sexta-feira, agosto 17, 2007

UMA MÁSCARA DE CORDAS, A OCIDENTE


O homem andava precariamente, com o rosto vendado por voltas de cordas, num aperto que simulava a sufocação. Estendia os braços, o homem, abria as mãos de forma branda, as palmas voltadas para cima, como se esperasse um aviso subtil e supremo da divindade acrediata por quase todos.
Arrastava os pés na poeira branca do caminho e atrás dele seguia muito povo, povo atónito, que nunca assistira a esta forma de castigo, martírio ou penitência. Cada vez havia mais gente, incluindo crianças que se aproximavam daquela criatura tão erstranhamente amordaçada, cega, ou nobre ou plebeia, porque os sinais de classe haviam sido trocados pelos carcereiros e o resto sujeito à chuva, à lama, ventos enfim aterradores de pó e cinzas. A região estava ocupada por contingentes militares, legiões de grande porte, logística e armamento, acorrentando uma boa parte da população que adorava Cristhus, um jovem supremo e subtil, orador enigmático, acabando por traí-lo perante a própia lassidão ou desinteresse das autoridades e pedindo a sua morte, o que aconteceu entre muitos outros casos menos relevantes. Não havia mais de três anos. Agora aquele homem com o rosto, os olhos e a boca bem apertados num abraço de cordas duras, espessas, oleadas em azeite já queimado.
«Este sim, este é o verdadeiro Cristhus, andou pela Galileia a apregoar a libertação dos povos e falando de um Pai invisível que espalhara muitas em diferentes moradas pelos confins da abóda celeste.»
«Quem é que te disse tais coisas, Eremias?
«O Senhor do Templo, aquele sacerdote que já tem mais de cem anos e que afirma a eternidade de Cristhus, o sangue derramado para nada. Por isso é que ele está, vagueia não se sabe para onde.»
«Acreditas tantgo na voz ensandecida do Senhor do Templo? Não há eternidade. Há apenas a cegueira.»
«Cristhus morreu diante de toda a gente, da própia mãe, da mulher e dos filhos. Mas essa é a dor dos homens comuns: Cristhus ressuscitou ao fim de três dias e desapareceu para sempre, julgou o povo. Aqueles que mais falavam com ele, ao entardecer, depois de uma refeição frugal, contaram histórias vividas assim e pensamentos perturbantes que ouviram da boca daquele companheiro».
Enquanto decorria esta conversa mal atada e sem sentido, entre dois caminhantes, uma coluna de guerreiros a cavalo aproximou-se do grupo, vinda em sentido contrário. A coluna parou junto do homem amarrado e o comandante, com escudo de frente e uma espada erguida na vertical, num modo de quem quer dar a conhecer-se, indagando gestualmente que gente era aquela. Olhou intensamente o homem que se arrastava pelo efeito das cordas, do calor e do pó, e perguntou:
«Quem és tu? Que fazes com esta gente, a caminho do deserto?»
O provácel Cristhus disse:
«Eu não tenho nome senhor. Não conheci família e vivi, por caridade, em mosteiros que se erguem nas montanhas a Leste.»
«Mas então comandas assim essa pobre canalha que se acumula atrás de ti?»
«Não, senhor, não comando ninguém e só conheço meia dúzia desses companheiros.?
«Mas alguma coisa fazem em conjunto, assim, numa marcha arrastada?»
«Que eu saiba, não, nada. Eles estão aí porque me seguem, apenas isso. Eu sei apenas que vou para diante, para ocidente.»
O comandante da coluna pareceu incomodado com tanta evasiva. Disse entre dentes:
«Tudo isso é muito evasivo.»
O homem com o rosto coberto de cordas, concordou assim:
«Tem toda a razão, senhor. Tudo é evasivo porque o mundo não tem limites não sabemos quem somos.»
Do alto do cavalo, para onde voltara a trepar, o comandante escarneceu:
«Sois tolo, nada mais. E para que servem essas cordas que te apertam a cabeça?»
«Não são cordas, senhor, são espinhos».

quarta-feira, agosto 15, 2007

ESTE É O SEU MUNDO

Este é o título que a revista «Visão» aplicou à exposição com as melhores imagens do fotojornalismo mundial e nacional feitas em 2006. Esta aproximação de espaços que se contradizem entre si, pela guerra, pela miséria, pela riqueza, pelas doenças avassaladoras, é realizada no Museu da Electricidade, em Lisboa. Na abertuta do texto daquela revista (sobre este acontecimento) pode ler-se «o universal é o local sem paredes», indicação original e poderosa, de Miguel Torga, um dos nossos maiores poetas de sempre, cujo centenário do nascimento se comemora por estes dias e a cuja primeira manifestação faltaram quase todas as personalidades representativas do Governo e da cultura.
A fotografia é um dos mais importantes meios de expressão, tecnologicamente muito avançada, de que o homem do século XXI pode dispor, como já aconteceu no século anterior. Mas entretanto os meios avançaram substancialmente, não propriamente superando o sistema analógico no seu melhor, mas permitindo velocidade e concentração de registos. A objectividade parecia ser garantida pela aparente verdade de cada imagem, outrora como agora, colocando o mundo decisivamente sob os olhos do espectador. Contudo, como aliás aconteceu com outras artes, a veracidade (ou grau de reconhecimento das coisas) foi sofrendo idênticas distorções em nome de uma recriação do visível, também ela, a fotografia, permitindo metamorfoses inesperadas, acentuações, nivelamentos, o próprio trabalho de encobrimento de certas verdades, apesar de garantir outras por conveniência estética, cultural ou politica. Seja como for, por este meio podemos, mais do que em diversos casos de mobilidade, acompanhar com alguma imparcialidade e acesso a lugares remotos de grande parte do planeta em que vivemos.
A 50ª edição da «World Press Foto» recebeu a concurso 78083 imagem de 44600 fotógrafos oriundos de 124 países. O Prémio Fotojornalismo (de entre 6100 fotografias de 215 autores. A fotografia aqui publicada refere-se ao primeiro prémio na categoria de acontecimento/Notícias.

terça-feira, agosto 14, 2007

aos homens que souberam esperar pela manhã

Não, tu não sabes nada. Basta de palavras sem sentido. Tu não o conheceste, eras mais velho, sonhavas com as estrelas do cinema e, bem vistas as coisas, nem percebias que o cinema estava muito para lá da sua ostentação mediática. Quando nos levaram para Caxias, naquelas carrinhas pretas, depois de uma terrível viagem de combóio, tinhamos chegado para férias, a barba mal aflorava na pele do nosso rosto, retratos perdidos, gavetas que hoje podemos esvaziar sem que nelas encontremos um único sinal desses pobres adolescentes acabados de aceder à Universidade. O teu irmão sabia muito bem o que fazia, os riscos que corria, mas assumia sobretudo o traço ético das relações, a solidariedade nas conversas murmuradas ao cair da noite. Estás enganado, ele nunca aceitou verdadeiros contactos com o Partido. Se deixaste de o ver é porque te remeteste para as festas da tua tia, beneficiando de boas instalações, melhores contactos, numa clara ambição de chegar à magistratura, presumindo facilidades nos estudos e uma carreira na estrada dos priveligiados. Não? Não como? A tua participação nas defesas do Estado Novo foram meros acenos de brincar, a fatiota de estudante cravejada de marcas e rótulos sem origem? Não te lembras de nada melindroso, nem dos lusitos, nem dos actores que iriam reger o teu perfil, a tua pose de Estado, porque atiravas os sumários para o caixote do lixo, com displicência? Eras muito mais velho do que nós e andavas de cara sem barba, talvez por falta de hormonas masculinas ou pelos cremes que usavas no casino da praia. Eu sei, tenho a ideia precisa da distância que nos separava em férias ou em Lisboa. Isso não te garante o direito de apontares ao teu irmão, pelas ideias que o moviam, a repetição de que apenas recebias ordens superiores e que, de face obediente, aquele tribunal de normas específicas era tão legítimo como qualquer outro. Claro que não era, nem passava pela tua natural cara de efebo, apesar das honras e distinções que te pouparam a muitos sacrifícios. A tia, sim. A ideia meio achada de um brasão ostentado pelos antepessados. Não tem nada a ver uma coisa com a outra? O que é que queres dizer com isso? Ah, pois claro, aceitaste uma oferta, eras mais velho, começaste primeiro a via da tribuna e a roda de doutores que cercavam o teu tio, ministro da ordem pública, senhor dos deslizes encobertos. O André não badalava liberdades e subversões, nada disso, mas é certo que tinha o direito de partilhar as suas ideias acerca do país e do mundo com os colegas, com os amigos de café. Nunca tivemos, enquanto estudantes, senão essas tertúlias de uma privacidade legítima e respeitável. Quando passaste a gerir o vértice do tribunal, juiz acima de toda a suspeita, ainda tiveste a grandeza de salvar aquele médico que tratava o teu pai. Bem sei que julgar pode não se relacionar com uma simples memória de camaradagem ou de agradecimento. Mas não foi esse o teu juizo sobre as falsas acusações que atingiram o teu irmão e o atiraram para uma fuga sem medida. O regime era assim e os tribunais nunca foram impolutos, ainda que, em certras circunstâncias, o pareçam. O julgamento do André foi uma farsa, depois de cair nas malhas da polícia política, de ser acusado de movimentos subversivos (eufemismo mal amanhado) e de pertencer ao Partido na clandestinidade. Não queres ouvir estes disparates? Há sempre mal entendidos que te deixam de fora. Claro que aceito que não sabias das diligências em torno daquele grupo da faculdade de Direito. Ainda por cima. Aceito, ou melhor, acredito; o que não altera a parte de responsabilidade que te coube no julgamento hipócrita e na sentença cujo destino (o Tarrafal) te fez, enfim, assinar como vencido. Vencido de quê, se a tua argumentação marcava definitivamente o André e podia ter as consequências que veio a ter? Choraste? Mas que lágrimas foram essas, se nem os deveres de família cumpriste. Nós temos as gavetas cheias de fotografias dessa época, imagens amareladas, cartografia dos lugares que ocupaste desde a infância até às visitas à velha casa do sul, duas janelas ainda voltadas para a praia, antes da venda aos empreiteiros do muro que nos separa do mar. Longe, nesse mesmo mar, no oceano sulcado pelos tais antepassados cuja história se coloriu de glória, o Tarrafal foi um arrebatador monumento à insanidade dos governantes, dos juizes especializados, da modernidade que o poder se esforçava por anunciar com os argumentos paradoxais da sua negação. O teu irmão não foi julgado com justiça, não teve verdadeiramente culpa formada. Partiu ao cair da noite para a ilha do campo de concentração, em nome da defesa do Estado. E nunca mais voltou. Enterrado no chão calcinado pelo sol, ele que suportara trinta dias de solidão escaldante, só regressou ao nosso lugar pela parte generosa com que a revolução de Abril salpicou alguns monumentos da resistência e as cabeças brancas que vogaram no seio da multidão daquele primeiro de Maio. Achas que não? Achas o quê? O saneamento provisório do teu cargo foi apenas um gesto simbólico. Só agora o André chegou ao cemitério da nossa terra, em urna metálica como os soldados que o precederam nas colónias, e nem uma página, uma carta, um selo de esperança nos resta como memória desse esquecimento ilegal e monstruoso. Ah, essa nostalgia de Salazar não fará dele um verdadeiro herói: foi tardiamente saudado pelos votos incautos de um ridículo concurso de televisão. Deixa lá a Comédia da Vida. Abre as tuas gavetas e arruma os escassos valores que lá encontrares.

sábado, agosto 11, 2007

PORTUGAL DESENVOLVIDO VISTO DO FUTURO




Dubai faz a admiração e o nojo de muita gente. Esta concepção dos espaços para milionários, em pleno mundo da crise, é sem dúvida aberrante e coloca os problemas do lazer e do território novamente na balança das avaliações. As mais atrevidas, luxuosas e caras ideias do espectáculo, dos exclusivismos do bem estar, tudo isso, exposto aos nossos olhos, obriga-nos a passar depressa a barreira dos mimetismos gulosos, a impossibilidade moral de tanta riqueza para nada, e confrontar-nos com esses desastres principais que tomaram conta do mundo e do próprio planeta, entre avalanches de gelo a desfazer-se e chuvas diluvianas que arrasam populações, alojamentos, estruturas logísticas, uma inquietude cósmica, perante a qual, a médio e longo prazos, a ideia da sofisticação urbanística, engenhos conquistados ao oceano, terão de soçobrar em nome da sobrevivência. As antecipações da ficção científica deverão, em certos casos, aparecer como profecias, embora todos saibamos que muitas dessas obras partem de conhecimentos consolidados, restando-lhes a verdade da matemática para dizer o resto dos números. Dubai pode ser uma experiência cheia de erros e de surpreendentes ofertas, feira de propósito para negociar cinicamente com os clientes ricos, susceptível de declarar plausível mercados assim, prontos para receber o dinheiro sujo dos prepotentes do mundo, daqueles que governam povos em estado de miséria no interior de uma redoma imensa, no fundo da qual pode cheirar a petróleo ou existirem caixas blindadas carregadas de diamantes e de armas.
Lembro-me da Idade Média: é como se estivesse a ver e a rever o anverso e o reverso de uma medalha, talvez da moedsa que nos controla. As obras megalómanas, ou simplesmente públicas, colidem com a urgência em mudar os objectivos das sociedades e das civilizações, não apenas segundo a estranha mistura de desenvolvimento com crescimento, aumentando tudo, desvastando o habitat, imaginando mais poder do que mais equilíbrio.
Relendo a importância da reflexão sobre esses problemas, Miguel Sousa Tavares escreveu no «Expresso» sobre vários aspectos desta vasta lista de questões partindo de notícias locais, provincianas e talvez aterradoras. A propósito de obras públicas e privadas (ou tudo à mistura, como também acontece), ele começou por noticiar: «O primeiro Ministro foi ao Algarve anunciar mais sete megaprojectos imobiliário-turísticos, os quais, segundo acusações do engº Macário Correia, determinaram o adiamento da entrada em vigor do PROTAL, o plano de ordenação do território aprovado pelo próprio Governo: é que, à luz das normas do plano, e se este já estiver em vigor, os projectos não poderiam ser aprovados, nem como PIN. Assim, movido pelas melhores intenções, o Governo dispõe-se a pôr alguma ordem no ''desenvolvimento'' do Algarve. Mas, movido ainda por melhores intenções, trata primeiro de aprovar aquilo que possa contrariar as suas próprias leis. Na ria de Alvor, uma das raras paisagens naturais ainda preservadas de Portugal, o primeiro ministro deleitou-se a ouvir sete empresários chegarem-se sucessivamente ao microfone para elogiar a grande compreensão demonstrada pelo Governo em prol do ''desenvolvimento''. E, imaginando já uma paisagem PIN, semeada de hotéis, golfes, vivendas e milhares de camas, onde antes só havia verde, Redes Natura, ''habitats'' protegidos por directivas europeias e ''obstáculos'' quejandos, José Sócrates contemplou este Portugal do futuro e, embevecido pela sua visão, exclamou: Haverá sempre quem faça críticas, mas é disto que o país precisa»
Agora direi eu: como é que este primeiro-ministro, cujo programa inicial apontado ao país parecia incluir uma concepção geral, e bem contextualizada, da tecnologia correctamente aplicada à construção equilibrada, vem agora confundir as normas e as coisas, aceitando Dubais absurdos para uma província cujos erros no território obrigariam a implodir pelo menos metade do caos estabelecido? Picasso sabia bem o que dizia ao afairmar: «Um quadro é uma soma de destruições». O assessor do senhor primeiro-ministro para os assuntos das artes não lhe falou destes temas? Apetece recorrer de novo a Sousa Tavares: «O Governo encomenda, os bancos financiam, os escritórios de advogados do sistema fazem os contratos, as construtoras constroem e os contribuintes pagam. O país está cheio de porches e ferraris que sairam directamente do nosso bolso para ajudar a ''desenvolver'' Portugal.»

segunda-feira, agosto 06, 2007

UM DOLOROSO ERRO DE CASTING


Margarida Vila Nova, jovem actriz de grande talento, hábil a utilizar o estudo que faz sobre as personagens, tanto na televisão como o teatro e no cinema, aceitou interpretar o papel de uma personagem baseada na ex-companheira de Pinto da Costa, a autora do livro bibliográfico Eu, Carolina. Carolina, de súbito personalidade do jet set do mundo do futebol, passou também e exibir o estatuto de vedeta reveladora das situações e quadro moral desse mundo, do presidente do Futebol Clube do Porto em particular. O livro não tem perfil literário de qualquer nível assinalável, mas, dada a especial cultura que os portugueses se habituram a linguajar, por falta de alimento verdadeiro, alcançou várias edições e tem sido alimento de muita casa alfacinha.
Por estranho que pareça, ou pelas razões da conquista popular, João Botelho, realizador de cinema, resolveu fazer um filme baseado naquele «romance» eticamente duvidoso. Sustentado rapidamente pelo nome de Margarida para interpretar a inenarrável Carolina, papel que aceitou e que estudou, com o profissionalismo de sempre, as vozes do burgo cruzaram-se de entusiasmo e desdém. Nada de importante, valha a verdade. Mas o realizador amenizou, desde logo, as razões de iras várias, dizendo que o filme não ilustrava nem a vida nem as contradições daquele casal, passando um pouco ao largo do livro e escavando algumas peripécias meramente ficcionistas, embora impulsionadas pelo fenómeno editorial já referido. Quando soube da aceitação do trabalho pela Margarida, uma sombra indecisa poassou pelo belo rosto da actriz. Mas compreendi a sua possibilidade de defesa, justamente no domínio do enquadramento estri-tamente profissional, inclusive como desafio aos seus méritos. Mas, por muito que pintem aquele rosto jovem, por muito que o vistam com a roupa da outra, por muito até que o desempenho da actriz seja notável (o que não é difícil imaginar) a sua escolha continuará a ser, do meu ponto de vista, um erro de casting. Há valores, raridades, sonhos até, que não são susceptíveis de apertar numa caixa pequena, envernizada para um contexto pouco credível, apesar dos méritos do realizador.

quarta-feira, agosto 01, 2007

NA MORTE DE MICHELANGELO ANTONIONI


Anteontem de manhã, quando morreu Ingmar Bergman, muitos cineastas reflectiram sobre a existência de Michelangelo como o último representante de uma era de ouro desta arte soberba.
Afinal, doze horas depois morria tranquilamente o realizador italiano cuja grandeza, no ser e na realidade inalienável, marcara o seu tempo e o pensamento humano de forma profunda. Por estranho que pareça, uma espécie de destino conferiu simultaneidade e sentido simbólico ou trágico à morte destes dois homens. Aqui os lembramos, sonhando com a perenidade da sua mensagem.
No jornal O Público, Inês Nadais acompanha-nos assim:
«Chamar-lhe o cineasta da incomunicabilidade era outra forma de lhe chamar ''cineasta burguês'' -- mas, para ele, em 1950, já não havia outro cinema a fazer: era mais importante parar nas personagens para ver o que é que, de tudo o que se passava (a guerra, o pós-guerra, coisas que eram importantes de mais para não terem deixado vestígios nas pessoas) . Antonioni pensava então: «Comecei assim a analisar as condições de aridez espiritual e de frieza moral da burguesia. Precisamente porque me parecia que nessa ausência de qualquer interesse além do seu, nesse estar totalmente virado para si próprio, sem um contraponto moral, parecia existir matéria suficientemente imporante para um exame» Do realizador em 1961.
A maneira despojada como olhava para o mudo era transportada para uma câmara lenta e fria: a prótese adequada para o cineasta indagar os estados de alheamento, a lassidão dos gestos, o modo indeciso, desprendido, como as pessoas se afundavam no espaço urbano, em parte abandonadas pela luz, mascarando o quotidiano e encobrindo a incerteza do desejo.




Antonioni com Wenders:
tendo perdido a fala, Michelangelo
realizou o seu último flme em
colaboração com aquele colega




Mónica Vitti
«Obberwald













Eclipse ____________ _____________ Zabink Point

terça-feira, julho 31, 2007

NA MORTE DE INGMAR BERGMAN

Bergman 60


Não é possível pensar o cinema, na sua globalidade, sem citar Ingmar Bergman e a sua obra genial, os sonhos, as amarguras e os encontros da existência, os retratos de personagens inesquecíveis, uma deriva nostálgica pela vida interior de gente que colide com os desastres do mundo. São raros os autores, em cinema, que tenham, como ele, aprofundado a alma humana, a sua inquietude perante os sinais do ser e da morte.
«Para Silva Melo, a mistura e contaminação entre cinema e teatro, no autor sueco, salta aos olhos». E cita obras tão relevantes como O Sétimo Selo, Lágimas e Suspiros, Persona como referência a um puro Strindberg, ou As Três Irmãs, a partir de Tchekov.
O depoimento do crítico João Lopes tem um notável reflexo nas condições de recepção do grande cinema entre nós, durante e depois da ditadura. A actual castração do público português quanto a esta arte tem sido verdadeiramente criminosa, baseada em magníficos sistemas de distribuição, monopólio de salas minúsculas onde o som, colocado muito acima, destroça a qualidade e os ritmos internos de muitas películas».
Oiçamos João Lopes: «Para mim, acho que é disso que devemos falar a propósito da morte de um homem que celebrou a frondosa singularidade do género humano. E nos fez saber que a relação com o outro (humano ou divino) é sempre infinitamente complexa, desafiando-nos a viver apesar da certeza da morte. Ou melhor: contra a certeza da morte.
Acho que devemos falar desse escândalo que faz com que existem seres tão extraordinários como Bergman, capazes de nos mobilizar para a dificuldade de estarmos vivos e compreendermos os outros (e nós próprios), ao mesmo tempo que as formas de ficção mais poderosas nos submetem a uma lógica de crescente infantilização e banalidade.
Sermos dignos da herança ''bergmaniana'' é lidarmos de frente com a sua recusa de vulgarização narrativa e o seu empenho em defender a irredutibilidade de cada manifestação do factor humano. De resto, vejam-se os seus filmes».
Direi agora eu próprio, para terminar: é preciso separar a indúsria do cinema do chamado cinema de autor. Seria mau, certamente, que tivéssemos de suportar pintura realizada por uma centenas ou duas de operários trabalhando segundo o princípio da cadeia de montagem.

persona
Esta brevíssima imagem de um dos mais belos e
profundos filmes de Bergman lembra-nos
como o cineasta se apropriava do
dos fantasmas que se movementre nós e
nos duplicam e se desfocamna beleza da vida e das suas distâncias
_____________________________________________

Bergman já em idade avançada, sempre ligado ao teatro, de que nunca se esqueceu,
com o qual deixou para a humanidade indeléveis sulcos sobre o entendimento
da vida e da morte

domingo, julho 29, 2007

PARA ALÉM DO INFINITO


«Blade Runner» é uma obra de culto do cinema de ficção científica, deslumbrante reflexão sobre a manipulação bilógica do homem, entre a sua necessidade de sobrevivência num planeta chuvoso e apenas tolerável através de próteses tecnológicas (aquilo em que se tornara a Terra) e a tentativa de recriar a vida humana através de um caminho mais complexo. Tendo produzido seres de configuração integralmente humana, capazes de uma relação normal, funcional, o homem mal se apercebeu de que realizara uma criatura milhares de vezes superior a si mesmo, o que, de forma não muito longínqua, a realidade biocibernética poderia eventualmente conceder aos robbots capacidades bastantes para se multiplicarem e aumentarem os seus poderes. Estes seres denominavam-se replicantes, e o seu tecto de vida, como prevenção do homem perante a grandeza insondável do ser gerado, dominado por programas cibernéticos, teve que ser reduzido nas gerações mais recentes. O Homem-Deus, mais inseguro do que se julgara, dispondo de uma vida que rondava os noventa a cem anos, teve de programar os seus replicantes para uma resistência vital de quatro anos apenas. O que não deixou indiferente a inteligência replicante, para quem a vida ganhara um enorme valor cognitivo e afectivo, uma surda vontade de encontro e de pesquisa no espaço e no tempo.
A tese desta obra de grande qualidade, mesmo nos adereços que explicam e conotam os elementos de toda a relação dos seres e dos equipamentos, vem colocar-nos o problema essencial da vida: e é bem certo que o limite dos replicantes não passa de uma trágica metáfora sobre a própria vida humana, o seu sentido, a construção de estações espaciais para uma vida bem pior do que a dos replicantes, entre pesquisas e projectos de emigração na galáxia, a tecelagem de um futuro utópico mas já visionalizável. São esforços desesperados, num grande espaço de descoberta e construção, mas que está longe de vencer espaços imensos, afinal indecifráveis, mesmo como vanguarda no estudo colossal de 682 galáxias e milhares de astros singulares, de sistemas semelhantes ao nosso, mais distantes e solitários, em todo o caso, como nos dá a ver o terrível livro «A Nave da Esperança», de Edmund Cooper. Nesse caso, nunca chegamos a lugar nenhum, habitável, colonizável, sendo envolvidos pela curvatura do espaço, ao fim de centenas e centenas de gerações nascidas e educadas no cosmos, em torno do mito de chegada, e chegando absurdamente a um sistema onde um só planeta acusava algumas condições de vida. Era a Terra, obviamente. É uma pergunta crucial sobre a nossa natureza, a pergunta sobre o que somos e para quê, a par da vastidão percorrida minimamente durante mais de mil anos luz, em nome da descoberta das diferenças no exterior, da pulsão inimaginável do universo, e para descobrir mais do que isso -- um lugar estável onde a consciência humana tivesse apoio biológico e logístico. Porque a morte, cobrindo de absurdidade todos os nossos sonhos, não parece dominável, nem com uma vida prolongada e conservada (potencialmente recuperável para a ternidade).
Se os meios tecnológicos nos permitem, agora, descortinar, a milhões de anos de luz de distância, um espaço onde corpos e forças colossais se movimentam, se entrechocam por vezes, recriando o tecido do infinito, a verdade é que tal situação mais nos dá consciência da impossibilidade de racionalizar limites, entre a vida e a morte, entre este espaço e outros e outros, todos maiores do que o nosso próprio universo, e em expansão, em mutação, brutal de força e pulverizável no vórtice dos buracos negros. A condição humana é assim tão «explicável» pela imagem do bispo que jaz não sabemos onde, como, pelo replicante perplexo sob a chuva, ou por aquele outro, estupefacto na alucinação do sangue, a rede do sangue, geometria sempre mutilada -- todos nós perplexos, furiosamente amedrontados, enfim incapazes de reconhecermos quem somos.





sábado, julho 21, 2007

DO BLOG AOS RETRATOS SEM ROSTO



A expressão de ideias e sentimentos através das condições específicas do blog é uma recente aquisição do vasto campo instrumental que o homem tem concebido em nome da grande variedade de projectos e aproximação dos indivíduos entre si, quer para trocar ou partilhar informações, quer para fazer emergir do vazio presenças ignoradas, a voz escrita de alguém, retratos com ou sem a tradução do rosto. Eu não tenho nenhuma teoria bloguista, nem de concepção estrutural, nem de qualquer especificidade linguística desse meio, sobretudo nas ligações interactivas entre a palavra escrita e a imagem paralítica ou cinética, conceitos que decorrem directamente do cinema, da fotografia ou da televisão. Antes de criar um blog, aprendendo as operações aos solavancos, como acontece frequentemente aos autodidactas, o que eu sabia era-me transmitido por outros meios de comunicação, incluindo uma iniciada mitologia em torno de modos de formar, processamento técnico, temática inusitada, debate no âmbito do testemunho e da política. A isto se adicionava o grande universo da Internet, a sua pluralidade de temas e dados do conhecimento, os patamares operativos para os quais nós próprios podíamos reenviar réplicas de coisas, criações as mais diversas: a concavidade sem medida da Internet receberia tudo isso, doutrinas inteiras. Ora essa realidade (em parte virtual) fascinava-me um pouco, ao mesmo tempo que me levava a cogitar nas lacunas possíveis, nas sobreposições, no excesso, no lado perverso de certos aproveitamentos da curiosidade e dos mimetismos humanos.
O Blog, pelas suas características, despertava-me uma grande curiosidade, não tanto nas propriedades da forma (as quais existem noutros campos assumidos da criação literária ou pela imagem) mas sobretudo pela sensação territorial que parece legar-nos, tendo no seu campo autónomo indicadores de liberdade de expressão verdadeiramente aliciantes. Esses indicadores, embora veiculados à lei geral sobre a responsabilidade do nosso poder de intervenção pública, ou diante de acontecimentos graves, concediam-me uma considerável margem operatória, a qual, com efeito, ultrapassava a mobilidade armadilhada da pintura, a escassez dela perante a grandeza de tudo o que nos habita e desejamos partilhar com os outros, a pouca circulação do quadro em contraste com a viagm imediata de cada «postagem» que me ocorresse alinhar no campo.
Mas o meu maior apelo dizia já respeito à condição de habitante do blog, sabendo que o seu nome, desde logo, atrairia visitantes curiosos, concordâncias, discordâncias, expressas ou omitidas. Isso dependia de muitas coisas relativas à minha prestação, à sucessivas presenças, gritos, imagens, que se organizassem em termos de mensagem. Como em qualquer outro suporte, essa intervenção é claramente possível em termos de abertura, de contracção minimalista ou vive-versa, na linha, por exemplo, do que aconteceu com a art pop, numa dádiva coloquial às falas trocadas, aos encontros ficcionais, às cadeias de consumo, pela oportunidade de um comentário ou pelo tratamento das mais diversas situações. Estaria sempre livre para desenhar uma escrita breve e simples, a par de dialogar, nesse mesmo sentido, com os meus pares no domínio mais erudito da teoria da arte ou mesmo da sua política em redor.
Desde da primeira pessoa a quem enviei um e-mail no sentido de que ligasse para o «desenhamento», a corrida (escorreita, no meu caso) nunca mais parou. E é aí que se verifica o problema mais profundo (embora por vezes populista) que me tem envolvido no estudo sobre a imagem ausente, a voz insonora, o retrato sem rosto. Claro que, à medida que meia dúzia de pessoas se aproximam de nós, cúmplices, a dimensão psicológica dessas entidades vai ganhando forma -- e é como se o nosso imaginário, apoiado em dados do conhecimento científico, parecesse retratar, um pouco à maneira dos retratos robot usados pela polícia, alguém aqui menos cmprometido com semelhanças corporais ou deduzindo tais semelhanças pelo retrato psicológico acumulado em páginas de textos, comentáros, formas peculiares de descrever as coisas, avisos sobre temas e eventos preferidos, o aceno da partida, o chamamento inicial. Trata-se de um argumento cujo afloramento nos filmes não passa de suporte de certas vias de acção. Eu vejo-o, ao outro que entretanto escreve, suponho o retrato sem rosto em viagem anunciada pelos amigos, olhares escondidos, sem se reportar à marca da fotografia de alguém. Alguém na pose da fábula, ou meramente como no pragmatismo do bilhete de identidade, forma por vezes difusa mas reconhecível como realidade essencial da face palpável. No retrato identificador (que o é, na cereza de tudo) a aparência passa a revelar um rosto, mas o que sentimos para além dele é mais do que rosto, aproxima-se do entrosamento metafísico entre duas pessoas e a vários níveis: a fotografia nunca diz o que o longo encontro cultural, pela escrita, promove num espaço e num tempo indeterminados, mas animicamente determinantes. Isso faz-nos sentir uma espécie de nostalgia do rosto imaginado ou na presumível semelhança dele com gente que pertenceu ao nosso círculo de relações, que ajudou em parte a formar o nosso habitat. O lado metafísico dos cruzamentos de mensagens pode perfeitamente, além de abrir afectos, ajudar-nos a perceber o mundo na ausência de muitas coisas que o formam. Ou nesses velhos quadros onde a representação de uma figura, sem nos mostrar quase nada dela apesar da pose e do ponto de vista, dá-nos contudo a ver a atmosfera psíquica que se desprende da personagem, uma cabeça voltada e apesar disso revelando tristeza, alguma espera indizível, as mãos (que não vemos) e no entanto sabemos como se encontram cruzadas.
No Blog, cada viagem após a consolidação do primeiro diálogo consistente, a aventura reside em fazer jornalismo, ensaio, montagem de imagens, iniciar contactos a favor de uma interactividade palpável ou meramente virtual mas fecunda. E sobretudo parecem verídicos os nossos passos de ensaio no escuro, passos que nos levam a tocar (por exemplo) a seda de uma folha dormindo, a face de alguém na desculpabilização da surpresa e do encontro, a iniciação de um afecto -- e até mesmo de um amor.
É fascinante, sem dúvida. É estranho também, em todo o caso.

terça-feira, julho 17, 2007

O ENXERTO DE SARAMAGO

Saramago, Prémio Nobel
da lingua portuguesa

Numa entrevista concedida ao «Diário de Notícias», Saramago disse: «Portugal acabará por integrar-se na Espanha». E assim, breve, à sua volta, os homens de cultura ficaram em choque: porque uma coisa é fugir por medo, passados que são séculos de história, outra é anunciar algo que nunca será uma escolha e que, como soberania importada de fora, com cumplicidades cá dentro, acaba como retrato da traição. Algumas das reacções a este mergulho em direcção à jangada de pedra, mostram fundamentada indignação: porque Saramago tem uma «dívida para com a língua portuguesa», move-se numa rodilha de azedumes ligados à «ortodoxia marxista-leninista» Mais: «uma provocação deve ser motivo de reflexão» e a mim ocorre-me dizer que uma provocação deve ser antecipadamente reflectida, sobretudo como neste caso, dada a sua importância e os créditos de quem a soltou. Apesar das suas intervenções, quando convidado pela televisão, revelarem um contido apreço pelos problemas do homem e da criação, sem derrapagens deste tipo, nota-se que o desconforto de Saramago em relação a Portugal emerge aqui e além numa espécie de elipses ou de ardilosas metáforas. Saramago é agora acusado de ser incapaz de defender Portugal»

Martins da Cruz, Ministro dos Negócios Esrangeiros de Durão Barroso, foi talvez quem mais reagiu à frase da Saramago. «A visão de Saramago é uma visão do século XIX e não do século XXI. É muito fácil odiar Portugal no estrangeiro, o que é difícil é defender os interesses de Portugal no estrangeiro, e isso o sr. Saramago é manifestamente incapaz de fazer». Nesta linha de abordagem à insólita situação, também houve reacções de muitos intelecuais e escritores, como Vasco Graça Moura ou Manuel Alegre. «Ele tem a responsabilidade de ter ganho o Nobel da Literatura com a língua portuguesa», disse o poeta Manuel Alegre. «Saramago concebe a realidade como sendo gerível com uma engenharia de racionalidade» (considerou Graça Moura). Por muito que a medalha do Nobel notabilize um homem, neste caso um português, isso confere-lhe mais deveres perante a língua e a Pátria donde se alcandorou a esse galardão, do que direitos enviesados, má fé, arrogância, eufemismos perversos. Os direitos de expressão têm de ter sempre em conta os outros -- e, em casos assim, menor sensacionalismo e profunda reflexão sobre a hipótese formulada. Por mim, na raiz do meu ser e da minha língua, da nossa cultura e considerável antiguidade, muito teria para dizer a Saramago (apesar das minha deficiências e das fragilidades não usufruirem o benefício dos media), pois considero que o escritor contraiu uma grande responsabilidade a vários níveis. Portugal honrou-o, perdoou-lhe muitas sinuosidades, conversou civilizadamente sobre os valores humanos e a necessidade da arte. A caricatura da «Jangada de Pedra», Portugal voltado para a América e a Espanha com as suas feridas voltadas para a Europa, a cicatrizar, não tem necessariamente que deslizar para o sul. E era melhor a ideia de que essa ruptura servisse para ligar de novo os dois continentes, voltando assim a uma certa verdade original. Saramago deve reflectir, partindo de dentro de si mesmo e fazendo auto-crítica. Nas pedras de Lanzarote. Observando as condições capazes de permitirem saudavelmente o enxerto de uma coisa na outra. E a lembrar-se da humilde grandeza com que escreveu «Levantado do Chão».

segunda-feira, julho 16, 2007

ANGOLA INDEPENDENTE

O carro derrapa na areia que se espalha pelo alcatrão. Coisa pouca. Um menino negro salta como gazela. Tem medo do visitante. Já vai longe, remover lixos em contentores, saltita num alcatrão devastado. A península que fecha a baía de Luanda do lado esquerdo, no crepúsculo, palpita de risos. Ontem morreu aqui um casal por assalto à mão armada. Os lugares são contingentes, sobretudo à noite. Há postos secretos, a essas horas, que se ligam entre si na passagem de drogas e outro comércio ilegal, pobres pescadores além. Os risos. Festa da nova sociedade angolana que se apropria de tudo e de todos, sacudindo perfume e sedas, em círculos concêntricos ao poder. Perto dos restaurantes, um polícia coloca-se à frente do carro. Deveria ter uma luva branca (imagino de memórias estranhas) mas a pistola metralhadora que o adorna faz bem o trabalho da luva, fica a mão. Tenho documentos especiais, um carro de luxo e um cartão de imprensa. O homem faz-me a continência: passo devagar, entre risos ali perto. Festas depois de festas, os ricos dispõem da cidade como querem, sobretudo na zona alta. No tempo da guerra, quando aqui estive, tomava banhos de água morna. Olho para o interior dos restaurantes e no Miami, o mais moderno: a alta sociedade luandense bamboleia ancas, seios, jóias. Os rostos pintados brilham, escorrem cremes, imitam até a sociedade colonial que o tempo ajudou a desfazer, bem depressa substituída por uma outra, essa assombrosa guerra civil que deixou o país arrasado. Em grandes áreas fecundas mas abandonadas, onde um dia haverá fósseis incongruentes, alguns técnicos procuram catar e desactivar as minas que ficaram no terreno, sem notícia, nem carta. As cidades destruídas ainda hoje se apresentam assim, talvez moribundas ou mortas, mas onde vemos por vezes meninos e mulheres carregando víveros e coisas de uso comum, compradas nas viaturas que vão e vêm, invisíveis. Mataram um casal mas não foi só ontem. Tudo o que é gente na noite, na posse de alguns objectos de uso comum, pode ser espoliado. Negar é enfrentar duas ou três facadas, a morte quase certa. Aquela gente que desceu à baía, conduzida por pretos luzidios, veio cumprir o ritual dos diamantes e do petróleo, comemorar aniversários, arranjos floridos de jovens destinadas a casamentos da «alta cidade.» Cada esbanjamento festivo é ornamentado com fogo de artifício, porque os diamantes ficam no cofre. E entretanto os seguranças lá vão estando atentos, descortináveis a olho nu. Os carros voltam de madrugada. Amanhã, aqui e além, nos lugares de luxo, a gula e o prazer voltarão. É um direito, dirão alguns. É roubo e usurpação, dirão outros. Subi ao depósito das águas e olhei em panorâmica o mar a perder de vista dos muceques, verdade social que teria um milhão de habitantes antes da independência e hoje, na cintura imensurável, alberga mais de quatro milhões de almas. O ar parece atravessado pelos cheiros de várias pestes associadas. A lama envolve a periferia, numa terra de ninguém, mas na qual, como dantes, os meninos brincam sem nexo, estatelando-se naquela espécie de barro escorregadio. Há gente poderosa, de visita ao governo do país, no alto requintado das residências, e os vinhos e os acepipes vão de ambulância para lá. Ali mesmo, onde acharam uma criança abandonada no entulho, coberta de sangue e pó, e já morta, passam os grandes senhores a caminho das suas mansardas. Luanda, aliás, acabou por ser destinada a fechar quase toda a Angola no seu interior, entre bairros degradados e muceques imensos, enquanto a verdadeira Angola se ignora a si mesma, de um lado os imensamente ricos, de outro a pobreza extrema, os pestíferos, os estropiados, meninos e velhos sem pernas, vitimados pelas minas ignoradas no ponto exacto, prontas a explodir e fazer vítimas durante um bom par de décadas. Curiosamente, os putos que brincam na lama ficam temporariamente irreconhecíveis, pretos, brancos e mulatos de súbito de cor homogénea e amiga. A outra e imensa Angola, fecha-se, pelo seu lado, nela própria, desconhecendo-se para além dos que roem ou cultivam raizes e deixa que o vento escorra para sul, anharas totalmente vazias . Do alto, num táxi aéreo, pode ver-se essa desolação. Voando mais baixo, posso tirar fotografias de aldeias inenarráveis, onde se descortinam crianças, mulheres batendo a mandioca, homens usando próteses e muletas, deambulando pelo patamar de terra batida, como se o mundo tivesse parado nessas imagens. Nas terras de ninguém é tudo lento e essencial, a breve passagem dos helicópteros dos senhores do poder e, em baixo, as vítimas da independência, comendo a mandioca que o diabo amassou.
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Nota: este texto foi inspirado na reportagem de Luis Pedro Cabral (Única, 15.07.07) e as fotos
adaptadas da peças de Sandra Rocha (Luanda). Aspectos complementares derivam da experiência da guerra que o autor deste Blog viveu mos anos 60.










quinta-feira, julho 12, 2007

CENTRIFUGAÇÃO GLOBAL DE BOLONHA

Este não é o Olho de Big Brother
«1984», de Orwell já passou. Mas enganam-se aqueles que suspiram de alívio e pensam que o mundo alegoricamente mitificado naquele livro não virá, nas suas diversas vertentes, confirmar-se mais tarde, expandindo-se por todo o lado, com grande incidência nos grandes países. A gula terá entretanto outro nome e o caos imensurável nunca existiu nem existirá. Em todo o caso, é verdade que a tecnologia, nas mais variadas acelerações da sua caminhada, cada vez mais em nome do crescimento, concorrência, competitividade, fez com que as sociedades passassem a uma corrida vertiginosa, reacertando fronteiras e explorando todo o petróleo do mundo. Surgiram sistemas de ordenação exploratória dos recursos e da sua errática divisão. Mas as crises não poupam a odiosa deificação dos mercados, todos concorrem com todos -- e isso começa por marcar indelevelmente as metodologias da formação, o supremo bem da Educação, sempre em reforma, progredindo para um novo paradigma, como se diz agora, apesar do ruído se instalar um pouco por toda a parte e o ensino de profissões (dizem) estar aí para nos ajudar a criar cidadãos mais qualificados, justamente aquilo por que clama a indústria e os sonhadores da produção em massa. Muitos esquecem-se, nas suas boas intenções, que muitos dos nossos empregadores, entre um rapaz habilitado e outro apenas com o nono ano, acabam por preferir este. A flexibilidade no trabalho é um dos mais hediondos eufismos dos dias que vivemos, para não falar no filhote daquela teoria, cujo nome é ainda segredo de justiçao. E os nossos licenciados que o digam, cerca de 40.000 sem emprego, à espera de alcançar campos de aplicação que não sejam só os industriais.
Escrevendo na revista «VISÃO», o prof Carlos Reis resolveu, depois de uma informada contextualização, alinhar para o «pessoal» algumas «PERGUNTAS INDISCRETAS», das quais, pela sua enorme propriedade, terei o gosto de partilhar convosco:
Ao fechar a primeira parte do seu texto, Carlos Reis pergunta se «dentro de alguns anos será sustentável, num pequeno país, a existência de instituições universitárias com oferta pedagógica própria? Nesse tempo a vir, haverá lugar para a diferenciação e para a singularidade cultural? O que agora é gratuito sê-lo-á sempre? (Recordam-se de quando as leituras dos jornais na Internet era gratuita? Parecia mentira...). E ainda: não caberá aos Estados fomentarem a consolidação e o desenvolvimento de sistemas universitários fortes e fecundos? Ou será mais expedito (e mesmo mais barato) se nos ''abastecermos'' no pronto-a-aprender de grandes ''fornecedores'' sem rosto? Tudo, afinal, susceptível de ser resumido numa pergunta inquietante: terão as universidades portuguesas o mesmo destino que as nossas pescas conheceram?»
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Nota: citações do artigo referido, do prof. Carlos Reis, e enquadramento de Rocha de Sousa


A LÓGICA DO CRESCIMENTO

quinta-feira, junho 28, 2007

ENTRE A VIDA E A ETERNIDADE

rainha do antigo Egípcio, 1458 a.C.
Enquanto o corpo responde aos nossos impulsos e todas as capacidades do ser se manifestam em plena luz, pensar na morte é como quem olha distraidamente, e sem interesse, para uma fotografia vulgar de um vulgar desconhecido. É porventura objecto ocasionalmente achado e brevemente, se houver condições próximas, atirado para um caixote público do lixo. Esse incidente, como muitos outros que poderiam colocar-nos diante de quem seremos ou a que distância estaremos do fim, só começam a alcançar contorno, codificação, um balanço entre uma vida depois da vida, no instante cobarde em que nos socorremos de um fio desdramatizador da inevitabilidade, a despeito das crenças sobreexcitadas no ser eterno, lugar ou lugares onde revitalizariamos uma alma imortal, retornando, segundo alguns movimentos, a este quotidiano que nos cerca e que sabemos em declíneo. Muitos de nós assim pensam, de facto, porque a suprema qualidade dos seus instintos, percepções e sensações parece não poder ser negociada, nem transferida para sítios do silêncio e do não retorno. Terá sentido uma vida para nada e uma morte igualmente para nada? Isto ofende a razão. Ofenda os sentimentos e até a dignidade com que por vezes assumimos a vida. Há portanto uma fase da vida (pois já conhecemos a esperança dela em termos estatísticos) em que questionamos o estar, o ser, viver sem prémio -- ou indagando as possiblidades da transmigração, da sobrevivêmcia da alma e portanto do indivíduo.Onde e como não sabemos? Nem o que faremos, nem se de facto retornaremos aqui pela lei da reencarnação. Os panteístas gozam aquilo de que podem dispor até a uma dissolução da consciência. A vida do espírito nas mais antigas e abstractas religiões do mundo, embora passe pela Terra, tem a sua evolução apontada por o Todo, o Nada, o Nirvana. E entretanto, lucidamente, os ateus desvalorizam toda a sobrenaturalidade e podem assumir éticas comportametais, de solidariedade, responsavelmente. Perto da morte, quando a doença produz dores imensas e a cegueira entre elas, em plena zona terminal, muitos, crentes ou ateus, já concebem a eutanásia -- ou a ajuda no limite mais cruel desse limite.

A fotografia que publico com este texto corresponde à múmia de uma rainha, ignorada num sotão do Museu do Cairo, e que foi identificada como Hatshepsut, que viveu e exerceu o poder num Egipto de entre 1479 e 1458 antes de Cristo. A ciência tem desenvolvido extraordinárias tecnologias neste campo, no estudo de fósseis, corpos, múmias, adereços e sonhos apodrecidos. O próprio método do ADN, pelos estudos de Zahi Hawass, tem aqui o seu papel; enquanto outras metodologias nos permitem perceber toda a vida destes mortos e a incontornável fé que depositavam na sua continuidade depois da morte, sendo então profundamente tratados, trabalhados, em ordem a uma idade longínqua em que voltariam ao seu dia a dia. Veja-se como o homem sempre se confrontou com esse buraco negro onde soçobram, sem retorno, astros e sistemas planetários inteiros -- até faraós. A «eternidade» de Hatshepsut é esta imagem, é este magnífico silêncio, é esta inalienável brevidade.
Enfim, fica-nos a curiosidade dos estudiosos, saber que esta mulher tinha o hábito de se vestir de homem, de fingir bigode. Foi uma figura das mais poderosas do antigo Egipto (mais do que Nefertiti e Cleópatra). O seu templo funerário, em Deir et-Bahari (na zona do Vale dos Reis) é um dos monumentos egípcios mais visitados no presente, o que talvez permita alegorias sobre o outro lado da morte ou a perenidade dos restos mortais de alguém, conservados, existindo assim, enre visitas, não se sabe até quando. Uma «etermidade».

quarta-feira, junho 27, 2007

DA BELA CONTROVÉRSIA AO MUSEU BERARDO

Francis Bacon
Inaugurou-se ontem, 26 de Junho de 2007, em Lisboa, Portugal, o Museu Colecção Berardo, instituição que se alcandorou no Centro Cultural de Belém, após um tempo de grande polémica entre o próprio Joe Berardo e o Estado: o empresário ameaçava levar o seu espólio artístico para França, nem mais nem menos. Há cerca de um ano, em Agosto de 2006, foi enfim criada (coisa cada vez mais recorrente por cá) a Fundação de Arte Moderna e Contemporânea da Colecção Berardo (assim até 2016), o que implica um contrato de cedência sem custos do Centro de Exposições do CCB, após o qual o Governo português terá a opção de compra da colecção. Até então as obras não serão classificadas como património nacional, sendo possível que circulem, em parte, fora do País. Mas há mais contemplações: a Fundação Berardo poderá mover um fundo anual para aquisição de obras, o que, a acontecer, terá a divisão igual de despesas por Berardo e o Estado hospitaleiro. Berardo será presidente vitalício da sua Fundação e concederá, depois de toda esta máquina de efeitos especiais e importantes cedências, uma cara exposição de arte contemporânea a Portugal e a Mundo. Ao fim dos 16 anos, já terá corrido muita tinta sobre este bizarro acordo. O fim, se Portugal continuar pobre, é mais ou menos previsível. Houve tempo em que os grandes coleccionadores, ricos e com o sentido do dever público, cediam as colecções por completo (Gulbenkian) ou ofereciam ao País Fundações inteiras, como Arpad e Vieira da Silva. Para não falar em preciosas bibliotecas, gestão de espólios (SNBA) e assim por diante.

A programação do Museu Colecção Berardo deverá orientar-se pela rotação dos vários movimentos artísticos que a integram. Por muitas subjectividades que as escolhas contenham, a verdade é que o conjunto das inclui 862 obras. O objectivo desta recambolesca negociação concentra-se em dar a conhecer a evlução das artes plásticas no século XX, permitindo, ou potenciando mesmo, o intercâmbio de obras de arte com outras de instituições estrangeiras semelhantes. Embora nada do que está escrito saia destas fronteiras, Berardo atreveu-se a dizer que este acontecimento «significa o concretizar do sonho de ter um gande centro de arte em Portugal, onde os artistas portugueses possam expor as suas obras e o público nacional ver peças dos melhores autores e museus mundiais.»
Berardo parece esquecer-se que isso tem acontecido através de um largo mecenato e de outras instituições públicas e privadas, sem que o país possa hoje considerar-se propriamente desactualizado. Aquilo de que ele fala deveria implicar a desafectação do Centro de Belém deste contrato, após, e a breve trecho, a construção de um edifício inteiramente construido para a colecção Berardo -- e, quem sabe, talvez à sua custa e futura exploração das mais valias.
O programa anunciado para o funcionamento inicial do Museu comporta grupos de fotógrafos e e pintores, nos quais aparecerão, como seria inevitável, obras de Helena Almeida, Ângelo de Sousa e Paula Rego. Depois o surrealismo será obrigatório e autores relevantes, como Warhol, Bacon, Picasso, Magritte, serão também, e por outro lado, integradores de afinidades com artistas portuguses

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Segundo os noticiários em circulação, imprensa e TV

segunda-feira, junho 25, 2007

O MAL DO EIXO II


Os canais de televisão esticam todas as cordas de que dispõem para, entre alguns programas temática e formalmente sérios, inventarem coisas de entretenimento, coisas fedorentas e fedores de anedotas inócuas, novelas cada vez mais viciadas nos estereótipos da intriga banal, a cometer os mesmos erros que os brasileiros impingem às multidões, muito refugo, muitos tertulianos para falarem das «vedetas» nacionais, patos falantes e universos assim, a abarrotar de publicidade. Por estranho que pareça, e num país que precisa de trabalhar (ou precisaria) os programadores destas empresas publicam por vezes, a acabar às 2 e 3 da manhã, filmes de qualidade, algum «traficado» documentário sobre artistas plásticos, um hoje, outro daqui a um ano e assim por diante.
Os chamados programas de intervenção, também madrugadores, envolvem gente de mau humor, azedume e piadas rasteiras, com diversos percursos que julgam fazer a diferença. Não me refiro a alguns debates e tentativas de avaliar questões sociais ou de claro interesse pedagógico e cultural. Deixando de lado a majestática oratória de «A Quadratura do Círculo», encontro por vezes «O Eixo do Mal», ideia talvez trabalhável, até no clima, mas que sofre assiduamente de falta de critério comportamental e estrondosas derrapagens dos intervenientes, sobreposições e pronúncias erráticas, o que o desgastou depressa, perdendo sentido ou quase mergulhando no pântano em que é suposto todos nos estarmos a afundar, desde a demissão apocalíptica de Guterres. O eixo do mal foi buscar o seu nome a uma dessas invenções políticas, neste caso vinda provavelmente do gabinete de Bush, que traçava um eixo do mal da balbúrdia trágica do Médio Oriente até à «perigosíssima» Coreia do Norte. Mas a exploração dessa temática, que puxa pelas meninges, acabou cadáver, sem diagnóstico, e a televisão aproveitou-a no quadrado a que se deve chamar, com maior propriedade, «O Mal do Eixo».
O últino número desde «espaço de comunicação» surgiu particularmente infeliz e trouxe à superfície, simbolicamente sem a presença da Clara Ferreira, as caricaturas dos protagonistas, a sua incompetência em fazer televisão e comunicar sem se assaltarem uns aos outros numa pequenez confrangedora, nas escolhas, nas ideias, no fraco estilo performativo: a política tem muito que se lhe diga, mas neste caso tudo se resume sempre à pele risível do tablóide, aos erros do governo, a Sócrates, à queda de Sócrates, Sócrates à beira do fascismo -- e até ao declíneo de Sócrates comparado com o declíneo de Cavaco Silva. Qua raio de palavreado é este, todos a puxarem o que restava das frases alheias? Depois foi a Ota, é sempre a Ota porque sim, o povo que se ponha a pau que há conspiradores e traficantes por todo o lado. Foi a CIP que pagou o estudo de Alcochete? Não, foram os outros, os medrosos, os escondidos. Foi a CIP, foi a CIP. Já saudosa é a Portela, há quem queira Portela+1, com um campo de golfe ao lado para aterrarem as excursões. O ministro que defende cegamente a Ota é destituído de quase tudo (jamais, jamais) e o que se passa é apenas uma encenação pindérica para entreter as oposições: quando chegar ao fim dos seis meses estabelecidos, o Governo agradece e diz que na Ota é que é. E esta reboleira de inutilidades temáticas ou de reflexão, sobretudo afogada em todos ao mesmo tempo, lá vai comendo tempo, tarde, com as contas dos políticos, Alcochete, Portela+1, Sócrates vaiado em Abrantes, uns pós sobre a questão da Câmara de Lisboa, tudo errado, sem planos, tudo em arranques palavrosos ou sucintos, sem análise, sem profundidade, sem estudo alternativo, as palavras em tom acre, incandescências verbais para nada, palavras de «escárnio e mal dizer».
É difícil fazer uma ideia e é escandaloso que os gestores televisivos comparticipem nesta algaraviada redutora. A liberdde de expressão já ninguém a contesta, mas, com ela, é preciso expressar em qualidade e oportunidade. Que diabo: estava-se «sobre» a reunião para o tratado da U.E., havia o desenvolvimento da situação em Gaza e na Cisjordánia, a problemática dos jornalistas de guerra, casos importante nos tribunais, interrogações entre os favores cedidos a Berardo e também o modo como nos representamos na Bienal de Veneza e no Mundo. De resto, e se soubessem trabalhar o assunto, havia os temas das festas populares, a utilidade ou inutilidade da feira do livro, as escolhas das editoras e a queda de valores a esse nível. Já não digo que se dedicassem um pouco a meditar no buraco negro que separa cada vez mais ricos de pobres mais pobres. Mas, na oportunidade certa, agora, com as eleições para a Câmara, era bem bom falar-se dos vazios das cidades, de como encarar a ordenação e fomento da actividade humana no território, a par da enorme riqueza, pelos novos planos municipais, da construção prevista, licenciando o que acabará por atingir quarenta milhões de casas para os dez milhões de portugueses, muitos deles compulsivamente proprietários de andares comprados a crédito, com suor sangue e lágrimas.
Ó meus senhores, assim não. Nem a triste deriva sobre Berardo teve nexo e conclusão. A alucinante semelhança entre a semelhança da queda de Sócrates com a de Cavaco Silva, afirmada com dedinhos espetados de certeza, deixou-me estupefacto. Porque, além das coisas não se aproximarem assim, é burrice tratar o futuro de tal modo, em perfeita incontinência do sonho. Tudo muda, e também aqui é legítimo comparar situações, mas sem desvio rasteiro da diferença dos factos, dos contextos históricos. De bocas estamos todos fartos. Se os senhores querem falar da comunicação, restringindo os temas, anunciem o projecto: aquilo assim não é nada, passará para feira de vaidades, bocas ao acaso, oportunidades enviesadas, gaguejadas, degoladas. Comunicação? Aprendam primeiro como ela se faz e aquilo que a ela importa dia a dia.
A não ser que estejam empenhados em imitar os portugueses a discutir futebol na tasca da esquina. Nesse aspecto, entre falas sobrepostas e empirismos insuportáveis, são perfeitos.

sexta-feira, junho 22, 2007

A IMENSA BONDADE DA GLOBALIZAÇÃO

foto que ganhou o grande prémio em Nova Iorque
Soy Sauce «Stan Chance»
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Cada vez mais se houvem palavras como flexibilidade, competitividade ou globalização. Os conceitos subjacentes a tais códigos parecem absorver hipnoticamente quase todos os habitantes do planeta. E é isso, de certa maneira, que a fotografia aqui publicada nos mostra: uma utópica e monstruosa disciplina da multidão compacta, cabeças rapadas, indumentária igual, talvez o braço esquerdo formulando uma nova saudação. Todos juntos, assim, parecem um fungo pronto a cobrir a pele do mundo. Mas são apenas prováveis representantes da civilização actual ensaiando a grande marcha para o Sistema Global - estranhamente como vemos em Meca ou na Praça do Vaticano. A representação a duas dimensão deste registo remete-nos depois (em baixo) para o resultado da compactação, para a abstracção tridimensional da simulação de uma esfera. Aqui, como muita gente já percebeu, cada vez é maior a osmose e a sufocação.
Curiosamente, a fotografia que me serviu para esboçar a analogia entre tempos e crenças regista o crâneo de um antepassado nosso, universalmente falando, um inca, primeiro homem abatido com uma arma de fogo no continente americano. A descoberta deste vestígio aconteceu durante uma campanha arqueológica promovida pela National Geographic. A morte deste inca terá resultado de um tiro desferido há 500 anos por uma arma espanhola durante o cerco a Lima, em 1536.
Veja este «post» em «construpintar02» numa versão idêntica mas onde se colocam algumas perguntas, a par da convocação da alegoria de «À Espera de Godot», de Beckett. Estaremos nessa situação, entre as guerras que se espalham por todo o mundo, elaborando através da chacina do ambiente e dos povos entre si, a morte do mundo?



segunda-feira, junho 18, 2007

AS CABEÇAS ROLARAM ANTES DO GRITO

Ninguem esperava a morte do mundo quando a única brincadeira era a intriga e a armadilha pensada em nome do poder. As mulheres sempre foram hábeis em tais cumplicidades. Entre venenos e cobras mortais soçobrou o Império Romano. A ex-União Soviética, bem armada e bem abafada, conteve o mundo em sentido, fazendo crer que era capaz de arrasar tudo, ela própria incluida, como os homens-bomba do Iraque e de outros lugares. Noutros tempos, primero deitava-se o veneno da política e depois degolava-se o cavalheiro. E os impérios caíam, votados aos olhares curiosos e fascinados do futuro, nós, do século XXI.

PORTUGUESES CADA VEZ MAIS SUFOCADOS

fumo de todos as fontes, poluições indizíveis, morreu o velho da lagoa
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O problema da surdez, tratado atrás, não é o único na panóplia de armas de destruição do planeta, realiade que já se esboça um pouco por toda a parte e que só agora, com duzentos anos de atraso, os políticos de classe 8 enfrentam vagamente, entre bocejos de impaciência, entre gestos lassos, semelhantes à tontice de Calígula que, no vértice dos seus devaneios, reclamva que lhe trouxessem a lua para junto de si. «Eu quero a Lua. Quero a Lua junto de mim». Hoje, numa esquizofrenia planetária (global), Busch lembra aquele Calígula que Camus imortalizou em plena ficção da verdade. Busch é a verdade da ficção: o que ele quer é acabar com o Iraque, Quioto já foi, o homem é bom demais para se deixar amedrontar por uma subida dos mares ou a globalização do terror. Para ele, a beleza das coisas é elas serem humanamente assim, rios sujos, mares com biliões de peixes em decomposição, milhões de toneladas ce co2 todos os dias atirados para a atmosfera como aqueles balões festivos (apenas milhares) que os meninos ladinos soltam para o céu do jardim . De resto, a poluição e os problemas do ambiente, embora sejam a maior questão da actualidade, o que deveria obrigar à cessação de muitos actividades e produções, é visto pela maior parte dos habitantes do planeta como uma equação híbrida a longo prazo. Para não falar do tabaco. Para deixar libertar-se toda a droga que invade as metrópoles e compromete a genética, a vida, o futuro. Para enchergar os gelos na televisão, continentes inteiros em vias de extinção ou afundamento, sem retorno nem Arva de Noé. Deus assiste a tudo isto, em estado de melancolia. O paraíso está a arder.

quarta-feira, junho 13, 2007

PORTUGUESES CADA VEZ MAIS SURDOS

anatomias banco de ouvidos e pavilhões para surdos
Procura-se amaciar as agressões contra o ambiente e os ecologistas aumentam de dia para dia diversos sectores da sua actividade. Muitos jovens tornam-s altruístas e estudam os problemas da terra, das assimetrias, da pobreza rural. Cuidam das espécies e avaliam a situação actual do planeta. Mas carecem de especialistas do som, embora registem e comparem o ruído urbano e preconizem medidas de salvaguarda da qualidade de vida nesse aspecto.
Pois os jovens portugueses enfrentam cada vez mais problemas auditivos, traumas por vezes irreversíveis, fruto de uma vida cegamente entregue à frequência das discotecas, sítios onde saltitam noite ineiras, mesmo que seja com a ajuda de drogas estimulantes. Bebem do princípio ao fim, dia após dia, sob um regime de som que chega a manter-se ns 120 dB, bem acima portanto dos aceitavelmente toleráveis 85 decibéis (dB). À frequência de divertimentos nocturnos, acrescentam-se espectáculos de massas em estádios e recintos, onde as medidas de som chegam a ultrapassar os níveis já referidos, durante três a quatro horas, o que tem provocado fortes aumentos de traumatismos por via sonora, ou seja, lesões do ouvido interno derivadas da exposição prolongada a níveis elevados de som. Muitas dessas lesões, segundo o odorrinolaringologista António Nobre Leitão, podem atingir graus de difícil ou nula recuperação.
Embora não existam estudos oficiais sobre a percentagem da população que sofre de problemas auditivos ou perda de audição em Portugal, estima-se que cerca de dez por cento (um milhão de pessoas) se encontrem afectados.
As pessoas que trabalham no mundo da música e os que frequentam regularmente, além de outros meios similares muito desgastantes, representam «um dos grupos com risco mais elevado quando se fala de perda de audição induzida pelo ruído, uma vez que a intensidade sonora em locais como as discotecas pode atingir (ou mesmo exceder) os 120 dB, ultrapassando os limites considerados de risco para a audição», afirmou Catarina Kom. Só para se ter uma ideia do barulho ao qual as pessoas se encontram expostas na discotecas basta dizer que a sonoridade de um martelo pneumático ou de uma serra eléctrica atingem os 110 dB. A descarga de um trovão, conforme os casos, anda perto dos 120 dB. E um avisão a descolar, a cerca de 40 metros, debita cerca de 130 dB. A estes exemplos correntes, devemos acrescentar a soma de situações altamenre ruidosas nos espaços urbanos, entre o tráfego automóvel, máquinas em obras, os escape de motas potentes, em aceleração, e ainda, por estranho que pareça, o som estapafúrdio nas nossas mini-salas de cinema, construções que deviam ser proibidas em muitas das suas características. Imaginem uma cena íntima, com dois personagens num diálogo murmurado, tramitida para o espaço de duas assoalhadas a cerca de 80 dB. Não são apenas os ouvidos que se ressentem: os filmes são violentamente deturpadas na interacção dos valores estéticos, do próprio sentido das obras, e só fico espantado como é que os realizadores ainda não protestaram formalmente.
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N: parte deste apontamento cita ou transcreve uma nota publicada no JR Lisboa, 5 de Junho

quinta-feira, junho 07, 2007

O CONHECIMENTO DA ARTE

pintura de Francis Bacon

As artes não servem de ornamento do mundo. São, noutro sentido, entre suportes culturais determinantes, o rosto da própria civilização.

As instituições portuguesas ligadas à educação e ao conhecimento ou difusão da arte, apesar da circulação intensiva da informação na época contemporânea, têm sido longamente adversas a reconhecer as modernas projecções do projecto artístico e os processos avançados das diferentes formações na área das disciplinas de índole estética. As principais reformas que foram assumidas em Portugal surgiram tarde e carregadas de arcaismos imponderáveis. Trinta ou quarenta ans atrasado relativamente a esta problemática, o nosso país não foi sequer capaz de corporizar a reforma de 1957, a qual nunca chegou a passar do papel e da contratação de um novo corpo docente. Depois dos 25 de Abril, e apesar de um esforço associativo, técnico-científico, as reformas das ex-Escolas Superiores de Belas Artes só foram conseguidas e sancionadas duas décadas depois, integrando-se enfim nas Universidades, como Faculdades de Belas-Artes. Quando se discutiu, na velha Assembleia Nacional, a Lei de Baes do Ensino Superior Artístico, as ideias então expressas pecavam pelos mesmos erros quanto aos conceitos em torno da arte e do papel do artista. Apenas um deputado, Dr. Albuquerque, defendeu outra perspectiva. Foi ele quem disse, na sua intervenção, algo de diferente, considerando, a certa altura do discurso, que «mais digna ainda de aplauso do que a visão global do ensino artístico é, pelo que revela de intenção inovadora, a elevação do ensino de belas artes à categoria de ensino superior. Na verdade, não faz sentido que se considere uma coisa subalterna a preparação de homens que precisam de um alto nível para cumprirem com nobreza a sua missão de intérpretes da natureza da alma humana, plasmadores e configuradores de ideias descobridores de ritmos e criadores de simbolos.» Estas palavras foram pronunciadas há cerca de cinquenta anos. E, contudo, há ainda quem as remeta para o caixote da mera retórica em nome de uma prática sem projecto e de uma deriva por meros talentos mediáticos, mitos na nusca da pincelada genética, eles sim, elefantes brancos derrubando uma loja inteira de bela porcelana -- palavras recentes de jovens candiatos a artistas que rejeitam a formação teórica neste campo, depois do que já aconteceu por esse mundo fora. O projecto mais consequente sobre o desenvolvimento do ensino superior artístico no nosso país situa-se na reforma de 1975/76, no seu reconhecimento e acesso das Escolas a completas condições de Faculdades de Belas Artes (Universidade de Lisboa e Universidade do Porto), e na renúncia da persistência das oficinas do instinto ou da intuição, retorno a uma espécie de Renascença, do tempo dos meninos aprendizes e da mercantilização do talento expressivo perante a encomenda e a protecção da aristocracia da época. O que se pretendeu, nos anos 70, foi a consolidação de uma nova base para a formação artística superior, não apenas quanto ao desenvolvimento dos talentos oficinais dos formandos, antes de maneira a aprofundar as razões de de ser do seu futuro trabalho e com uma abertura apetrechada para a expansão cultural. Ou seja: com os instrumentos que cobrissem uma interacção teórico-prática actualizada, capaz de os situar, enfim , num quadro intelectual robusto em termos cienmtíficos, filosóficos, pluralmente decisivos, como intérpretes do superior estatuto que define a própria arte. Assim o dizemos de novo, contra a escassez brutal, e com José Augusto França: uma civilização sem arte não o é.» Ao contrário do que muitos ainda pensam, não são os elefantes brancos da teoria que empurram o artista para a exclusão. O saber teórico, aliado ao campo instrumental da praxis, é que desvenda sucessivos espaços de criação fundamentada, inovadora, servindo, virtual ou presencialmente, a grande arquitectura da função e do ser, a rede que multiplica o sentido universal de todas as disciplinas cujo elenco propicia mais largas e novas conexões próprias da razão no complexo sentido dos alinhamentos ontológicos.

O artista de hoje é um operador generalista ou especializado no seu mister, ombro a ombro com outros de áreas afins, e não um mero produtor de artefactos secundários. O que ele produz, com arquitectos, designers, engenheiros, além de outros, são indubitavelmente, num grande espaço de abrangências, objectos de civilização. Eu próprio, quando me graduei na área de pintura, também procurei colocar-me numa espécie de vanguarda, numa linha estratégica informada, correndo os riscos habituais ao redimensionar o status das artes visuais: isso implicava abordar a arte e o modo de a ver; daí ter reenquadrado algumas das hipóteses que o estado da ciência já permitia praticar nuns casos e anunciar noutros. Ao defender a tese «mobilidade visual, aparência e representação», inventei um caminho talvez aventureiro sobre o ver e o fazer, fazer depois de ver -- e ver sobretudo segundo uma nova dinâmica do estar. Chegava ao ponto de cinematizar o acto visual, dinamizando os pontos de observação, usando próteses de registo e tratamento do visível, anunciando novos instrumentos e processos de transformação do real, sobretudo através da ciência e de uma espécie de cartografia poética que me permitisse aceder com novas vantagens a outros planos da paisagem, fosse ela qual fosse. Aí estavam envolvidas metodologias que tornavam surpreendente o que parecia invisível ou não ter existência. Esta investigação levou alguns de nós a perceber melhor donde vinha a invulgar capacidade de descoberta, aquela que nos é própria, ver o oculto, fazer em simultaneidade o que é sucessivo -- como perceber a realidade, por instantes que fosse, em plano paralítico, mesmo sabendo que ela sempre se move quando julgamos o contrário, ocultando e desocultando caminhos para um aproximado hiperteto do visível. É importante afirmar que as recentes formulações artísticas, previsivelmente ligadas à cibernética, não são rios sem afluentes e nunca propõem nem um modo fixo de representar o real, nem uma tirania da moda. Por isso a formação dos artistas tem de ser de excelência e o seu trabalho, sustentado por novas tecnologias, garantir uma luta profunda contra o esquecimento do mundo. Se não há civilização sem arte não há mundo sem memória.

_________________________________________________________ texto de rocha de sousa. fragmento da sua intervenão nas provas de doutoramento dp prof. pintor Hugo Ferrão


pintura de Arshile Gorky

pintura de David Hockney

terça-feira, junho 05, 2007

UMA ALUCINANTE ATERRAGEM NA OTA


O incidente que se narra a seguir é semelhante a muitos que acontecem nos últimos anos na Lusitânia e no Allgarve. Por qualquer pequeno detalhe das grandes decisões, os políticos e os empreendedores vão para o Campo Pequeno ou para a Assembleia da República e desenrolam as suas fitas de argumentos. São todos muito habilidosos, a inventar túneis, a berrar porque querem o Alta Velocidade, comendo pouco a pouco o que resta de hortaliças para atravessar o pequeno país de autoestradas. Todo o planeamento do território baseia-se nas autoestradas, no abandono das vias férreas e na acumulação de montanhas de cimento mesmo junto ao mar. Há dias, num programa de televisão, um ministro explicou que o grande centro de desenvolvimento é Lisboa, numa circularidade em torno da chamada frente marítima a qual se estende até perto de Aveiro e Sines. Porque não vale a pena polvilhar de casinhas o interior, de alto a baixo, para os lados de Espanha, porque Espanha já fez isso, com as respectivas acessibilidades, e em breve terá cidades por lá, o que sugaria o interior português dos pequeninos.
LISBOA FARAÓNICA
Ontem, quando cheguei a Lisboa, fiquei encantado com o aeroporto. Espaços modernos, renovação atempada de muitas estruturas, lugares bem instrumentalizados e um ambiente de razoável consistência familiar, tudo a condizer com as dinâmicas e as sinalizações. A minha mala saíu na passadeira em cerca de meia hora, o que é muito bom para a Lusitânia que nos amolava os miolos e dilatava os calos. Lembram-se? Era nos correios, na Caixa Geral dos Depósitos, nos Bancos em geral, nas caixas dos super-mercados, nas entradas em Lisboa (antes do túnel), no caminho para as praias, nos percursos interiores da cidade, ou em certos restaurantes tipo churrascaria. Para não falar nos antigos notários, excelentes funcionários públicos, também na Câmara Municipal, sobretudo com licenças e papéis vulgares, daqueles que dizem quando a gente comprou o primeiro tijolo e coisas assim. Bom, vendo bem, meia hora por uma mala que viajara no porão de um jacto civilizado, com cinquenta pessoas a bordo, não se pode dizer que seja um avanço muito significativo. Ao chegar à rua, já a noite tombara sobre a portentosa gare, pressentindo-se as luzes da nova cidade envolvente. Um taxista perguntou-me se eu precisava dos serviços dele. Um pouco enjoado de ter que completar vários contactos áquele hora, voltei-me para o taxista, que já andava ajoujado em volta da minha mala, e perguntei-lhe se na cidade portuária não haveria alojamentos disponíveis. E ele, sorridente: «Não, não é preciso ir tão longe, isso da zona portuária é demasiado longe e não está bem equipada de hotéis.» Insisti: «Mas eu não estava a falar do rio, pensava hospedar-me aqui perto». O homem largou logo a mala e cantarolou o que achava: «Ah, isso é outra coisa, uma corrida de nada e tem a sua malinha num bom hotel, aliás numa área onde poderá escolher o equipamento que achar mais próprio». Consolei-me pelo bom entendimento e pedi-lhe que me ajudasse a carregar a mala.«O senhor pode levar a mala denro do carro, a seu lado, e não terá que pagar taxa de bagagem. Na bagageira já é outra coisa.» A minha pele irritou-se um pouco. «Bom, que diabo, ponha lá a mala aí ao lado, no banco.» Entrei pela outra porta e ordenei ao lusitano: «Pronto, vamos lá então para Lisboa» O outro voltou-se para trás: «Em Lisboa já nós estamos, a bem dizer. Tem alguma zona ou rua em particular para onde queira dirigir-se?». Senti um calafrio. Sacudi os ombros: «Não, ou melhor, sim, quero ir para essa zona onde diz que há vários hotéis à escolha». O tipo não teve mais dúvidas e arrancou, começando a rodar por uma longa avenida, mais residencial do que de serviços, aliás quase vazia embora razoavelmente atapetada de carros. Pensei para com os meus botões: «Que raio, levaram quase meio século a fazer o aeroporto, mas agora as envolventes são maiores do que o próprio.» A certa altura pressenti um cheiro a sardinhas ou coisa parecida, lembrei-me dos bairros populares, e olhei para as grandes estrutras, à direita, talvez de escritórios, com portas de ferro e alguns cromados, pátios contudo vazios de seguranças e porteiros. «Estamos ainda muito longe?» - perguntei para a frente. «Não senhor, estamos quase; acabei de entrar na aveida da República». Fiquei atónito: «Mas já estamos na avenida da República, em tão pouco tempo?» E ele, num riso breve, a mascar um palito: «É para que veja. Então fizemos o 25 de Abril e ficávamos de mãos a abanar? Cá vamos nós, ao lado das avenidas Novas: há velhos por aí que voltaram do Brasil e encheram-lhes os bolsos outra vez». Olhei de esguelha, apertado entre a mala e o lado da porta: lá estavam os bolos de noiva, os que restavam, mais Bancos, mais super-mercados, e em frente, apertada por dois colossais e estalinistas prédios novos, uma estátua de bronze, num miniatural plinto de calcáreo. Perguntei, ansioso: «E então e o Saldanha, a praça do Saldanha?» O lusitano gargalhou: «O senhor já deve estar almareado: então não vê que estamos a atravessar a praça do Saldanha? Olhe como ele aponta.» Dilacerado, cerrei os dentes e clamei para dentro da minha cabeça: «O que ele está é a mandar destruir toda esta trampa altíssima, feíssima, na esperança de reganhar a sua querida praça. Fechei os olhos, encostei-me no banco, uma nuvem de confusão invadia-me a consciència, enquanto a memória, emigrada durante largos anos, se despojara no cansaço da chegada. Lisboa parecia uma coisa texana, destituída de nexo, armadilhada por milhares de cartzes néon no pior estilo de Las Vegas. Uma pequena volta mais «aquele é o túnel do Santana» e estávamos à porta de um hotel de muitas estrelas, o «Altis». «Aqui estamos. Este é um dos melhores hotéis, no centro de Lisboa. Quer ficar aqui ou procurar um pouco mais?» Abalado como nunca, respondi-lhe que um pouco mais não era nada e que podiamos sair. O homenzinho fez tombar a mala para o chão, de esquina, mas já se aproximara de nós um empregado do hotel. «Então quanto lhe devo?» Ele afagou o nariz, olhou para dentro e respomdeu: «Oito euros». Fitei o pequeno lusitano com os olhos em brasa: «Então o senhor vem da Ota até aqui e só me leva oito euros? Devem ser oitenta, pelos vistos». O taxista deixou cair o beiço e ficou arrasado, de olhos arregalados, incapaz de falar. O empregado do Hotel colocou a mão direita no meu braço esquerdo e falou com brandura: «Tem estado fora do país?» Puxei o braço:«Sim, claro que sim». O tipo voltou a pousar a mão no meu braço e disse pausadamente: «O senhor taxista tem razão. Ele veio do aeroporto da Portela. O caso da Ota ainda está por resolver. Estuda-se uma das últimas hipóteses que é criar uma grande ilha artificial no Tejo e aí implantar o novo aeroporto. Já não fica só a norte e servirá os dois lados, respeitando os aquíferos e os postulados ecológicos, com a vantagem de estar tão perto de nós como o da Portrela. Atónito, perguntei em verdadeiro estado pré-comático: «E o aeroporto da Portela?». Ele sorriu. «Não há dinheiro para o explorar ao mesmo tempo do futuro equipamento. Vai a baixo, com certeza. Diuscutem agora o aproveitamento desses terrenos. Pensa-se que talvez umas casinhas, uns bairrozitos, mas com zonas verdes e a Feira Popular.» Senti que perdia os sentidos e só acordei de manhã, sedado, num quarto enorme e mal arrumado, dentro do qual se ouvia, de quando em quando, os aviões em aproximação de aterragem.