segunda-feira, setembro 17, 2007

ARTISTAS PORTUGUESES CONTEMPORÂNEOS | Paula Rego

cães vadios 1965

The Pillowman 2004 típtico

metamorfoseando-se, segundo Kafka 2002
Paula Rego é uma das mais importantes artistas do Portugal contemporâneo e fez grande parte da sua «escola», como ainda hoje acontece, em Londres. A primeira pintura deste conjunto é das mais antigas, dos anos 60, e, para muitos apreciadores da autora, ainda das melhores e mais inventivas séries de Paula, porventura muito na base do seu estudo
em instituições inglesas. Seja como for, as suas gravuras conservam o sentido de história e situam-se, por assim dizer, entre a sua fase dos anos 60 e a deste século.
*
Paula Rego considera-se uma contadora de histórias, mesmo quando a sua obra, na década de 60, se mostrava convulsiva e abstracta: ela encontrava sempre nesse universo estilhaçado os cães de Barcelona, o regicídeo, entre outras «narrativas» de um imaginário carregado de fantasmas alegres e sombrios, mundo afinal orgânico que parecia desmembrar-se e dilacerar-se de dentro para fora.
Desde o fim dos ans 70, Paula Rego, usando em Londres um modelo feminino quase grotesco à partida, trabalha a crayons de óleo situações aterradoras, algo abjectas, mostrando a mulher numa situação de escravatura actual, engtre cenários de hoje ou fingidamente de outra época. A par dessa linha, os personagens multiplicaram-se e as histórias (ou alegorias) vieram descrever interiores e exteriores em sucessivas encenações meio absurdas, o que se pode apreciar nas obras feitas para a Presidência da República (o martírio do sagrado) como no tríptico «The Pillowman» (2004). A cena da metamorfose, a pequena assasina, war, são outros temas de uma infinidade de peças que se espalham pelos museus do mundo e estarão presentes dentro em breve no Museu Rainha Sofia, Madrid.
A técnica poderosa, a fealdade dos seres a par de rostos que aspiram à beleza da escese, tudo isso passa por grandes composições onde o realismo se casa com o expressionismo, talvez mesmo com o surrealismo, cenas ásperas, tão contemporâneas quanto medievais, a violência encoberta, o desejo, a carne degradando-se em vida, as encenações de situações angustiantes, as coisas soltas, o mundo, o destino humano entre maldades e a beleza juvenil. Ao fundo, na paisagem ou entre janelas, a morte. Paula Rego não o representa mas ela faz-nos pressentir essa dimensão figurada ou ausente.











ANJO 1998

terça-feira, setembro 11, 2007

FOTO JORNALISMO NO HORROR E NA SOLIDÃO

foto de Nicolas Asfuri Frande Press
julho 2006
Elementos da Cruz vermelha retiram o corpo morto de uma criança dos escombros de uma casa no Gana. As palavras são cada vez mais raras para classificar este genocídio global que mancha o mundo com grandes extensões de sangue, da humana catástrofe.


sala de estar de uma barraca no bairro das Marianas, em Carcavelos
foto de Rui Gaudêncio, Público
_______________________________________
O foto-jornalismo, a par de diversos tipos de representação fotográfica, corresponde por vezes a um trabalho penoso, marcado pela dor alheia e pela nossa própria angústia. O mundo retrata-se cada vez com mais meios e menor campo de equilíbrio, de consensualidade, de pontes sustentáveis entre povos, sistemas, alternativas em nome da paz. Estas palavras constituem
já um insuportável lugar comum, mas quase ninguém dispõe de vocábulos de substituição.
A aparente serenidade europeia, que a União defende em termos de uma sofisticação
inútil, sobretudo porque as diferenças são aproveitadas para domínio de certos países
sobre os outros, esvai-se em normas, ou tratados cínicos que não abreviam conflitos nem
os sofrimentos de que todos, afinal, dependemos.

segunda-feira, setembro 10, 2007

MADELEINE, UM ROSTO DE SÚBITO IRREAL








________________________________________
Na altura em que Madeleine desapareceu do aldeamento da Praia da Luz, enquanto os pais jantavam com amigos ali perto, algumas pessoas criticaram, de forma ainda moderada, o facto dos pais terem deixado dois gémeos e a menina, mais velha, a dormir, cerca das 19.30h. São hábitos, é ouitra cultura, diziam. E em plena luz do dia, quando toda a gente se deixava arrebatar com o que parecia ser um rapto bem executado, a cordialidade para com os pais, Gerry e Kate, foi muito calorosa, entre gestos e palavras sentidas. Nós próprios prestámos aqui uma alento aos pais, publicando uma bela fotografia de Madeleine, e enunciando as calamidades deste tipo que de crimes que se abatem cada vez mais sobre as famílias, um pouco por toda a parte.
Por estranho que pareça, a espera, depois das buscas no terreno, começou a envolver aspectos intrigantes, um novelo de notícias perante o programa de viagens dos pais a muitos países, apelando pela a entrega da filha e colocando cartazes em tudo quanto era sítio. A certa altura, o efeito de novela parecia assustador: os pais tinham assessores e advogados, davam conferências de Imprensa, Kate sempre com um ar hermético e a obsessão de transportar o boneco peludo que pertecia à filha.
Esgotadas certas pistas da teoria do rapto, a polícia recolhe indícios de sangue e material orgânico, quer no quarto da menina, quer num carro alugado. Todas as cabeças se voltam para os pais, numa suspeição que decorria da viragem das investigações e de longos interrogatórios a que foram sujeitos. Põe-se a hipótese de acidente, negligência, homicídio, ocultação de cadáver. Kate e Gerry passam à condição de arguidos com coação de apresentação periódica à polícia, o que não os impediu que tivessem regressado a Inglaterra, onde cumprirão as obrigações legais.
Este é um caso de estudo, pois em boa verdade ninguém pode, agora, dar como homicidas estes pais, a despeito de toda uma encenação internacional, atitudes regulares mas de inquietante tensão, contradições iniciais, silêncio entretanto. Era bom que houvesse um cabal esclarecimento do caso, pois a ficar-se sem a presença do corpo e em face do tráfico de influências habitual, uma boa parte pedagógica dos eventos perder-se-á. Veja-se como o povo da Luz, solícito e carinhoso de início, não se envergonhou de apoupar os pais de Madie logo que eles foram apenas colocados na condição de arguidos. Aliás, comportamento muito mais grave do que este (de gente pouco dada a ponderações mais profundas) foi o de certa imprensa inglesa, recorrendo às mais feias insinuações sobre a polícia portuguesa (incompetente, no mínimo) e reinventando a realidade a seu belo prazer, uma soberba típica de muitos subditos da Rainha, pessoas que tendem a ter sempre razão, a dizer de alto os erros que cometem como verdades incontornáveis. Da parte portuguesa, profissionalmente, as atitudes foram correctas, cedendo aos ingleses a prioridade no estudo dos indícios mais delicados. Gente que nem parece da Europa, que sugere ainda uma mentalidade colonial. apesar dos patamares de evolução que todos lhe reconhecem, cobre uma ilha desligada da Europa, na geografia e em muitas outras coisas, exige, conduz, nega-se a aderir ao euro, aproxima-se da negação de outras ligações e deveres. O que é bom que venha. Mas a nossa soberania em todos os sentidos não pode ser beliscada de forma nenhuma. A Inglaterra dos piratas e das grandes explorações coloniais, com privilégios na roda do mundo, tem uma das mais rasteiras imprensas de tablóide que conhecemos e portou-se, de um ponto de vista monárquico e institucional, de forma sinuosa, obscura, discriminatória, em muitas das situações que rodearam a vida e a morte da princesa Diana.
Madeleine, na sombra dos odores que os cães farejam, é hoje um rosto emblemático mas definitivamente irreal.

sexta-feira, setembro 07, 2007

A SUAVE ESCRITORA E OS TERRORISTAS

Margarida Rebelo Pinto

Esta conhecida escritora das nossas letras, protagonista de grandes êxitos editoriais, em particular quanto aos milhares de livros vendidos, tem sido louvada e combatida por diferentes protagonistas da cena intelectual portuguesa, cronistas e críticos literários, aos quais ela responde de forma desnivelada, sobretudo desnecessária. Agora apareceu a atacar os «blogues», aquilo a que chama, destemperadamente. «um território de guerrilha suja, protagonizada pelos terroristas da Internet». Assim, tal e qual, todos ao molhe. Olhe, Margarida, eu uso este «territótio» como uso a pintura, o cinema e a literatura. Saberá você que, tendo eu uma obra vasta e de qualidade reconhecida (sem pretensão às filas da frente, claro), fizeram-me ancorar aqui e além, poucas críticas aos meus livros sabotados pelas máquinas editoriais e outras, pouco estudo da pintura, audiências da tarde, pelas seis horas na televisão (séries culturais sobre arte), um cinema de ensaio premiado lá fora e usado sobretudo na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Este ficar entre parenteses, este esboço de esquecimento, estas marcas do tráfico de influências inacessível, tudo isso (fora a vida académica) são dores que você não sente, circunstância que pode afectá-la, deixando-a contudo refém de um êxito periférico, cujo significado mais profundo tem maior importância quantitativa do que literária, presumo. Públiquei «Os Passos Encobertos» (romance), «Amnésia» (teatro), «Angola 61, uma crónica de guerra» (factos reais de uma comissão em Angola), «A Culpa de Deus» (romance, para um ensaio sobre o livre arbítrio). Foi decisivo o romance «A Casa Revisitada». Está para sair «Memória das Velhas Artes e os Segredos Conventuais», «Nojo aos Velhos também», e escrevo entretanto crítica de arte no JL, como aconteceu no Diário de Lisboa, Colóquio, Opção. Não estou a fazer o meu currículo: estou a mostrar-lhe que esta obra, reconhecida por personalidades de grande relevo, por vezes até indignadas com os silêncios, não passa pelo largo crivo oferecido à sua escrita. E isso revela como se sufoca em Portugal, como se discriminam valores erradamente, porque, para falar do seu caso, convido-a a ler A Culpa de Deus, avaliando-o segundo o seu critério, tentando perceber se tal obra é menos digna do que qualquer das suas. O que fazem as distribidoras e os escritores uns com os outros? Você acharaia mal que constitíssemos um Observatório para esta área, entidade ordenadora de quantidades, qualidades, regras, pareceres, propostas e definições vinculativas em certos casos? Se você não monta nenhum «blog» é porque pode escrever um livro num mês e atirá-lo para além da própria Internet. E creia que nem todos os bloguistas são terroristas, porque, em geral, são muitas coisas mais. Veja lá não lhe apeteça o caminho de Espanha, como o nosso colega Saramago, a globalidade subverte tudo em toda a parte. Faça por admirar também os seus inimigos. Torne as suas indignações matéria literária.

AS PAREDES FALANTES E A CASINHA MOTORIZADA


Há sítios, em certas cidades e aldeias do interior, que nos apresentam coisas de grande contraste e ironia. Veja-se este caso curioso: os meninos ladinos da rua, grafitavam sem zelo paredes e empenas, perturbando com esse ruído visual as coisas em volta. Desactivado o cinema, construção desproporcionada com mão de engenheiro, a empena sul, desgastada e cega, era por vezes atacada pelos rapazes dionisíacos, que atiravam latas de tinta, superando Pollock, à parede vagamente branca. Pacientemente, os responsáveis pela cidade e o dono do cinema «paraíso», pintaram de novo toda a parede e mandaram chamar os «meliantes». Disseram-lhes que as leis são para cumprir e que o dadaismo deles enlameava uma cidade ultimamente bastante cuidada. Por isso lhe faziam uma proposta: que eles pintasse a sério, na faixa inferior da parede, e que depois logo se via. Esta acto pedagógico (algo arriscado) resultou nestes bonecos aqui apresentados: não se tratam de grafittis de cunho superior, como se vê por esse mundo fora, mas nota-se o desejo dos «artistas» em minirar os impulsos e controlar a mensagem.
Ali perto, muito perto mesmo, há uma longa fila de casas térreas, dos anos 40, onde moraram muitos operários corticeiros. Quando esses operários tiveram de migrar ou emigrar, pela destruição daquela indústria transformadora, houve descendentes dessas gerações perdidas que por ali ficaram, remoendo os dias e conservado o tecto. O mundo espalhou mal as oportunidades. Mas posso garantir-lhes que o carro estacionado diante do prédio pertence a um membro da nova comunidade. Um descendente de outra maneira de trabalhar. Coisas do tempo.


segunda-feira, setembro 03, 2007

LUGARES COM A MORTE ANUNCIADA




O jornal Público apresenta hoje, dia 3 de setembro, 07, uma reportagem sobre Grand-Lahou, cidade em vias de extinção na Costa do Marfim. Texto sintético. Profundamente tocantes as fotografias de Issouf Sanago /AFP. As pessoas ainda sorriem quando se fala em grandes catástrofes planetárias e insistem em considerar que o problema do aquecimento global é um mito urbano.
Há muito tempo, em Grand-Lahou, a população residente deslocava-se pelas ruas, vivia a plenitude das culturas locais, plantava coqueiros, cumpria, enfim, os deveres de cidadania e respondia aos preceitos religiosos, ao baptismo, por exemplo, esperança no futuro para além dos mortos enterrados na ritualidade própria e no desejo de um «reino» para além desse silêncio.
A primeira nota do texto informa-nos de que ainda há vida em Grand-Lahou, qualquer coisa como cinco mil habitantes, dos anteriores 20.000. Cerca de 15.000 deslocaram-se para longe dali, transportando tudo o que tinham, procurando assim uma vida melhor e tendo em conta que o mar, ali, continua a avançar por cima de tudo o que foi ficando.
a padaria de Maïga
Para Maïga, Grand-Lahou já foi Terra Prometida. Quando saiu do Mali estava informado de que o mar poderia galgar a terra, mas a sua fé levou-o a montar uma padaria em Grand-Lahou (1962), desacreditando dos brancos que lhe haviam anunciado o tempo das águas, das inundações irreversíveis, da morte dos coqueiros, do desaparecimento das construções em adobe precário.
cemitério submerso
Se é verdade que Grand-Lahou chegou a ser um dos principais entrepostos coloniais da Costa do Marfim, também é verdade que os missionários brancos, por 1920, tomaram as coisas a sério e iniciaram ali um trabalho incisivo de evangelização. Os mortos enterravam-se a preceito e o tempo de nojo tinha sentido. Hoje, o presidente da Câmara, diz para os jornalistas deste trabalho: «É triste ver o cemitério cristão dos nossos pais despaperecer no mar». Uma água impiedosa, na espuma dos dias, arrasa as campas e rende uma estranha homenagem a pessoas que outrora pareciam eternas.
a morte anunciada
Como é habitual em muitos destes casos, os habitantes daquele lugar, e outros, responsabilizam o governo da Costa do Marfim por nada ter empreendido a fim de travar a subida do nível das águas do mar. Falta-lhes relacionar melhor a frequência e o aumento das tempestades bíbiblicas, os dilúvios, a convulsão da própria terra. Há espaços e vidas que, pelas suas características, são empurrados para o início de grandes transformações terrestres e oceânicas. O aquecimento é global mas esse o problema aqui afectará, de forma particularmente severa, a costa ocidental de África. Foi desenvolvido, por especialistas norte americanos, um importante estudo onde se calcula que o mar possa subir ainda mais 50 cm até ao final do século, com custos colossais para o país.
__________________________________________________
N. texto extraído da reportagem já referida, embora apresente alguns pontos de reescrita.

sábado, setembro 01, 2007

CULTURA TRANSGÉNICA DA CRÍTICA POLÍTICA

José Pacheco Pereira
professor

Personalidade de grande assiduidade interventiva, prestando trabalhos multimédia aos orgãos da comunicação social, instituições universitárias, forças partidárias e acontecimentos de reflexão política a diversos níveis, Pacheco Pereira tem marcado um longo período pós 25 de Abril da vida portuguesa com inusitada veemência teórica, incluindo o plano inventivo das hipóteses de transformação dos governos, sem desvios de uma democracia mais robusta de um ponto de vista ético. No último número da revista sábado, 30 de Agosto, 2007, coluna «A lagartixa e o jacaré», este erudito comentador preocupa-se com a RTP. Inquieto sobre quem manda nela, imagina-a governada por uma cadeia hierárquica que depende do par Santos Silva - Sócrates, como no passado aconteceu com o par Morais Sarmento - Barroso. Estes receios, poventura justificados, fazem parte do elenco de eventuais mordaças aplicadas ao universo da imprensa escrita ou audio-visual, que muitos apontam ao governo (leia-se Sócrates) e a uma espécie de projecto Big Brother para a nossa sociedade em geral, numa gestão orwelliana mais fina dos últimos fios de liberdade. O medo de ser português chegou às bancas em forma de livro, mas Pacheco Pereira, capaz de citar algum epifenómeno desse tipo, não é jogador cobarde, nem se furta aos possíveis ataques dos seus próprios correligonários: saltará sempre a crista da onda, criando rectaguardas demolidoras. A RTP foi sobretudo mais um pretexto para fazer política e atacar o primeiro-ministro, figura a quem reconhecerá alguns feitos e alguma coragem, mas que se aproxima cada vez mais do fim do mandato e da natural perda da maioria absoluta no Parlamento. Embora os monitores caseiros andem atulhados de futebol, como sempre, Pacheco Pereira, quanto à RTP, acha que ela está demasiado sobrecarregada de «momentos Chávez», expressão algo grosseira para caracterizar os momentos (quanto a mim, muito escassos) em que o primeiro-ministro aparece nos ecrãs. Pacheco diz que Sócrates se apresenta «compostinho e grave, a falar do palanque nas condições preparadas profissionalmente pela sua máquina de propaganda». O povo gosta desta visão chocarreira aplicada aos governantes, mas a intervenção séria sobre tais problemas, e num país ainda largamente iletrado, deve reger-se por melhores critérios éticos, não por uma espécie de hipertrofia transgénica no apontamento dos erros e dos fatinhos domingueiros. O crítico, aqui, acha que tudo é sempre encenado, calculado, incluindo figurantes, e enquadramentos de reportagem. E em todos estes aparecimentos do primeiro-ministro na televisão (aparecimentos a que chamarei, por agora, esporádicos), Sócrates «não se pronuncia sobre nada de importante, seja a 'ceifa' transgénica e a apatia da GNR, sejam as estatísticas preocupantes da enonomia portuguesa, seja o silêncio sobre as negociações do célebre 'tratado reformador', sobre o qual nada se sabe, apareceu de novo para as habituais sessões de propaganda». Depois, e na mesma forma, a frase ácida vai para novos pretextos de gabarolice saloia quando o primeiro-ministro entrega computadores ao abrigo do Programa Novas Oportunidades, «ocasião única de armazém, que pode ser repetida quantas vezes se quiser». A entrega dos computadores tem de facto um significado real de grande importância se pensarmos a sua relação com outros problemas da área do ensino, mas concordo que, repetida cem vezes, ou mesmo cinquenta, ou mesmo dez, ou mesmo cinco, pecará por redundância política. Quanto ao resta, as coisas fiam mais fino. E das duas, uma: ou Pacheco Pereira é a personalidade culta, sólida e séria que tantas vezes tem procurado fazer passar, ou o seu inegável talento analítico e literário estão enlameados pelo lado mais soez da política, precisando o autor desse género de populismo para apontar erros a Sócrates e ao Governo. Se estivéssemos em lugar e circunstância adequados, penso que valeria a pena confrontar Pacheco Pereira com as descaracterizações, distorções, mal-dizer paranóico, intencionalidades enviesadas, partindo apenas do modo de usar palavras como propaganda, máquina, recado governamental, conveniência, condições preparadas, palanque, falar do palanque, sempre com amplo tempo, compostinho e grave, mitologia ideológica do serviço público, e, entre outras falas engrenadas como vimos atrás, para terminar com o golpe fulminante «momentos-Chávez», momentos inadmissíveis em termos jornalísticos, sobretudo na «oficiosidade» das notícias. Lamento este género de colorido e de vocabulário, com a carpintaria jocosa (para dizer o menos) que nos foi oferecida em toda a crónica «Problema da RTP». Tal trabalho jornalístico, em vez de um outro mais didáctico e com menos empáfia, esse sim, é que anuncia o medo, é que engatilha a humilhação, é que borra o retrato para que nos sintamos pequenos e informes ao espelho do «Big Brother».

Rocha de Sousa

SARAMAGO FUNDADO E FUNDAMENTADO


O Nobel português da literatura acaba de criar uma Fundação. Pilar del Rio, sua mulher e tradutora para Castelhano, é a presidenta. O «Expresso» esteve com o casal no seu refúgio de Lanzarote. Esta é a notícia e apresentação da capa da revista UNICA, daquele semanário, de 1 de Setembro de 2007, rasgada a branco sobre uma pose fotográfica do casal, cuja expressão arrasta uma certa ambiguidde. Pilar não deve ter culpa da impressão a duas páginas do casal e sua casa, com legendas típicas das reportagens feias à alta sociedade, sobretudo depois da frase dela: viemos viver para uma ilha, rodeados de vulcões, porque não nos interessa a vida social, não nos interessa o brilho e a espuma social. Pois sim. Mas esta reportagem vale os olhos da cara e representa por isso mais do que muitas visitas sociais, enche bem uma piscina com a mornidão da «espuma social» e do seu «brilho». O escritor, talvez inquieto com a necessidade de dar corpo a realidades da sua passagem pela terra, acabou por aceitar fundar uma Fundação para memória futura, cremos nós e não é má ideia, não senhor. Até porque, como se escreve no jornal, são atribuidas a Saramago as seguintes ideias: a intervenção cívica é uma atitude característica do fundador que considera estarmos a viver numa época onde não há pensamento, nem reflexão. Ele acaba de lançar duas polémicas que estão aí a dar os seus frutos: a constituição de um novo país, a Ibéria, e o facto de ser uma atitude neocolonialista chamar-se à Améria (a que não é Estados Unidos nem Canadá) América Latina ou Hispano-América. Podem ser ideias polémicas mas não reflectem nada de soberbo para o mundo, todo esse mundo que tem que ser pensado, porventura com mais Fundações e menos Américas. A teimosia do escritor no seu casamento com Espanha parece esquecer, com algum cinismo, o papel de Portugal no Mundo, os espaços que desencadeou como nações, submetendo-se à História, do Brasil a Timor, e os milhões de pessoas que falam português. A nossa diáspora é extraordinária e só em Paris vivem dois milhões da natural projecção portuguesa, nação que é, em identidade formal, linguística, cultural, a mais antiga da Euopa. Quando o Rei de Espanha saudasse a nova província da Ibéria, milhões de portugueses em todo o mundo gostariam de cercar Lanzarote de terra vermelha, acabando com a solidão bonançosa rodeada de oceano e de súbito colonizada pelas palavras de «Levantado do Chão». Há cada vez mais chão nas palavras e na invenção geo-política do mundo. Sabemos pela voz de Pilar que, em certa altura, Saramago sonhava coisas extraordinárias, sonhos que depois não recordava. Mas eram estranhos e por vezes falados para todos. Os sonhos, diz Pilar, eram em português.











um trecho de Lanzarote e o amor junto do vulcão

quinta-feira, agosto 30, 2007

A GRANDEZA DA DÚVIDA

Madre Teresa de Calcutá

Esta mulher que ostentava frequentemente um sorriso, na sua aproximação aos grupos de humanos miseráveis, foi durante décadas dilacerada pela dor, pela dúvida, por uma solidão sem luz e sem a verdade de um convívio caloroso. Ao seu júbilo no entendimento de Cristo, seguiam-se muitas vez horas de angústia e de ausência. A caridade cristã é um domínio que se reveste de algumas obscuridades e que se confronta, todos os dias, com a aparente impossibilidade de minorar a miséria e o sofrimento em muitos pontos do mundo. Madre Teresa de Calcutá era conhecida como a «Santa dos Pobres» e foi-lhe conferido o Prémio Nobel da Paz em 11 de Dezembro de 1979. A sua obra humanitária, eventualmente discutível por alguns pragmatismos, é contudo de uma grandeza insofismável. Mas a sua entrega, longa e penosa, foi atravessada pelas dores da incerteza e do modo de como aceder a Deus. As cartas que escreveu e que havia pedido para serem destruídas após a sua morte, foram largamente conservadas pela Igreja e poderão, publicadas na biografia de Madre Teresa, servir de caminho de reflexão aos homens, sobretudo aos que se julgam pilares inabaláveis da prática diária do catolicismo. Quem julgava conhecer bem esta mulher, nos actos e nas palavras, tem hoje, no seu testemunho mais profundo, sinais dela num sentido por vezes semelhante ao drama do existencialismo nos anos cinquenta. «Como se um dos maiores ícones humanos dos últimos cem anos, cujos notáveis feitos parecem intrinsecamengte ligados à sua proximidade de Deus e que era habitualmente observada em silêncio e em oração, tanto pelos seus próximos como pelas câmaras de televisão, estivesse a viver em privado uma realidade espiritual muito diferente, uma paisagem árida da qual a divindade desaparecera» 1 Do léxico de Teresa de Calcutá fazem parte, numa inquietante autocontradição, palavras tão acutilantes e actuais como «secura», «escuridão», «tortura», «solidão». O sorriso, escreveu ela, é uma «máscara» ou «um manto que cobre tudo». Apesar do desenvolvimento das «Missionárias da Caridade» pelo mundo em geral, Madre Teresa interrogava-se, como que a sangrar: «Trabalho para quê? Se não há Deus não pode haver alma. Se não há alma, então Jesus Tu também não és verdade». Aqui aparece, em duas palavras apenas, a dúvida sobre a existência de Deus. Num documento assombroso, uma carta dirigida a Jesus, Teresa queixa-se de sua condição de sofrimento, de uma «agonia indescritível» E acrescenta: «Muitas perguntas sem resposta vivem dentro de mim com receio de as destapar ( por causa da blasfémia); se existe Deus, por favor perdoa-me. Quanto tento elevar os meus pensamentos ao Céu, há um vazio tão culpado que esses mesmos pensamentos regressam como facas e ferem a minha própria alma. Dizem-me que Deus me ama, mas a realidade da escuridão, da indiferença e do vazio, é tão grande que nada toca a minha alma. Terei cometido um erro em entregar-me ao Apelo do Sagrado Coração?1 Madre Teresa de Calcutá dirigiu ao reverendo Michael van der Peet, em Setembro de 1979, entre outras, as seguintes palavras: Jesus tem um amor muito especial por si. Contudo, em relação a mim o vazio e o silêncio é tão grande, que olho e não vejo, que escuto e não ouço (...) Na minha própria alma, sinto a terrível dor da sua perda. Sinto que Deus não me quer, que Deus não é Deus». Como se não existisse verdadadeiramente. Aos que ouvem assim esta mulher, a questão da vida, da morte e da salvação desfocam-se porventura na própria escuridão de cada um deles.

Madre Teresa de Calcutá morreu em 1997.

______________________________

1 Este texto foi trabalhado, além das citações, com as páginas dedicadas a Terese de Calcutá, pela «Visão», em 30 de Agosto de 2007

quarta-feira, agosto 29, 2007

A CRUCIFICAÇÃO PÓS-MODERNA DE JESUS


A Igreja Maná, para refazer o conceito de salvação («só em Jesus»), cartografou a sua postagem por terras de toda a nossa geografia e recrucificou-o segundo as novas tecnologias, em poster, sob a anunciação de que o «mundo está a acabar», tempo do Apocalipse, numa chuva de cartazes ilustrativos das destruições, catástrofes, pestes, guerras e outros males aterradores. Este cartaz rasgado pelos infiéis conservou a mensagem suficientemente legível, milagre certamente devido a Jesus, e o endereço electrónico de Maná, lugar virtual para onde as almas salvas poderão transmigrar, para o que bastará dedilhar www.igrejamana.com. Podem os homens pedir mais, desejar maior compaixão, agora que o sono tranquilo lhes está garantido numa outra vida verdadeira?

segunda-feira, agosto 27, 2007

PREPARANDO OS NOVOS DESCOBRIMENTOS

Endeavour acoplada à estação orbital

A nave de acesso orbital à estação que navega no espaço, em torno da terra, na qual se ensaiam projectos científicos e operações de cálculo para viagens tripuladas no cosmos, foi entretanto a Endeavour, um vai-vem com muitos anos de vida, algumas próteses e desenvolvimentos tecnológicos. Talvez seja este o seu último serviço. Novas naves estão projectadas e os russos fecharão uma das fases de construção da «plataforma», transportando para lá equipamento, módulos e técnicos astronautas de substituição. Tudo o que se passa nestas viagens, todo este mundo complexo, esperança no futuro, apoio amanhã de um planeta Terra em crise a vários níveis, tudo isso deveria ser amplamente divulgado, até onde fosse possível, como alerta didáctico para os jovens e fixação de novos objectivos, abertura a outras descobertas que desmontassem a situação de reféns da electrónica de consumo redutor que obstaculiza o sentido da invenção e aprofundamento do conhecimento do mundo.
Repare-se: se a televisão gasta trezentas horas mensais em reportagens sobre futebol, incluindo jogos, como não pensar que metade desse tempo poderia ser partilhado com a conquista do espaço e os seus ensinamentos, como referi atrás?
Os Estados Unidos da América e a Rússia (entretanto um pouco a Agência Europeia de Aeronáutica) têm unido esforços para construir a estação orbital, indispensável para futuras partidas sem tanta carga de combustível. Tal gesta lembra muito o que os portugueses fizeram para desbravar as rotas oceânicas e as terras em volta. Sabems que isso foi mais problemático e grandioso do que a ida à Lua ou estes projectos que também se apoiam numa noca cartografia das galáxias e corpos um dia semelhantes à Terra. Parece pretencioso falar assim, mas ao certo podemos dizer que o povo que levou a cabo a expensão marítima dispunha de dois milhões de pessoas, milhares de vezes menos do que os indivíduos hoje utilizáveis, sem contar com os recursos tecnológicos quase imeditoa a que podem recorrer. A descoberta humana do espaço é muito mais importante para o futuro do que se possa imaginar agora. Sem esse conhecimento e essa experiência morrerão muitos das alternativas de sobrevivência que o homem pode descobrir ou inventar.
Se a televisão gasta centenas de horas por mês a fim de transmitir relatos de futebol e programas inerentes a esse mundo, porque nãp partilhar metade desse tempo com programas de divulgação espacial e ensinamentos daí decorrenntes?

domingo, agosto 26, 2007

NA MORTE DE EDUARDO PRADO COELHO

fotografia de Daniel Mordzinky

devemos lutar sempre a fim de que figuras como
Eduardo Prado Coelho não sejam remetidas para o esquecimento

Eduardo Prado Coelho faleceu ontem, dia 26 de Agosto de 2007, por paragem cardíaca. Enfrentara ultimamente graves problemas de saúde com grande estoicismo e uma imparável prática da esperança. Acabara de entregar a sua última crónica, no Público, jornal onde escrevia há muitos anos e que lhe presta hoje uma comovente homenagem, sem palavras de circunstância e um perfil intelectual muito consistente. Pedro Mexia começa o seu artigo nomeando Eduardo Prado Coelho como o último crítico. Refere-se a um certo tipo de influência, ao prestígio, ao modo sereno como enfrentava os ódios e a relação complexa entre a vida universitária e a prestação de ensinamentos públicos, mediáticos, perante o desgaste de toda uma disponibilidade de espírito notável. Viera ao jornal também para falar de projectos: um regresso à coluna de crítica literária. Chamar-se-ia Sete Rosas Mais Tarde, inspirado em Celan. As suas crónicas tinham frequentemente um sabor poético, mesmo se a fala envolvia temas de natureza filosófica ou política. Esta morte não constituiu propriamente surpresa, dado os problemas de saúde que enfentara e a dificuldade em os superar, mas o peso da perda não é menor por isso. Vou sentir, com certeza, a falta da sua crónica, uma das primeiras coisas que lia no jornal. Era uma prosa que dava sabor especial à límgua portuguesa, a voz quase corrente e a invenção da presença de palavras inesperadas, um sobressalto, um ritmo cuja identidade não se desfocava nunca.
Eduardo Prado Coelho era filho de um dos nossos maiores ensaístas portugueses. Escrevia desde os tempos da faculdade, escreveu sempre até ontem, e oferece ao país uma obra polémica e lúcida, em cerca de vinte títulos, como O Reino Flutuannte e A Noite do Mundo. A sua versatilidade cultural permitia-lhe dar-nos essa reflexão sobre a literatura e o homem, a par de textos notáveis sobre cinema e alguns sobre a forma das artes plásticas. Na década de 80 escreveu acerca do «pós-modernismo», época em que melhor acertou o equilíbrio entre a densidade da escrita, a sensibilidade e o seu lado mais denso mas simultaneamente aberto à comuniação. Figura ao mesmo tempo amável e com apelo polémico, foi político e escritor, soube separar as águas, a honestidade a par da coragem perante situações mais difíceis. Neste sentido, o socialista Ferro Rodrigues afirma, referindo-se à época de 2002: «foi mais um intelectual na política do que um político na cultura.

quarta-feira, agosto 22, 2007

E ENTÃO JÁ NÃO SEREMOS VERDADEIRAMENTE OS FILHOS DA REVOLUÇÃO FRANCESA

Joseph Weiler

QUE REVOLUÇÃO NOS RESTA?

A entrevista que Joseph Weiler concedeu ao expresso, no dia 11 de Agosto, tritura-nos com uma linguagem sacudida e democraticamente aterradora. É preciso reflectir com ele, um homem especializado em Direito Europeu, mesmo que não seja, em rigor, um europeu -- segundo as considerações iniciais das jornalistas Cristina Peres e Luisa Meireles. Se não existe governo na União Europeia, porque «não existe nenhum momento na nossa vida cívica como cidadãos europeus», que fazemos? Há solução para isso?

Joseph Weiler: «Primeiro, temos de admitir o problema e não fingir que ele não existe, ou que as medidas previstas funcionam. Por exemplo, aumentar o poder do Parlamento Europeu. Sabemos que não é a solução completa. É engraçado, é um dos mais espectaculares erros sobre a integração europeia. Há cerca de 20 anos, o meu primeiro livro foi sobre o Parlamento Europeu, e escrevi na altura que a taxa de afluência às eleições era muito baixa. Não era surpreendente porque o PE não tem poder, então porque é que as pessoas iriam perder o seu tempo a votar? Previ -- e esse seria o meu erro mais espectacular -- que, à medida que o PE ganhasse poder real, a afluência às eleições aumentaria. Nos últimos 25 anos, ele foi ganhando imenso poder, tem hoje competência legislativa e poder de co-decisão com o Conselho, mas a taxa de afluência declina consistentemente. Mais poder e menos participação! As pessoas na Europa não parecem estar preocupadas, mas preocupa-me que elas não se preocupem. Isso mostra que já perderam muita sensibilidade cívica. A vida é boa, para quê preocupar-me? Sou um consumidor de resultados políticos, não um cidadão pró-activo.»

A União Europeia pode desaparecer?

Weiler: Não. Mas pode haver uma mudança profunda na maneira como pensamos em nós próprios. Veja um exemplo perigoso: na Grécia, as pessoas dão aos seus filhos nomes de Hector ou Helena e falam uma língua que se parece com o grego antigo. Mas não existe conexão entre esta gente e a cultura da Antiguidade. O mesmo se passa no Egipto, não existe nenhuma relação entre a sociedade egípcia actual e a grande civilização dos faraós. O perigo não é que a União Europeia desapareça, mas que continuemos a acreditar que somos filhos da Revolução Francesa. Não há uma conexão real com a herança do Iluminismo. A herança da Revolução Francesa é o Estado Republicano, o Estado dos cidadãos. Isso desaparecerá. Continuaremos a dizer as palavras, mas já não seremos verdadeiramente os filhos da Revolução Francesa. Este é o grande perigo e é trágico. O défice no processo de governança europeia contribui para isso.

sexta-feira, agosto 17, 2007

UMA MÁSCARA DE CORDAS, A OCIDENTE


O homem andava precariamente, com o rosto vendado por voltas de cordas, num aperto que simulava a sufocação. Estendia os braços, o homem, abria as mãos de forma branda, as palmas voltadas para cima, como se esperasse um aviso subtil e supremo da divindade acrediata por quase todos.
Arrastava os pés na poeira branca do caminho e atrás dele seguia muito povo, povo atónito, que nunca assistira a esta forma de castigo, martírio ou penitência. Cada vez havia mais gente, incluindo crianças que se aproximavam daquela criatura tão erstranhamente amordaçada, cega, ou nobre ou plebeia, porque os sinais de classe haviam sido trocados pelos carcereiros e o resto sujeito à chuva, à lama, ventos enfim aterradores de pó e cinzas. A região estava ocupada por contingentes militares, legiões de grande porte, logística e armamento, acorrentando uma boa parte da população que adorava Cristhus, um jovem supremo e subtil, orador enigmático, acabando por traí-lo perante a própia lassidão ou desinteresse das autoridades e pedindo a sua morte, o que aconteceu entre muitos outros casos menos relevantes. Não havia mais de três anos. Agora aquele homem com o rosto, os olhos e a boca bem apertados num abraço de cordas duras, espessas, oleadas em azeite já queimado.
«Este sim, este é o verdadeiro Cristhus, andou pela Galileia a apregoar a libertação dos povos e falando de um Pai invisível que espalhara muitas em diferentes moradas pelos confins da abóda celeste.»
«Quem é que te disse tais coisas, Eremias?
«O Senhor do Templo, aquele sacerdote que já tem mais de cem anos e que afirma a eternidade de Cristhus, o sangue derramado para nada. Por isso é que ele está, vagueia não se sabe para onde.»
«Acreditas tantgo na voz ensandecida do Senhor do Templo? Não há eternidade. Há apenas a cegueira.»
«Cristhus morreu diante de toda a gente, da própia mãe, da mulher e dos filhos. Mas essa é a dor dos homens comuns: Cristhus ressuscitou ao fim de três dias e desapareceu para sempre, julgou o povo. Aqueles que mais falavam com ele, ao entardecer, depois de uma refeição frugal, contaram histórias vividas assim e pensamentos perturbantes que ouviram da boca daquele companheiro».
Enquanto decorria esta conversa mal atada e sem sentido, entre dois caminhantes, uma coluna de guerreiros a cavalo aproximou-se do grupo, vinda em sentido contrário. A coluna parou junto do homem amarrado e o comandante, com escudo de frente e uma espada erguida na vertical, num modo de quem quer dar a conhecer-se, indagando gestualmente que gente era aquela. Olhou intensamente o homem que se arrastava pelo efeito das cordas, do calor e do pó, e perguntou:
«Quem és tu? Que fazes com esta gente, a caminho do deserto?»
O provácel Cristhus disse:
«Eu não tenho nome senhor. Não conheci família e vivi, por caridade, em mosteiros que se erguem nas montanhas a Leste.»
«Mas então comandas assim essa pobre canalha que se acumula atrás de ti?»
«Não, senhor, não comando ninguém e só conheço meia dúzia desses companheiros.?
«Mas alguma coisa fazem em conjunto, assim, numa marcha arrastada?»
«Que eu saiba, não, nada. Eles estão aí porque me seguem, apenas isso. Eu sei apenas que vou para diante, para ocidente.»
O comandante da coluna pareceu incomodado com tanta evasiva. Disse entre dentes:
«Tudo isso é muito evasivo.»
O homem com o rosto coberto de cordas, concordou assim:
«Tem toda a razão, senhor. Tudo é evasivo porque o mundo não tem limites não sabemos quem somos.»
Do alto do cavalo, para onde voltara a trepar, o comandante escarneceu:
«Sois tolo, nada mais. E para que servem essas cordas que te apertam a cabeça?»
«Não são cordas, senhor, são espinhos».

quarta-feira, agosto 15, 2007

ESTE É O SEU MUNDO

Este é o título que a revista «Visão» aplicou à exposição com as melhores imagens do fotojornalismo mundial e nacional feitas em 2006. Esta aproximação de espaços que se contradizem entre si, pela guerra, pela miséria, pela riqueza, pelas doenças avassaladoras, é realizada no Museu da Electricidade, em Lisboa. Na abertuta do texto daquela revista (sobre este acontecimento) pode ler-se «o universal é o local sem paredes», indicação original e poderosa, de Miguel Torga, um dos nossos maiores poetas de sempre, cujo centenário do nascimento se comemora por estes dias e a cuja primeira manifestação faltaram quase todas as personalidades representativas do Governo e da cultura.
A fotografia é um dos mais importantes meios de expressão, tecnologicamente muito avançada, de que o homem do século XXI pode dispor, como já aconteceu no século anterior. Mas entretanto os meios avançaram substancialmente, não propriamente superando o sistema analógico no seu melhor, mas permitindo velocidade e concentração de registos. A objectividade parecia ser garantida pela aparente verdade de cada imagem, outrora como agora, colocando o mundo decisivamente sob os olhos do espectador. Contudo, como aliás aconteceu com outras artes, a veracidade (ou grau de reconhecimento das coisas) foi sofrendo idênticas distorções em nome de uma recriação do visível, também ela, a fotografia, permitindo metamorfoses inesperadas, acentuações, nivelamentos, o próprio trabalho de encobrimento de certas verdades, apesar de garantir outras por conveniência estética, cultural ou politica. Seja como for, por este meio podemos, mais do que em diversos casos de mobilidade, acompanhar com alguma imparcialidade e acesso a lugares remotos de grande parte do planeta em que vivemos.
A 50ª edição da «World Press Foto» recebeu a concurso 78083 imagem de 44600 fotógrafos oriundos de 124 países. O Prémio Fotojornalismo (de entre 6100 fotografias de 215 autores. A fotografia aqui publicada refere-se ao primeiro prémio na categoria de acontecimento/Notícias.

terça-feira, agosto 14, 2007

aos homens que souberam esperar pela manhã

Não, tu não sabes nada. Basta de palavras sem sentido. Tu não o conheceste, eras mais velho, sonhavas com as estrelas do cinema e, bem vistas as coisas, nem percebias que o cinema estava muito para lá da sua ostentação mediática. Quando nos levaram para Caxias, naquelas carrinhas pretas, depois de uma terrível viagem de combóio, tinhamos chegado para férias, a barba mal aflorava na pele do nosso rosto, retratos perdidos, gavetas que hoje podemos esvaziar sem que nelas encontremos um único sinal desses pobres adolescentes acabados de aceder à Universidade. O teu irmão sabia muito bem o que fazia, os riscos que corria, mas assumia sobretudo o traço ético das relações, a solidariedade nas conversas murmuradas ao cair da noite. Estás enganado, ele nunca aceitou verdadeiros contactos com o Partido. Se deixaste de o ver é porque te remeteste para as festas da tua tia, beneficiando de boas instalações, melhores contactos, numa clara ambição de chegar à magistratura, presumindo facilidades nos estudos e uma carreira na estrada dos priveligiados. Não? Não como? A tua participação nas defesas do Estado Novo foram meros acenos de brincar, a fatiota de estudante cravejada de marcas e rótulos sem origem? Não te lembras de nada melindroso, nem dos lusitos, nem dos actores que iriam reger o teu perfil, a tua pose de Estado, porque atiravas os sumários para o caixote do lixo, com displicência? Eras muito mais velho do que nós e andavas de cara sem barba, talvez por falta de hormonas masculinas ou pelos cremes que usavas no casino da praia. Eu sei, tenho a ideia precisa da distância que nos separava em férias ou em Lisboa. Isso não te garante o direito de apontares ao teu irmão, pelas ideias que o moviam, a repetição de que apenas recebias ordens superiores e que, de face obediente, aquele tribunal de normas específicas era tão legítimo como qualquer outro. Claro que não era, nem passava pela tua natural cara de efebo, apesar das honras e distinções que te pouparam a muitos sacrifícios. A tia, sim. A ideia meio achada de um brasão ostentado pelos antepessados. Não tem nada a ver uma coisa com a outra? O que é que queres dizer com isso? Ah, pois claro, aceitaste uma oferta, eras mais velho, começaste primeiro a via da tribuna e a roda de doutores que cercavam o teu tio, ministro da ordem pública, senhor dos deslizes encobertos. O André não badalava liberdades e subversões, nada disso, mas é certo que tinha o direito de partilhar as suas ideias acerca do país e do mundo com os colegas, com os amigos de café. Nunca tivemos, enquanto estudantes, senão essas tertúlias de uma privacidade legítima e respeitável. Quando passaste a gerir o vértice do tribunal, juiz acima de toda a suspeita, ainda tiveste a grandeza de salvar aquele médico que tratava o teu pai. Bem sei que julgar pode não se relacionar com uma simples memória de camaradagem ou de agradecimento. Mas não foi esse o teu juizo sobre as falsas acusações que atingiram o teu irmão e o atiraram para uma fuga sem medida. O regime era assim e os tribunais nunca foram impolutos, ainda que, em certras circunstâncias, o pareçam. O julgamento do André foi uma farsa, depois de cair nas malhas da polícia política, de ser acusado de movimentos subversivos (eufemismo mal amanhado) e de pertencer ao Partido na clandestinidade. Não queres ouvir estes disparates? Há sempre mal entendidos que te deixam de fora. Claro que aceito que não sabias das diligências em torno daquele grupo da faculdade de Direito. Ainda por cima. Aceito, ou melhor, acredito; o que não altera a parte de responsabilidade que te coube no julgamento hipócrita e na sentença cujo destino (o Tarrafal) te fez, enfim, assinar como vencido. Vencido de quê, se a tua argumentação marcava definitivamente o André e podia ter as consequências que veio a ter? Choraste? Mas que lágrimas foram essas, se nem os deveres de família cumpriste. Nós temos as gavetas cheias de fotografias dessa época, imagens amareladas, cartografia dos lugares que ocupaste desde a infância até às visitas à velha casa do sul, duas janelas ainda voltadas para a praia, antes da venda aos empreiteiros do muro que nos separa do mar. Longe, nesse mesmo mar, no oceano sulcado pelos tais antepassados cuja história se coloriu de glória, o Tarrafal foi um arrebatador monumento à insanidade dos governantes, dos juizes especializados, da modernidade que o poder se esforçava por anunciar com os argumentos paradoxais da sua negação. O teu irmão não foi julgado com justiça, não teve verdadeiramente culpa formada. Partiu ao cair da noite para a ilha do campo de concentração, em nome da defesa do Estado. E nunca mais voltou. Enterrado no chão calcinado pelo sol, ele que suportara trinta dias de solidão escaldante, só regressou ao nosso lugar pela parte generosa com que a revolução de Abril salpicou alguns monumentos da resistência e as cabeças brancas que vogaram no seio da multidão daquele primeiro de Maio. Achas que não? Achas o quê? O saneamento provisório do teu cargo foi apenas um gesto simbólico. Só agora o André chegou ao cemitério da nossa terra, em urna metálica como os soldados que o precederam nas colónias, e nem uma página, uma carta, um selo de esperança nos resta como memória desse esquecimento ilegal e monstruoso. Ah, essa nostalgia de Salazar não fará dele um verdadeiro herói: foi tardiamente saudado pelos votos incautos de um ridículo concurso de televisão. Deixa lá a Comédia da Vida. Abre as tuas gavetas e arruma os escassos valores que lá encontrares.

sábado, agosto 11, 2007

PORTUGAL DESENVOLVIDO VISTO DO FUTURO




Dubai faz a admiração e o nojo de muita gente. Esta concepção dos espaços para milionários, em pleno mundo da crise, é sem dúvida aberrante e coloca os problemas do lazer e do território novamente na balança das avaliações. As mais atrevidas, luxuosas e caras ideias do espectáculo, dos exclusivismos do bem estar, tudo isso, exposto aos nossos olhos, obriga-nos a passar depressa a barreira dos mimetismos gulosos, a impossibilidade moral de tanta riqueza para nada, e confrontar-nos com esses desastres principais que tomaram conta do mundo e do próprio planeta, entre avalanches de gelo a desfazer-se e chuvas diluvianas que arrasam populações, alojamentos, estruturas logísticas, uma inquietude cósmica, perante a qual, a médio e longo prazos, a ideia da sofisticação urbanística, engenhos conquistados ao oceano, terão de soçobrar em nome da sobrevivência. As antecipações da ficção científica deverão, em certos casos, aparecer como profecias, embora todos saibamos que muitas dessas obras partem de conhecimentos consolidados, restando-lhes a verdade da matemática para dizer o resto dos números. Dubai pode ser uma experiência cheia de erros e de surpreendentes ofertas, feira de propósito para negociar cinicamente com os clientes ricos, susceptível de declarar plausível mercados assim, prontos para receber o dinheiro sujo dos prepotentes do mundo, daqueles que governam povos em estado de miséria no interior de uma redoma imensa, no fundo da qual pode cheirar a petróleo ou existirem caixas blindadas carregadas de diamantes e de armas.
Lembro-me da Idade Média: é como se estivesse a ver e a rever o anverso e o reverso de uma medalha, talvez da moedsa que nos controla. As obras megalómanas, ou simplesmente públicas, colidem com a urgência em mudar os objectivos das sociedades e das civilizações, não apenas segundo a estranha mistura de desenvolvimento com crescimento, aumentando tudo, desvastando o habitat, imaginando mais poder do que mais equilíbrio.
Relendo a importância da reflexão sobre esses problemas, Miguel Sousa Tavares escreveu no «Expresso» sobre vários aspectos desta vasta lista de questões partindo de notícias locais, provincianas e talvez aterradoras. A propósito de obras públicas e privadas (ou tudo à mistura, como também acontece), ele começou por noticiar: «O primeiro Ministro foi ao Algarve anunciar mais sete megaprojectos imobiliário-turísticos, os quais, segundo acusações do engº Macário Correia, determinaram o adiamento da entrada em vigor do PROTAL, o plano de ordenação do território aprovado pelo próprio Governo: é que, à luz das normas do plano, e se este já estiver em vigor, os projectos não poderiam ser aprovados, nem como PIN. Assim, movido pelas melhores intenções, o Governo dispõe-se a pôr alguma ordem no ''desenvolvimento'' do Algarve. Mas, movido ainda por melhores intenções, trata primeiro de aprovar aquilo que possa contrariar as suas próprias leis. Na ria de Alvor, uma das raras paisagens naturais ainda preservadas de Portugal, o primeiro ministro deleitou-se a ouvir sete empresários chegarem-se sucessivamente ao microfone para elogiar a grande compreensão demonstrada pelo Governo em prol do ''desenvolvimento''. E, imaginando já uma paisagem PIN, semeada de hotéis, golfes, vivendas e milhares de camas, onde antes só havia verde, Redes Natura, ''habitats'' protegidos por directivas europeias e ''obstáculos'' quejandos, José Sócrates contemplou este Portugal do futuro e, embevecido pela sua visão, exclamou: Haverá sempre quem faça críticas, mas é disto que o país precisa»
Agora direi eu: como é que este primeiro-ministro, cujo programa inicial apontado ao país parecia incluir uma concepção geral, e bem contextualizada, da tecnologia correctamente aplicada à construção equilibrada, vem agora confundir as normas e as coisas, aceitando Dubais absurdos para uma província cujos erros no território obrigariam a implodir pelo menos metade do caos estabelecido? Picasso sabia bem o que dizia ao afairmar: «Um quadro é uma soma de destruições». O assessor do senhor primeiro-ministro para os assuntos das artes não lhe falou destes temas? Apetece recorrer de novo a Sousa Tavares: «O Governo encomenda, os bancos financiam, os escritórios de advogados do sistema fazem os contratos, as construtoras constroem e os contribuintes pagam. O país está cheio de porches e ferraris que sairam directamente do nosso bolso para ajudar a ''desenvolver'' Portugal.»

segunda-feira, agosto 06, 2007

UM DOLOROSO ERRO DE CASTING


Margarida Vila Nova, jovem actriz de grande talento, hábil a utilizar o estudo que faz sobre as personagens, tanto na televisão como o teatro e no cinema, aceitou interpretar o papel de uma personagem baseada na ex-companheira de Pinto da Costa, a autora do livro bibliográfico Eu, Carolina. Carolina, de súbito personalidade do jet set do mundo do futebol, passou também e exibir o estatuto de vedeta reveladora das situações e quadro moral desse mundo, do presidente do Futebol Clube do Porto em particular. O livro não tem perfil literário de qualquer nível assinalável, mas, dada a especial cultura que os portugueses se habituram a linguajar, por falta de alimento verdadeiro, alcançou várias edições e tem sido alimento de muita casa alfacinha.
Por estranho que pareça, ou pelas razões da conquista popular, João Botelho, realizador de cinema, resolveu fazer um filme baseado naquele «romance» eticamente duvidoso. Sustentado rapidamente pelo nome de Margarida para interpretar a inenarrável Carolina, papel que aceitou e que estudou, com o profissionalismo de sempre, as vozes do burgo cruzaram-se de entusiasmo e desdém. Nada de importante, valha a verdade. Mas o realizador amenizou, desde logo, as razões de iras várias, dizendo que o filme não ilustrava nem a vida nem as contradições daquele casal, passando um pouco ao largo do livro e escavando algumas peripécias meramente ficcionistas, embora impulsionadas pelo fenómeno editorial já referido. Quando soube da aceitação do trabalho pela Margarida, uma sombra indecisa poassou pelo belo rosto da actriz. Mas compreendi a sua possibilidade de defesa, justamente no domínio do enquadramento estri-tamente profissional, inclusive como desafio aos seus méritos. Mas, por muito que pintem aquele rosto jovem, por muito que o vistam com a roupa da outra, por muito até que o desempenho da actriz seja notável (o que não é difícil imaginar) a sua escolha continuará a ser, do meu ponto de vista, um erro de casting. Há valores, raridades, sonhos até, que não são susceptíveis de apertar numa caixa pequena, envernizada para um contexto pouco credível, apesar dos méritos do realizador.

quarta-feira, agosto 01, 2007

NA MORTE DE MICHELANGELO ANTONIONI


Anteontem de manhã, quando morreu Ingmar Bergman, muitos cineastas reflectiram sobre a existência de Michelangelo como o último representante de uma era de ouro desta arte soberba.
Afinal, doze horas depois morria tranquilamente o realizador italiano cuja grandeza, no ser e na realidade inalienável, marcara o seu tempo e o pensamento humano de forma profunda. Por estranho que pareça, uma espécie de destino conferiu simultaneidade e sentido simbólico ou trágico à morte destes dois homens. Aqui os lembramos, sonhando com a perenidade da sua mensagem.
No jornal O Público, Inês Nadais acompanha-nos assim:
«Chamar-lhe o cineasta da incomunicabilidade era outra forma de lhe chamar ''cineasta burguês'' -- mas, para ele, em 1950, já não havia outro cinema a fazer: era mais importante parar nas personagens para ver o que é que, de tudo o que se passava (a guerra, o pós-guerra, coisas que eram importantes de mais para não terem deixado vestígios nas pessoas) . Antonioni pensava então: «Comecei assim a analisar as condições de aridez espiritual e de frieza moral da burguesia. Precisamente porque me parecia que nessa ausência de qualquer interesse além do seu, nesse estar totalmente virado para si próprio, sem um contraponto moral, parecia existir matéria suficientemente imporante para um exame» Do realizador em 1961.
A maneira despojada como olhava para o mudo era transportada para uma câmara lenta e fria: a prótese adequada para o cineasta indagar os estados de alheamento, a lassidão dos gestos, o modo indeciso, desprendido, como as pessoas se afundavam no espaço urbano, em parte abandonadas pela luz, mascarando o quotidiano e encobrindo a incerteza do desejo.




Antonioni com Wenders:
tendo perdido a fala, Michelangelo
realizou o seu último flme em
colaboração com aquele colega




Mónica Vitti
«Obberwald













Eclipse ____________ _____________ Zabink Point

terça-feira, julho 31, 2007

NA MORTE DE INGMAR BERGMAN

Bergman 60


Não é possível pensar o cinema, na sua globalidade, sem citar Ingmar Bergman e a sua obra genial, os sonhos, as amarguras e os encontros da existência, os retratos de personagens inesquecíveis, uma deriva nostálgica pela vida interior de gente que colide com os desastres do mundo. São raros os autores, em cinema, que tenham, como ele, aprofundado a alma humana, a sua inquietude perante os sinais do ser e da morte.
«Para Silva Melo, a mistura e contaminação entre cinema e teatro, no autor sueco, salta aos olhos». E cita obras tão relevantes como O Sétimo Selo, Lágimas e Suspiros, Persona como referência a um puro Strindberg, ou As Três Irmãs, a partir de Tchekov.
O depoimento do crítico João Lopes tem um notável reflexo nas condições de recepção do grande cinema entre nós, durante e depois da ditadura. A actual castração do público português quanto a esta arte tem sido verdadeiramente criminosa, baseada em magníficos sistemas de distribuição, monopólio de salas minúsculas onde o som, colocado muito acima, destroça a qualidade e os ritmos internos de muitas películas».
Oiçamos João Lopes: «Para mim, acho que é disso que devemos falar a propósito da morte de um homem que celebrou a frondosa singularidade do género humano. E nos fez saber que a relação com o outro (humano ou divino) é sempre infinitamente complexa, desafiando-nos a viver apesar da certeza da morte. Ou melhor: contra a certeza da morte.
Acho que devemos falar desse escândalo que faz com que existem seres tão extraordinários como Bergman, capazes de nos mobilizar para a dificuldade de estarmos vivos e compreendermos os outros (e nós próprios), ao mesmo tempo que as formas de ficção mais poderosas nos submetem a uma lógica de crescente infantilização e banalidade.
Sermos dignos da herança ''bergmaniana'' é lidarmos de frente com a sua recusa de vulgarização narrativa e o seu empenho em defender a irredutibilidade de cada manifestação do factor humano. De resto, vejam-se os seus filmes».
Direi agora eu próprio, para terminar: é preciso separar a indúsria do cinema do chamado cinema de autor. Seria mau, certamente, que tivéssemos de suportar pintura realizada por uma centenas ou duas de operários trabalhando segundo o princípio da cadeia de montagem.

persona
Esta brevíssima imagem de um dos mais belos e
profundos filmes de Bergman lembra-nos
como o cineasta se apropriava do
dos fantasmas que se movementre nós e
nos duplicam e se desfocamna beleza da vida e das suas distâncias
_____________________________________________

Bergman já em idade avançada, sempre ligado ao teatro, de que nunca se esqueceu,
com o qual deixou para a humanidade indeléveis sulcos sobre o entendimento
da vida e da morte

domingo, julho 29, 2007

PARA ALÉM DO INFINITO


«Blade Runner» é uma obra de culto do cinema de ficção científica, deslumbrante reflexão sobre a manipulação bilógica do homem, entre a sua necessidade de sobrevivência num planeta chuvoso e apenas tolerável através de próteses tecnológicas (aquilo em que se tornara a Terra) e a tentativa de recriar a vida humana através de um caminho mais complexo. Tendo produzido seres de configuração integralmente humana, capazes de uma relação normal, funcional, o homem mal se apercebeu de que realizara uma criatura milhares de vezes superior a si mesmo, o que, de forma não muito longínqua, a realidade biocibernética poderia eventualmente conceder aos robbots capacidades bastantes para se multiplicarem e aumentarem os seus poderes. Estes seres denominavam-se replicantes, e o seu tecto de vida, como prevenção do homem perante a grandeza insondável do ser gerado, dominado por programas cibernéticos, teve que ser reduzido nas gerações mais recentes. O Homem-Deus, mais inseguro do que se julgara, dispondo de uma vida que rondava os noventa a cem anos, teve de programar os seus replicantes para uma resistência vital de quatro anos apenas. O que não deixou indiferente a inteligência replicante, para quem a vida ganhara um enorme valor cognitivo e afectivo, uma surda vontade de encontro e de pesquisa no espaço e no tempo.
A tese desta obra de grande qualidade, mesmo nos adereços que explicam e conotam os elementos de toda a relação dos seres e dos equipamentos, vem colocar-nos o problema essencial da vida: e é bem certo que o limite dos replicantes não passa de uma trágica metáfora sobre a própria vida humana, o seu sentido, a construção de estações espaciais para uma vida bem pior do que a dos replicantes, entre pesquisas e projectos de emigração na galáxia, a tecelagem de um futuro utópico mas já visionalizável. São esforços desesperados, num grande espaço de descoberta e construção, mas que está longe de vencer espaços imensos, afinal indecifráveis, mesmo como vanguarda no estudo colossal de 682 galáxias e milhares de astros singulares, de sistemas semelhantes ao nosso, mais distantes e solitários, em todo o caso, como nos dá a ver o terrível livro «A Nave da Esperança», de Edmund Cooper. Nesse caso, nunca chegamos a lugar nenhum, habitável, colonizável, sendo envolvidos pela curvatura do espaço, ao fim de centenas e centenas de gerações nascidas e educadas no cosmos, em torno do mito de chegada, e chegando absurdamente a um sistema onde um só planeta acusava algumas condições de vida. Era a Terra, obviamente. É uma pergunta crucial sobre a nossa natureza, a pergunta sobre o que somos e para quê, a par da vastidão percorrida minimamente durante mais de mil anos luz, em nome da descoberta das diferenças no exterior, da pulsão inimaginável do universo, e para descobrir mais do que isso -- um lugar estável onde a consciência humana tivesse apoio biológico e logístico. Porque a morte, cobrindo de absurdidade todos os nossos sonhos, não parece dominável, nem com uma vida prolongada e conservada (potencialmente recuperável para a ternidade).
Se os meios tecnológicos nos permitem, agora, descortinar, a milhões de anos de luz de distância, um espaço onde corpos e forças colossais se movimentam, se entrechocam por vezes, recriando o tecido do infinito, a verdade é que tal situação mais nos dá consciência da impossibilidade de racionalizar limites, entre a vida e a morte, entre este espaço e outros e outros, todos maiores do que o nosso próprio universo, e em expansão, em mutação, brutal de força e pulverizável no vórtice dos buracos negros. A condição humana é assim tão «explicável» pela imagem do bispo que jaz não sabemos onde, como, pelo replicante perplexo sob a chuva, ou por aquele outro, estupefacto na alucinação do sangue, a rede do sangue, geometria sempre mutilada -- todos nós perplexos, furiosamente amedrontados, enfim incapazes de reconhecermos quem somos.





sábado, julho 21, 2007

DO BLOG AOS RETRATOS SEM ROSTO



A expressão de ideias e sentimentos através das condições específicas do blog é uma recente aquisição do vasto campo instrumental que o homem tem concebido em nome da grande variedade de projectos e aproximação dos indivíduos entre si, quer para trocar ou partilhar informações, quer para fazer emergir do vazio presenças ignoradas, a voz escrita de alguém, retratos com ou sem a tradução do rosto. Eu não tenho nenhuma teoria bloguista, nem de concepção estrutural, nem de qualquer especificidade linguística desse meio, sobretudo nas ligações interactivas entre a palavra escrita e a imagem paralítica ou cinética, conceitos que decorrem directamente do cinema, da fotografia ou da televisão. Antes de criar um blog, aprendendo as operações aos solavancos, como acontece frequentemente aos autodidactas, o que eu sabia era-me transmitido por outros meios de comunicação, incluindo uma iniciada mitologia em torno de modos de formar, processamento técnico, temática inusitada, debate no âmbito do testemunho e da política. A isto se adicionava o grande universo da Internet, a sua pluralidade de temas e dados do conhecimento, os patamares operativos para os quais nós próprios podíamos reenviar réplicas de coisas, criações as mais diversas: a concavidade sem medida da Internet receberia tudo isso, doutrinas inteiras. Ora essa realidade (em parte virtual) fascinava-me um pouco, ao mesmo tempo que me levava a cogitar nas lacunas possíveis, nas sobreposições, no excesso, no lado perverso de certos aproveitamentos da curiosidade e dos mimetismos humanos.
O Blog, pelas suas características, despertava-me uma grande curiosidade, não tanto nas propriedades da forma (as quais existem noutros campos assumidos da criação literária ou pela imagem) mas sobretudo pela sensação territorial que parece legar-nos, tendo no seu campo autónomo indicadores de liberdade de expressão verdadeiramente aliciantes. Esses indicadores, embora veiculados à lei geral sobre a responsabilidade do nosso poder de intervenção pública, ou diante de acontecimentos graves, concediam-me uma considerável margem operatória, a qual, com efeito, ultrapassava a mobilidade armadilhada da pintura, a escassez dela perante a grandeza de tudo o que nos habita e desejamos partilhar com os outros, a pouca circulação do quadro em contraste com a viagm imediata de cada «postagem» que me ocorresse alinhar no campo.
Mas o meu maior apelo dizia já respeito à condição de habitante do blog, sabendo que o seu nome, desde logo, atrairia visitantes curiosos, concordâncias, discordâncias, expressas ou omitidas. Isso dependia de muitas coisas relativas à minha prestação, à sucessivas presenças, gritos, imagens, que se organizassem em termos de mensagem. Como em qualquer outro suporte, essa intervenção é claramente possível em termos de abertura, de contracção minimalista ou vive-versa, na linha, por exemplo, do que aconteceu com a art pop, numa dádiva coloquial às falas trocadas, aos encontros ficcionais, às cadeias de consumo, pela oportunidade de um comentário ou pelo tratamento das mais diversas situações. Estaria sempre livre para desenhar uma escrita breve e simples, a par de dialogar, nesse mesmo sentido, com os meus pares no domínio mais erudito da teoria da arte ou mesmo da sua política em redor.
Desde da primeira pessoa a quem enviei um e-mail no sentido de que ligasse para o «desenhamento», a corrida (escorreita, no meu caso) nunca mais parou. E é aí que se verifica o problema mais profundo (embora por vezes populista) que me tem envolvido no estudo sobre a imagem ausente, a voz insonora, o retrato sem rosto. Claro que, à medida que meia dúzia de pessoas se aproximam de nós, cúmplices, a dimensão psicológica dessas entidades vai ganhando forma -- e é como se o nosso imaginário, apoiado em dados do conhecimento científico, parecesse retratar, um pouco à maneira dos retratos robot usados pela polícia, alguém aqui menos cmprometido com semelhanças corporais ou deduzindo tais semelhanças pelo retrato psicológico acumulado em páginas de textos, comentáros, formas peculiares de descrever as coisas, avisos sobre temas e eventos preferidos, o aceno da partida, o chamamento inicial. Trata-se de um argumento cujo afloramento nos filmes não passa de suporte de certas vias de acção. Eu vejo-o, ao outro que entretanto escreve, suponho o retrato sem rosto em viagem anunciada pelos amigos, olhares escondidos, sem se reportar à marca da fotografia de alguém. Alguém na pose da fábula, ou meramente como no pragmatismo do bilhete de identidade, forma por vezes difusa mas reconhecível como realidade essencial da face palpável. No retrato identificador (que o é, na cereza de tudo) a aparência passa a revelar um rosto, mas o que sentimos para além dele é mais do que rosto, aproxima-se do entrosamento metafísico entre duas pessoas e a vários níveis: a fotografia nunca diz o que o longo encontro cultural, pela escrita, promove num espaço e num tempo indeterminados, mas animicamente determinantes. Isso faz-nos sentir uma espécie de nostalgia do rosto imaginado ou na presumível semelhança dele com gente que pertenceu ao nosso círculo de relações, que ajudou em parte a formar o nosso habitat. O lado metafísico dos cruzamentos de mensagens pode perfeitamente, além de abrir afectos, ajudar-nos a perceber o mundo na ausência de muitas coisas que o formam. Ou nesses velhos quadros onde a representação de uma figura, sem nos mostrar quase nada dela apesar da pose e do ponto de vista, dá-nos contudo a ver a atmosfera psíquica que se desprende da personagem, uma cabeça voltada e apesar disso revelando tristeza, alguma espera indizível, as mãos (que não vemos) e no entanto sabemos como se encontram cruzadas.
No Blog, cada viagem após a consolidação do primeiro diálogo consistente, a aventura reside em fazer jornalismo, ensaio, montagem de imagens, iniciar contactos a favor de uma interactividade palpável ou meramente virtual mas fecunda. E sobretudo parecem verídicos os nossos passos de ensaio no escuro, passos que nos levam a tocar (por exemplo) a seda de uma folha dormindo, a face de alguém na desculpabilização da surpresa e do encontro, a iniciação de um afecto -- e até mesmo de um amor.
É fascinante, sem dúvida. É estranho também, em todo o caso.

terça-feira, julho 17, 2007

O ENXERTO DE SARAMAGO

Saramago, Prémio Nobel
da lingua portuguesa

Numa entrevista concedida ao «Diário de Notícias», Saramago disse: «Portugal acabará por integrar-se na Espanha». E assim, breve, à sua volta, os homens de cultura ficaram em choque: porque uma coisa é fugir por medo, passados que são séculos de história, outra é anunciar algo que nunca será uma escolha e que, como soberania importada de fora, com cumplicidades cá dentro, acaba como retrato da traição. Algumas das reacções a este mergulho em direcção à jangada de pedra, mostram fundamentada indignação: porque Saramago tem uma «dívida para com a língua portuguesa», move-se numa rodilha de azedumes ligados à «ortodoxia marxista-leninista» Mais: «uma provocação deve ser motivo de reflexão» e a mim ocorre-me dizer que uma provocação deve ser antecipadamente reflectida, sobretudo como neste caso, dada a sua importância e os créditos de quem a soltou. Apesar das suas intervenções, quando convidado pela televisão, revelarem um contido apreço pelos problemas do homem e da criação, sem derrapagens deste tipo, nota-se que o desconforto de Saramago em relação a Portugal emerge aqui e além numa espécie de elipses ou de ardilosas metáforas. Saramago é agora acusado de ser incapaz de defender Portugal»

Martins da Cruz, Ministro dos Negócios Esrangeiros de Durão Barroso, foi talvez quem mais reagiu à frase da Saramago. «A visão de Saramago é uma visão do século XIX e não do século XXI. É muito fácil odiar Portugal no estrangeiro, o que é difícil é defender os interesses de Portugal no estrangeiro, e isso o sr. Saramago é manifestamente incapaz de fazer». Nesta linha de abordagem à insólita situação, também houve reacções de muitos intelecuais e escritores, como Vasco Graça Moura ou Manuel Alegre. «Ele tem a responsabilidade de ter ganho o Nobel da Literatura com a língua portuguesa», disse o poeta Manuel Alegre. «Saramago concebe a realidade como sendo gerível com uma engenharia de racionalidade» (considerou Graça Moura). Por muito que a medalha do Nobel notabilize um homem, neste caso um português, isso confere-lhe mais deveres perante a língua e a Pátria donde se alcandorou a esse galardão, do que direitos enviesados, má fé, arrogância, eufemismos perversos. Os direitos de expressão têm de ter sempre em conta os outros -- e, em casos assim, menor sensacionalismo e profunda reflexão sobre a hipótese formulada. Por mim, na raiz do meu ser e da minha língua, da nossa cultura e considerável antiguidade, muito teria para dizer a Saramago (apesar das minha deficiências e das fragilidades não usufruirem o benefício dos media), pois considero que o escritor contraiu uma grande responsabilidade a vários níveis. Portugal honrou-o, perdoou-lhe muitas sinuosidades, conversou civilizadamente sobre os valores humanos e a necessidade da arte. A caricatura da «Jangada de Pedra», Portugal voltado para a América e a Espanha com as suas feridas voltadas para a Europa, a cicatrizar, não tem necessariamente que deslizar para o sul. E era melhor a ideia de que essa ruptura servisse para ligar de novo os dois continentes, voltando assim a uma certa verdade original. Saramago deve reflectir, partindo de dentro de si mesmo e fazendo auto-crítica. Nas pedras de Lanzarote. Observando as condições capazes de permitirem saudavelmente o enxerto de uma coisa na outra. E a lembrar-se da humilde grandeza com que escreveu «Levantado do Chão».