sexta-feira, agosto 15, 2008

SILVES: FEIRA MEDIEVAL OU ILUSÃO CÉNICA


A Feira Medieval de Silves é uma tradição recente. A iniciativa parece razoavelmente adequada à actividade comercial e à transacção de artesanatos. A dificuldade de estudar o assunto, sobretudo pela sua eventual configuração com a Idade Média, oferece ainda mais escolhos por se tratar da simulação de um espectacular evento decorrido (era o tema este ano) numa das mais florescentes cidades sob domíno árabe no século XI, coisa que mal foi sugerida, ao contrário dos outros anos, pois a presença dos mouros esteve praticamente nula e os trajes usados em 2007 escasseavam, quase todos eles haviam sido substituídos, em precariedade, por novas e raras peças. A estereotipação de modelos de barracas, lugares de venda de refeições, comércio a céu aberto, tudo isso, embora em áreas mais vastas, quase nada mostrava de recuperação icónica, de adereços ou acções históricas. Um esforço deste tipo poderia enquadrar (até para o futuro) maior fidelidace didáctica. Claro que a vertente comercial tem vindo a absorver a orientação das coisas: um mínimo de rigor, a par da extensão das coisas acaba dominado por comerciantes marroquinos, objectos artesanais sem modelos de autenticidade, argolas, pulseiras com vidrinhos, colares aos milhares, algum anedotário da cerâmica, coiros, adereços de ornamento e tecidos. O sucesso não é da simulação mas da mania das compras, vulgaridades que o português compra, aqui ou no estrangeiro. Trata-se pois de uma feira como outra qualquer, mais intimista, mas escandalosamente falsa na identidade cénica.



domingo, agosto 10, 2008

RUÍNAS ANTIGAS, CIVILIZAÇÕES PERDIDAS

Efeso

pelo Médio Oriente
e a força das gentes
convictas do poder divino








dos egípcios,
Karnak.
e um faraó
refém do
poder dos
sacerdotes







Não me lembro se visitei estes lugares, ruínas antigas, memória de trabalhos que duravam séculos. Mas tenho visitado documentos e legendas que se completam com um registo bem poderoso, o da fotografia, entre olhares de hoje para ontem. Nestas imagens mal lembradas, o registo fotográfico mostra-nos formas rigorosas, imensas por vezes, suspensas pelas forças arquitecturais e o belo traço da geometria, além de edifícios inteiros, nus, fortes, monumentais, inacreditavelmente assentes em terrenos arenosos, tudo no trânsito das civilizações, ou de gente que queimava vidas inteiras para apurar e sobrepor tantos materiais do puzzle ilusório, a eternidade procurada numa precariedade desconhecida. Mas a verdade é que nem os deuses são eternos, nunca sobreviverão ao apagamento das espécies, incluindo a humana. As ruínas antigas, de civilizações perdidas, são em parte a demonstração de que já não passam disso; são visitáveis pelos últimos homens, numa curiosidade mórbida de saber quem fomos há milhares de anos, mas não mais como última prece do seu poder, agora que os pedaços de templos e palácios só servem imagens parcelares do mundo outrora, o esforço e a inteligência de uma espécie, que é entretanto presumível, nem sequer sobreviverá aos insectos. Levo as fotografias para casa, para os filhos. Se calhar para os netos, ou para os netos dos netos, num tempo previsivelmente aquecido e tormentoso, em que as prioridades terão pouco que ver com o crescimento físico e o dinheiro, material de jogos e tentações avassaladoras.

sábado, agosto 09, 2008

SOLJENITSINE, DO GULAG ÁS HONRAS DE ESTADO

Alexandre Soljenitsine (1918-2008)

Alexandre Soljensitsine, escritor russo, Prémo Nobel da Litertura em 1970, faleceu no início da semana e foi lembrado em todo o mundo. Soljensitsine, um escritor russo nas suas grandes linhas de definição, consagrou-se em parte como os artistas apanhados pela violência da História, dotados de uma grandeza trágica ou heróica. Acabou por ser assim, depois de vinte anos de exílio, ao regressar à Rússia, louvado a vários níveis, herói enfim respeitado e que veio a morrer no princípio da semana, aos 89 anos. O regresso verificara-se em 1994. Passara entretanto exilado durante 20 anos, 17 dos quais nos Estados Unidos. O seu regresso foi também a persistência da voz profunda da Rússia, a Rússia imensa e mítica.

Soljenitsin não se identificava com a figura habitual do dissidente, tendo mantido uma nítida distância crítica em relação a Sakarov. Aliás permaneceu refractário à ideia da ocidentalização da Rússia. O seu discurso, para além disso, marcou quase todos aqueles que, com o «Arquipélago de Gulag», o glorificaram. O seu retorno envolveu um discurso religioso, otodoxo, acompanhado por posições nacionalistas ou a inegável expressão de um misticismo das raízes. A mágoa dos companheiros de outrora tinha as suas razões: não porque faltassem as provas, os documentos, os testemunhos, as análises do que se havia passado na pátria do «socialismo real. De facto, a obra de Soljenitsine, cujo primeiro volume se publicou em 1973, emprestava uma dimensão grandiosa e altamente documentada dos factos, altura em que o Gulag, afinal, se tornara uma palavra-chave da consciência ocidental acerca do que acontecera na União Soviética. Em boa verdade, o livro que consagrou o autor do ponto de vista literário foi uma novela extraordinária que se intitulou «Um Dia na Vida de Ivan Denissovith». Aí acopanhamos a jornada de um camponês num campo de trabalho soviético. Obra que reflecte a própria experiência do escritor, o qual passou oito anos como prisioneiro num desses sinsitros lugares, aliás amplamente multiplicados por Staline. Após a entrega do Nobel a Soljenitsine, o herói futuro, em vez de voltar ao seu país, acolheu-se significativamente a Estocolmo. O medo não poupa os heróis. O seu retorno à terra mãe, décadas depois, pode envolver cada emigrante qualificado na liturgia do reconhecimento e da grandeza. Soljenitsine, cumpridas as suas vontades, foi enterrado com a benção grandiosa do Estado.

terça-feira, agosto 05, 2008

A ESTRANHA PEDAGOGIA NAS ESTRADAS


São estranhas, em Portugal, as campanhas das autoridades que têm a seu cago a vigilância, prevenção e acções pedagógicas no sector rodoviário de todo o teritório. Não é a primeira vez que abordo aqui esse problema, um dos mais sérios com que nos defrontamos nos noticiários, num clima especulativo e demagógico pela referência das imagens, bem como na repetição inconsequente das mesmas razões para os desastres, sem que, em sede de redacção, os jornalistas se detenham a examinar, noutras perspectivas, a regularidade, em números e desgaste, dos desastres que acontecem nas nossas auto-estradas, estradas e cidades.
Todos os anos, nas Festas e na abertura da temporada de férias correspondentes ao Verão, as brigadas de segurança às estradas, anunciam efectivos mobilizados na ordem dos milhares. E publicam, entre viaturas identificadas e viaturas não identificadas, uma cadeia de graduação de multas que chega a ser humilhante, tendo em conta o que se repete anualmente. A polícia de serviço nas rodovias têm formação adequada, segundo creio, mas nunca se nota a diferença de métodos quanto a situações também diferentes, nem um diálogo pedagógico com os condutores, ultrapassando a mera trindade do alcool, excesso de velocidade, incumprimento de regras.
A polícia, e os seus técnicas, ainda não se pronunciaram sobre questões como as seguintes:
>Terá o país dimensão e meios para os dois milhões de carros que andam por aí?
>Haverá algum curso de formação de instrutores e meios modernos de abordar matérias relativas à condução, à psicologia dos condutores, às diferentes situações que se lhes deparam, aos adequados preceitos de aprendizagem bem fundamentada do código da estrada?
>E esses instrutores estão capacitadas a abordar a quase totalidade dos problemas que podem surgir a um condutor, manobras agressivas mas necessárias, conhecimento do carro, da sua mecâmica e da mecânica em geral?
>A polícia estará habilitada a abordar os automobilistas na estrada, nos métodos de paragem, de pedir documentos, de espiolhar todas as desnessidades às quais eles são amarrados?
>A teoria inerente aos exames para obtenção da carta está bem exposta, não terá excesso de índices cuja matéria é facilmente esquecível? A perda do exame de código por «morte súbita», como nas séries com pistolas durante a guerra do Vietnam, não será desajustada do nosso temperamento e graus de relação com a realidade?
>Porque é que o ensino não usa simuladores e porque razão não se estuda, com base científica, a natureza de certos desastres, os mais típicos, os mais regulares, os de evidente continuidade?
>O patrulhamento do trânsito é fixo ou acompanhado, sobretudo em motocilos, cuja mobilidade e visibilidade permite tomar decisões preventivas a montante e a jusante das colunas?
>Porque não se procede ao reordenamento dos bloqueios, através das brigadas em motociclos?
>O que é que se ganha em agir ilegitimamente, com carros disfarçados, que chegam a disputar situações de velocidade e infringem claramente (num exemplo aos outros) as regras relativas à via contínua, estados de aproximação, tipos de sinais, entre outros?
>Porque é que, em vez da actual rotina e a baixa descida, em geral, de desastres mais ou menos graves e de mortos, não se opta pela ajuda em vez de infligir medo e mesmo terror aos automobilistas? O medo nunca foi bom conselheiro nestas questões. Conheço condutores que adquiriram traumas fóbicos ou de «fuga em frente» pelas inúmeras experiências desadequadas a que foram sujeitos pelo comportamento das autoridades. A polícia não faz por mal, acredito, mas a problemática das estradas, incluindo a mais iníqua das sinalizações dentro e fora das cidades, têm reunido um conjunto vastíssimo de comportamentos de risco a desabar sobre os condutores de viaturas ligeiras ou outras?
>Outro tanto se deve dizer quanto aos camonistas, entre o comportaento relativo aos ligeiros como no que se refere aos dispositivos de sinalização em viagem. Experimentei viajar de noite numa zona montanhosa de Espanha, onde fui encontrando vários carros pesados. Tais carros acendiam logo que se apercebiam da nossa presença, atrás, uma luz vermelha: assim eu era advertido de que não podia ultrapssar dadas as condições existentes. Pouco depois, o condutor do camião acendia o farolim amarelo, avisando-me que devia estar preparado para uma eventual ultrapassagem. Quando as condições estavam reunidas, o condutor acendia o farolim verde, apitando, encostando à direita e moderando a velocidade. Isto existe por aí? E será que não se percebe a vantagem (civilizada) do dispositivo?
>Não deverá a polícia distinguir o comportamento de acompanhar e coordenar o trânsito, em marcha paralela, quando são previsíveis grandes quantidades de veículos, das operações fiscalizadoras, propriamente ditas, aí sim, podemdo estar em brigadas estacionadas, em comunicação umas com as outras, usando de privilégio de mandar parar carros para verificar toda as condições que são devidas ao trajecto que o condutor esteja a cumprir?
Eu acho que basta pensar um bocadinho e asim evitar a repressão dantesca, com carros ilegais e multas de um valor absurdo, tanto para certos casos, como para o país, que não pode ser vampirizado desta maneira. O dinheiro ganha-se de outra forma. Penso eu (de que) e não tenho nenhum Boby...

quarta-feira, julho 30, 2008

SLAVOJ ZIZEK, DISCURSO CRÍTICO DA IDEOLOGIA


Parece oportuno fazer aqui, para esta época, a convocação de parte do discurso crítico da ideologia, de Slavoj Zizek, apontado indevidamente como «filósofo pop» e editado em Portugal pela Relógio D'Água, pensador de dimensão provocadora, pulsando multidões na Europa e nos Estados Unidos. As citações aqui feitas foram extraídas do depoimento «Em Discurso Directo», publicado no suplemento Actual do Expresso (19.07.08).
*
Lentamente, o tempo do pensamento crítico está a chegar. Vejamos alguns exemplos maravilhosos da ideologia actual. A questão da tolerância. Está na moda lutar contra a intolerância e ser pela tolerância. Porque é que automaticamente se formula a luta contra o racismo em luta pela tolerância? Martin Luther King, nos seus discursos, quase não usava a palavra «tolerância». Para ele, o racismo antinegros não era um problema de tolerância, era um problema de injustiça económica, legalidade, ética. Seria uma humilhação para ele dizer: «Nós, os negros, queremos mais tolerância». Porque é que traduzimos o racismo em problema de tolerância? A resposta é clara: porque algo aconteceu com a chamada era pós-ideológica ou pós-política. E o preço que estamos a pagar é este: todos os problemas são formulados como culturais e não como políticos. O que debatemos hoje em política? Não tanto a economia, mas mais o direito ao aborto, o casamento dos homossexuais... Isto é um fenómeno típico de como a esfera da economia é cada vez mais despolitizada.
*
É preciso repolitizar. Se não repolitizarmos a economia aproximamo-nos da catástrofe. Toda a gente hoje ri de Fukuyama, do seu «fim da História», mas penso que agora até a esquerda é basicamente fukuyamista. Ninguém pergunta se há alternativa à democracia parlamentar, uma alternativa ao capitalismo. Quando eu era jovem sonhávamos com um socialismo de rosto humano; hoje sonhamos com um capitalismo de rosto humano, com um pouco mais de direitos humanos, de direitos dos homossexuais, de direitos das mulheres...A verdadeira pergunta séria, para mim, é esta: é isto suficiente, ou já estamos a ser confrontados com novos conflitos que não podem ser resolvidos neste quadro democrático-parlamentar do capitalismo? É por achar que sim que permaneço de certo modo um marxista. Fukuyama, no seu último livro, admite que a biogenética está a colocar problemas éticos e práticos que não podemos resolver no quadro da eonomia de mercado. Ele próprio propõe uma mais forte intervenção do Estado. Temos agora uma nova lógica do «apartheid». Mike Davis, no livro Plamet of Slums, diz que há mais de um bilião de pessoas a viver em bairros de lata, gente que faz parte da sociedade mas está excluída do espaço público. Negri e Hardt sublinham o facto de, hoje, o modo de trabalho predominante ser imaterial.
*
O que acho triste é que na verdade não temos uma boa teoria do que se está a passar realmente. O que é tão enigmático e perigoso na China? Até agora, a melhor legitimação do capitalismo era que mais tarde ou mais cedo ele trazia a democracia. Mas não é o que está a acontecer na China. O que está a emergir lentamente são os chamados «valores capitalistas asiáticos». Isto é algo novo, na medida em que não precisa de democracia. Imaginemos que os protestos de Tiananmen tinham ganho e que tinha havido reformas democráticas radicais. Penso, e digo-o sem regozijo, que nesse caso a China teria tido o sucesso económico que tem hoje.
*
Eu não gostaria de viver numa sociedade onde fosse necessário argumentar contra a violação das mulheres. Outro exemplo: o referendo irlandês. Sou muito pró-europeu, mas apoio o «não» irlandês. Porquê? Choca-me o modo como a Europa reagiu e tratou os irlandeses como idiotas. A elite europeia iluminada permite uma única escolha: votar «sim». A democracia é cada vez mais a democracia aclamatória. E o problema da Europa é que os burocratas europeus querem impor a imagem de que ou se aceita o que eles querem ou teremos a extrema-direita, os protofascistas, o nacionalisno, etc. Não é tão linear como isto: o que eles estão a propor é a sua visão simples e tecnocrática da Europa. É errado ler os votos dos irlandeses como anti-europeus. Há hoje dois modelos em competição: o capitalismo liberal e a China ou os valores asiáticos. Eu não quero viver num mundo onde estas são as únicas escolhas. Temos necessidade de alternativa.

segunda-feira, julho 28, 2008

A INFORMAÇÃO REDUTORA, DESDITOSO AMANHÃ


Leio habitualmente as crónicas de Clara Ferreira Alves na revista Única, do Expresso. É raro não estar desse lado da escrita, da forma de ver o mundo, nas admiráveis imagens sobre situações em invulgares derivas pelo mundo. Desta vez (26. 07. 08), Clara intitula o seu texto com a expressão SPAM LUSITANO. «Uma boa parte do que se publica nos jornais é Spam. Spam é lixo electrónico, a quantidade inesgotável de mails e mensagens sobre coisa nenhuma, avisos e alertas desnecessários, indignações de rodapé e comentários de nada». Em torno disto, nos diversos graus de operacionalidade, os milhares de milhões de dólars gastos assaltam qualquer noção de bens verdadeiros e de segurança no caminho para o futuro. Toda a vigilância sobre a consciência é inútil: o lixo retorna com enormes propriedades de ser hiperexplicado e eufórico, denso de infiltração no que pode ser a nossa identidade mais profunda e verdadeira.
«Existem novas leis: a imagem sobrepõe-se à palavra, a palavra tem de estar dividida e segmentada em parágrafos e pedaços, com destaques, de modo a prender a atenção. Na luta infernal pela atenção dispersa do ouvinte, leitor, espectador, tudo tem de ser hiperexplicado ou, em alternativa, sensacional e disfórico. Uma vez convenientemente digerida nos intervalos de outras informações que competem entre si, a informação não chega a ser hierarquizada nas nossas mentes e tudo é igual a tudo, na grande teoria da indiferenciação cultural que gera a nossa indiferença. Só o aberrante, o pais austríaco que manteve a filha prisioneira durante 24 anos, ou o grandioso, a Espanha ter ganho o Europa 2008, ou o catastrófico inovador, o tsumani na Ásia que matou 250.000 pessoas, ou o criminoso policial, o desapareciento de Madeleine McCann, provoca a nossa intenção não dividida.Todo o resto cai em saco roto, e não nos espanta ver em rodapé de um noticiário pimba de televisão a notícia 180 mortos no Iraque em atentado terrorista, porque a notícia que devia ser importante tornou-se secundária. O terramoto da China foi completamente engolido nas nossas televisões pelo futebol e os desígnios insondáveis de Scolari».

Valerá a pena transcrever mais? Os telejornais podem abrir com notícias de um negócio de compra de jogadores de futebol e os factos internacionais pulverizam-se a todo o instante. Mesmo as nossas realidades comuns e incomuns passam ao formato e ao conteúdo dos tablóides mais grotescos. Clara Ferreira Alves termina um parágrafo esclarecedor com a segunte frase:«o major Valentim é mais importante do que as tropas portuguesas no Afeganistão?». A mediocridade toma conta do nosso espaço físico e cultural como o maior dos derrames de crude sobre países inteiros. A brutalidade de tudo isto acontece na própria estrutura em que nos movemos, numa completa dependência de um único (e esgotável) meio de produção de energia. A deriva de quotidianos concentrados no consumo grosseiro, nos espectáculos megalómanos, nas bandas que ensurdecem toda a gente em parques carregados de 30 a 40.000 pessoas, a eleição sacra dos desportos radicais e a pompa luxuosa como por vezes são apresentados, tudo isso bloqueia a qualidade plural de direitos que acabamos por atirar para o caixote do lixo. Os cérebros atrofiam-se, o corpo incha, a indiferença pelo sofrimento cresce. Os dietistas e coordenadores de ginásios inventam a maravilha de um corpo afinal cada vez mais obsoleto, mesmo que capaz de sobreviver mais anos. A própria farmacologia tornou-se, à escala global, um horror de propaganda e duplicações terapeuticas desnecessárias. Tudo se distende em deformação manipuladora, em informação castrante, em diluições das identidades nacionais. A civilização, assente em tais pressupostos de crescimento, e não de medida ou bom senso, finge organizar-se mas tende para a implosão.

Perguntava um senhor de bengala a um menino da rua: «Bom, agora que já comeste o bolo diz-me lá o que é que queres ser quando fores grande?
E ele, com a esperteza amarrotada: «Jogador de futebol»

quinta-feira, julho 17, 2008

IMAGENS DE UM PESADELO SEM LIMITES

Guerreiros mujaedines abrigam-se, em Setembro de 1999,
do fogo de soldados talibãs.

PRISÃO
Foto que rendeu a João Silva uma mencão honrosa. Presente na exposição da galeria Diário de Notícias: série de imagens recolhidas em trabalhos realizados no Iraque, Líbano, Afeganistão, Malawi. Esta fotografia serviu para ilustrar uma matéria de Michael Wines sobre as cadeias do Malawi, em Junho de 2005. Centenas de prisionairos dormem amontoados numa cela para duas ou três pessoas. Cada «cela» chega a comportar 160 prisioneiros. Esta imagem alucinante ultrapassa muito, muito acima do pensável os maiores exemplos da falta de respeito pelos direitos humanos.
«As minhas imagens são como se as pessoas estivessem a ver um pesadelo prolongado», diz João Silva, repórter de guerra português, que terá exposto parte do seu vasto trabalho na Galeria DN, em Lisboa, a partir da data deste post. Modesto nas palavras mas corajoso na acção, o repórter que já esteve muitas vezes (demais) perto do inferno, reuniu uma série de testemunhos dessa fogueira pelo mundo fora. Da África do Sul, onde acompanhou o fim do apartheid, ao genocídio do Ruanda, passando pelas guerras no Iraque e Afeganistão, viu e registou a morte, a miséria, o ódio, o racismo. E atravessaram a sua lente, valendo-lhes alguns prémios, outras «paisagens» da irraccionalidade humana. Obteve assim uma menção honrosa no World Press Photo, com imagens de um ataque sniper a uma patrulha do exército norte-americano em Karmah e com o espantodo registo de uma prisão no Malawi. E a cores, pois, segundo amigos próximos, o jornalista terá dito que o preto e branco é o refúgio de fotógrafos medíocres, opinião muito controversa, pois todos os meios podem servir os génios. O resultado deriva do génio, da sensibilidade, do talento, da vertigem de diálogo do homem com o real a cada instante.

segunda-feira, julho 14, 2008

S.VICENTE, AS PRAIAS DO FIM DO MUNDO

fotografia de Paulo Barata (fragmento)


Lá para o fundo
das terras do fim do mundo,
as de perto,
pertode S. Vicente,
orladas de rochas onduladamente,
há praias em concha plana
que são breves desertos
escondidos pela Natureza
entre abismos de falésias fracturadas,
brancas e lisas enseadas,
curvas largas, lentas, em belos sedimentos
sempre afagadas pelas marés subindo.

Há gaivotas que voam devagar, rindo.
Há murmúrios das águas saltando, abauladas,
sobre as rochas baixas, redondas, faseadas,
paisagem rasa e geométrica,
cascos e barcos outrora partindo,
barcaças, depois traineiras, sem braços nem velas,
sempre a velha aventura do mar nas tardes belas,
sempre a falésia do promontório, vigilante,
e as vozes soltas dos pescadores rasurados,
peixe de rede, lulas à candeia, polvos com tridente,
ninguém antes nem depois do retorno à muralha.
Há horas assim, muitas, com sardinas saltando na malha,
ou tentáculos estendidos nas canas a prumo,
crucificados, feridos,
lagosta dos pobres nos dias seguintes,
petisco depois das lides.
e olhares de longe, do cimo da falésia,
como quem espera o fim das marés
e o direito de usar as asas de da Vinci
para pousar no anfiteatro dos deuses,
poucos, solitários, já destituídas de transcendência
ou de asas próprias de cada ascendência.

E então, nas praias desertas, mal habitadas,
um milagre aconteceu.
Não era um deus com asas de madeira,
nem Ícaro, nem da Vinci.
Era apenas um jovem saltando do alto da falésia
pendurado num belo e leve pano de riscas coloridas,
pássaro brincando, subindo e descendo
em traços de curva perfeita,
por vezes tão baixo que tocava o mar,
logo voltando a subir, a subir,
até desaparecer na quina das altas rochas a prumo.
As gaivotas, suaves,
seguiam-lhe de longe o milagre do rasto.

segunda-feira, julho 07, 2008

A PRESIDENTA DA FUNDAÇÃO JOSÉ SARAMAGO


Pilar del Rio, mulher de José Saramago, concedeu uma interessante entrevista ao jornal «Diário de Notícias». Ficou a perceber-se que se trata de uma personalidade carregada de auto-estima e que não tem medida para relativizar aquilo de que gosta. Quer ser considerada e nomeada como Presidenta da Fundação José Saramago porque é mulher. Dizem-lhe que a palavra não existe. Mas ela sabe que tem de existir e aponta o caso das mulheres que são chamadas para um ministério: todos as tratam por ministras. A política é um campo onde ela se expressa pela vanguarda e pela mais carismática imobilidade. Vota à esquerda, em Espanha, e uma vez por outra no PSOE. E em Portugal, como seria? Não hesita: Votaria no Partido Comunista. Os jornalistas fazem o que agrada às empresas. Pensa que os jornalistas não têm qualquer capacidade para ajudar a mudar o mundo. Quem poderá mudar o mundo são os seres humanos com capacidade para isso. Não se sabe se e como acontecerá. Pilar continua jornalista porque aprendeu a ler aos sete anos e sentiu sobre si a «revelação» de que queria ser jornalista. Não há jornalismo neutro. Um momento genial de Fidel de Castro quando esteve em Portugal: ele observava que os jornalistas, em redor, pareciam todos democratas. Descartando-se de perguntas de escasso interesse, Castro bombardeou assim os jornalistas: quantos anos estudaram jornalismo? É uma carreira universitária? Cobram muito? E a resposta dos jornalistas foi a seguinte: «Estamos num país democrático».
(Não lembra ao diabo, realmente)
Pilar del Rio tem muito mais pica: para ela, na Europa, todos os governantes que governam para seu benefício próprio e não para o povo são democratas? Berlusconi é um democrata? Bush é um democrata? Quem massacra um povo como o do Iraque é um democrata? Perguntas que vão desaguar, a terminar, nas especialidades de Fidel. Pilar, aliás, gosta de Hugo Chávez, embora não fosse a pessoa com quem tomaria café. Virtudes sim, defeitos à parte. Seja como for, Chávez é a pessoa que está a pôr água e luz nas casas onde não havia, faz escolas e preocupa-se com a saúde.
Ela pensa-se de esquerda. Votaria à esquerda. Não gosta de uma Europa onde pontificam senhores como Berlusconi e Sarkozy. E falando de Zapatero e Sócrates, Pilar disse que não são consideráveis porque vão ser isolados. «Quem manda é essa coisa tão patética e ridícula chamada Berlusconi» Pessoas assim irão fazer o possível por isolar os partidos socialistas.
Um pouco mais adiante, a vibrante Maria del Pilar diz que Zapatero é esperto e que soube rodear-se de mulheres, entes que (obviamente) trabalham mais do que os homens, melhor e em várias coisas de cada vez. Saramago? «Saramago gosta de mulheres» Aliás, perguntada sobre o casamento de homosexuais, diz que «é muito pior e mais complicado para a vida matrimonial os homens com barriga». A propósito: que presidente para os Estados Unidos? «Um negro». Dizendo que Hillary está cheia de ira e de raiva. «As pessoas deixaram-se levar pelo discurso muito bonito e poético de Obama»
(Quem diria?)
A Caminho foi comprada pelo império Leya. Não é desconfortável para Saramago? «Montar um escâmdalo porque a Leya comprou a Caminho parece-me um pouco provinciano.» A Fundação seguirá o critério de Saramago, o espírito crítico, mas sem negócio. Existem projectos, aberturas a publicações de escritores desconhecidos. «Não. Porque Saramago ainda tem vários séculos de vida». Gosta de estar orgulhosamente só? Pergunta errada porque Pilar é «a pessoa mais orgulhosamente acompanhada que existe no mundo». Acredita em Deus? «Não, porquê?» Nunca foi à missa? «Fui quando tinha de ir porque a minha mão me obrigava, porque me obrigava a sociedade, porque me obrigava a norma políticamente correcta e porque nos diziam que tínhamos de crer em Deus porque se não acreditássemos íamos para o inferno e o inferno era a ameaça que nos controlava.» Não Ficou chocada quando leu O Evangelho segundo Jesus Cristo?

«Não! Por Deus?»

Em Portugal só os falsos amigos é que ficaram chocados. Há problemas de tradução, catelhano é uma coisa, português outra. Mas, no plano político, zelará pela melhor tradução possível, pelo politicamente correcto. «Se a igreja Católica não tem problemas de defender o que defende, de dizer que as pessoas têm de morrer sem cuidados paliativos e todas essas coisas que vão contra o senso comum...» Diz-se que Maria del Pilar foi responsável por levar José Saramago para Espanha. «Claro que não. Foi o governo Cavaco Silva. Arranje outra razão». A Fundação José Saramago entende-se numa perspectiva ecológica. Isso importa à Presidenta? «Sim, mas a Presidenta assume o espírito da Fundação, que é o espírito que Saramago passa. Como iríamos viver tranquilamente a ler estpendos livros se o mundo está feito numa merda? Eu não posso ler rodeada de porcaria».
(É aceitável)
Que acha do próximo livro do seu marido?
«É um livro saramaguiano, cem por cento saramaguiano»

terça-feira, julho 01, 2008

NARCISA DOUBLE LIVE ou Ana Teresa Vicente


Esta exposição de fotografias de Ana Teresa Vicente mostra o lado mais profundo desta forma de registo e expressão, domínio onde a tecnologia abriu novos espaços de pesquisa, o que é notório, aliás, nos exemplos aqui apresentados. Aqui, uma jovem licenciada (Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa) trabalha uma encenação das coisas, dela mesma, em confronto com o espelho. O espelo ele mesmo. O espelho que resulta de uma janela e dos olhares que a atravessam e retornam. Ana Vicente pode questionar a distância, entre portas, ou projectar-se no espelho sem que a atitude narcísica se consolide, antes explica o Outro por fragmentações do real, detalhes, essa espécie de invisibilidade que continua existente epois da apropriação do visível.
Um dos problemas hoje recorrentes concentra-se na realidade e na aparência do corpo, dilatando-se a relação entre o sujeito e a sua imagem. A arte contemporânea, fracturante, legitimou diversos modos de aceder ao imaginário e de trazer para o espaço da realidade. O mito de Narciso, em vez de nos amarrar a um processo de auto-contemplação, desdobra-se num plano de múltiplas alucinações, entre o que se julga ver e a dimensão do sonho.
Ana Teresa Vicente, com as suas belas fotografias, chama-nos a atenção para muitas coisas, do projecto mimético, cara a cara, pelo espelo, o encontro com o Outro, ilusão que tem vindo a centrar-se na edificação da bra em superfície. Nesse sentido, cita Roland Barthes quando ele nos fala da ideia de Spectrum ao abordar o sentido de uma fotografia: «assim que permito ser fotografado, torno-me num espectro, numa sombra» As velhas fotografias dos nossos avôs, algo desfocadas em sépia, são agora mais verdaeiras do que no tempo em que eles viveram, tempo em que ainda desconhecíamos a sua verdadeira natureza de fantasmas. Memória para o futuro, tais apropriações dependiam e dependem de actos de encenação. E a nossa criação de novos duplos, após esse reencontro, tudo liberta e tudo irrealiza em ordem a outra invenção do real.


fotografias de Ana Teresa Vicente

A DIFÍCIL ARTE DE SER COMENTADOR


Não me sinto especialmente ligado aos chamados comentadores políticos (e afins) da televisão. E o que me faz publicar a fotografia do ministro Jaime Silva, omitindo a do prof. Marcelo Rebelo de Sousa, é o facto daquele membro do governo ter sido colocado bem perto da guilhotina. Escapou até agora, ao que parece, porque não há, entre nós, nem guilhotinas nem pena de morte.
Sou um observador vulgar dos acontecimentos políticos, não percebo porque é que os governos são todos tão maus, nem entendo muitos critérios jornalísticos, a completa anarquia da maior parte dos debates televisivos. Sou político porque sou cidadão. E hoje, aliás, o que me convoca para este espaço é mais uma questão relativa à deontologia dos redactores de jornais e a componente ética dos comentadores que nos visitam sem qualquer respeito por nós.
Num pequeno texto de Leonete Botelho, editado no «Público» de há dias, é dada a notícia de que Jaime Silva tem sido criticado em surdina por deputados do PS. O problema parece prender-se, depois de outros desaires, com algumas declarações do ministro da Agricultura e Pescas sobre «as supostas orientações políticas da CAP e da CNA», o que lhe teria trazido dissabores, comentários mordazes, a sua colocação na lista dos remodeláveis.
Esta pequena nota de entrada contextualizante ao que se segue, serve sobretudo para se sentir o modo de avaliações que se processa entre nós, entre pontas contundentes e sem qualquer análise de fundo ao que cada interveniente diz ou aponta programaticamente, tanto mais que essas questões, segundo me parece, deveriam ser explicitadas diante do público e discutidas de forma pedagógica. Fora isso, declaro que não venho avaliar nem julgar o ministro mal-amado, a sua perigosidade para o desastre nacional, a qualidade do seu jeito para o cargo que ocupa. Venho, isso sim, como cidadão e consumidor de informação audio-visual, fazer uma chamada de atenção para as declaracões cada vez mais incómodas da rubrica de Marcelo Rebelo de Sousa na televisão. Lembro-me de o apreciar desde longa data, apesar de algumas ginásticas menos correctas politicamente, mas, da última vez, tenho de considerar que a sua intervenção, em especial no que se referia àquele ministro, ultrapassou qualquer domínio de decência, de análise justificada, tudo atirado gesticuladamente para o ar com uma total falta de cortesia relativamente a quem o ouvia. Fiquei sabendo que «o ministro é a pessoa mais inculta do mundo», que nem vale a pena saber o que diz, porque é «completamente incompetente», além de poder levar com mais adjectivos decapitantes, como de resto aconteceu.
E eu, pergunto: a imprensa não escalpeliza esta competência do comentador político? Isto não é mais importante do que um cigarro fumado a bordo de um avião oficial a caminho da Venezuela? O que é preciso Marcelo Rebelo de Sousa dizer mais, aos sacões, cada vez com menos ordem e pior inteligibilidade, para que se faça a análise pública desse fenómeno, dado o lugar conferido ao professor, o programa especialmente tratado que lhe concedem, o que ele diz e como diz? Isto é tolerável, na sua completa falta de ética, ou há processos e pessoas que se guardam na gaveta das impunidades? Não teria sido possível, a um mestre do direito, prolixo aliás, desenvolver comentários bem medidos, bem explicados e sem aquela abusiva falta de respeito? O que é que está a acontecer na parcialidade partidária do professor, respeitável em si mas desaconselhável num programa de televisão conduzido daquela maneira? O comentário politicamente empenhado deve ter um lugar próprio e não se ocultar no nome. Há felizmente dois ou três exemplos do que resta no tornado português.
E, por mais estranho que pareça, calhou ter a oportunidade de ouvir o tal ministro a responder aos jornalistas sobre o incidente daquelas declarações. Para além de relativizir o programa como de entretenimento, sintetizou o problema e a sua posição com meia dúzia de frases claras, adequadas e respeitadoras.

quarta-feira, junho 25, 2008

APELO POR RUÍNAS E FLORES SELVAGENS


Em criança, quando começaram a demolir duas casas perto da minha, eu sentia um secreto desejo de pedir à vizinha da frente, muito amiga da minha família, que me deixasse ir ver as obras em curso. Sempre sorrindo, ela levava-me até à janela (com as obras na frente) e eu ficava com o nariz colado ao parapeito. Logo no primeiro dia, a vizinha deu por isso e foi buscar uma pequena cadeira de tabúa, encostando o espaldar à parede. Fez-me subir, disse para eu ter cuidado a fim de não cair e foi à vida, na cozinha ali perto. E eu ficava fascinado, olhando os operários em cima das paredes e escadas, com picaretas, desmantelando tudo pedra a pedra. Nas paredes que ainda restavam, havia nódoas da presença de quadros entretanto retirados, além de pregos e bases para lâmpadas eléctricas. Com o tempo foram restando as portas interiores como molduras vazias e o entulho aumentava ao ritmo do trabalho daqueles trabalhadores equilibristas. Como já escrevi uma vez, este espectáculo (não sei se motivado pelo cinema) ficou-me profundamente gravado na memória e nunca mais deixei de me sentir fascinado quando encontrava ruínas na paisagem ou em pinturas e bilhetes postais.
Mais tarde, quando isso me acontecia, perguntava a mim mesmo que razão haveria para aquele apreço, para aquele apelo, ao contrário do desencanto que sentia perante as flores, ornamento usual nas casas, retomado em fresco. Por mais estranho que pareça, e porque desenhava com prematura qualidade, este desapego pela beleza óbvia das flores, acontecia sempre e deixava-me intrigado. No tempo em que começou a ser um hábito os habitantes da pequena cidade do sul (onde nasci e vivi) fazerem grandes passeios aos pomares, pelo rio ou pelas veredas, ou também à serra, junto da primeira barragem ali construída. As casas de lavoura, pobres, abandonadas, continuavam a fixar os meus olhos. E foi nessa altura que descobri outras flores, lindas, mais verdadeiras do que todas as outras, flores nascidas ao acaso, secas mas vivas, ásperas, com pétalas que pareciam a protecção do milho, tufadas e coloridas em tons abertos num centro geométrico. Eram lindas as flores silvestres, essa vida muito bem integrada no ambiente e com um desenho ao mesmo tempo solto e rigoroso. Invariavelmente, quando percorro as veredas da serra, perto da cidade, apanho flores dessas e coloco-as em jarras como as pessoas fazem com as outras, decorativas, macias, e aparentemente artificiais. Mas as flores que eu arrumo na jarra não precisam de água. Meses mais tarde continuam na mesma, perenes. Também fiquei a gostar destas formas naturais, tanto como os destroços das velhas casas.

fotografias de Miguel Baganha

quinta-feira, junho 19, 2008

O ENIGMA E O 'CÓDIGO' DE MIGUEL ÂNGELO


Michelangelo di Ludovico Buonarroti Simoi («Miguel Ângelo») nasceu em Caprese a 6 de Maio de 1475. Foi, como sabemos, pintor, escultor, poeta e arquitecto durante o renascentismo italiano. A sua versatilidade em vários campos tornou-o rival de Leonardo, ícone do Renascimento. É certo que o seu talento e a sua actividade multidisciplinar permitem-nos usar o termo superior para o caracterizar como génio, tendo mesmo desempenhado tarefas diplomáticas. Era Il Divino. Se Miguel Ângelo nos lembra de imediato a época da Renascença, os artistas, historiadores, e outros especialistas, não podem deixar de pensar também no grande vértice desse tempo, na ciência e na arte, Leonardo da Vinci. Os segredos da sua invenção abriram espaço a uma literatura de falsas descobertas, teses oportunistas que o editorialismo voraz logo aproveitou: fala-se então do «Código de Leonardo da Vinci», uma pirueta de mercado, o que de resto aconteceu com duas figuras públicas do nosso meio televisivo, escrevendo a seguir, bem perto, livros com ar de tratados, «Codex 632» ou «Fundamento de Deus». Umberto Eco abrira caminhos para esta babilónia e outros embustes, com o seu livro «O Nome da Rosa».
variações em torno de Miguel Ângelo, onde alguns julgam ver na
linha da composição o perfil de Dante, especulação que não tardará
a fazer com quem descubra aí a abertura do código de Miguel Ângelo
*
Em boa verdade, esta cadeia de descobertas quase miraculosas e de embustes a fingir de conexões matemáticas ou metafísicas, a par de algumas que não passam de suposições de mensagens subliminares ou de meras zangas do pintor (neste caso Miguel Ângelo) com mestres do seu ofício, incluindo Leonardo. Assim se vendem milhões de livros inúteis e se criam novas mitologias, em pleno século XXI, no qual já chegaria a crença nos extra-terrestres, religião emergente que desperta seitas e agride a fé dos praticantes das religiões ditas tradicionais.
Fala-se de uma primeira teoria, surgida em 1950, quando um diplomata venezuelano visitou a Capela Sistina, no Vaticano. Assombrado com a grandeza daquele fresco que preenche a totalidade de uma das paredes do edifício, Joaquim Diaz González «descobriu» (o que, de resto, é pequena alucinação) que Miguel Ângelo, o renascentista responsável pela obra, escondera o perfil de Dante na cadeia de relações formais, figurativas, estruturais, que edificam o fresco. É até provável que Conzález quisesse elogiar a obra do pintor e a personalidade criadora de Dante,
poeta italiano que escreveu «A Divina Comédia». A escalada deste processo, como tantos outros ao longo da História da Arte, acabaria por reacender as fogueiras da especulação rendosa, datava a primeira etapa da construção do código de Miguel Ângelo. Todos estes temas, suprindo as faltas de enganos aliciantes na cultura actual, reabrindo caminhos como os da «Ilha do Tesouro», nada mais faz do que empreender, em termos de verdade, a formação de outras ilusões, de novos contos do vigário, aliás com luxuosos volumes a satirizar os álgidos relatórios das maiores Academias sobreviventes. Basta olhar para a ilustração apresentada no «Diário de Notícias» para que nos seja possível enjeitar a grosseira linha do perfil de Dante (em baixo, à esquerda), percurso que procura dar como certa a relação compositiva que suscita a união de polos fortes, dos quais se infere a subjacente figura do poeta. Isto embora não se entenda, depois, qual a razão da linha flectir para a testa quando a composição mantém, em cima, um trajeto visual de continuidade. O que, de resto, acontece em pleno nariz: na massa compositiva desse sector existe um bloco de figuras que preenche, na horizontal, até ao limite direito, cerca de um terço da largura do fresco. A menos que se transforme esta extraordinária obra de arte num labirinto de jornal, nada justifica, incluindo a geometria subjacente da composição, a viragem conveniente daquele nariz, o que de resto se vê no arbitrário perfil da boca, cortanto em ângulo uma figura cheia, bem blocada e conhecida. Essa abusiva invenção de uma lógica do percurso para um perfil aparece ainda, a terminar, com a linha do queixo e a oblíqua a apontar na direcção de uma figura reinante nos males do inferno. Uma outra, para tanto, foi cortada e transposta fora do critério seguido noutros casos. E o que faremos com as massas atrás da nuca, conjunto nivelável na horizontal, como da direita, ficando o campo divino, como convém, ao centro da caixa craneana? Mal vai o perfil: não só por estas incongruências, contrariando uma composição inventada por grandes eixos horizontais, os quais integram dois círculos - mas no que respeita à força divina, ao centro, no terço superior da peça, e em baixo, no terço inferior da imagem geral, delineando perfeitamente outro círculo como geometria estruturante da obra. Além de outros aspectos, à esquerda e à direita, nesta faixa que se estende por cima da estreita paisagem dos proscritos, visando completar a simetria do que parece caótico mas bem assenta numa grelha de sentidos copiados das medianas, havendo, em cima e em baixo, na mediana que divide em duas a superfície integral, as tais circunferências, uma maior, outra menor, tudo segundo a hierarquia dos céus, purgatórios, infernos, apesar do desnudamento das gentes e do espectáculo contorcionista conseguido, ópera laica, contra a bíblica memória em que o autor foi convidado a situar-se. Esta teoria risível, que talvez venda jornais, tem o seu ponto mais grotesco, quanto à localização e à forma, na grafia que assinala o olho esquerdo da figura evocada. E se esse olho, avesso à razão da grafia envolvente, por estradas imaginárias na composição, ali aparece - que faremos com a ausência do pavilhão auricular?
As outras fases desta deriva ensandecida pela Capela Sistina incluem outras grandes descobertas: Deus, metido naquilo que dizem ser uma caixa craneana com o cérebro supremo, vem de longe, de infinitas distâncias, e entrega a Adão, pelo toque dos respectivos dedos indicadores, a capacidade de raciocínio. Adão é de facto aquele homem lasso, repousando de costas na rampa de erva que determina o cenário natural. Esta é uma das mais heréticas visões da mensagem de Miguel Ângelo, pois a criação seria uma dádiva de sinais contrários (o dedo direito de Deus tocando o dedo esquerdo de Adão) e isso abre horizontes de pesquisa agora indizíveis.

quarta-feira, junho 18, 2008

A IRLANDA VOTOU NÃO AO TRATADO DE LISBOA


Quanto mais penso na imensa extensão de cordame embrulhado nas intempéries, assim, mesmo à beira Tejo, em Lisboa, cidade cujo nome foi atribuído com júbilo ao tratado europeu, não posso deixar de rever o complicado processo a que obriga a oficilização de tais documentos, tornando-os legíveis e funcionais, ancoragem muito difícil, porque todos os países membros da União Europeia têm de ratificar por unanimidade a peça, quer através de referendos, quer no quadro dos respectivos parlamentos. É inacreditável imaginar-se como possível e rápida a ratificação de uma peça destas, sobretudo tendo em conta que há países que estão obrigados a proceder à decisão (por razões constitucionais, o que acontece na Irlanda) através de referendo, enquanto outros podem optar apenas pelo parlamento. Vinte e sete países a prestarem honras ao sim, acto que tanto se defendeu na conclusão do Tratado durante a presidência portuguesa, lembra uma espécie de birra revolucionária ou utopia universalista, porque nada disso algum dia será transparente, seja qual for a globalização que amacie e torne obedientes tantas diferenças de identidade, cultura, urgência. Ao falar-se nos valores do sistema democrático faz-se porventura justiça a um antigo processo de governar as sociedades. Mas há sempre nuances, heranças muito antigas, instituições tocadas de outras sensbilidades, um modo de ser, entre latitudes, inquebrável para certos efeitos da história e da qualidade de vida, a subtil característica, a mais funda, que distingue os povos e as nações. Isso não impede que trabalhem em conjunto, em aliança, federadamente, por exemplo, mas tal escolha a não alterar a necessidade de sustentar as marcas indeléveis, problemas palpáveis a considerar compensadamente por cada excepção a um universalismo de pedra e cal.
Por muito evoluídos que sejam alguns países do norte da Europa, a verdade é que também esses não didferem muito quanto àquela casca de civilização que envolve a humanidade e que, durante as dores mais graves, rompe e nos desvia a todos do tal homem novo cujas lendas pintam sob o tecto galáctico de todas as utopias. Um Tratado como o que foi referendado na Irlanda e recusado com um rotundo não pela chamada voz do povo é o mais líquido acontecimento da nossa verdadeira natureza. Não há nenhum povo que possa assumir a responsabilidade de referendar projectos muito complexos e que só estão ao alcance de uma pequena parte dos cidadãos de qualquer comunidade, entre as mais evoluídas e as que vivem no limiar da cegueira. As questões susceptíveis de serem resolvidas dessa maneira obrigam sempre à formação prévia, esclarecedora, capaz de formar a base de lucidez e reconhecimento das questões a votar, permitindo assim um máximo de verdade nos resultados finais. Oiço as mais disparatadas vozes sobre este Tratado que já entrou em crise pelo voto negativo, não ratificador, que os irlandeses lhe atribuiram. Todos estes problemas envolvem uma vertente técnica, de especialidade, que inviabiliza a beleza do povo todo senhor do que vai fazer, como e porquê, depois de rejeitar as campanhas tóxicas pela negatividade ou a possível grandeza de uma escolha positiva, apesar de certas dúvidas ou mesmo renúncias. A Europa não se desenvolveu dessa maneira: escolheu-se em função de evitar as incomodidades dos tais apocalipses quotidianos, emoldurando alguns direitos principais, os valores humanos e de cultura, mas deixou-se envelhecer, imaginando que a sua longa história pode superar agora problemas de tão infinita complexidade. O referendo serve para questões que os povos já podem abarcar, ainda que na via de alguma incerteza, no plano da consciência decisória.
De resto, no plano de uma União Europeia, tem de se mudar de paradigma, como diz agora toda a gente, no governo, nos cafés, nas universidades, no futebol. Tem de se sacudir as migalhas dos excessos e limpar o espaço dos detritos que os ventos da história empurram em todas as direcções. Acabar com a unicidade fundamentalista, com a proliferação de normas, birras, cotas, fingimentos através do pormenor, essa idiota burocracia com a qual se julga ganhar uma força geral capaz, uma viabilidade de sucesso entre todos, um entendimento aceitável, isso sim, creio que permitiria conservar os antigos patrimónios da nossa verdade identitária. Acabe-se com esse eufemismo perverso que troca competição por competitividade. Os povos não têm de competir nem de crescer. Evoluir não é crescer. O desenvolvimento das nações pode acontecer sem obesidade e no sentido de um verdadeiro nexo entre enoção e razão. Penso muitas vezes na Noruega e só me ocorre a nitidez da desmassificação. De contrário, o homem acabará por implodir, pessoa a pessoa, como acontece num vídeo (MAX) que ilustra certa composição musical e mostra os restos de todas as monumentalidades, televisões a trabalhar continuamente, sobre pedras, muros e carrinhas de acampar. Tudo se resumia, nessa altura, a uma tecnologia de sonrevivência e alienação.

sexta-feira, junho 13, 2008

NO CENTENÁRIO DE VIEIRA DA SILVA

Começam esta semana as celebrações dos 120 anos
do nascimento de Fernando Pessoa
e do centenário da pintora Vieira da Silva



Maria Helena Vieira da Silva, portuguesa de nascimento, teve de se naturalizar francesa para poder casar com o pintor húnaro Arpad Szenes. Muito depois, as fronteiras e os regimes permitiram que a pintora fosse afinal uma personagem do mundo, Prémio da Bienal de S. Paulo e largamente difundida por toda a parte. Em Portugal também, necessariamente, onde sempre pertenceu e onde nos deixou obra, um Museu partilhado com o marido. Entre os emigrados, por volta dos anos 60, Vieira da Silva tinha um enorme prestígio. A sua pintura evoluiu em malhas geométricas, superfícies quadriculadas e distorcidas, em túneis e patamares urbanos, entre espaços abrangentes ou labirintos, convocando uma luz, porventura uma cintlação subjectiva, cuja origem muitos atribuem à memória do azulejo e à claridade matinal ou tardia de Lisboa. Este método de trabalho haveria de se estender a temas formalmente consensuais, como no exemplo aqui apresentado, o das bibliotecas, obras que relevam do construtivismo citadino e dos modos de ordenar as biblotecas. Cor, tom, estrutura, ritmo - fazem parte da sua imensa produção.

A 120 ANOS DO NASCIMENTO DE FERNANDO PESSOA

Esta semana começam as celebrações dos 120 anos do nascimento de
Fernando Pessoa

Porque esqueci quem fui quando criança?
Porque deslembra quem então eu era?
Porque não há nenhuma semelhança
Entre quem sou e fui?
A criança que fui vive ou morreu?
Sou outro? Veio um outro em mim viver?
A vida, que em mim flui, em que é que flui?
Houve em mim várias almas sucessivas
Ou sou um só inconsciente ser?
________________________________________
poema inédito / obras completas de Fernando Pessoa, Ática

quarta-feira, junho 11, 2008

CONSIDERAÇÕES SOBRE UM CIGARRO E A RAÇA

A política em Portugal, arrastada pelos partidos constituídos, já não parece corresponder ao papel de zelar pela boa governação, projectos em curso, relações institucionais e do país no contexto das nações. Num ar menor de folhetim, afectados de forma inquietante e patética, por vezes ridícula, os políticos são minimizados pela comunicação social e pelas mal informadas rábulas do povo que circula nas calçadas, entre passos para nada e posios nos cafés. O desvio de vários projectos, derivados do labor diário, é demagogicamente sustentado e engordado por jornais de pena fácil e muito desejo de vender, colocando (como o outro com o socialismo na gaveta) a deontologia na algibeira ou no cestos dos papéis. Lembro a famosa história do cigarro fumado por Sócrates, primeiro ministro, num avião que fretara para viagem oficial à Venezuela. Há quem diga que ele podia ter esperado que a aeronave aterrasasse, pois naquela República, apesar de muitas outras restrições, ainda se pode fumar em liberdade. Ora este cigarro, fumado a bordo por Sócrates, representando uma transgressão da lei que o próprio assinara, é novo pecado certamente, o Vaticano o dirá, tornou-se o assunto dos dias seguintes, ocultando quase por completo o sentido da visita oficial, tratados ou protoclos assinados, se tal projecto era defensável ou não e em que pontos.

O último incidente deste tipo, creio que no dia 10 de Junho, é sem dúvida mais perturbante, talvez mesmo de base neurótica ou na linha demagógica que leva muitos portugueses a comer pipocas no cinema, aliviando-se da leitura das legendas, por analfabetismo situacional ou puro rompimento da memória dos chamados bons costumes.
Aconteceu que o Presidente da República, assediado bem de perto pelos jornalistas, balbuciou que o dia não se destinava a declarações políticas; o dia era reservado à evocação da raça, aos nossos grandes homens da gesta dos descobrimentos, Camões e comunidades portuguesas espalhadas por todo o mundo.
Jornalistas e populares amargurados não pensaram em mais nada; alguém soprara: «Ouviram o que ele disse? Falou na raça. Um Presidente não pode ignorar as conotações execráveis que aquela palavra implica, desde a xenofobia, muitas discriminações, arianismo de outrora.» E não se tem falado noutra coisa. Os camionistas vão engolir a indignação pela famosa palavra, mas, en- quanto ela sobrou para a política e falta de outros avisos, viram-se coisas de um humor inexcedível: na televisão, por exemplo, um comentador da direita esgrimia argumentos com um representante do Bloco de Esquerda. Este senhor, embora com cascatas de palavras inovadoras, parecia um padre cheio de pudor e alguma indignação perante algum palavrão de certo menino ladino pousado na cauda da missa. Estive há pouco a ler o discurso do Presidente, que o Dário de Notícias publicou na íntegra e sob o título «O QUE CAVACO DISSE E DO QUE ESTAVA REALMENTE A FALAR». Entre outras coisas, e sem recurso à palavra raça, ele evoca a história do país, as quedas superadas, enviando alguns recados ao Governo e apelando para um recomeço de exigência e rigor, reapropriação do «imenso património que herdámos e de que progresso justificadamente nos orgulhamos», transformando-o num verdadeiro instrumento ao serviço da prosperidade do nosso povo».
Então e a raça? Era o Estado Novo que usava essa palavra para significar outra coisa, memória indirecta do fascismo e do nazismo? E depois? Teremos que ser reféns para sempre dessa ignomínia? Inventamos sinónimos, sucedâneos precários e pequenos? Os intelectuais que se magoaram com o perigoso «lapso» do Presidente deviam ter cultura para separar a recuperação de palavras recontextualizadas e não para, sem verdadeira alternativa, rasgarem o verdadeiro sentido dos factos. Este fenómeno, de escuras idiossincrasias, alastra cada vez mais entre nós, enquanto os seus promotores vão elegendo enviesados léxicos e muita discriminação contra os analfabetos do nosso quotidiano. É por estas e por outras que os pedagogos insistem com a Ministra da Educação para tornar obrigatória, aí pelos sete anos, a memoriação bem consolidada da tabuada. Parece que é importante para o cérebro. E para ordenar, cronologicamente, os factos históricos e o sentido das próprias palavras.

sábado, junho 07, 2008

MAIS POBRES ACRESCENTADOS À ESQUERDA


Eu sou do tempo em que os pobres liam às escondidas «Quando os Lobos Uivam». Os operários corticeiros, mal pagos e penosamente infiltrados por companheiros comunistas, quase todos na clandestinidade, liam mais do que se lia na altura, porventura mais (até) do que hoje. No maior centro da indústria corticeira do mundo, com bairros precários e casas vindas directamente do tempo da ocupação árabe, o Maio festejava-se através de viagens fluviais, operários e camponeses bem munidos de farnéis partilháveis, idas e vindas em longas barcaças a motor, transportando entre cinquenta a sessenta pessoas, a deslizar sobre águas lisas, pouco tempo depois aportando a alguns dos muitos ancoradores das margens frondosas, lugares privados mas que os donos franqueavam aos visitantes, toda a gente estendida com mantas ou tolhas, afeita a essa vida sem televisão, pouca rádio, nem carros, nem combóios perto, a rua usada pelos meninos ladinos, jogando jogos simulados de toscas memórias do velho cinema instalado num teatro velho.
Quando a indústria da transformação da cortiça foi destruída pela livre exportação das grandes pranchas de cortiça, levadas da árvore para os cargueiros apontados à América, logo as fábricas começaram a fenecer, a falir honestamente, ou a incendiar-se não se sabe como, cortiça é pólvora, arde e faz arder instalações inteiras, no horror sempre nocturno das famílias cujo destino, assim, em duas horas, estava traçado no desemprego e nas dolorosas migrações para o Norte, operários altamente qualificados reduzidos à precariedade crescente, que haviam feito a sua aprendizagem na Escola Comercial e Industrial, que liam Aquilino, Gorki, Redol. O meu próprio pai, cujo negócio da cortiça era estreito e manual, ficou a viver da compra e venda, dos restos, de um jovem corticeiro que o via como avô, leal até ao fim.
Foi nesse tempo, apesar de muito novo, que eu senti aquela escassez de que tanto já ouvira falar.
Foi então que eu convivi, mais de perto, na rua e na Escola Pública, com moços exilados, à espera de que os pais os mandassem chamar, pobres, pedintes, por vezes prematuramente bebedores de vinho tinto, aos copos de três. Com o decorrer dos anos, já em Lisboa, estudando em Belas- Artes por complacência de uns tios, fui conhecendo sempre pobres, do Barreiro ao Seixal, nas docas, nos chamados bairros populares, entre sardinhas, couves e batatas, vinho sempre, velhos sem assistência, jovens sem material para as aulas, risos aqui e além, em todo o caso, situação nem sequer rara e que os vendedores de rua (pobres) classificavam de «pobretes e alegretes».

Estive em Angola, na guerra colonial, numa companhia quase toda constituída por alentejanos, sábios da planície e da pobreza, audazes, metidos em operações militares cujo fim desconheciam e nas quais procuravam, antes do mais, salvar a pele. Daí em diante, nunca mais deixei de conhecer pobres, manchas de pobreza, vida singela porque mais barata, e um velho ditador que tomava medidas drásticas, na altura profundamente retardantes da evolução do país, e que hoje, na mera ironia de sentido analógico, por outras razões, bem entendido, parecem emergir, urgentes e modernas, do campo raso, abandonado, dos barcos roubados à pesca, das profundas tradições ou géneros de produção que a indústria, outrora minimizada pelas repartições do Estado Novo, depressa queimou, fugindo entretanto para as terras frias da mão de obra barata.
Um povo assim, que teve de emigrar para sobreviver, ou para se parecer um pouco com os ricos surgidos em tudo o que era documento, não teve outro remédio senão aceitar durante catorze anos uma guerra mal concluída, da qual surgiu um mal gerido golpe revolucionário, que trocou bens, saneou gente errada, perdeu património um pouco por toda a parte, desbaratou o dinheiro numa falsa redistribuição das riquezas, sem descobrir, feitas as contas, o verdadeiro modo de oferecer aos homens um destino mais digno e objectivos sem o peso da ganância, algo capaz de conter a fúria do capital a inchar, entre a desordem das grandes cidades e a imensa pobreza que não tem cessado de crescxer à nossa volta e no mundo.
Por tudo isto, e pelo comportamento clubista dos partidos políticos, males «menores» da democracia, foi para mim surpreendente a redescoberta do tema dos pobres nesta nação de ferraris, juncada de milhares de marinas onde acostam mais outros tantos milhares de veleiros, barcos de recreio, uma enorme riqueza que, se fosse confiscada pela revolução outra vez, nos daria um lugar economicamente honroso na Europa. Mas sem marinas e conservando alguns campos de golfe. O futebol, que é cada vez mais caro e nos tem acompanhado até à neurose, poderia encurtar, em vez de crescer, o que viria favorecer, com entidades sérias e coordena-doras, melhores hipóteses de investir em nome da pacificação dos eleitos, dos homens futuros, cada vez em medida mais certa na própria ordenação do território e do enquadramento das populações, do trabalho, das verdadeiras interacções, incluindo o processo energético.

O partido socialista parece ter ficado um pouco magoado com os devaneios poéticos do seu popular Manuel Alegre. Porque foi comiciar ou conviver com as esquerdas, aqueles grupos heterógeneos que, se forem compelidos a tomar uma decisão difícil, ficam congelados numa asssembleia geral, com pontos de ordem, requerimentos e propostas, até uma qualquer madrugada de um qualquer amanhã. Passei por isso, entre pobres e remediados. Em geral, nas manifestações de duzentas mil pessoas, a alfabetização política e social não passa de 0,5%, o que se avalia ouvindo, durante a passagem do cortejo, o que dizem os indivíduos: não sabem nada de nada, só sabem que querem ser menos pobres, poder fazer férias fora do país, e gritar com toda a fé que o Sócratas é um mentiroso. Sem mais nem projecto alternativo. Terão sido estes temas que as esquerdas ligadas às esquerdas, minadas por alguns direitistas da televisão, foram tratar no Trindade? Era bonito fazer essa pedagogia. Era bom falar sem clubismos, facciosismos ou fundamentalismos. Coisa que, segundo Manuel Alegre, em nada afectou a harmonia das reflexões produzidas. Ele próprio fez um discurso de poeta, levemente panfletário e demagógico, mas bonito, pronto para a época das searas. As pessoas espantam-se de não ter saído afinal nenhuma alternativa substancial e boa daquele encontro de inteligências das esquerdas variadas. Mas esse não era, porventura, o objectivo. E qual era o objectivo: perceber o fenómeno da pobreza? Perceber os projectos enganadores de Sócrates? Nada se decidiu, de facto, o que as pessoas queriam era estarem juntas, sentir o desejo esquerdo dos outros, fluir, encantar, perceber pelo olfato o afecto entre os suores da vida. Depois ouvi a entrevista do Manuel Alegre, pessoa que muito admiro, e percenbi que o entendo como figura a caminho da história, alguém que merece respeito, um homem que gosta de ser livre para estar onde lhe apetecer. Mas até ele precisa de merecer o lugar que lhe concederam. Apeteceu-lhe ir ali - e foi. Penso, penso, e fico com a impressão de que a humanidade (incluindo Portugal) não está boa da saúde, perdeu o sentido das causas e vergou-se à canga da globalização. Se as esquerdas integrarem os pobres, mesmo analfabetos, talvez passem do Trindade para umas barcaças Tejo acima, partilhando alegrias, tristezas, ignorâncias, palavrões. Depois façam um lanche onde ainda houver relva. E mereçam-no.

quarta-feira, junho 04, 2008

AS BELAS ARTES E SEGREDOS CONVENTUAIS

JÁ FOI LANÇADO O LIVRO
BELAS-ARTES E SEGREDOS CONVENTUAIS
_____________________
últimas linhas da obra
Quando a Ana me entregou os documentos de reserva, a comparação dos direitos da nova graduação que me era atribuída e a caderneta com a história militar salpicada de fungos, o Chiado tornou-se sombrio, dias depois praticamente inacessível. Em casa limpei o bolor da reforma, um razoável volume de papéis inúteis, e viajei pelas estantes procurando um livro raro. Via da janela pétalas no ar, borboletas caindo, e mais tarde, sem luz solar, os carros rolando devagar, entalados no triunfo do século, da sua tecnologia do seu crescimento, entre desenvolturas várias. Eu associava essa imagem felliniana ao horror de muitas premonições apocalípticas. Sentia-me ao mesmo tempo liberto, atravessado por brisas refrescantes, e com um leve enjoo no estomago. Saíra da Faculdade sem me preocupar com as coisas que por lá acumulara, abandonadas em velhos armários de madeira preciosa. Um dia tudo acabaria, em bolor e pó, entre as caves e o sótão.
Sentei-me por fim, fumando um cigarro, e pensei devagar: ninguém deu por nada, felizmente.
_________________________________________________
livro também à venda na própria Faculdade de Belas Artes

domingo, junho 01, 2008

AS GRANDES TRAGÉDIAS NA TERRA, QUE FUTURO?


As grandes convulsões da Terra no fim do século XX e no início deste parecem anunciar, pela sua escala e invulgaridade, aquele mítico fim do planeta que dizem estar codificado na escrita das dizimadas civilizações da América do Sul. Todas as sumptuosidades técnicas e de crescimento que se têm verificado a Ocidente, onde o poder e os procedimentos civilistas desguarneceram a vida urbana, a sua qualidade, as obsessivas práticas de produção e consumo, começam hoje a revelar as consequências de vários tipos de esgotamento: pelo ar compurcado, pelo aquecimento da Terra, pelo efeito de multiplicação do poder de compra de países como a China e a Índia, a indiciada escassez de produtos alimentares numa compressão inenarrável de hábitos, da saúde em geral, áquem das utopias que o espírito humano gerou, alienando-as segundo objectivos errados relativamente ao espírito da pessoa, da sua intrínseca inteligência, a tudo o que poderia ser o seu espírito na criação pacífica e pacificante. Os terramotos há pouco acontecidos na China, modificando a paisagem, arrasando milhares e milhares de habitações, comunidades, culturas, com réplicas quase tão grandes como o impulso inicial, matando uma centena de milhares de habitantes, ou mais, em paralelo com as absurdas catástrofes ba Birmânia, horror indizível em mortos e desaparecidos, para que os auxílios da comunidade internacional são travados pela Junta Militar, tudo isso redesenha a noção do mundo, entre as guerras em curso e as intempéries diversas nas mais inesperadas latitudes. A imagem a que recorremos neste apontamento, aliás tão mal noticiado e analisado pelos meios de difusão social, ganha de súbito um enorme valor simbólico, a solidão e a inércia de uma criança certamente arrancada à família e à própria infância, aviso aterrador perante um habitat completamente destruído.