sexta-feira, junho 13, 2008

A 120 ANOS DO NASCIMENTO DE FERNANDO PESSOA

Esta semana começam as celebrações dos 120 anos do nascimento de
Fernando Pessoa

Porque esqueci quem fui quando criança?
Porque deslembra quem então eu era?
Porque não há nenhuma semelhança
Entre quem sou e fui?
A criança que fui vive ou morreu?
Sou outro? Veio um outro em mim viver?
A vida, que em mim flui, em que é que flui?
Houve em mim várias almas sucessivas
Ou sou um só inconsciente ser?
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poema inédito / obras completas de Fernando Pessoa, Ática

quarta-feira, junho 11, 2008

CONSIDERAÇÕES SOBRE UM CIGARRO E A RAÇA

A política em Portugal, arrastada pelos partidos constituídos, já não parece corresponder ao papel de zelar pela boa governação, projectos em curso, relações institucionais e do país no contexto das nações. Num ar menor de folhetim, afectados de forma inquietante e patética, por vezes ridícula, os políticos são minimizados pela comunicação social e pelas mal informadas rábulas do povo que circula nas calçadas, entre passos para nada e posios nos cafés. O desvio de vários projectos, derivados do labor diário, é demagogicamente sustentado e engordado por jornais de pena fácil e muito desejo de vender, colocando (como o outro com o socialismo na gaveta) a deontologia na algibeira ou no cestos dos papéis. Lembro a famosa história do cigarro fumado por Sócrates, primeiro ministro, num avião que fretara para viagem oficial à Venezuela. Há quem diga que ele podia ter esperado que a aeronave aterrasasse, pois naquela República, apesar de muitas outras restrições, ainda se pode fumar em liberdade. Ora este cigarro, fumado a bordo por Sócrates, representando uma transgressão da lei que o próprio assinara, é novo pecado certamente, o Vaticano o dirá, tornou-se o assunto dos dias seguintes, ocultando quase por completo o sentido da visita oficial, tratados ou protoclos assinados, se tal projecto era defensável ou não e em que pontos.

O último incidente deste tipo, creio que no dia 10 de Junho, é sem dúvida mais perturbante, talvez mesmo de base neurótica ou na linha demagógica que leva muitos portugueses a comer pipocas no cinema, aliviando-se da leitura das legendas, por analfabetismo situacional ou puro rompimento da memória dos chamados bons costumes.
Aconteceu que o Presidente da República, assediado bem de perto pelos jornalistas, balbuciou que o dia não se destinava a declarações políticas; o dia era reservado à evocação da raça, aos nossos grandes homens da gesta dos descobrimentos, Camões e comunidades portuguesas espalhadas por todo o mundo.
Jornalistas e populares amargurados não pensaram em mais nada; alguém soprara: «Ouviram o que ele disse? Falou na raça. Um Presidente não pode ignorar as conotações execráveis que aquela palavra implica, desde a xenofobia, muitas discriminações, arianismo de outrora.» E não se tem falado noutra coisa. Os camionistas vão engolir a indignação pela famosa palavra, mas, en- quanto ela sobrou para a política e falta de outros avisos, viram-se coisas de um humor inexcedível: na televisão, por exemplo, um comentador da direita esgrimia argumentos com um representante do Bloco de Esquerda. Este senhor, embora com cascatas de palavras inovadoras, parecia um padre cheio de pudor e alguma indignação perante algum palavrão de certo menino ladino pousado na cauda da missa. Estive há pouco a ler o discurso do Presidente, que o Dário de Notícias publicou na íntegra e sob o título «O QUE CAVACO DISSE E DO QUE ESTAVA REALMENTE A FALAR». Entre outras coisas, e sem recurso à palavra raça, ele evoca a história do país, as quedas superadas, enviando alguns recados ao Governo e apelando para um recomeço de exigência e rigor, reapropriação do «imenso património que herdámos e de que progresso justificadamente nos orgulhamos», transformando-o num verdadeiro instrumento ao serviço da prosperidade do nosso povo».
Então e a raça? Era o Estado Novo que usava essa palavra para significar outra coisa, memória indirecta do fascismo e do nazismo? E depois? Teremos que ser reféns para sempre dessa ignomínia? Inventamos sinónimos, sucedâneos precários e pequenos? Os intelectuais que se magoaram com o perigoso «lapso» do Presidente deviam ter cultura para separar a recuperação de palavras recontextualizadas e não para, sem verdadeira alternativa, rasgarem o verdadeiro sentido dos factos. Este fenómeno, de escuras idiossincrasias, alastra cada vez mais entre nós, enquanto os seus promotores vão elegendo enviesados léxicos e muita discriminação contra os analfabetos do nosso quotidiano. É por estas e por outras que os pedagogos insistem com a Ministra da Educação para tornar obrigatória, aí pelos sete anos, a memoriação bem consolidada da tabuada. Parece que é importante para o cérebro. E para ordenar, cronologicamente, os factos históricos e o sentido das próprias palavras.

sábado, junho 07, 2008

MAIS POBRES ACRESCENTADOS À ESQUERDA


Eu sou do tempo em que os pobres liam às escondidas «Quando os Lobos Uivam». Os operários corticeiros, mal pagos e penosamente infiltrados por companheiros comunistas, quase todos na clandestinidade, liam mais do que se lia na altura, porventura mais (até) do que hoje. No maior centro da indústria corticeira do mundo, com bairros precários e casas vindas directamente do tempo da ocupação árabe, o Maio festejava-se através de viagens fluviais, operários e camponeses bem munidos de farnéis partilháveis, idas e vindas em longas barcaças a motor, transportando entre cinquenta a sessenta pessoas, a deslizar sobre águas lisas, pouco tempo depois aportando a alguns dos muitos ancoradores das margens frondosas, lugares privados mas que os donos franqueavam aos visitantes, toda a gente estendida com mantas ou tolhas, afeita a essa vida sem televisão, pouca rádio, nem carros, nem combóios perto, a rua usada pelos meninos ladinos, jogando jogos simulados de toscas memórias do velho cinema instalado num teatro velho.
Quando a indústria da transformação da cortiça foi destruída pela livre exportação das grandes pranchas de cortiça, levadas da árvore para os cargueiros apontados à América, logo as fábricas começaram a fenecer, a falir honestamente, ou a incendiar-se não se sabe como, cortiça é pólvora, arde e faz arder instalações inteiras, no horror sempre nocturno das famílias cujo destino, assim, em duas horas, estava traçado no desemprego e nas dolorosas migrações para o Norte, operários altamente qualificados reduzidos à precariedade crescente, que haviam feito a sua aprendizagem na Escola Comercial e Industrial, que liam Aquilino, Gorki, Redol. O meu próprio pai, cujo negócio da cortiça era estreito e manual, ficou a viver da compra e venda, dos restos, de um jovem corticeiro que o via como avô, leal até ao fim.
Foi nesse tempo, apesar de muito novo, que eu senti aquela escassez de que tanto já ouvira falar.
Foi então que eu convivi, mais de perto, na rua e na Escola Pública, com moços exilados, à espera de que os pais os mandassem chamar, pobres, pedintes, por vezes prematuramente bebedores de vinho tinto, aos copos de três. Com o decorrer dos anos, já em Lisboa, estudando em Belas- Artes por complacência de uns tios, fui conhecendo sempre pobres, do Barreiro ao Seixal, nas docas, nos chamados bairros populares, entre sardinhas, couves e batatas, vinho sempre, velhos sem assistência, jovens sem material para as aulas, risos aqui e além, em todo o caso, situação nem sequer rara e que os vendedores de rua (pobres) classificavam de «pobretes e alegretes».

Estive em Angola, na guerra colonial, numa companhia quase toda constituída por alentejanos, sábios da planície e da pobreza, audazes, metidos em operações militares cujo fim desconheciam e nas quais procuravam, antes do mais, salvar a pele. Daí em diante, nunca mais deixei de conhecer pobres, manchas de pobreza, vida singela porque mais barata, e um velho ditador que tomava medidas drásticas, na altura profundamente retardantes da evolução do país, e que hoje, na mera ironia de sentido analógico, por outras razões, bem entendido, parecem emergir, urgentes e modernas, do campo raso, abandonado, dos barcos roubados à pesca, das profundas tradições ou géneros de produção que a indústria, outrora minimizada pelas repartições do Estado Novo, depressa queimou, fugindo entretanto para as terras frias da mão de obra barata.
Um povo assim, que teve de emigrar para sobreviver, ou para se parecer um pouco com os ricos surgidos em tudo o que era documento, não teve outro remédio senão aceitar durante catorze anos uma guerra mal concluída, da qual surgiu um mal gerido golpe revolucionário, que trocou bens, saneou gente errada, perdeu património um pouco por toda a parte, desbaratou o dinheiro numa falsa redistribuição das riquezas, sem descobrir, feitas as contas, o verdadeiro modo de oferecer aos homens um destino mais digno e objectivos sem o peso da ganância, algo capaz de conter a fúria do capital a inchar, entre a desordem das grandes cidades e a imensa pobreza que não tem cessado de crescxer à nossa volta e no mundo.
Por tudo isto, e pelo comportamento clubista dos partidos políticos, males «menores» da democracia, foi para mim surpreendente a redescoberta do tema dos pobres nesta nação de ferraris, juncada de milhares de marinas onde acostam mais outros tantos milhares de veleiros, barcos de recreio, uma enorme riqueza que, se fosse confiscada pela revolução outra vez, nos daria um lugar economicamente honroso na Europa. Mas sem marinas e conservando alguns campos de golfe. O futebol, que é cada vez mais caro e nos tem acompanhado até à neurose, poderia encurtar, em vez de crescer, o que viria favorecer, com entidades sérias e coordena-doras, melhores hipóteses de investir em nome da pacificação dos eleitos, dos homens futuros, cada vez em medida mais certa na própria ordenação do território e do enquadramento das populações, do trabalho, das verdadeiras interacções, incluindo o processo energético.

O partido socialista parece ter ficado um pouco magoado com os devaneios poéticos do seu popular Manuel Alegre. Porque foi comiciar ou conviver com as esquerdas, aqueles grupos heterógeneos que, se forem compelidos a tomar uma decisão difícil, ficam congelados numa asssembleia geral, com pontos de ordem, requerimentos e propostas, até uma qualquer madrugada de um qualquer amanhã. Passei por isso, entre pobres e remediados. Em geral, nas manifestações de duzentas mil pessoas, a alfabetização política e social não passa de 0,5%, o que se avalia ouvindo, durante a passagem do cortejo, o que dizem os indivíduos: não sabem nada de nada, só sabem que querem ser menos pobres, poder fazer férias fora do país, e gritar com toda a fé que o Sócratas é um mentiroso. Sem mais nem projecto alternativo. Terão sido estes temas que as esquerdas ligadas às esquerdas, minadas por alguns direitistas da televisão, foram tratar no Trindade? Era bonito fazer essa pedagogia. Era bom falar sem clubismos, facciosismos ou fundamentalismos. Coisa que, segundo Manuel Alegre, em nada afectou a harmonia das reflexões produzidas. Ele próprio fez um discurso de poeta, levemente panfletário e demagógico, mas bonito, pronto para a época das searas. As pessoas espantam-se de não ter saído afinal nenhuma alternativa substancial e boa daquele encontro de inteligências das esquerdas variadas. Mas esse não era, porventura, o objectivo. E qual era o objectivo: perceber o fenómeno da pobreza? Perceber os projectos enganadores de Sócrates? Nada se decidiu, de facto, o que as pessoas queriam era estarem juntas, sentir o desejo esquerdo dos outros, fluir, encantar, perceber pelo olfato o afecto entre os suores da vida. Depois ouvi a entrevista do Manuel Alegre, pessoa que muito admiro, e percenbi que o entendo como figura a caminho da história, alguém que merece respeito, um homem que gosta de ser livre para estar onde lhe apetecer. Mas até ele precisa de merecer o lugar que lhe concederam. Apeteceu-lhe ir ali - e foi. Penso, penso, e fico com a impressão de que a humanidade (incluindo Portugal) não está boa da saúde, perdeu o sentido das causas e vergou-se à canga da globalização. Se as esquerdas integrarem os pobres, mesmo analfabetos, talvez passem do Trindade para umas barcaças Tejo acima, partilhando alegrias, tristezas, ignorâncias, palavrões. Depois façam um lanche onde ainda houver relva. E mereçam-no.

quarta-feira, junho 04, 2008

AS BELAS ARTES E SEGREDOS CONVENTUAIS

JÁ FOI LANÇADO O LIVRO
BELAS-ARTES E SEGREDOS CONVENTUAIS
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últimas linhas da obra
Quando a Ana me entregou os documentos de reserva, a comparação dos direitos da nova graduação que me era atribuída e a caderneta com a história militar salpicada de fungos, o Chiado tornou-se sombrio, dias depois praticamente inacessível. Em casa limpei o bolor da reforma, um razoável volume de papéis inúteis, e viajei pelas estantes procurando um livro raro. Via da janela pétalas no ar, borboletas caindo, e mais tarde, sem luz solar, os carros rolando devagar, entalados no triunfo do século, da sua tecnologia do seu crescimento, entre desenvolturas várias. Eu associava essa imagem felliniana ao horror de muitas premonições apocalípticas. Sentia-me ao mesmo tempo liberto, atravessado por brisas refrescantes, e com um leve enjoo no estomago. Saíra da Faculdade sem me preocupar com as coisas que por lá acumulara, abandonadas em velhos armários de madeira preciosa. Um dia tudo acabaria, em bolor e pó, entre as caves e o sótão.
Sentei-me por fim, fumando um cigarro, e pensei devagar: ninguém deu por nada, felizmente.
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livro também à venda na própria Faculdade de Belas Artes

domingo, junho 01, 2008

AS GRANDES TRAGÉDIAS NA TERRA, QUE FUTURO?


As grandes convulsões da Terra no fim do século XX e no início deste parecem anunciar, pela sua escala e invulgaridade, aquele mítico fim do planeta que dizem estar codificado na escrita das dizimadas civilizações da América do Sul. Todas as sumptuosidades técnicas e de crescimento que se têm verificado a Ocidente, onde o poder e os procedimentos civilistas desguarneceram a vida urbana, a sua qualidade, as obsessivas práticas de produção e consumo, começam hoje a revelar as consequências de vários tipos de esgotamento: pelo ar compurcado, pelo aquecimento da Terra, pelo efeito de multiplicação do poder de compra de países como a China e a Índia, a indiciada escassez de produtos alimentares numa compressão inenarrável de hábitos, da saúde em geral, áquem das utopias que o espírito humano gerou, alienando-as segundo objectivos errados relativamente ao espírito da pessoa, da sua intrínseca inteligência, a tudo o que poderia ser o seu espírito na criação pacífica e pacificante. Os terramotos há pouco acontecidos na China, modificando a paisagem, arrasando milhares e milhares de habitações, comunidades, culturas, com réplicas quase tão grandes como o impulso inicial, matando uma centena de milhares de habitantes, ou mais, em paralelo com as absurdas catástrofes ba Birmânia, horror indizível em mortos e desaparecidos, para que os auxílios da comunidade internacional são travados pela Junta Militar, tudo isso redesenha a noção do mundo, entre as guerras em curso e as intempéries diversas nas mais inesperadas latitudes. A imagem a que recorremos neste apontamento, aliás tão mal noticiado e analisado pelos meios de difusão social, ganha de súbito um enorme valor simbólico, a solidão e a inércia de uma criança certamente arrancada à família e à própria infância, aviso aterrador perante um habitat completamente destruído.

terça-feira, maio 20, 2008

A ÁFRICA PERTENCE AOS AFRICANOS




O próprio Franz Fanon, apesar dos seus momentos de lucidez e prudência perante a história e o futuro, denunciou a demagogia ou a falta de rigor de frases como aquela: «A África pertence aos africanos». Slogan dos mais patéticos do tempo da descolonização selvática, pois ninguém ignorava que africanos eram e são os nascidos no respectivo continente e que tal certeza em nada envolve direitos territoriais de pertença. Apesar disso, muitos africanos brancos foram cegamente tomados como colonos perversos, responsáveis pelo atraso das etnias negras, e acabaram, nos momentos iniciais da explosão revolucionária ou independentista, chacinados das formas mais bárbaras, entre encenações mórbidas através dos seus orgãos decepados. Este caminho, nos primeiros dias do confronto em Angola, caso que conheço melhor, apanhou quase de súbito os brancos de Carmona e do Negage, por exemplo, que ficaram em choque perante a chegada de carrinhas vindas do interior, em corridas alucinadas, carregadas de fazendeiros brancos destroçados à catanada, num horror sem medida. Populações ligadas a tais vítimas, por vezes familiares, contrariaram esta onda de barbárie e replicaram com os mesmos meios ou piores, abrindo os mais terríveis acontecimentos da guerra colonial, entre a razão e a total ausência dela.
Ao tempo, apesar do apertheid, todas as pessoas que aspiravam por uma vida melhor olhavam para a África do Sul como um país desenvolvido, sem retorno negativo, lugar onde os negros, a despeito de uma segregação institucional, podiam aspirar, entre humilhações, a concluir cursos superiores.
Décadas após a descolonização, o desastre dos comportamentos e a instauração de ditaduras militares passou à regra dilatada. O exemplo de Mandela, militante contra o apartheid, muitos anos preso, chegou a Presidente de África do Sul, mas o seu desempenho brilhante não chegou para uma transição cuidada entre situações de grande discriminação. Hoje é comum assassinar brancos (lojistas ou outros) praticamente por capricho, enquanto a organização do trabalho se desfaz e as etnias se guerreiam. Segundo um balanço oficial, 22 pessoas foram mortas em Jonesburgo e arredores, nos últimos dias. Houve várias centenas de feridos e muitos foram despojados dos seus poucos haveres, assistindo, impotentes, à destruição dos seus casebres. Será esta, porventura, uma forma apreciável de oferecer África, toda ela, aos africanos de cor? E como deveremos classificar a extinção de etnias por outras, a ocupação de territórios, a instauração de regimes autocráticos, que se apropriam das riquezas naturais, entre outras, e sustentam oligarquias fabulosamente ricas, bem distintas da população pobre, doente e esfomeada?
Com a emigração de outros países para a África do Sul, um novo apertheid foi estabelecido, regado com crimes em cadeia e o alastramento do desemprego. Quatro em cada dez pessoas estão sem trabalho. A miséria atinge 43% de uma população confrontada com um nível de criminalidade recorde, cerca de 50 mortos por dia.

Crimes como os ilustrados por estas duas imagens não são raridades brutais: e veja-se, olhando com atenção e o maior despojamento possível, quando alguém se aproxima (quase fora de campo) mas logo recua, um polícia ou cidadão. E ficam a ver como nós. As imagens não representam as célebres auto-imolações do fim do século XX. Estes homens foram queimados pelos seus semelhantes, em cor e direitos. Morreram sem defesa, pacientemente.

segunda-feira, maio 19, 2008

OS LIVROS SEGREGADOS PELOS LOBIES

LANÇAMENTO NA GALERIA VALBOM, DIA 31, 16 HORAS
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HÁ MAIS CÓDIGOS DO QUE JULGA
LEIA ESTE LIVRO
E CONHEÇA O MUNDO
ONDE OS ARTISTAS APRENDEM
O CÓDIGO DO SUCESSO



estas histórias derivam de viagens que
as editoras desconhecem, preferindo
receitas e nomes
de uma falsa segurança

domingo, maio 18, 2008

HIROXIMA MON AMOUR * O PESO DA MEMÓRIA

Estes documentos fotográficos são de 6 de Agosto de 1945. Guardas até agora nos dossiers secretos, entre relatórios e outras imagens de horror, dir-sei-ia que se referem às multidões dizimadas na Birmânia, ou ao genocídio no Ruanda, com centenas de milhares de mortos em pouco tempo, sem que a comunidade internacional apontasse um mero gemido. Contudo, estas fotografias brumosas pelo desgaste registam o resultado imediato, em Hiroxima, do lançamento da primeira bomba atómica. As imagens, impressionantes, são uma pequena aparência dos cento e vinte mil mortos do primeiro instante e foram encontradas, num grupo de dez fotografias, por Robert L.Capp, um militar americano que esteve em Hiroxima durante a ocupação do Japão pelos EUA, em 1945/49. O autor é um jovem japonês desconhecido que fez estes registos pouco depois do bombardeamento americano. Em Hiroxima, morreram, de imediato, 120 mil pessoas de uma população de 450 mil.
Num momento da «nova vaga» do cinema francês, Alain Resnais, reportando-se a Hiroxima, numa primeira fase quase documental, trabalhou depois, num filme inesquecível («Hiroxima mon amour») e com um texto magnífico de Margarite Duras. Poesia em prosa, voz murmurada sobre os corpos a quem cabe continuar a mensagem do amor, Resnais alcança um outro realismo, o terrível sopro de angústia sobre a condição humana. Frases, sentimentos, emoções poderosas, tão poderosas e tão humanas como quase sempre emergem das maiores tragédias que têm abalado civilizações.

sexta-feira, maio 16, 2008

EM HOMENAGEM A ROBERT RAUSCHENBERG

legenda para Rauschenberg, restos abandonados na rua

Há dias deparei-me, num jornal, com a notícia da morte do artista norte-americano Robert Rauschenberg. Facto natural, dir-se-á, Rauschenberg pertencia à classe dos autores bem sedimentados na História, ligado a obras experimentais, à pop e outras reinvenções, instalador de restos, embalagens, cartões, lixo urbano sobre o qual pintava com certa violência ou personagens, paisagens breves, a convulsão do mundo contemporâneo. Presto-lhe aqui esta singela homenagem, após ter encontrado, no dia da sua morte, quase uma réplica dos seus quadros volumétricos, objecto amarrotado e atirado para a sargeta, registado na imagem que antecede este apontamento.
obra de Rauschenberg

quinta-feira, maio 08, 2008

HÁ MAIS CÓDIGOS DO QUE SE JULGA
LEIA ESTE LIVRO
E CONHEÇA O MUNDO
ONDE OS ARTISTAS APRENDEM
O CÓDIGO DO SUCESSO

estas histórias derivam de viagens
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Livrarias: LER (C.Ourique). Sá da Costa (Chiado), Buchholz
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UM NOVO LIVRO
ENQUANTO NEM TODOS OS HOMENS CEGAREM
Este livro corajoso, jocoso e trágico, mostra ao país desatento que somos, ainda somos, memórias enviesadas e a pobreza das instituições metidas no atulhado Convento de São Francisco, fortaleza da escassez, que sobreviveu a 1755. As reformas do ensino artístico em 1932 e 1957, atrasadas pelo menos trinta anos cada uma delas, a primeira carregada de absurdos curriculares, a segunda não tanto, foram (a seu tempo) saudadas pelos mais ingénuos. Alegria breve, contudo, porque os conteúdos, mesmo há poucos anos, ainda foram castrados pelo arbítrio de uma direcção avara, destituída do estudo sobre o que se passava no mundo neste domínio.
Um personagem novo, «senhor aluno», faz, no livro, o trajecto do curso. Com êxito. Ao terminar, é mobilizado para a guerra colonial, onde permanece dois anos. Volta com as marcas habituais nestes casos e a sorte de ter um trabalho estável no liceu D. João de Castro. Pouco depois é convidado para assistente na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, onde inicia uma normal carreira académica: trata-se da segunda parte do livro, então um espaço da mesma Escola, visto, sentido e descoberto pelos olhos de um ainda jovem professor. Primeiro havia colegas. Agora há alunos. Todo o livro é um grande fresco sobre o tema, as épocas, as gerações, as crises, os segredos conventuais, sempre numa terrível resistência contra o arbítrio e as armadilhas da penúria, sob a sombra do regime e da própria direcção da Escola.
BELAS-ARTES E SEGREDOS CONVENTUAIS é um documento nunca tentado antes, em jeito de ficção. Um livro sobre a loucura suspensa, a demência honesta e a emergência imparável dos abusos do poder.
Depois de 13 anos (já depois do 25 de Abril) gastos a convencer os governos do país de que as artes, referências de civilização, deveriam aceder à Universidade, entre situações psicóticas e um desdém incompreensível da parte dos políticos, o trabalho continuou até ao exílio de alguns docentes mais dilacerados, num paradoxal triunfo dos menos empenhados.
Apesar do doutoramento e da Universidade, conquistas sinuosas, o «aluno professor», solitário na confusão dos interesses, não espera pelo título: sai discretamente e sem ninguém dar por isso.
Sousa Carneiro

domingo, maio 04, 2008

LIBERTAR A LIBERDADE, É PROIBIDO PROIBIR

MAIO DE 68 PARA LEMBRANÇA FUTURA


Lembrar o Maio de 68, quarenta anos depois, é um convite à reflexão sobre o significado anunciador dessa data, desses acontecimentos, o grito contra a opacidade, libertador, empolgado no sonho da utopia. As verdades e os enganos cumpriram o seu raro casamento, enre vozes conjugadas e lutas nas ruas de Paris, noutros lugares também. Os estudantes não defendiam apenas uma educação mais eficaz, melhor, mais autêntica. O problema podia ter essas raizes, além de outras do mesmo tipo, mas a mudança profunda de toda a sociedade, para além dos própios valores gravados pela Revolução Francesa, abarcava tudo e todos, apontava a um futuro despido, enfim, de hipocrisias e no respeito efectivo pela liberdade. Os operários deram a sua voz ao sentido essencial desse movimento, enquanto intelectuais célebres afrontavam as suas dúvidas, abriam espaço ao vencimento da esperança: a de libertar a liberdade, a de reinventar a face do mundo e do que nele de facto importa. proibindo proibir, slogan/metáfora que ficou inserido nas memórias do último rasgo romântico que abalou o século XX. Como o rosto de rapariga, a bandeira ao alto, a beleza convicta dos actos e dos olhares - símbolo em suma do Maio de 68, e aqui reproduzido, na primeira imagem deste documento, lembança breve do que ficou para uma hora semelhante.

sexta-feira, maio 02, 2008

ROSTOS HUMANOS EM VIAS DE EXTINÇÃO

PORTUGAL DE ROSTOS ANTIGOS
FOTOGRAFIAS DE LUIS LOBO HENRIQUES

Não resisto à tentação de publicar aqui duas belas fotografias de Lobo Henriques, aliás divulgadas em série nums colecção visualizada na internet. Julgo não ferir nehum direito de autor. Desta forma, garantida a identidade da obra, é possível alargar a partilha, tornar mais «itinerante» algumas destas obras. O retrato, mesmo na fotografia, é uma arte difícil: as pessoas que vivem no interior de cada «máscara» são entidades profundas, surpreendentes quando espreitam pelos olhos os nossos olhos. As vias de registo e comunicação de que dispomos, como no caso da «câmara clara», são preciosas a vários títulos, e aqui guardando bem a essência do instante. Mas o mundo, dizemos desconfiadamente uns aos outros. Pois sim: a massificação até lhe normalizou tonalidades, minutos de família, a face dos meninos e dos velhos. No caso das fotografias que transcreve para este blog, um dos desafios que se nos coloca é o seguinte: imaginar cores e tons adequados para tornar os retratos mais verosímeis. Não dá resultado: o preto e branco, com as suas meias tintas, parecem conferir mais autenticidade às imagens, por momentos como se estas mulheres velhas nunca tivessem pertencido a outro contexto além do nos espreita aqui.

quarta-feira, abril 30, 2008

AS VELAS DOS MOTORES E SUA MORTE SUJA

Na oficina do Frederico havia um caixote a abarrotar de velas para motores de explosão. Mas eram velas mortas, sujas, cuja derradeira serventia não me ocorre. Sei apenas que o Joaquim, mestre electricista, tinha sempre as mãos oleosas e por vezes com cortes que limpava e tratava numa bacia miserável, como todas as bacias destes lugares onde se desvendam entranhas, lâminas e e velhos ferros recicláveis. O Joaquim juntava velas destas, mortas e sujas, na bancada onde pousava dezenas de ferramentas metálicas. Quando elas cresciam em demasia, carro a carro, revisão a revisão, ele pegava as velas inúteis na cova das duas mãos juntas e despejava-as no caixote. O resultado plástico desse lixo sempre me fascinou.



tempo de anulação, morte e apodrecimento

quinta-feira, abril 10, 2008

ARTISTAS PORTUGUESES CONTEMPORÂNEOS | Eduardo Nery


Não é possível tratar aqui a obra de Eduardo Nery como o fiz para outros autores igualmente significativos. Em quase todos eles, e apesar de algumas derivas, o caminho tem uma certa continuidade. Ora a continuidade de Nery é de diferente natureza: é como se ele, mum amplo trabalho multidisciplinar, se tivesse cindido em heterónimos. Só que, no que se refere ao poeta Fernando Pessoa, os heterónimos têm personalidades e destinos próprios, de substancial alternativa. Em Nery pintor há o geómetra, o designer e o arquitecto, para não falar numa espécie de ardiloso especulador sobre a percepção visual. Tanto nesse domínio como nas obras plásticas integradas na arquitectura, os princípios ordenadores da forma são idênticos, têm quase a mesma raiz. Apesar da qualidade dos projectos de Nery para colorir arquitectura, dinamizar empenas e fachadas, revestir interiores, entre outras propostas, a linha geral da respectiva conduta autoral inclui sempre óbvios racords entre várias sequências e diferentes problemas. É uma prova de grande importância, que não basta ilustrar em álbuns, publicações isoladas de prestígio, mas antes ser investigada e estudada em Escolas Superiores de Arte, as nossas faculdades de Belas-Artes, ainda na urgência de convencer as Universidades Portuguesas de que o país dispõe de um espírito raro, quer do ponto vista estético, quer das disciplinas que percorre e onde cria ensinando, autor a quem presto esta singela homenagem, contra a indiferença e o esquecimento, na altura em que os estudos de arte atingiram a Universidade e se impertigam de volta de títulos em inglês, no fio estendido pela novidade aqui e além, no próprio instante que podem também fazer-se com o nosso património vivo.
Digo isto, em suma, sem qualquer rasteiro macionalismo nem vertigens xenófobas.

Eduardo Nery: além do rigor gráfico-pictórico, o imagináro fantástico da fotografia


A legenda-título deste post sintetiza um pouco que papel desempenha a fotografia na obra arquitectural, modular, e cheia de complementaridades formais ou técnicas, do pintor Eduardo Nery. A sua curiosidade e pesquisa de meios levou-o a trabalhar na fotografia de um modo verdadeiramente inovador, quer como linguagem, quer como discurso. O espaço que lhe revela a perspectiva geométrica, bem como os limites a que está sujeita a nossa percepção visual, todas essas questões, excepto alguns casos mais relevantes do experimentalismo em pintura, agudizaram o sentido operativo do artista em função de novos espaços, incluindo a ironia e algum sarcasmo, entre indagações afinal de sentido metafísico. Por isso, as representações efectuadas em obras conhecidas de tempos diferentes, fotografadas e misturadas entre si, abrem decisivos campos de problematização estética. Todas as soluções desta riquíssima produção de Nery, geminam inclusivamente a fotografia da pintura com a fotografia actual ela mesma, como se houvesse uma secreta passagem entre dimensões distintas do espaço e do tempo.

Eduardo Nery: aspectos da obra pictórica e valor experimental













Como veremos noutros capítulos a seguir, a sensível diferença entre estas pinturas e outros procedimentos artísticos, em Eduardo Nery, são sempre hipóteses formais muito bem logradas, onde o rigor da instauração tem tudo a ver com os temas sobre o espaço, as diferentes projecções que nele se fazem, arquitecturas desenhadas e demonstradas, percepções em desafio, pontos expressivos do movimento, a gravidade e a auência dela, as coisas, enfim, numa aparente demonstração dentro ou fora dos impulsos do imaginário.
A experiência do bidimensional e do tridimensional aparece tratada em efeitos ópticos de perspectiva sobre a tela, mas em que o verdadeiro relevo da moldura ironiza a simulação do trompe l'oeil.











Eduardo Nery: aspectos da sua obra em azulejo


Em todos estes pequenos capítulos, a imensa produção de Nery em muitos deles, com formas inusitadas e de importante perfil estético, é só aflorada, não garante senão uma breve aproximação à sua obra multidisciplinar, sempre coerente com uma rigorosa noção de espaço, estruturação pela geometria, em singulares armadilhas ao processo perceptivo e sobretudo perante o módulo de repetição variável, bem como no`âmbito do uso do azulejo nesse sentido, em especial através de uma requintada exploração da sua teoria modular.





Eduardo Nery: obras de tapeçaria no seu melhor entendimento, incluindo a solução op


Neste post sobre a obra de Nery, podemos observar algumas das suas tapeçarias, arte que dominou com superior entendimento técnico, respeito pela identidade do processo e grande valor plástico, em sucessivos e belíssimos espectáculos ornamentais




Eduardo Nery: aspectos de obras de vitral integrado no espaço proposto

Neste último post sobre a obra de Eduardo Nery, podemos observar aspectos de vitrais, pensados em coerência com a restante obra e a integração no espaço proposto.

segunda-feira, março 31, 2008

TECTOS PROVISÓRIOS E LIXO DE ZINCO


É nestes subúrbios cada vez maiores, um pouco por todo o mundo, que os pobres e os grupos de assaltantes formigam interminavelmente, na ilusão enlameada de um futuro dourado, cada vez menos possível e cada vez mais sonhado. As favelas do Rio copiaram-se a si mesmas pelo país inteiro, derramando dejectos pela encosta rasgada, contra as subidas sinuosas entre barracas de madeira e lona, alcandoradas nos socalcos aguçados pelo homem, caixas de cartão e zinco e panos e pneus a configurar a via sacra de mil infâncias degradadas, violência depois, lá e deste lado, pelo Oriente Médio, as religiões urbanas e todas as outras dilacerando, em contradição com os próprios profetas, a vida das comunidades, muçulmanos, cristãos e cruzadas outrora, a Inquisição matando em nome de nada, enquanto hoje papas e cardeiais querem poupar o mínimo feto já marcado pelo delírio da Natureza. Agora dizem que vão alindar as favelas já de tijolo e à semelhança de casas, tudo para colorir a miséria e arrancar os territórios aos compradores e vendedores de droga. Deus não é grande e as religiões envenenam tudo, diz, de fala aberta, Christopher Hitchens.