segunda-feira, abril 30, 2007

ARTISTAS PORTUGUESES | António Gonçalves


















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António Gonçalves, com uma exposição intitulada Impossibilidade, no Palácio Galveias, entra perfeitamente nestas nossas «contas» de ir revelando autores portugueses contemporâneos, sem cronologia ou referência de idade, apenas pela oportunidade, pela revelação de certas experiências no campo das artes plásticas.
A narrativa articulada pelas fotografias reinventa ou ficciona um trato de mercado de arte impróprio, pois tanto podemos estar diante de um acto de secretetismo, com aspecto ilegal, como de uma simulação de tudo isso e alguma discrepância noa meios, quer no disfarce arquitectónico dos lugares, quer no uso de um sumptuoso carro que não se ajusta ao outro tempo, embora possa pertencer ao domínio dos instrumentos de certas actividades do mercado ilícito de hoje. Se as pinturas, trazidas pela rua nas mãos (assim parece) do próprio autor, não podem estar a montante do espírito que as criou em e simultaneidade com a sua verdade subjectiva a jusante, agora. Isso retira-nos a possibilidade de relacionar os objectos e os sítios, e a própria actividade das criaturas, num tempo imensurável, parecendo relacionar-se com o mercado obscuro da arte, pertencendo a um tempo sem medida de todas as ilicitudes. Assim armadilhada a nossa visão, passando por uma poética de formas paradoxais, resta-nos a solidão de quando somos o último espectador a sair do teatro, refazendo vezes sem fim o sentido das cenas e o seu repetido desconserto.
Como a arte não é, quanto parece, um campo de revelação, os que lhe dão corpo ou fingem copiar o visível, ou apontam a uma autonomia fundamentalista ou legam ao espectador a mentira de cada representação. A mentira assim produzida pode ser um caminho de efeitos precários, mas pode também sagrar-se como alibi de uma verdade escondida. Klee definiu este difícil nó com grande lucidez: «a arte não reproduz o real, torna-o visível» Daí, em boa medida, a sua raridade.
Quem são estes homens vestidos de preto? O pintor acaba por ser o próprio Gonçalves. Depois de esperar, os homens apropriam-se das pinturas, pela calada da noite, enchendo o carro de luxo. Que máfias são estas?. Como é que uma pintura pode ser objecto de comércia, nestes e noutros moldes?
A mentira da representação muda, rara e difícil, sobre a realidade talvez passe mesmo pela mercantilização da beleza e pelo equívoco das fotografias aqui referidas, ambígua teia de sgnificantes e significados que o usufruidor das aparências pode indiciar entre filosofias divergentes ou convergentes. O consumo megalómano do mundo contemporâneo não se reserva para uma arte problemática: prefere pagar uma arte caríssima e que pouco mais pode fazer do que anunciar a sua própria morte.
N: com base nos textos de Pinharanda

domingo, abril 29, 2007

ARTISTAS PORTUGUESES | Jorge Abade


MURDER BALLADS


Jorge Abade apresentou há pouco tempo, na galeria Sopro, uma exposição consolidadora da sua obra e inspirada num disco de Nick Cave que diverge um pouco das músicas mais divertidas. Agora há «violência e tensão», também «esperança e beleza de luto». E Jorge Abade, na tensão da metamorfose, tendo em vista inserir esta realidade mutante na sua pintura, inventa metáforas de inocência e guerra, apropria-se do corpo, transforma-o através de próteses parciais dele mesmo, retrato impossível em geminações trágicas. O novo organismo parece despojado de ideologia, de projecto de bondade. O mundo de «O Homem Elefante» não resiste a esta monstruosidade aparentemente vencedora. Muitos nos avisam da ausência de futuro, na incapacidade de nos reconhecermos de novo. O retrato de Bacon será sempre a metamorfose sedutora da sua distorção. Assim acontecerá com as belas criaturas de Jorge Abade, incapazes de desalojarem a evocação da guerra, mesmo em armas de plástico, e hastes a florescer como troféus ilusórios. Tragicomédia autodestrutiva, o retrato ao espelho intemporal reflecte baladas da arte contemporânea na hipótese assassina do jogo que se joga em volta.
N. este texto, do autoe do blog, foi publicado no JL de 25 Abril 2007

A ORDEM NATURAL DAS COISAS


Estas fotografias, de Rocha de Sousa, fazem parte de uma reportagem muito mais vasta, sobre a queda e fragmentação de um posto metálico de alta tensão (ou o seu derrube para desvio da linha) que mais parece, em contraste com a paisagem, restos de uma nave alienígea (como é nosso gosto invocar). Outras fotografias desta série foram publicadas (com trabalho de efeito plástico no blog construpintar02. Quando se fala, a propósito de eventos como este é razoavelmente comum evocar a ordem natural das coisas, justamente na medida em que a queda orgânica de volumes desta natureza, por falha dos apoios, tempestade ou outra razão similar, é mais uma vez a (por vezes) espectacular demonstração da lei da gravidade, de Newton

sábado, abril 21, 2007

PRESENÇA DA PINTORA ISABEL SABINO

2007 pormenor 9 de branco sujo
ISABEL SABINO

Isabel Sabino, pintora pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, onde lecciona, tem já um importante currículo e uma participação superior nos estudos das ciências das artes, com trabalho de pesquisa teórica e prática, participação em publicações de carácter ensaístico, a par de desenvolvimentos no domínio das metodologias ligadas às disciplinas de índole artística. Tem desempenhado cargos de relevo na Faculdade e dedicado um esforço sensível sobretudo na pintura. A sua obra plástica resulta de uma espécie de convergência de várias aprendizagens, as quais se juntam à resolução da forma, entre uma certa nostalgia da representação antiga e os elementos fracturantes do processo e do conteúdo relativos à forma plástica em si ou indicidora de referentes diversos. O tempo marca o que resta disso em paisagem, no sonho e na memória da vida humana, das suas marcas, dos seus lugares, numa arrumação falsamente empírica das coisas e dos seres, como aliás se depreende em parte no quadro recente aqui publicado.

sexta-feira, abril 20, 2007

FAVELA PARA SAMBAR E PARA MORRER


Só na cidade do Rio de Janeiro existem cerca de 750 favelas, onde habitam mais de um milhão de pessoas. A revista «Visão», de 19 de Abril, apresentou um excelente texto de Alexandra Correia (enviada especial para seguir os acontecimentos de violência naquela cidade) em colaboração com os fotógrafos Walter Mesquita e Fábio Café. Sobre este mar de habitações implantadas caoticamente num dos morros do Rio, entre céus tropicais, Alexandra diz que «os morros do Rio de Janeiro são cenários de guerra. Entalados ente os traficantes de droga, a polícia e as milícias populares, os seus habitantes são filhos do abandono, gente que o Estado esqueceu. Histórias de violência e da vida que existe para além dela». Raramente se encontra no mundo algo de semelhante a isto, bem perto dos belos prédios implantados na curva sequencial da baía, algo que o tempo vai fazendo explodir, clandestinidade dos materiais tratados de forma embrionária mas fazendo aparecer na distância uma fantástica tapeçaria quadriculada, festiva, num espectáculo de silêncio. De perto, tudo é escabroso, e ainda belo, vidas escorrendo pelas vielas e grupos tribais que disparam sonhos de grandeza entre a música, a vida e a morte.
Uma frase terrível abre o texto e cita bocados de uma história esfacelada: Alberto não é homem de contar quantas almas já separou do corpo. Sabe que começou com 11 anos e cedo aprendeu a fazer desaparecer gente pelo método do microondas. «É numa espécie de caverna, na rochas, no cimo do morro. A gente põe o cara lá, bota fogo e tapa a entrada da caverna». Fala de Alberto. Depois fala do método do pneu a arder, o cara dentro dele. Quando Alberto conta, com um cero brio do dever cumprido, que matou a tiro um «cara que passava as mãos nos sobrinhos, acaba assim, sem mais: «Nem era para matar, só para torturar. Mas olha, foi».

quinta-feira, abril 19, 2007

BAGDAD, ALGUNS DIAS MAIS TARDE






















reconversão de uma fotografia editada pelo PÚBLICO
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Cerca de dois dias após ter sido publicada (aqui) uma fotografia documentando a existência, a sul de Bagdad, de um cemitério de destroços de carros-bomba numa área de 5 kms quadrados, é anunciado mais um desses atentados, na mesma cidade e no Mercado Al-Sadriyah, com a morte imediata de aproximadamente cem pessoas, numa contagem que terá aumentado em virtude dos feridos muito graves. Apenas seis atentados, só na zona da capital, mataram mais de duzentos indivíduos. As forças americanas limitam-se sobretudo a uma situação de patrulhas, abrindo por vezes rusgas mais ou menos aparatosas. Mas, enquanto se espera por uma nova estratégia, o exército estrangeiro que ocupa o Iraque, ocupa-se difusamente das margens. Entretanto, e para comandar as acções anunciadas, o país foi entregue ao general Petraus, ao que parece muito experimentado nesta linha de interveções militares. Tudo isto é estranho e desconfortável, pois o general só poderá dispor de um novo contingente para operar lá para meados de Julho, embora o plano tenha começado há mais de dois meses, com resultados pouco significativos. aquém dos objectivos traçados. E quem sabe se esses objectivos, para um futuro sem nome na área, terão alguma vez um rosto?

segunda-feira, abril 16, 2007

A GUERRA DOS MUNDOS

foto: Ahmad Al-Rubaye/AFP parcial
Esta fotografia regista a imagem de um grande cemitério de destroços de carros-bomba. Embora o documento apareça aqui reproduzido só em parte (cerca de 50%), o efeito que projecta em nós é sem dúvida muito forte e coloca-nos questões de fundo relativas à situação da humanidade no século XXI. Aqui, milhares de ferros retorcidos, entre esmagamentos indescritíveis, ocupa a sul da capital do Iraque uma extensão de 5 km de terrenos. Desde o início do conflito, rastilhado pela intervenção americana naquele país, o extremismo entre xiitas e sunitas já provocou a morte de mais de 61 mil iraquianos, a maioria vítima de atentados com veículos armadilhados. Em média explode um carro por dia, só em Bagdade.
notícia veiculada pela revista SÁBADO.

domingo, abril 15, 2007

CRÓNICA CONVENTUAL DAS VELHAS ARTES

EXCERTO DAQUELE LIVRO DE ROCHA DE SOUSA

A promiscuidade que se vivia no labirinto de terrenos e barracões, entre pintores e escultores, contraditórios na teoria e no fazer, mas condenados a uma partilha sem nexo, gerava, em todo o caso, alguns frutos surpreendentes. Nas oficinas de grandes dimensões, apodrecendo pelos travejamentos superiores, as peças tentadas, contudo, decorriam de uma realidade assim, da moleza inicial e propiciatória do barro, certamente, entre as esperas debaixo de plásticos tendo em vista minimizar os efeitos do tempo -- e eram veredas ladeadas pelos cavaletes, tulhas de argila, bancadas e maços sujos, guindastes de arrasto, pranchas móveis, espátulas, formões, goivas, instrumentos para afeiçoar ou cortar a pasta de argila. Tudo isso, nas diferenças e nas semelhanças, colava-se ao atelier próximo, cheio de enormas telas com manchas de trincha, figuras oitocentescas geminadas aos símbolos da pintura pop, cujo léxico era mais americano do que português, e os passos e batas em volta, milhares de manchas de cores numa espécie de harmonia por antítese, objectos velhos, inorgânicos, por vezes composições tridimensionais, proibitivas, formas com passagens da madeira ao ferro, ou telas fingindo cartazes de touradas sangrentas, de mistura com os rostos sedosos da perfumaria capaz de cativar (em offset e paradoxo) o nosso próprio olhar, pele, desejo, nostalgia de gente perdida nas adolescências da periferia social. Recortes também. Citações. Quadros pendurados uns por cima de outros nas altas paredes da sala, um cheiro a óleo e vernizes, este era um mundo também confuso pela falta de espaço, pela desarmonia dos tipos de cavaletes e de outros equipamentos, pelos lavatórios entupidos, baldes de socorro, um oceano de pinceladas nas camadas de tinta branca ou cinza que cobriam quase por inteiro as faces internas dessa espécie de cubo com um janelão de quatro por cinco metros, de ferro e vidro, solução imprópria, porque demasiado rígida, produzindo tanto um clima de estufa como a pulverização do famoso efeito de catedral.

sexta-feira, abril 06, 2007

EXPOSIÇÃO ARTE E PROPAGANDA

propaganda, lazer, família

Exposição de artes plásticas numa «perspectiva crítica que procura semelhanças e diferenças entre diversas formas de discurso persuasivo em regimes democráticos e totalitários.» Nuno Galopim deu-nos, na revista do Diário de Notícias, interessantes orientações sobre este acontecimento. As linguagens comparadas (sobretudo visuais) coincidem, no tempo, com a Alemanha de Hitler, a Itália de Mussolini, a União Soviética dem Estaline e os Estados Unidas de Roosevelt. O projecto é tentar dar a ver o uso dessa linguagens em favor da disseminação de ideias políticas, antes e durante a II Guerra Mundial. A aprendizagem académica tem aqui muitos reflexos, projectando formações representativas que os autores podem aproveitar no sentido do enaltecimento de uma personalidade ou de um regime. O modo como os líderes, por exemplo, são apresentados transcende (mesmo na imitação) a sua natureza menos profunda, eventualmente epidérmica. Um retrato de Estaline pode sugerir uma bonomia (falsa) diferente da força intrínseca do cartaz onde Roosevelt nos olha com determinação mas sem estigmas desviantes. O retrato escultórico de Mussolini, de Renato Bertelli, sugerindo uma liberdade futurista inovadora, consegue explicar-nos melhor a personalidade em causa do que qualquer cópia, pois arrasta uma simetria rotativa avassaladora e claríssima quanto à identidade dos perfis, coisa omnipresente seja qual for a posição que tomemos perante ela na perspectiva da percepção. Hitler, vítima de uma enfatização panfletária, acaba por nos parecer um tigre de papel, aliás pela própria simbologia e técnicas usadas. Galopin, na cuidada abordagem que apresenta no seu texto, diz, a certa altura, que entre oa quatro pólos retratados há espantosas afinidades apesar das, por vezes, enormes distâncias que os separavam. O culto do corpo, na Alemanha, não foge do russo, se bem que no primeiro caso esta via seja usada em favor de mensagens e ordem, militarismo, e lazer familiar. Apologias da conquista do trabalho e dos desportos, celebração dos feitos da tecnologia americana, são planos que acabam por se assemelhar aos dos soviéticos. O carisma dos líderes é explorado de diferentes maneiras e um fim idêntico, aliás como parece notório entre Mussolini e Hitler, ou mesmo Estaline. Há depois uma série de aspectos decorrentes da perspectiva ideológica e cultural das áreas tratadas, quer em termos sociológicos e psicológicos, quer em termos éticos ou políticos, eventualmente encarando uma procura no sentido da deontologia, como acontece com outros criadores. O que parece ressaltar desta via, a par de outras que têm sido desenvolvidas, é a confirmação de que a arte não tem, como função intrínseca, ilustrar ou exaltar aqueles valores, o que não impede muitos atistas de se deixarem ficar reféns de tais contextos e amarras. O Século XX, no processo da sua revolução artística, tornou visível essa concepção libertária da arte numa ordem consequente de autonomia. Mas não se pode fazer deste caminho um campo operatório redutor, nem discriminar para a sombra obras superiores embora ligadas a directivas que a modernidade colocou no index. Podemos, com efeito, avaliar a grande qualidade de peças tratadas sob qualquer jugo, o que por vezes acontece e acaba por pairar sobre o mundo de forma surpreendente e quase encantatória. Por isso aqueles líderes sabiam escolher os operadores que conseguissem os bons resultados sem reserva deontológica, dedicados ao fazer e alheios ao zelo ético na contingência do mundo. Esta indiferença continua a verificar-se, de certa maneira: a arte não toma partido, isenta-se da dor em volta ou mesmo do horror genocida. Diletante e acima das batalhas, os artistas podem morrer numa escaramuça de rua mas no atelier são sacerdotes de uma autonomia mais ou menos inerte. Salvam-se os fotógrafos porque a sua arte só tem verdadeiro senntido no seio da realidade: se o seu testemunho combatente não existisse, nem saberíamos metade do apocalipse que nos rodeia, o que se revela verdadeiramente inquietante e se agrava com o funcionamento alienante das televisões, apesar de não lhes puder ser indiferente os 11 de Serembro que talvez se aproximem em repetição, como nos espectáculos tão desejados pelas multidões, e aparatosamente difundidos, com o futebol, pelos canais do bigbrother que merecemos.

BONECOS FEITOS EM NOME DO PODER

Schurpin* Estaline

Renato Bertilli *«Perfil do Duce» 1933














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à esquerda Hitler Hubert Lanziger * à direita cartaz, Roosevelt James Flagg.

Esta «amostragem» acompanha um excelente artigo de Nuno Galopin a que nos referiremos depois.

Uma perspectiva crítica que procura semelhanças e diferenças entre as diversas formas de discurso persuasivo em regimes democráticos e totalitários

quarta-feira, abril 04, 2007

BREVE OLHAR SOBRE A OBRA DE FARRERAS





Francisco Farreras nasceu em Barcelona a 7 de Setembro de 1927. Iniciou-se muito cedo na actividade artística, orientado por António Gomez e Mariano de Cossío na Escola de Artes e Ofícios de Santa Cruz de Tenerife (Canárias). A sua afirmação vocacional consolida-se na Escola de San Fernando, em Madrid. O título de Desenho é-lhe atribuído em 1949. Inicia-se então um vasto percurso internacional e os seus trabalhos, premiados e adquiridos em museus, alcançaram uma projecção e um aprofundamento da maior relevância. É realizada em 1999 a primeira grande exposição retrospectiva da sua obra (140 peças criadas ao longo de 50 anos de actividade) no Centro Cultural da Cidade de Madrid. O seu currículo não é aqui mais do que pressentido ou intuído. Por isso ainda é importante que se noticie a atribuição a Farreras, em 2000 e pela sua obra, o prémio da Associação Madrilena de Crítcos de Arte.
Francisco. M. Cano, ao escrever para a exposição de Farreras que se encontra nesta altura na Casa da Cerca (Almada) e na Galeria Prova de Artista (Lisboa), diz, entre outras coisas, o seguinte:«Dentro da análise que quero evitar (e estou a evitar), - e entendendo o conceito de matéria tanto de um ponto de vista físico como metafísico - deveria, também, submeter a estudo os elementos que configuram a alma da obra farreriana: quer dizer, o respeito aos princípios básicos da beleza, a elegância que toda a sua obra destila, a sugestiva sensualidade, a falta de ruído e de gestos desnecessários, a apreciada qualidade estética, um bom gosto refinado, a precisão e o cuidado do seu tratemento, a harmonia subrtil, um intimismo ilusório, uma extrema intuição reflexiva, a qualidade da discrição e simplicidade e a sensibilidade e honestidade que dão coererência ao conjunto global da sua obra».
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Excerto do texto do catélogo da exposiçãp aqui assinalada, prefácio de Francisco Cano

segunda-feira, abril 02, 2007

OS GLOBOS DE OURO E A SUAS OMISSÕES




Chegámos ao século XXI com uma avançada carga de tecnologia, nem sempre bem utilizada, e um óbvio déficit cultural, não tanto por falta de quantidade, mas claramente por falta de qualidade, escolhas precárias, redutoras, cada vez mais colonizadas (em termos globalizantes) pelo imediatismo, mercantilismo, numa indelével promiscuidade de géneros, grandiosidades dos espectáclos, cascatas de jóias e vestidos milionários, de estlistas snobs, que procuram a todo o transe a magreza de tudo, dos modelos, da criatividade, das pindéricas encenações com que se apresentam um pouco por toda a parte.
O dia 1 de Abril pareceu mesmo um dia das mentiras, sobretudo na SIC, com a sua gala de galardões, globos de ouro, numa retumbante boda aos pedintes de espírito, como decorre dos textros sagrados. Havia bolas de ouro, com um arremedo de esfera armilar, aos montes, perdulariamente, presunçosamente, numa edição muito mal apoiada pelos documentos indispensáveis de apresentação dos nomeados. A recolha desses elementos era pobre, destituída de tempo de leitura ou sem leitura, enquanto a régie se deliciava a passear pelo espectáculo da plateia, resmas de mulheres bonitas, artistas, intelectuais, génios ainda em idade menor, o sonho que deveria re-lembrar a necessidade de um esforço colectivo para nos lenvantarmos destes ridículos mimetismos, destas grandezas fátuas, desta mediocridade omissa, entre caricaturas da democracia.
Para simplificar, a Caras e a SIC, de novo reunidos, resolveram premiar mais uma vez personalidades «incontor-náveis» do teatro, cinema, moda, toda a música, entre bandas e solistas que nunca se ouvem sob o assombroso troar das barerias electrónicas, entre dezenas de milhares de wats. Eles foram o melhor actor, a melhor actriz, tanto em cinema como no teatro ou televisão, o melhor humorista, a melhor causa huanitária, a maior personalidade -- e falta-me o fôlego para fazer mais nomeações. Não se falou de cenografia (teatro e cinema), não se indicou a notoriedade de algum cientista (que os há), esqueceram outras artes e autores que a televisão deveria inter-relacionar (artistas plásticos, intérpretes em vários instumentos de música erdudita, inventores (que os temas a sério), casos raros no domínio da literatura (de que até temos um nobel), da poesia (que nos caracteriza bem), de outros mais espaços assim, incluindo as editoras que também pecam por falta de prospecção e devem abertura a autores que se deixam adormecer na sombra das gavetas. Os homens do pensamento, os intérpretes de imagens (incluindo os fotógrafos que também faltaram), todo esse mundo que não chega aos tablóides ficou no casinha do isolamento e da omissão. Mas, apara além de se alargarem a toda a espectacularidade que campeia por aí, e tudo o mais que se sintetizou atrás, estas empresas da «comunicação» ainda inventaram ostensivamente mais um campo nomeável e premiável por tão preciosa democracia de votantes ad-hoc: o melhor beijo. E lá apareceram os vários beijos nomeados e o premiado foi o mais desconfortável, trocado pelos principais protagonistas da Floribela sob uma chuvada quase tropical.
Houve mais coisas, com certeza, de que já nem me dou conta, mas o que aí fica demonstra bem a indigência do poder destas instituições, a ignorância e mau gosto que propagam, o desentendimento das coisas que podem caber dignamente num orgão de televisão, que não se dedica exclusivamente ao espectáculo, concursos, musiquinhas e shows até à sufocação. Não é por acaso, embora com muita exiguidade, que lé se fala de literatura, de artes visuais, de arquitectura. O Siza Vieira não serve apenas para noticiar, após um prémio, em 30 segundos do telejornal. O recente prémio atribuído a Lobo Antunes poderia ter tido um adoçante globo. Houve por aí muito mais sucesso autêntico e nobre do que todas inundação do 1º de Abril na SIC. O que pareceu ter acontecido naquele Organismo terá sido a tradicional mentira daquele dia?

domingo, abril 01, 2007

NEM CORPO NEM ALMA, O BAPTISMO





Ainda não é a coluna madura de uma árvore, não fabrica
fruta amarela gota a gota,
ninguém debaixo fica tão fresco,
lento,
essencial, que aprende uma língua
respirada em cada furo que tem uma língua da natureza
das coisas --
a boca no ponta de um animal e na outra o ânus, e o sangue ponta a ponta,
ou uma haste para correr
o líquido do outro -- ainda
não se despiu nem mostrou o umbigo,
ninguém lhe entalou no flanco
nem estrela que batesse de dentro para fora
como um nome de baptismo, (...)


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extracto do poema DO MONDO, de Herbet Helder (POEMA CONTÍNUO)

terça-feira, março 27, 2007

O REGRESSO DE SALAZAR


A RTP, enquanto Serviço Público, diz ciclicamente zelar por melhor informação, mais cultura e entrenimento q.b. Entre outras coisas que não se passam dessa forma, a RTP defende o critério de comprar direitos de autoria sobre programas do exterior, podendo adaptá-los ao contexto português. Desta vez lançou, com pompa e circunstância, um novo produto sobre a escolha do maior português, sempre através do voto democrático da população, em séries de eliminação e apuramento de uma base de cem personalidades. Quando se chegou à final (como no futebol) havia um conjunto errático de dez elementos, os quais foram estudados e tratados em filme, cada um por uma personalidade qualificada da nossa realidade sócio-cultural. E esse trabalho, com filmes dirigidos por cada um daqueles elementos, teve mérito e o debate final bem podia ser aproveitado para outras prestações.
Mas o desnorte já estava lamçado desde há muito, entre votações assombrosas, enquanto os orientadores da TV insistiam que aquilo não passava de um entretinimento, de um concurso. Falou-se mesmo em passa-tempo. A verdade, contudo, é que não se brinca com coisas sérias. D.Afonso Henriques, Infante D.Henrique, D. João II, Vasco de Camões, Pessoa, entre outros, suportaram o serviço que lhes exigiam. Apesar do seu grande papel num país unido há muitos séculos e onde a escolha de uma personalidade que o nobilite, emblemáticamente, hoje a amanhã, não dever sair de um parto tão errático e tão acidentado. Enfim, a votação final do passa-tempo conferiu o primeiro lugar ao Dr. Oliveira Salazar, seguido de perto, em segundo lugar e curiosamente, pelo Dr. Álvaro Cunhal.
As pessoas que acharam, por fé ou nostalgia, dever votar em Salazar são poventura as mais coerentes. Mas as outras que votaram, em hipótese perante o bizarro fenómeno, com o sentido para penalisar os governos desde o 25 de Abril, o próprio 25 de Abril, ou, quem sabe, por gostarem mesmo de voltar ao país dos «brandos costumes», devem sentir-se seguros da bondade da censura, da castração das ideias, de uma guerra em nome de um futuro pior do que sebastianista. Para os radicais até seria interessante rever uma viagem ao Tarrafal, eventualmente, com tudo pago e estadia por tempo indeterminado.
Há quem pense que o resultado do famoso concurso, esta oferta de Salazar em bandeja de prata, é uma cínica brincadeira dirigida à Europa, um acontecimento histórico, passando a figurar nos livros de escola como exemplo de Portugal saber bem onde está -- com equidade perante os opostos, entre diferença e a semelhança.

quarta-feira, março 21, 2007

FOTO-FICÇÕES DE VICTOR BELÉM

homenagem ao poeta

CAMILO PESSANHA
















Estas imagens correspondem a um género de pintura tecnologicamente inovadora, trabalhada pelo artista Victor Belém. Todas as obras da exposição onde se integraram estas peças se resolvia por completo com formas assim, que parecem decorrer de remotas memórias pop e psicadélicas, embora o autor tenha sido de raiz um experimentalista, irreverente na ruptura, perspicaz quanto ao meio e suas mimetizações. Victor Belém, pós dadaista, incandescente na provocação estética, produziu as mais diversas invenções, incluindo objecualismo e um certo abjeccionismo, misturando a pintura propriamente dita com o non-sense das formas, velharias, geminações absurdas, uma atenção crescente aos fenómenos sociais e políticos. A sua pluralidade edificadora haveria de marcar posições abertas a outros campos, fotografia, cinema, teatro, performance. A exposição, de valor itinerante, foi dedicada a Camilo Pessanha, poeta que Victor Belém admira, na justiça contra o esquecimento.

Camilo de Almeida Pessanha nasceu em Coimbra, em 1867, e formou-se em Direito naquela cidade. Durante toda a vida escreveu poesia, contos, crónicas, ensaios crítico literários e textos de carácter jurídico. Na sequência de um «desencontro» de amor, partiu para Macau onde se distinguiu em vários cargos e onde defendeu sempre os direitos dos estudantes chineses da zona. Republicano convicto, maçon, tendo mantido um contacto muito fecundo com o escritor Wenceslau de Moraes, partilha com ele convicções e afinidades intelectuais. Pessanha foi um sinólogo notável, traduziu poemas e lendas, tendo reunido uma extensa colecção de peças patrimoniais de relevo, colecção doada ao Museu de Arte Antiga e depois trasladada para o museu Machado de Castro. Dir-se-á que Pessanha foi um dos nossos poetas mal amados, mas nunca deixou de cumprir o seu destino cultural, vivendo um auto-exílio de trinta anos na distância da colónia a que se votou, ele que foi sem dúvida um notável sinólogo, traduzindo belos poemas e lendas, e foi também, porventura, o mais puro representante do simbolismo português, poeta da saudade, do país perdido, voluntariamente (mas sempre actualizado) exilado no Oriente.
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NB: a nota sobre Pessanha foi sintetizada de um dos textos do catálogo

domingo, março 18, 2007

A BELA E O MESTRE



Julgam os donos, directores e programadores das televisões que elas foram inventadas para se servirem a si mesmas e servirem a sustentação publicitária, fingindo, por outro lado, servir públicos néscios, incapazes de alguma adaptação ao vínculo cultural dos media, aos poucos produtos que são ricos de conteúdo humano e existencial, programas que aprofundam o ser do mundo e a estética da imagem. Pensam ao contrário, os donos das televisões. Habituaram-se ao contrário, os donos das televisões. Enquanto os programadores, com o aval dos Conselhos de Administração, copiam ou arrendam os mais reles produtos deste domínio. Anos e anos seguidos, nunca se passou disto, com heróicas excepções.

A BELA E O MESTRE, novo programa da sacudida TVI, podia traduzir-se perfeitamente, no estilo das novas televisões, por GAJAS BOAS E O MONSTROS DA CULTURA GERAL. O país -- aquele país que por vezes acede à noção de equilíbrio psíquico e à solidariedade -- quase entrou em choque, apesar de bem habituado a cascatas de asneiras, ruído de horror para captar audiências em círculo fechado de publicidade. Como dizia uma pessoa minha conhecida: «a estrutrura desta merda é profundamente machista, eles rascas e falsamente sábios, elas boas e burras até ao infinito». Ali estão tendenciosamente vários casalinhos, um quarto de quatro estrelas **** para cada um deles. Casalinhos a fingir, cultura quanto baste, homens desencontrados das mulheres, luxo visual, europa para o lixo, apelo ao consumismo e à grandeza tipo pato bravo de três estrelas*** Leio que a «A Comissão para a Igualdade» estuda uma queixa contra «A Bela e o Mestre». Ainda há quem se indigne. Aquilo custa dinheiro aos montes e esta gente das televisões parece não se dedicar à invenção de programas, arrenda-os ou compra os direitos aos americano. A produção da Endemol é assim sugada pela Fox: concorrem jovens bonitas, mas (aparentemente) de grande ignorância, e rapazes deslambidos, embora (supostamente) debitando alguns cavalos de cultura geral. Juntam-se arbitrariamente, um casal por quarto, como se disse, comprometidos a estudar quem é o Fidel de Castro ou se o Infante D. Henrique era espanhol. Fazem umas provasinhas físicas, sempre bestas e indignas, e assim é suposto que cada casal «evolua» em «competitividade», num complicado sistema de votos, nomeações e expulsões (como sempre) a fim de o escolhido no termo do programa ganhe 100.000 euros. A imoralidade e a estupidez por bom preço, o país aparvalhado, gente a protestar. E um membro do júri residente acabou mesmo por desabafar: «não há pachorra para o tipo de estereótipos veiculados pelo programa». Várias «associações femininas» e outras personalidades de respeito consideram o programa prejudicial a vários níveis, pois «humilha as concorrentes física e intelectualmente, partindo do eterno estereótipo da mulher burra e do homem inteligente, da oposição entre beleza e inteligência».










sexta-feira, março 16, 2007

O ESTILO E A PETULÂNCIA











Fingimos aqui uma coluna assinada por Constança Cunha e Sá, com o «boneco» da praxe, irreconhecível. Lemos uma crónica sua, no Público de 15 de Março, e verificámos que, falando de José Sócrates, primeiro-ministro, ela procurou enganar o efeito tablóide e usar da menor petulância possível ao abordar a vida normal do homem, quer enquanto menino e rapaz, quer depois quanto à sua prestação política, embora declarando, à cabeça, que «o estilo do primeiro ministro confirma apenas a sua falta de substância».Não encontrando no percurso daquela personalidade, ao longo da vida, nada de relevante, diz claramente: «É com este extraordinário curriculum que (José Sócrates) chega, em 95, ao Governo, pela mão do eng. Guterres, de quem foi sempre um solícito boy.» Parece difícil ser mais eloquente com tão pouco assunto.
Uma grande parte dos nossos comentadores de política e assuntos similares está cada vez mais parecida com os próprios políticos, os quais procuram, paradoxalmente, abater: fazem assim um papel onde abundam os convencimentos, as mentiras, as distorções da realidade, tudo isso em pleno exercício de estilo e frequente redundância, insubstância, petulância. Ora esta sabedoria instantânea, como no caso dos treinadores de bancada, começa a merecer alguma palavra de indignação. Porque o artigo de Constança e Sá, intitulado pomposamente «O Estilo e a Substância», é que não tem mesmo substância e debita banalidades sobre a pouca sorte de José Sócrates. Este político português não beneficiou, com efeito, de um destino menos cinzento, mais colorido e relevante, marcado logo após o nascimento pela predestinação dos grandes homens, alguém que bem cedo, ainda de calções, revelasse claro sentido de liderança e carisma relevante.Tudo isto é abordado, sintomaticamente, em confronto com Aníbal Cavaco Silva, de berço modesto mas cuja entrega aos estudos se fez, como o próprio anunciou, «a pulso».



O CHAMAMENTO DO DESTINO E SUA SUBSTÂNCIA COM BOM ESTILO


A par do «menino Aníbal», Constança fala do «menino Zezito» e esforça-se, com mal disfarçada petulância, em descarnar toda a história deste primeiro-ministro não predestinado que desde novo não se lhe descortinava uma ideia, algo que o distinguisse, um esforço, «uma proeza académica ou profissional». O bacharelato no ISEC será uma coisa menor, de duvidoso valor, aliás como essa «obscura licenciatura» completada vinte anos depois. Sócrates aportara entretanto aos caminhos da política e acompanhava Guterres (senhor que parece estar igualmente votado à menoridade, a vários títulos, pelas Constanças do snobismo intelectual que atravessa a comunicação social portuguesa). Por ela se soube ontem que Sócrates «em 1987, depois de se ter enfiado no sótão do eng Guterres e numas intrigas de maior alcance, chega finalmente ao Parlamento, onde viceja discretamente durante os anos do cavaquismo». O fio de fel e de desprezo continua durante mais alguns parágrafos semelhantes, rotulando Sócrates de «estadista de última hora» e outras coisas não menos ofensivas.

Chama-se a isto encher de lixo e má fé o «espaçopúblico» do jornal. Constança, cujo curriculum deveria vir sempre anotado em rodapé, terá de procurar fazer-nos o favor de trabalhar um pouco mais à clara luz do dia, porque, em termos de jornalismo com bacharelato e/ou licenciatura, a senhora carece de autoridade ética para dar prioridade, e nestes termos, à história comum de uma hora a montante, com omissões peculiares, da vida do primeiro-ministro, desconsiderando o jornal e o seu verdadeiro público, pois nem todos os grandes estadistas foram predestinados, doutorados, rangentes de luta, chefes precoces em associações políticas, eventualmente recheados à francesa ou num estilo anglo-saxónico, linhagem superior a montante, republicanos e laicos a jusante, sob a espuma dos dias após vinte e cinco de Abril de 74.

Será melhor, minha senhora, que se dedique a trabalho mais útil e menos redutor, deixando de sujar as mãos em coisas de cordel. Imagine que o primeiro-ministro tinha um pequeno defeito congénito no polegar esquerdo: isso seria assunto para encher a sua coluna, falando de disfuncionalidades orgânicas da ordem da predestinação e dos requisitos mínimos exigíveis a um homem de Estado? É claramente aconselhável abordar teses do domínio da tecnologia avançada e da necessidade da cultura. Preferir o trajecto do debate de ideias, as suas, minha senhora, e as do próprio Sócrates, sem contribuir de forma jornalisticamente redutora para diluir o perfil genuíno da nossa cidadania. Deixe lá as cores políticas, as emblemáticas dentadas de falso humor nacional, e debata a problemática desta civilização que sufoca no próprio crescimento, só crescimento, e perante a qual não nos ocorre dar espaço de emergência a verdadeiras alternativas de trabalho, aos conceitos de ordem social, inquirindo se as actuais vias de «desenvolvimento» apontam para novos objectivos, colocando ao governo as devidas equações de uma real inovação dos meios e dos modos. Ao contrário dessa linha, e alheia à relação entre as políticas a médio e longo prazo perante o próximo glaciar, o seu texto foi manifestamente conduzido com o fim de minimizar de forma literal o primeiro-ministro, personalidade que, seja como for, mostra uma certa qualidade inventiva no quadro do processo em que o país se inscreve. Ora ao público em geral, isto importa muito mais, saber dos eventos positivos, questionar o quadro da globalização, apreciar o primeiro-ministro nos limites que herdou e dentro dos quais procura, um pouco artesanalmente, alinhar as coisas por uma ordem de melhores perspectivas.

É do nosso interesse, de futuro, cuidar melhor da sua máscara.

quinta-feira, março 15, 2007

«OFERENDA ESQUECIDA» JORGE PIMHEIRO

«Homenagem e Josefa de Óbidos» I

«O Jogo da Macaca III», 2004 II

«O Sacrifício de Isaac», 2002 III
obras do pintor Jorge Pinheiro


DIVULGAÇÃO DE ARTISTAS PORTUGUESES
Na arte de Jorge Pinheiro, muitas vezes uma só pintura corresponde à vastidão englobante de uma série proposicional, pois coexiste consigo um corpo de desenhos. O qual, mais do que uma prévia via para encontrar a causa (e também morada) final -- espécie de conceito metafísico carregado de imagens -- é, em si mesmo, imagem que tenta explicar imagens, servindo-se estas de figuras para explicar figuras. Trazem consigo um limite de realização última; coisa comum, quase sempre, senão sempre, ao óleo que corporiza várias partes ou as categorias de um pensamento acerca de pensamentos corporizados numa pintura e nos estudos desenhados que, de um modo necessário, a ela conduziram. Como um fechamento, como coisa venerada e eleita por um, por vezes vasto, conjunto de partes (ou de categorias), o quadro surge sob a forma de objecto dotado de poder. Um poder real, não imaginário. O objectivo, lançador de pontes sobre veios de subjectividade que guarda e preserva no seio da sua linguagem, que vai tomando a forma de desenho.
I Na «Homenagem a Josefa de Óbidos» essa figura de mulher resulta de uma emanação de forte luminosidade. Há no seu corpo uma transparência que vem do esplendor escarlate, de um vermelhão mesmo, do éter, da atmosfera celeste envolvente. Como que em protecção da pintora, segura, uma figura feminina alada a que poderemos chamar Fama, um imenso chapéu de sol aberto. (...) A Fama ergue na mão esquerda uma festiva coroa de louros, em que tremeluzem uma fita verde e uma outra vermelha. A Fama está sobre uma coluna, de capitel esférico.
II Uma teatralização ocorre em «O Jogo da Macaca III». Por detrás de um cenário projectado, que na pintura organiza um jogo de transparências, riscou-se o desenho infantil de um homem de chapéu, de um avião e de um lobo prestes ao ataque. Charlot e o rapaz espreitam num extremo desse cenário. Observam somente a dor e com ela, com o seu material probatório, constróem a existência de uma memória.
III Sobre um fundo negro, figuras de vestes contemporâneas ligadas ao conflito israelo-palestiniano, movem-se entre um grito de terror e o sacrifício. Sobre um altar de pedra, como aquele que Abraão erigiu no alto da montanha, disposta a lenha em redor, vai ter lugar o holocausto. Não se vê a faca que infligirá o sacrifício, mas a mulher, figura que traz consigo a velocidade da morte, é quem grita com um soar metálico: «Abraão». Este responde-lhe: «Estou aqui, Senhor.» A voz voltou a gritar: «Deixa o teu filho. Não lhe faças mal. Como não me recusaste tão grande sacrifício, sei que o teu coração é perfeito.»
Dos textos publicados numa brochura da Galeria Palmira Susa, em abordagem à maior parte da obra de Jorge Pinheiro João Miguel Fernandes Jorge.

terça-feira, março 13, 2007

A QUE CHAMAMOS PAZ?

Arundhati Roy
Esta mulher cujas ideias se regem pelo lado mais avançado da consciência humana, foi galardoada com o Prémio da Paz de Sydney. Ao aceitá-lo fez questão de assumir a sua condição de escritora, demarcando-se de falsas virtudes, de movimentos de massas e daqueles que são nomeados como «os sem voz». Arundhati aponta para os que são deliberadamente silenciados ou, talvez de outra forma, não ouvidos. Ao receber o prémio disse que o fazia, sem acenar com a bandeira dos despossuídos ou impotentes, como a expressão de solidariedade da Fundação da Paz de Sydney para com uma certa visão do mundo que milhões de nós, um pouco por toda a parte, subscrevemos.
«Está ficando cada vez mais claro que a violação dos direitos humanos é uma parte inerente e necessária do processo de implementação de uma estrutura política e económica coerciva e injusta no mundo. Crescentemente, as violações contra os direitos humanos são mostradas como falha ineliz, quase acidental, de um sistema polítco e económico que, de outro modo, seria perfeitamente aceitável. Como se essas violações fossem um pequeno problema que pode ser varrido do mapa com um pouco mais de atenção da parte de algumas organizações não governamentais. À medida que a batalha pelo controle dos recursos do mundo se intensifica, o colonialismo económico, por meio da agressão militar oficial, ensaia uma volta à cena. O Iraque é a culminação lógica do processo de globalização corporativa, no qual se fundiram o neocolonialismo e o neoliberalismo. Se pudéssemos espiar através de uma fresta da cortina de sangue, vislumbraríamos as impiedosas transações que ocorrem nos bastidores»
Extractos da palestra deita pela escritora indiana Arundhat Roy ao receber o Prémio da Paz de Sydney 2004.
O original pode ser encontrado em
htto://www.planetaportoalegre.net/041125_2.htm.

quarta-feira, março 07, 2007

DO ESQUECIMENTO AOS LEILÕES DE ARTE


Esta imagem corresponde a um leilão de arte, no qual, perante uma grande tela de Sousa Lopes, as cabeças do público parecem (maliciosamente) integradas na pintura pelo fotógrafo. Há quem considere que os leilões de arte constituem um modo de redistribuir muitas obras plásticas pela sociedade. Ora todos sabemos o que se passa com as «indústrias da cultura» e a hipocrisia, disfarçada de falsos saberes e tráfico de influências, actividades que enlameiam os mercados desta área. Em boa verdade, os leilões permitem que os ricos vendam obras a outros ricos ou que alguns «nobres» em decadência passem o seu património cultural a meia dúzia de milionários. A peça que vemos na imagem tem as dimensões de 2,72 por 3,54m. É uma pintura a óleo, com um tema de festas religiosas, e foi vendida a um particular, para espanto de muitos, por 125 mil euros.
Quem era Sousa Lopes, afinal? Um pintor que nasceu em Leiria, no ano de 1897, e veio falecer 65 anos depois, em Lisboa, durante 1944. Como outros do seu nível, por vezes surpreendentes, é tratado com alguma negligência. Anísio Franco, historiador de arte do Museu de Arte Antiga, entende que Sousa Lopes «é conhecido da história da arte, mas tem sido pouco estudado e mostrado». Maria Aires Silveira, conservadora do Museu do Chiado, anota que, apesar de tudo, «não se pode dizer que o pintor seja pouco conhecido. A verdade é que não tem havido grandes exposições e é natural que o grande público não o conheça. Mas não é uma figura desconhecida»». Estas impressões, obtidas de uma reportagem do jornal Público, deixam-me estupefacto. Afinal quem conhece ou não conhece Sousa Lopes? Como se pode falar desta forma de gente cujo trabalho foi longo e fez parte de uma área em geral pouco acalentada pelo país, sobretudo pelos governos e pelos próprios museus? E agora, emergindo do quase esquecimento, uma obra desta autor, «A Procissão», é vendida por 125 mil euros, o que produz algum desconforto. «Não sei o que dizer», considera Aires Silveira: «Esta obra pertence à linha de um naturalismo tardio, muito próximo das peças de Malhoa. É muito ensolarada, com um jogo de sombra e luz muito marcado. Mas está dentro do naturalismo de tendência folclórica. Trata-se de um tema bem ao gosto português. Teve muito sucesso e foi muito apreciada pelo público da altura». Mas os conhecedores desta matéria continuam sem explicar o montante atingido pela obra. A conservadora do Museu do Chiado, embora «não saiba o que dizer», pensa que talvez as largas dimensões da pinturam possam abrir algum indício revelador. «Deve ter-se em conta que é uma obra de grande dimensão. Aguenta-se bem na grande dimensão».Estes comentários são verdadeiramente ensurdecedores. Anísio Franco solta-se: «Inexplicável? Não é nada inexplicável. É uma bela peça para uma obra de Sousa Lopes. Têm surgido poucas obras de arte à venda; por isso, no contexto do mercado de antiguidades português, é explicável!»
E assim vão as coisas das artes e dos mercados, o desentendimento dos naturalismos tardios e coisas assim, mesmo quando toda a gente sabe (nas esferas administrativas) que não houve em Portugal, durante décadas e décadas, até por snobismo, uma vasta retrospectiva de obras de autores deste género, com Malhoa e tudo, por forma a se estabelecerem melhor as verdadeiras grandezas. Importaria saber se outrora o público respeitava e visitava, como se insinua, um Sousa Lopes ou um Malhoa. Pelo menos para se perceber melhor os estímulos «milagrosos» que levaram multidões a esperar horas e horas para puderem ver e deificar Souza Cardoso. 1
1 Adaptado, quase ficcionado, de uma reportagem de Teresa Firmino publicada no Público de 7.03.07