ANJO 1998 segunda-feira, setembro 17, 2007
ARTISTAS PORTUGUESES CONTEMPORÂNEOS | Paula Rego
ANJO 1998 terça-feira, setembro 11, 2007
FOTO JORNALISMO NO HORROR E NA SOLIDÃO
O foto-jornalismo, a par de diversos tipos de representação fotográfica, corresponde por vezes a um trabalho penoso, marcado pela dor alheia e pela nossa própria angústia. O mundo retrata-se cada vez com mais meios e menor campo de equilíbrio, de consensualidade, de pontes sustentáveis entre povos, sistemas, alternativas em nome da paz. Estas palavras constituem
segunda-feira, setembro 10, 2007
MADELEINE, UM ROSTO DE SÚBITO IRREAL
sexta-feira, setembro 07, 2007
A SUAVE ESCRITORA E OS TERRORISTAS
Esta conhecida escritora das nossas letras, protagonista de grandes êxitos editoriais, em particular quanto aos milhares de livros vendidos, tem sido louvada e combatida por diferentes protagonistas da cena intelectual portuguesa, cronistas e críticos literários, aos quais ela responde de forma desnivelada, sobretudo desnecessária. Agora apareceu a atacar os «blogues», aquilo a que chama, destemperadamente. «um território de guerrilha suja, protagonizada pelos terroristas da Internet». Assim, tal e qual, todos ao molhe. Olhe, Margarida, eu uso este «territótio» como uso a pintura, o cinema e a literatura. Saberá você que, tendo eu uma obra vasta e de qualidade reconhecida (sem pretensão às filas da frente, claro), fizeram-me ancorar aqui e além, poucas críticas aos meus livros sabotados pelas máquinas editoriais e outras, pouco estudo da pintura, audiências da tarde, pelas seis horas na televisão (séries culturais sobre arte), um cinema de ensaio premiado lá fora e usado sobretudo na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Este ficar entre parenteses, este esboço de esquecimento, estas marcas do tráfico de influências inacessível, tudo isso (fora a vida académica) são dores que você não sente, circunstância que pode afectá-la, deixando-a contudo refém de um êxito periférico, cujo significado mais profundo tem maior importância quantitativa do que literária, presumo. Públiquei «Os Passos Encobertos» (romance), «Amnésia» (teatro), «Angola 61, uma crónica de guerra» (factos reais de uma comissão em Angola), «A Culpa de Deus» (romance, para um ensaio sobre o livre arbítrio). Foi decisivo o romance «A Casa Revisitada». Está para sair «Memória das Velhas Artes e os Segredos Conventuais», «Nojo aos Velhos também», e escrevo entretanto crítica de arte no JL, como aconteceu no Diário de Lisboa, Colóquio, Opção. Não estou a fazer o meu currículo: estou a mostrar-lhe que esta obra, reconhecida por personalidades de grande relevo, por vezes até indignadas com os silêncios, não passa pelo largo crivo oferecido à sua escrita. E isso revela como se sufoca em Portugal, como se discriminam valores erradamente, porque, para falar do seu caso, convido-a a ler A Culpa de Deus, avaliando-o segundo o seu critério, tentando perceber se tal obra é menos digna do que qualquer das suas. O que fazem as distribidoras e os escritores uns com os outros? Você acharaia mal que constitíssemos um Observatório para esta área, entidade ordenadora de quantidades, qualidades, regras, pareceres, propostas e definições vinculativas em certos casos? Se você não monta nenhum «blog» é porque pode escrever um livro num mês e atirá-lo para além da própria Internet. E creia que nem todos os bloguistas são terroristas, porque, em geral, são muitas coisas mais. Veja lá não lhe apeteça o caminho de Espanha, como o nosso colega Saramago, a globalidade subverte tudo em toda a parte. Faça por admirar também os seus inimigos. Torne as suas indignações matéria literária.
AS PAREDES FALANTES E A CASINHA MOTORIZADA
segunda-feira, setembro 03, 2007
LUGARES COM A MORTE ANUNCIADA
N. texto extraído da reportagem já referida, embora apresente alguns pontos de reescrita.
sábado, setembro 01, 2007
CULTURA TRANSGÉNICA DA CRÍTICA POLÍTICA
Personalidade de grande assiduidade interventiva, prestando trabalhos multimédia aos orgãos da comunicação social, instituições universitárias, forças partidárias e acontecimentos de reflexão política a diversos níveis, Pacheco Pereira tem marcado um longo período pós 25 de Abril da vida portuguesa com inusitada veemência teórica, incluindo o plano inventivo das hipóteses de transformação dos governos, sem desvios de uma democracia mais robusta de um ponto de vista ético. No último número da revista sábado, 30 de Agosto, 2007, coluna «A lagartixa e o jacaré», este erudito comentador preocupa-se com a RTP. Inquieto sobre quem manda nela, imagina-a governada por uma cadeia hierárquica que depende do par Santos Silva - Sócrates, como no passado aconteceu com o par Morais Sarmento - Barroso. Estes receios, poventura justificados, fazem parte do elenco de eventuais mordaças aplicadas ao universo da imprensa escrita ou audio-visual, que muitos apontam ao governo (leia-se Sócrates) e a uma espécie de projecto Big Brother para a nossa sociedade em geral, numa gestão orwelliana mais fina dos últimos fios de liberdade. O medo de ser português chegou às bancas em forma de livro, mas Pacheco Pereira, capaz de citar algum epifenómeno desse tipo, não é jogador cobarde, nem se furta aos possíveis ataques dos seus próprios correligonários: saltará sempre a crista da onda, criando rectaguardas demolidoras. A RTP foi sobretudo mais um pretexto para fazer política e atacar o primeiro-ministro, figura a quem reconhecerá alguns feitos e alguma coragem, mas que se aproxima cada vez mais do fim do mandato e da natural perda da maioria absoluta no Parlamento. Embora os monitores caseiros andem atulhados de futebol, como sempre, Pacheco Pereira, quanto à RTP, acha que ela está demasiado sobrecarregada de «momentos Chávez», expressão algo grosseira para caracterizar os momentos (quanto a mim, muito escassos) em que o primeiro-ministro aparece nos ecrãs. Pacheco diz que Sócrates se apresenta «compostinho e grave, a falar do palanque nas condições preparadas profissionalmente pela sua máquina de propaganda». O povo gosta desta visão chocarreira aplicada aos governantes, mas a intervenção séria sobre tais problemas, e num país ainda largamente iletrado, deve reger-se por melhores critérios éticos, não por uma espécie de hipertrofia transgénica no apontamento dos erros e dos fatinhos domingueiros. O crítico, aqui, acha que tudo é sempre encenado, calculado, incluindo figurantes, e enquadramentos de reportagem. E em todos estes aparecimentos do primeiro-ministro na televisão (aparecimentos a que chamarei, por agora, esporádicos), Sócrates «não se pronuncia sobre nada de importante, seja a 'ceifa' transgénica e a apatia da GNR, sejam as estatísticas preocupantes da enonomia portuguesa, seja o silêncio sobre as negociações do célebre 'tratado reformador', sobre o qual nada se sabe, apareceu de novo para as habituais sessões de propaganda». Depois, e na mesma forma, a frase ácida vai para novos pretextos de gabarolice saloia quando o primeiro-ministro entrega computadores ao abrigo do Programa Novas Oportunidades, «ocasião única de armazém, que pode ser repetida quantas vezes se quiser». A entrega dos computadores tem de facto um significado real de grande importância se pensarmos a sua relação com outros problemas da área do ensino, mas concordo que, repetida cem vezes, ou mesmo cinquenta, ou mesmo dez, ou mesmo cinco, pecará por redundância política. Quanto ao resta, as coisas fiam mais fino. E das duas, uma: ou Pacheco Pereira é a personalidade culta, sólida e séria que tantas vezes tem procurado fazer passar, ou o seu inegável talento analítico e literário estão enlameados pelo lado mais soez da política, precisando o autor desse género de populismo para apontar erros a Sócrates e ao Governo. Se estivéssemos em lugar e circunstância adequados, penso que valeria a pena confrontar Pacheco Pereira com as descaracterizações, distorções, mal-dizer paranóico, intencionalidades enviesadas, partindo apenas do modo de usar palavras como propaganda, máquina, recado governamental, conveniência, condições preparadas, palanque, falar do palanque, sempre com amplo tempo, compostinho e grave, mitologia ideológica do serviço público, e, entre outras falas engrenadas como vimos atrás, para terminar com o golpe fulminante «momentos-Chávez», momentos inadmissíveis em termos jornalísticos, sobretudo na «oficiosidade» das notícias. Lamento este género de colorido e de vocabulário, com a carpintaria jocosa (para dizer o menos) que nos foi oferecida em toda a crónica «Problema da RTP». Tal trabalho jornalístico, em vez de um outro mais didáctico e com menos empáfia, esse sim, é que anuncia o medo, é que engatilha a humilhação, é que borra o retrato para que nos sintamos pequenos e informes ao espelho do «Big Brother».
Rocha de Sousa
SARAMAGO FUNDADO E FUNDAMENTADO
quinta-feira, agosto 30, 2007
A GRANDEZA DA DÚVIDA
Esta mulher que ostentava frequentemente um sorriso, na sua aproximação aos grupos de humanos miseráveis, foi durante décadas dilacerada pela dor, pela dúvida, por uma solidão sem luz e sem a verdade de um convívio caloroso. Ao seu júbilo no entendimento de Cristo, seguiam-se muitas vez horas de angústia e de ausência. A caridade cristã é um domínio que se reveste de algumas obscuridades e que se confronta, todos os dias, com a aparente impossibilidade de minorar a miséria e o sofrimento em muitos pontos do mundo. Madre Teresa de Calcutá era conhecida como a «Santa dos Pobres» e foi-lhe conferido o Prémio Nobel da Paz em 11 de Dezembro de 1979. A sua obra humanitária, eventualmente discutível por alguns pragmatismos, é contudo de uma grandeza insofismável. Mas a sua entrega, longa e penosa, foi atravessada pelas dores da incerteza e do modo de como aceder a Deus. As cartas que escreveu e que havia pedido para serem destruídas após a sua morte, foram largamente conservadas pela Igreja e poderão, publicadas na biografia de Madre Teresa, servir de caminho de reflexão aos homens, sobretudo aos que se julgam pilares inabaláveis da prática diária do catolicismo. Quem julgava conhecer bem esta mulher, nos actos e nas palavras, tem hoje, no seu testemunho mais profundo, sinais dela num sentido por vezes semelhante ao drama do existencialismo nos anos cinquenta. «Como se um dos maiores ícones humanos dos últimos cem anos, cujos notáveis feitos parecem intrinsecamengte ligados à sua proximidade de Deus e que era habitualmente observada em silêncio e em oração, tanto pelos seus próximos como pelas câmaras de televisão, estivesse a viver em privado uma realidade espiritual muito diferente, uma paisagem árida da qual a divindade desaparecera» 1 Do léxico de Teresa de Calcutá fazem parte, numa inquietante autocontradição, palavras tão acutilantes e actuais como «secura», «escuridão», «tortura», «solidão». O sorriso, escreveu ela, é uma «máscara» ou «um manto que cobre tudo». Apesar do desenvolvimento das «Missionárias da Caridade» pelo mundo em geral, Madre Teresa interrogava-se, como que a sangrar: «Trabalho para quê? Se não há Deus não pode haver alma. Se não há alma, então Jesus Tu também não és verdade». Aqui aparece, em duas palavras apenas, a dúvida sobre a existência de Deus. Num documento assombroso, uma carta dirigida a Jesus, Teresa queixa-se de sua condição de sofrimento, de uma «agonia indescritível» E acrescenta: «Muitas perguntas sem resposta vivem dentro de mim com receio de as destapar ( por causa da blasfémia); se existe Deus, por favor perdoa-me. Quanto tento elevar os meus pensamentos ao Céu, há um vazio tão culpado que esses mesmos pensamentos regressam como facas e ferem a minha própria alma. Dizem-me que Deus me ama, mas a realidade da escuridão, da indiferença e do vazio, é tão grande que nada toca a minha alma. Terei cometido um erro em entregar-me ao Apelo do Sagrado Coração?1 Madre Teresa de Calcutá dirigiu ao reverendo Michael van der Peet, em Setembro de 1979, entre outras, as seguintes palavras: Jesus tem um amor muito especial por si. Contudo, em relação a mim o vazio e o silêncio é tão grande, que olho e não vejo, que escuto e não ouço (...) Na minha própria alma, sinto a terrível dor da sua perda. Sinto que Deus não me quer, que Deus não é Deus». Como se não existisse verdadadeiramente. Aos que ouvem assim esta mulher, a questão da vida, da morte e da salvação desfocam-se porventura na própria escuridão de cada um deles.
Madre Teresa de Calcutá morreu em 1997.
______________________________
1 Este texto foi trabalhado, além das citações, com as páginas dedicadas a Terese de Calcutá, pela «Visão», em 30 de Agosto de 2007
quarta-feira, agosto 29, 2007
A CRUCIFICAÇÃO PÓS-MODERNA DE JESUS
segunda-feira, agosto 27, 2007
PREPARANDO OS NOVOS DESCOBRIMENTOS
domingo, agosto 26, 2007
NA MORTE DE EDUARDO PRADO COELHO
Eduardo Prado Coelho não sejam remetidas para o esquecimento
quarta-feira, agosto 22, 2007
E ENTÃO JÁ NÃO SEREMOS VERDADEIRAMENTE OS FILHOS DA REVOLUÇÃO FRANCESA
A entrevista que Joseph Weiler concedeu ao expresso, no dia 11 de Agosto, tritura-nos com uma linguagem sacudida e democraticamente aterradora. É preciso reflectir com ele, um homem especializado em Direito Europeu, mesmo que não seja, em rigor, um europeu -- segundo as considerações iniciais das jornalistas Cristina Peres e Luisa Meireles. Se não existe governo na União Europeia, porque «não existe nenhum momento na nossa vida cívica como cidadãos europeus», que fazemos? Há solução para isso?
Joseph Weiler: «Primeiro, temos de admitir o problema e não fingir que ele não existe, ou que as medidas previstas funcionam. Por exemplo, aumentar o poder do Parlamento Europeu. Sabemos que não é a solução completa. É engraçado, é um dos mais espectaculares erros sobre a integração europeia. Há cerca de 20 anos, o meu primeiro livro foi sobre o Parlamento Europeu, e escrevi na altura que a taxa de afluência às eleições era muito baixa. Não era surpreendente porque o PE não tem poder, então porque é que as pessoas iriam perder o seu tempo a votar? Previ -- e esse seria o meu erro mais espectacular -- que, à medida que o PE ganhasse poder real, a afluência às eleições aumentaria. Nos últimos 25 anos, ele foi ganhando imenso poder, tem hoje competência legislativa e poder de co-decisão com o Conselho, mas a taxa de afluência declina consistentemente. Mais poder e menos participação! As pessoas na Europa não parecem estar preocupadas, mas preocupa-me que elas não se preocupem. Isso mostra que já perderam muita sensibilidade cívica. A vida é boa, para quê preocupar-me? Sou um consumidor de resultados políticos, não um cidadão pró-activo.»
A União Europeia pode desaparecer?
Weiler: Não. Mas pode haver uma mudança profunda na maneira como pensamos em nós próprios. Veja um exemplo perigoso: na Grécia, as pessoas dão aos seus filhos nomes de Hector ou Helena e falam uma língua que se parece com o grego antigo. Mas não existe conexão entre esta gente e a cultura da Antiguidade. O mesmo se passa no Egipto, não existe nenhuma relação entre a sociedade egípcia actual e a grande civilização dos faraós. O perigo não é que a União Europeia desapareça, mas que continuemos a acreditar que somos filhos da Revolução Francesa. Não há uma conexão real com a herança do Iluminismo. A herança da Revolução Francesa é o Estado Republicano, o Estado dos cidadãos. Isso desaparecerá. Continuaremos a dizer as palavras, mas já não seremos verdadeiramente os filhos da Revolução Francesa. Este é o grande perigo e é trágico. O défice no processo de governança europeia contribui para isso.
sexta-feira, agosto 17, 2007
UMA MÁSCARA DE CORDAS, A OCIDENTE
Arrastava os pés na poeira branca do caminho e atrás dele seguia muito povo, povo atónito, que nunca assistira a esta forma de castigo, martírio ou penitência. Cada vez havia mais gente, incluindo crianças que se aproximavam daquela criatura tão erstranhamente amordaçada, cega, ou nobre ou plebeia, porque os sinais de classe haviam sido trocados pelos carcereiros e o resto sujeito à chuva, à lama, ventos enfim aterradores de pó e cinzas. A região estava ocupada por contingentes militares, legiões de grande porte, logística e armamento, acorrentando uma boa parte da população que adorava Cristhus, um jovem supremo e subtil, orador enigmático, acabando por traí-lo perante a própia lassidão ou desinteresse das autoridades e pedindo a sua morte, o que aconteceu entre muitos outros casos menos relevantes. Não havia mais de três anos. Agora aquele homem com o rosto, os olhos e a boca bem apertados num abraço de cordas duras, espessas, oleadas em azeite já queimado.
quarta-feira, agosto 15, 2007
ESTE É O SEU MUNDO
terça-feira, agosto 14, 2007
aos homens que souberam esperar pela manhã
Não, tu não sabes nada. Basta de palavras sem sentido. Tu não o conheceste, eras mais velho, sonhavas com as estrelas do cinema e, bem vistas as coisas, nem percebias que o cinema estava muito para lá da sua ostentação mediática. Quando nos levaram para Caxias, naquelas carrinhas pretas, depois de uma terrível viagem de combóio, tinhamos chegado para férias, a barba mal aflorava na pele do nosso rosto, retratos perdidos, gavetas que hoje podemos esvaziar sem que nelas encontremos um único sinal desses pobres adolescentes acabados de aceder à Universidade. O teu irmão sabia muito bem o que fazia, os riscos que corria, mas assumia sobretudo o traço ético das relações, a solidariedade nas conversas murmuradas ao cair da noite. Estás enganado, ele nunca aceitou verdadeiros contactos com o Partido. Se deixaste de o ver é porque te remeteste para as festas da tua tia, beneficiando de boas instalações, melhores contactos, numa clara ambição de chegar à magistratura, presumindo facilidades nos estudos e uma carreira na estrada dos priveligiados. Não? Não como? A tua participação nas defesas do Estado Novo foram meros acenos de brincar, a fatiota de estudante cravejada de marcas e rótulos sem origem? Não te lembras de nada melindroso, nem dos lusitos, nem dos actores que iriam reger o teu perfil, a tua pose de Estado, porque atiravas os sumários para o caixote do lixo, com displicência? Eras muito mais velho do que nós e andavas de cara sem barba, talvez por falta de hormonas masculinas ou pelos cremes que usavas no casino da praia. Eu sei, tenho a ideia precisa da distância que nos separava em férias ou em Lisboa. Isso não te garante o direito de apontares ao teu irmão, pelas ideias que o moviam, a repetição de que apenas recebias ordens superiores e que, de face obediente, aquele tribunal de normas específicas era tão legítimo como qualquer outro. Claro que não era, nem passava pela tua natural cara de efebo, apesar das honras e distinções que te pouparam a muitos sacrifícios. A tia, sim. A ideia meio achada de um brasão ostentado pelos antepessados. Não tem nada a ver uma coisa com a outra? O que é que queres dizer com isso? Ah, pois claro, aceitaste uma oferta, eras mais velho, começaste primeiro a via da tribuna e a roda de doutores que cercavam o teu tio, ministro da ordem pública, senhor dos deslizes encobertos. O André não badalava liberdades e subversões, nada disso, mas é certo que tinha o direito de partilhar as suas ideias acerca do país e do mundo com os colegas, com os amigos de café. Nunca tivemos, enquanto estudantes, senão essas tertúlias de uma privacidade legítima e respeitável. Quando passaste a gerir o vértice do tribunal, juiz acima de toda a suspeita, ainda tiveste a grandeza de salvar aquele médico que tratava o teu pai. Bem sei que julgar pode não se relacionar com uma simples memória de camaradagem ou de agradecimento. Mas não foi esse o teu juizo sobre as falsas acusações que atingiram o teu irmão e o atiraram para uma fuga sem medida. O regime era assim e os tribunais nunca foram impolutos, ainda que, em certras circunstâncias, o pareçam. O julgamento do André foi uma farsa, depois de cair nas malhas da polícia política, de ser acusado de movimentos subversivos (eufemismo mal amanhado) e de pertencer ao Partido na clandestinidade. Não queres ouvir estes disparates? Há sempre mal entendidos que te deixam de fora. Claro que aceito que não sabias das diligências em torno daquele grupo da faculdade de Direito. Ainda por cima. Aceito, ou melhor, acredito; o que não altera a parte de responsabilidade que te coube no julgamento hipócrita e na sentença cujo destino (o Tarrafal) te fez, enfim, assinar como vencido. Vencido de quê, se a tua argumentação marcava definitivamente o André e podia ter as consequências que veio a ter? Choraste? Mas que lágrimas foram essas, se nem os deveres de família cumpriste. Nós temos as gavetas cheias de fotografias dessa época, imagens amareladas, cartografia dos lugares que ocupaste desde a infância até às visitas à velha casa do sul, duas janelas ainda voltadas para a praia, antes da venda aos empreiteiros do muro que nos separa do mar. Longe, nesse mesmo mar, no oceano sulcado pelos tais antepassados cuja história se coloriu de glória, o Tarrafal foi um arrebatador monumento à insanidade dos governantes, dos juizes especializados, da modernidade que o poder se esforçava por anunciar com os argumentos paradoxais da sua negação. O teu irmão não foi julgado com justiça, não teve verdadeiramente culpa formada. Partiu ao cair da noite para a ilha do campo de concentração, em nome da defesa do Estado. E nunca mais voltou. Enterrado no chão calcinado pelo sol, ele que suportara trinta dias de solidão escaldante, só regressou ao nosso lugar pela parte generosa com que a revolução de Abril salpicou alguns monumentos da resistência e as cabeças brancas que vogaram no seio da multidão daquele primeiro de Maio. Achas que não? Achas o quê? O saneamento provisório do teu cargo foi apenas um gesto simbólico. Só agora o André chegou ao cemitério da nossa terra, em urna metálica como os soldados que o precederam nas colónias, e nem uma página, uma carta, um selo de esperança nos resta como memória desse esquecimento ilegal e monstruoso. Ah, essa nostalgia de Salazar não fará dele um verdadeiro herói: foi tardiamente saudado pelos votos incautos de um ridículo concurso de televisão. Deixa lá a Comédia da Vida. Abre as tuas gavetas e arruma os escassos valores que lá encontrares.
sábado, agosto 11, 2007
PORTUGAL DESENVOLVIDO VISTO DO FUTURO
Dubai faz a admiração e o nojo de muita gente. Esta concepção dos espaços para milionários, em pleno mundo da crise, é sem dúvida aberrante e coloca os problemas do lazer e do território novamente na balança das avaliações. As mais atrevidas, luxuosas e caras ideias do espectáculo, dos exclusivismos do bem estar, tudo isso, exposto aos nossos olhos, obriga-nos a passar depressa a barreira dos mimetismos gulosos, a impossibilidade moral de tanta riqueza para nada, e confrontar-nos com esses desastres principais que tomaram conta do mundo e do próprio planeta, entre avalanches de gelo a desfazer-se e chuvas diluvianas que arrasam populações, alojamentos, estruturas logísticas, uma inquietude cósmica, perante a qual, a médio e longo prazos, a ideia da sofisticação urbanística, engenhos conquistados ao oceano, terão de soçobrar em nome da sobrevivência. As antecipações da ficção científica deverão, em certos casos, aparecer como profecias, embora todos saibamos que muitas dessas obras partem de conhecimentos consolidados, restando-lhes a verdade da matemática para dizer o resto dos números. Dubai pode ser uma experiência cheia de erros e de surpreendentes ofertas, feira de propósito para negociar cinicamente com os clientes ricos, susceptível de declarar plausível mercados assim, prontos para receber o dinheiro sujo dos prepotentes do mundo, daqueles que governam povos em estado de miséria no interior de uma redoma imensa, no fundo da qual pode cheirar a petróleo ou existirem caixas blindadas carregadas de diamantes e de armas.
segunda-feira, agosto 06, 2007
UM DOLOROSO ERRO DE CASTING
quarta-feira, agosto 01, 2007
NA MORTE DE MICHELANGELO ANTONIONI
Mónica Vitti
terça-feira, julho 31, 2007
NA MORTE DE INGMAR BERGMAN
Esta brevíssima imagem de um dos mais belos e
domingo, julho 29, 2007
PARA ALÉM DO INFINITO

sábado, julho 21, 2007
DO BLOG AOS RETRATOS SEM ROSTO

terça-feira, julho 17, 2007
O ENXERTO DE SARAMAGO
Numa entrevista concedida ao «Diário de Notícias», Saramago disse: «Portugal acabará por integrar-se na Espanha». E assim, breve, à sua volta, os homens de cultura ficaram em choque: porque uma coisa é fugir por medo, passados que são séculos de história, outra é anunciar algo que nunca será uma escolha e que, como soberania importada de fora, com cumplicidades cá dentro, acaba como retrato da traição. Algumas das reacções a este mergulho em direcção à jangada de pedra, mostram fundamentada indignação: porque Saramago tem uma «dívida para com a língua portuguesa», move-se numa rodilha de azedumes ligados à «ortodoxia marxista-leninista» Mais: «uma provocação deve ser motivo de reflexão» e a mim ocorre-me dizer que uma provocação deve ser antecipadamente reflectida, sobretudo como neste caso, dada a sua importância e os créditos de quem a soltou. Apesar das suas intervenções, quando convidado pela televisão, revelarem um contido apreço pelos problemas do homem e da criação, sem derrapagens deste tipo, nota-se que o desconforto de Saramago em relação a Portugal emerge aqui e além numa espécie de elipses ou de ardilosas metáforas. Saramago é agora acusado de ser incapaz de defender Portugal»
Martins da Cruz, Ministro dos Negócios Esrangeiros de Durão Barroso, foi talvez quem mais reagiu à frase da Saramago. «A visão de Saramago é uma visão do século XIX e não do século XXI. É muito fácil odiar Portugal no estrangeiro, o que é difícil é defender os interesses de Portugal no estrangeiro, e isso o sr. Saramago é manifestamente incapaz de fazer». Nesta linha de abordagem à insólita situação, também houve reacções de muitos intelecuais e escritores, como Vasco Graça Moura ou Manuel Alegre. «Ele tem a responsabilidade de ter ganho o Nobel da Literatura com a língua portuguesa», disse o poeta Manuel Alegre. «Saramago concebe a realidade como sendo gerível com uma engenharia de racionalidade» (considerou Graça Moura). Por muito que a medalha do Nobel notabilize um homem, neste caso um português, isso confere-lhe mais deveres perante a língua e a Pátria donde se alcandorou a esse galardão, do que direitos enviesados, má fé, arrogância, eufemismos perversos. Os direitos de expressão têm de ter sempre em conta os outros -- e, em casos assim, menor sensacionalismo e profunda reflexão sobre a hipótese formulada. Por mim, na raiz do meu ser e da minha língua, da nossa cultura e considerável antiguidade, muito teria para dizer a Saramago (apesar das minha deficiências e das fragilidades não usufruirem o benefício dos media), pois considero que o escritor contraiu uma grande responsabilidade a vários níveis. Portugal honrou-o, perdoou-lhe muitas sinuosidades, conversou civilizadamente sobre os valores humanos e a necessidade da arte. A caricatura da «Jangada de Pedra», Portugal voltado para a América e a Espanha com as suas feridas voltadas para a Europa, a cicatrizar, não tem necessariamente que deslizar para o sul. E era melhor a ideia de que essa ruptura servisse para ligar de novo os dois continentes, voltando assim a uma certa verdade original. Saramago deve reflectir, partindo de dentro de si mesmo e fazendo auto-crítica. Nas pedras de Lanzarote. Observando as condições capazes de permitirem saudavelmente o enxerto de uma coisa na outra. E a lembrar-se da humilde grandeza com que escreveu «Levantado do Chão».

