terça-feira, fevereiro 26, 2008
A DERRADEIRA OBRA DE ANDY WARHOL
quinta-feira, fevereiro 21, 2008
CIDADES E LUGARES SUBMERSOS, SEC.XXI
terça-feira, fevereiro 19, 2008
ESTAMOS PERTO DA NAVE DA ESPERANÇA
O MUNDO AINDA VIVE NA IDADE DAS TREVAS
No livro «deus não é grande», Christopher Hitchens assume um eloquente debate com os crentes, apresentando argumentos contundentes contra a religião e a favor de uma abordagem mais laica da vida, sobretudo pela leitura atenta e erudita dos textos religiosos mais importantes. São dele, a terminar aquela obra, as seguintes palavras:
A religião esgotou todas as justificações. Graças ao telescópio e ao microscópio, já não oferece explicação para nada importante. Antigamente, nos casos em que podia, por força do seu completo comando de um panorama mundial, impedir o surgimento de rivais, a sua decisão era impiedosa e assombrosa. Agora só pode dificultar e atrasar - ou tentar abrandar - os avanços mensuráveis que fizemos. É verdade que por vezes os admite astuciosamente. Mas fá-lo para poder escolher entre a irrelevância e a obstrução, a impotência ou a reacção imediata, e com esta escolha encontra-se programada para seleccionar a pior das duas. Entretanto, confrontada com panorâmicas internas nunca imaginadas do nosso próprio córtex em evolução, dos limites mais recônditos do universo conhecido e das proteínas e ácidos que constituem a nossa natureza, a religião oferece aniquilação em nome de deus, ou então a falsa promessa de que se levarmos uma faca aos nossos prepúcios, ingerindo bocados de pão, seremos «salvos». É como se alguém a quem foi oferecida uma fruta deliciosa e fragrante fora de época, amadurecida numa estufa feita com muito trabalho e amor, deitasse dora a polpa e o sumo e mastigasse taciturnamente o caroço. (...)
A prossecução da investigação científica, sem entraves à disponibilidade de novos achados para massas de pessoas através de meios electrónicos simples, revolucionará os nossos conceitos de pesquisa e desenvolvimento. Será imporante situar o divórcio entre a vida sexual e o medo, entre a vida sexual e a doença, e ainda entre a vida sexual e a tirania, passos que podem agora pelo menos ser tentados, com a única condição de banirmos todas as religiões do discurso. Tudo isto, e não apenas, estará pela primeira vez ao alcance da nossa história, porventura ao alcance de todos nós.
domingo, fevereiro 17, 2008
TARKOVSKY, UM CINEMA DO ESPÍRITO
NOSTALGIA
SOLARIS
O ESPELHO
IVAN
A obra fílmica de André Tarkovsky, gerada por um talento incomparável e um grande sentido de missão pela própria arte, baseia-se por isso mais nos valores do espírito do que na exploração das tecnologias que lhe são subjacentes. Trata-se de uma espécie de missão de fé, não no sentido religioso propriamente dito, até porque o autor não era homem de igrejas, mas no sentido humanista da mensagem artística, tendo em conta, de forma profunda, as questões da vida e da morte, o entendimento do ser na estranheza dos seus contextos reais e também simbólicos. A Rússia imensa e trágica emerge de filmes que ultrapassam o tempo, desenhando frescos transcendentes como «Rubliov», justamente um pintor do século XIV, falecido no convento Spasso-Andreievski, perto de Moscovo, entre os anos de 1427, 1430. É um personagem que se revela para além da bruma, cuja actividade se conhece mal, embora se saiba que o seu estilo, tocado pela pintura grega (bizantina) se desenvolveu e transformou no terreno russo, em termos de forte pendor idealista e simbólico. Para além da sua obra mais referida (o Ícone da Trindade), os dados sobre a vida e arte desta personagem invulgar desdobraram-se em referências erráticas ou mesmo de sabor mitológico. E falar dele aqui serve apenas para situar o filme que nele se baseia, «Rubliov», de Trakovsky, empreendimento cinematográfico fabuloso e cuja forma, por capítulos em perfeita harmonia, nos fornecem um grande fresco da época, dos conflitos, dos combates religiosos, da implantação quase mágica de grandes símbolos do fazer artístico, tudo numa densidade portentosa, por vezes barroca, sempre medieva, como que a perseguir, entre o ruído das tempestades humanas, o sentido da criação, a ascenção do espírito acima das terras húmidas e das cúpulas das catedrais. Porque, no fundo, esse filme contém desde logo a anunciação de Tarkovsky enquanto visionário, poeta, senhor de uma imagem com regras e acima delas, capaz de forçar todas as mordaças e gritar para sempre através do silêncio como instrumento superior. Isso já acontece em «Ivan» e estende-se a um grande amor pela imensidão do seu espaço, memórias que sobram à sua volta, figuras, parentes, ruínas, a nostalgia delas e o sacrifício por elas.
O cinema de Tarkovsky, ainda que travado inicialmente na Rússia, sobreviveu aos escondimentos e chegou até nós na decisiva aurora do 25 de Abril de 74, como se pudesse colar a sua reflexão sobre o homem à revolução precária que nos envolveu. Foi assim apontado na verdadeira grandeza que o caracteriza, contraposto aos impulsos da indústria cultural e colando a
quarta-feira, fevereiro 13, 2008
SACRIFÍCIO, de André Tarkovsky
quinta-feira, fevereiro 07, 2008
NA MORTE DE LUÍS RALHA, Pintor e Designer
segunda-feira, fevereiro 04, 2008
CARNAVAL OU A TRANSFIGURAÇÃO DO MEDO
BREVE VISITA À OBRA PLÁSTICA DO REI
PERFIL DE ANCIÃOsábado, fevereiro 02, 2008
O HOLOCAUSTO NUNCA ACONTECEU
sexta-feira, fevereiro 01, 2008
CARNAVAL E HOLOCAUSTO
quarta-feira, janeiro 30, 2008
O HORROR DO NOSSO DESCONTENTAMENTO
fotograma de uma violenta batalha da polícia de São Petersburgo, segundo cidade da Rússia, ao procurar travar manifestantes da oposição durante uma forma colectiva de protesto. (Alexander Demianchek)
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Estes documentos foram divulados pela agência Reuters
domingo, janeiro 27, 2008
OS MALES DO EIXO PORTUGUESMENTE

de uma obra de Ângelo de Sousasegunda-feira, janeiro 21, 2008
UMA CERTA IDEIA DO BELO
quinta-feira, janeiro 17, 2008
MEIA LUZ AO FUNDO DO TÚNEL
domingo, janeiro 13, 2008
FUMOS DE UMA AUSÊNCIA PEDAGÓGICA

sexta-feira, janeiro 11, 2008
O TUFÃO DA BARBARIDADE
Nairobi, lugar de todos os horrores. Noirobi, símbolo tardio de uma derrocada de sonhos, morte anunciada, segundo os mais cépticos, do próprio continente africano. Num tribalismo da dilaceração e da irracionalkidade, Luos e Kikuyos destruiram a este ponto muitas favelas da cidade, provocando a alucinada fuga dos turistas. Um tufão da barbaridade, o resultado da sua passagem deixou atrás de si um arrasamento completo de lugares precários de habitação, aliás como noutras cidades que foram submersas numa vaga de terror e caos. A ferocidade do confronto tribal legitimou toda a espécie de armas, com tradução em brutais actos de violação de crianças, raparigas, mulheres Kikuyos; o afrontamento fou completado pela morte e centenas de pessoas, embora muitas tenham sido socorridas ns hospitais, sobrevivendo precariamente. Apesar de tudo, a pressão internacional levou Kibaki a anunciar que aceitaria um governo de salbação nacional, paradoxo das maiores impossibilidades, aliás saída que Odinga rejeitou, não por razões superiores, mas por considerar que o Presidente foi ilegalmente eleito.
A PEDRA, LUGAR DE AFECTOS
terça-feira, janeiro 08, 2008
NÉVOAS NA RELAÇÃO ENTRE PALAVRAS E SEXO
Quem diria que estes depoimentos foram produzidos por escritores, independentemente do seu êxito mediático ou editorial? Tudo isto é vago, é névoa, é escapatória. Ou talvez apenas falta de criatividade e de ideias. Sousa Tavares, pessoa que admiro enquanto jornalista, comentador e escritor, derrapa onde não poderia derrapar: que «a língua portuguesa não facilita». Com efeito, é tudo menos o que se esperava da imensa riqueza da língua portuguesa, das alternativas que fornece para o tratamento narrativo ou especulativo de uma sequência implicando, mais ou menos directamente, o sexo. Para descrever o peito de uma mulher, o que faltará a Sousa Tavares? E quem se sujeita, enquanto artista da palavra, a descrever apenas seja o que for?
José Rodrigues diz que em arte não há regras, que ela é inerentemente subjectiva. Podemos inferir que ele deixa a questão ao arbítreo do leitor, o que não é de todo desinteressante, defendendo-se com a chamada subjectividade da arte. Um quadro ou um livro são objectos de civilização, denotam caminhos mais ou menos abertos. A relação da palavra com o sexo é para ser assumida sem escapatórias, nem por inexistência de regras, nem por muralhas de subjectividade. Henry Miller dizia o que dizia e há dias morreu um escritor português a quem a realidade sexual da sua própia condição abria fendas nas defesas cravadas a fogo, pela Inquisição, no inconsciente clectivo. Para além disso, as alternativas não faltam, sobretudo em português.
Margarida Rebelo Pinto diz que pode ser crua mas que nunca tem medo das palavras. Aceita cair em coisas vulgares porque acho que não vou lá parar. Aqui está um caso, assaz conhecido, e onde os lugares comuns abundam, segundo certos leitores. Ter medo das palavras não é defeito, usá-las mal, sim. Esta escritora tem compromissos legíveis com o seu público, mas quanto mais complexa é a relação da palavra com o real, mais liberdade, criatividade e rigor tem o artista de usar. Em geral, a aproximação literária da realidade sexual, da sua expressão, da sua visibilidade, é feita com as regras do autor, com a violência ou a brandura do seu discurso, mas não em termos que empurrem para debaixo do tapete o lixo das suas dificuldades, das suas vulgaridades.
Francisco José Viegas, na sua frontalidade, mostrando-se desinibido, acaba por fornecer uma opinião legível e não esquiva. Por mim, não diria que «se fode mal na literatura portuguesa». E o medo nada teria a ver com a palavra. É que, numa língua onde o brejeiro e o trágico tiveram intérpretes superiores, a afirmação de Viegas é falaciosa. Pode falar-se em pudor e escassez de situações como as indicadas, mas a escassez não é fraqueza, é medida, é ritmo, sobretudo quando associada a um pudor criativo na dádiva e na entrega, nunca o que as forças religiosas inculcaram nos adolescentes, ainda há pouco tempo no tempo e apesar da pedofilia tratada eufemisticamente como abuso, em vez e sim como revelação da condição humana.
Frederico Lourenco não quer cair na obscenidade, na pornografia. «Se escrevo sobre sexo, diz ele, refugio-me na conceptualização». Ora aqui temos um comportamento bem da inteligência portuguesa: refugiar-se, conceptualizar. Se não há tradição na literatura lusitana a propósito da temática do sexo, é porque vivemos todos, durante muito tempo, castrados pela censura a todos os níveis e por obediências académicas afinal obscenas.
Talvez seja oportuno citar, para nós, o afrontamento de Christopher Hitchens a propósito das razões a montante daquelas indecisões de expressão: «Sabe-se agora com segurança que a ligação entre a saúde física e a saúde mental está fortemente ligada à função, ou disfunção, sexual. Será, então, coincidência que todas as religiões reivindiquem o direito a legislar em questões de sexo? Os crentes sempre reivindicaram o monopólio neste âmbito para imporem restrições a si mesmos, uns aos outros e aos não crentes. (...) Violenta, irracional, intolerante, aliada ao racismo e ao fanatismo, investida de ignorância hostil ao livre exame, desdenhosa das mulheres e coerciva com as crianças: a religião organizada devia ter muito a pesar-lhe na consciência.» É boa altura para perguntar como se descreve a hipocrisia das velaturas castrantes e obscuras lançadas pelos vários poderes sobre tantos escritores portugueses contemporâneos.





