Schurpin* EstalineRenato Bertilli *«Perfil do Duce» 1933
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à esquerda Hitler Hubert Lanziger * à direita cartaz, Roosevelt James Flagg.Esta «amostragem» acompanha um excelente artigo de Nuno Galopin a que nos referiremos depois.
Uma perspectiva crítica que procura semelhanças e diferenças entre as diversas formas de discurso persuasivo em regimes democráticos e totalitários
sexta-feira, abril 06, 2007
BONECOS FEITOS EM NOME DO PODER
quarta-feira, abril 04, 2007
BREVE OLHAR SOBRE A OBRA DE FARRERAS

Excerto do texto do catélogo da exposiçãp aqui assinalada, prefácio de Francisco Cano
segunda-feira, abril 02, 2007
OS GLOBOS DE OURO E A SUAS OMISSÕES
domingo, abril 01, 2007
NEM CORPO NEM ALMA, O BAPTISMO

Ainda não é a coluna madura de uma árvore, não fabrica
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extracto do poema DO MONDO, de Herbet Helder (POEMA CONTÍNUO)
terça-feira, março 27, 2007
O REGRESSO DE SALAZAR
A RTP, enquanto Serviço Público, diz ciclicamente zelar por melhor informação, mais cultura e entrenimento q.b. Entre outras coisas que não se passam dessa forma, a RTP defende o critério de comprar direitos de autoria sobre programas do exterior, podendo adaptá-los ao contexto português. Desta vez lançou, com pompa e circunstância, um novo produto sobre a escolha do maior português, sempre através do voto democrático da população, em séries de eliminação e apuramento de uma base de cem personalidades. Quando se chegou à final (como no futebol) havia um conjunto errático de dez elementos, os quais foram estudados e tratados em filme, cada um por uma personalidade qualificada da nossa realidade sócio-cultural. E esse trabalho, com filmes dirigidos por cada um daqueles elementos, teve mérito e o debate final bem podia ser aproveitado para outras prestações.Mas o desnorte já estava lamçado desde há muito, entre votações assombrosas, enquanto os orientadores da TV insistiam que aquilo não passava de um entretinimento, de um concurso. Falou-se mesmo em passa-tempo. A verdade, contudo, é que não se brinca com coisas sérias. D.Afonso Henriques, Infante D.Henrique, D. João II, Vasco de Camões, Pessoa, entre outros, suportaram o serviço que lhes exigiam. Apesar do seu grande papel num país unido há muitos séculos e onde a escolha de uma personalidade que o nobilite, emblemáticamente, hoje a amanhã, não dever sair de um parto tão errático e tão acidentado. Enfim, a votação final do passa-tempo conferiu o primeiro lugar ao Dr. Oliveira Salazar, seguido de perto, em segundo lugar e curiosamente, pelo Dr. Álvaro Cunhal.As pessoas que acharam, por fé ou nostalgia, dever votar em Salazar são poventura as mais coerentes. Mas as outras que votaram, em hipótese perante o bizarro fenómeno, com o sentido para penalisar os governos desde o 25 de Abril, o próprio 25 de Abril, ou, quem sabe, por gostarem mesmo de voltar ao país dos «brandos costumes», devem sentir-se seguros da bondade da censura, da castração das ideias, de uma guerra em nome de um futuro pior do que sebastianista. Para os radicais até seria interessante rever uma viagem ao Tarrafal, eventualmente, com tudo pago e estadia por tempo indeterminado.Há quem pense que o resultado do famoso concurso, esta oferta de Salazar em bandeja de prata, é uma cínica brincadeira dirigida à Europa, um acontecimento histórico, passando a figurar nos livros de escola como exemplo de Portugal saber bem onde está -- com equidade perante os opostos, entre diferença e a semelhança.
quarta-feira, março 21, 2007
FOTO-FICÇÕES DE VICTOR BELÉM
homenagem ao poeta CAMILO PESSANHA |
Estas imagens correspondem a um género de pintura tecnologicamente inovadora, trabalhada pelo artista Victor Belém. Todas as obras da exposição onde se integraram estas peças se resolvia por completo com formas assim, que parecem decorrer de remotas memórias pop e psicadélicas, embora o autor tenha sido de raiz um experimentalista, irreverente na ruptura, perspicaz quanto ao meio e suas mimetizações. Victor Belém, pós dadaista, incandescente na provocação estética, produziu as mais diversas invenções, incluindo objecualismo e um certo abjeccionismo, misturando a pintura propriamente dita com o non-sense das formas, velharias, geminações absurdas, uma atenção crescente aos fenómenos sociais e políticos. A sua pluralidade edificadora haveria de marcar posições abertas a outros campos, fotografia, cinema, teatro, performance. A exposição, de valor itinerante, foi dedicada a Camilo Pessanha, poeta que Victor Belém admira, na justiça contra o esquecimento.
Camilo de Almeida Pessanha nasceu em Coimbra, em 1867, e formou-se em Direito naquela cidade. Durante toda a vida escreveu poesia, contos, crónicas, ensaios crítico literários e textos de carácter jurídico. Na sequência de um «desencontro» de amor, partiu para Macau onde se distinguiu em vários cargos e onde defendeu sempre os direitos dos estudantes chineses da zona. Republicano convicto, maçon, tendo mantido um contacto muito fecundo com o escritor Wenceslau de Moraes, partilha com ele convicções e afinidades intelectuais. Pessanha foi um sinólogo notável, traduziu poemas e lendas, tendo reunido uma extensa colecção de peças patrimoniais de relevo, colecção doada ao Museu de Arte Antiga e depois trasladada para o museu Machado de Castro. Dir-se-á que Pessanha foi um dos nossos poetas mal amados, mas nunca deixou de cumprir o seu destino cultural, vivendo um auto-exílio de trinta anos na distância da colónia a que se votou, ele que foi sem dúvida um notável sinólogo, traduzindo belos poemas e lendas, e foi também, porventura, o mais puro representante do simbolismo português, poeta da saudade, do país perdido, voluntariamente (mas sempre actualizado) exilado no Oriente._______________________________NB: a nota sobre Pessanha foi sintetizada de um dos textos do catálogo
domingo, março 18, 2007
A BELA E O MESTRE
Julgam os donos, directores e programadores das televisões que elas foram inventadas para se servirem a si mesmas e servirem a sustentação publicitária, fingindo, por outro lado, servir públicos néscios, incapazes de alguma adaptação ao vínculo cultural dos media, aos poucos produtos que são ricos de conteúdo humano e existencial, programas que aprofundam o ser do mundo e a estética da imagem. Pensam ao contrário, os donos das televisões. Habituaram-se ao contrário, os donos das televisões. Enquanto os programadores, com o aval dos Conselhos de Administração, copiam ou arrendam os mais reles produtos deste domínio. Anos e anos seguidos, nunca se passou disto, com heróicas excepções.A BELA E O MESTRE, novo programa da sacudida TVI, podia traduzir-se perfeitamente, no estilo das novas televisões, por GAJAS BOAS E O MONSTROS DA CULTURA GERAL. O país -- aquele país que por vezes acede à noção de equilíbrio psíquico e à solidariedade -- quase entrou em choque, apesar de bem habituado a cascatas de asneiras, ruído de horror para captar audiências em círculo fechado de publicidade. Como dizia uma pessoa minha conhecida: «a estrutrura desta merda é profundamente machista, eles rascas e falsamente sábios, elas boas e burras até ao infinito». Ali estão tendenciosamente vários casalinhos, um quarto de quatro estrelas **** para cada um deles. Casalinhos a fingir, cultura quanto baste, homens desencontrados das mulheres, luxo visual, europa para o lixo, apelo ao consumismo e à grandeza tipo pato bravo de três estrelas*** Leio que a «A Comissão para a Igualdade» estuda uma queixa contra «A Bela e o Mestre». Ainda há quem se indigne. Aquilo custa dinheiro aos montes e esta gente das televisões parece não se dedicar à invenção de programas, arrenda-os ou compra os direitos aos americano. A produção da Endemol é assim sugada pela Fox: concorrem jovens bonitas, mas (aparentemente) de grande ignorância, e rapazes deslambidos, embora (supostamente) debitando alguns cavalos de cultura geral. Juntam-se arbitrariamente, um casal por quarto, como se disse, comprometidos a estudar quem é o Fidel de Castro ou se o Infante D. Henrique era espanhol. Fazem umas provasinhas físicas, sempre bestas e indignas, e assim é suposto que cada casal «evolua» em «competitividade», num complicado sistema de votos, nomeações e expulsões (como sempre) a fim de o escolhido no termo do programa ganhe 100.000 euros. A imoralidade e a estupidez por bom preço, o país aparvalhado, gente a protestar. E um membro do júri residente acabou mesmo por desabafar: «não há pachorra para o tipo de estereótipos veiculados pelo programa». Várias «associações femininas» e outras personalidades de respeito consideram o programa prejudicial a vários níveis, pois «humilha as concorrentes física e intelectualmente, partindo do eterno estereótipo da mulher burra e do homem inteligente, da oposição entre beleza e inteligência».
sexta-feira, março 16, 2007
O ESTILO E A PETULÂNCIA
A par do «menino Aníbal», Constança fala do «menino Zezito» e esforça-se, com mal disfarçada petulância, em descarnar toda a história deste primeiro-ministro não predestinado que desde novo não se lhe descortinava uma ideia, algo que o distinguisse, um esforço, «uma proeza académica ou profissional». O bacharelato no ISEC será uma coisa menor, de duvidoso valor, aliás como essa «obscura licenciatura» completada vinte anos depois. Sócrates aportara entretanto aos caminhos da política e acompanhava Guterres (senhor que parece estar igualmente votado à menoridade, a vários títulos, pelas Constanças do snobismo intelectual que atravessa a comunicação social portuguesa). Por ela se soube ontem que Sócrates «em 1987, depois de se ter enfiado no sótão do eng Guterres e numas intrigas de maior alcance, chega finalmente ao Parlamento, onde viceja discretamente durante os anos do cavaquismo». O fio de fel e de desprezo continua durante mais alguns parágrafos semelhantes, rotulando Sócrates de «estadista de última hora» e outras coisas não menos ofensivas.Chama-se a isto encher de lixo e má fé o «espaçopúblico» do jornal. Constança, cujo curriculum deveria vir sempre anotado em rodapé, terá de procurar fazer-nos o favor de trabalhar um pouco mais à clara luz do dia, porque, em termos de jornalismo com bacharelato e/ou licenciatura, a senhora carece de autoridade ética para dar prioridade, e nestes termos, à história comum de uma hora a montante, com omissões peculiares, da vida do primeiro-ministro, desconsiderando o jornal e o seu verdadeiro público, pois nem todos os grandes estadistas foram predestinados, doutorados, rangentes de luta, chefes precoces em associações políticas, eventualmente recheados à francesa ou num estilo anglo-saxónico, linhagem superior a montante, republicanos e laicos a jusante, sob a espuma dos dias após vinte e cinco de Abril de 74.Será melhor, minha senhora, que se dedique a trabalho mais útil e menos redutor, deixando de sujar as mãos em coisas de cordel. Imagine que o primeiro-ministro tinha um pequeno defeito congénito no polegar esquerdo: isso seria assunto para encher a sua coluna, falando de disfuncionalidades orgânicas da ordem da predestinação e dos requisitos mínimos exigíveis a um homem de Estado? É claramente aconselhável abordar teses do domínio da tecnologia avançada e da necessidade da cultura. Preferir o trajecto do debate de ideias, as suas, minha senhora, e as do próprio Sócrates, sem contribuir de forma jornalisticamente redutora para diluir o perfil genuíno da nossa cidadania. Deixe lá as cores políticas, as emblemáticas dentadas de falso humor nacional, e debata a problemática desta civilização que sufoca no próprio crescimento, só crescimento, e perante a qual não nos ocorre dar espaço de emergência a verdadeiras alternativas de trabalho, aos conceitos de ordem social, inquirindo se as actuais vias de «desenvolvimento» apontam para novos objectivos, colocando ao governo as devidas equações de uma real inovação dos meios e dos modos. Ao contrário dessa linha, e alheia à relação entre as políticas a médio e longo prazo perante o próximo glaciar, o seu texto foi manifestamente conduzido com o fim de minimizar de forma literal o primeiro-ministro, personalidade que, seja como for, mostra uma certa qualidade inventiva no quadro do processo em que o país se inscreve. Ora ao público em geral, isto importa muito mais, saber dos eventos positivos, questionar o quadro da globalização, apreciar o primeiro-ministro nos limites que herdou e dentro dos quais procura, um pouco artesanalmente, alinhar as coisas por uma ordem de melhores perspectivas.
É do nosso interesse, de futuro, cuidar melhor da sua máscara.
quinta-feira, março 15, 2007
«OFERENDA ESQUECIDA» JORGE PIMHEIRO
terça-feira, março 13, 2007
A QUE CHAMAMOS PAZ?
Arundhati RoyEsta mulher cujas ideias se regem pelo lado mais avançado da consciência humana, foi galardoada com o Prémio da Paz de Sydney. Ao aceitá-lo fez questão de assumir a sua condição de escritora, demarcando-se de falsas virtudes, de movimentos de massas e daqueles que são nomeados como «os sem voz». Arundhati aponta para os que são deliberadamente silenciados ou, talvez de outra forma, não ouvidos. Ao receber o prémio disse que o fazia, sem acenar com a bandeira dos despossuídos ou impotentes, como a expressão de solidariedade da Fundação da Paz de Sydney para com uma certa visão do mundo que milhões de nós, um pouco por toda a parte, subscrevemos.«Está ficando cada vez mais claro que a violação dos direitos humanos é uma parte inerente e necessária do processo de implementação de uma estrutura política e económica coerciva e injusta no mundo. Crescentemente, as violações contra os direitos humanos são mostradas como falha ineliz, quase acidental, de um sistema polítco e económico que, de outro modo, seria perfeitamente aceitável. Como se essas violações fossem um pequeno problema que pode ser varrido do mapa com um pouco mais de atenção da parte de algumas organizações não governamentais. À medida que a batalha pelo controle dos recursos do mundo se intensifica, o colonialismo económico, por meio da agressão militar oficial, ensaia uma volta à cena. O Iraque é a culminação lógica do processo de globalização corporativa, no qual se fundiram o neocolonialismo e o neoliberalismo. Se pudéssemos espiar através de uma fresta da cortina de sangue, vislumbraríamos as impiedosas transações que ocorrem nos bastidores»Extractos da palestra deita pela escritora indiana Arundhat Roy ao receber o Prémio da Paz de Sydney 2004.O original pode ser encontrado emhtto://www.planetaportoalegre.net/041125_2.htm.
quarta-feira, março 07, 2007
DO ESQUECIMENTO AOS LEILÕES DE ARTE
Esta imagem corresponde a um leilão de arte, no qual, perante uma grande tela de Sousa Lopes, as cabeças do público parecem (maliciosamente) integradas na pintura pelo fotógrafo. Há quem considere que os leilões de arte constituem um modo de redistribuir muitas obras plásticas pela sociedade. Ora todos sabemos o que se passa com as «indústrias da cultura» e a hipocrisia, disfarçada de falsos saberes e tráfico de influências, actividades que enlameiam os mercados desta área. Em boa verdade, os leilões permitem que os ricos vendam obras a outros ricos ou que alguns «nobres» em decadência passem o seu património cultural a meia dúzia de milionários. A peça que vemos na imagem tem as dimensões de 2,72 por 3,54m. É uma pintura a óleo, com um tema de festas religiosas, e foi vendida a um particular, para espanto de muitos, por 125 mil euros.Quem era Sousa Lopes, afinal? Um pintor que nasceu em Leiria, no ano de 1897, e veio falecer 65 anos depois, em Lisboa, durante 1944. Como outros do seu nível, por vezes surpreendentes, é tratado com alguma negligência. Anísio Franco, historiador de arte do Museu de Arte Antiga, entende que Sousa Lopes «é conhecido da história da arte, mas tem sido pouco estudado e mostrado». Maria Aires Silveira, conservadora do Museu do Chiado, anota que, apesar de tudo, «não se pode dizer que o pintor seja pouco conhecido. A verdade é que não tem havido grandes exposições e é natural que o grande público não o conheça. Mas não é uma figura desconhecida»». Estas impressões, obtidas de uma reportagem do jornal Público, deixam-me estupefacto. Afinal quem conhece ou não conhece Sousa Lopes? Como se pode falar desta forma de gente cujo trabalho foi longo e fez parte de uma área em geral pouco acalentada pelo país, sobretudo pelos governos e pelos próprios museus? E agora, emergindo do quase esquecimento, uma obra desta autor, «A Procissão», é vendida por 125 mil euros, o que produz algum desconforto. «Não sei o que dizer», considera Aires Silveira: «Esta obra pertence à linha de um naturalismo tardio, muito próximo das peças de Malhoa. É muito ensolarada, com um jogo de sombra e luz muito marcado. Mas está dentro do naturalismo de tendência folclórica. Trata-se de um tema bem ao gosto português. Teve muito sucesso e foi muito apreciada pelo público da altura». Mas os conhecedores desta matéria continuam sem explicar o montante atingido pela obra. A conservadora do Museu do Chiado, embora «não saiba o que dizer», pensa que talvez as largas dimensões da pinturam possam abrir algum indício revelador. «Deve ter-se em conta que é uma obra de grande dimensão. Aguenta-se bem na grande dimensão».Estes comentários são verdadeiramente ensurdecedores. Anísio Franco solta-se: «Inexplicável? Não é nada inexplicável. É uma bela peça para uma obra de Sousa Lopes. Têm surgido poucas obras de arte à venda; por isso, no contexto do mercado de antiguidades português, é explicável!»E assim vão as coisas das artes e dos mercados, o desentendimento dos naturalismos tardios e coisas assim, mesmo quando toda a gente sabe (nas esferas administrativas) que não houve em Portugal, durante décadas e décadas, até por snobismo, uma vasta retrospectiva de obras de autores deste género, com Malhoa e tudo, por forma a se estabelecerem melhor as verdadeiras grandezas. Importaria saber se outrora o público respeitava e visitava, como se insinua, um Sousa Lopes ou um Malhoa. Pelo menos para se perceber melhor os estímulos «milagrosos» que levaram multidões a esperar horas e horas para puderem ver e deificar Souza Cardoso. 11 Adaptado, quase ficcionado, de uma reportagem de Teresa Firmino publicada no Público de 7.03.07
quinta-feira, março 01, 2007
O REAL DENTRO DO HIPERREAL
pintura mural, de grandes dimensões em espao urbano nos EU |
O enquadramento usado para realizar esta fotografia apoia uma espécie de desafio a este colossal trompe l'oeil na parede cega de um grande edifício, em ponto urbano, nos Estados Unidos da América. O efeito é poderoso, ainda que discutível em terms estéticos. Seja como for, aqui podemos confrontar-nos com os problemas da percepção visual e o modo como ela pode relacionar-se com um real inevitavelmente ambíguo, movente, e nunca susceptível de ser completamente apropriável através dos nossos meios naturais. É caso para se pensar, com ironia, que os carros pertencem à pintura, em primeiro plano, fingidamente áquem do maciço rochoso. A verdade é que, embora o afastado bloco rochoso pareça gigantesco na distância aérea, ele é apenas uma pintura que se ergue, a prumo, feita numa imensa empena que se ergue a não mais de um ou dois metros da parte da frente dos carros. Tal ensaio coloca-nos de facto os habituais problemas da percepção visual, da aparência e da realidade, numa relação perturbadora com o poder e a fragilidade da representação
quarta-feira, fevereiro 28, 2007
UM OLHAR RANGENTE SOBRE O MUNDO
No domínio dos eventos artísticos, na destruida (pelo fogo) Galeria Nacional de Arte, margem direita do Tejo e resto da Exposição do Mundo Português, devemos lembrar a apresentação antológica de Wolf Vostell, que se revestiu da maior importância e permitiu aos artistas modernos deste país arriscarem posições interventivas por vezes de mérito muito assinalável.
Vostel, exprimindo uma violenta avaliação do mundo em volta, ou mesmo do nosso estado civilizacional, usou a performance e a instalação como quem arremessa à terra formações absurdas de cimento ou como quem recupera, dos lixos e dos lagos pôdres, todos os graffiti de grandes ecrãs de alvenaria, mostrando alegorias herméticas, velhas reconquistas da primeira Idade Industrial e dos seus perversos efeitos colaterais. Para além disso, e de marcas monumentais que imprimiu ou cravou nas encostas de uma via férea, ultrapassou as grandezas da memória pela reconjugação de restos, cemitérios do ferro e das latas vazias, desmontando, com ironia e horror, a sociedade de consumo: um carro cercado por pãos atados uns aos outros, como a muralha da forme ou contra os agentes dela. A instalação das portas dos carros, motorizadas para se abanarem ou estremecerem, é das suas invenções mais orgânicas e mais temíveis: o ruído das portas sugere a substituição insubmissa das orquestrações brutais, metálicas, enquanto a par disso, ou noutras pesquisas pela fotografia, Vostel imprime à imagem certo peso coisal, referência aos desastres principais, esmagamento de pessoas e dos sonhos no indecifrável desabar das humanas construções de ferro, aço, cimento, sangue oculto na permanência dos cadáveres dos escombros, gritos vindos de lá e de súbito conceptuais, teoricamente numeráveis
segunda-feira, fevereiro 26, 2007
O CUBANO, ZOOLOGIA E KAFKA
sábado, fevereiro 24, 2007
O CUBANO
Este homem aponta o dedo direito à cabeça, como se ameaçasse suicidar-se, desgraçar os outros ou afirmar a sua grande sabedoria. João Jardim, governador da Ilha da Madeira concorre com outro homem de forte permanência, Fidel de Castro, presidente de Cuba. Curiosamente, o Jardim de certa maneira homónimo do cubano Fidel, não se coibe de chamar cubanos aos seus concidadãos do Continente (Contnente, segundo o peculiar português de João, o construtor).
Habituado a desenvolver o seu território com verbas europeias e os milhões do governo português, Jardim, ao saber da nova lei das finanças regionais, berrou quanto pôde, chamando nomes banais a esta gente de cá -- aldrabões, sacanas, incompetentes, merdas, lacaios, e assim por diante, mais ou menos para pior. Ele não quer compreender que, tendo a Madeira atingido o tecto per capita europeu, deverá ajudar as outras regiões na difícil poupança que têm de realizar.Pois saibam então que Jardim, não podendo vingar-se de outra maneira, demitiu-se e faz convocar eleições para se pebliscitar, uma vez que os madeirenses concordam em geral com a sua sacralização e mais tempo no poder. Nem em Cuba, apesar do recente precipício. Jardim podia, mais acertadamente, dedicar-se à jardinagem e deixar que outros corriijam os seus erros: abarrotou o navio de coisas, ilha em risco de naufragar, mas não o tornou os passageiros capazes de se alimentarem a eles mesmos, livres de tutelas e empréstimos.
segunda-feira, fevereiro 19, 2007
A PALAVRA E O RITMO
___________________________________________A ideia de que se vive numa civilização tecnológica, com grande incidência na imagem, corresponde aproximadamente à realidade que nos rodeia e às concepções estruturantes dos meios operativos disponíveis. O paradigma do tempo encurtado, de uma espécie de urgência em queimar etapas, em vencer cada vez maior quantidade de obstáculos, alcançou grandeza desmuserada sobretudo a partir da «revolução industrial», na presumível necessidade de crescer, de crescer muito, rasgando-se vias de comunicação e unidades fabris de larga escala. A concentração imediatista em torno das matérias combustíveis, madeiras, carvão, derivados de produtos fósseis, apontou, apesar de todos os investimentos necessários, no sentido de muitos caminhos facilitistas, e dassa forma acelerou os processos de produção, concentrações urbanas, novas exigências, abuso do trabalho em massa, desmultiplicação intensiva, enfim, de objectos com as mais diversas características e funções. Do fazer artesanal, e quase bruscamente, passou-se para a produção em série, desde os utensílios mais comuns aos primeiros automóveis. Tudo isto veio alterar as estruturas sociais, a ocupação e ordenamento do território, a velocidade das deslocações e tratamento de projectos, a própria escrita quotidiana ou comercial com o advento da máquina de escrever. Sob o impulso do teclado, a ordem linguística estabelecida teve de adaptar-se a imperativos temporais, consoante os ramos de actividade e um certo sentido alucinatório para cumprir uma melhor e mais rápida resolução na troca de informações Esta realidade, como aparentemente não podia deixar de ser, florescia num grande número de frentes. A escrita iniciada por cada um de nós, à mão ou com máquina, passou a documentar um oceano de iniciativas, entre a edificação urbana, os polos industriais, comerciais, de serviço e ainda redes de contacto capazes de acelerarem as aprendizagens e a cada vez maior complexidade da vida humanaAlguém me dizia há dias que o destino das palavras manuscritas tinha os dias contados. Dantes havia o ritmo da escrita, procurava-se o ritmo e a vida quase autónoma da palavra, quer através dos mais diversos tipos de canetas, quer no perfeccionismo resultante do uso de máquinas electrónicas. Hoje o computador engole tudo, alinha tudo, caligrafia, temperamento gráfico, vitalidade das palavras. A palavra dexou de ser uma afirmação de gosto e ritmo, tornou-se inerte e funcional.Não penso assim. Desde logo, a palavra é agente estruturante e estrutural de várias linguagens: olhada ou falada, é intrinsecamente ritmo.Cada palavra, feita de caracteres e sílabas, forma um corpo melódico, sacudido ou ondulante, é espaço de notas, frase ela mesma, frase com outras em racord de som e sentido. É arte. É a invenção que salva o homem do silêncio, da solidão e da mudez do cosmos. O ritmo dessa articulação criadora de sentidos faz parte das artes e do comportamento. E, em boa verdade, não existe expressão (comunicação) sem os encaixes dos meios e dos modos, entre o pequenino seixo rolado no rio (a coisa) e as mitologias que vamos tecendo em jeito de tapeçaria. O seixo rola, bate nos outros, em movimento e som, enquanto os dedos dedilham a teia do tear e batem a lã, em baixo, com um largo pente de ferro. São palavras (que reconhecem as coisas e as nomeiam) ou que se descrevem com outras, simulando o bater nas pedras e no cume da tecelagem. Os mudos e os surdos ouvem melhor essas palavras do que nós, a cada gesto pensando adjectivos. Aliás, e para os nossos companheiros que perderam a audição, a fala gestual, indiciando situações, ilustrando realidades, exprimindo conceitos, são bem a alma rítmica das plavras. E o mesmo acontece com o bailado doce dos dedos dos cegos lendo em silêncio, por sistema Braille, palavras umas após outras e vendo através dessa textura.E não nos esqueçamos: a palavra, pelos significados que desperta e pelo ritmo que modela, tanto no sentido caligráfico como na conjugação das sílabas, é inerente à criação artística em vários níveis. Não há construção das artes, nem das que contêm o tempo como sua estrutura ou o sugerem, sem a palavra, base civilizacional.
QUEM SOMOS NÓS?
Esta imagem corresponde a uma pequena parte do Universo, situada a milhares de anos luz de distância. Algumas destas fotografias que a Nasa publica na Internet são o resultado de um grande desenvolvimento tecnológico e obtidas através de sondas que se deslocam no cosmos, enviadas pelo homem, ou por esse instrumento fabuloso, colocado no espaço, o Hubble Space Telescope. Este aparelho tem permitido penetrar nas camadas mais profundas do espaço, entre milhares de galáxias, fotografando fenómenos nunca vistos anteriormente e abrindo janelas de conhecimento inimagináveis há relativamente pouco tempo.
terça-feira, fevereiro 13, 2007
ARTE CONTEMPORÂNEA PORTUGUESA
Rogério Ribeiro nasceu em 1930, em Estremoz, e frequentou a Escola de Artes Decorativas António Arroio. A sua formação inicial desenvolveu-se na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, agora Faculdade, onde o artista, como docente de design, prestou relevantes serviços científicos, didácicos e pedagógicas, aliás na sequência da reforma implemnentada por docentes e alunos, além de muita documentação recolhida e coordenada por um dos grupos de trabalho. Isso aconteceu, naturalmente, depois do 25 de Abril de 74 e permitiu convencer os renitentes governantes de que a arte, além de sedimentar e caracterizar uma civilização, é indispensável, a nível superior, para a identidade dos países em que se consolida.
segunda-feira, fevereiro 12, 2007
1 * 2
____________________________________________A imagem à esquerda (1),dinâmica, é idêntica a muitas outras que corresponderam a uma procura adequada ao neo-realismo. A massa das mondadeiras aglutina-se em vários pontos, e há sem dúvida a sugestão de uma forte dobragem da coluna, hastes, espigas, membros em acção. Esta busca era efectivamente difícil no neo-realismo pictórico, expressão que noutras latitudes adqiria a forma de Realismo Social. O problema complicava-se pela falta de uma iconografia apropriada, pelo que o esforço divergia com frequência para uma figuração retórica. Rogério Ribeiro foi um dos maiores inventores do campo imagístico neste domínio, capaz de juntar a luta e o movimento à permanência de um certo realismo na modernidade.Na imagem 2, à direita, (mulher amanhando o peixe) a evolução formal, entre o despojamnento e a textura, não desdiz o realismo e até a temática, como se viu no célebre quadro, de Pomar, O Almoço do Trolha.O neo-realismo é uma criação do pós-guerra e das expectativas democráticas então geradas. Longe A imagem 1, em cima à esquerda, é idêntia a muitas outras, tratando temas socias, com força e com de ser um fenómeno português, esta poética integrou a pintura de países como a França e a Itália, sustentada pela força dos partidos comunistas da região. O seu vínculo artístico aportava sobretudo à literatura: a imagem acompanhava com dificuldade, como é natural, esse universo. O realismo social adequava-se ao lirismo português, mas a expressão neo-realismo, adoptada entre nós, emergia como arte de combate social e político, oposição ao regime vigente em Portugal, embora as obras não tivessem a dureza académica do realismosocialista petrificado na União Soviética. A imagem da mulher furta-se, apesar da sua verticalidade, à mitificação e lembra mais as soluções muito hábeis de Portinari
quinta-feira, fevereiro 08, 2007
COLUMBANO REVISITADO
- Columbano Bordalo Pinheiro, nascido em 21 de Novembro de 1857, há 150 anos, estará entretanto em exposição no Museu do Chiado. Este é um momento exemplar para revisitar o grande artista, irmão do inesquecível caricaturista Rafael Bordalo Pinheiro. Numa poesia aberta à chegada de Columbano de Paris, o humorista Rafael prestou homenagem ao artista, e de tal sorte certeiramente que a si própro fez um retrato de Zé-Povinho, indiciando profeticamente o sucesso do irmão como pintor, homem que efectivamente marcou de forma renovada a pintura naturalista portuguesa.
- A exposição do Museu do Chiado (Fevereiro 2007) apresenta obras pouco vistas ou talvez nunca reveladas, mas isso mais acentua a importância das prospecções aos patrimónios que recolhemos e Columbano resulta muito do modo como ele soltava ou justapunha manchas cromáticas, numa representação que sabia não estar a copiar o visível, antes o interpretava com rigor e inquietação plástica.Na época em que regressou a Paris, e embora na altura o impressionismo estivesse em voga, Columbano apreciava mais a pintura holandesa do século XVII, a luz dramática, a coesão tonal da matéria pictórica.
- Columbano foi um autor polémico, na razão da sua técnica inusitada, mas a história não o injustiçou. De resto, em meados do século XIX, ele mostrava um interesse fundado pelos avanços da modernidade, experimentando novas formas, sem perda de coerência e da sua identidade estética. Nesse tempo, Columbano chegou a enviesar as regras, frontalidade e pose, por exemplo, como acontece numa espécie de instantâneo visível em baixo, na figura mais pequena - «A Luva Cinzenta». A senhora é representada um pouco como se estivesse distraída, de lado, acto ocasional que a fotografia haveria de explorar profundamente.
- Columbano pertencia a uma família numerosa, que o pai regia em bom termo, e mostrou-se muito cedo verdadeiramente dotado para as artes. Devido ao seu empenho e à qualidade da sua produção, o artista terminou um curso de sete anos em quatro. A breve trecho participa nos salões da Sociedade Promotora das Belas Artes.
- Com a decisão de um mecenas, Columbano obtém uma bolsa de estudo. Paris, o contacto de aprendizagem com Manet e Degas, tudo isso faz com que o pintor evolua. Aliás, também ele tinha talento para conseguir as influências do meio, sobretudo em Lisboa. De novo em Lisboa, em 1883, o artista acabou por agitar o meio intelectual, entre expectativas e rumores antecipados: estava de volta ao Leão de Ouro e aí, intrigando os que nada ainda podiam ver, realizou um provocador retrato colectivo, juntando personalidades importantes, provocando mais (e as habituais) polémicas.
- A sua obra está espalhada por diversos locais, no país e no estrangeiro, marca a própria Assembleia da República, enquanto o contacto com o século XX lhe trouxe o começo de um declínio nas apreciações, sem deixar de ser reconhecido como um artista de referência. As lutas em torno das Escolas de Belas Artes prejudicaram o clima entre os artistas, e de resto o público das tertúlias já nesse tempo operava pareceres bastante obtusos. Como nos nossos dias, congenitamente, diga-se a verdade.
- Por mim, penso que Columbano Bordalo Pinheiro é uma das personalidades mais marcantes da nossa pintura. Bem se poderia (ou deveria), para além desta e da próxima exposições, reestudar Columbano, a época e a sua obra, agora certamente com a independência e procurando reconhecer o seu modo especial de anunciar a modernidade. É perfeitamente patético o que o pintor escreve a Francisco Vilaça, em 1885, depois de referir que guardava tudo no seu quarto, revendo mais tarde o trabalho do dia: «Sozinho, em silêncio, faço então a exposição, para mim, dos meus próprios trabalhos e assim passo bons bocados a admirá-los. Hei-de acabar, creio, por ser o único admirador da minha obra». 1
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1. Texto apoiado na notícia da exposição por Sílvia Couto (VISÃO), Academia de Belas Artes e Dicionário da Pintura Portugusa, Ed. E. Cor



