segunda-feira, janeiro 21, 2008

UMA CERTA IDEIA DO BELO


centenário do autocrome Lumiére
1904-2004


As primeiras fotografias a cores foram realizadas em França, no ano de 1860, mas os seus procedimentos técnicos mostraram-se imperfeitos e ineficazes. Os irmãos Lumière, inventores do cinema em 1895, apresentaram no início do século XX, 1904, a placa de vidro Autocome. O processo técnico imaginado implicava espalhar na superfície milhões de fécula de batata, regularmente tingidos de vermelho, verde e azul, três cores básicas associadas a uma superfície sensível. Assim se obtinham clichés positivos transparentes, dos quais resultava uma imagem luminosa e natural ainda que projectada num suporte de papel opaco. Como na pintura pontilhista, era a mistura óptica optida pelo olhar, na sua globalidade, que gerava o efeito cromático próprio da fina delicadeza destas fotografias. A comercialização em 1917 da fotografia a cores envolveu os fotógrafos de forma imparável, sobretudo a partir de 1910. o Autocrome ganhou posição sem verdadeira concorrência durante trinta anos, até ao aparecimento de películas de cor que substituíram aquele frágil diapositivo de vidro.
As fotografias aqui apresentadas estão bem distantes do original nas placas de vidro, quer pela transposição efectuada, quer pela acção dos agentes exteriors, além de que o tempo desfez a frescura das cores iniciais. A sua recuperação por Jean-Paul Barruyer passou por um difícil e laborioso registo. Mas é preciso verificar que, assim mesmo, as imagens nos subjugam ao primeiro olhar. Pode imaginar-se uma ligação entre elas e a pintura, uma analogia de espírito poético, algo que suscita a memória de quadros dos grandes mestres impressionistas, Claude Monet ou Auguste Renoir, por exemplo. A realidade artística acabava, por assim dizer, de pulverizar a figura das representações tradicionais, numa espécie de lição de humildade. Sem deixar de acreditar nos aperfeiçoamentos dos actuais aparelhos, apesar dos seus abundantes argumentos comerciais, é preciso ter em conta a primeira e última objectiva, o olho em cada olhar sobre as coisas, e reparar na massificação deste meio de expressão, a sua acuidade criativa a perder-se entretanto no irremediável aproveitamento para usos reducionistas do consumo, a perda de muitas sensibilidades sobre o visível. O exemplo destas obras, sem esquecer os casos próximos do grande apuramento dos meios modernos, arrasta uma espécie de paradoxo com elas: o facto da sua beleza se tornar de novo actual, mesmo sabendo quanto é difícil aceitar que temos aqui os derradeiros testemunhos de um outro mundo, aquele que iria desaparecer sob um dilúvio de fogo e de sangue, entre uma vaga ideia de ressurreição que continua a alimentar a nossa emoção estética.
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texto adaptado da nota que antecede a publicação das fotografias em meio virtual

quinta-feira, janeiro 17, 2008

MEIA LUZ AO FUNDO DO TÚNEL

Miguel e Daniela encerraram temporariamente
os seus blogues, ambos usando como última prestação
imagens de túneis futuristas.
Ofereço-lhes este, menos moderno, mas categórico.

domingo, janeiro 13, 2008

FUMOS DE UMA AUSÊNCIA PEDAGÓGICA


Portugal dispõe finalmente de uma lei antitabaco, lei 37/07, o que, numa primeira leitura, parece ter feito entrar o país para o clube dos mais civilizados. Isto significa, pelo menos, que cerca de dois milhões de portugueses viram um certo direito de escolha devidamente redireccionado em nome da preservação da saúde, que é o que deveria acontecer exactamente noutras áreas desse bem precioso, nos Hosapitais ou Centros de Saúde, no cuidado dispensado às mulheres grávidas, removendo-as, na altura crítica, para lugares mais afastados da sua residência mas dotados de médicos e instumentos com a melhor das cotações, resposta de excelência como se está a proceder com os atendimentos de urgentes. Varrendo o país interior, o país desolado, o governo saldou equipamentos obsoletos e situações geográficas pouco abonatórias do interesse profissional. Por vezes ainda na Idade Média, o governo, mais vagaroso na criação de alternativas, tende a implementar rapidamente certas iniciativas, tornando outras de novo lentas, quarenta anos para decidir o lugar de um novo aeroporto, décadas para renovar as estruturas da educação, tanto no suporte físico e instrumental como nas anunciadas agilidades do suporte pedagógico, um século a fim de salvar uma simples parede de patrimónios superiores. Mais rápido na distribuição de computadores, é certo, cuja utilidade ninguém desmente, mas também perigosos se demasiado monopolistas dos prazeres do estudo.
Voltemos aos cuidados anti-tabágicos, aterradores, a título de exemplo, para muita gente dedicada ao domíno da restauração, instalações exíguas para a partilha imposta e maquinaria correspondente, incapazes de competir com vizinhos mais poderosos e em largo desfavor perante os lugares do privilégio, como já se pode observar nos casinos ou casos semelhantes. Não se está, por esta observação, aliás mínima, a contestar a bondade de uma lei para refrear este flagelo. Mas há aqui um garrote demasiado intolerante e que certamente provocará manias denunciantes, entre outras coisas de má memória. Aquela famosa flexibilidade que os empresários sempre reclamaram para a lei do trabalho não parece ter sido levada em conta no caso presente. Flexibilia-se o modo de poder fumar ou flexibiliza-se o despedimento, encerrando a fábrica às escondidas, em plena impunidade?
Um português que passeava na 5ª av. de Manhattan, em New York, havia começado a puxar as primeiras doses de fumo de um cigarrito matinal quando foi abordado por um americano que caminhava atrás de si. O americano, ligeiramente enfurecido, queria sacudir-lhe o cigarro dos dedos e dizia que estava a ser icomodado com a chaminé lusitana. O português, senhor bem apresentado e de cultura muito acima da média, explicou ao cow-boy que as restrições sobre o fumo não incluiam as avenidas arejadas da cidade, a tanto não chegara a burrice dos legisladores que deixavam passar massas de carros nesses mesmos sítios, produzindo milhões de vezes mais gases tóxicos. O fundamentalismo leva-nos muito longe, quer em certas iniciativas, quanto à sua própria prioridade, quer na aplicação rasteira e ruidosa dos efeitos pretendidos. O problema é delicado e por isso deveria ter sido tecnicamente encarado com mais parcimónia, trabalhando de forma faseada, regulando muito bem as excepções e o seu confronto com outras animalidades perigosas: o que a suinocultura produz nos rios, um pouco por todo o país, as toneladas de CO2 que poderiam ser minimizadas se as indústrias que as produzem fossem coagidas a começar o seu trabalho desde logo munidas dos equipamentos necessários. Tudo isto já acontece desde os primórdios da industrialização, quando a tecnologia era demasiado afim, mas hoje sabe-se como resolver a maior percentagem desses casos bem típicos das grandes metrópoles e até fora delas, na própria agricultura ou puericultura.
«A liberdade -- escreveu Sousa Tavares -- é assunto de todos e demasiado sério para ser confiado a dois directores-gerais que ninguem elegeu e cuja autoridade para decidir como é que devemos viver não reconheço». Sousa Tavares, certamente fumador, estava indignado ao escrever estas e outras coisas, cujo suporte está certo mas o enquadramento errado. É necessário combater o tabagismo, sem dúvida, mas vale a pena pensar que a cidade não precisa criar «salas de fumo» assistidas, em certas situações mais difíceis, à semelhança do que se pensa fazer com outro vício (das drogas duras), aí talvez mais compreensível. A tolerância é tanta, em tal área, que até se fornecem seringas, liberdades públicas, sem que se veja uma campanha verdadeiramente prioritária para desmantelar os traficantes de droga, grandes e pequenos, já que as sublimes pedagogias do bon senso não chegam a parte nenhuma. Algo de semelhante se pode reclamar em ordem aos vícios derivados da pobreza extrema, dependências de mendicância, bebida, violência maníaca e outros desconfortáveis espectáculos da sociedade de consumo, nomedamente sob a égide de um capitalismo selvagem. Chamem a ASAE para junto das transnacionais da alimentação hiper-poluente, a qual matará mais, porventura, do que o velho tabaco. E tratem de outra imundície que desfaz igualmente a saúde: as falhas do próprio Sistema de Saúde. O estrangulamento pânico das unidades, em geral e por especialidade ou urgência, é tão transtornante que apressa os efeitos da doença, como se viu em Cascais, um pandemónio que nem dois maços de tabaco sorvidos de seguida aplacariam.
Inês Poderosa tratou este assunto na sua última crónica, «Fumos de Intolerância». Apanhada pela avalanche de medidas, convencida da liberdade que lhe assiste desde que respeite os problemas alheios, tratados a tempo e com tempo, ela blasfema: «E agora que os fumadores são olhados como proscritos sociais, não vou mesmo eixar de fumar». E mais à frente: «Se os fumadores portugueses manifestarem a união e a força que manifestaram os espanhóis, muitas empresas de restauração acabarão por rever a sua política de investimentos. Ninguém me encontrará em alguns desses cafés, bares e restaurantes que quiseram gastar dinheiro em sistemas de ventilação para acolher os fumadores. Mesmo que deixasse de fumar, boicotaria esses locais de segregação. Por uma questão de princípio»
Estão a ver? Era o que dizia atrás: o redil em que metem muitos fumadores de menor sentido de obediência pode gerar frases destas. De facto, Inês Pedrosa, por princípio, deveria pensar também nos delicados frequentadores de cafés e restaurantes que não são fumadores e sofrem os efeitos das liberdades dos outros, próximas e distantes. Há maneiras de legislar neste campo. Há processos de facilitar os que até gostarão de aproveitar a onda. Mas, nestes termos, o tsumani acabará com muita coisa aprazível e lesará muitos cidadãos de boa vontade. Ouve-se falar disso: a voz de senhores senhoras que, entre jamais, jamais, dizem com esperança que até vão aproveitar: talvez esta onda proibicionista lhes facilite encontrarem forças para cortar com o tabaco.
Bom seria, no mesmo sentido, que as palavras menores dos políticos, insultos, discussões por questões insignificantes, tudo isso a espalhar-se em espuma suja pelo nosso espaço, sofresse também o impacto justo, a prumo, de uma lei vanguardista.


fotografia (no positivo) publicada no Diário de Notícias

sexta-feira, janeiro 11, 2008

O TUFÃO DA BARBARIDADE

foto de Yasuyoshi Chiba AFP


Nairobi, lugar de todos os horrores. Noirobi, símbolo tardio de uma derrocada de sonhos, morte anunciada, segundo os mais cépticos, do próprio continente africano. Num tribalismo da dilaceração e da irracionalkidade, Luos e Kikuyos destruiram a este ponto muitas favelas da cidade, provocando a alucinada fuga dos turistas. Um tufão da barbaridade, o resultado da sua passagem deixou atrás de si um arrasamento completo de lugares precários de habitação, aliás como noutras cidades que foram submersas numa vaga de terror e caos. A ferocidade do confronto tribal legitimou toda a espécie de armas, com tradução em brutais actos de violação de crianças, raparigas, mulheres Kikuyos; o afrontamento fou completado pela morte e centenas de pessoas, embora muitas tenham sido socorridas ns hospitais, sobrevivendo precariamente. Apesar de tudo, a pressão internacional levou Kibaki a anunciar que aceitaria um governo de salbação nacional, paradoxo das maiores impossibilidades, aliás saída que Odinga rejeitou, não por razões superiores, mas por considerar que o Presidente foi ilegalmente eleito.
Quando ouvimos a cantiguinha dos nossos políticos em volta de pequenos problemas de linguagem, de troca de escolhas, da própria clarificação sobre a zona para o novo aeroporto, perguntamo-nos, perante o tufão da Nairobi, que país é o nosso, assim tão floreado, sem projecto, resmungando deliciadamente nas tabernas, nos jardins e na Assembleia, a melhor maneira de estar contra, mesmo que o tema seja uma simbólica ida a Fátima não cumprida?

A PEDRA, LUGAR DE AFECTOS

fotografia de Luis Lages
Numa hora em que, pelas mais diversas pressões, enfrentamos um permanente fio de notícias trágicas, aterradoras, esta fotografia de Luis Lages (Moçambique) alerta-nos para uma possível sobrevivência dos afectos, ainda que num contexto de pedra, monumento sem rosto. Muitos de nós, contra a corrente das novíssimas celebridades, ainda se lembram da pintura de Luis Doudil, sobretudo a de uma fase final dedicada a jovens como estes, deitados e mordicando os lábios no pátio dos Corochéus, e poderão ler aqui, deslumbrados, a grande semelhança entre uma situação e outra, em particular nas roupas, na atitude recompensada, interorizada, das diferenças ou das semelhanças, imagem plástica, além de uma cor em geral, os famosos cinzas, que o artista trabalhava em valores discretos, harmónicos, magníficos

terça-feira, janeiro 08, 2008

NÉVOAS NA RELAÇÃO ENTRE PALAVRAS E SEXO


Por iniciativa do «Diário de Notícias», alguns escritores portugueses contemporâneos que publicam prosa aceitaram explicar as más relações entre a escrita e o erotismo, a literatura e o sexo. Foi dito pela redacção, ao que parece em síntese dos depoimentos, que faltam palavras, falta audácia, e também parece ausente no país o gosto por uma tradição ligada a esse tema, algo que de facto se julga inexistir no português escrito em Portugal. Antes de tratar do espanto que esta erudição pode causar, oiçamos as vozes que conseguimos recolher, publicadas naquele matutino.


Argumentos sobre a relação entre as
PALAVRAS E O SEXO

Miguel Sousa Tavares: A dificuldade é não cair no mau gosto e aí a língua portuguesa não facilita. Como se descreve, por exemplo, o peito de uma mulher?
José Rodrigues dos Santos: Em arte não há regras. O que uns acham horrível, outros acham belo. A arte é inerentemente subjectiva.
Margarida Rebelo Pinto:Mesmo quando sou crua, nunca tenho medo de cair em coisas vulgares porque acho que não vou lá parar.
Francisco José Viegas: Se me perguntassem directamente, sim, eu diria que se fode mal na literatura portuguesa.
Frederico Lourenço: É difícil encontrar vocabulário sem cair na obscenidade, na pornografia. Se escrevo sobre sexo, refugio-me na conceptualização.


comentário

Quem diria que estes depoimentos foram produzidos por escritores, independentemente do seu êxito mediático ou editorial? Tudo isto é vago, é névoa, é escapatória. Ou talvez apenas falta de criatividade e de ideias. Sousa Tavares, pessoa que admiro enquanto jornalista, comentador e escritor, derrapa onde não poderia derrapar: que «a língua portuguesa não facilita». Com efeito, é tudo menos o que se esperava da imensa riqueza da língua portuguesa, das alternativas que fornece para o tratamento narrativo ou especulativo de uma sequência implicando, mais ou menos directamente, o sexo. Para descrever o peito de uma mulher, o que faltará a Sousa Tavares? E quem se sujeita, enquanto artista da palavra, a descrever apenas seja o que for?

José Rodrigues diz que em arte não há regras, que ela é inerentemente subjectiva. Podemos inferir que ele deixa a questão ao arbítreo do leitor, o que não é de todo desinteressante, defendendo-se com a chamada subjectividade da arte. Um quadro ou um livro são objectos de civilização, denotam caminhos mais ou menos abertos. A relação da palavra com o sexo é para ser assumida sem escapatórias, nem por inexistência de regras, nem por muralhas de subjectividade. Henry Miller dizia o que dizia e há dias morreu um escritor português a quem a realidade sexual da sua própia condição abria fendas nas defesas cravadas a fogo, pela Inquisição, no inconsciente clectivo. Para além disso, as alternativas não faltam, sobretudo em português.

Margarida Rebelo Pinto diz que pode ser crua mas que nunca tem medo das palavras. Aceita cair em coisas vulgares porque acho que não vou lá parar. Aqui está um caso, assaz conhecido, e onde os lugares comuns abundam, segundo certos leitores. Ter medo das palavras não é defeito, usá-las mal, sim. Esta escritora tem compromissos legíveis com o seu público, mas quanto mais complexa é a relação da palavra com o real, mais liberdade, criatividade e rigor tem o artista de usar. Em geral, a aproximação literária da realidade sexual, da sua expressão, da sua visibilidade, é feita com as regras do autor, com a violência ou a brandura do seu discurso, mas não em termos que empurrem para debaixo do tapete o lixo das suas dificuldades, das suas vulgaridades.

Francisco José Viegas, na sua frontalidade, mostrando-se desinibido, acaba por fornecer uma opinião legível e não esquiva. Por mim, não diria que «se fode mal na literatura portuguesa». E o medo nada teria a ver com a palavra. É que, numa língua onde o brejeiro e o trágico tiveram intérpretes superiores, a afirmação de Viegas é falaciosa. Pode falar-se em pudor e escassez de situações como as indicadas, mas a escassez não é fraqueza, é medida, é ritmo, sobretudo quando associada a um pudor criativo na dádiva e na entrega, nunca o que as forças religiosas inculcaram nos adolescentes, ainda há pouco tempo no tempo e apesar da pedofilia tratada eufemisticamente como abuso, em vez e sim como revelação da condição humana.

Frederico Lourenco não quer cair na obscenidade, na pornografia. «Se escrevo sobre sexo, diz ele, refugio-me na conceptualização». Ora aqui temos um comportamento bem da inteligência portuguesa: refugiar-se, conceptualizar. Se não há tradição na literatura lusitana a propósito da temática do sexo, é porque vivemos todos, durante muito tempo, castrados pela censura a todos os níveis e por obediências académicas afinal obscenas.

Talvez seja oportuno citar, para nós, o afrontamento de Christopher Hitchens a propósito das razões a montante daquelas indecisões de expressão: «Sabe-se agora com segurança que a ligação entre a saúde física e a saúde mental está fortemente ligada à função, ou disfunção, sexual. Será, então, coincidência que todas as religiões reivindiquem o direito a legislar em questões de sexo? Os crentes sempre reivindicaram o monopólio neste âmbito para imporem restrições a si mesmos, uns aos outros e aos não crentes. (...) Violenta, irracional, intolerante, aliada ao racismo e ao fanatismo, investida de ignorância hostil ao livre exame, desdenhosa das mulheres e coerciva com as crianças: a religião organizada devia ter muito a pesar-lhe na consciência.» É boa altura para perguntar como se descreve a hipocrisia das velaturas castrantes e obscuras lançadas pelos vários poderes sobre tantos escritores portugueses contemporâneos.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

NA MORTE DE LUIZ PACHECO | 1925-2008


comunidade

Luiz Pacheco

O MAL-AMADO NA VIDA
E BEM-AMADO NA LITERATURA


Faleceu no dia 5 de Janeiro de 2008 (sábado) o escritor Luiz Pacheco. Comprei hoje o «Público», não propriamente para confirmar a notícia, mas para saber como os contemporâneos deste artista maldito teriam abordado, para a História, essa personalidade, a sua obra curta mas apontada a todos nós para lá da ferida, como um grito sarcástico e libertário. O jornal (este) cumpre o seu dever e a paginação sublinha-o. Sob a caixa alta do título A VIDA SOLTA pode ler-se: «Já era livre muito antes da liberdade do 25 de Abril. Foi livre na cama-jangada de Comunidade, onde chegaram a ser cinco corpos enroscados. Luiz Pacheco respirava com todos esses pulmões. Foi o primeiro escritor da sua própria vida e o primeiro editor de muitos grandes». Mais sóbrio, mas com largueza, os textos do «Diário de Notícias» dedicados a Luiz Pacheco têm como título o título aqui citado.
Embora não tenha sido um dos seus amigos chegados, aqueles que lhe ofereciam bacalhau e lhe aproveitavam gostosamente o resultado disso, tratando-o também, pelas urgências, das grandes crises de quase morte resultantes de um alcoolismo exacerbado. Crises donde ele saía rejuve- nescido (seria pior se fosse ressuscitado), entrando no restaurante onde se fazia tertúlia, o célebre 13, com um espantoso teatro juvenil. Foi daí que o conheci inicialmente. Ele achava-me porventura muito novo junto do seu grande amigo Vitor Silva Tavares, escritor que passou pela Ulisseia, para quem trabalhei, e de quem sou amigo já ausente mas verdadeiramente disponível. Claro que o Luiz me pedia os habituais «vinte paus» e eu oferecia-lhe a nota, ao que ele respondia «tão espertinho e bem comportado, e tão amigo logo à primeira». Falámos sempre circunstancialmente, na Brasileira, no Chiado, na tasca. Mas eram coisas curtas. E de nada valia apontar-lhe amoralidades, «venda temporária de um filho» e outras coisas acima de qualquer regra social ou filosófica: ele transportava consigo a experiência cega da liberdade, a própria libertinagem, despojado do respeito pelas fronteiras do regime, e escrevera para sempre esse texto já mítico Comunidade. Grande testemunho, sem dúvida, da sua forma de viver a certa altura, o amor pelos oito filhos insustentáveis, uma vida de calor e de gelo, de miséria, entre a asma, o alcool e o tabaco, sem emprego, sempre a bater no fundo, sempre ajudado contra aqueles que o davam como doido e moralmente inclassificável.
Com preguiça ou assim-assim, escrevia em direcção aos alvos certos, ele próprio, obra que troca a essência do indivíduo marginal pelo comportamento correcto da chamada sociedade organizada mas torturante. Num trajecto surreal, de assombro, Luiz Pacheco fundou a «editora» CONTRAPONTO, através da qual se publicou e publicou vários autores que vieram a honrar, como se diz pela etiqueta, as letras portuguesas. O «Público» apresenta uma página carregada de vários títulos vincados, velhos livros já, de súbito quase impensáveis: «Comunidade», «Prazo de Validade», «O Caso do Sonâmbulo Chupista», «O Teodolito», «Memorando, mirabolando», relendo-se na conhecida obra «Crítica de Circunstância» (Editora Ulisseia), «Cesariny», «Textos Malditos», «Libertino Passeia Por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor»-obra esta no cume das mais controversas que escreveu, viagem ao fundo da lucidez cruel e degradação do homem, tantas vezes omitida com expedientes vagabundos. A oferta de si em pleno nojo, ora se fazia assim, ora passava pelos dias em que, meio apodrecido, das unhas e dentes, da pele, do cabelo ralo, submerso no alcool e no delírio da provocação, rindo dos próprios amigos/inimigos.

sábado, dezembro 29, 2007

A MORTE INESPERADA DO PINTOR MIGUEL D'ALTE

a película sensível dos sonhos solidários
é agora confirmada pelo seu negativo solitário

*

Solidário como é próprio dos artistas na sua mais genuína identidade, solitário também na condição que o trabalho criador impõe, o pintor Miguel D'Alte, a meio do seu empenho em demover os silêncios que o envolviam, faleceu abruptamente ao ser colhido por um combóio e na própria véspera de Natal. Terá sido cremado no dia 28, sexta-feira, no Cemitério do Prado do Repouso, no Porto. As suas cinzas são depois lançadas no rio Minho, segundo as informações obtidas através da Cooperativa Árvore. Miguel D'Alte, com 53 anos, morreu a 24 de Dezembro na altura em que atravessava a linha do Norte, junto ao apeadeiro de Francelos, em Gaia, pela hora do entardecer. O artista teve morte imediata. Miguel D'Alte nasceu em Braga, em 1954, e realizou o Curso Geral de Pintura da Escola Superior de Belas-Artes do Porto. Apoiado pela Cooperativa Árvore, entre 1992 e 2000, participou pela primeira vez numa exposição colectiva em 1975. A peculiar natureza do seu sentimento sobre a vida manifestava-se no gosto pelo lado factual da obra. Daí teria de nascer o seu testemunho, o reconforto que alimentava para depois, no silêncio. Há esquecimentos indevidos que parecem antecipar a morte

obra de Miguel D'Alte

quinta-feira, dezembro 27, 2007

A GUERRA DOS MUNDOS




A ficção científica, quer no domínio da literatura quer no âmbito do cinema, é um campo no qual o nosso imaginário reune sonhos, anseios, apelos de superação tecnológica, a aventura da expansão do homem no espaço, em parte o mesmo que aconteceu na própria terra, em ordem à descoberta de novos mundos, eventualmente de outras gentes. Mas as escalas (já colossais) da época dos Descobrimentos logrados por Portugal, eram, apesar de tudo, conquistáveis. No espaço cósmico o problema põe-se de outra maneira e o Mundo já teve a oportunidade de assistir ao vencimento da distância da Terra à Lua, numa nave tripulada por homens, façanha que se repetiu em todo o Projecto Apolo e permitiu encarar como eventualmente possível atingir outros astros, porventura com base em forças de impulso maiores e não só quase exclusivamente dependentes das leis gravitacionais.
Muito antes desta visão das coisas, Júlio Verne foi pioneiro, abrindo largos caminhos para autores como Bradbury, Cooper, H. G. Welles. A obra deste último, largamente aproveitada pelo cinema nos anos 50 e já no século XXI, torna arrebatadora a emergência de civilizações poderosas, vindas do espaço, em geral imbuídas do espírito de conquista e ocupação de novos astros - nada que não se assemelhe às viagens que fizeram o homem aportar à Índia, ao Brasil, à América do Sul, dizimando as gentes e a grandeza de crenças que os povos locais alimentavam, Maias, Incas, Índios. A GUERRA DOS MUNDOS, de H.G. Wells, mostra uma civilização hostil que procura arrasar toda a construção humana, a fim de aqui se instalar, fundamentalmente em virtude dos seus habitats estarem moribundos. O filme dos anos cinquenta é invulgarmente bem inventado e desenhado para a época e deixa-nos, de forma indelével, uma assombrada imagem de insegurança. Recentemente, Spielberg, numa das suas mais seguras realizações, seguindo de perto as hipóteses do género e do próprio livro, conseque tornar visível, na própria bruma da percepção e do medo, sob a noite e as vagas de pânico, a emergência do escondimento de seres incorporados em máquinas (algo biológicas) de grande porte, assentes em tripés como pernas de monstros remotíssimos, embora senhores de uma orientação pragmática e cabeças colossais, insuperáveis pelos meios terrestres, que tudo destruíam de forma metódica, quase majestática. O design de todos estes equipamentos, a movimentação, as radiações pulverizantes, tudo acontece no filme de Spielberg como se estivéssemos a ver na televisão uma ctástrofe em várias frentes, estradas destruídas, milhares de mortos, cidades imensas reduzidas a escombros.
Na sua impotência, o homem usa todos os expedientes para sobreviver, o que, a médio prazo, seria impossível. Mas o Universo encerra também uma lógica ofensiva e defensiva, ecosistemas inalienáveis. Sem defesas naturais no nosso meio, alimentando-se de tudo e dos corpos humanos que captava na maior das humilhações, os grupos activos dos alienígeos contrairam doenças graves e irreversíveis, a morte pela peste, numa simbiose entre figurinhas perversas e equipamentos biónicos tão altos como a Torre Eiffel. Ninguém se livra, ao ver este filme, perante imagens insuperáveis, entre o horror e a plasticidade, da imensa tragédia do ataque às torres gémeas, em Nova Iorque. O horror que o cinema tem pintado em obras como aquelas parece decorrer do fundo perverso da nossa própria mente.

















Os sobreviventes desta extraordinária prova de vida no Universo, espalhando-se e reorgani- zando-se pelo planeta, muitos deles certamente com a esperança de um comportamento mais preventiva e criadora, entregaram as suas derivas de sonho, de recuperação, à nova paisaem e às novas gerações.

terça-feira, dezembro 25, 2007

O IMAGINÁRIO DA ARQUITECTURA ATRAVÉS DA PINTURA

pintura de Nadir Afonso

Em termos gerais, pelo modo de construir e compor, a pintura aqui presente, «Procissão de Veneza», de Nadir Afonso projecta com integral propriedade o clima coerente de toda a sua obra plástica autor, aquitecto por formação. Não foi intencional esta divulgação de uma peça entretanto integrada numa exposição do artista. Aproveitei essa mesma notícia e esta reprodução para reiterar publicamente aquilo que suponho ser a raiz arquitectónica das obras pictóricas do autor, mesmo as mais abstractas, contra o que ele teimava em afimar há anos - a certeza de que nada havia da sua formação prática, enquanto arquitecto, nas pinturas que realizava. Essa «filiação» nada o deminui, pelo contrário, e a verdade é que, abrindo espaços pequenos à bem sustentada ilusão de imensas construções urbanas, rasgadas em horizontais e oblíquas, pontuadas por planos verticais, dificilmente se pode negar a quase primeira percepção do espectador.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

ARTISTAS PORTUGUESES CONTEMPORÂNEOS | Raúl Perez


Raúl Perez, nascido no Minho, em 1944, realizou a sua primeira exposição individual aos vinte e oito anos. Já veio encontrar praticamente concluída a arrumação das artes, os seus canais de influência e lugares de ancoragem, tudo temperado com molho francês e recentes especiarias da América, entre as culturas a Ocidente e um espaço a Leste, sobretudo depois da queda do muro de Berlim. O currículo de Perez dilatou-se rapidamente. E, na galeria de S. Mamede onde agora expõe a sua última produção, foi assinalado pelos eruditos. Cruzeiro Seixas, na pose da etiqueta surrealista, dirá em jeito de chancela institucional: «Nas suas telas só aparentemente o edifício é tão-somente um edifício, a coluna uma coluna como qualquer outra, o buraco um simples buraco que sugira rato humorístico ou presença erótica. Vazio, ruína, negrura, solidão que são representação de gentes que conhecemos -- e de nós próprios. Praças e ruas, vejo-as povoadas, embora sejam Inverno». Estas palavras traziam o fio da invenção surrealista, a poética dos nomes e o non-snse da paisagem. Para que a actual obra de Perez, belíssimos desenhos de um imaginário ligados a uma espécie de vida alienígena, se garantisse desde ontem. São sonhos transformados em aparência e substância É o inconsciente e expelir uma antiguidade humana indeterminada. Ninguém citou Breton (cuja voz papal influenciou o surrealismo em Portugal), nem Cesariny que, não querendo ser bispo em França nem no nosso país, ficou em cardeal dos criadores portugueses neste sinuoso movimento à medida que o tempo passou. O próprio Cesariny, achando que o surrealismo é quase um buraco negro que tudo absorve, fez-se pintor, entre palavras recomeçadas.
Raúl Perez mostra-se, mais do que nunca, fiel a uma ideia ortodoxa (no melhor sentido) do imaginário surrealista: porque, ao viajarmos pelas suas construções de gente nenhuma e os seres que faz passear de modo absurdo, é a mão hábil que burila a lápis ou tinta uma filigrana do próprio sonho.





obras de Raúl Perez, de pequenas dimensões e sem título

segunda-feira, dezembro 10, 2007

A CIMEIRA DAS NOSSAS INCERTEZAS

Salih Mahmoud Osman
PRÉMIO SAKHAROV 2007



crianças na zona degradada a sul de Harare
de Nyerere

Não é inocente esta abertura à notícia da Cimeira União Europeia-África que decorreu em Lisboa a partir do 6 de Dezembro de 2007 e reuniu grande número de Chefes de Estado, representantes e representações a corresponder, o melhor do aparelho político português, tudo isso numa importante operação de charme diplomático, de enorme aparato de segurança, incluindo, por outro lado, a resposta competente às exigências de algumas personalidades de hábitos inusitados: carros especiais, à prova de bala, carros dos próprios vsitantes, armação da tenda de Kadafi, com vista para o mar, na plataforma do forte S. Julião da Barra, alojamento garantido nos melhores 22 hotéis de Lisboa, instalações para os conzinheiros e outros «ajudantes» de toda esta multidão que manda no mundo, rodeada de pobreza na visão incerta do futuro, os poderosos que lavam as mãos para simbolizar a sua pureza de decisões, salpicando as imagens do horror antes de tomarem a toalha que alguém lhes estende na grave solicitude do momento.

Seja como for, Porugal, em termos convencionais e alguns «anexos», cumpriu com certo preciosismo este enorme encargo, procurando imprimir ao acontecimento (ao contrário do anterior, há sete anos) aquilo a que já se chama um «espírito novo». Os jornais insistem em apontar, como notas dissonantes, os casos do Sudão e do Zimbabwe, dada a forma gritantemente irregular das administrações em tais zonas. Mugabe, que destroçou o Zimababwe por razões difíceis de entender, esteve sob as objectivas, hirto e mudo até quase ao fim, altura em que apontou o dedo à Europa, ao neo-colonialismo, à necessidade de acabar com os fantasmas e tratar de uma colaboração recíproca, sem hipocrisia. Não estou a transcrever à letra mas penso que este velho guerrilheiro já não sabe distinguir a sua luta anterior com a integração moderna do seu país numa perspectiva actual, de prosperidade e novos contextos. Não é ele o único. Darfur foi abordado, essa inexplicável tragédia que se tem mantido pelo tempo fora, provocando duzentos mil mortos e três milhões de deslocados. Para não falar noutros casos, benignidades disfarçadas e alguns pontos positivos de ordenação dos meios e de mobilização das populações. De resto, as conquistas europeias, em termos civilizacionais, comportam o peso e o resto dos benefícios do tempo colonial, os seus impérios, e ainda hoje, quando alguns crimes das próprias guerras civis estão à beira de prescrever, muitos políticos e intelectuais da União fazem projectos em nome da culpa e da salvação do continente africano, agora em grande risco de perda. Difícil é explicar aos antigos «colonos», dos quais também se obtiveram empenhos decisivos no entendimento produtivo daquelas terras, que culpa terão (no caso de Angola, por exemplo) na eclosão de uma guerra civil de forte incumprimento dos acordos das forças enfim aceites pelos portugueses, gesto dos mais tirânicos que arrasou um país tão vasto, como noutros casos, e cujos conquistadores do poder lá estão, certamente pouco atentos aos valores da democracia e dos milhares de estropiados, muitos vítimas das minas que a cegueira dos beligerantes levou a espalhar sem cartografia por milhares de quilómetros quadrados.

Darfur é pior do que as pessoas imaginam, acentua Salih Mahmoud Osman. Ele trabalha em condições muito difíceis. E, tanto nessa zona, como na Somália e outros países bem conhecidos: os mortos no Uganda, a violência um pouco por toda a parte, em geral conduzida por homens que combateram contra o colonianismo e a libertação dos povos. Apesar das suas convicções, Franz Fanon reconheceu os riscos de extrair milhões de pessoas praticamente acabadas de viver na pré-história e colocá-las de súbito na inteira tarefa de assumir a contemporaneidade. Os conflitos, dizia, serão imprevisíveis.

Salih Osman recebe o Prémio Sakharov nesta semana e «acredita que a força de paz da ONU e da União Africana (26.000 soldados) estará no terreno nos próximos dois meses. Os problemas em torno desta operação só muito dificilmente se podem avaliar. Sem conhecer a estratégia pensada, o que sei é que para as infecções espalhadas pelo continente só teriam tratamento relativo (até porque o continente é rico e a riqueza está a ser compactada à margem das populações) com um milhão de agentes bem dirigidos, incluindo grupos sanitários, de agrono-mia, de administração, de formação a diversos níveis. O mundo poderia, entre outras acções sobre o ambiente, tomar esta enorme missão como um dos objectivos mais relevantes de sempre. Porque o crescimento avassalador e invasor (China, por exemplo) pode ser redireccionado a fim de criar riqueza civilizacional, não economiscista e globalizante. E de resto, a China, além de comerciar segundo regras apropriadas, poderia muito bem contribuir com elementos diversos para aquela «força» (utópica?) de salvação.

Se houvesse entretanto um deastre súbito, planetário, de origem cósmica, que fariam as Uniões e os países mais ricos, que fariam as empresas multi e transacionais, assim, diante de uma tragédia gerada em em bola de neve e portanto à escala do planeta? Que fariam todos em tempo relativamente curto? Um dia, as cimeiras podem ser convocadas com urgência e sem partilhas antecipadas, claramente hipócritas.

sexta-feira, dezembro 07, 2007

E QUEREM ELES METER A TELEVISÃO EM TODOS OS BURACOS


Na coluna muito bons somos nós, da revista do «Diário de Notícias» (1.12.07) Joel Neto começou a sua crónica com o seguinte título: quo vadis, televisão. Depois de muito explicar, tendo em conta as agruras dos programas televisivos, confessou que a sua preguiça os fazia ver e soletrar. Temendo que as poucas entidades verdadeiramente representantes da cultura portuguesa ensandeçam de vez, porque o povo já lá vai, clamou desesperadamente assim:
«Concursos com néons encarnados e utentes num esforço de parecerem divertidos, telenovelas com guião esquemático e actores sem gente por dentro, jornalistas sob o efeito de drunfo à procura da marca de sapatos do polícia que anda a investigar o desaparecimento da miúda, ministros excitadinhos que respondem a olhar directamente para a câmara a ver se chegam às emoções do espectador -- e ao fundo a Júlia Pinheiro aos gritos, aos gritos, aos gritos. Não, eu não posso acreditar que conferir a televisão que um determinado povo vê seja ainda a forma mais eficaz de decifrar o seu verdadeiro coração. Eu não posso acreditar que o meu povo seja isto. Se a Júla Pinheiro é este povo, então eu não quero ser este povo com certeza»
Ao ler estas desesperadas palavras (e porque tinha o televisor ligado) apanharam-me quando o José Castelo Branco de etc. apareceu no ecrã, gemendo e contorcendo-se, numa mal imitada snobeira e abordando o transcendente tema das cirurgias plásticas. Troca as pernas, mostra as coxas, inclina a cabeça, estica os beiços, e ergue os braços a meia altura, simétricos, as mãos enclavinhando-se, esquizofrénicas, dedos dobrados, distendidos, como a hipérbole dos dedos dos mais belos bailarinos do fim do mundo. O estereótipo daquilo que ele julga ser uma grande personalidade da sociedade e da televisão apela demais à náusea. No caso da Júlia podemos usar filtros nos ouvidos, como nas mini-salas dos nossos mini e gritantes cinemas, aberração que qualquer autoridade com o 9º ano aboliria do horizone urbano que nos cerca, aperta e deprime. Mas este não é o caso de José Castelo etc. Com ele só nos resta apagar o aparelho, pois se mudarmos de canal encontraremos os mesmos programas, todos alinhados, todos iguais, todos salpicados de rapariguinhas em pose, uma coxa avançada, ou bailando nos intervalos, numa coreografia que talvez inspirasse Pina Bausch. O Joel Neto, se se deixa tombar pela preguiça, vai ter de, num país pobre como o nosso, aguentar filmes americanos, anúncios e outras imagens lixosas até de manhã. Aquilo nunca pára. E os donos querem mais, porque, dizem eles: «Nós sabemos perfeitamente que somos todos um serviço público e só servimos o que o público gosta». Este velho embuste quanto à cultura popular devia pagar coima, não em dinheiro, mas decretando que, em tais circunstâncias, a emissora seria obrigada a passar, durante cinco dias na semana, cinco obras primas do cinema, das grandes coerografias, do próprio teatro -- e em prime time, agora atafulhado de anúncios ou baboseiras de se lhe tirar a baba.

sexta-feira, novembro 30, 2007

QUEM SOMOS NÓS, ALÉM AO FUNDO?


Enquanto convocava esta fotografia da Terra vista da Lua a fim de a trazer para aqui, na linha daquele fascínio que as imagens do espaço cósmico exercem sobre nós. Tinha o televisor ligado, atrás de mim, e ouvia vagamente as vozes de um programa da tarde. A certa altura, ao enquadrar a imagem, ouvi um diálogo onde se citavam vários casos de antropofagia no nosso próprio país, entre o boato e o facto provado, além de outras citações de semelhantes acontecimentos confirmados no estrangeiro. Um noivo mata e decompõe a noiva, comendo-a até ao limite do possível. Os intervenientes falavam de impulsos de origem longínqua na espécie humana e de outras metamorfoses neurológicas inquietantes. Um deles dizia mesmo que é legítimo relacionar estes fenómenos com a situação do feto, durante a gravidez, como um ser dependente de uma alimentação orgânica, vinda da mãe, como se verifica depois do nascimento, pela demorada deglutição do leite materno.
A fotografia tinha surgido, certa e normalizada, mas eu havia esquecido o motivo que me levara a publicá-la. Olhei demoradamente aquela distância diurna e nocturna e apaguei o título que tinha escolhido para esta imagem, trocando-o por este que vos remeto, com uma velha pergunta que as viagens espaciais, concretas e imaginadas, ajudam a colocar cada vez com mais angústia.

terça-feira, novembro 27, 2007

DO MÉDIO ORIENTE A SETUBAL

Entre certas coisas ou circunstâncias, há semelhanças por vezes inquietantes, embora saibamos distingir que não é tudo do mesmo fim. Como símbolo de um conflito que se eterniza, o jornal Público apresentou hoje a fachada de um prédio palestiano em cujos andares semi destruídos se notam as marcas da lepra resultante da fuzilaria, andar após andar, fachadas e fachadas com este aspecto.
O mesmo jornal, também hoje, publica a frente esventrada de um prédio de doze andares, em Setúbal, inutilizado nos últimos andares (isolámos aqui aspectos de três apartamentos) em virtude de uma aparatosa explosão de gás. Na diferença, e até na diferença das causas) a semelhança fisionómica destas arquitecturas, após os colapsos, relevam de um mesmo contentor infernal: a guerra de várias faces no Médio Oriente, e uma outra guerra, em Portugal, que corresponde aos surdos interesses de muitos construtores, erros de edificação, incompetência, negligência, sucessivas batalhas mal ganhas na ocupação desordenada, senão criminosa, do território nacional.


domingo, novembro 25, 2007

UM PERFIL PORTUGUÊS


Pulido Valente, historiador, escritor, cronista, comentador, homem de ideias, surge aqui, na capa da Visão, menos expedito do que costuma ser. Expedito no sentido de atalhar de súbito, entre revelações que ninguém espera, demolindo à esquerda, demolindo à direita, calando vozes, gozando frases, argumentando com agúcia e por vezes após uma colherada de pimenta que nem ele. Sempre gostei muito de o ler, do tempo das crónicas do Independente, mesmo quando caricaturava os próprios erros e os erros dos outros.
Há dias, quando foi vedeta de capa, respondeu a uma entrevista de Ana Soromenho e Rui Castro, assim numa espécie de breve depressão. No início da peça jornalística, foi destacada esta sua fala: Pedi a Cavaco que se candidatasse. Portugal precisava de um polícia. De facto, Vasco Pulido Valente almoçou com Cavaco Silva porque os grandes negócios em Portugal fazem-se com o Estado ou com informação do Estado. Só a presença dele em Belém coíbe muita gente. Referia-se a Cavaco. Mas a seguir considerou que as conversas com os políticos não servem para decidir nada.
Acerca de Sócrates, Pulido disse que nem se lembrava de o ter visto em pessoa e que ele, o primeiro ministro, é de uma pavorosa mediocridade. Pior: é um homem que tem uma linha de pensamento convencional. Que assenta em todos os lugares-comuns deste tempo e reproduz de uma maneira tosca esses mesmos lugares-comuns.
Com este sério depoimento, Vasco Pulido Valente aproximou-se inexoravelmente do perfil dos portugueses.

segunda-feira, novembro 12, 2007

OLHAR PARA PEARL HARBOR EM 7.12.1941


Em 7 de Dezembro de 1941, a esqudra americana do Pacífico, acantonada em Pearl Harbor, foi atacada, subitamente e em massa, pela força aérea japonesa, o que gerou uma das mais impressionantes catástrofes quando acabava a II Guerra Mundial. A situação caótica do momento não permitiu, nem uma verdadeira reacção militar, nem o registo suficiente do que se desenrolou naquele dia. Muitos testemunhos foram usados para a reconstituição do golpe. Os Estados Unidos, com a maior das fidelidades possível, realizou, ainda há pouco tempo, mais um filme sobre a hora maldita de Pearl Harbor.
Mas as fotografias que vemos aqui, por mais extraordinário que pareça, estavam armazenadas numa velha câmara Brownie, desde 1941, e foram encontradas no armário de um marinheiro que serviu no USS Quapaw. A qualidade das fotos é surpreendente e o valor histórico inestimável, pois foram tiradas durante o ataque a Pearl Harbor.















Hoje, em Novembro de 2007, algures numa das guerras que se travam no mundo