terça-feira, julho 01, 2008

A DIFÍCIL ARTE DE SER COMENTADOR


Não me sinto especialmente ligado aos chamados comentadores políticos (e afins) da televisão. E o que me faz publicar a fotografia do ministro Jaime Silva, omitindo a do prof. Marcelo Rebelo de Sousa, é o facto daquele membro do governo ter sido colocado bem perto da guilhotina. Escapou até agora, ao que parece, porque não há, entre nós, nem guilhotinas nem pena de morte.
Sou um observador vulgar dos acontecimentos políticos, não percebo porque é que os governos são todos tão maus, nem entendo muitos critérios jornalísticos, a completa anarquia da maior parte dos debates televisivos. Sou político porque sou cidadão. E hoje, aliás, o que me convoca para este espaço é mais uma questão relativa à deontologia dos redactores de jornais e a componente ética dos comentadores que nos visitam sem qualquer respeito por nós.
Num pequeno texto de Leonete Botelho, editado no «Público» de há dias, é dada a notícia de que Jaime Silva tem sido criticado em surdina por deputados do PS. O problema parece prender-se, depois de outros desaires, com algumas declarações do ministro da Agricultura e Pescas sobre «as supostas orientações políticas da CAP e da CNA», o que lhe teria trazido dissabores, comentários mordazes, a sua colocação na lista dos remodeláveis.
Esta pequena nota de entrada contextualizante ao que se segue, serve sobretudo para se sentir o modo de avaliações que se processa entre nós, entre pontas contundentes e sem qualquer análise de fundo ao que cada interveniente diz ou aponta programaticamente, tanto mais que essas questões, segundo me parece, deveriam ser explicitadas diante do público e discutidas de forma pedagógica. Fora isso, declaro que não venho avaliar nem julgar o ministro mal-amado, a sua perigosidade para o desastre nacional, a qualidade do seu jeito para o cargo que ocupa. Venho, isso sim, como cidadão e consumidor de informação audio-visual, fazer uma chamada de atenção para as declaracões cada vez mais incómodas da rubrica de Marcelo Rebelo de Sousa na televisão. Lembro-me de o apreciar desde longa data, apesar de algumas ginásticas menos correctas politicamente, mas, da última vez, tenho de considerar que a sua intervenção, em especial no que se referia àquele ministro, ultrapassou qualquer domínio de decência, de análise justificada, tudo atirado gesticuladamente para o ar com uma total falta de cortesia relativamente a quem o ouvia. Fiquei sabendo que «o ministro é a pessoa mais inculta do mundo», que nem vale a pena saber o que diz, porque é «completamente incompetente», além de poder levar com mais adjectivos decapitantes, como de resto aconteceu.
E eu, pergunto: a imprensa não escalpeliza esta competência do comentador político? Isto não é mais importante do que um cigarro fumado a bordo de um avião oficial a caminho da Venezuela? O que é preciso Marcelo Rebelo de Sousa dizer mais, aos sacões, cada vez com menos ordem e pior inteligibilidade, para que se faça a análise pública desse fenómeno, dado o lugar conferido ao professor, o programa especialmente tratado que lhe concedem, o que ele diz e como diz? Isto é tolerável, na sua completa falta de ética, ou há processos e pessoas que se guardam na gaveta das impunidades? Não teria sido possível, a um mestre do direito, prolixo aliás, desenvolver comentários bem medidos, bem explicados e sem aquela abusiva falta de respeito? O que é que está a acontecer na parcialidade partidária do professor, respeitável em si mas desaconselhável num programa de televisão conduzido daquela maneira? O comentário politicamente empenhado deve ter um lugar próprio e não se ocultar no nome. Há felizmente dois ou três exemplos do que resta no tornado português.
E, por mais estranho que pareça, calhou ter a oportunidade de ouvir o tal ministro a responder aos jornalistas sobre o incidente daquelas declarações. Para além de relativizir o programa como de entretenimento, sintetizou o problema e a sua posição com meia dúzia de frases claras, adequadas e respeitadoras.

quarta-feira, junho 25, 2008

APELO POR RUÍNAS E FLORES SELVAGENS


Em criança, quando começaram a demolir duas casas perto da minha, eu sentia um secreto desejo de pedir à vizinha da frente, muito amiga da minha família, que me deixasse ir ver as obras em curso. Sempre sorrindo, ela levava-me até à janela (com as obras na frente) e eu ficava com o nariz colado ao parapeito. Logo no primeiro dia, a vizinha deu por isso e foi buscar uma pequena cadeira de tabúa, encostando o espaldar à parede. Fez-me subir, disse para eu ter cuidado a fim de não cair e foi à vida, na cozinha ali perto. E eu ficava fascinado, olhando os operários em cima das paredes e escadas, com picaretas, desmantelando tudo pedra a pedra. Nas paredes que ainda restavam, havia nódoas da presença de quadros entretanto retirados, além de pregos e bases para lâmpadas eléctricas. Com o tempo foram restando as portas interiores como molduras vazias e o entulho aumentava ao ritmo do trabalho daqueles trabalhadores equilibristas. Como já escrevi uma vez, este espectáculo (não sei se motivado pelo cinema) ficou-me profundamente gravado na memória e nunca mais deixei de me sentir fascinado quando encontrava ruínas na paisagem ou em pinturas e bilhetes postais.
Mais tarde, quando isso me acontecia, perguntava a mim mesmo que razão haveria para aquele apreço, para aquele apelo, ao contrário do desencanto que sentia perante as flores, ornamento usual nas casas, retomado em fresco. Por mais estranho que pareça, e porque desenhava com prematura qualidade, este desapego pela beleza óbvia das flores, acontecia sempre e deixava-me intrigado. No tempo em que começou a ser um hábito os habitantes da pequena cidade do sul (onde nasci e vivi) fazerem grandes passeios aos pomares, pelo rio ou pelas veredas, ou também à serra, junto da primeira barragem ali construída. As casas de lavoura, pobres, abandonadas, continuavam a fixar os meus olhos. E foi nessa altura que descobri outras flores, lindas, mais verdadeiras do que todas as outras, flores nascidas ao acaso, secas mas vivas, ásperas, com pétalas que pareciam a protecção do milho, tufadas e coloridas em tons abertos num centro geométrico. Eram lindas as flores silvestres, essa vida muito bem integrada no ambiente e com um desenho ao mesmo tempo solto e rigoroso. Invariavelmente, quando percorro as veredas da serra, perto da cidade, apanho flores dessas e coloco-as em jarras como as pessoas fazem com as outras, decorativas, macias, e aparentemente artificiais. Mas as flores que eu arrumo na jarra não precisam de água. Meses mais tarde continuam na mesma, perenes. Também fiquei a gostar destas formas naturais, tanto como os destroços das velhas casas.

fotografias de Miguel Baganha

quinta-feira, junho 19, 2008

O ENIGMA E O 'CÓDIGO' DE MIGUEL ÂNGELO


Michelangelo di Ludovico Buonarroti Simoi («Miguel Ângelo») nasceu em Caprese a 6 de Maio de 1475. Foi, como sabemos, pintor, escultor, poeta e arquitecto durante o renascentismo italiano. A sua versatilidade em vários campos tornou-o rival de Leonardo, ícone do Renascimento. É certo que o seu talento e a sua actividade multidisciplinar permitem-nos usar o termo superior para o caracterizar como génio, tendo mesmo desempenhado tarefas diplomáticas. Era Il Divino. Se Miguel Ângelo nos lembra de imediato a época da Renascença, os artistas, historiadores, e outros especialistas, não podem deixar de pensar também no grande vértice desse tempo, na ciência e na arte, Leonardo da Vinci. Os segredos da sua invenção abriram espaço a uma literatura de falsas descobertas, teses oportunistas que o editorialismo voraz logo aproveitou: fala-se então do «Código de Leonardo da Vinci», uma pirueta de mercado, o que de resto aconteceu com duas figuras públicas do nosso meio televisivo, escrevendo a seguir, bem perto, livros com ar de tratados, «Codex 632» ou «Fundamento de Deus». Umberto Eco abrira caminhos para esta babilónia e outros embustes, com o seu livro «O Nome da Rosa».
variações em torno de Miguel Ângelo, onde alguns julgam ver na
linha da composição o perfil de Dante, especulação que não tardará
a fazer com quem descubra aí a abertura do código de Miguel Ângelo
*
Em boa verdade, esta cadeia de descobertas quase miraculosas e de embustes a fingir de conexões matemáticas ou metafísicas, a par de algumas que não passam de suposições de mensagens subliminares ou de meras zangas do pintor (neste caso Miguel Ângelo) com mestres do seu ofício, incluindo Leonardo. Assim se vendem milhões de livros inúteis e se criam novas mitologias, em pleno século XXI, no qual já chegaria a crença nos extra-terrestres, religião emergente que desperta seitas e agride a fé dos praticantes das religiões ditas tradicionais.
Fala-se de uma primeira teoria, surgida em 1950, quando um diplomata venezuelano visitou a Capela Sistina, no Vaticano. Assombrado com a grandeza daquele fresco que preenche a totalidade de uma das paredes do edifício, Joaquim Diaz González «descobriu» (o que, de resto, é pequena alucinação) que Miguel Ângelo, o renascentista responsável pela obra, escondera o perfil de Dante na cadeia de relações formais, figurativas, estruturais, que edificam o fresco. É até provável que Conzález quisesse elogiar a obra do pintor e a personalidade criadora de Dante,
poeta italiano que escreveu «A Divina Comédia». A escalada deste processo, como tantos outros ao longo da História da Arte, acabaria por reacender as fogueiras da especulação rendosa, datava a primeira etapa da construção do código de Miguel Ângelo. Todos estes temas, suprindo as faltas de enganos aliciantes na cultura actual, reabrindo caminhos como os da «Ilha do Tesouro», nada mais faz do que empreender, em termos de verdade, a formação de outras ilusões, de novos contos do vigário, aliás com luxuosos volumes a satirizar os álgidos relatórios das maiores Academias sobreviventes. Basta olhar para a ilustração apresentada no «Diário de Notícias» para que nos seja possível enjeitar a grosseira linha do perfil de Dante (em baixo, à esquerda), percurso que procura dar como certa a relação compositiva que suscita a união de polos fortes, dos quais se infere a subjacente figura do poeta. Isto embora não se entenda, depois, qual a razão da linha flectir para a testa quando a composição mantém, em cima, um trajeto visual de continuidade. O que, de resto, acontece em pleno nariz: na massa compositiva desse sector existe um bloco de figuras que preenche, na horizontal, até ao limite direito, cerca de um terço da largura do fresco. A menos que se transforme esta extraordinária obra de arte num labirinto de jornal, nada justifica, incluindo a geometria subjacente da composição, a viragem conveniente daquele nariz, o que de resto se vê no arbitrário perfil da boca, cortanto em ângulo uma figura cheia, bem blocada e conhecida. Essa abusiva invenção de uma lógica do percurso para um perfil aparece ainda, a terminar, com a linha do queixo e a oblíqua a apontar na direcção de uma figura reinante nos males do inferno. Uma outra, para tanto, foi cortada e transposta fora do critério seguido noutros casos. E o que faremos com as massas atrás da nuca, conjunto nivelável na horizontal, como da direita, ficando o campo divino, como convém, ao centro da caixa craneana? Mal vai o perfil: não só por estas incongruências, contrariando uma composição inventada por grandes eixos horizontais, os quais integram dois círculos - mas no que respeita à força divina, ao centro, no terço superior da peça, e em baixo, no terço inferior da imagem geral, delineando perfeitamente outro círculo como geometria estruturante da obra. Além de outros aspectos, à esquerda e à direita, nesta faixa que se estende por cima da estreita paisagem dos proscritos, visando completar a simetria do que parece caótico mas bem assenta numa grelha de sentidos copiados das medianas, havendo, em cima e em baixo, na mediana que divide em duas a superfície integral, as tais circunferências, uma maior, outra menor, tudo segundo a hierarquia dos céus, purgatórios, infernos, apesar do desnudamento das gentes e do espectáculo contorcionista conseguido, ópera laica, contra a bíblica memória em que o autor foi convidado a situar-se. Esta teoria risível, que talvez venda jornais, tem o seu ponto mais grotesco, quanto à localização e à forma, na grafia que assinala o olho esquerdo da figura evocada. E se esse olho, avesso à razão da grafia envolvente, por estradas imaginárias na composição, ali aparece - que faremos com a ausência do pavilhão auricular?
As outras fases desta deriva ensandecida pela Capela Sistina incluem outras grandes descobertas: Deus, metido naquilo que dizem ser uma caixa craneana com o cérebro supremo, vem de longe, de infinitas distâncias, e entrega a Adão, pelo toque dos respectivos dedos indicadores, a capacidade de raciocínio. Adão é de facto aquele homem lasso, repousando de costas na rampa de erva que determina o cenário natural. Esta é uma das mais heréticas visões da mensagem de Miguel Ângelo, pois a criação seria uma dádiva de sinais contrários (o dedo direito de Deus tocando o dedo esquerdo de Adão) e isso abre horizontes de pesquisa agora indizíveis.

quarta-feira, junho 18, 2008

A IRLANDA VOTOU NÃO AO TRATADO DE LISBOA


Quanto mais penso na imensa extensão de cordame embrulhado nas intempéries, assim, mesmo à beira Tejo, em Lisboa, cidade cujo nome foi atribuído com júbilo ao tratado europeu, não posso deixar de rever o complicado processo a que obriga a oficilização de tais documentos, tornando-os legíveis e funcionais, ancoragem muito difícil, porque todos os países membros da União Europeia têm de ratificar por unanimidade a peça, quer através de referendos, quer no quadro dos respectivos parlamentos. É inacreditável imaginar-se como possível e rápida a ratificação de uma peça destas, sobretudo tendo em conta que há países que estão obrigados a proceder à decisão (por razões constitucionais, o que acontece na Irlanda) através de referendo, enquanto outros podem optar apenas pelo parlamento. Vinte e sete países a prestarem honras ao sim, acto que tanto se defendeu na conclusão do Tratado durante a presidência portuguesa, lembra uma espécie de birra revolucionária ou utopia universalista, porque nada disso algum dia será transparente, seja qual for a globalização que amacie e torne obedientes tantas diferenças de identidade, cultura, urgência. Ao falar-se nos valores do sistema democrático faz-se porventura justiça a um antigo processo de governar as sociedades. Mas há sempre nuances, heranças muito antigas, instituições tocadas de outras sensbilidades, um modo de ser, entre latitudes, inquebrável para certos efeitos da história e da qualidade de vida, a subtil característica, a mais funda, que distingue os povos e as nações. Isso não impede que trabalhem em conjunto, em aliança, federadamente, por exemplo, mas tal escolha a não alterar a necessidade de sustentar as marcas indeléveis, problemas palpáveis a considerar compensadamente por cada excepção a um universalismo de pedra e cal.
Por muito evoluídos que sejam alguns países do norte da Europa, a verdade é que também esses não didferem muito quanto àquela casca de civilização que envolve a humanidade e que, durante as dores mais graves, rompe e nos desvia a todos do tal homem novo cujas lendas pintam sob o tecto galáctico de todas as utopias. Um Tratado como o que foi referendado na Irlanda e recusado com um rotundo não pela chamada voz do povo é o mais líquido acontecimento da nossa verdadeira natureza. Não há nenhum povo que possa assumir a responsabilidade de referendar projectos muito complexos e que só estão ao alcance de uma pequena parte dos cidadãos de qualquer comunidade, entre as mais evoluídas e as que vivem no limiar da cegueira. As questões susceptíveis de serem resolvidas dessa maneira obrigam sempre à formação prévia, esclarecedora, capaz de formar a base de lucidez e reconhecimento das questões a votar, permitindo assim um máximo de verdade nos resultados finais. Oiço as mais disparatadas vozes sobre este Tratado que já entrou em crise pelo voto negativo, não ratificador, que os irlandeses lhe atribuiram. Todos estes problemas envolvem uma vertente técnica, de especialidade, que inviabiliza a beleza do povo todo senhor do que vai fazer, como e porquê, depois de rejeitar as campanhas tóxicas pela negatividade ou a possível grandeza de uma escolha positiva, apesar de certas dúvidas ou mesmo renúncias. A Europa não se desenvolveu dessa maneira: escolheu-se em função de evitar as incomodidades dos tais apocalipses quotidianos, emoldurando alguns direitos principais, os valores humanos e de cultura, mas deixou-se envelhecer, imaginando que a sua longa história pode superar agora problemas de tão infinita complexidade. O referendo serve para questões que os povos já podem abarcar, ainda que na via de alguma incerteza, no plano da consciência decisória.
De resto, no plano de uma União Europeia, tem de se mudar de paradigma, como diz agora toda a gente, no governo, nos cafés, nas universidades, no futebol. Tem de se sacudir as migalhas dos excessos e limpar o espaço dos detritos que os ventos da história empurram em todas as direcções. Acabar com a unicidade fundamentalista, com a proliferação de normas, birras, cotas, fingimentos através do pormenor, essa idiota burocracia com a qual se julga ganhar uma força geral capaz, uma viabilidade de sucesso entre todos, um entendimento aceitável, isso sim, creio que permitiria conservar os antigos patrimónios da nossa verdade identitária. Acabe-se com esse eufemismo perverso que troca competição por competitividade. Os povos não têm de competir nem de crescer. Evoluir não é crescer. O desenvolvimento das nações pode acontecer sem obesidade e no sentido de um verdadeiro nexo entre enoção e razão. Penso muitas vezes na Noruega e só me ocorre a nitidez da desmassificação. De contrário, o homem acabará por implodir, pessoa a pessoa, como acontece num vídeo (MAX) que ilustra certa composição musical e mostra os restos de todas as monumentalidades, televisões a trabalhar continuamente, sobre pedras, muros e carrinhas de acampar. Tudo se resumia, nessa altura, a uma tecnologia de sonrevivência e alienação.

sexta-feira, junho 13, 2008

NO CENTENÁRIO DE VIEIRA DA SILVA

Começam esta semana as celebrações dos 120 anos
do nascimento de Fernando Pessoa
e do centenário da pintora Vieira da Silva



Maria Helena Vieira da Silva, portuguesa de nascimento, teve de se naturalizar francesa para poder casar com o pintor húnaro Arpad Szenes. Muito depois, as fronteiras e os regimes permitiram que a pintora fosse afinal uma personagem do mundo, Prémio da Bienal de S. Paulo e largamente difundida por toda a parte. Em Portugal também, necessariamente, onde sempre pertenceu e onde nos deixou obra, um Museu partilhado com o marido. Entre os emigrados, por volta dos anos 60, Vieira da Silva tinha um enorme prestígio. A sua pintura evoluiu em malhas geométricas, superfícies quadriculadas e distorcidas, em túneis e patamares urbanos, entre espaços abrangentes ou labirintos, convocando uma luz, porventura uma cintlação subjectiva, cuja origem muitos atribuem à memória do azulejo e à claridade matinal ou tardia de Lisboa. Este método de trabalho haveria de se estender a temas formalmente consensuais, como no exemplo aqui apresentado, o das bibliotecas, obras que relevam do construtivismo citadino e dos modos de ordenar as biblotecas. Cor, tom, estrutura, ritmo - fazem parte da sua imensa produção.

A 120 ANOS DO NASCIMENTO DE FERNANDO PESSOA

Esta semana começam as celebrações dos 120 anos do nascimento de
Fernando Pessoa

Porque esqueci quem fui quando criança?
Porque deslembra quem então eu era?
Porque não há nenhuma semelhança
Entre quem sou e fui?
A criança que fui vive ou morreu?
Sou outro? Veio um outro em mim viver?
A vida, que em mim flui, em que é que flui?
Houve em mim várias almas sucessivas
Ou sou um só inconsciente ser?
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poema inédito / obras completas de Fernando Pessoa, Ática

quarta-feira, junho 11, 2008

CONSIDERAÇÕES SOBRE UM CIGARRO E A RAÇA

A política em Portugal, arrastada pelos partidos constituídos, já não parece corresponder ao papel de zelar pela boa governação, projectos em curso, relações institucionais e do país no contexto das nações. Num ar menor de folhetim, afectados de forma inquietante e patética, por vezes ridícula, os políticos são minimizados pela comunicação social e pelas mal informadas rábulas do povo que circula nas calçadas, entre passos para nada e posios nos cafés. O desvio de vários projectos, derivados do labor diário, é demagogicamente sustentado e engordado por jornais de pena fácil e muito desejo de vender, colocando (como o outro com o socialismo na gaveta) a deontologia na algibeira ou no cestos dos papéis. Lembro a famosa história do cigarro fumado por Sócrates, primeiro ministro, num avião que fretara para viagem oficial à Venezuela. Há quem diga que ele podia ter esperado que a aeronave aterrasasse, pois naquela República, apesar de muitas outras restrições, ainda se pode fumar em liberdade. Ora este cigarro, fumado a bordo por Sócrates, representando uma transgressão da lei que o próprio assinara, é novo pecado certamente, o Vaticano o dirá, tornou-se o assunto dos dias seguintes, ocultando quase por completo o sentido da visita oficial, tratados ou protoclos assinados, se tal projecto era defensável ou não e em que pontos.

O último incidente deste tipo, creio que no dia 10 de Junho, é sem dúvida mais perturbante, talvez mesmo de base neurótica ou na linha demagógica que leva muitos portugueses a comer pipocas no cinema, aliviando-se da leitura das legendas, por analfabetismo situacional ou puro rompimento da memória dos chamados bons costumes.
Aconteceu que o Presidente da República, assediado bem de perto pelos jornalistas, balbuciou que o dia não se destinava a declarações políticas; o dia era reservado à evocação da raça, aos nossos grandes homens da gesta dos descobrimentos, Camões e comunidades portuguesas espalhadas por todo o mundo.
Jornalistas e populares amargurados não pensaram em mais nada; alguém soprara: «Ouviram o que ele disse? Falou na raça. Um Presidente não pode ignorar as conotações execráveis que aquela palavra implica, desde a xenofobia, muitas discriminações, arianismo de outrora.» E não se tem falado noutra coisa. Os camionistas vão engolir a indignação pela famosa palavra, mas, en- quanto ela sobrou para a política e falta de outros avisos, viram-se coisas de um humor inexcedível: na televisão, por exemplo, um comentador da direita esgrimia argumentos com um representante do Bloco de Esquerda. Este senhor, embora com cascatas de palavras inovadoras, parecia um padre cheio de pudor e alguma indignação perante algum palavrão de certo menino ladino pousado na cauda da missa. Estive há pouco a ler o discurso do Presidente, que o Dário de Notícias publicou na íntegra e sob o título «O QUE CAVACO DISSE E DO QUE ESTAVA REALMENTE A FALAR». Entre outras coisas, e sem recurso à palavra raça, ele evoca a história do país, as quedas superadas, enviando alguns recados ao Governo e apelando para um recomeço de exigência e rigor, reapropriação do «imenso património que herdámos e de que progresso justificadamente nos orgulhamos», transformando-o num verdadeiro instrumento ao serviço da prosperidade do nosso povo».
Então e a raça? Era o Estado Novo que usava essa palavra para significar outra coisa, memória indirecta do fascismo e do nazismo? E depois? Teremos que ser reféns para sempre dessa ignomínia? Inventamos sinónimos, sucedâneos precários e pequenos? Os intelectuais que se magoaram com o perigoso «lapso» do Presidente deviam ter cultura para separar a recuperação de palavras recontextualizadas e não para, sem verdadeira alternativa, rasgarem o verdadeiro sentido dos factos. Este fenómeno, de escuras idiossincrasias, alastra cada vez mais entre nós, enquanto os seus promotores vão elegendo enviesados léxicos e muita discriminação contra os analfabetos do nosso quotidiano. É por estas e por outras que os pedagogos insistem com a Ministra da Educação para tornar obrigatória, aí pelos sete anos, a memoriação bem consolidada da tabuada. Parece que é importante para o cérebro. E para ordenar, cronologicamente, os factos históricos e o sentido das próprias palavras.

sábado, junho 07, 2008

MAIS POBRES ACRESCENTADOS À ESQUERDA


Eu sou do tempo em que os pobres liam às escondidas «Quando os Lobos Uivam». Os operários corticeiros, mal pagos e penosamente infiltrados por companheiros comunistas, quase todos na clandestinidade, liam mais do que se lia na altura, porventura mais (até) do que hoje. No maior centro da indústria corticeira do mundo, com bairros precários e casas vindas directamente do tempo da ocupação árabe, o Maio festejava-se através de viagens fluviais, operários e camponeses bem munidos de farnéis partilháveis, idas e vindas em longas barcaças a motor, transportando entre cinquenta a sessenta pessoas, a deslizar sobre águas lisas, pouco tempo depois aportando a alguns dos muitos ancoradores das margens frondosas, lugares privados mas que os donos franqueavam aos visitantes, toda a gente estendida com mantas ou tolhas, afeita a essa vida sem televisão, pouca rádio, nem carros, nem combóios perto, a rua usada pelos meninos ladinos, jogando jogos simulados de toscas memórias do velho cinema instalado num teatro velho.
Quando a indústria da transformação da cortiça foi destruída pela livre exportação das grandes pranchas de cortiça, levadas da árvore para os cargueiros apontados à América, logo as fábricas começaram a fenecer, a falir honestamente, ou a incendiar-se não se sabe como, cortiça é pólvora, arde e faz arder instalações inteiras, no horror sempre nocturno das famílias cujo destino, assim, em duas horas, estava traçado no desemprego e nas dolorosas migrações para o Norte, operários altamente qualificados reduzidos à precariedade crescente, que haviam feito a sua aprendizagem na Escola Comercial e Industrial, que liam Aquilino, Gorki, Redol. O meu próprio pai, cujo negócio da cortiça era estreito e manual, ficou a viver da compra e venda, dos restos, de um jovem corticeiro que o via como avô, leal até ao fim.
Foi nesse tempo, apesar de muito novo, que eu senti aquela escassez de que tanto já ouvira falar.
Foi então que eu convivi, mais de perto, na rua e na Escola Pública, com moços exilados, à espera de que os pais os mandassem chamar, pobres, pedintes, por vezes prematuramente bebedores de vinho tinto, aos copos de três. Com o decorrer dos anos, já em Lisboa, estudando em Belas- Artes por complacência de uns tios, fui conhecendo sempre pobres, do Barreiro ao Seixal, nas docas, nos chamados bairros populares, entre sardinhas, couves e batatas, vinho sempre, velhos sem assistência, jovens sem material para as aulas, risos aqui e além, em todo o caso, situação nem sequer rara e que os vendedores de rua (pobres) classificavam de «pobretes e alegretes».

Estive em Angola, na guerra colonial, numa companhia quase toda constituída por alentejanos, sábios da planície e da pobreza, audazes, metidos em operações militares cujo fim desconheciam e nas quais procuravam, antes do mais, salvar a pele. Daí em diante, nunca mais deixei de conhecer pobres, manchas de pobreza, vida singela porque mais barata, e um velho ditador que tomava medidas drásticas, na altura profundamente retardantes da evolução do país, e que hoje, na mera ironia de sentido analógico, por outras razões, bem entendido, parecem emergir, urgentes e modernas, do campo raso, abandonado, dos barcos roubados à pesca, das profundas tradições ou géneros de produção que a indústria, outrora minimizada pelas repartições do Estado Novo, depressa queimou, fugindo entretanto para as terras frias da mão de obra barata.
Um povo assim, que teve de emigrar para sobreviver, ou para se parecer um pouco com os ricos surgidos em tudo o que era documento, não teve outro remédio senão aceitar durante catorze anos uma guerra mal concluída, da qual surgiu um mal gerido golpe revolucionário, que trocou bens, saneou gente errada, perdeu património um pouco por toda a parte, desbaratou o dinheiro numa falsa redistribuição das riquezas, sem descobrir, feitas as contas, o verdadeiro modo de oferecer aos homens um destino mais digno e objectivos sem o peso da ganância, algo capaz de conter a fúria do capital a inchar, entre a desordem das grandes cidades e a imensa pobreza que não tem cessado de crescxer à nossa volta e no mundo.
Por tudo isto, e pelo comportamento clubista dos partidos políticos, males «menores» da democracia, foi para mim surpreendente a redescoberta do tema dos pobres nesta nação de ferraris, juncada de milhares de marinas onde acostam mais outros tantos milhares de veleiros, barcos de recreio, uma enorme riqueza que, se fosse confiscada pela revolução outra vez, nos daria um lugar economicamente honroso na Europa. Mas sem marinas e conservando alguns campos de golfe. O futebol, que é cada vez mais caro e nos tem acompanhado até à neurose, poderia encurtar, em vez de crescer, o que viria favorecer, com entidades sérias e coordena-doras, melhores hipóteses de investir em nome da pacificação dos eleitos, dos homens futuros, cada vez em medida mais certa na própria ordenação do território e do enquadramento das populações, do trabalho, das verdadeiras interacções, incluindo o processo energético.

O partido socialista parece ter ficado um pouco magoado com os devaneios poéticos do seu popular Manuel Alegre. Porque foi comiciar ou conviver com as esquerdas, aqueles grupos heterógeneos que, se forem compelidos a tomar uma decisão difícil, ficam congelados numa asssembleia geral, com pontos de ordem, requerimentos e propostas, até uma qualquer madrugada de um qualquer amanhã. Passei por isso, entre pobres e remediados. Em geral, nas manifestações de duzentas mil pessoas, a alfabetização política e social não passa de 0,5%, o que se avalia ouvindo, durante a passagem do cortejo, o que dizem os indivíduos: não sabem nada de nada, só sabem que querem ser menos pobres, poder fazer férias fora do país, e gritar com toda a fé que o Sócratas é um mentiroso. Sem mais nem projecto alternativo. Terão sido estes temas que as esquerdas ligadas às esquerdas, minadas por alguns direitistas da televisão, foram tratar no Trindade? Era bonito fazer essa pedagogia. Era bom falar sem clubismos, facciosismos ou fundamentalismos. Coisa que, segundo Manuel Alegre, em nada afectou a harmonia das reflexões produzidas. Ele próprio fez um discurso de poeta, levemente panfletário e demagógico, mas bonito, pronto para a época das searas. As pessoas espantam-se de não ter saído afinal nenhuma alternativa substancial e boa daquele encontro de inteligências das esquerdas variadas. Mas esse não era, porventura, o objectivo. E qual era o objectivo: perceber o fenómeno da pobreza? Perceber os projectos enganadores de Sócrates? Nada se decidiu, de facto, o que as pessoas queriam era estarem juntas, sentir o desejo esquerdo dos outros, fluir, encantar, perceber pelo olfato o afecto entre os suores da vida. Depois ouvi a entrevista do Manuel Alegre, pessoa que muito admiro, e percenbi que o entendo como figura a caminho da história, alguém que merece respeito, um homem que gosta de ser livre para estar onde lhe apetecer. Mas até ele precisa de merecer o lugar que lhe concederam. Apeteceu-lhe ir ali - e foi. Penso, penso, e fico com a impressão de que a humanidade (incluindo Portugal) não está boa da saúde, perdeu o sentido das causas e vergou-se à canga da globalização. Se as esquerdas integrarem os pobres, mesmo analfabetos, talvez passem do Trindade para umas barcaças Tejo acima, partilhando alegrias, tristezas, ignorâncias, palavrões. Depois façam um lanche onde ainda houver relva. E mereçam-no.

quarta-feira, junho 04, 2008

AS BELAS ARTES E SEGREDOS CONVENTUAIS

JÁ FOI LANÇADO O LIVRO
BELAS-ARTES E SEGREDOS CONVENTUAIS
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últimas linhas da obra
Quando a Ana me entregou os documentos de reserva, a comparação dos direitos da nova graduação que me era atribuída e a caderneta com a história militar salpicada de fungos, o Chiado tornou-se sombrio, dias depois praticamente inacessível. Em casa limpei o bolor da reforma, um razoável volume de papéis inúteis, e viajei pelas estantes procurando um livro raro. Via da janela pétalas no ar, borboletas caindo, e mais tarde, sem luz solar, os carros rolando devagar, entalados no triunfo do século, da sua tecnologia do seu crescimento, entre desenvolturas várias. Eu associava essa imagem felliniana ao horror de muitas premonições apocalípticas. Sentia-me ao mesmo tempo liberto, atravessado por brisas refrescantes, e com um leve enjoo no estomago. Saíra da Faculdade sem me preocupar com as coisas que por lá acumulara, abandonadas em velhos armários de madeira preciosa. Um dia tudo acabaria, em bolor e pó, entre as caves e o sótão.
Sentei-me por fim, fumando um cigarro, e pensei devagar: ninguém deu por nada, felizmente.
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livro também à venda na própria Faculdade de Belas Artes

domingo, junho 01, 2008

AS GRANDES TRAGÉDIAS NA TERRA, QUE FUTURO?


As grandes convulsões da Terra no fim do século XX e no início deste parecem anunciar, pela sua escala e invulgaridade, aquele mítico fim do planeta que dizem estar codificado na escrita das dizimadas civilizações da América do Sul. Todas as sumptuosidades técnicas e de crescimento que se têm verificado a Ocidente, onde o poder e os procedimentos civilistas desguarneceram a vida urbana, a sua qualidade, as obsessivas práticas de produção e consumo, começam hoje a revelar as consequências de vários tipos de esgotamento: pelo ar compurcado, pelo aquecimento da Terra, pelo efeito de multiplicação do poder de compra de países como a China e a Índia, a indiciada escassez de produtos alimentares numa compressão inenarrável de hábitos, da saúde em geral, áquem das utopias que o espírito humano gerou, alienando-as segundo objectivos errados relativamente ao espírito da pessoa, da sua intrínseca inteligência, a tudo o que poderia ser o seu espírito na criação pacífica e pacificante. Os terramotos há pouco acontecidos na China, modificando a paisagem, arrasando milhares e milhares de habitações, comunidades, culturas, com réplicas quase tão grandes como o impulso inicial, matando uma centena de milhares de habitantes, ou mais, em paralelo com as absurdas catástrofes ba Birmânia, horror indizível em mortos e desaparecidos, para que os auxílios da comunidade internacional são travados pela Junta Militar, tudo isso redesenha a noção do mundo, entre as guerras em curso e as intempéries diversas nas mais inesperadas latitudes. A imagem a que recorremos neste apontamento, aliás tão mal noticiado e analisado pelos meios de difusão social, ganha de súbito um enorme valor simbólico, a solidão e a inércia de uma criança certamente arrancada à família e à própria infância, aviso aterrador perante um habitat completamente destruído.

terça-feira, maio 20, 2008

A ÁFRICA PERTENCE AOS AFRICANOS




O próprio Franz Fanon, apesar dos seus momentos de lucidez e prudência perante a história e o futuro, denunciou a demagogia ou a falta de rigor de frases como aquela: «A África pertence aos africanos». Slogan dos mais patéticos do tempo da descolonização selvática, pois ninguém ignorava que africanos eram e são os nascidos no respectivo continente e que tal certeza em nada envolve direitos territoriais de pertença. Apesar disso, muitos africanos brancos foram cegamente tomados como colonos perversos, responsáveis pelo atraso das etnias negras, e acabaram, nos momentos iniciais da explosão revolucionária ou independentista, chacinados das formas mais bárbaras, entre encenações mórbidas através dos seus orgãos decepados. Este caminho, nos primeiros dias do confronto em Angola, caso que conheço melhor, apanhou quase de súbito os brancos de Carmona e do Negage, por exemplo, que ficaram em choque perante a chegada de carrinhas vindas do interior, em corridas alucinadas, carregadas de fazendeiros brancos destroçados à catanada, num horror sem medida. Populações ligadas a tais vítimas, por vezes familiares, contrariaram esta onda de barbárie e replicaram com os mesmos meios ou piores, abrindo os mais terríveis acontecimentos da guerra colonial, entre a razão e a total ausência dela.
Ao tempo, apesar do apertheid, todas as pessoas que aspiravam por uma vida melhor olhavam para a África do Sul como um país desenvolvido, sem retorno negativo, lugar onde os negros, a despeito de uma segregação institucional, podiam aspirar, entre humilhações, a concluir cursos superiores.
Décadas após a descolonização, o desastre dos comportamentos e a instauração de ditaduras militares passou à regra dilatada. O exemplo de Mandela, militante contra o apartheid, muitos anos preso, chegou a Presidente de África do Sul, mas o seu desempenho brilhante não chegou para uma transição cuidada entre situações de grande discriminação. Hoje é comum assassinar brancos (lojistas ou outros) praticamente por capricho, enquanto a organização do trabalho se desfaz e as etnias se guerreiam. Segundo um balanço oficial, 22 pessoas foram mortas em Jonesburgo e arredores, nos últimos dias. Houve várias centenas de feridos e muitos foram despojados dos seus poucos haveres, assistindo, impotentes, à destruição dos seus casebres. Será esta, porventura, uma forma apreciável de oferecer África, toda ela, aos africanos de cor? E como deveremos classificar a extinção de etnias por outras, a ocupação de territórios, a instauração de regimes autocráticos, que se apropriam das riquezas naturais, entre outras, e sustentam oligarquias fabulosamente ricas, bem distintas da população pobre, doente e esfomeada?
Com a emigração de outros países para a África do Sul, um novo apertheid foi estabelecido, regado com crimes em cadeia e o alastramento do desemprego. Quatro em cada dez pessoas estão sem trabalho. A miséria atinge 43% de uma população confrontada com um nível de criminalidade recorde, cerca de 50 mortos por dia.

Crimes como os ilustrados por estas duas imagens não são raridades brutais: e veja-se, olhando com atenção e o maior despojamento possível, quando alguém se aproxima (quase fora de campo) mas logo recua, um polícia ou cidadão. E ficam a ver como nós. As imagens não representam as célebres auto-imolações do fim do século XX. Estes homens foram queimados pelos seus semelhantes, em cor e direitos. Morreram sem defesa, pacientemente.

segunda-feira, maio 19, 2008

OS LIVROS SEGREGADOS PELOS LOBIES

LANÇAMENTO NA GALERIA VALBOM, DIA 31, 16 HORAS
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receitas e nomes
de uma falsa segurança

domingo, maio 18, 2008

HIROXIMA MON AMOUR * O PESO DA MEMÓRIA

Estes documentos fotográficos são de 6 de Agosto de 1945. Guardas até agora nos dossiers secretos, entre relatórios e outras imagens de horror, dir-sei-ia que se referem às multidões dizimadas na Birmânia, ou ao genocídio no Ruanda, com centenas de milhares de mortos em pouco tempo, sem que a comunidade internacional apontasse um mero gemido. Contudo, estas fotografias brumosas pelo desgaste registam o resultado imediato, em Hiroxima, do lançamento da primeira bomba atómica. As imagens, impressionantes, são uma pequena aparência dos cento e vinte mil mortos do primeiro instante e foram encontradas, num grupo de dez fotografias, por Robert L.Capp, um militar americano que esteve em Hiroxima durante a ocupação do Japão pelos EUA, em 1945/49. O autor é um jovem japonês desconhecido que fez estes registos pouco depois do bombardeamento americano. Em Hiroxima, morreram, de imediato, 120 mil pessoas de uma população de 450 mil.
Num momento da «nova vaga» do cinema francês, Alain Resnais, reportando-se a Hiroxima, numa primeira fase quase documental, trabalhou depois, num filme inesquecível («Hiroxima mon amour») e com um texto magnífico de Margarite Duras. Poesia em prosa, voz murmurada sobre os corpos a quem cabe continuar a mensagem do amor, Resnais alcança um outro realismo, o terrível sopro de angústia sobre a condição humana. Frases, sentimentos, emoções poderosas, tão poderosas e tão humanas como quase sempre emergem das maiores tragédias que têm abalado civilizações.

sexta-feira, maio 16, 2008

EM HOMENAGEM A ROBERT RAUSCHENBERG

legenda para Rauschenberg, restos abandonados na rua

Há dias deparei-me, num jornal, com a notícia da morte do artista norte-americano Robert Rauschenberg. Facto natural, dir-se-á, Rauschenberg pertencia à classe dos autores bem sedimentados na História, ligado a obras experimentais, à pop e outras reinvenções, instalador de restos, embalagens, cartões, lixo urbano sobre o qual pintava com certa violência ou personagens, paisagens breves, a convulsão do mundo contemporâneo. Presto-lhe aqui esta singela homenagem, após ter encontrado, no dia da sua morte, quase uma réplica dos seus quadros volumétricos, objecto amarrotado e atirado para a sargeta, registado na imagem que antecede este apontamento.
obra de Rauschenberg

quinta-feira, maio 08, 2008

HÁ MAIS CÓDIGOS DO QUE SE JULGA
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ONDE OS ARTISTAS APRENDEM
O CÓDIGO DO SUCESSO

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Livrarias: LER (C.Ourique). Sá da Costa (Chiado), Buchholz
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UM NOVO LIVRO
ENQUANTO NEM TODOS OS HOMENS CEGAREM
Este livro corajoso, jocoso e trágico, mostra ao país desatento que somos, ainda somos, memórias enviesadas e a pobreza das instituições metidas no atulhado Convento de São Francisco, fortaleza da escassez, que sobreviveu a 1755. As reformas do ensino artístico em 1932 e 1957, atrasadas pelo menos trinta anos cada uma delas, a primeira carregada de absurdos curriculares, a segunda não tanto, foram (a seu tempo) saudadas pelos mais ingénuos. Alegria breve, contudo, porque os conteúdos, mesmo há poucos anos, ainda foram castrados pelo arbítrio de uma direcção avara, destituída do estudo sobre o que se passava no mundo neste domínio.
Um personagem novo, «senhor aluno», faz, no livro, o trajecto do curso. Com êxito. Ao terminar, é mobilizado para a guerra colonial, onde permanece dois anos. Volta com as marcas habituais nestes casos e a sorte de ter um trabalho estável no liceu D. João de Castro. Pouco depois é convidado para assistente na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, onde inicia uma normal carreira académica: trata-se da segunda parte do livro, então um espaço da mesma Escola, visto, sentido e descoberto pelos olhos de um ainda jovem professor. Primeiro havia colegas. Agora há alunos. Todo o livro é um grande fresco sobre o tema, as épocas, as gerações, as crises, os segredos conventuais, sempre numa terrível resistência contra o arbítrio e as armadilhas da penúria, sob a sombra do regime e da própria direcção da Escola.
BELAS-ARTES E SEGREDOS CONVENTUAIS é um documento nunca tentado antes, em jeito de ficção. Um livro sobre a loucura suspensa, a demência honesta e a emergência imparável dos abusos do poder.
Depois de 13 anos (já depois do 25 de Abril) gastos a convencer os governos do país de que as artes, referências de civilização, deveriam aceder à Universidade, entre situações psicóticas e um desdém incompreensível da parte dos políticos, o trabalho continuou até ao exílio de alguns docentes mais dilacerados, num paradoxal triunfo dos menos empenhados.
Apesar do doutoramento e da Universidade, conquistas sinuosas, o «aluno professor», solitário na confusão dos interesses, não espera pelo título: sai discretamente e sem ninguém dar por isso.
Sousa Carneiro

domingo, maio 04, 2008

LIBERTAR A LIBERDADE, É PROIBIDO PROIBIR

MAIO DE 68 PARA LEMBRANÇA FUTURA


Lembrar o Maio de 68, quarenta anos depois, é um convite à reflexão sobre o significado anunciador dessa data, desses acontecimentos, o grito contra a opacidade, libertador, empolgado no sonho da utopia. As verdades e os enganos cumpriram o seu raro casamento, enre vozes conjugadas e lutas nas ruas de Paris, noutros lugares também. Os estudantes não defendiam apenas uma educação mais eficaz, melhor, mais autêntica. O problema podia ter essas raizes, além de outras do mesmo tipo, mas a mudança profunda de toda a sociedade, para além dos própios valores gravados pela Revolução Francesa, abarcava tudo e todos, apontava a um futuro despido, enfim, de hipocrisias e no respeito efectivo pela liberdade. Os operários deram a sua voz ao sentido essencial desse movimento, enquanto intelectuais célebres afrontavam as suas dúvidas, abriam espaço ao vencimento da esperança: a de libertar a liberdade, a de reinventar a face do mundo e do que nele de facto importa. proibindo proibir, slogan/metáfora que ficou inserido nas memórias do último rasgo romântico que abalou o século XX. Como o rosto de rapariga, a bandeira ao alto, a beleza convicta dos actos e dos olhares - símbolo em suma do Maio de 68, e aqui reproduzido, na primeira imagem deste documento, lembança breve do que ficou para uma hora semelhante.

sexta-feira, maio 02, 2008

ROSTOS HUMANOS EM VIAS DE EXTINÇÃO

PORTUGAL DE ROSTOS ANTIGOS
FOTOGRAFIAS DE LUIS LOBO HENRIQUES

Não resisto à tentação de publicar aqui duas belas fotografias de Lobo Henriques, aliás divulgadas em série nums colecção visualizada na internet. Julgo não ferir nehum direito de autor. Desta forma, garantida a identidade da obra, é possível alargar a partilha, tornar mais «itinerante» algumas destas obras. O retrato, mesmo na fotografia, é uma arte difícil: as pessoas que vivem no interior de cada «máscara» são entidades profundas, surpreendentes quando espreitam pelos olhos os nossos olhos. As vias de registo e comunicação de que dispomos, como no caso da «câmara clara», são preciosas a vários títulos, e aqui guardando bem a essência do instante. Mas o mundo, dizemos desconfiadamente uns aos outros. Pois sim: a massificação até lhe normalizou tonalidades, minutos de família, a face dos meninos e dos velhos. No caso das fotografias que transcreve para este blog, um dos desafios que se nos coloca é o seguinte: imaginar cores e tons adequados para tornar os retratos mais verosímeis. Não dá resultado: o preto e branco, com as suas meias tintas, parecem conferir mais autenticidade às imagens, por momentos como se estas mulheres velhas nunca tivessem pertencido a outro contexto além do nos espreita aqui.

quarta-feira, abril 30, 2008

AS VELAS DOS MOTORES E SUA MORTE SUJA

Na oficina do Frederico havia um caixote a abarrotar de velas para motores de explosão. Mas eram velas mortas, sujas, cuja derradeira serventia não me ocorre. Sei apenas que o Joaquim, mestre electricista, tinha sempre as mãos oleosas e por vezes com cortes que limpava e tratava numa bacia miserável, como todas as bacias destes lugares onde se desvendam entranhas, lâminas e e velhos ferros recicláveis. O Joaquim juntava velas destas, mortas e sujas, na bancada onde pousava dezenas de ferramentas metálicas. Quando elas cresciam em demasia, carro a carro, revisão a revisão, ele pegava as velas inúteis na cova das duas mãos juntas e despejava-as no caixote. O resultado plástico desse lixo sempre me fascinou.



tempo de anulação, morte e apodrecimento

quinta-feira, abril 10, 2008

ARTISTAS PORTUGUESES CONTEMPORÂNEOS | Eduardo Nery


Não é possível tratar aqui a obra de Eduardo Nery como o fiz para outros autores igualmente significativos. Em quase todos eles, e apesar de algumas derivas, o caminho tem uma certa continuidade. Ora a continuidade de Nery é de diferente natureza: é como se ele, mum amplo trabalho multidisciplinar, se tivesse cindido em heterónimos. Só que, no que se refere ao poeta Fernando Pessoa, os heterónimos têm personalidades e destinos próprios, de substancial alternativa. Em Nery pintor há o geómetra, o designer e o arquitecto, para não falar numa espécie de ardiloso especulador sobre a percepção visual. Tanto nesse domínio como nas obras plásticas integradas na arquitectura, os princípios ordenadores da forma são idênticos, têm quase a mesma raiz. Apesar da qualidade dos projectos de Nery para colorir arquitectura, dinamizar empenas e fachadas, revestir interiores, entre outras propostas, a linha geral da respectiva conduta autoral inclui sempre óbvios racords entre várias sequências e diferentes problemas. É uma prova de grande importância, que não basta ilustrar em álbuns, publicações isoladas de prestígio, mas antes ser investigada e estudada em Escolas Superiores de Arte, as nossas faculdades de Belas-Artes, ainda na urgência de convencer as Universidades Portuguesas de que o país dispõe de um espírito raro, quer do ponto vista estético, quer das disciplinas que percorre e onde cria ensinando, autor a quem presto esta singela homenagem, contra a indiferença e o esquecimento, na altura em que os estudos de arte atingiram a Universidade e se impertigam de volta de títulos em inglês, no fio estendido pela novidade aqui e além, no próprio instante que podem também fazer-se com o nosso património vivo.
Digo isto, em suma, sem qualquer rasteiro macionalismo nem vertigens xenófobas.

Eduardo Nery: além do rigor gráfico-pictórico, o imagináro fantástico da fotografia


A legenda-título deste post sintetiza um pouco que papel desempenha a fotografia na obra arquitectural, modular, e cheia de complementaridades formais ou técnicas, do pintor Eduardo Nery. A sua curiosidade e pesquisa de meios levou-o a trabalhar na fotografia de um modo verdadeiramente inovador, quer como linguagem, quer como discurso. O espaço que lhe revela a perspectiva geométrica, bem como os limites a que está sujeita a nossa percepção visual, todas essas questões, excepto alguns casos mais relevantes do experimentalismo em pintura, agudizaram o sentido operativo do artista em função de novos espaços, incluindo a ironia e algum sarcasmo, entre indagações afinal de sentido metafísico. Por isso, as representações efectuadas em obras conhecidas de tempos diferentes, fotografadas e misturadas entre si, abrem decisivos campos de problematização estética. Todas as soluções desta riquíssima produção de Nery, geminam inclusivamente a fotografia da pintura com a fotografia actual ela mesma, como se houvesse uma secreta passagem entre dimensões distintas do espaço e do tempo.