CITAÇÃO
No mundo em que vivemos, o aquecimento global, a poluição e o degelo são alguns dos sinais que reflectem o nosso impacto no planeta e nos fazem recordar a nossa responsabilidade ambiental. A percepção de que a rentabilidade das empresas depende de um desenvolvimento sustentável, a sensibilidae dos limites e potencial do crescimento económico, seu choque na realidade natural, passam necessariamente pelo ecodesign dos produtos bem como por equacionar a utilização dos materiais resultantes dos próprios processos de reciclagem.Palavras que se inseriam em muitos discursos do século XX, como se fosse possível conservar a raiz do mal sem trabalhar a sua raiz, o comportamento e a lógica da acumulação em sucesso. O problema, em última instância só poderia ter passado pelo redireccionamento do desejo, pela contração em ordem ao essencial, pelo fortíssima mudança dos objectivos de toda a sociedade.pequena reflexão para ficcionar
A fase de agravamento das condições ambientais do planeta Terra só foi devidamente pressentida por astrónomos do século XIX, alguns visionários, outros criativos, como Flamarion, e por muitos cientistas, astrofísicos, geólogos, especialistas de oceanografia.
Hoje acabou a agonia de Indonéia. Dela apenas flutuam nas águas alguns destroços que parecem subitamente muito antigos, animais, aves perdidas do céu e dos ramos das árvores, milhares de corpos humanos semelhantes a bóias inchadas, encalhando aqui e ali, já em decomposição e sem nenhum auxílio em volta, ao invés do que acontecia quando as catástrofes, no século XX, pareciam ainda pequenas, domináveis, superadas por grandes massas de auxílio e reconstrução. O céu -- dizia um jovem astrónomo inglês na sua noite de embriaguez -- está decididamene desordenado. Já contei oito cometas em oito dias, um erro colossal não sei porquê, pois nem sequer se previa qualquer fenómeno desse tipo para esta altura, no quadro da cartografia cósmica que controlamos.Em maio de 2147, o Hublle10 e o observatório lunar 538C, sincronizados depois das fotografias iniciais resolvidas através do primeiro daqueles aparelhos, registaram em centenas de fases e angulações, aquilo que terá sido, há biliões de anos, a fase terminal do choque entre duas galáxias. Não me sai da cabeça esse fabuloso acontecimento, apesar das pesquisas actuais e das eventuais vias de passagem para outros universos. Aquela tragédia então fotografada, lindíssima, precisou de muitos milhões de anos para atingir tal limite, tal ponto, o que vemos ainda todos os dias, numa extensão interminável de anos luz, algo que está chegando aos nossos olhos frame a frame e que nunca passará disso antes da nossa morte na relatividade das escalas, do espaço e das massas, nas virtudes de velocidade que, embora perto da deslocação da luz, só os atingiu em convulsão (calcula-se) depois de um milhão de anos. Na «Nave da Esperança» que deriva por impulsos gravitacionais, pensamos na nossa galáxia, aparentemente protegida em longa estabilidade, e no entando sabemos como as estrelas explodem aqui e além, enquanto os planetas com vida que eram estudados numa fase crítica já tinha morrido há mais de um século.Quando a bela Veneza se afundou, os sobreviventes da catástrofe universal ainda lá foram em pequenos grupos.O testemunho desses visitantes parecia patológico e a sua própria vida já perdida. Deixavam-se arrastar em novos barcos accionados por baterias, contornando as varandas, vogando ao acaso, olhando longamente as cornijas e os telhados sombrios. Para esses lados parecia não haver as intempéries e derrocadas de países como os Estados Unidos da América nem a imensidade dos lagos que lá surgiram, todos os dias chupados pela terra empapada. Mas estas coisas, tendo em conta a velocidade imprevista dos acontecimentos, criavam condições nunca imaginadas e outras exigências de resposta. Os bombeiros de Nova Iorque, por exemplo, deslizando em embarcações próprias nas ruas transformadas em rios, onde os arranha-céus haviam atingido a natureza aparente de anões, raramente tinham de acorrer a fogos. Ao contrário, e sem ilusões quanto ao nível das águas, haviam apurado métodos e tecnologias para acudir a imensos desabamentos, vítimas ou suicidas, gente impreparada para a situação e não raras vezes afogando-se após horas de resistência com as mãos enclavihadas em cabos e pontas de cartazes desactivados.Hélder Spínola
O aquecimento do planeta, tropicalizando a Europa e outros locais de latitude idêntica, trabalhava num verdadeiro paradoxo com a descida dos gelos, cidades inteiras como transatlânticos brancos dirigindo-se para sul. O branco imperava em toda a parte, tornava o apocalipse de uma alvura aparanetemente salvadora.
Metade do planeta já se afundou em imensos oceanos de lava branca, contra um céu branco, de nuvens altíssimas, a par de invernos curtos e absurdos. A Indonésia soçobrou por fim. A Rússia morre de frio, sempre branca, com a população reduzida a um terço. De um lado e do outro da antiga cortina da guerra fria já não é possível accionar os silos onde hibernam os grandes misséis intercontinentais. Não já verdadeiros suicídios colectivos. Os homens suicidam-se em solidão, sabem enfim que esse é, como dizia Camus, o único problema filosófico ainda convocável
sábado, maio 19, 2007
APOCALIPSE BRANCO
terça-feira, maio 15, 2007
ARTISTAS PORTUGUESES | Ana Maria
segunda-feira, maio 14, 2007
PÁGINAS DE VIAGEM
Com uma exposição presente na Câmara Municipal das Caldas da Rainha, Taraio dá-nos oportunidade de divulgar um exemplo esplendoroso da sua pintura, entre ambiguidades representativas que nos obrigam a uma saborosa decifração entre imagens antropomórficas ou frutos e tubérculos, na mais genuína das naturezas mortas. Eu não sou decifrador. Observo e conheço as regras internas, os «códigos» desta oficina soberba, tão desdenhada hoje em nome de todas as infâncias perdidas ou de todas as adolescências frutificadas. Esta é um talento frutificado.
segunda-feira, maio 07, 2007
AS INSTALAÇÕES DOS INSTALADOS
instalação de Nuno VasaA revolução das artes durante todo o século XX, apesar das duas guerras mundiais ou talvez por isso mesmo, gerou movimentos teóricos sobre a forma plástica, a mobilidade visual e os modos de realização prática. Os museus da arte antiga, de importante significado para historiadores, antropólegos, sociólogos, técnicos de conservação, entre outros, foram ficando na rota turística e dos estudiosos. Os valores estéticos mais estáveis acabaram também por ser abalados em virtude de transformações formais inusitadas. É verdade que, a princípio, modos de formar como o dos impressionistas, conservavam a densidade pictórica, dilatando-a pelo espaço óptico, tornando-se laica, embora ainda apoiada na relação entre olhar e ver, tendo a percepção, aqui, um papel decisivo. Começa então o caminho da mudança, por se julgar que, em boa medida, as coisas representadas se pulverizavam no espaço, atravessando a consciência, a razão e as emoções. Se a qualia da pintura era a cor, eis o que importava colocar no centro da polémica, procurando definir as estruturas dessa linguagem. O que não é tonto de todo e depressa se tornou um acto redutor, no convencimento de que, antes de tudo, importava (além do ponto) entender o plano (campo) na sua geometria óbvia e na secreta, a linha e o seu comportamento, a cor e as variações dos valores lumónicos, a espessura ou textura das matérias dispostas na superfície. Este despojamento intelectual foi tornando crível o processo da cebola, a obra substantiva, calibrada, em camadas construtivas, ganhava verdade quando se limpavam as cascas e camadas expeteriores até se revelar pequena e regular - um termo absoluto mais revelador da essencialidade das formas do que ds seus trajes e adereços. Assim se limpou tudo e se orientou a nova cultura para as virtudes do movimento, como no futurismo, ou para o salto sobre as aparências, para o outro lado do visível, entre registos simultâneos de vários pontos de vista, como mo cubismo. Até à tela branca e ao rasgão laminar que Fontana lhe aplicou..Mais tarde, o pouco sabia a pouco e os novelos permitiram recuperar o esplendor das antigas tapeçarias e a distorção expressiva das figuras, como em Bacon, fazia-nos regressar à aproximação do real, não por simples sentido mimético, mas na validação expressionista dos efeitos protoplásmicos da matéria distorcida, esses flashes que tantas vezes nos assaltam aqui e além. Novas práticas simultaneamente construtivas e desconstrutivas atravessaram o universo da criação artística, enquanto os autores mais insatisfeitos começavam a geminar outros processos, matérias, materiais, levando a pintura e a escultura para um espaço absurdo, por vezes vagamente arquitectónico, com máquinas imóveis ou animadas, no uso de restos da civilização industrial, ferros, madeiras, aço, e, por outro lado, restos humildes do cultivo da terra, um ramo ou uma flor no topo de um monte de areia dentro da galeria. Ou só areia para nos impedir de disfrutar «de dentro» o assentamento de pequenos cristais. Este é o domínio, agora novamente em voga, das instalações, formação com base em processos híbridos, mais ou menos complexos. E aqui chegamos a uma exposição da galeria SOPRO, onde se apresenta a impositiva instalação de Nuno Vasa. Latas de tinta, de dimensão variável, acumulam-se no espaço, embargando substancialmente a entrada. «Impedidos de entrar ou sair - diz Pinharanda - somos, mais uma vez, na genealogia de obras de Nuno Vasa, confrontados directamente (mas agora numa situação inesperada fornecida pela liberdade de expressão da arte contemporâmea) com a angústia tipificada do artista tradicional: a metáfora do espaço branco esperando uma qualquer inscrição ou rejeitando toda e qualquer representação. «Acto», assim se chama o acto, é uma lata de tinta branca entornada na fronteira entre o interior da galeria e o seu acesso exterior - impedindo qualquer entrada ou saída. De novo se estabelece uma forte relação física entre a acção da obra e o espectador». Não é uma relação feliz e nem sequer agressiva. É um adiamento. Um acto académico (de hoje) que adverte o espectador de duas coisas possíveis: imaginar sentidos ou voltar criativamente para casa.
domingo, maio 06, 2007
TÚMULO DO MALOGRADO D.SEBASTIÃO
segunda-feira, abril 30, 2007
ARTISTAS PORTUGUESES | António Gonçalves
domingo, abril 29, 2007
ARTISTAS PORTUGUESES | Jorge Abade
A ORDEM NATURAL DAS COISAS
sábado, abril 21, 2007
PRESENÇA DA PINTORA ISABEL SABINO
Isabel Sabino, pintora pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, onde lecciona, tem já um importante currículo e uma participação superior nos estudos das ciências das artes, com trabalho de pesquisa teórica e prática, participação em publicações de carácter ensaístico, a par de desenvolvimentos no domínio das metodologias ligadas às disciplinas de índole artística. Tem desempenhado cargos de relevo na Faculdade e dedicado um esforço sensível sobretudo na pintura. A sua obra plástica resulta de uma espécie de convergência de várias aprendizagens, as quais se juntam à resolução da forma, entre uma certa nostalgia da representação antiga e os elementos fracturantes do processo e do conteúdo relativos à forma plástica em si ou indicidora de referentes diversos. O tempo marca o que resta disso em paisagem, no sonho e na memória da vida humana, das suas marcas, dos seus lugares, numa arrumação falsamente empírica das coisas e dos seres, como aliás se depreende em parte no quadro recente aqui publicado.
sexta-feira, abril 20, 2007
FAVELA PARA SAMBAR E PARA MORRER
quinta-feira, abril 19, 2007
BAGDAD, ALGUNS DIAS MAIS TARDE
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reconversão de uma fotografia editada pelo PÚBLICO
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Cerca de dois dias após ter sido publicada (aqui) uma fotografia documentando a existência, a sul de Bagdad, de um cemitério de destroços de carros-bomba numa área de 5 kms quadrados, é anunciado mais um desses atentados, na mesma cidade e no Mercado Al-Sadriyah, com a morte imediata de aproximadamente cem pessoas, numa contagem que terá aumentado em virtude dos feridos muito graves. Apenas seis atentados, só na zona da capital, mataram mais de duzentos indivíduos. As forças americanas limitam-se sobretudo a uma situação de patrulhas, abrindo por vezes rusgas mais ou menos aparatosas. Mas, enquanto se espera por uma nova estratégia, o exército estrangeiro que ocupa o Iraque, ocupa-se difusamente das margens. Entretanto, e para comandar as acções anunciadas, o país foi entregue ao general Petraus, ao que parece muito experimentado nesta linha de interveções militares. Tudo isto é estranho e desconfortável, pois o general só poderá dispor de um novo contingente para operar lá para meados de Julho, embora o plano tenha começado há mais de dois meses, com resultados pouco significativos. aquém dos objectivos traçados. E quem sabe se esses objectivos, para um futuro sem nome na área, terão alguma vez um rosto?
segunda-feira, abril 16, 2007
A GUERRA DOS MUNDOS
domingo, abril 15, 2007
CRÓNICA CONVENTUAL DAS VELHAS ARTES
EXCERTO DAQUELE LIVRO DE ROCHA DE SOUSA
A promiscuidade que se vivia no labirinto de terrenos e barracões, entre pintores e escultores, contraditórios na teoria e no fazer, mas condenados a uma partilha sem nexo, gerava, em todo o caso, alguns frutos surpreendentes. Nas oficinas de grandes dimensões, apodrecendo pelos travejamentos superiores, as peças tentadas, contudo, decorriam de uma realidade assim, da moleza inicial e propiciatória do barro, certamente, entre as esperas debaixo de plásticos tendo em vista minimizar os efeitos do tempo -- e eram veredas ladeadas pelos cavaletes, tulhas de argila, bancadas e maços sujos, guindastes de arrasto, pranchas móveis, espátulas, formões, goivas, instrumentos para afeiçoar ou cortar a pasta de argila. Tudo isso, nas diferenças e nas semelhanças, colava-se ao atelier próximo, cheio de enormas telas com manchas de trincha, figuras oitocentescas geminadas aos símbolos da pintura pop, cujo léxico era mais americano do que português, e os passos e batas em volta, milhares de manchas de cores numa espécie de harmonia por antítese, objectos velhos, inorgânicos, por vezes composições tridimensionais, proibitivas, formas com passagens da madeira ao ferro, ou telas fingindo cartazes de touradas sangrentas, de mistura com os rostos sedosos da perfumaria capaz de cativar (em offset e paradoxo) o nosso próprio olhar, pele, desejo, nostalgia de gente perdida nas adolescências da periferia social. Recortes também. Citações. Quadros pendurados uns por cima de outros nas altas paredes da sala, um cheiro a óleo e vernizes, este era um mundo também confuso pela falta de espaço, pela desarmonia dos tipos de cavaletes e de outros equipamentos, pelos lavatórios entupidos, baldes de socorro, um oceano de pinceladas nas camadas de tinta branca ou cinza que cobriam quase por inteiro as faces internas dessa espécie de cubo com um janelão de quatro por cinco metros, de ferro e vidro, solução imprópria, porque demasiado rígida, produzindo tanto um clima de estufa como a pulverização do famoso efeito de catedral.
sexta-feira, abril 06, 2007
EXPOSIÇÃO ARTE E PROPAGANDA
propaganda, lazer, famíliaExposição de artes plásticas numa «perspectiva crítica que procura semelhanças e diferenças entre diversas formas de discurso persuasivo em regimes democráticos e totalitários.» Nuno Galopim deu-nos, na revista do Diário de Notícias, interessantes orientações sobre este acontecimento. As linguagens comparadas (sobretudo visuais) coincidem, no tempo, com a Alemanha de Hitler, a Itália de Mussolini, a União Soviética dem Estaline e os Estados Unidas de Roosevelt. O projecto é tentar dar a ver o uso dessa linguagens em favor da disseminação de ideias políticas, antes e durante a II Guerra Mundial. A aprendizagem académica tem aqui muitos reflexos, projectando formações representativas que os autores podem aproveitar no sentido do enaltecimento de uma personalidade ou de um regime. O modo como os líderes, por exemplo, são apresentados transcende (mesmo na imitação) a sua natureza menos profunda, eventualmente epidérmica. Um retrato de Estaline pode sugerir uma bonomia (falsa) diferente da força intrínseca do cartaz onde Roosevelt nos olha com determinação mas sem estigmas desviantes. O retrato escultórico de Mussolini, de Renato Bertelli, sugerindo uma liberdade futurista inovadora, consegue explicar-nos melhor a personalidade em causa do que qualquer cópia, pois arrasta uma simetria rotativa avassaladora e claríssima quanto à identidade dos perfis, coisa omnipresente seja qual for a posição que tomemos perante ela na perspectiva da percepção. Hitler, vítima de uma enfatização panfletária, acaba por nos parecer um tigre de papel, aliás pela própria simbologia e técnicas usadas. Galopin, na cuidada abordagem que apresenta no seu texto, diz, a certa altura, que entre oa quatro pólos retratados há espantosas afinidades apesar das, por vezes, enormes distâncias que os separavam. O culto do corpo, na Alemanha, não foge do russo, se bem que no primeiro caso esta via seja usada em favor de mensagens e ordem, militarismo, e lazer familiar. Apologias da conquista do trabalho e dos desportos, celebração dos feitos da tecnologia americana, são planos que acabam por se assemelhar aos dos soviéticos. O carisma dos líderes é explorado de diferentes maneiras e um fim idêntico, aliás como parece notório entre Mussolini e Hitler, ou mesmo Estaline. Há depois uma série de aspectos decorrentes da perspectiva ideológica e cultural das áreas tratadas, quer em termos sociológicos e psicológicos, quer em termos éticos ou políticos, eventualmente encarando uma procura no sentido da deontologia, como acontece com outros criadores. O que parece ressaltar desta via, a par de outras que têm sido desenvolvidas, é a confirmação de que a arte não tem, como função intrínseca, ilustrar ou exaltar aqueles valores, o que não impede muitos atistas de se deixarem ficar reféns de tais contextos e amarras. O Século XX, no processo da sua revolução artística, tornou visível essa concepção libertária da arte numa ordem consequente de autonomia. Mas não se pode fazer deste caminho um campo operatório redutor, nem discriminar para a sombra obras superiores embora ligadas a directivas que a modernidade colocou no index. Podemos, com efeito, avaliar a grande qualidade de peças tratadas sob qualquer jugo, o que por vezes acontece e acaba por pairar sobre o mundo de forma surpreendente e quase encantatória. Por isso aqueles líderes sabiam escolher os operadores que conseguissem os bons resultados sem reserva deontológica, dedicados ao fazer e alheios ao zelo ético na contingência do mundo. Esta indiferença continua a verificar-se, de certa maneira: a arte não toma partido, isenta-se da dor em volta ou mesmo do horror genocida. Diletante e acima das batalhas, os artistas podem morrer numa escaramuça de rua mas no atelier são sacerdotes de uma autonomia mais ou menos inerte. Salvam-se os fotógrafos porque a sua arte só tem verdadeiro senntido no seio da realidade: se o seu testemunho combatente não existisse, nem saberíamos metade do apocalipse que nos rodeia, o que se revela verdadeiramente inquietante e se agrava com o funcionamento alienante das televisões, apesar de não lhes puder ser indiferente os 11 de Serembro que talvez se aproximem em repetição, como nos espectáculos tão desejados pelas multidões, e aparatosamente difundidos, com o futebol, pelos canais do bigbrother que merecemos.
BONECOS FEITOS EM NOME DO PODER
Schurpin* EstalineRenato Bertilli *«Perfil do Duce» 1933
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à esquerda Hitler Hubert Lanziger * à direita cartaz, Roosevelt James Flagg.Esta «amostragem» acompanha um excelente artigo de Nuno Galopin a que nos referiremos depois.
Uma perspectiva crítica que procura semelhanças e diferenças entre as diversas formas de discurso persuasivo em regimes democráticos e totalitários
quarta-feira, abril 04, 2007
BREVE OLHAR SOBRE A OBRA DE FARRERAS

Excerto do texto do catélogo da exposiçãp aqui assinalada, prefácio de Francisco Cano
segunda-feira, abril 02, 2007
OS GLOBOS DE OURO E A SUAS OMISSÕES
domingo, abril 01, 2007
NEM CORPO NEM ALMA, O BAPTISMO

Ainda não é a coluna madura de uma árvore, não fabrica
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extracto do poema DO MONDO, de Herbet Helder (POEMA CONTÍNUO)
terça-feira, março 27, 2007
O REGRESSO DE SALAZAR
A RTP, enquanto Serviço Público, diz ciclicamente zelar por melhor informação, mais cultura e entrenimento q.b. Entre outras coisas que não se passam dessa forma, a RTP defende o critério de comprar direitos de autoria sobre programas do exterior, podendo adaptá-los ao contexto português. Desta vez lançou, com pompa e circunstância, um novo produto sobre a escolha do maior português, sempre através do voto democrático da população, em séries de eliminação e apuramento de uma base de cem personalidades. Quando se chegou à final (como no futebol) havia um conjunto errático de dez elementos, os quais foram estudados e tratados em filme, cada um por uma personalidade qualificada da nossa realidade sócio-cultural. E esse trabalho, com filmes dirigidos por cada um daqueles elementos, teve mérito e o debate final bem podia ser aproveitado para outras prestações.Mas o desnorte já estava lamçado desde há muito, entre votações assombrosas, enquanto os orientadores da TV insistiam que aquilo não passava de um entretinimento, de um concurso. Falou-se mesmo em passa-tempo. A verdade, contudo, é que não se brinca com coisas sérias. D.Afonso Henriques, Infante D.Henrique, D. João II, Vasco de Camões, Pessoa, entre outros, suportaram o serviço que lhes exigiam. Apesar do seu grande papel num país unido há muitos séculos e onde a escolha de uma personalidade que o nobilite, emblemáticamente, hoje a amanhã, não dever sair de um parto tão errático e tão acidentado. Enfim, a votação final do passa-tempo conferiu o primeiro lugar ao Dr. Oliveira Salazar, seguido de perto, em segundo lugar e curiosamente, pelo Dr. Álvaro Cunhal.As pessoas que acharam, por fé ou nostalgia, dever votar em Salazar são poventura as mais coerentes. Mas as outras que votaram, em hipótese perante o bizarro fenómeno, com o sentido para penalisar os governos desde o 25 de Abril, o próprio 25 de Abril, ou, quem sabe, por gostarem mesmo de voltar ao país dos «brandos costumes», devem sentir-se seguros da bondade da censura, da castração das ideias, de uma guerra em nome de um futuro pior do que sebastianista. Para os radicais até seria interessante rever uma viagem ao Tarrafal, eventualmente, com tudo pago e estadia por tempo indeterminado.Há quem pense que o resultado do famoso concurso, esta oferta de Salazar em bandeja de prata, é uma cínica brincadeira dirigida à Europa, um acontecimento histórico, passando a figurar nos livros de escola como exemplo de Portugal saber bem onde está -- com equidade perante os opostos, entre diferença e a semelhança.
quarta-feira, março 21, 2007
FOTO-FICÇÕES DE VICTOR BELÉM
homenagem ao poeta CAMILO PESSANHA |
Estas imagens correspondem a um género de pintura tecnologicamente inovadora, trabalhada pelo artista Victor Belém. Todas as obras da exposição onde se integraram estas peças se resolvia por completo com formas assim, que parecem decorrer de remotas memórias pop e psicadélicas, embora o autor tenha sido de raiz um experimentalista, irreverente na ruptura, perspicaz quanto ao meio e suas mimetizações. Victor Belém, pós dadaista, incandescente na provocação estética, produziu as mais diversas invenções, incluindo objecualismo e um certo abjeccionismo, misturando a pintura propriamente dita com o non-sense das formas, velharias, geminações absurdas, uma atenção crescente aos fenómenos sociais e políticos. A sua pluralidade edificadora haveria de marcar posições abertas a outros campos, fotografia, cinema, teatro, performance. A exposição, de valor itinerante, foi dedicada a Camilo Pessanha, poeta que Victor Belém admira, na justiça contra o esquecimento.
Camilo de Almeida Pessanha nasceu em Coimbra, em 1867, e formou-se em Direito naquela cidade. Durante toda a vida escreveu poesia, contos, crónicas, ensaios crítico literários e textos de carácter jurídico. Na sequência de um «desencontro» de amor, partiu para Macau onde se distinguiu em vários cargos e onde defendeu sempre os direitos dos estudantes chineses da zona. Republicano convicto, maçon, tendo mantido um contacto muito fecundo com o escritor Wenceslau de Moraes, partilha com ele convicções e afinidades intelectuais. Pessanha foi um sinólogo notável, traduziu poemas e lendas, tendo reunido uma extensa colecção de peças patrimoniais de relevo, colecção doada ao Museu de Arte Antiga e depois trasladada para o museu Machado de Castro. Dir-se-á que Pessanha foi um dos nossos poetas mal amados, mas nunca deixou de cumprir o seu destino cultural, vivendo um auto-exílio de trinta anos na distância da colónia a que se votou, ele que foi sem dúvida um notável sinólogo, traduzindo belos poemas e lendas, e foi também, porventura, o mais puro representante do simbolismo português, poeta da saudade, do país perdido, voluntariamente (mas sempre actualizado) exilado no Oriente._______________________________NB: a nota sobre Pessanha foi sintetizada de um dos textos do catálogo





