalmente pagas) contraídas por um filho algo aventureiro. Disse o Comendador que o mal estava em ter pago os 12.500.000 euros gastos pelo rapazola, o que não altera em nada a salgalhada que vai pelo BCP. O Comendador já não se lembra daqele tempo em que a idade de 70 anos levava à reforma compulsiva. E também não se lembra muito bem, presumo, daqueles senhores que começavam como paquetes e acabavam em gerentes, donde só saíam para o hospital ou para os Jerónimos. Este senhor, senhor Comendador, talvez seja o homem «que não devia pagar». Mas ele é um ganhador que não quer envelhecer.

sábado, outubro 27, 2007

ARTISTAS PORTUGUESES CONTEMPORÂNEOS I Maria João Franco

Seguindo um critério de publicar aqui, aleatoriamente, artistas portugueses contemporâneos, de qualidade reconhecida, recorremos hoje a pinturas recentes de Maria João Franco. Viúva do pintor Nelson Dias, cujo desenho de corpos atingira grande relevância expressiva, Maria João cerrou os dentes com a determinação de prolongar a memória da obra de Nelson, a par das suas pesquisas ainda conotáveis com aquele desenho, mas reivindicando junto de todos a sua identidade, a sensualidade dos corpos, a idea de pele, o rasgão das texturas, metamorfose do homem em bicho, à procura de um verdadeiro nome. A pintora não oscila na identidade institucional e na mesma verdade quanto às formas plásticas. Há um equilíbrio duro entre o ser da mulher e uma quase masculinidade na obra plástica. Por vezes, quando desenha, abre espaço às massas corporais, num claro escuro bem assumido, a superfície tratada com grande subileza de valores. Na pintura, este jeito de abstractizar as formas distingue-se segundo um idêntico calibre e balança para outros ritmos internos, gestuais e texturais. Todos esses materiais anunciam uma problemática para além do plano reico, sugerem a dor, o sofrimento, o grito panteista, o corpo trucidado, um expressionismo que parece anunciar a vontade de viver.
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pinturas de Maria João Franco

terça-feira, outubro 23, 2007

JOGOS POUCO INOCENTES *

Rodrigo Guedes de Carvalho
Comecemos por uma questão que tem muito a ver com as perversões do sistema editorial e pouco a ver com a literatura: o sistema que consiste em fazer passar por literárias umas pequenas histórias, nas quais se agitam umas figuras astuciosas chamadas «personagens». Tais formas de representação mais ou menos derivadas de um realismo triunfante alimentam-se de ninharias sentimentais, de um psicologismo primário, ou então da reconstituição histórica. Esta fabricação de livros em larga escala e com grande alarido tornou-se bastante permiciosa a partir do momento em que colonizou o espaço público e forneceu uma «imagem» completamente inócua da literatura. Neste sistema, a literatura é exclusivamente o romance, e nada mais existe. Um sinal eloquente deste estado de coisas é a generalizada aberração gráfica das capas dos livros. A fotografia de tipo jornalístico com alguns maneirismos artísticos tornou-se regra e já começa a invadir as capas dos clássicos que vão sendo reeditados. Neste sistema, a figura demasiado pública de Rodrigo Guedes de Carvalho ocupa uma posição de risco - a do jornalista de televisão que escreve romances - na medida em que corresponde a um estereótipo do escritor destinado a um sucesso fácil, isto é, ao sucesso que, no campo literário, nunca se converte em«capital simbólico». Serve este excurso para dizer que Canário responde a exigências que o subtraem ao contexto demasiado «profano» de onde emerge e não se deixa incluir no vasto parque de atracções criado pelo sistema mediático editorial.
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Este extracto do artigo «Jogos pouco inocentes» (revista Actual/Expresso) da autoria de António Guerreiro* aborda um problema cada vez mais grave no nehócio dos livros, roda de jogos e sorteios entre tráfico de influências, em que alguns talentos são ostensivamente espezinhados e outros, por lugar e circunstância, se situam no Sistema (em desordem) das editoras que se gabavam de descobrir qualidades e editar obras de referência. Neste livro, diz António Guerreiro, é muito visível o contraste entre aquilo de que o autor é capaz e os lugares onde vacila.