terça-feira, maio 20, 2008

A ÁFRICA PERTENCE AOS AFRICANOS




O próprio Franz Fanon, apesar dos seus momentos de lucidez e prudência perante a história e o futuro, denunciou a demagogia ou a falta de rigor de frases como aquela: «A África pertence aos africanos». Slogan dos mais patéticos do tempo da descolonização selvática, pois ninguém ignorava que africanos eram e são os nascidos no respectivo continente e que tal certeza em nada envolve direitos territoriais de pertença. Apesar disso, muitos africanos brancos foram cegamente tomados como colonos perversos, responsáveis pelo atraso das etnias negras, e acabaram, nos momentos iniciais da explosão revolucionária ou independentista, chacinados das formas mais bárbaras, entre encenações mórbidas através dos seus orgãos decepados. Este caminho, nos primeiros dias do confronto em Angola, caso que conheço melhor, apanhou quase de súbito os brancos de Carmona e do Negage, por exemplo, que ficaram em choque perante a chegada de carrinhas vindas do interior, em corridas alucinadas, carregadas de fazendeiros brancos destroçados à catanada, num horror sem medida. Populações ligadas a tais vítimas, por vezes familiares, contrariaram esta onda de barbárie e replicaram com os mesmos meios ou piores, abrindo os mais terríveis acontecimentos da guerra colonial, entre a razão e a total ausência dela.
Ao tempo, apesar do apertheid, todas as pessoas que aspiravam por uma vida melhor olhavam para a África do Sul como um país desenvolvido, sem retorno negativo, lugar onde os negros, a despeito de uma segregação institucional, podiam aspirar, entre humilhações, a concluir cursos superiores.
Décadas após a descolonização, o desastre dos comportamentos e a instauração de ditaduras militares passou à regra dilatada. O exemplo de Mandela, militante contra o apartheid, muitos anos preso, chegou a Presidente de África do Sul, mas o seu desempenho brilhante não chegou para uma transição cuidada entre situações de grande discriminação. Hoje é comum assassinar brancos (lojistas ou outros) praticamente por capricho, enquanto a organização do trabalho se desfaz e as etnias se guerreiam. Segundo um balanço oficial, 22 pessoas foram mortas em Jonesburgo e arredores, nos últimos dias. Houve várias centenas de feridos e muitos foram despojados dos seus poucos haveres, assistindo, impotentes, à destruição dos seus casebres. Será esta, porventura, uma forma apreciável de oferecer África, toda ela, aos africanos de cor? E como deveremos classificar a extinção de etnias por outras, a ocupação de territórios, a instauração de regimes autocráticos, que se apropriam das riquezas naturais, entre outras, e sustentam oligarquias fabulosamente ricas, bem distintas da população pobre, doente e esfomeada?
Com a emigração de outros países para a África do Sul, um novo apertheid foi estabelecido, regado com crimes em cadeia e o alastramento do desemprego. Quatro em cada dez pessoas estão sem trabalho. A miséria atinge 43% de uma população confrontada com um nível de criminalidade recorde, cerca de 50 mortos por dia.

Crimes como os ilustrados por estas duas imagens não são raridades brutais: e veja-se, olhando com atenção e o maior despojamento possível, quando alguém se aproxima (quase fora de campo) mas logo recua, um polícia ou cidadão. E ficam a ver como nós. As imagens não representam as célebres auto-imolações do fim do século XX. Estes homens foram queimados pelos seus semelhantes, em cor e direitos. Morreram sem defesa, pacientemente.

segunda-feira, maio 19, 2008

OS LIVROS SEGREGADOS PELOS LOBIES

LANÇAMENTO NA GALERIA VALBOM, DIA 31, 16 HORAS
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HÁ MAIS CÓDIGOS DO QUE JULGA
LEIA ESTE LIVRO
E CONHEÇA O MUNDO
ONDE OS ARTISTAS APRENDEM
O CÓDIGO DO SUCESSO



estas histórias derivam de viagens que
as editoras desconhecem, preferindo
receitas e nomes
de uma falsa segurança

domingo, maio 18, 2008

HIROXIMA MON AMOUR * O PESO DA MEMÓRIA

Estes documentos fotográficos são de 6 de Agosto de 1945. Guardas até agora nos dossiers secretos, entre relatórios e outras imagens de horror, dir-sei-ia que se referem às multidões dizimadas na Birmânia, ou ao genocídio no Ruanda, com centenas de milhares de mortos em pouco tempo, sem que a comunidade internacional apontasse um mero gemido. Contudo, estas fotografias brumosas pelo desgaste registam o resultado imediato, em Hiroxima, do lançamento da primeira bomba atómica. As imagens, impressionantes, são uma pequena aparência dos cento e vinte mil mortos do primeiro instante e foram encontradas, num grupo de dez fotografias, por Robert L.Capp, um militar americano que esteve em Hiroxima durante a ocupação do Japão pelos EUA, em 1945/49. O autor é um jovem japonês desconhecido que fez estes registos pouco depois do bombardeamento americano. Em Hiroxima, morreram, de imediato, 120 mil pessoas de uma população de 450 mil.
Num momento da «nova vaga» do cinema francês, Alain Resnais, reportando-se a Hiroxima, numa primeira fase quase documental, trabalhou depois, num filme inesquecível («Hiroxima mon amour») e com um texto magnífico de Margarite Duras. Poesia em prosa, voz murmurada sobre os corpos a quem cabe continuar a mensagem do amor, Resnais alcança um outro realismo, o terrível sopro de angústia sobre a condição humana. Frases, sentimentos, emoções poderosas, tão poderosas e tão humanas como quase sempre emergem das maiores tragédias que têm abalado civilizações.

sexta-feira, maio 16, 2008

EM HOMENAGEM A ROBERT RAUSCHENBERG

legenda para Rauschenberg, restos abandonados na rua

Há dias deparei-me, num jornal, com a notícia da morte do artista norte-americano Robert Rauschenberg. Facto natural, dir-se-á, Rauschenberg pertencia à classe dos autores bem sedimentados na História, ligado a obras experimentais, à pop e outras reinvenções, instalador de restos, embalagens, cartões, lixo urbano sobre o qual pintava com certa violência ou personagens, paisagens breves, a convulsão do mundo contemporâneo. Presto-lhe aqui esta singela homenagem, após ter encontrado, no dia da sua morte, quase uma réplica dos seus quadros volumétricos, objecto amarrotado e atirado para a sargeta, registado na imagem que antecede este apontamento.
obra de Rauschenberg

quinta-feira, maio 08, 2008

HÁ MAIS CÓDIGOS DO QUE SE JULGA
LEIA ESTE LIVRO
E CONHEÇA O MUNDO
ONDE OS ARTISTAS APRENDEM
O CÓDIGO DO SUCESSO

estas histórias derivam de viagens
que as editoras desconhecem, preferindo
receitas e nomes de uma
falsa segurança
Livrarias: LER (C.Ourique). Sá da Costa (Chiado), Buchholz
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UM NOVO LIVRO
ENQUANTO NEM TODOS OS HOMENS CEGAREM
Este livro corajoso, jocoso e trágico, mostra ao país desatento que somos, ainda somos, memórias enviesadas e a pobreza das instituições metidas no atulhado Convento de São Francisco, fortaleza da escassez, que sobreviveu a 1755. As reformas do ensino artístico em 1932 e 1957, atrasadas pelo menos trinta anos cada uma delas, a primeira carregada de absurdos curriculares, a segunda não tanto, foram (a seu tempo) saudadas pelos mais ingénuos. Alegria breve, contudo, porque os conteúdos, mesmo há poucos anos, ainda foram castrados pelo arbítrio de uma direcção avara, destituída do estudo sobre o que se passava no mundo neste domínio.
Um personagem novo, «senhor aluno», faz, no livro, o trajecto do curso. Com êxito. Ao terminar, é mobilizado para a guerra colonial, onde permanece dois anos. Volta com as marcas habituais nestes casos e a sorte de ter um trabalho estável no liceu D. João de Castro. Pouco depois é convidado para assistente na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, onde inicia uma normal carreira académica: trata-se da segunda parte do livro, então um espaço da mesma Escola, visto, sentido e descoberto pelos olhos de um ainda jovem professor. Primeiro havia colegas. Agora há alunos. Todo o livro é um grande fresco sobre o tema, as épocas, as gerações, as crises, os segredos conventuais, sempre numa terrível resistência contra o arbítrio e as armadilhas da penúria, sob a sombra do regime e da própria direcção da Escola.
BELAS-ARTES E SEGREDOS CONVENTUAIS é um documento nunca tentado antes, em jeito de ficção. Um livro sobre a loucura suspensa, a demência honesta e a emergência imparável dos abusos do poder.
Depois de 13 anos (já depois do 25 de Abril) gastos a convencer os governos do país de que as artes, referências de civilização, deveriam aceder à Universidade, entre situações psicóticas e um desdém incompreensível da parte dos políticos, o trabalho continuou até ao exílio de alguns docentes mais dilacerados, num paradoxal triunfo dos menos empenhados.
Apesar do doutoramento e da Universidade, conquistas sinuosas, o «aluno professor», solitário na confusão dos interesses, não espera pelo título: sai discretamente e sem ninguém dar por isso.
Sousa Carneiro

domingo, maio 04, 2008

LIBERTAR A LIBERDADE, É PROIBIDO PROIBIR

MAIO DE 68 PARA LEMBRANÇA FUTURA


Lembrar o Maio de 68, quarenta anos depois, é um convite à reflexão sobre o significado anunciador dessa data, desses acontecimentos, o grito contra a opacidade, libertador, empolgado no sonho da utopia. As verdades e os enganos cumpriram o seu raro casamento, enre vozes conjugadas e lutas nas ruas de Paris, noutros lugares também. Os estudantes não defendiam apenas uma educação mais eficaz, melhor, mais autêntica. O problema podia ter essas raizes, além de outras do mesmo tipo, mas a mudança profunda de toda a sociedade, para além dos própios valores gravados pela Revolução Francesa, abarcava tudo e todos, apontava a um futuro despido, enfim, de hipocrisias e no respeito efectivo pela liberdade. Os operários deram a sua voz ao sentido essencial desse movimento, enquanto intelectuais célebres afrontavam as suas dúvidas, abriam espaço ao vencimento da esperança: a de libertar a liberdade, a de reinventar a face do mundo e do que nele de facto importa. proibindo proibir, slogan/metáfora que ficou inserido nas memórias do último rasgo romântico que abalou o século XX. Como o rosto de rapariga, a bandeira ao alto, a beleza convicta dos actos e dos olhares - símbolo em suma do Maio de 68, e aqui reproduzido, na primeira imagem deste documento, lembança breve do que ficou para uma hora semelhante.

sexta-feira, maio 02, 2008

ROSTOS HUMANOS EM VIAS DE EXTINÇÃO

PORTUGAL DE ROSTOS ANTIGOS
FOTOGRAFIAS DE LUIS LOBO HENRIQUES

Não resisto à tentação de publicar aqui duas belas fotografias de Lobo Henriques, aliás divulgadas em série nums colecção visualizada na internet. Julgo não ferir nehum direito de autor. Desta forma, garantida a identidade da obra, é possível alargar a partilha, tornar mais «itinerante» algumas destas obras. O retrato, mesmo na fotografia, é uma arte difícil: as pessoas que vivem no interior de cada «máscara» são entidades profundas, surpreendentes quando espreitam pelos olhos os nossos olhos. As vias de registo e comunicação de que dispomos, como no caso da «câmara clara», são preciosas a vários títulos, e aqui guardando bem a essência do instante. Mas o mundo, dizemos desconfiadamente uns aos outros. Pois sim: a massificação até lhe normalizou tonalidades, minutos de família, a face dos meninos e dos velhos. No caso das fotografias que transcreve para este blog, um dos desafios que se nos coloca é o seguinte: imaginar cores e tons adequados para tornar os retratos mais verosímeis. Não dá resultado: o preto e branco, com as suas meias tintas, parecem conferir mais autenticidade às imagens, por momentos como se estas mulheres velhas nunca tivessem pertencido a outro contexto além do nos espreita aqui.

quarta-feira, abril 30, 2008

AS VELAS DOS MOTORES E SUA MORTE SUJA

Na oficina do Frederico havia um caixote a abarrotar de velas para motores de explosão. Mas eram velas mortas, sujas, cuja derradeira serventia não me ocorre. Sei apenas que o Joaquim, mestre electricista, tinha sempre as mãos oleosas e por vezes com cortes que limpava e tratava numa bacia miserável, como todas as bacias destes lugares onde se desvendam entranhas, lâminas e e velhos ferros recicláveis. O Joaquim juntava velas destas, mortas e sujas, na bancada onde pousava dezenas de ferramentas metálicas. Quando elas cresciam em demasia, carro a carro, revisão a revisão, ele pegava as velas inúteis na cova das duas mãos juntas e despejava-as no caixote. O resultado plástico desse lixo sempre me fascinou.



tempo de anulação, morte e apodrecimento

quinta-feira, abril 10, 2008

ARTISTAS PORTUGUESES CONTEMPORÂNEOS | Eduardo Nery


Não é possível tratar aqui a obra de Eduardo Nery como o fiz para outros autores igualmente significativos. Em quase todos eles, e apesar de algumas derivas, o caminho tem uma certa continuidade. Ora a continuidade de Nery é de diferente natureza: é como se ele, mum amplo trabalho multidisciplinar, se tivesse cindido em heterónimos. Só que, no que se refere ao poeta Fernando Pessoa, os heterónimos têm personalidades e destinos próprios, de substancial alternativa. Em Nery pintor há o geómetra, o designer e o arquitecto, para não falar numa espécie de ardiloso especulador sobre a percepção visual. Tanto nesse domínio como nas obras plásticas integradas na arquitectura, os princípios ordenadores da forma são idênticos, têm quase a mesma raiz. Apesar da qualidade dos projectos de Nery para colorir arquitectura, dinamizar empenas e fachadas, revestir interiores, entre outras propostas, a linha geral da respectiva conduta autoral inclui sempre óbvios racords entre várias sequências e diferentes problemas. É uma prova de grande importância, que não basta ilustrar em álbuns, publicações isoladas de prestígio, mas antes ser investigada e estudada em Escolas Superiores de Arte, as nossas faculdades de Belas-Artes, ainda na urgência de convencer as Universidades Portuguesas de que o país dispõe de um espírito raro, quer do ponto vista estético, quer das disciplinas que percorre e onde cria ensinando, autor a quem presto esta singela homenagem, contra a indiferença e o esquecimento, na altura em que os estudos de arte atingiram a Universidade e se impertigam de volta de títulos em inglês, no fio estendido pela novidade aqui e além, no próprio instante que podem também fazer-se com o nosso património vivo.
Digo isto, em suma, sem qualquer rasteiro macionalismo nem vertigens xenófobas.

Eduardo Nery: além do rigor gráfico-pictórico, o imagináro fantástico da fotografia


A legenda-título deste post sintetiza um pouco que papel desempenha a fotografia na obra arquitectural, modular, e cheia de complementaridades formais ou técnicas, do pintor Eduardo Nery. A sua curiosidade e pesquisa de meios levou-o a trabalhar na fotografia de um modo verdadeiramente inovador, quer como linguagem, quer como discurso. O espaço que lhe revela a perspectiva geométrica, bem como os limites a que está sujeita a nossa percepção visual, todas essas questões, excepto alguns casos mais relevantes do experimentalismo em pintura, agudizaram o sentido operativo do artista em função de novos espaços, incluindo a ironia e algum sarcasmo, entre indagações afinal de sentido metafísico. Por isso, as representações efectuadas em obras conhecidas de tempos diferentes, fotografadas e misturadas entre si, abrem decisivos campos de problematização estética. Todas as soluções desta riquíssima produção de Nery, geminam inclusivamente a fotografia da pintura com a fotografia actual ela mesma, como se houvesse uma secreta passagem entre dimensões distintas do espaço e do tempo.

Eduardo Nery: aspectos da obra pictórica e valor experimental













Como veremos noutros capítulos a seguir, a sensível diferença entre estas pinturas e outros procedimentos artísticos, em Eduardo Nery, são sempre hipóteses formais muito bem logradas, onde o rigor da instauração tem tudo a ver com os temas sobre o espaço, as diferentes projecções que nele se fazem, arquitecturas desenhadas e demonstradas, percepções em desafio, pontos expressivos do movimento, a gravidade e a auência dela, as coisas, enfim, numa aparente demonstração dentro ou fora dos impulsos do imaginário.
A experiência do bidimensional e do tridimensional aparece tratada em efeitos ópticos de perspectiva sobre a tela, mas em que o verdadeiro relevo da moldura ironiza a simulação do trompe l'oeil.











Eduardo Nery: aspectos da sua obra em azulejo


Em todos estes pequenos capítulos, a imensa produção de Nery em muitos deles, com formas inusitadas e de importante perfil estético, é só aflorada, não garante senão uma breve aproximação à sua obra multidisciplinar, sempre coerente com uma rigorosa noção de espaço, estruturação pela geometria, em singulares armadilhas ao processo perceptivo e sobretudo perante o módulo de repetição variável, bem como no`âmbito do uso do azulejo nesse sentido, em especial através de uma requintada exploração da sua teoria modular.





Eduardo Nery: obras de tapeçaria no seu melhor entendimento, incluindo a solução op


Neste post sobre a obra de Nery, podemos observar algumas das suas tapeçarias, arte que dominou com superior entendimento técnico, respeito pela identidade do processo e grande valor plástico, em sucessivos e belíssimos espectáculos ornamentais




Eduardo Nery: aspectos de obras de vitral integrado no espaço proposto

Neste último post sobre a obra de Eduardo Nery, podemos observar aspectos de vitrais, pensados em coerência com a restante obra e a integração no espaço proposto.

segunda-feira, março 31, 2008

TECTOS PROVISÓRIOS E LIXO DE ZINCO


É nestes subúrbios cada vez maiores, um pouco por todo o mundo, que os pobres e os grupos de assaltantes formigam interminavelmente, na ilusão enlameada de um futuro dourado, cada vez menos possível e cada vez mais sonhado. As favelas do Rio copiaram-se a si mesmas pelo país inteiro, derramando dejectos pela encosta rasgada, contra as subidas sinuosas entre barracas de madeira e lona, alcandoradas nos socalcos aguçados pelo homem, caixas de cartão e zinco e panos e pneus a configurar a via sacra de mil infâncias degradadas, violência depois, lá e deste lado, pelo Oriente Médio, as religiões urbanas e todas as outras dilacerando, em contradição com os próprios profetas, a vida das comunidades, muçulmanos, cristãos e cruzadas outrora, a Inquisição matando em nome de nada, enquanto hoje papas e cardeiais querem poupar o mínimo feto já marcado pelo delírio da Natureza. Agora dizem que vão alindar as favelas já de tijolo e à semelhança de casas, tudo para colorir a miséria e arrancar os territórios aos compradores e vendedores de droga. Deus não é grande e as religiões envenenam tudo, diz, de fala aberta, Christopher Hitchens.

terça-feira, março 25, 2008

ATÉ OS ACTORES VIRAM ESTEREÓTIPOS









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Tenho sido, desde o início das telenovelas brasileiras, um observador atento a este género de expressão audiovisual. É corrente ouvir-se falar com desdém desse produto, seja ele produzido no Brasil ou em Portugal. Certamente que se pode argumentar que as regras ou modos de fazer novelas para televisão, aqui e além Atlântico, sem falar nas vias semelhantes percorridas pelo México e Venezuela, cristalizaram em estereótipos profundamente negativos, capazes de diversos efeitos de devastação cultural, de distorção do gosto, criando vícios de consumo televisivo bastante negativos. Pouco depois do estado de graça da famosa «Gabriela», as pessoas de cultura, comentadores e intelectuais, disseram-se distanciados desse tipo de poluição, negando aos sete ventos o mínimo interesse por tudo o que se fazia. Ainda nem sequer surgira «A Vila Faia», primeira experiência portuguesa na esteira (e por vezes na pior esteira) do modo brasileiro. E contudo, relativamente a pessoas cultas mais disponíveis, houve quem se atrevesse a apontar áquela produção portuguesa um breve tom conservador, no que este conceito pode ter de positivo, demarcando-se assim de alguma das trepidações especulativas, em termos de mercado, largamente explorado pelos produtores basileiros e a despeito da boa tradição que eles haviam certificado por volta dos anos sessenta. Os mais cépticos, mesmo que por casmurrice ou snobismo, diziam que a língua portuguesa não se prestava para os géneros ausiovisuais, quer no cinema, quer na televisão, incluindo (género diferente) no próprio teatro. Falava-se de tudo num santo acaso de asneiras e o chamado grande público já não foi capaz de reparar no novo cinema português, nessa obra prima que se chamou «Abelha na Chuva», nem nas telenovelas da SIC ou da TVI, quando estas estações ainda quiseram marcar pontos referentes à nossa identidade. Hoje está sobejamente provado que a língua portuguesa não é castradora da expressão oral e apenas tem de se adequar às formas do texto ou da fala, do perfil das personagens, sem esquecer os níveis de altura, o contexto onde se dialoga, quem e porquê dialoga. É para isso, entre outras coisas, que existem os directores de actores, a par de guionistas estudiosos e de directores de canal que permitam a experimentação inovadora (e libertadora) dos realizadores.
A verdade é que se formou entre nós uma verdadeira escola de novos actores, tendo os mais idosos, sobretudo vindos do teatro, procurado alcançar patamares de naturalidade e expressão significante. Hoje, entre as pessoas que souberam seguir o fenómeno da telenovela portuguesa, nota-se um reconhecimento de verdadeiras descobertas, de uma vitalidade contaminante, por vezes a emergêmcia de actores de grande qualidade, que brilharam nas obras mais profundas e mais desligadas da «fábrica de salsichas» que nos chegam de longe, novelas que alguns produtores procuram contornar ou esquecer, ligando-as à equívoca repulsa pela lentidão do cinema português. Depois de grandes sucessos (e se mais houvesse mais o público apostaria neles), o binómio produto/audiência, defendido por homens que deveriam saber que Bach pode aceder ao sucesso no audiovisual como qualquer Carrera de Coliseu a abarrotar. Tudo depende do modo como se encena cada proposta no meio televisivo, no qual Pina Bausch poderá arrastar largas audiências como os saraus de dança de salão, sempre repetindo atmosferas, soluções técnicas, compéres de saias de honra, numa ensurdecedora projecção de mau gosto e circo, embora se deva reconhecer o melhor de tudo: o trabalho de pessoas de vários meios artísticos e a capacidade de prestações surpreendentes.
O pior chegou entretanto, com novelas de grande produção, com belíssimas prestações de representação, mas em que tudo se encontra espartilhado pelos piores truques brasileiros, histórias da maior inversomilhança, cheias de armadilhas vindas do inferno, mentes tortuosas até ao caricato e ao nojo. Porque assim (dizem os tais directores de sucesso) é que se adoça o gosto do público, falso problema já amplamente provado. O público muda de azimute e de capacidade analítica, quando os argumentos são bem pensados, inscritos na nossa cultura e cultura artística contemporânea. Na hora em que começa, com avisos de grandeza, uma outra telenovela, aproximam-se do fim, por exemplo, «Fascínios» e «Deixa-me amar-te», coisas por vezes indecorosas, mesmo sem falar em termos culturais, artísticos e pedagógicos. Gente que apreciava a actriz Alexandra Lencastre, e até o irregular Rogério Samora, deplorou as suas crises patéticas, forçados a representar assombrosas anomalias, com os tiques à flor da pele ou sem saberem para onde endereçar os passos, nomeadamente durante as solidões lacrimejantes do tal brâmane de empréstimo, o pobre Raul. E quem poderá calar-se quando a família da Guidinha aparece em cena, sempre na mesma sala e nas mesmas posturas, ganaciando em termos absurdos e cuspindo na pobrezinha da Ester. Eu diria que isto tem que ser analisado por quem de direito e os falsos especialistas deportados para os debates sobre os pequenos equívocos da política. Os modelos não se copiam, renovam-se. Uma cena íntima, de afecto e mútua compreensão murmurada, não pode ser esticada, entre redundâncias enjoativas, só porque os criadores do produto acham que têm de meter canções onde elas não têm lugar. As bandas sonoras, mesmo das telenovelas, têm de perseguir o que de melhor o cinema nos ensinou, apesar da diferença dos meios, assim como a luz tem de nos relacionar com os tempos e horas do dia em que estamos a viver. Até isso, tão fácil de fazer nos nossos dias, acusa por vezes graves entaladelas.
Precisamos de uma Associação de Espectadores que, abaixo ou acima do déficit, comecem de facto a exercitar a cultura dos seus direitos, entre a própria publicidade que rompe todos os limites legais, experimentando terapias cívicas em todos os ramos desse campo. O cinema também pode ser incluído, mas nesse caso os monopólios precisam de regulamentados, devendo fomentar-se a vinda até nós de cinematografias quase desconhecidas, minimizando o design robótico, pateta e monumental, com que a América nos coloniza, tornando alguns espectadores consumistas da mera pressa, incapazes de dispensarem a avalanche de publicidade que lhes im-pinge Rambo contra a revisitação de Wells, que vão salivar na «Call Girl» em vez de, sem pipocas, reverem os valores estéticos e filosóficos da obra de um Tarkovsky, cujas edições em DVD felizmente se têm esgotado.

sexta-feira, março 21, 2008

O LONGO CAMINHO PARA AS ESTRELAS



O Século XX, revolucionando muitos conhecimentos, indústrias e projectos, abriu perspectivas a viagens fora da atmosfera terrestre. A astrofísica e as tecnologias da navegação no espaço, em plena imponderabilidade e contudo a altas velocidades, desenharam por sua vez uma nova utopia, à qual, aliás, os escritores do género literário da ficção científica emprestaram fascinante verosomilhança. Depois de muitos desenvolvimentos temáticos em torno destes assuntos, e à luz do saber actual, o homem sabe que a sua espécie terminará, lenta ou de forma abrupta, ao ritmo das leis cósmicas, da vida e morte das estrelas, do choque entre galáxias, dos buracos negros, do próprio envelhecimento e pulverização do sistema solar, daqui a curtos milhões de anos. Aparentemente, a fabulosa criação da espécie humana, dotada de inteligência avançada, de capacidade criadora apoiada no amplo espaço da consciência e de próteses que quase imitam a vida, é uma realidade tão poderosa que parece ter meios de se prolongar para além do seu curto destino biológico. As hipóteses desse sonho, tão acalentado pela biologia molecular e outros ramos da ciência, ajudaram ao desenho de absorventes utopias do homem para além de si mesmo. Entretanto, numa perspectiva tecnológica ainda artesanal, os países mais poderosos (e agora por alguns mais) dedicaram-se a estudar práticas de viajar no espaço ( a Lua foi o primeiro astro que o homem conseguiu atingir, explorando aspectos estruturais em cada breve visita) e assim se esquematizaram projectos de aceder a Marte, enquanto centenas de sondas dirigidas à distância têm estudado quase todo o sistema solar, ultrapassando-o em perda no espaço indizível. O sonho de estabelecer bases vitais em certos planetas, ou muito longinquamente noutros sistemas propícios à vida humana, ganha «forma» na construção de uma estação espacial que orbita em torno da terra e que foi agora acrescentada de mais um módulo de grande importância para estudos naquele sentido e no apoio aos estudos que os cientistas astronautas desenvolvem no habitat ainda irrisório da estação. Daqui, em construção lateral, já é viável projectar uma viagem a Marte. Mas Marte parece inóspito. Para além dele, os satélites de outros planetas acenam com breves ilusões. Eternizar a vida humana para além das fronteiras do nosso sistema solar, procurando instaurar colónias bem longe, noutros sistemas e astros, configura uma ideia que não deixa de ser fascinante e quase que se torna em novo culto, numa demorada esperança. Porque as comunidades se interrogam cada vez com maior angústia sobre a condição humana, suprema «invenção» da Natureza, de um Deus que nunca veremos, algo de grande complexidade, coisa raríssima, e contudo «destinada» a pequenos segmentos de afirmação, vidas individuais de 70 a 90 anos, médias menores no mundo inteiro, um «projecto» para se desfazer poucos minutos depois de ter sido «concluído». Mais um milhão de anos, dois ou vinte, segundos no tempo Universal, e não seremos nada se não reabilitarmos o corpo, as fecundidades em perda, viajando o mais depressa possível para habitats adequados ou adequáveis ao prolongamento do ser.
Veja-se, nas fotografias, a azáfama de doze horas no vazio em torno da Terra, para dar mais corpo a uma coisa que não se sabe bem para que servirá daqui a três ou quatro gerações.

terça-feira, março 11, 2008

NA MORTE DO PINTOR ROGÉRIO RIBEIRO


PINTURA DE ROGÉRIO RIBEIRO
uma atmosfera que evocamos no seu sentido humanista


E assim o país se apaga um pouco mais, por cada morte aqui anunciada, por cada perda de personalidades cuja vida e obra constituem valores inestimáveis da nossa identidade. Rogério Ribeiro foi (e será sempre porque nem todo o país amolece de esquecimentos) um grande artista em várias disciplinas do pensamento e da acção criadora, nos últimos tempos senhor de uma obra fascinante, de pureza, de denúncia, de testemunho e espírito humanista. As frentes da actual cultura portuguesa têm dividido a presença na nossa memória de gente desta estirpe, a montante do fio incendiário dos anos oitenta. Contra isso temos lutado, porque não basta lembrar Sousa Cardozo, por exemplo, passando por Paula Rego ou Júlio Pomar, e enfatizando, por fim, tudo o que acabou de aparecer, como se o mundo não tivesse outras verdades e uma remota genética universalizante. Pois aqui se deseja afirmar que o Portugal moderno, para se reconhecer e progredir, tem de homenagear pessoas como Rogério Ribeiro, que nos ajudaram a vencer o tempo e os bloqueios da mediocridade. Aqui fica apenas uma pintura, uma peça que exprime bem o despojamento e a riqueza do homem na trajectória que tem de inventar contra a irremediável e absurda escassez de si mesmo.

domingo, março 09, 2008

ENSINAR NA RUA: O SACRIFÍCIO



Todo o ensino, entre quase tudo, passa hoje pela imposição do espectáculo, em certos casos pela violência, a par da drástica redução do aprofundamento, espiritual e prático, da pessoa humana. É o que se verifica, nos últimos tempos, em mais uma crise das reformas, com um governo cada vez mais fustigado por diversas oposições, no terreno da mera recusa, sem alternatívas que exprimam a diferença bem sustentada dos planos em curso. O governo, no seu pragmatismo e projectos relativos ao processo de alteração do sistema educativo, foi ontem fustigado talvez pelo maior movimento de rua congregado pelos professores e seus simpatizantes, mesmo que não se perceba com toda a clareza, o erro que cria condições capazes de mobilizar oitenta mil manifestantes cuja circulação em Lisboa ganhou força inusitada, que a encenação própria, de camisolas, frases, slogans e bandeiras, mais sublinharam o afrontamento. Apesar de algumas arrojadas iniciativas de reordenamento da rede escolar, de concentração de competências e de «vinculação» dos docentes provisórios às escolas por períodos de três anos, contra um ano apenas, o grosso dos problemas logísticos, de particularidades locais, está muito longe de ser resolvido, a par daquele que se levantou entretanto, o da avaliação dos agentes educativos no seu desempenho, conhecimentos e actividade pedagógica.
Num artigo de opinião, no Expresso de 8 de Março, Sousa Tavares explicou, com grande propriedade, o seu ponto de vista sobre o assunto. Perante o pedido insistente de demissão de Maria de Lurdes Rodrigues, ministra da Educação, ele considerou que a sua «queda teria o efeito de um toque a finados por qualquer futura tentativa de reformar o Estado e mudar o país». Trata-se de um problema que se tem complicado, não apenas neste ministério. O da Saúde sofreu graves oposições, acabando por desalojar o ministro e redireccionar algumas práticas. «Desde que há Ministério, desde que há Educação, desde que há democracia (cito o mesmo articulista), que não me lembro de a Fenprof e os sindicados da Educação terem deixado de exigir a cabeça do ministro ou ministra em funções.» Lembro-me das incompreensões (mútuas) no tempo de Cardia, logo apelidado de fachista, e dos erros de perspectiva, pelo menos no caso do Ensino Superior Artístico, cometidos pelos seus assessores ou Directores Gerais. Marçalo Grilo, muito antes de ser ministro, não concebia que houvesse estudos de arte ao nível da Universidade, nem lhe parecia que o país necessitasse da implementação de cursos de design. Esta situação, escorada na espera da «vontade política» e na ideia dos timings, provocou efeitos nefastos no país, no desenvolvimento do ensino Universitário e na qualificação de certos sectores da nossa produção especializada, retendo no mesmo «posto» muitos especialistas deste ramo por trinta anos sem promoção e direito a provas entretanto previstas. A resolução deste problema surgiu, treze anos mais tarde, durante uma «distracção» de um Secretário de Estado, e com isso, nem antes nem depois, se preocuparam sindicatos, gente da cultura, manifestantes próximos.
Esta lembrança ocorre-me a propósito da actual situação e tendo em conta que a maioria dos interessados não sabe, nem nunca chegará a saber, quais os movimentos de bastidores, oportunismos, temores, ignorâncias ou birras dos próprios técnicos de especialidade nos departamentos governamentais. A bola de neve cresce de tal maneira que, a certa altura, já ninguém se entende. E os erros, técnicos e políticos, aumentam a cada passo, esmagando o que o próprio ministério poderia estar em vias de resolver. A bem da verdade, e considerando erros como os que referi, penso que a actual contestação, entretanto focada sobre a avaliação dos professores, se expande também em termos desproporcionados relativamente ao «pequeno» nó do processo reformador em curso. Os próprios activistas, docentes e alunos, vão acabar por se prejudicar, entre passos atrás, cabeças degoladas, remendos impróprios. Como dantes, mesmo perante orçamentos para a Educação que têm sido sustentados sem faltas e com apropriações de equipamentos, meios, trabalho interactivo durante interessantes formas de profissionalização ou concepção didácticas. De facto, como foi dito no Expresso, o campo da luta sindical, sem verdadeira evolução, acabou por deixar, ao fim de trinta anos, graves marcas por defeito. «Os sindicatos da Educação tiveram uma contribuição decisiva para sucessivas gerações de alunos se prejudicarem e para a derrota nacional na frente educativa.
Por mim, sou apologista de um trabalho de avaliação em exercício, como se dizia hà vinte anos.
A carreira docente no plano do secundário, deveria ter, ajustadamente, três níveis de categorias. A primeira avaliação deveria ser solicitada pelo docente ao cabo de seis anos ou oito anos de serviço, garantindo-se uma rede de escolas para esse efeito, com todo o apetrechamento necessário e conteúdos bem concebidos para as disciplinas, cursos, ligação ao campo profissional e universitário. Os avaliadores, recrutados com rigor e formados para as novas funções, teriam a seu cargo vários docentes em avaliação, acertando com estes um programa de trabalho e de tese, observando prestações programadas, propondo medidas complementares ou outras. Entre um outro grupo de professores de completamento, mais presente junto dos docentes sujeitos a este processo, adicionados a uma turma, deveriam escolher-se, de forma a estudar, orientadores de trabalho e pesquisa que acompanhassem de mais perto os elementos em avaliação. Avaliação que poderia terminar com uma entrevista final feita por júri abalizado. Ao Estado competiria proceder às escolhas, reforço de formação dos avaliadores, além de outros, a par do estabelecimento da rede de escolas destinadas a esta actividade, escalonando e calendarizando pedidos de avaliação (entre seis a oito anos).
A luta que se exprimiu em Lisboa no dia 8 resultou num espectáculo revivalista, sem conteúdos verdadeiros, sem substância ou alternativa do processo científico. Fazer cair a ministra, sem um projecto adequado aos problemas, é comprometer a Educação e o país. Os ministros também aprendem. Os bons professores, da mesma forma. Até Marçalo Grilo saberá hoje qual a importância do design e como o ensino artístico é integrado nos estudos superiores por toda a Europa. Se vários governos gastaram treze anos das nossas vidas e do nosso saber para encontarem a sua vontade política, tal lição deveria impressionar professores, sindicatos e governo a fim de aperfeiçoar os suportes de avanço neste trajecto complexo e carregado de urgências.