segunda-feira, fevereiro 04, 2008

BREVE VISITA À OBRA PLÁSTICA DO REI

Às cinco da tarde do dia 1 de Fevereiro de 1908, um atentado no Terreiro do Paço vitimou o rei D.Carlos e o príncipe herdeiro. Atacado pela propaganda republicana e traído por sectores monárquicos, responsabilizado, com razão ou sem ela, por todos os males do país, D. Carlos foi caricaturado de forma sistemática e impiedosa. Ficaram testemunhos do seu lado cultural e científico: pintor, fotógrafo, oceanógrafo e amante da Natureza.
PERFIL DE ANCIÃO
pastel sobre cartão, sem data. D.Carlos
dominou também a técnica da aguarela
GADO DA RIBEIRA
pastel sobre cartão, 1896.
Este quadro foi um dos vários que valeram
prémios ao rei enquanto pintor

MEXILHOEIRO
pastel sobre cartão, 1908, obra inacabada.
Apesar de amador, D. Carlos foi um dos melhores
pintores naturalistas do seu tempo
citações da revista Única Expresso

sábado, fevereiro 02, 2008

O HOLOCAUSTO NUNCA ACONTECEU

apagamento da realidade aqui noticiada

Os brasileiros, pressionados pela comunidade judaica, decidiram proibir a passagem no cortejo de carnaval de um carro alegórico ao holocausto cometido pelos nazis contra aquele povo. A imagem
do post seguinte mostra uma parte do carro sobre o holocausto, instalação aterradora de cadáveres nus, esqueléticos, como tantas vezes temos visto no cinema e na televisão

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

CARNAVAL E HOLOCAUSTO

Carnaval e Holocausto, título jornalístico que nos ocorreu entre dificuldades, explica-se aqui, quer através da imagem, quer pelas breves palavras que publicamos. Esta fotografia, tão objectivamente parecida com documentos dos mortos nus nos campos de concentração nazis, faz parte da reconstituição hiperrealista, num terrível volume evocativo do Holocausto, que os brasileiros pretendem ser tema de um dos carros alegóricos do seu Carnaval do Rio. A ideia envolve justamente, a meio de um trabalho lúdico, em que o prazer corporal costuma alcançar expressão arrebatadora, o empenho na revitalização da memória sobre este e outros acontecimentos similares. Tantos, aliás, em plenos século XXI, um pouco por todo o lado, produzindo imagens semelhantes a esta, sobretudo no continente africano, vítimas de guerras absurdas, étnicas, feitas por mandantes enlouquecidos, enquanto o mundo se agita entre crises económicas baseadas nos facores niveladores da globalização. No Carnaval, este carro, dizem alguns dos nossos bem comportados cidadãos, parece uma heresia e uma falta de respeito pelos mortos evocados. Sim? Deviam experimentar e parar o carro diante da tribuna onde aquecem, alcoolizadas, as consciências dos bons cidadãos do mundo.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

O HORROR DO NOSSO DESCONTENTAMENTO

Tudo parece começar com brandura e inocência, partindo destas cabeças de bonecos fabricadas para a indústria do sexo na unidade Orient Industry em Tóquio. A atribuição de fins sombrios à aparente candura dos bonecos obriga-nos a pensar nos modos de processar a degradação do género humano, empresários e figuras de relevo consumindo este e outros produtos fotográficos ou vídeo, e ainda, pelos meios mais ilícitos, as próprias crianças. As religiões que comandam e deformam o espírito de muitas comunidades, no limite do fundamentalismo, fazem parte da engrenagem que nos assombra com as tecnologias de ponta, sobretudo as militares, e nos consentem a ilusão de uma estratégia redutora quanto às artes e à cultura. (foto de Michael Caroma).
Imagem de uma criança haitiana brincando num lugar derradeiro, no meio de caixões, em Portau-Prince. Uma breve contemplação deste jogo solitário, perante o qual os mortos ali guardados já foram porventura espectadores, leva-nos a pensar em muitas outras brincadeiras de muitos outros meninos um pouco por toda a parte, mesmo aqueles que perderam membros ao despoletarem minas cínicas no território de Angola, além dos seus companheiros que soçobram por falta de alimentos e contaminação de doenças graves, A Sida à cabeça das estatísticas. (foto de Eduardo Munoz).
Desesperadamente, um polícia dispara para o ar perante uma multidão que protestava pelo seu direito a manifestar-se no dia do trabalhador, em Macau. (Paul Yeung).

fotograma de uma violenta batalha da polícia de São Petersburgo, segundo cidade da Rússia, ao procurar travar manifestantes da oposição durante uma forma colectiva de protesto. (Alexander Demianchek)

Ginásio da Escola de Breslen onde ocorreu um rapto temerário que terminou em tragédia, com a morte de muitos civis, crianças incluídas. Entre o chão juncado de flores, tantas vezes renovadas, permanece um ursinho de pele, memória de menino para todos os seus companheiros. (Edmundo Korniienko).
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Estes documentos foram divulados pela agência Reuters

domingo, janeiro 27, 2008

OS MALES DO EIXO PORTUGUESMENTE

de uma obra de Ângelo de Sousa






O Eixo do Mal é, como certos telespectadores sabem, um programa onde alguns senhores e uma senhora, gente ligada aos media, de facto mediática e pulsando de adrenalina como é moda entre os portugueses mais críticos, debita sarcásticamente e sem qualquer oportunidade ou alinhamento de fundo, diversos comentários sobre a vida política, cultural, ou assim-assim, do nosso país actual. São charlas acidentais, entrecruzadas, nas quais o retrato dos outros os explica como tolos, mal formados, ligados aos grandes e subterrâneos crimes económicos, judiciais, pedófilos, partidários, entre muitas coisas próprias da nossa mediocridade, dos nossos defeitos, do enorme descalabro que se verifica em todas as instituições. Ninguém se safa, mesmo que, à luz da história, se salve efectivamente. Mas pronto: deram-lhes aquele tempo de antena, estão ali num reboliço de graçolas, verdades, inverdades, desfocagens, um video de quando em quando, a gozar alguém ou alguma situação. Já falei sobre este programa, explorando uma dicotomia que nos pode conduzir ao belo título O MAL DO EIXO. Com o maior respeito, é sobre isso que venho endereçar uma mensagem aos participantes do programa, perguntando-lhes se fazem aquele mínimo do trabalho de casa que consiste, além de planear cada programa, ver os já emitidos e analisá-los tanto e tão profusamente como analisam as coisas sérias do país.
Meus senhores: do último programa, dia 26 de Janeiro de 2008, não se ouviu nem escutou mais do que 10 a 20%. O resto foi ruído, porque os senhores atafulharam as participações umas sobre as outras, confusas, no maior desrespeito pelas regras de comunicação, tanto ali como em qualquer outro lugar. E não era mesmo sobre a comunicação falhada dos políticos que falavam, gozando os assessores para a interpretação dessa arte que Menezes quer adoçar à bancada do seu grupo parlamentar e a si próprio? Desta maneira, falando à balda e com uns laivos de erudição, acabam por fazer lembrar o espaço tertuliano do programa da manhã. Em Portugal não existem técnicos da comunicação (isso das agências é porque gostamos muito de agências, incluindo as funerárias); e é nesse sentido que devem V. Exas dar um saltinho a Londres, evitando políticos e celebridades, pois lá encontram alguns comunicadores já meio esquecidos mas cuja competência ainda é respeitável. Gargarejem um pouco de manhã enquanro procuram dizer, sem engasgues nem refluxo de água, simplesmente o nome Sócrates. Conhecem, é um nome antigo. Façam isso.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

UMA CERTA IDEIA DO BELO


centenário do autocrome Lumiére
1904-2004


As primeiras fotografias a cores foram realizadas em França, no ano de 1860, mas os seus procedimentos técnicos mostraram-se imperfeitos e ineficazes. Os irmãos Lumière, inventores do cinema em 1895, apresentaram no início do século XX, 1904, a placa de vidro Autocome. O processo técnico imaginado implicava espalhar na superfície milhões de fécula de batata, regularmente tingidos de vermelho, verde e azul, três cores básicas associadas a uma superfície sensível. Assim se obtinham clichés positivos transparentes, dos quais resultava uma imagem luminosa e natural ainda que projectada num suporte de papel opaco. Como na pintura pontilhista, era a mistura óptica optida pelo olhar, na sua globalidade, que gerava o efeito cromático próprio da fina delicadeza destas fotografias. A comercialização em 1917 da fotografia a cores envolveu os fotógrafos de forma imparável, sobretudo a partir de 1910. o Autocrome ganhou posição sem verdadeira concorrência durante trinta anos, até ao aparecimento de películas de cor que substituíram aquele frágil diapositivo de vidro.
As fotografias aqui apresentadas estão bem distantes do original nas placas de vidro, quer pela transposição efectuada, quer pela acção dos agentes exteriors, além de que o tempo desfez a frescura das cores iniciais. A sua recuperação por Jean-Paul Barruyer passou por um difícil e laborioso registo. Mas é preciso verificar que, assim mesmo, as imagens nos subjugam ao primeiro olhar. Pode imaginar-se uma ligação entre elas e a pintura, uma analogia de espírito poético, algo que suscita a memória de quadros dos grandes mestres impressionistas, Claude Monet ou Auguste Renoir, por exemplo. A realidade artística acabava, por assim dizer, de pulverizar a figura das representações tradicionais, numa espécie de lição de humildade. Sem deixar de acreditar nos aperfeiçoamentos dos actuais aparelhos, apesar dos seus abundantes argumentos comerciais, é preciso ter em conta a primeira e última objectiva, o olho em cada olhar sobre as coisas, e reparar na massificação deste meio de expressão, a sua acuidade criativa a perder-se entretanto no irremediável aproveitamento para usos reducionistas do consumo, a perda de muitas sensibilidades sobre o visível. O exemplo destas obras, sem esquecer os casos próximos do grande apuramento dos meios modernos, arrasta uma espécie de paradoxo com elas: o facto da sua beleza se tornar de novo actual, mesmo sabendo quanto é difícil aceitar que temos aqui os derradeiros testemunhos de um outro mundo, aquele que iria desaparecer sob um dilúvio de fogo e de sangue, entre uma vaga ideia de ressurreição que continua a alimentar a nossa emoção estética.
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texto adaptado da nota que antecede a publicação das fotografias em meio virtual

quinta-feira, janeiro 17, 2008

MEIA LUZ AO FUNDO DO TÚNEL

Miguel e Daniela encerraram temporariamente
os seus blogues, ambos usando como última prestação
imagens de túneis futuristas.
Ofereço-lhes este, menos moderno, mas categórico.

domingo, janeiro 13, 2008

FUMOS DE UMA AUSÊNCIA PEDAGÓGICA


Portugal dispõe finalmente de uma lei antitabaco, lei 37/07, o que, numa primeira leitura, parece ter feito entrar o país para o clube dos mais civilizados. Isto significa, pelo menos, que cerca de dois milhões de portugueses viram um certo direito de escolha devidamente redireccionado em nome da preservação da saúde, que é o que deveria acontecer exactamente noutras áreas desse bem precioso, nos Hosapitais ou Centros de Saúde, no cuidado dispensado às mulheres grávidas, removendo-as, na altura crítica, para lugares mais afastados da sua residência mas dotados de médicos e instumentos com a melhor das cotações, resposta de excelência como se está a proceder com os atendimentos de urgentes. Varrendo o país interior, o país desolado, o governo saldou equipamentos obsoletos e situações geográficas pouco abonatórias do interesse profissional. Por vezes ainda na Idade Média, o governo, mais vagaroso na criação de alternativas, tende a implementar rapidamente certas iniciativas, tornando outras de novo lentas, quarenta anos para decidir o lugar de um novo aeroporto, décadas para renovar as estruturas da educação, tanto no suporte físico e instrumental como nas anunciadas agilidades do suporte pedagógico, um século a fim de salvar uma simples parede de patrimónios superiores. Mais rápido na distribuição de computadores, é certo, cuja utilidade ninguém desmente, mas também perigosos se demasiado monopolistas dos prazeres do estudo.
Voltemos aos cuidados anti-tabágicos, aterradores, a título de exemplo, para muita gente dedicada ao domíno da restauração, instalações exíguas para a partilha imposta e maquinaria correspondente, incapazes de competir com vizinhos mais poderosos e em largo desfavor perante os lugares do privilégio, como já se pode observar nos casinos ou casos semelhantes. Não se está, por esta observação, aliás mínima, a contestar a bondade de uma lei para refrear este flagelo. Mas há aqui um garrote demasiado intolerante e que certamente provocará manias denunciantes, entre outras coisas de má memória. Aquela famosa flexibilidade que os empresários sempre reclamaram para a lei do trabalho não parece ter sido levada em conta no caso presente. Flexibilia-se o modo de poder fumar ou flexibiliza-se o despedimento, encerrando a fábrica às escondidas, em plena impunidade?
Um português que passeava na 5ª av. de Manhattan, em New York, havia começado a puxar as primeiras doses de fumo de um cigarrito matinal quando foi abordado por um americano que caminhava atrás de si. O americano, ligeiramente enfurecido, queria sacudir-lhe o cigarro dos dedos e dizia que estava a ser icomodado com a chaminé lusitana. O português, senhor bem apresentado e de cultura muito acima da média, explicou ao cow-boy que as restrições sobre o fumo não incluiam as avenidas arejadas da cidade, a tanto não chegara a burrice dos legisladores que deixavam passar massas de carros nesses mesmos sítios, produzindo milhões de vezes mais gases tóxicos. O fundamentalismo leva-nos muito longe, quer em certas iniciativas, quanto à sua própria prioridade, quer na aplicação rasteira e ruidosa dos efeitos pretendidos. O problema é delicado e por isso deveria ter sido tecnicamente encarado com mais parcimónia, trabalhando de forma faseada, regulando muito bem as excepções e o seu confronto com outras animalidades perigosas: o que a suinocultura produz nos rios, um pouco por todo o país, as toneladas de CO2 que poderiam ser minimizadas se as indústrias que as produzem fossem coagidas a começar o seu trabalho desde logo munidas dos equipamentos necessários. Tudo isto já acontece desde os primórdios da industrialização, quando a tecnologia era demasiado afim, mas hoje sabe-se como resolver a maior percentagem desses casos bem típicos das grandes metrópoles e até fora delas, na própria agricultura ou puericultura.
«A liberdade -- escreveu Sousa Tavares -- é assunto de todos e demasiado sério para ser confiado a dois directores-gerais que ninguem elegeu e cuja autoridade para decidir como é que devemos viver não reconheço». Sousa Tavares, certamente fumador, estava indignado ao escrever estas e outras coisas, cujo suporte está certo mas o enquadramento errado. É necessário combater o tabagismo, sem dúvida, mas vale a pena pensar que a cidade não precisa criar «salas de fumo» assistidas, em certas situações mais difíceis, à semelhança do que se pensa fazer com outro vício (das drogas duras), aí talvez mais compreensível. A tolerância é tanta, em tal área, que até se fornecem seringas, liberdades públicas, sem que se veja uma campanha verdadeiramente prioritária para desmantelar os traficantes de droga, grandes e pequenos, já que as sublimes pedagogias do bon senso não chegam a parte nenhuma. Algo de semelhante se pode reclamar em ordem aos vícios derivados da pobreza extrema, dependências de mendicância, bebida, violência maníaca e outros desconfortáveis espectáculos da sociedade de consumo, nomedamente sob a égide de um capitalismo selvagem. Chamem a ASAE para junto das transnacionais da alimentação hiper-poluente, a qual matará mais, porventura, do que o velho tabaco. E tratem de outra imundície que desfaz igualmente a saúde: as falhas do próprio Sistema de Saúde. O estrangulamento pânico das unidades, em geral e por especialidade ou urgência, é tão transtornante que apressa os efeitos da doença, como se viu em Cascais, um pandemónio que nem dois maços de tabaco sorvidos de seguida aplacariam.
Inês Poderosa tratou este assunto na sua última crónica, «Fumos de Intolerância». Apanhada pela avalanche de medidas, convencida da liberdade que lhe assiste desde que respeite os problemas alheios, tratados a tempo e com tempo, ela blasfema: «E agora que os fumadores são olhados como proscritos sociais, não vou mesmo eixar de fumar». E mais à frente: «Se os fumadores portugueses manifestarem a união e a força que manifestaram os espanhóis, muitas empresas de restauração acabarão por rever a sua política de investimentos. Ninguém me encontrará em alguns desses cafés, bares e restaurantes que quiseram gastar dinheiro em sistemas de ventilação para acolher os fumadores. Mesmo que deixasse de fumar, boicotaria esses locais de segregação. Por uma questão de princípio»
Estão a ver? Era o que dizia atrás: o redil em que metem muitos fumadores de menor sentido de obediência pode gerar frases destas. De facto, Inês Pedrosa, por princípio, deveria pensar também nos delicados frequentadores de cafés e restaurantes que não são fumadores e sofrem os efeitos das liberdades dos outros, próximas e distantes. Há maneiras de legislar neste campo. Há processos de facilitar os que até gostarão de aproveitar a onda. Mas, nestes termos, o tsumani acabará com muita coisa aprazível e lesará muitos cidadãos de boa vontade. Ouve-se falar disso: a voz de senhores senhoras que, entre jamais, jamais, dizem com esperança que até vão aproveitar: talvez esta onda proibicionista lhes facilite encontrarem forças para cortar com o tabaco.
Bom seria, no mesmo sentido, que as palavras menores dos políticos, insultos, discussões por questões insignificantes, tudo isso a espalhar-se em espuma suja pelo nosso espaço, sofresse também o impacto justo, a prumo, de uma lei vanguardista.


fotografia (no positivo) publicada no Diário de Notícias

sexta-feira, janeiro 11, 2008

O TUFÃO DA BARBARIDADE

foto de Yasuyoshi Chiba AFP


Nairobi, lugar de todos os horrores. Noirobi, símbolo tardio de uma derrocada de sonhos, morte anunciada, segundo os mais cépticos, do próprio continente africano. Num tribalismo da dilaceração e da irracionalkidade, Luos e Kikuyos destruiram a este ponto muitas favelas da cidade, provocando a alucinada fuga dos turistas. Um tufão da barbaridade, o resultado da sua passagem deixou atrás de si um arrasamento completo de lugares precários de habitação, aliás como noutras cidades que foram submersas numa vaga de terror e caos. A ferocidade do confronto tribal legitimou toda a espécie de armas, com tradução em brutais actos de violação de crianças, raparigas, mulheres Kikuyos; o afrontamento fou completado pela morte e centenas de pessoas, embora muitas tenham sido socorridas ns hospitais, sobrevivendo precariamente. Apesar de tudo, a pressão internacional levou Kibaki a anunciar que aceitaria um governo de salbação nacional, paradoxo das maiores impossibilidades, aliás saída que Odinga rejeitou, não por razões superiores, mas por considerar que o Presidente foi ilegalmente eleito.
Quando ouvimos a cantiguinha dos nossos políticos em volta de pequenos problemas de linguagem, de troca de escolhas, da própria clarificação sobre a zona para o novo aeroporto, perguntamo-nos, perante o tufão da Nairobi, que país é o nosso, assim tão floreado, sem projecto, resmungando deliciadamente nas tabernas, nos jardins e na Assembleia, a melhor maneira de estar contra, mesmo que o tema seja uma simbólica ida a Fátima não cumprida?

A PEDRA, LUGAR DE AFECTOS

fotografia de Luis Lages
Numa hora em que, pelas mais diversas pressões, enfrentamos um permanente fio de notícias trágicas, aterradoras, esta fotografia de Luis Lages (Moçambique) alerta-nos para uma possível sobrevivência dos afectos, ainda que num contexto de pedra, monumento sem rosto. Muitos de nós, contra a corrente das novíssimas celebridades, ainda se lembram da pintura de Luis Doudil, sobretudo a de uma fase final dedicada a jovens como estes, deitados e mordicando os lábios no pátio dos Corochéus, e poderão ler aqui, deslumbrados, a grande semelhança entre uma situação e outra, em particular nas roupas, na atitude recompensada, interorizada, das diferenças ou das semelhanças, imagem plástica, além de uma cor em geral, os famosos cinzas, que o artista trabalhava em valores discretos, harmónicos, magníficos

terça-feira, janeiro 08, 2008

NÉVOAS NA RELAÇÃO ENTRE PALAVRAS E SEXO


Por iniciativa do «Diário de Notícias», alguns escritores portugueses contemporâneos que publicam prosa aceitaram explicar as más relações entre a escrita e o erotismo, a literatura e o sexo. Foi dito pela redacção, ao que parece em síntese dos depoimentos, que faltam palavras, falta audácia, e também parece ausente no país o gosto por uma tradição ligada a esse tema, algo que de facto se julga inexistir no português escrito em Portugal. Antes de tratar do espanto que esta erudição pode causar, oiçamos as vozes que conseguimos recolher, publicadas naquele matutino.


Argumentos sobre a relação entre as
PALAVRAS E O SEXO

Miguel Sousa Tavares: A dificuldade é não cair no mau gosto e aí a língua portuguesa não facilita. Como se descreve, por exemplo, o peito de uma mulher?
José Rodrigues dos Santos: Em arte não há regras. O que uns acham horrível, outros acham belo. A arte é inerentemente subjectiva.
Margarida Rebelo Pinto:Mesmo quando sou crua, nunca tenho medo de cair em coisas vulgares porque acho que não vou lá parar.
Francisco José Viegas: Se me perguntassem directamente, sim, eu diria que se fode mal na literatura portuguesa.
Frederico Lourenço: É difícil encontrar vocabulário sem cair na obscenidade, na pornografia. Se escrevo sobre sexo, refugio-me na conceptualização.


comentário

Quem diria que estes depoimentos foram produzidos por escritores, independentemente do seu êxito mediático ou editorial? Tudo isto é vago, é névoa, é escapatória. Ou talvez apenas falta de criatividade e de ideias. Sousa Tavares, pessoa que admiro enquanto jornalista, comentador e escritor, derrapa onde não poderia derrapar: que «a língua portuguesa não facilita». Com efeito, é tudo menos o que se esperava da imensa riqueza da língua portuguesa, das alternativas que fornece para o tratamento narrativo ou especulativo de uma sequência implicando, mais ou menos directamente, o sexo. Para descrever o peito de uma mulher, o que faltará a Sousa Tavares? E quem se sujeita, enquanto artista da palavra, a descrever apenas seja o que for?

José Rodrigues diz que em arte não há regras, que ela é inerentemente subjectiva. Podemos inferir que ele deixa a questão ao arbítreo do leitor, o que não é de todo desinteressante, defendendo-se com a chamada subjectividade da arte. Um quadro ou um livro são objectos de civilização, denotam caminhos mais ou menos abertos. A relação da palavra com o sexo é para ser assumida sem escapatórias, nem por inexistência de regras, nem por muralhas de subjectividade. Henry Miller dizia o que dizia e há dias morreu um escritor português a quem a realidade sexual da sua própia condição abria fendas nas defesas cravadas a fogo, pela Inquisição, no inconsciente clectivo. Para além disso, as alternativas não faltam, sobretudo em português.

Margarida Rebelo Pinto diz que pode ser crua mas que nunca tem medo das palavras. Aceita cair em coisas vulgares porque acho que não vou lá parar. Aqui está um caso, assaz conhecido, e onde os lugares comuns abundam, segundo certos leitores. Ter medo das palavras não é defeito, usá-las mal, sim. Esta escritora tem compromissos legíveis com o seu público, mas quanto mais complexa é a relação da palavra com o real, mais liberdade, criatividade e rigor tem o artista de usar. Em geral, a aproximação literária da realidade sexual, da sua expressão, da sua visibilidade, é feita com as regras do autor, com a violência ou a brandura do seu discurso, mas não em termos que empurrem para debaixo do tapete o lixo das suas dificuldades, das suas vulgaridades.

Francisco José Viegas, na sua frontalidade, mostrando-se desinibido, acaba por fornecer uma opinião legível e não esquiva. Por mim, não diria que «se fode mal na literatura portuguesa». E o medo nada teria a ver com a palavra. É que, numa língua onde o brejeiro e o trágico tiveram intérpretes superiores, a afirmação de Viegas é falaciosa. Pode falar-se em pudor e escassez de situações como as indicadas, mas a escassez não é fraqueza, é medida, é ritmo, sobretudo quando associada a um pudor criativo na dádiva e na entrega, nunca o que as forças religiosas inculcaram nos adolescentes, ainda há pouco tempo no tempo e apesar da pedofilia tratada eufemisticamente como abuso, em vez e sim como revelação da condição humana.

Frederico Lourenco não quer cair na obscenidade, na pornografia. «Se escrevo sobre sexo, diz ele, refugio-me na conceptualização». Ora aqui temos um comportamento bem da inteligência portuguesa: refugiar-se, conceptualizar. Se não há tradição na literatura lusitana a propósito da temática do sexo, é porque vivemos todos, durante muito tempo, castrados pela censura a todos os níveis e por obediências académicas afinal obscenas.

Talvez seja oportuno citar, para nós, o afrontamento de Christopher Hitchens a propósito das razões a montante daquelas indecisões de expressão: «Sabe-se agora com segurança que a ligação entre a saúde física e a saúde mental está fortemente ligada à função, ou disfunção, sexual. Será, então, coincidência que todas as religiões reivindiquem o direito a legislar em questões de sexo? Os crentes sempre reivindicaram o monopólio neste âmbito para imporem restrições a si mesmos, uns aos outros e aos não crentes. (...) Violenta, irracional, intolerante, aliada ao racismo e ao fanatismo, investida de ignorância hostil ao livre exame, desdenhosa das mulheres e coerciva com as crianças: a religião organizada devia ter muito a pesar-lhe na consciência.» É boa altura para perguntar como se descreve a hipocrisia das velaturas castrantes e obscuras lançadas pelos vários poderes sobre tantos escritores portugueses contemporâneos.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

NA MORTE DE LUIZ PACHECO | 1925-2008


comunidade

Luiz Pacheco

O MAL-AMADO NA VIDA
E BEM-AMADO NA LITERATURA


Faleceu no dia 5 de Janeiro de 2008 (sábado) o escritor Luiz Pacheco. Comprei hoje o «Público», não propriamente para confirmar a notícia, mas para saber como os contemporâneos deste artista maldito teriam abordado, para a História, essa personalidade, a sua obra curta mas apontada a todos nós para lá da ferida, como um grito sarcástico e libertário. O jornal (este) cumpre o seu dever e a paginação sublinha-o. Sob a caixa alta do título A VIDA SOLTA pode ler-se: «Já era livre muito antes da liberdade do 25 de Abril. Foi livre na cama-jangada de Comunidade, onde chegaram a ser cinco corpos enroscados. Luiz Pacheco respirava com todos esses pulmões. Foi o primeiro escritor da sua própria vida e o primeiro editor de muitos grandes». Mais sóbrio, mas com largueza, os textos do «Diário de Notícias» dedicados a Luiz Pacheco têm como título o título aqui citado.
Embora não tenha sido um dos seus amigos chegados, aqueles que lhe ofereciam bacalhau e lhe aproveitavam gostosamente o resultado disso, tratando-o também, pelas urgências, das grandes crises de quase morte resultantes de um alcoolismo exacerbado. Crises donde ele saía rejuve- nescido (seria pior se fosse ressuscitado), entrando no restaurante onde se fazia tertúlia, o célebre 13, com um espantoso teatro juvenil. Foi daí que o conheci inicialmente. Ele achava-me porventura muito novo junto do seu grande amigo Vitor Silva Tavares, escritor que passou pela Ulisseia, para quem trabalhei, e de quem sou amigo já ausente mas verdadeiramente disponível. Claro que o Luiz me pedia os habituais «vinte paus» e eu oferecia-lhe a nota, ao que ele respondia «tão espertinho e bem comportado, e tão amigo logo à primeira». Falámos sempre circunstancialmente, na Brasileira, no Chiado, na tasca. Mas eram coisas curtas. E de nada valia apontar-lhe amoralidades, «venda temporária de um filho» e outras coisas acima de qualquer regra social ou filosófica: ele transportava consigo a experiência cega da liberdade, a própria libertinagem, despojado do respeito pelas fronteiras do regime, e escrevera para sempre esse texto já mítico Comunidade. Grande testemunho, sem dúvida, da sua forma de viver a certa altura, o amor pelos oito filhos insustentáveis, uma vida de calor e de gelo, de miséria, entre a asma, o alcool e o tabaco, sem emprego, sempre a bater no fundo, sempre ajudado contra aqueles que o davam como doido e moralmente inclassificável.
Com preguiça ou assim-assim, escrevia em direcção aos alvos certos, ele próprio, obra que troca a essência do indivíduo marginal pelo comportamento correcto da chamada sociedade organizada mas torturante. Num trajecto surreal, de assombro, Luiz Pacheco fundou a «editora» CONTRAPONTO, através da qual se publicou e publicou vários autores que vieram a honrar, como se diz pela etiqueta, as letras portuguesas. O «Público» apresenta uma página carregada de vários títulos vincados, velhos livros já, de súbito quase impensáveis: «Comunidade», «Prazo de Validade», «O Caso do Sonâmbulo Chupista», «O Teodolito», «Memorando, mirabolando», relendo-se na conhecida obra «Crítica de Circunstância» (Editora Ulisseia), «Cesariny», «Textos Malditos», «Libertino Passeia Por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor»-obra esta no cume das mais controversas que escreveu, viagem ao fundo da lucidez cruel e degradação do homem, tantas vezes omitida com expedientes vagabundos. A oferta de si em pleno nojo, ora se fazia assim, ora passava pelos dias em que, meio apodrecido, das unhas e dentes, da pele, do cabelo ralo, submerso no alcool e no delírio da provocação, rindo dos próprios amigos/inimigos.

sábado, dezembro 29, 2007

A MORTE INESPERADA DO PINTOR MIGUEL D'ALTE

a película sensível dos sonhos solidários
é agora confirmada pelo seu negativo solitário

*

Solidário como é próprio dos artistas na sua mais genuína identidade, solitário também na condição que o trabalho criador impõe, o pintor Miguel D'Alte, a meio do seu empenho em demover os silêncios que o envolviam, faleceu abruptamente ao ser colhido por um combóio e na própria véspera de Natal. Terá sido cremado no dia 28, sexta-feira, no Cemitério do Prado do Repouso, no Porto. As suas cinzas são depois lançadas no rio Minho, segundo as informações obtidas através da Cooperativa Árvore. Miguel D'Alte, com 53 anos, morreu a 24 de Dezembro na altura em que atravessava a linha do Norte, junto ao apeadeiro de Francelos, em Gaia, pela hora do entardecer. O artista teve morte imediata. Miguel D'Alte nasceu em Braga, em 1954, e realizou o Curso Geral de Pintura da Escola Superior de Belas-Artes do Porto. Apoiado pela Cooperativa Árvore, entre 1992 e 2000, participou pela primeira vez numa exposição colectiva em 1975. A peculiar natureza do seu sentimento sobre a vida manifestava-se no gosto pelo lado factual da obra. Daí teria de nascer o seu testemunho, o reconforto que alimentava para depois, no silêncio. Há esquecimentos indevidos que parecem antecipar a morte

obra de Miguel D'Alte

quinta-feira, dezembro 27, 2007

A GUERRA DOS MUNDOS




A ficção científica, quer no domínio da literatura quer no âmbito do cinema, é um campo no qual o nosso imaginário reune sonhos, anseios, apelos de superação tecnológica, a aventura da expansão do homem no espaço, em parte o mesmo que aconteceu na própria terra, em ordem à descoberta de novos mundos, eventualmente de outras gentes. Mas as escalas (já colossais) da época dos Descobrimentos logrados por Portugal, eram, apesar de tudo, conquistáveis. No espaço cósmico o problema põe-se de outra maneira e o Mundo já teve a oportunidade de assistir ao vencimento da distância da Terra à Lua, numa nave tripulada por homens, façanha que se repetiu em todo o Projecto Apolo e permitiu encarar como eventualmente possível atingir outros astros, porventura com base em forças de impulso maiores e não só quase exclusivamente dependentes das leis gravitacionais.
Muito antes desta visão das coisas, Júlio Verne foi pioneiro, abrindo largos caminhos para autores como Bradbury, Cooper, H. G. Welles. A obra deste último, largamente aproveitada pelo cinema nos anos 50 e já no século XXI, torna arrebatadora a emergência de civilizações poderosas, vindas do espaço, em geral imbuídas do espírito de conquista e ocupação de novos astros - nada que não se assemelhe às viagens que fizeram o homem aportar à Índia, ao Brasil, à América do Sul, dizimando as gentes e a grandeza de crenças que os povos locais alimentavam, Maias, Incas, Índios. A GUERRA DOS MUNDOS, de H.G. Wells, mostra uma civilização hostil que procura arrasar toda a construção humana, a fim de aqui se instalar, fundamentalmente em virtude dos seus habitats estarem moribundos. O filme dos anos cinquenta é invulgarmente bem inventado e desenhado para a época e deixa-nos, de forma indelével, uma assombrada imagem de insegurança. Recentemente, Spielberg, numa das suas mais seguras realizações, seguindo de perto as hipóteses do género e do próprio livro, conseque tornar visível, na própria bruma da percepção e do medo, sob a noite e as vagas de pânico, a emergência do escondimento de seres incorporados em máquinas (algo biológicas) de grande porte, assentes em tripés como pernas de monstros remotíssimos, embora senhores de uma orientação pragmática e cabeças colossais, insuperáveis pelos meios terrestres, que tudo destruíam de forma metódica, quase majestática. O design de todos estes equipamentos, a movimentação, as radiações pulverizantes, tudo acontece no filme de Spielberg como se estivéssemos a ver na televisão uma ctástrofe em várias frentes, estradas destruídas, milhares de mortos, cidades imensas reduzidas a escombros.
Na sua impotência, o homem usa todos os expedientes para sobreviver, o que, a médio prazo, seria impossível. Mas o Universo encerra também uma lógica ofensiva e defensiva, ecosistemas inalienáveis. Sem defesas naturais no nosso meio, alimentando-se de tudo e dos corpos humanos que captava na maior das humilhações, os grupos activos dos alienígeos contrairam doenças graves e irreversíveis, a morte pela peste, numa simbiose entre figurinhas perversas e equipamentos biónicos tão altos como a Torre Eiffel. Ninguém se livra, ao ver este filme, perante imagens insuperáveis, entre o horror e a plasticidade, da imensa tragédia do ataque às torres gémeas, em Nova Iorque. O horror que o cinema tem pintado em obras como aquelas parece decorrer do fundo perverso da nossa própria mente.

















Os sobreviventes desta extraordinária prova de vida no Universo, espalhando-se e reorgani- zando-se pelo planeta, muitos deles certamente com a esperança de um comportamento mais preventiva e criadora, entregaram as suas derivas de sonho, de recuperação, à nova paisaem e às novas gerações.

terça-feira, dezembro 25, 2007

O IMAGINÁRIO DA ARQUITECTURA ATRAVÉS DA PINTURA

pintura de Nadir Afonso

Em termos gerais, pelo modo de construir e compor, a pintura aqui presente, «Procissão de Veneza», de Nadir Afonso projecta com integral propriedade o clima coerente de toda a sua obra plástica autor, aquitecto por formação. Não foi intencional esta divulgação de uma peça entretanto integrada numa exposição do artista. Aproveitei essa mesma notícia e esta reprodução para reiterar publicamente aquilo que suponho ser a raiz arquitectónica das obras pictóricas do autor, mesmo as mais abstractas, contra o que ele teimava em afimar há anos - a certeza de que nada havia da sua formação prática, enquanto arquitecto, nas pinturas que realizava. Essa «filiação» nada o deminui, pelo contrário, e a verdade é que, abrindo espaços pequenos à bem sustentada ilusão de imensas construções urbanas, rasgadas em horizontais e oblíquas, pontuadas por planos verticais, dificilmente se pode negar a quase primeira percepção do espectador.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

ARTISTAS PORTUGUESES CONTEMPORÂNEOS | Raúl Perez


Raúl Perez, nascido no Minho, em 1944, realizou a sua primeira exposição individual aos vinte e oito anos. Já veio encontrar praticamente concluída a arrumação das artes, os seus canais de influência e lugares de ancoragem, tudo temperado com molho francês e recentes especiarias da América, entre as culturas a Ocidente e um espaço a Leste, sobretudo depois da queda do muro de Berlim. O currículo de Perez dilatou-se rapidamente. E, na galeria de S. Mamede onde agora expõe a sua última produção, foi assinalado pelos eruditos. Cruzeiro Seixas, na pose da etiqueta surrealista, dirá em jeito de chancela institucional: «Nas suas telas só aparentemente o edifício é tão-somente um edifício, a coluna uma coluna como qualquer outra, o buraco um simples buraco que sugira rato humorístico ou presença erótica. Vazio, ruína, negrura, solidão que são representação de gentes que conhecemos -- e de nós próprios. Praças e ruas, vejo-as povoadas, embora sejam Inverno». Estas palavras traziam o fio da invenção surrealista, a poética dos nomes e o non-snse da paisagem. Para que a actual obra de Perez, belíssimos desenhos de um imaginário ligados a uma espécie de vida alienígena, se garantisse desde ontem. São sonhos transformados em aparência e substância É o inconsciente e expelir uma antiguidade humana indeterminada. Ninguém citou Breton (cuja voz papal influenciou o surrealismo em Portugal), nem Cesariny que, não querendo ser bispo em França nem no nosso país, ficou em cardeal dos criadores portugueses neste sinuoso movimento à medida que o tempo passou. O próprio Cesariny, achando que o surrealismo é quase um buraco negro que tudo absorve, fez-se pintor, entre palavras recomeçadas.
Raúl Perez mostra-se, mais do que nunca, fiel a uma ideia ortodoxa (no melhor sentido) do imaginário surrealista: porque, ao viajarmos pelas suas construções de gente nenhuma e os seres que faz passear de modo absurdo, é a mão hábil que burila a lápis ou tinta uma filigrana do próprio sonho.





obras de Raúl Perez, de pequenas dimensões e sem título