domingo, março 09, 2008

ENSINAR NA RUA: O SACRIFÍCIO



Todo o ensino, entre quase tudo, passa hoje pela imposição do espectáculo, em certos casos pela violência, a par da drástica redução do aprofundamento, espiritual e prático, da pessoa humana. É o que se verifica, nos últimos tempos, em mais uma crise das reformas, com um governo cada vez mais fustigado por diversas oposições, no terreno da mera recusa, sem alternatívas que exprimam a diferença bem sustentada dos planos em curso. O governo, no seu pragmatismo e projectos relativos ao processo de alteração do sistema educativo, foi ontem fustigado talvez pelo maior movimento de rua congregado pelos professores e seus simpatizantes, mesmo que não se perceba com toda a clareza, o erro que cria condições capazes de mobilizar oitenta mil manifestantes cuja circulação em Lisboa ganhou força inusitada, que a encenação própria, de camisolas, frases, slogans e bandeiras, mais sublinharam o afrontamento. Apesar de algumas arrojadas iniciativas de reordenamento da rede escolar, de concentração de competências e de «vinculação» dos docentes provisórios às escolas por períodos de três anos, contra um ano apenas, o grosso dos problemas logísticos, de particularidades locais, está muito longe de ser resolvido, a par daquele que se levantou entretanto, o da avaliação dos agentes educativos no seu desempenho, conhecimentos e actividade pedagógica.
Num artigo de opinião, no Expresso de 8 de Março, Sousa Tavares explicou, com grande propriedade, o seu ponto de vista sobre o assunto. Perante o pedido insistente de demissão de Maria de Lurdes Rodrigues, ministra da Educação, ele considerou que a sua «queda teria o efeito de um toque a finados por qualquer futura tentativa de reformar o Estado e mudar o país». Trata-se de um problema que se tem complicado, não apenas neste ministério. O da Saúde sofreu graves oposições, acabando por desalojar o ministro e redireccionar algumas práticas. «Desde que há Ministério, desde que há Educação, desde que há democracia (cito o mesmo articulista), que não me lembro de a Fenprof e os sindicados da Educação terem deixado de exigir a cabeça do ministro ou ministra em funções.» Lembro-me das incompreensões (mútuas) no tempo de Cardia, logo apelidado de fachista, e dos erros de perspectiva, pelo menos no caso do Ensino Superior Artístico, cometidos pelos seus assessores ou Directores Gerais. Marçalo Grilo, muito antes de ser ministro, não concebia que houvesse estudos de arte ao nível da Universidade, nem lhe parecia que o país necessitasse da implementação de cursos de design. Esta situação, escorada na espera da «vontade política» e na ideia dos timings, provocou efeitos nefastos no país, no desenvolvimento do ensino Universitário e na qualificação de certos sectores da nossa produção especializada, retendo no mesmo «posto» muitos especialistas deste ramo por trinta anos sem promoção e direito a provas entretanto previstas. A resolução deste problema surgiu, treze anos mais tarde, durante uma «distracção» de um Secretário de Estado, e com isso, nem antes nem depois, se preocuparam sindicatos, gente da cultura, manifestantes próximos.
Esta lembrança ocorre-me a propósito da actual situação e tendo em conta que a maioria dos interessados não sabe, nem nunca chegará a saber, quais os movimentos de bastidores, oportunismos, temores, ignorâncias ou birras dos próprios técnicos de especialidade nos departamentos governamentais. A bola de neve cresce de tal maneira que, a certa altura, já ninguém se entende. E os erros, técnicos e políticos, aumentam a cada passo, esmagando o que o próprio ministério poderia estar em vias de resolver. A bem da verdade, e considerando erros como os que referi, penso que a actual contestação, entretanto focada sobre a avaliação dos professores, se expande também em termos desproporcionados relativamente ao «pequeno» nó do processo reformador em curso. Os próprios activistas, docentes e alunos, vão acabar por se prejudicar, entre passos atrás, cabeças degoladas, remendos impróprios. Como dantes, mesmo perante orçamentos para a Educação que têm sido sustentados sem faltas e com apropriações de equipamentos, meios, trabalho interactivo durante interessantes formas de profissionalização ou concepção didácticas. De facto, como foi dito no Expresso, o campo da luta sindical, sem verdadeira evolução, acabou por deixar, ao fim de trinta anos, graves marcas por defeito. «Os sindicatos da Educação tiveram uma contribuição decisiva para sucessivas gerações de alunos se prejudicarem e para a derrota nacional na frente educativa.
Por mim, sou apologista de um trabalho de avaliação em exercício, como se dizia hà vinte anos.
A carreira docente no plano do secundário, deveria ter, ajustadamente, três níveis de categorias. A primeira avaliação deveria ser solicitada pelo docente ao cabo de seis anos ou oito anos de serviço, garantindo-se uma rede de escolas para esse efeito, com todo o apetrechamento necessário e conteúdos bem concebidos para as disciplinas, cursos, ligação ao campo profissional e universitário. Os avaliadores, recrutados com rigor e formados para as novas funções, teriam a seu cargo vários docentes em avaliação, acertando com estes um programa de trabalho e de tese, observando prestações programadas, propondo medidas complementares ou outras. Entre um outro grupo de professores de completamento, mais presente junto dos docentes sujeitos a este processo, adicionados a uma turma, deveriam escolher-se, de forma a estudar, orientadores de trabalho e pesquisa que acompanhassem de mais perto os elementos em avaliação. Avaliação que poderia terminar com uma entrevista final feita por júri abalizado. Ao Estado competiria proceder às escolhas, reforço de formação dos avaliadores, além de outros, a par do estabelecimento da rede de escolas destinadas a esta actividade, escalonando e calendarizando pedidos de avaliação (entre seis a oito anos).
A luta que se exprimiu em Lisboa no dia 8 resultou num espectáculo revivalista, sem conteúdos verdadeiros, sem substância ou alternativa do processo científico. Fazer cair a ministra, sem um projecto adequado aos problemas, é comprometer a Educação e o país. Os ministros também aprendem. Os bons professores, da mesma forma. Até Marçalo Grilo saberá hoje qual a importância do design e como o ensino artístico é integrado nos estudos superiores por toda a Europa. Se vários governos gastaram treze anos das nossas vidas e do nosso saber para encontarem a sua vontade política, tal lição deveria impressionar professores, sindicatos e governo a fim de aperfeiçoar os suportes de avanço neste trajecto complexo e carregado de urgências.

terça-feira, março 04, 2008

ARTISTAS PORTUGUESES CONTEMPORÂNEOS | Pedro Chorão


É provável que a História da pintura contemporânea portuguesa tenha sido escrita um pouco sobre o joelho. A rara escrita de Pedro Chorão, arte abstracta de elevado grau de despojamento e cultura gestual, aliás consagrada em muitos estudos até hoje, acaba por vezes nas bolsas de ostracismo ou indiferença características dos caprichos da nossa aprendizagem. Nos anos 80, sob a estridência da crítica de vanguarda (nova crítica, aliás velha à partida) arrasava todos os autores quanto podia, artistas como Chorão, Dourdil, Resende, entre outros, apesar de a Júlio Pomar e Paula Rego ter sido concedido o atravessamento da cortina de ferro. Ainda vivemos nessa fronteira, enquanto os novos curadores escolhem 50 anos de pintura portuguesa a sua belo gosto, sempre ou quase sempre a partir dos anos oitenta e mediatizando adolescentes como figuras de proa, segundo a sua distorcida cultura prospectiva e museológica. Mas observemos agora Pedro Chorão, nesta altura com uma exposição em Lisboa, trabalhador incansável das artes e porventura de uma forma muio rara, no próprio panorama internacional, dado o grande despojamento que a caracteriza as suas propostas plásticas, esde representações gráficas e breves até à evanescência dos gestos gravados, liquefeitos na tela, entre cores terrosas
e ultimamente nos azuis de diferentes aberturas ao espaço, numa espécie gráfica do amanhecer. Em 1976, Chorão inscrevia um A tombado e grafológico numa das suas obras feitas de cinzas pálidos, de vastanhos quentes, de negros sucintos. O A é a primeira letra do nosso alfabeto. Inicia palavras como Abril, Alentejo ou Alma. O gesto solto, a tinta líquida, a cor seca, a escrita à flor da luz, signos, colagens e afloramentos figurativos -- eis alguns dados caracterizadores da pintura de Pedro Chorão, agora, ontem, talvez amanhã. Com A. É impossível, num espaço como este e perante a curta expectativa dos leitores, dizer uma página apenas sobre o artista, página do livro que escrevi sobre ele, nos anos 80, e que, embora marcado por capítulos sintéticos, ainda somava 110 páginas. Mal entendido pela crítica (actividade que se tornou académica na sua colagem à puberdade da invenção estética), Pedro Chorão associa-se a Sísifo, na perspectiva das semelhanças que envia para a cúpula do saber, e desenvolve, nessa espécie de destino do fazer plástico, o lirismo de uma poética da contingência: uma viagem que, apesar da sua lógica interna ou de um projecto, nos ensina a variação das probabilidades do acontecer por cada escolha e em cada encruzilhada.


DERIVA DA JANGADA DE PEDRA

JOSÉ SARAMAGO

Estabelecido na ilha espanhola de Lanzarote, José Saramago, prémio Nobel Português, tomou a iniciativa de aderir à Plataforma de Apoio a Zapatero, o líder do PSOE que se recandidata a um novo mandato. Trata-se, bem vistas as coisas, de uma opção política estranha, sobretudo tomando na devida conta o facto de que este escritor é um dos mais distintos militantes de base, há várias décadas, do Partido Comunista Português. Com efeito, somada esta intervenção com outras demonstrações do tipo de afecto que Saramago mitigadamente nos confere, a posição que assumiu parece permitir que os seus concidãos se interroguem, nomeadamente como aconteceu no blog «resistir» (próximo dos sectores intelectuais comunistas portugueses) pelo artigo de Cristóbal Garcia Vera intitulado «A discreta deriva de José Saramago para a outra margem». E mesmo nessa perspectiva, os argumentos são brandos: evocar o facto de que Zapatero, apesar de haver retirado as tropas espanholas do Iraque, foi um fiel aliado dos EUA na guerra global contra o terrorismo, parece pouca coisa para reparos ou indignações. Nem isso, nem o facto do exército espanhol continuar ocupado no Afeganistão, com aumento de efectivos. Para o jornalista Cristóbal Garcia, importa também o facto de muitos considerarem o mandato de Zapatero pouco louvável para os cidadãos em geral, não tendo havido a melhoria da situação do país, em termos de bem-estar, como referem os seus correligionários. São aqui introduzidas outras observações negativas, e graves, sobre o que terá acontecido entretanto, incluindo a saúde e a educação no país vizinho. «Com a injustificada vénia que costuma conceder-se aos ícones da esquerda (escreveu Cristóbal), o escritor português tem protagonizado um paulatino processo de deiritização, com episódios especialmente infelizes» E aponta a posição tomada por Saramago junto ao grupo PRISA, numa das suas mais agressivas campanhas contra o governo cubano ou a sua desqualificação da guerrilha colombiana das FARC como meros bandos armados, atitude que provocaram as primeiras críticas isoladas contra o Nobel Português. (1) Estas questões, entre outras, não inquietaram os intelectuais portugueses, nem mesmo, seriamente, o Partido Comunista. Mas essa aparente indiferença, num país onde se faz capa larga a pequenos casos do dia-a-dia da política, teria aqui uma grandeza superior se não acontecesse pelas piores razões do nosso redutor comportamento sócio-cultural. Muitas das atitudes de José Saramago, cujas mágoas interiores são insondáveis, devem-se mais ao seu mal disfarçado azedume pelas críticas e avaliações soprando, breves, entre nós, do que por uma guerra política contra personalidades do país que adoptou como país de acolhimento, aliás bem mais generoso do que Portugal em termos de benefícios materiais e largueza das mediatizações. O rectângulo onde Afonso Henriques iniciou um reino historicamente importante não vale pela sua dimensão, nem pelas suas mazelas, mesmo que o reivindiquemos maior do que Lanzarote. A grandeza que Saramago deveria reconhecer-nos é aquela que nobilita (sem bajular o poder) o seu livro «Memorial do Convento». Talvez essa seja a sua melhor obra, e tem Portugal nos feitos, na raiz, no povo e no sangue. Ter-se-á Saramago enganado ao virar a esquina, durante a cegueira branca que laboriosamente descreveu numa das suas obras posteriores ao Nobel? O seu amor por Vilar não explica tudo, nem ausência, nem impaciências, nem descrenças. Portugal está na língua em que ele se exprime e seria porventura mais natural, em jeito de referência dignificante, que reflectisse sobre as suas raizes, que se empenhasse publicamente, sem desvarios, no aprofundamento da natureza desta sua Nação, a do Convento e das Caravelas, a de hoje, na Europa, pobre, discutível, mas digna de ser olhada e pensada pelo seu primeiro Prémio Nobel em literatura. Apoiar o PSOE seria, com natural justificação, um recado a sua mulher, sem interferência pública no aparentemente seu país de culto. Imaginem que o rei, como na Venezuela perante outra personagem, lhe dissesse: «Esses são casos da nossa conta. Porque não te calas?

(1) em referência ao artigo de Cristóbal e ao tratamento do assunto no Diário de Notícias 3.03

sábado, março 01, 2008

NUNCA SABEMOS O QUE É A VIDA

ANTÓNIO LOBO ANTUNES


O título deste pequena homenagem ao escritor Lobo Antunes veio da sua própria boca, numa entrevista a Catarina Homem Marques. Ele acabara de dizer, um pouco antes, que «a morte tem os nossos olhos». Tenho lido, com regularidade, a obra deste homem invulgar no ser e no aparecer, um cidadão que se assume como o melhor escritor português vivo, que considera tal qualificação «uma evidência», e que, em todo o caso, diz com alguma simplicidade perturbadora: «Nunca sei se sou capaz de escrever ou não, tenho medo». Adianta, ao bater da mesma pergunta, se ainda tem esse medo: «Cada vez mais. Cada vez me é mais claro que sei muito pouco sobre o que quero escrever. Escrever é muito difícil.» Em face de um cancro que o surpreendeu a meio deste percurso, o escritor, cuja reflexão sobre a vida e a morte é eloquente, considerou que, naquela situação, somos confrontados com muitas coisas, refazendo os habituais alinhamentos sobre o futuro. «Ninguém é mais crédulo (disse) do que um desesperado. A minha experiência o dita, e percebe-se então que as pessoas são de uma fraqueza absoluta. Ninguém sabe o que é a morte, mas não faz muita diferença porque também nunca sabemos o que é a vida.» Sobre as pessoas, Lobo Antunes diz que gosta de algumas . Não muitas. O seu coração não é assim tão grande. «Gosto dos homens mais velhos do que eu. Sinto que tenho com eles uma amizade fraternal muito grande». Em relação propriamente aos escritores, Lobo Antunes pensa sobretudo naqueles com quem teve mais dificuldades, cuja leitura era no início complicada, difícil de comprender. Parecia-lhe vogar no nevoeiro. Depois, e como que de repente, tudo se iluminava, o caminho abria-se. «É preciso ler sem ideias preconcebidas». Ao ser questionado sobre o modo como os outros, ou as pessoas em geral, o vêem, o escritor foi determinante ao pronunciar que lhe era indiferente. «Não sei se já percebeu que me é completamente indiferente a imagem que têm de mim. Da mesma forma, a melhor maneira de lidar com os outros é tomá-los por aquilo que eles acham que são e deixá-los em paz. Isso não me preocupa». Lobo Antunes aceita que é um homem reservado e sobre os jornalistas pensa que só tem direito aos livros que escreve e não à sua vida. E, a propósito das entrevistas, diz que a verdade delas, se forem bem conduzidas e sem gravadores, está nos livros e não no autor. «Eu gostava um dia de fazer uma entrevista, a sério. Deve ser muito difícil. O entrevistado conta, obviamente. Mas o resultado depende sobretudo da empatia estabelecida. Já me perguntaram se percebo melhor os livros quando encontro os meus leitores. Há sempre muita coisa que me escapa nos livros. Não estou preocupado em compreendê-los. Aliás, a minha única preocupação é escrevê-los. Estou tão preocupado com os problemas técnicos que a cada passo o livro traz que não tenho tempo para me colocar esse tipo de interrogações». Do seu último livro, «O Meu Nome É Legião», o escritor é sensível à ideia de uma enorme fatalidade que recai sobre os meninos perdidos de si e da sua herança, embora não saiba se essa é a palavra certas para caracterizar as situações dos reformatórios. Em todo o caso, quando começa um livro, e isso é significativo, não dispõe de nada. Está só consigo mesmo. As coisas vão surgindo a pouco e pouco. O processo, contudo e por seu lado, não lhe parece do âmbito da fatalidade. A angústia, sim, ocorre. Espera sempre que haja, em volta e dentro das palavras, outros sentimentos, alegria, esperança, desespero. Isso pode decorrer depois com a leitura dos olhos de quem o lê, previsivelmente, ou da disposição com que se está a ler. «Há certas pessoas que dizem que os meus livros são polifónicos. Não me parece que sejam, mas a minha opinião é só uma opinião. Eu não os li, só os escrevi. De qualquer maneira, é cedo para se fazer um juizo em relação a esse livros. Há muitas coisas neles que escapam a um controle racional da minha parte. É-me difícil teorizar sobre eles».

Estes fragmentos e arranjos sobre a entrevista de Catarina Homem Marques, incluindo necessariamente os pontos mais ou menos fortes das respostas de Lobo Antunes, deixa-nos a alma um pouco seca. Talvez ele tenha razão sobre a necessidade de ser lido e sobretudo bem lido. Perante muitas coisas que ocorrem neste universo de confronto do homem com a sua própria obra, por vezes tem-se a sensação de que o livro está votado à indiferença dos outros, e que o seu verdadeiro destino é servir como objecto de leitura do próprio autor. Lobo Antunes já falou desta impressão, tão anónima é a minoria de quem (nos) lê. O modo como este escritor se exprime nas entrevistas é desconcertante, por vezes tocado de pontos de intensa luminosidade ou de uma partilha lassa e sincera, como aconteceu na conversa que manteve com Ana Sousa Dias. A televisão permitiu-nos ver o autor questionar-se, fazendo correr na voz macia sobre a mesa invisível ,presenças de dúvidas fugazes, obscuridades, cintilações, a entrega de quem sabe o peso da escrita e o seu efeito de libertação. Os seus livros têm vindo a tornar-se mais complexos e tecnicamente mas difíceis. As vozes cruzam-se, mesmo quando graficamente parecem vir da mesma pessoa. E é verdade que vêm. Lobo Antunes deixa-se assaltar pelas memórias e observações mais diversas, enveredando por vezes pelo caminho da engrenagem poética: certas frases que se alternam, lúcidas e retidas de um fragmento da fala enquanto decorre, lembram alguns versos de uma poesia que nos parece conduzir ao interior de nós mesmos, como descobrimos no teatro do absurdo, de Beckett. Um grito. Uma resposta. Uma incerteza. Uma impossibilidade. Entre a morte e a vida, sem futuro.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

A REFORMA DE FIDEL DE CASTRO


Terça-feira, dia 19 de Fevereiro de 2008, Fidel de Castro anunciou, ainda de madrugada, a sua reforma: «Não aceito nem aceitarei o cargo de Presidente do Conselho de Estado e de comandante-em-chefe, declarou repetidamente o homem que só a doença forçou à suspensão do cargo de Presidente de Cuba, posição que detinha desde há 49 anos. Durante a sua hospitalização nomeou o irmão, até voltar ao serviço, como seu substituto. A sua despedida, em longa carta, consumou-se quando os cubanos ainda dormiam, mas não se tratou de um suicídio, nem sequer político, pois o Homem da Ilha indiciou o seu comportamento na vida que ainda lhe resta: escrever editoriais, assumir o seu direito ao chamado exercício de influência. Segundo Nuno Paixão Louro, o irmão de Castro é o seu herdeiro natural, mas há mais candidatos, desde os históricos aos talibãs. Apesar da renúncia a todos os cargos, Fidel escreveu: «O meu desejo foi sempre cumprir as minhas tarefas até ao último suspiro. No entanto, seria uma traição à minha consciência assumir uma responsabilidade que exige mobilidade e dedicação, condições de que já não disponho fisicamente para tal desempenho. Digo-o sem qualquer dramatismo».
É óbvio que este homem, apesar de anunciar o prolongamento da revolução para além de si mesmo, depois de morto, aspirava a cumprir funções até ao último suspiro, o que deixa a entender não admitir, contra qualquer lapso e dor, uma apropriada eutanásia quando já nem suspirasse,
Não há verdadeira oposição interna e os cubanos acordaram e viveram os dias pós-carta como se nada tivesse acontecido, excesso de zelo que lhes tem servido, nos prós e contra, como estratégia para resguardarem a sua liberdade interior, a sua rectaguarda pessoal. O poder de Fidel continuará a sentir-se em todos os aspectos da governação. Seja como for, a sua saída de cena pode marcar o início de um novo tempo. Em surdina, os opositores de Castro dirão mais ou menos isso, mas parece não acreditarem numa verdadeira diferença senão depois da morte de Fidel e do, também natural, desaparecimento de Raúl, reformado por sua vez ou não. De resto, como numa cena de destino longamente ensaiada, a votação para a substituição institucional de Fidel de Castro, consagrou por inteiro a escolha de Raúl Castro. A sucessão está consumada, com um presidente de 76 anos.
Por enquanto, entre os personagens em rede criados por este singular regime, uma enorme incógnita subsiste: continuidade ou mudança?


terça-feira, fevereiro 26, 2008

A DERRADEIRA OBRA DE ANDY WARHOL


Esta obra, executada na clandestinidade por Andy Warhol, foi descoberta algures, mas os estudiosos e coleccionadores de arte não tiveram acesso aquela peça. Os gráficos da revista Sábado, presume-se, procuraram reconstituir, com a maior fidelidade possível, segundo informações especiais e através das novas tecnologias, o aspecto conclusivo desta importante obra da arte pop universal.

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

CIDADES E LUGARES SUBMERSOS, SEC.XXI

foto de Miguel Lopes Lusa
A imagem deste homem que transporta raros víveres num chapéu de chuva invertido, simulando breve embarcação, surge num contexto de águas de cheia, poluidas, lamacentas, e dir-se-ía enquadrado em algum daqueles cenários recentemente evocados aqui, a propósito do cinema de Tarkovsky. O clima é patético. E o acontecimento verificou-se há três dias na zona metropolitana de Lisboa, de súbito como que revelada cidade do terceiro mundo, submersa em pontos cruciais e em poucos minutos, mercê, sobretudo, da incúria dos homens, da ganância cega que rompe com todas as regras ecológicas e conduz à contrução em leito de cheia de montanhas de casas geminadas, sem circulação estudada, sem vias de escoamento, sem plantas, paisagens inenarráveis bem perto de qualquer epílogo castratosfista de alguns livros de ficção antecipadora e terrivelmente coisificada no actual estado do clima ou dos efeitos nefastos de tecnologias pesadas, dependentes das maiores voragens sobre os meios naturais da terra.


Pensemos no texto alinhado com a fotografia anterior e vejamos agora esta outra imagem afinal semelhante à primeira, de há poucos dias também, obtida noutras cheias de assombro, em Moçambique. Este velho homem percorre o possível caminho da salvação, na estradinha submersa, e transporta igualmente alguns meios de sobrevivência, seguido de perto por meninos deslocados, que sugerem um conhecimento determinante de situações destas, regulares, apavorantes. Sub-desenvolvimento e civilização tecnológica avançada sob os mesmos avisos e incorrendo nos mesmos erros.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

ESTAMOS PERTO DA NAVE DA ESPERANÇA



Na época nobre da literatura de ficção científica, Edmond Cooper, com o seu livro «A Nave da Esperança», enfrentou o problema da nossa finitude, da finitude do próprio planeta em que vivemos. Perante a crise global da sustentabilidade da vida em geral, na Terra, as Nações uniram-se para lançar indefinidamente no espaço uma espécie de «Arca de Noé», uma imensa máquina capaz de se refazer e refazer, no seu interior, o ciclo da vida. Uma comunidade de eleitos, os melhores e mais estruturados em todos os níveis, foi treinada para viver nessa nave, reciclando materiais, nomeadamente os biológicos, tendo filhos e adestrando-os naquela habitat, embora ninguém se devesse desligar da memória das origens e de toda a história do homem, incluindo dados completos das tecnologias mais avançadas, sob o sinal de um Objectivo geral, a de um dia as futuras gerações desenvolvidas na Nava da Esperança puderem encontrar, algures no Universo, um lugar compatível com a vida e o prolongamento da espécie. O Objectivo envolve, não expressamente, um certo sentido místico, a ideia de um renascimento constante, e assim Edmond Cooper descreve a vida na Arca, a sua renovação, um percurso entre sistemas estelares e planetas, as pausas de pesquisa em todos esse lugares quando pareciam indiciar condições para ancoragem e sedimentação. Durante séculos, a Nave da Esperança gravitou por longas distâncias no Universo até chegar a um ponto muito semelhante ao Sistema Solar donde havia partido. Cooper não se atreveu a consolidar a Utopia: as sucessivas rotas alternativas haviam trazido a Nave de volta à própria Terra. Não havia mudado grande coisa naquele núcleo constituído pelo sol e pelos antigos planetas registados em todos os seus aspectos. A procura do que tinha características aparentemente compatíveis com a vida do homem levou o Conselho de Entidades de comando a perceber o que se havia passado. Infelizmente, pelas minuciosas observações efectuadas, a Terra tinha mudado de forma radical: a humanidade que aí ficara, cultivando a espera e a mesma dilacerante competitividade, suicidara-se através do despoletamento de todas as reservas nucleares. O planeta estava inteiramente destruído e contaminado para milhares e milhares de anos, apesar da imagem pacificadora que oferecia no fundo negro do Cosmos.

O MUNDO AINDA VIVE NA IDADE DAS TREVAS

pintura colectiva: Cruzeiro Seixas, Mário Botas

No livro «deus não é grande», Christopher Hitchens assume um eloquente debate com os crentes, apresentando argumentos contundentes contra a religião e a favor de uma abordagem mais laica da vida, sobretudo pela leitura atenta e erudita dos textos religiosos mais importantes. São dele, a terminar aquela obra, as seguintes palavras:

A religião esgotou todas as justificações. Graças ao telescópio e ao microscópio, já não oferece explicação para nada importante. Antigamente, nos casos em que podia, por força do seu completo comando de um panorama mundial, impedir o surgimento de rivais, a sua decisão era impiedosa e assombrosa. Agora só pode dificultar e atrasar - ou tentar abrandar - os avanços mensuráveis que fizemos. É verdade que por vezes os admite astuciosamente. Mas fá-lo para poder escolher entre a irrelevância e a obstrução, a impotência ou a reacção imediata, e com esta escolha encontra-se programada para seleccionar a pior das duas. Entretanto, confrontada com panorâmicas internas nunca imaginadas do nosso próprio córtex em evolução, dos limites mais recônditos do universo conhecido e das proteínas e ácidos que constituem a nossa natureza, a religião oferece aniquilação em nome de deus, ou então a falsa promessa de que se levarmos uma faca aos nossos prepúcios, ingerindo bocados de pão, seremos «salvos». É como se alguém a quem foi oferecida uma fruta deliciosa e fragrante fora de época, amadurecida numa estufa feita com muito trabalho e amor, deitasse dora a polpa e o sumo e mastigasse taciturnamente o caroço. (...)

A prossecução da investigação científica, sem entraves à disponibilidade de novos achados para massas de pessoas através de meios electrónicos simples, revolucionará os nossos conceitos de pesquisa e desenvolvimento. Será imporante situar o divórcio entre a vida sexual e o medo, entre a vida sexual e a doença, e ainda entre a vida sexual e a tirania, passos que podem agora pelo menos ser tentados, com a única condição de banirmos todas as religiões do discurso. Tudo isto, e não apenas, estará pela primeira vez ao alcance da nossa história, porventura ao alcance de todos nós.

domingo, fevereiro 17, 2008

TARKOVSKY, UM CINEMA DO ESPÍRITO






NOSTALGIA
















SOLARIS











O ESPELHO














IVAN













RUBLIOV













A obra fílmica de André Tarkovsky, gerada por um talento incomparável e um grande sentido de missão pela própria arte, baseia-se por isso mais nos valores do espírito do que na exploração das tecnologias que lhe são subjacentes. Trata-se de uma espécie de missão de fé, não no sentido religioso propriamente dito, até porque o autor não era homem de igrejas, mas no sentido humanista da mensagem artística, tendo em conta, de forma profunda, as questões da vida e da morte, o entendimento do ser na estranheza dos seus contextos reais e também simbólicos. A Rússia imensa e trágica emerge de filmes que ultrapassam o tempo, desenhando frescos transcendentes como «Rubliov», justamente um pintor do século XIV, falecido no convento Spasso-Andreievski, perto de Moscovo, entre os anos de 1427, 1430. É um personagem que se revela para além da bruma, cuja actividade se conhece mal, embora se saiba que o seu estilo, tocado pela pintura grega (bizantina) se desenvolveu e transformou no terreno russo, em termos de forte pendor idealista e simbólico. Para além da sua obra mais referida (o Ícone da Trindade), os dados sobre a vida e arte desta personagem invulgar desdobraram-se em referências erráticas ou mesmo de sabor mitológico. E falar dele aqui serve apenas para situar o filme que nele se baseia, «Rubliov», de Trakovsky, empreendimento cinematográfico fabuloso e cuja forma, por capítulos em perfeita harmonia, nos fornecem um grande fresco da época, dos conflitos, dos combates religiosos, da implantação quase mágica de grandes símbolos do fazer artístico, tudo numa densidade portentosa, por vezes barroca, sempre medieva, como que a perseguir, entre o ruído das tempestades humanas, o sentido da criação, a ascenção do espírito acima das terras húmidas e das cúpulas das catedrais. Porque, no fundo, esse filme contém desde logo a anunciação de Tarkovsky enquanto visionário, poeta, senhor de uma imagem com regras e acima delas, capaz de forçar todas as mordaças e gritar para sempre através do silêncio como instrumento superior. Isso já acontece em «Ivan» e estende-se a um grande amor pela imensidão do seu espaço, memórias que sobram à sua volta, figuras, parentes, ruínas, a nostalgia delas e o sacrifício por elas.

O cinema de Tarkovsky, ainda que travado inicialmente na Rússia, sobreviveu aos escondimentos e chegou até nós na decisiva aurora do 25 de Abril de 74, como se pudesse colar a sua reflexão sobre o homem à revolução precária que nos envolveu. Foi assim apontado na verdadeira grandeza que o caracteriza, contraposto aos impulsos da indústria cultural e colando a
angústia que exprime à nossa própria melancolia, a saudade das terras longínquas, a rude cultura marcada pelo triângulo da água, do fogo e do binómio luz/sombra. Essa viagem é assumida fisicamente por Tarkovsky, que emigrou para a Europa Ocidental e aí produziu obras paradigmáticas da distância, da ausência, da memória, da lucidez perante os sinais do mundo em crise, quer através de «Nostalgia» (rodado em Itália), quer através de «Sacrifício» (feito na Suécia). Esses filmes trazem a marca da corrida interdita de «Stalker», a reinvenção das zonas secretas, o pesadelo orwelliano de lugares poibidos, onde as pombas são virtuais e o deserto pode alastrar pelo interior das velhas casas, entre sulcos e água e marcas de fogo. Uma obra assim, e aqui refiro-me a todos os filmes de André Tarkovky, deveria ser reproposta regularmente ao público, num trabalho pedagógico salvador das indústrias do consumo, das marcas redutoras a que tudo globalmente vai cedendo.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

SACRIFÍCIO, de André Tarkovsky

Tenho estado a rever a obra fílmica de Tarkovsky, meu objecto de culto, e penso reflectir sobre alguns dos principais aspectos desta superior criação. A estética de Tarkovsky coloca em campo as mais profundas reflexões sobre o homem, a vida e a morte, abrindo a linguagem aos seus mais extraordinários efeitos directos. Deixo aqui a primeira imagem do longo plano de abertura que marca, desde logo, o último filme de Tarkovsky.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

NA MORTE DE LUÍS RALHA, Pintor e Designer

Luís Ralha
Homem de grande força de espírito perante as contradições do mundo, Luís Ralha, pintor e designer, nasceu em Alhandra, em 1935, formou-se na Escola Antóno Arroio, em 1957, e em Pintura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (ESBAL), onde viria a ser professor assistente, nos anos 80, após vários anos vividos em Moçambique. Exerceu actividade docente na Universidade do Porto e na Escola Superior de Arte e Design (ESAD). A passagem pelo atelier de Daciano Costa revelou-se bastante profícua no aproveitamente da sua vocação. Em Moçambique trabalhou essencialmente para a Direcção Nacional da Habitação, dirige um Gainete de Design Industrial - tendo então realizado as suas primeiras exposições individuais. Participou num grande número de exposições colectivas e explorou o design em obras de interior ou para equipamentos industriais, assumindo também as funções de desenhador no atelier de Daciano Costa. Foi sobretudo, nas múltplas disciplinas trabalhadas, uma figura ligada a obras de equipa, Reitoria da Universidade de Lisboa, Hotel da Balaia, Galerias Ritz. Projectou galerias municipais em Vila Franca de Xira, Alverca e Póvoa de Santa Iria. Além de outras prestações em domínios semelhantes, esteve ligado a exposições bienais, mobiliário urbano e projecto cromático para espaços dessa área. Produziu Arte Pública em Lisboa (estação do metro de Entre Campos), Alverca e Santa Iria de Azóia.
As duas únicas pinturas que foi possível recolher em tão pouco tempo (Ralha faleceu no dia 6 do presente mês de Fevereiro) mostram bem a qualidade da forma plástica que desenvolveu em diferentes modos e conteúdos. Empenhado socialmente, interessado pela nova pedagogia no ensino artístico e na própria evolução estética das coisas do espírito, Luís Ralha, como outros da sua geração e ainda activos, foi preterido pela nova crítica, enquanto, por si mesmo, se recusava a usar o habitual tráfico de influências para a sua mediatização e sucesso público. Pertence indesmentivelmente à história da arte portuguesa contemporânea, mesmo para os inventários ou publicações que o foram esquecendo na vaga de deturpações que só acharam a nossa moder- nidade e os seus protagonistas a partir dos anos 80.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

CARNAVAL OU A TRANSFIGURAÇÃO DO MEDO

No dicionário pode ler-se que «o Carnaval corresponde aos dias, semanas ou meses, conforme os usos dos países, que precedem a Quaresma.» Para nós cita-se o período de três dias que precede a quarta-feira de Cinzas, tempo durante o qual, por vezes com uma grande vibração catártica, se celebra essa liberdade mítica onde todos os prazeres são possíveis, entre jogos de máscaras, cortejos críticos, bailes de disfarçe, vivência do corpo e da música, danças dionisíacas, uma enorme careta em esgar contra o mundo. As diversas situações desta época singular, que por vezes transformam o riso e a alegria numa manifestação quase monstruosa do ser, têm origens em ritos e exorcismos muito antigos. Naquele fragmento de uma das maiores favelas do Rio acomodam-se os grupos tradicionais do canava brasileiro, o mais faustoso do mundo, com o seu famoso samba, as suas ritualidades, a sua marcha, um assombro de delíro desfilando por uma avenida com bancada que se chama sambómetro. Alguma coisa se exconjura assim, entre a sedução pelo corpo, um sexo enfim liberto das cangas religiosas e morais, uma nova ordem contra o caos habitual das grandesmetrópoles, o apelo à fantasia, o desejo expresso de pôr a ridículo as instituições e personagens do poder.
A ideia que tenho destas manifestações, além de outras de que as religiões se apropriaram, passa pela recusa festiva do cerco habitual demarcado nas sociedades actuais (e nas outras, nas longínquas comunidades do homem primitivo) por forma a eliminar o medo em plena catarse. O Carnaval seria assim, cada vez mais absurdo, a revolta em riso e canto contra uma permanência do medo, do limite na morte. O medo acabaria, duante algum tempo, de perder a força que desaba sobre o nosso psiquismo já carregado de ruído, transfigurando-se transitoriamente na clarificação dos melhores estados vitais, corpo e espírito vogando numa outra dimensão, entre vigorosos exorcismos, gelos e calores tropicais.




risos sem temores

BREVE VISITA À OBRA PLÁSTICA DO REI

Às cinco da tarde do dia 1 de Fevereiro de 1908, um atentado no Terreiro do Paço vitimou o rei D.Carlos e o príncipe herdeiro. Atacado pela propaganda republicana e traído por sectores monárquicos, responsabilizado, com razão ou sem ela, por todos os males do país, D. Carlos foi caricaturado de forma sistemática e impiedosa. Ficaram testemunhos do seu lado cultural e científico: pintor, fotógrafo, oceanógrafo e amante da Natureza.
PERFIL DE ANCIÃO
pastel sobre cartão, sem data. D.Carlos
dominou também a técnica da aguarela
GADO DA RIBEIRA
pastel sobre cartão, 1896.
Este quadro foi um dos vários que valeram
prémios ao rei enquanto pintor

MEXILHOEIRO
pastel sobre cartão, 1908, obra inacabada.
Apesar de amador, D. Carlos foi um dos melhores
pintores naturalistas do seu tempo
citações da revista Única Expresso

sábado, fevereiro 02, 2008

O HOLOCAUSTO NUNCA ACONTECEU

apagamento da realidade aqui noticiada

Os brasileiros, pressionados pela comunidade judaica, decidiram proibir a passagem no cortejo de carnaval de um carro alegórico ao holocausto cometido pelos nazis contra aquele povo. A imagem
do post seguinte mostra uma parte do carro sobre o holocausto, instalação aterradora de cadáveres nus, esqueléticos, como tantas vezes temos visto no cinema e na televisão

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

CARNAVAL E HOLOCAUSTO

Carnaval e Holocausto, título jornalístico que nos ocorreu entre dificuldades, explica-se aqui, quer através da imagem, quer pelas breves palavras que publicamos. Esta fotografia, tão objectivamente parecida com documentos dos mortos nus nos campos de concentração nazis, faz parte da reconstituição hiperrealista, num terrível volume evocativo do Holocausto, que os brasileiros pretendem ser tema de um dos carros alegóricos do seu Carnaval do Rio. A ideia envolve justamente, a meio de um trabalho lúdico, em que o prazer corporal costuma alcançar expressão arrebatadora, o empenho na revitalização da memória sobre este e outros acontecimentos similares. Tantos, aliás, em plenos século XXI, um pouco por todo o lado, produzindo imagens semelhantes a esta, sobretudo no continente africano, vítimas de guerras absurdas, étnicas, feitas por mandantes enlouquecidos, enquanto o mundo se agita entre crises económicas baseadas nos facores niveladores da globalização. No Carnaval, este carro, dizem alguns dos nossos bem comportados cidadãos, parece uma heresia e uma falta de respeito pelos mortos evocados. Sim? Deviam experimentar e parar o carro diante da tribuna onde aquecem, alcoolizadas, as consciências dos bons cidadãos do mundo.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

O HORROR DO NOSSO DESCONTENTAMENTO

Tudo parece começar com brandura e inocência, partindo destas cabeças de bonecos fabricadas para a indústria do sexo na unidade Orient Industry em Tóquio. A atribuição de fins sombrios à aparente candura dos bonecos obriga-nos a pensar nos modos de processar a degradação do género humano, empresários e figuras de relevo consumindo este e outros produtos fotográficos ou vídeo, e ainda, pelos meios mais ilícitos, as próprias crianças. As religiões que comandam e deformam o espírito de muitas comunidades, no limite do fundamentalismo, fazem parte da engrenagem que nos assombra com as tecnologias de ponta, sobretudo as militares, e nos consentem a ilusão de uma estratégia redutora quanto às artes e à cultura. (foto de Michael Caroma).
Imagem de uma criança haitiana brincando num lugar derradeiro, no meio de caixões, em Portau-Prince. Uma breve contemplação deste jogo solitário, perante o qual os mortos ali guardados já foram porventura espectadores, leva-nos a pensar em muitas outras brincadeiras de muitos outros meninos um pouco por toda a parte, mesmo aqueles que perderam membros ao despoletarem minas cínicas no território de Angola, além dos seus companheiros que soçobram por falta de alimentos e contaminação de doenças graves, A Sida à cabeça das estatísticas. (foto de Eduardo Munoz).
Desesperadamente, um polícia dispara para o ar perante uma multidão que protestava pelo seu direito a manifestar-se no dia do trabalhador, em Macau. (Paul Yeung).

fotograma de uma violenta batalha da polícia de São Petersburgo, segundo cidade da Rússia, ao procurar travar manifestantes da oposição durante uma forma colectiva de protesto. (Alexander Demianchek)

Ginásio da Escola de Breslen onde ocorreu um rapto temerário que terminou em tragédia, com a morte de muitos civis, crianças incluídas. Entre o chão juncado de flores, tantas vezes renovadas, permanece um ursinho de pele, memória de menino para todos os seus companheiros. (Edmundo Korniienko).
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Estes documentos foram divulados pela agência Reuters

domingo, janeiro 27, 2008

OS MALES DO EIXO PORTUGUESMENTE

de uma obra de Ângelo de Sousa






O Eixo do Mal é, como certos telespectadores sabem, um programa onde alguns senhores e uma senhora, gente ligada aos media, de facto mediática e pulsando de adrenalina como é moda entre os portugueses mais críticos, debita sarcásticamente e sem qualquer oportunidade ou alinhamento de fundo, diversos comentários sobre a vida política, cultural, ou assim-assim, do nosso país actual. São charlas acidentais, entrecruzadas, nas quais o retrato dos outros os explica como tolos, mal formados, ligados aos grandes e subterrâneos crimes económicos, judiciais, pedófilos, partidários, entre muitas coisas próprias da nossa mediocridade, dos nossos defeitos, do enorme descalabro que se verifica em todas as instituições. Ninguém se safa, mesmo que, à luz da história, se salve efectivamente. Mas pronto: deram-lhes aquele tempo de antena, estão ali num reboliço de graçolas, verdades, inverdades, desfocagens, um video de quando em quando, a gozar alguém ou alguma situação. Já falei sobre este programa, explorando uma dicotomia que nos pode conduzir ao belo título O MAL DO EIXO. Com o maior respeito, é sobre isso que venho endereçar uma mensagem aos participantes do programa, perguntando-lhes se fazem aquele mínimo do trabalho de casa que consiste, além de planear cada programa, ver os já emitidos e analisá-los tanto e tão profusamente como analisam as coisas sérias do país.
Meus senhores: do último programa, dia 26 de Janeiro de 2008, não se ouviu nem escutou mais do que 10 a 20%. O resto foi ruído, porque os senhores atafulharam as participações umas sobre as outras, confusas, no maior desrespeito pelas regras de comunicação, tanto ali como em qualquer outro lugar. E não era mesmo sobre a comunicação falhada dos políticos que falavam, gozando os assessores para a interpretação dessa arte que Menezes quer adoçar à bancada do seu grupo parlamentar e a si próprio? Desta maneira, falando à balda e com uns laivos de erudição, acabam por fazer lembrar o espaço tertuliano do programa da manhã. Em Portugal não existem técnicos da comunicação (isso das agências é porque gostamos muito de agências, incluindo as funerárias); e é nesse sentido que devem V. Exas dar um saltinho a Londres, evitando políticos e celebridades, pois lá encontram alguns comunicadores já meio esquecidos mas cuja competência ainda é respeitável. Gargarejem um pouco de manhã enquanro procuram dizer, sem engasgues nem refluxo de água, simplesmente o nome Sócrates. Conhecem, é um nome antigo. Façam isso.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

UMA CERTA IDEIA DO BELO


centenário do autocrome Lumiére
1904-2004


As primeiras fotografias a cores foram realizadas em França, no ano de 1860, mas os seus procedimentos técnicos mostraram-se imperfeitos e ineficazes. Os irmãos Lumière, inventores do cinema em 1895, apresentaram no início do século XX, 1904, a placa de vidro Autocome. O processo técnico imaginado implicava espalhar na superfície milhões de fécula de batata, regularmente tingidos de vermelho, verde e azul, três cores básicas associadas a uma superfície sensível. Assim se obtinham clichés positivos transparentes, dos quais resultava uma imagem luminosa e natural ainda que projectada num suporte de papel opaco. Como na pintura pontilhista, era a mistura óptica optida pelo olhar, na sua globalidade, que gerava o efeito cromático próprio da fina delicadeza destas fotografias. A comercialização em 1917 da fotografia a cores envolveu os fotógrafos de forma imparável, sobretudo a partir de 1910. o Autocrome ganhou posição sem verdadeira concorrência durante trinta anos, até ao aparecimento de películas de cor que substituíram aquele frágil diapositivo de vidro.
As fotografias aqui apresentadas estão bem distantes do original nas placas de vidro, quer pela transposição efectuada, quer pela acção dos agentes exteriors, além de que o tempo desfez a frescura das cores iniciais. A sua recuperação por Jean-Paul Barruyer passou por um difícil e laborioso registo. Mas é preciso verificar que, assim mesmo, as imagens nos subjugam ao primeiro olhar. Pode imaginar-se uma ligação entre elas e a pintura, uma analogia de espírito poético, algo que suscita a memória de quadros dos grandes mestres impressionistas, Claude Monet ou Auguste Renoir, por exemplo. A realidade artística acabava, por assim dizer, de pulverizar a figura das representações tradicionais, numa espécie de lição de humildade. Sem deixar de acreditar nos aperfeiçoamentos dos actuais aparelhos, apesar dos seus abundantes argumentos comerciais, é preciso ter em conta a primeira e última objectiva, o olho em cada olhar sobre as coisas, e reparar na massificação deste meio de expressão, a sua acuidade criativa a perder-se entretanto no irremediável aproveitamento para usos reducionistas do consumo, a perda de muitas sensibilidades sobre o visível. O exemplo destas obras, sem esquecer os casos próximos do grande apuramento dos meios modernos, arrasta uma espécie de paradoxo com elas: o facto da sua beleza se tornar de novo actual, mesmo sabendo quanto é difícil aceitar que temos aqui os derradeiros testemunhos de um outro mundo, aquele que iria desaparecer sob um dilúvio de fogo e de sangue, entre uma vaga ideia de ressurreição que continua a alimentar a nossa emoção estética.
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texto adaptado da nota que antecede a publicação das fotografias em meio virtual