quinta-feira, junho 07, 2007

O CONHECIMENTO DA ARTE

pintura de Francis Bacon

As artes não servem de ornamento do mundo. São, noutro sentido, entre suportes culturais determinantes, o rosto da própria civilização.

As instituições portuguesas ligadas à educação e ao conhecimento ou difusão da arte, apesar da circulação intensiva da informação na época contemporânea, têm sido longamente adversas a reconhecer as modernas projecções do projecto artístico e os processos avançados das diferentes formações na área das disciplinas de índole estética. As principais reformas que foram assumidas em Portugal surgiram tarde e carregadas de arcaismos imponderáveis. Trinta ou quarenta ans atrasado relativamente a esta problemática, o nosso país não foi sequer capaz de corporizar a reforma de 1957, a qual nunca chegou a passar do papel e da contratação de um novo corpo docente. Depois dos 25 de Abril, e apesar de um esforço associativo, técnico-científico, as reformas das ex-Escolas Superiores de Belas Artes só foram conseguidas e sancionadas duas décadas depois, integrando-se enfim nas Universidades, como Faculdades de Belas-Artes. Quando se discutiu, na velha Assembleia Nacional, a Lei de Baes do Ensino Superior Artístico, as ideias então expressas pecavam pelos mesmos erros quanto aos conceitos em torno da arte e do papel do artista. Apenas um deputado, Dr. Albuquerque, defendeu outra perspectiva. Foi ele quem disse, na sua intervenção, algo de diferente, considerando, a certa altura do discurso, que «mais digna ainda de aplauso do que a visão global do ensino artístico é, pelo que revela de intenção inovadora, a elevação do ensino de belas artes à categoria de ensino superior. Na verdade, não faz sentido que se considere uma coisa subalterna a preparação de homens que precisam de um alto nível para cumprirem com nobreza a sua missão de intérpretes da natureza da alma humana, plasmadores e configuradores de ideias descobridores de ritmos e criadores de simbolos.» Estas palavras foram pronunciadas há cerca de cinquenta anos. E, contudo, há ainda quem as remeta para o caixote da mera retórica em nome de uma prática sem projecto e de uma deriva por meros talentos mediáticos, mitos na nusca da pincelada genética, eles sim, elefantes brancos derrubando uma loja inteira de bela porcelana -- palavras recentes de jovens candiatos a artistas que rejeitam a formação teórica neste campo, depois do que já aconteceu por esse mundo fora. O projecto mais consequente sobre o desenvolvimento do ensino superior artístico no nosso país situa-se na reforma de 1975/76, no seu reconhecimento e acesso das Escolas a completas condições de Faculdades de Belas Artes (Universidade de Lisboa e Universidade do Porto), e na renúncia da persistência das oficinas do instinto ou da intuição, retorno a uma espécie de Renascença, do tempo dos meninos aprendizes e da mercantilização do talento expressivo perante a encomenda e a protecção da aristocracia da época. O que se pretendeu, nos anos 70, foi a consolidação de uma nova base para a formação artística superior, não apenas quanto ao desenvolvimento dos talentos oficinais dos formandos, antes de maneira a aprofundar as razões de de ser do seu futuro trabalho e com uma abertura apetrechada para a expansão cultural. Ou seja: com os instrumentos que cobrissem uma interacção teórico-prática actualizada, capaz de os situar, enfim , num quadro intelectual robusto em termos cienmtíficos, filosóficos, pluralmente decisivos, como intérpretes do superior estatuto que define a própria arte. Assim o dizemos de novo, contra a escassez brutal, e com José Augusto França: uma civilização sem arte não o é.» Ao contrário do que muitos ainda pensam, não são os elefantes brancos da teoria que empurram o artista para a exclusão. O saber teórico, aliado ao campo instrumental da praxis, é que desvenda sucessivos espaços de criação fundamentada, inovadora, servindo, virtual ou presencialmente, a grande arquitectura da função e do ser, a rede que multiplica o sentido universal de todas as disciplinas cujo elenco propicia mais largas e novas conexões próprias da razão no complexo sentido dos alinhamentos ontológicos.

O artista de hoje é um operador generalista ou especializado no seu mister, ombro a ombro com outros de áreas afins, e não um mero produtor de artefactos secundários. O que ele produz, com arquitectos, designers, engenheiros, além de outros, são indubitavelmente, num grande espaço de abrangências, objectos de civilização. Eu próprio, quando me graduei na área de pintura, também procurei colocar-me numa espécie de vanguarda, numa linha estratégica informada, correndo os riscos habituais ao redimensionar o status das artes visuais: isso implicava abordar a arte e o modo de a ver; daí ter reenquadrado algumas das hipóteses que o estado da ciência já permitia praticar nuns casos e anunciar noutros. Ao defender a tese «mobilidade visual, aparência e representação», inventei um caminho talvez aventureiro sobre o ver e o fazer, fazer depois de ver -- e ver sobretudo segundo uma nova dinâmica do estar. Chegava ao ponto de cinematizar o acto visual, dinamizando os pontos de observação, usando próteses de registo e tratamento do visível, anunciando novos instrumentos e processos de transformação do real, sobretudo através da ciência e de uma espécie de cartografia poética que me permitisse aceder com novas vantagens a outros planos da paisagem, fosse ela qual fosse. Aí estavam envolvidas metodologias que tornavam surpreendente o que parecia invisível ou não ter existência. Esta investigação levou alguns de nós a perceber melhor donde vinha a invulgar capacidade de descoberta, aquela que nos é própria, ver o oculto, fazer em simultaneidade o que é sucessivo -- como perceber a realidade, por instantes que fosse, em plano paralítico, mesmo sabendo que ela sempre se move quando julgamos o contrário, ocultando e desocultando caminhos para um aproximado hiperteto do visível. É importante afirmar que as recentes formulações artísticas, previsivelmente ligadas à cibernética, não são rios sem afluentes e nunca propõem nem um modo fixo de representar o real, nem uma tirania da moda. Por isso a formação dos artistas tem de ser de excelência e o seu trabalho, sustentado por novas tecnologias, garantir uma luta profunda contra o esquecimento do mundo. Se não há civilização sem arte não há mundo sem memória.

_________________________________________________________ texto de rocha de sousa. fragmento da sua intervenão nas provas de doutoramento dp prof. pintor Hugo Ferrão


pintura de Arshile Gorky

pintura de David Hockney

terça-feira, junho 05, 2007

UMA ALUCINANTE ATERRAGEM NA OTA


O incidente que se narra a seguir é semelhante a muitos que acontecem nos últimos anos na Lusitânia e no Allgarve. Por qualquer pequeno detalhe das grandes decisões, os políticos e os empreendedores vão para o Campo Pequeno ou para a Assembleia da República e desenrolam as suas fitas de argumentos. São todos muito habilidosos, a inventar túneis, a berrar porque querem o Alta Velocidade, comendo pouco a pouco o que resta de hortaliças para atravessar o pequeno país de autoestradas. Todo o planeamento do território baseia-se nas autoestradas, no abandono das vias férreas e na acumulação de montanhas de cimento mesmo junto ao mar. Há dias, num programa de televisão, um ministro explicou que o grande centro de desenvolvimento é Lisboa, numa circularidade em torno da chamada frente marítima a qual se estende até perto de Aveiro e Sines. Porque não vale a pena polvilhar de casinhas o interior, de alto a baixo, para os lados de Espanha, porque Espanha já fez isso, com as respectivas acessibilidades, e em breve terá cidades por lá, o que sugaria o interior português dos pequeninos.
LISBOA FARAÓNICA
Ontem, quando cheguei a Lisboa, fiquei encantado com o aeroporto. Espaços modernos, renovação atempada de muitas estruturas, lugares bem instrumentalizados e um ambiente de razoável consistência familiar, tudo a condizer com as dinâmicas e as sinalizações. A minha mala saíu na passadeira em cerca de meia hora, o que é muito bom para a Lusitânia que nos amolava os miolos e dilatava os calos. Lembram-se? Era nos correios, na Caixa Geral dos Depósitos, nos Bancos em geral, nas caixas dos super-mercados, nas entradas em Lisboa (antes do túnel), no caminho para as praias, nos percursos interiores da cidade, ou em certos restaurantes tipo churrascaria. Para não falar nos antigos notários, excelentes funcionários públicos, também na Câmara Municipal, sobretudo com licenças e papéis vulgares, daqueles que dizem quando a gente comprou o primeiro tijolo e coisas assim. Bom, vendo bem, meia hora por uma mala que viajara no porão de um jacto civilizado, com cinquenta pessoas a bordo, não se pode dizer que seja um avanço muito significativo. Ao chegar à rua, já a noite tombara sobre a portentosa gare, pressentindo-se as luzes da nova cidade envolvente. Um taxista perguntou-me se eu precisava dos serviços dele. Um pouco enjoado de ter que completar vários contactos áquele hora, voltei-me para o taxista, que já andava ajoujado em volta da minha mala, e perguntei-lhe se na cidade portuária não haveria alojamentos disponíveis. E ele, sorridente: «Não, não é preciso ir tão longe, isso da zona portuária é demasiado longe e não está bem equipada de hotéis.» Insisti: «Mas eu não estava a falar do rio, pensava hospedar-me aqui perto». O homem largou logo a mala e cantarolou o que achava: «Ah, isso é outra coisa, uma corrida de nada e tem a sua malinha num bom hotel, aliás numa área onde poderá escolher o equipamento que achar mais próprio». Consolei-me pelo bom entendimento e pedi-lhe que me ajudasse a carregar a mala.«O senhor pode levar a mala denro do carro, a seu lado, e não terá que pagar taxa de bagagem. Na bagageira já é outra coisa.» A minha pele irritou-se um pouco. «Bom, que diabo, ponha lá a mala aí ao lado, no banco.» Entrei pela outra porta e ordenei ao lusitano: «Pronto, vamos lá então para Lisboa» O outro voltou-se para trás: «Em Lisboa já nós estamos, a bem dizer. Tem alguma zona ou rua em particular para onde queira dirigir-se?». Senti um calafrio. Sacudi os ombros: «Não, ou melhor, sim, quero ir para essa zona onde diz que há vários hotéis à escolha». O tipo não teve mais dúvidas e arrancou, começando a rodar por uma longa avenida, mais residencial do que de serviços, aliás quase vazia embora razoavelmente atapetada de carros. Pensei para com os meus botões: «Que raio, levaram quase meio século a fazer o aeroporto, mas agora as envolventes são maiores do que o próprio.» A certa altura pressenti um cheiro a sardinhas ou coisa parecida, lembrei-me dos bairros populares, e olhei para as grandes estrutras, à direita, talvez de escritórios, com portas de ferro e alguns cromados, pátios contudo vazios de seguranças e porteiros. «Estamos ainda muito longe?» - perguntei para a frente. «Não senhor, estamos quase; acabei de entrar na aveida da República». Fiquei atónito: «Mas já estamos na avenida da República, em tão pouco tempo?» E ele, num riso breve, a mascar um palito: «É para que veja. Então fizemos o 25 de Abril e ficávamos de mãos a abanar? Cá vamos nós, ao lado das avenidas Novas: há velhos por aí que voltaram do Brasil e encheram-lhes os bolsos outra vez». Olhei de esguelha, apertado entre a mala e o lado da porta: lá estavam os bolos de noiva, os que restavam, mais Bancos, mais super-mercados, e em frente, apertada por dois colossais e estalinistas prédios novos, uma estátua de bronze, num miniatural plinto de calcáreo. Perguntei, ansioso: «E então e o Saldanha, a praça do Saldanha?» O lusitano gargalhou: «O senhor já deve estar almareado: então não vê que estamos a atravessar a praça do Saldanha? Olhe como ele aponta.» Dilacerado, cerrei os dentes e clamei para dentro da minha cabeça: «O que ele está é a mandar destruir toda esta trampa altíssima, feíssima, na esperança de reganhar a sua querida praça. Fechei os olhos, encostei-me no banco, uma nuvem de confusão invadia-me a consciència, enquanto a memória, emigrada durante largos anos, se despojara no cansaço da chegada. Lisboa parecia uma coisa texana, destituída de nexo, armadilhada por milhares de cartzes néon no pior estilo de Las Vegas. Uma pequena volta mais «aquele é o túnel do Santana» e estávamos à porta de um hotel de muitas estrelas, o «Altis». «Aqui estamos. Este é um dos melhores hotéis, no centro de Lisboa. Quer ficar aqui ou procurar um pouco mais?» Abalado como nunca, respondi-lhe que um pouco mais não era nada e que podiamos sair. O homenzinho fez tombar a mala para o chão, de esquina, mas já se aproximara de nós um empregado do hotel. «Então quanto lhe devo?» Ele afagou o nariz, olhou para dentro e respomdeu: «Oito euros». Fitei o pequeno lusitano com os olhos em brasa: «Então o senhor vem da Ota até aqui e só me leva oito euros? Devem ser oitenta, pelos vistos». O taxista deixou cair o beiço e ficou arrasado, de olhos arregalados, incapaz de falar. O empregado do Hotel colocou a mão direita no meu braço esquerdo e falou com brandura: «Tem estado fora do país?» Puxei o braço:«Sim, claro que sim». O tipo voltou a pousar a mão no meu braço e disse pausadamente: «O senhor taxista tem razão. Ele veio do aeroporto da Portela. O caso da Ota ainda está por resolver. Estuda-se uma das últimas hipóteses que é criar uma grande ilha artificial no Tejo e aí implantar o novo aeroporto. Já não fica só a norte e servirá os dois lados, respeitando os aquíferos e os postulados ecológicos, com a vantagem de estar tão perto de nós como o da Portrela. Atónito, perguntei em verdadeiro estado pré-comático: «E o aeroporto da Portela?». Ele sorriu. «Não há dinheiro para o explorar ao mesmo tempo do futuro equipamento. Vai a baixo, com certeza. Diuscutem agora o aproveitamento desses terrenos. Pensa-se que talvez umas casinhas, uns bairrozitos, mas com zonas verdes e a Feira Popular.» Senti que perdia os sentidos e só acordei de manhã, sedado, num quarto enorme e mal arrumado, dentro do qual se ouvia, de quando em quando, os aviões em aproximação de aterragem.

domingo, junho 03, 2007

PARA UM MEMORIAL DAS NAVEGAÇÕES


Estas imagens correspom à corporização da memória de quase cem anos de navegações, entre pequenos e grandes portos fluviais, carregando grande diversidade de produtos e materiais. Barcaças robustas, de madeira apropriada, eventualmente construida nos estaleiros da zona do Seixal. De tempos a tempos, estas enormes baleias dóçeis, eram varadas na margem, apoiadas a certa altura do chão, e revistas, reconstruidas, repintadas e calafetadas, em busca de mais rio e de mais futuro.














fotos de rocha de sousa

terça-feira, maio 29, 2007

A DOR SUPREMA

foto de Joan Moore / Getty Images / AFP
Ao ler hoje de manhã o Jornal Público fiquei prisioneiro desta impressionante fotografia e resolvi partilhar convosco o mesmo sentimento. A rapariga, deitada rigorosamente sobre a terra adjacente à campa onde jaz o noivo, vítima este ano de uma explosão no Iraque, exprime a dor da perda, a dor suprema, e talvez o seu pressentido acto de rezar pareça a muitos de nós o abrandamento funcional do sonho desfeito. Por mim, e embora respeitando a prece da «personagem» que o mundo irá engolir um dia, creio que esta atitude não significa apenas um acto de fé. São outras coisas que se esvaziaram e um retorno amado impossível.

domingo, maio 27, 2007

ARTISTAS PORTUGUESES | Gil Maia







pinturas em acrílico sobre tela de Gil Maia 2007
O pintor Maia nasceu em Mais, em 1974. São marcas curiosas. O pintor fala do gosto pelo silêncio porque nesse estado é sugerida a substância de encontro mais preciosos. Cita o canto da mesa como lugar cómodo, ou ainda o pátio enquanto possível lugar de todas as estranhezas. Mas aqui, pela excelente escrita do pintor, já nos encontramos em pleno espaço da pintura, diante do seu espectáculo, entre a batalha das linhas oblíquas e circulares, por vezes rectilíneas ou em faixa, e os planos cromáticos determinantes ou organismos subtis vogando nesse mundo ao primeiro olhar caótico, bem depressa desvendável nas suas cortinas, cortes, inesperados preciosismos, toda uma construção que, no conjunto, nos pode sugerir a interminável soma de próteses a completar e a dilatar as estações orbitais em movimentos inivisíveis, desarrumadas enquanto verdadeiro habitat humano, controladas entre gerações e gerações de computadores, a par de outras máquinas especializadas.
Gil Maia sabe certamente qual o grau de abertura das suas obras, mundos formados num quadro libertário, não raras vezes indecifrável pelas metedologias tradicionais, mas também nos revela um pouco, entre desfoques, algo que se pode «espreitar pelos buracos dos bordados», tendo assim em conta a sedução de uma de uma cortina naturalmente pendurada e cujo valor intrínseco parece atrair, de forma inexorável, o nosso olhar. É Maia quem nos diz, a propósito do pátio e de todas as as estranhezas, que esse é, ao fim e ao cabo, o apeadeiro dos viajantes sem regresso, o espaço onde pousam máquinas tão excêntricas quanto coloridas.
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Gil Maia é licenciado pela Faculdade de Belas Artes do Porto e deté já um curriculum de qualidade.

terça-feira, maio 22, 2007

OS MENINOS DESAPARECIDOS OU RAPTADOS

Esta menina, de quatro anos e origem inglesa, encontra-se desaparecida há cerca de um mês e o seu caso ainda não foi resolvido, como infelizmente acontece todos os dias com milhares de outras crianças em todo o mundo.

ARTISTAS PORTUGUESES | Sara Maia



Portrait with Mun and Dad 2007


Na sua última exposição Sara Maia utilizava em título «O Sono do Cão». Em inglês, esta expressão idiomática - Dog's Sleep - significa um certo teatro, mise en scéne. Assim se esplica, com outras frases idiomáticas visuais, a série de sinpopses que a autora propõe no catálogo para cada quadro, uma espécie de roteiro, «uma representação das representações esperadas». Afinal, diz a pintora na mesma abertura: «O título 'O Sono do Cão' expressa ainda o facto de os cães dormirem em vigília, num permanente estado de alerta. Pela sua sensibilidade apurada, a sua orelha atenta, o seu olfato sagaz, e sendo o cão um animal doméstico, carente, dependente e que assume sentimentos próximos do humano, é nele que recai a minha escolha»
Lendo bem, ao sabermos como decorreu a infânca de Sara, entre uma espécie de «sequestro» e um ilimitado espaço de liberdade criadora, o fio do nosso imaginário desenho o desenho da menina que ela ainda parece, julgamos perceber donde nasce a fascinante alegoria do cão. A menina estava sempre alerta como ele, o cão, sabendo, como todas as meninas, os modos de inventar para além das coisas, entre a crueldade e o contentamento.
Sara Maia viveu uma infância dolorosamente marcada por fragilidades, doenças, e por isso parmanecia em casa longos períodos: era aí que formatava a sua liberdade e onde inventava fantasmas, monstros, velhos meninos, situações incontornáveis. Surgem então narrativas, da menina cega aos velhos que tanta estranheza lhe causavam e cuja beleza, nua espécie de redenção, veio redimensionar no Ar,Co., onde estudou e onde desenvolveu as grandes potencialidades do seu imaginário. Daí muitas das suas preferências recairem em Frida Khalo, Francis Bacon, vang Gogh ou Bakthus -- referências, assinala, da sua própria formação.

Os quadros da última exposição de Sara, de grandes dimensões, abriram mais um capítulo no percurso da autora e são dominados por uma força expressiva poderosa, entre o monstruoso, a ironia, o sarcasmo, o que resta da bondade da menina. Sara, cúmplice com o seu tempo, olha as distorções aociais, o real degradado dos seres, a ternura e a sua impossibilidade, criando assim (como aliás vem acontecendo na pintura de hoje) certas narrativas de um realismo impossível, bordalescas por um lado e violentas por outro, acto político também.


















On ones lap
The Saint of the Little Bottles

segunda-feira, maio 21, 2007

A COVA EM QUE O HOMEM SE ENCERRA

ilustração de Corbis/VMI
«Fiquei em estado de choque quando à noite ele me confessou que tinha horror a estranhos e preenchia o silêncio com disparates» Este subtítulo deixou-me atordoado, não pela frase em si, mas pelo que ela anunciava ao meu próprio sentimento de horror, não raras vezes. Procurei o início do artigo, um texto de Erika Castriel com ilustração de Corbis/VMI («Psychology Today»). Muitos dos meus amigos, quase todos companheiros na guerra que Portugal travou em Angola, falavam-me de sintomas destes e de uma terrível sensação de claustrofobia. Perdi o contacto com a maior parte deles e na altura em que regressámos a Lisboa não se falava em síndroma póstraumático. Angola fora, para grande parte de nós, um encontro com o medo, com a saudade, com a impotência, com a raiva e a depressão. Mas, no meu caso, recebendo notícias e livros que a minha mulher me enviava, o medo contraía-se em certas viagens nocturnas, dias e dias para cobrir umas dezenas de quilómetros. Além disso, uma vez que levara a minha máquina de escrever, sempre que nos encontrávamos numa base da rede ocupava-me a escrever, desde narrativas sobre as nossas deslocações no terreno a peças de teatro, contos e novelas. A zona da floresta dos Dembos era estranha e muito bela, tanto como as margens do Loge, em Ambriz, e só isso bastou para que nunca me sentisse acossado, na iminêcia de morrer. Apesar de tudo. Apesar dos próprios mortos.
Dois anos após o meu regresso a Lisboa, acordei de súbito em pânico, um fogo de ansiedade pulsando no meu peito. E foi então que tudo começou, a palpitação do ser, a rejeição do mundo. Erika Casriel escreveu que «os nossos corpos são como uma máquina hipersofisticada, mas os sinais que emite estão calibrados para a Idade da Pedra». Tenho conversado com amigos que também sustentam a ideia de um corpo já obsoleto e vulnerável, cada vez menos capaz de responder à problemática ou à pressão que o seu próprio cérebro engendrou, agigantando a nossa condição de reféns -- e de reféns da civilização assim criada, carregada de sistemas de produção e de comando que apenas excitam o desejo egoísta da posse, do direito a mais bens, dentro de centros urbanos absolutamente antinaturais, inclassificáveis segundo os valores guardados na gaveta; centros urbanos afinal concebidos como crimes contra a humanidade.
«A ansiedade social, de fraca a grave, como por exemplo na agrofobia, que pode aprisionar a pessoa dentro da sua própria casa, alastra e agrava a ordem das coisas». Convencido de que a minha depressão se expandiu em consequência de raizes genéticas e na força das responsabilidades profissionais, mais pela memória do inferno escolar do que pela guerra lírica num paraíso suspenso, vejo o mundo actual a ser conduzido contra os valores positivos e pacificantes que ficaram simbolicamente gravados na Carta dos Direitos do Homem, enquanto as transnacionais, os exércitos regulares ou de guerrilha, as epidemias, as fomes, os genocídios todos, atingem a mais alta progressão de sempre, a par da agressão tecnológica do ambiente e da sua resposta biblicamente catastrófica, sem retorno.
Uma das palavras que mais detesto é a famosa competitividade. Quem é que pode sustentar a boa natureza de tal conceito, entre seres que sofrem efeitos bem perversos de um combate sem leis, a par da concorrência, a imagem peregrina de que os mercados devem ser totalmente livres, sem Estado ou com pouco Estado, porque tais mercados se equilibram naturalmente? Tudo isso releva de desvios comportamentais e de uma grande ignorância sobre território que se habita e cultiva -- como, porquê, para quê? Talvez a morte branca salve os sobreviventes humanos da crise em que se dilaceram, transformando por vezes uma imensa tristeza na maior das barbaridades. Partindo eventualmente de uma escassez salvadora, procurando o equilíbrio entre as relações de produção e consumo, talvez os ocasionais homens de um futuro distante possam ordenar comunidades bem dimensionadas, culturas de partilha e mercado coordenado, tendo em vista objectivos não dementes ou megalómanos como os de hoje, antes dedicados ao convívio e ao conhecimento para todos, na evocação deste universo onde as galáxias pulsam e movem-se não se sabe porquê. Mas procurar uma aproximação a esse delírio fascinante é melhor projecto do que iludir a morte com orgias planetárias.
Neste sentido, a ilusão dos heróis do quotidiano acabará entre silêncios, na utopia, embora aparentemente sem saída nem glória.

The Lost Soul, 2006 Nuno Cera

sábado, maio 19, 2007

A INFINITA COLISÃO DAS GALÁXIAS



APOCALIPSE BRANCO




CITAÇÃO

Hélder Spínola


No mundo em que vivemos, o aquecimento global, a poluição e o degelo são alguns dos sinais que reflectem o nosso impacto no planeta e nos fazem recordar a nossa responsabilidade ambiental. A percepção de que a rentabilidade das empresas depende de um desenvolvimento sustentável, a sensibilidae dos limites e potencial do crescimento económico, seu choque na realidade natural, passam necessariamente pelo ecodesign dos produtos bem como por equacionar a utilização dos materiais resultantes dos próprios processos de reciclagem.

Palavras que se inseriam em muitos discursos do século XX, como se fosse possível conservar a raiz do mal sem trabalhar a sua raiz, o comportamento e a lógica da acumulação em sucesso. O problema, em última instância só poderia ter passado pelo redireccionamento do desejo, pela contração em ordem ao essencial, pelo fortíssima mudança dos objectivos de toda a sociedade.

pequena reflexão para ficcionar

A fase de agravamento das condições ambientais do planeta Terra só foi devidamente pressentida por astrónomos do século XIX, alguns visionários, outros criativos, como Flamarion, e por muitos cientistas, astrofísicos, geólogos, especialistas de oceanografia.
Hoje acabou a agonia de Indonéia. Dela apenas flutuam nas águas alguns destroços que parecem subitamente muito antigos, animais, aves perdidas do céu e dos ramos das árvores, milhares de corpos humanos semelhantes a bóias inchadas, encalhando aqui e ali, já em decomposição e sem nenhum auxílio em volta, ao invés do que acontecia quando as catástrofes, no século XX, pareciam ainda pequenas, domináveis, superadas por grandes massas de auxílio e reconstrução. O céu -- dizia um jovem astrónomo inglês na sua noite de embriaguez -- está decididamene desordenado. Já contei oito cometas em oito dias, um erro colossal não sei porquê, pois nem sequer se previa qualquer fenómeno desse tipo para esta altura, no quadro da cartografia cósmica que controlamos.
Em maio de 2147, o Hublle10 e o observatório lunar 538C, sincronizados depois das fotografias iniciais resolvidas através do primeiro daqueles aparelhos, registaram em centenas de fases e angulações, aquilo que terá sido, há biliões de anos, a fase terminal do choque entre duas galáxias. Não me sai da cabeça esse fabuloso acontecimento, apesar das pesquisas actuais e das eventuais vias de passagem para outros universos. Aquela tragédia então fotografada, lindíssima, precisou de muitos milhões de anos para atingir tal limite, tal ponto, o que vemos ainda todos os dias, numa extensão interminável de anos luz, algo que está chegando aos nossos olhos frame a frame e que nunca passará disso antes da nossa morte na relatividade das escalas, do espaço e das massas, nas virtudes de velocidade que, embora perto da deslocação da luz, só os atingiu em convulsão (calcula-se) depois de um milhão de anos. Na «Nave da Esperança» que deriva por impulsos gravitacionais, pensamos na nossa galáxia, aparentemente protegida em longa estabilidade, e no entando sabemos como as estrelas explodem aqui e além, enquanto os planetas com vida que eram estudados numa fase crítica já tinha morrido há mais de um século.
Quando a bela Veneza se afundou, os sobreviventes da catástrofe universal ainda lá foram em pequenos grupos.O testemunho desses visitantes parecia patológico e a sua própria vida já perdida. Deixavam-se arrastar em novos barcos accionados por baterias, contornando as varandas, vogando ao acaso, olhando longamente as cornijas e os telhados sombrios. Para esses lados parecia não haver as intempéries e derrocadas de países como os Estados Unidos da América nem a imensidade dos lagos que lá surgiram, todos os dias chupados pela terra empapada. Mas estas coisas, tendo em conta a velocidade imprevista dos acontecimentos, criavam condições nunca imaginadas e outras exigências de resposta. Os bombeiros de Nova Iorque, por exemplo, deslizando em embarcações próprias nas ruas transformadas em rios, onde os arranha-céus haviam atingido a natureza aparente de anões, raramente tinham de acorrer a fogos. Ao contrário, e sem ilusões quanto ao nível das águas, haviam apurado métodos e tecnologias para acudir a imensos desabamentos, vítimas ou suicidas, gente impreparada para a situação e não raras vezes afogando-se após horas de resistência com as mãos enclavihadas em cabos e pontas de cartazes desactivados.










O aquecimento do planeta, tropicalizando a Europa e outros locais de latitude idêntica, trabalhava num verdadeiro paradoxo com a descida dos gelos, cidades inteiras como transatlânticos brancos dirigindo-se para sul. O branco imperava em toda a parte, tornava o apocalipse de uma alvura aparanetemente salvadora.
Metade do planeta já se afundou em imensos oceanos de lava branca, contra um céu branco, de nuvens altíssimas, a par de invernos curtos e absurdos. A Indonésia soçobrou por fim. A Rússia morre de frio, sempre branca, com a população reduzida a um terço. De um lado e do outro da antiga cortina da guerra fria já não é possível accionar os silos onde hibernam os grandes misséis intercontinentais. Não já verdadeiros suicídios colectivos. Os homens suicidam-se em solidão, sabem enfim que esse é, como dizia Camus, o único problema filosófico ainda convocável

terça-feira, maio 15, 2007

ARTISTAS PORTUGUESES | Ana Maria


pinturas de ANA MARIA


O que é a arte?
O que é a pintura?
Ana Maria, nascida em Lisboa, em 1959. Em 1982 conclui o curso de Filosofia na Faculdade de Letras do Porto. A par da actividade docente, começa o seu percurso artístico, em vários domínios das artes plásticas. Trabalha neste domínio desde 1960, tendo participado numa exposição de arte portuguesa no Japão, 1998. Tem um curríulo vasto, entre muitas exposições individuais e colectivas, além da obtenção de sete prémos.
Curiosamente, tomando como questão, as perguntas iniciais, Ana Maria, durante 25 anos, não falou da sua arte por um conjunto de dúvidas, entre os porquês e o destino da arte. É interessante verificar que na exposição entretanto apresentada, S. Mamede, Maio 2007, o texto da apresentação é assinado pela própria Ana Maria.
excerto do texto:
Nunca lhe interessou a mensagem social ou explorar a relação da arte como modelo de reflexão ou formas de consciência mais ou menos relaxada, mais ou menos política, talvez porque o actor filósofo passou essa mensagem num combate partilhado com os outros, com militância mas sem propaganda. Mas a arte é outra coisa, o indizível. É um discurso nunca treinado que resulta não de um código de sinais mas de um jogo ocasional e acacial (acção incontida) que une vários elementos e do outro lado o figurino a submeter forma. É quase a mesma guerra que existe entre o mundo e a existência, entre a matéria e a forma. Se no quotidiano aceitamos que somos lutadores até ao fim, também o acto criativo é a convicção permanente de que aquilo que fazemos é não só a possibilidade de intervenção convicta no mundo e sempre uma nova batalha. Então onde entra a técnica? É um segredo, ela seduz primeiro as figuras, ama-as ou condena-as. Fracasso... Falhanço... Festejo..., é o final com que nos apresentamos, reconhecimento dos limites e recomeço deste ciclo de afirmação/negação.
Sonhadora e actriz agradeço as palavras e fujo para a tela para não morrer nas mãos do encenador,
Praia da Granja
Ana Maria

segunda-feira, maio 14, 2007

PÁGINAS DE VIAGEM

pintura de MANUEL TARAIO

Com uma exposição presente na Câmara Municipal das Caldas da Rainha, Taraio dá-nos oportunidade de divulgar um exemplo esplendoroso da sua pintura, entre ambiguidades representativas que nos obrigam a uma saborosa decifração entre imagens antropomórficas ou frutos e tubérculos, na mais genuína das naturezas mortas. Eu não sou decifrador. Observo e conheço as regras internas, os «códigos» desta oficina soberba, tão desdenhada hoje em nome de todas as infâncias perdidas ou de todas as adolescências frutificadas. Esta é um talento frutificado.

segunda-feira, maio 07, 2007

AS INSTALAÇÕES DOS INSTALADOS

instalação de Nuno Vasa

A revolução das artes durante todo o século XX, apesar das duas guerras mundiais ou talvez por isso mesmo, gerou movimentos teóricos sobre a forma plástica, a mobilidade visual e os modos de realização prática. Os museus da arte antiga, de importante significado para historiadores, antropólegos, sociólogos, técnicos de conservação, entre outros, foram ficando na rota turística e dos estudiosos. Os valores estéticos mais estáveis acabaram também por ser abalados em virtude de transformações formais inusitadas. É verdade que, a princípio, modos de formar como o dos impressionistas, conservavam a densidade pictórica, dilatando-a pelo espaço óptico, tornando-se laica, embora ainda apoiada na relação entre olhar e ver, tendo a percepção, aqui, um papel decisivo. Começa então o caminho da mudança, por se julgar que, em boa medida, as coisas representadas se pulverizavam no espaço, atravessando a consciência, a razão e as emoções. Se a qualia da pintura era a cor, eis o que importava colocar no centro da polémica, procurando definir as estruturas dessa linguagem. O que não é tonto de todo e depressa se tornou um acto redutor, no convencimento de que, antes de tudo, importava (além do ponto) entender o plano (campo) na sua geometria óbvia e na secreta, a linha e o seu comportamento, a cor e as variações dos valores lumónicos, a espessura ou textura das matérias dispostas na superfície. Este despojamento intelectual foi tornando crível o processo da cebola, a obra substantiva, calibrada, em camadas construtivas, ganhava verdade quando se limpavam as cascas e camadas expeteriores até se revelar pequena e regular - um termo absoluto mais revelador da essencialidade das formas do que ds seus trajes e adereços. Assim se limpou tudo e se orientou a nova cultura para as virtudes do movimento, como no futurismo, ou para o salto sobre as aparências, para o outro lado do visível, entre registos simultâneos de vários pontos de vista, como mo cubismo. Até à tela branca e ao rasgão laminar que Fontana lhe aplicou..Mais tarde, o pouco sabia a pouco e os novelos permitiram recuperar o esplendor das antigas tapeçarias e a distorção expressiva das figuras, como em Bacon, fazia-nos regressar à aproximação do real, não por simples sentido mimético, mas na validação expressionista dos efeitos protoplásmicos da matéria distorcida, esses flashes que tantas vezes nos assaltam aqui e além. Novas práticas simultaneamente construtivas e desconstrutivas atravessaram o universo da criação artística, enquanto os autores mais insatisfeitos começavam a geminar outros processos, matérias, materiais, levando a pintura e a escultura para um espaço absurdo, por vezes vagamente arquitectónico, com máquinas imóveis ou animadas, no uso de restos da civilização industrial, ferros, madeiras, aço, e, por outro lado, restos humildes do cultivo da terra, um ramo ou uma flor no topo de um monte de areia dentro da galeria. Ou só areia para nos impedir de disfrutar «de dentro» o assentamento de pequenos cristais. Este é o domínio, agora novamente em voga, das instalações, formação com base em processos híbridos, mais ou menos complexos. E aqui chegamos a uma exposição da galeria SOPRO, onde se apresenta a impositiva instalação de Nuno Vasa. Latas de tinta, de dimensão variável, acumulam-se no espaço, embargando substancialmente a entrada. «Impedidos de entrar ou sair - diz Pinharanda - somos, mais uma vez, na genealogia de obras de Nuno Vasa, confrontados directamente (mas agora numa situação inesperada fornecida pela liberdade de expressão da arte contemporâmea) com a angústia tipificada do artista tradicional: a metáfora do espaço branco esperando uma qualquer inscrição ou rejeitando toda e qualquer representação. «Acto», assim se chama o acto, é uma lata de tinta branca entornada na fronteira entre o interior da galeria e o seu acesso exterior - impedindo qualquer entrada ou saída. De novo se estabelece uma forte relação física entre a acção da obra e o espectador». Não é uma relação feliz e nem sequer agressiva. É um adiamento. Um acto académico (de hoje) que adverte o espectador de duas coisas possíveis: imaginar sentidos ou voltar criativamente para casa.

domingo, maio 06, 2007

TÚMULO DO MALOGRADO D.SEBASTIÃO

Este é o túmulo de D.Dinis, numa soberba fotografia de Eurico do Vale, que nos confronta com a luz exterior, memória fecunda da vida do rei e do reino, simetria simbólica de quem teve a verdade do projecto e Portugal um retorno por vezes deslumbrante. A Galeria Carlos Carvalho, Arte Contemporânea, atreveu-se a esta viagem quase científica dita Retratos dos Túmulos dos Reis de Portugal. Trata-se de uma viagem em que a fotografia só é espectacular à medida da imponência das pedras, das esculturas e do ângulo que o fotógrafo explorou com superior parecer. O que nos resta para reflectir é então o espectáculo da luz e da sombra, a fotografia em si, o silêncio que envolve os meandros da época, da figura evocada, da demorada medida de tudo isso.
Em baixo vemos uma fotografia do túmulo de D. Sebastião, o malogrado rei que alguém terá iludido e que neste túmulo (vazio?) se desdobra na dinâmica piramidal, eventualmente simbologia do crescimento amputado, enquanto a grandeza é apenas mítica, vista por uma câmara que regista de baixo para cima, em oblíquas, sem a grave serenidade vertical das outras peças. A névoa era um mito diferente para chegadas tardias. João Cutileiro trouxe D. Sebastião para uma estátua não tumular, mármore facetado, cor de cinza, e um rosto rosado de menino ao mesmo tempo temerário e assombrado, expressão concentrada nos olhos que, embora pequenos, se iluminam para diante, na patalogia ir.


segunda-feira, abril 30, 2007

ARTISTAS PORTUGUESES | António Gonçalves


















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António Gonçalves, com uma exposição intitulada Impossibilidade, no Palácio Galveias, entra perfeitamente nestas nossas «contas» de ir revelando autores portugueses contemporâneos, sem cronologia ou referência de idade, apenas pela oportunidade, pela revelação de certas experiências no campo das artes plásticas.
A narrativa articulada pelas fotografias reinventa ou ficciona um trato de mercado de arte impróprio, pois tanto podemos estar diante de um acto de secretetismo, com aspecto ilegal, como de uma simulação de tudo isso e alguma discrepância noa meios, quer no disfarce arquitectónico dos lugares, quer no uso de um sumptuoso carro que não se ajusta ao outro tempo, embora possa pertencer ao domínio dos instrumentos de certas actividades do mercado ilícito de hoje. Se as pinturas, trazidas pela rua nas mãos (assim parece) do próprio autor, não podem estar a montante do espírito que as criou em e simultaneidade com a sua verdade subjectiva a jusante, agora. Isso retira-nos a possibilidade de relacionar os objectos e os sítios, e a própria actividade das criaturas, num tempo imensurável, parecendo relacionar-se com o mercado obscuro da arte, pertencendo a um tempo sem medida de todas as ilicitudes. Assim armadilhada a nossa visão, passando por uma poética de formas paradoxais, resta-nos a solidão de quando somos o último espectador a sair do teatro, refazendo vezes sem fim o sentido das cenas e o seu repetido desconserto.
Como a arte não é, quanto parece, um campo de revelação, os que lhe dão corpo ou fingem copiar o visível, ou apontam a uma autonomia fundamentalista ou legam ao espectador a mentira de cada representação. A mentira assim produzida pode ser um caminho de efeitos precários, mas pode também sagrar-se como alibi de uma verdade escondida. Klee definiu este difícil nó com grande lucidez: «a arte não reproduz o real, torna-o visível» Daí, em boa medida, a sua raridade.
Quem são estes homens vestidos de preto? O pintor acaba por ser o próprio Gonçalves. Depois de esperar, os homens apropriam-se das pinturas, pela calada da noite, enchendo o carro de luxo. Que máfias são estas?. Como é que uma pintura pode ser objecto de comércia, nestes e noutros moldes?
A mentira da representação muda, rara e difícil, sobre a realidade talvez passe mesmo pela mercantilização da beleza e pelo equívoco das fotografias aqui referidas, ambígua teia de sgnificantes e significados que o usufruidor das aparências pode indiciar entre filosofias divergentes ou convergentes. O consumo megalómano do mundo contemporâneo não se reserva para uma arte problemática: prefere pagar uma arte caríssima e que pouco mais pode fazer do que anunciar a sua própria morte.
N: com base nos textos de Pinharanda

domingo, abril 29, 2007

ARTISTAS PORTUGUESES | Jorge Abade


MURDER BALLADS


Jorge Abade apresentou há pouco tempo, na galeria Sopro, uma exposição consolidadora da sua obra e inspirada num disco de Nick Cave que diverge um pouco das músicas mais divertidas. Agora há «violência e tensão», também «esperança e beleza de luto». E Jorge Abade, na tensão da metamorfose, tendo em vista inserir esta realidade mutante na sua pintura, inventa metáforas de inocência e guerra, apropria-se do corpo, transforma-o através de próteses parciais dele mesmo, retrato impossível em geminações trágicas. O novo organismo parece despojado de ideologia, de projecto de bondade. O mundo de «O Homem Elefante» não resiste a esta monstruosidade aparentemente vencedora. Muitos nos avisam da ausência de futuro, na incapacidade de nos reconhecermos de novo. O retrato de Bacon será sempre a metamorfose sedutora da sua distorção. Assim acontecerá com as belas criaturas de Jorge Abade, incapazes de desalojarem a evocação da guerra, mesmo em armas de plástico, e hastes a florescer como troféus ilusórios. Tragicomédia autodestrutiva, o retrato ao espelho intemporal reflecte baladas da arte contemporânea na hipótese assassina do jogo que se joga em volta.
N. este texto, do autoe do blog, foi publicado no JL de 25 Abril 2007

A ORDEM NATURAL DAS COISAS


Estas fotografias, de Rocha de Sousa, fazem parte de uma reportagem muito mais vasta, sobre a queda e fragmentação de um posto metálico de alta tensão (ou o seu derrube para desvio da linha) que mais parece, em contraste com a paisagem, restos de uma nave alienígea (como é nosso gosto invocar). Outras fotografias desta série foram publicadas (com trabalho de efeito plástico no blog construpintar02. Quando se fala, a propósito de eventos como este é razoavelmente comum evocar a ordem natural das coisas, justamente na medida em que a queda orgânica de volumes desta natureza, por falha dos apoios, tempestade ou outra razão similar, é mais uma vez a (por vezes) espectacular demonstração da lei da gravidade, de Newton