sábado, novembro 03, 2007

ESTRANHEZA E FEALDADE NAS BELAS-ARTES

Hans Memling

Em todos os séculos, filósofos e artistas sempre forneceram definições do belo; por isso, graças aos seus testemunhos, é possível reconstruir uma história das ideias estéticas através dos tempos. Mas, com a fealdade aconteceu de maneira diferente. Na maioria dos casos, definiu-se o feio em oposição ao belo, mas quase nunca se lhe dedicaram tratados extensos, somente alusões parentéticas e marginais. Portanto, embora uma história da beleza se possa servir de uma ampla série de testemunhos teóricos (dos quais se pode deduzir o gosto de uma época), uma história da fealdade terá, na maioria dos casos, de ir procurar os seus documentos às representações visuais ou verbais de coisas ou pessoas, de algum modo, consideradas «feias». Contudo, uma história da fealdade tem algumas características em comum com uma história da beleza. Antes de tudo, podemos somente supor que os gostos das pessoas comuns corresponderiam de algum modo aos gostos dos artistas do seu tempo. Se um visitante vindo do espaço entrasse numa galeria de arte contemporânea e visse rostos femininos pintados por Picasso e ouvisse os visitantes a julgá-los «belos», poderia conceber a ideia errada de que, na realidade quotidiana, os homens do nosso tempo achassem belas e desejáveis criaturas femininas com rostos semelhantes aos representados pelo pintor. Todavia, o visitante espacial poderia corrigir a sua opinião se assistisse a um desfile de moda ou a um concurso de Miss Universo, em que veria celebrados outros tipos de beleza. A nós, ao contrário, isto não é possível, porque, quando visitamos épocas remotas, não podemos fazer verificações nem em relação ao belo nem relativamente ao feio, porque dessas épocas só nos restaram testemunhos artísticos. Outra característica comum tanto à história do feio como do belo é a que devemos limitar-nos a registar as vicissitudes destes dois valores na civilização ocidental. Para as civilizações arcaicas e para os povos chamados primitivos, temos achados artísticos, mas não dispomos de textos teóricos que nos digam se aqueles se destinavam a provocar o deleite estético, o terror sagrado ou hilaridade. ________________________________________________ Citação da abertura da História do Feio dirigida por Umberto Eco

Frank Frazetta


Geor Grosz

Joseph Adams

Quentin Metsys

Hieronymus Bosch

TristanTzara

Este problema, que vimos introduzido acima por Umberto Eco, não escapa, no livro, a considerações que vêm apurar comparações e julgamentos ali aligeirados. Um artista como Picasso, ao defrontar-se com máscaras africanas, e mesmo depois de saber as suas aplicações ou usos, aplicaria certamente, em plena fruição da estranheza, um conceito de beleza ao objecto. E sabemos como tais máscaras contaminaram uma sociedade em transformação, no século XX, adquirindo um inalienável estatuto de beleza. Isso não evita que pessoas menos informadas, menos cultas e abertas à questionação das formas, classificassem ou classifiqem as máscaras como feias. Esta relatividade não depende apenas do testemunho real no tempo de cada antiga escola artística, depende muito da cultura pessoal, da sua sensibilidade e da riqueza do seu imaginário. Quando eu declaro que considero em geral belas as ruínas de antigos patrimónios, formas que provocam alguma agonia noutras pessoas, isso decorre de identidades culturais peculiares. As próprias imagens que se publicam aqui, do livro citado, são, para muitos de nós, exemplares do belo, ou da estranheza, ou desta e do belo simultaneamente. Ou apenas feias.
A sensibilidade humana, e a longa viagem do seu imaginário, entre guerras e santificações, não é mensurável de tal modo -- ou não é mesmo de nenhum modo.

domingo, outubro 28, 2007

UM GANHADOR QUE NÃO QUER ENVELHECER

Jardim Gonçalves

O Comendador Marques Correia exprimiu a Jardim Gonçalves, em carta de 22 de Outubro de 2007 a perplexidade que o assaltara perante o clamor que se levantara contra aquele banqueiro inaposentável, clamor que se ficou a dever, pensa ele, às dívidas entretanto pagas (paternalmente pagas) contraídas por um filho algo aventureiro. Disse o Comendador que o mal estava em ter pago os 12.500.000 euros gastos pelo rapazola, o que não altera em nada a salgalhada que vai pelo BCP. O Comendador já não se lembra daqele tempo em que a idade de 70 anos levava à reforma compulsiva. E também não se lembra muito bem, presumo, daqueles senhores que começavam como paquetes e acabavam em gerentes, donde só saíam para o hospital ou para os Jerónimos. Este senhor, senhor Comendador, talvez seja o homem «que não devia pagar». Mas ele é um ganhador que não quer envelhecer.

sábado, outubro 27, 2007

ARTISTAS PORTUGUESES CONTEMPORÂNEOS I Maria João Franco

Seguindo um critério de publicar aqui, aleatoriamente, artistas portugueses contemporâneos, de qualidade reconhecida, recorremos hoje a pinturas recentes de Maria João Franco. Viúva do pintor Nelson Dias, cujo desenho de corpos atingira grande relevância expressiva, Maria João cerrou os dentes com a determinação de prolongar a memória da obra de Nelson, a par das suas pesquisas ainda conotáveis com aquele desenho, mas reivindicando junto de todos a sua identidade, a sensualidade dos corpos, a idea de pele, o rasgão das texturas, metamorfose do homem em bicho, à procura de um verdadeiro nome. A pintora não oscila na identidade institucional e na mesma verdade quanto às formas plásticas. Há um equilíbrio duro entre o ser da mulher e uma quase masculinidade na obra plástica. Por vezes, quando desenha, abre espaço às massas corporais, num claro escuro bem assumido, a superfície tratada com grande subileza de valores. Na pintura, este jeito de abstractizar as formas distingue-se segundo um idêntico calibre e balança para outros ritmos internos, gestuais e texturais. Todos esses materiais anunciam uma problemática para além do plano reico, sugerem a dor, o sofrimento, o grito panteista, o corpo trucidado, um expressionismo que parece anunciar a vontade de viver.
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pinturas de Maria João Franco

terça-feira, outubro 23, 2007

JOGOS POUCO INOCENTES *

Rodrigo Guedes de Carvalho
Comecemos por uma questão que tem muito a ver com as perversões do sistema editorial e pouco a ver com a literatura: o sistema que consiste em fazer passar por literárias umas pequenas histórias, nas quais se agitam umas figuras astuciosas chamadas «personagens». Tais formas de representação mais ou menos derivadas de um realismo triunfante alimentam-se de ninharias sentimentais, de um psicologismo primário, ou então da reconstituição histórica. Esta fabricação de livros em larga escala e com grande alarido tornou-se bastante permiciosa a partir do momento em que colonizou o espaço público e forneceu uma «imagem» completamente inócua da literatura. Neste sistema, a literatura é exclusivamente o romance, e nada mais existe. Um sinal eloquente deste estado de coisas é a generalizada aberração gráfica das capas dos livros. A fotografia de tipo jornalístico com alguns maneirismos artísticos tornou-se regra e já começa a invadir as capas dos clássicos que vão sendo reeditados. Neste sistema, a figura demasiado pública de Rodrigo Guedes de Carvalho ocupa uma posição de risco - a do jornalista de televisão que escreve romances - na medida em que corresponde a um estereótipo do escritor destinado a um sucesso fácil, isto é, ao sucesso que, no campo literário, nunca se converte em«capital simbólico». Serve este excurso para dizer que Canário responde a exigências que o subtraem ao contexto demasiado «profano» de onde emerge e não se deixa incluir no vasto parque de atracções criado pelo sistema mediático editorial.
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Este extracto do artigo «Jogos pouco inocentes» (revista Actual/Expresso) da autoria de António Guerreiro* aborda um problema cada vez mais grave no nehócio dos livros, roda de jogos e sorteios entre tráfico de influências, em que alguns talentos são ostensivamente espezinhados e outros, por lugar e circunstância, se situam no Sistema (em desordem) das editoras que se gabavam de descobrir qualidades e editar obras de referência. Neste livro, diz António Guerreiro, é muito visível o contraste entre aquilo de que o autor é capaz e os lugares onde vacila.

O ESTRANHO MUNDO DE FÜSSLI

Il Peccato Inseguito dala Morte

L'Incubo



Cerasmino e Huon Fuggono Davanti a Oberon

Il Fugitivo

Füssli é um autor pouco estudado e pouco abordado entre nós, neste pitoresco lugar de indolentes bizarros e cada vez mais litoral. Hnry Füssli, pintor suiço, de integração na escola inglesa, nasceu em Zurique, em 1741, e morreu em Londres, 1825. O seu pai (johan Kaspar Füssli) dedicava-se à pintura de retrato e à paisagem.
Füssli, que estivera votado à carreira eclesiástica, teve de abandonar cedo a sua terra natural e aportou a Berlim (1763), dedicando-se objectivamente à literatura. Dirigiu-se então para Inglaterra, ainda na perspectiva de desenvolver a prestação literária, mas, no seu contacto com Reynolds, ouviu deste um franco conselho no sentido de enveredar pela pintura. Mais tarde, com essa ideia a consolidar-se, demandou a Itália, como tantos nessa altura, optando por simplificar o seu nome, no trato social, para Fuseli. Foram nove anos de trabalho em Itália, onde estudou sobretudo a obra de Miguel Ângelo. Quando voltou a Inglaterra, em 1779, a conslidação da sua pintura era apreciável. Expôs em 1782 o seu famoso quadro «O Pesadelo». Foi eleito, anos mais tarde como sócio efectivo da Royal Academy. Também se dedicou ao ensino da pintura, na Academia, tornando-se director da Instituição em 1804.
Afinal Fuseli era verdadeiramente um autodidacta e houve que lhe apontasse a incapacidade de dominar de facto os princípios do desenho e da pintura. No entanto, o mérito da sua obra é inegável, apoiado sobretudo no poder do imaginário, aliás segundo a orientação cultural a que aderira e por uma forte expressão romântica. Curiosamente, Fuseli acaba por se opor a Reynolds, aproximando-se entretanto de William Blake, por óbvia percepção e desenvolvimento do movimento romântico. Ganhara popularidade, o que talvez se relacionasse com a sua cultura literária no âmbito de temas medievais, nomeadamente após a publicação de «O Castelo de Otranto» de Horace Walpole. Visionária, Fuseli, ainda à imagem de Blake, reitera a força de Miguel Ângelo e aproximou-se depois da obra de Milton, sobre o qual realizou grandes telas. A par disso, ou ao longo da sua prática da pintura, dedicou-se à gravura, num estilo enérgico e inventivo. O mundo de Fuseli caracteriza-se pela intensidade do imaginário, por configurações grandiosas e marcadas de estranheza, antecipando aspectos de miragens surreais e um peso entre o romanismo e o expressionismo. Teve discípulos que são, nas artes, figuras de referência.

N: apoio no Dicionário da Arte Universal /Ed E.Cor

quinta-feira, outubro 18, 2007

INCOMPARAVEL-MENTE

Benazir Bhutto

Foi considerada uma mulher muito corajosa. Benazir Bhutto, primeira-ministra do Paquistão há mais de 14 anos, foi deposta e reeleita mais tarde, considerando-se por isso «uma sobrevivente». Zulfikar Ali Butto, pai de Benazir, escolheu para a filha o nome de «incomparável». A sua trajectória privilegiada, sendo a irmã mais velha entre os outros filhos de Zulfikar, levou-a a concluir os estudos de Ciências Políticas e Filosofia, nas universidades de Harvard e Oxford, os quais acabou no fim dos anos 70. Nessa altura, o regresso à sua terra foi auspicioso, mas ela terá de passar por mais regressos. Antes disso, conferiram-lhe vários «títulos»: «mulher corajosa», «filha do destino», simplesmente «filha». Carachi é a sua terra natal e lá a esperam após 9 anos de exílio em Londres e Dubai (nada mal convenhamos), talvez milhares e milhares de pessoas. Este é mais um regresso (porventura problemático), mesmo tendo em conta a ideia dos habitantes da província de Sindh, se se considerar que ela aspira de novo ao poder. Há quem a entenda como «uma mulher corajosa, elegante e inteligente», mas há também quem a recorde como «uma grande desilusão enquanto primeira-ministra». Esta última questão também se relaciona, em parte, com a sociedade paquistanesa, muito polarizada e dividida entre os que amam esta mulher e os que a odeiam. O seu casamento, muito negociado pela mãe, não se pautou por uma escolha apaixonada. Casou em 1987, já famosa na política, com Asif Ali Ardari, um quase desconhecido para ela, praticante fundamentalista do pólo e vindo de um estatuto humilde. Este homem insistiu na proliferação de herdeiros e um dos seus «desportos» principais passava por coisas menos chiques do que o pólo -- era a corrupção. Benazir viajara nos anos 90, contra a opinião local, e dizia-se interessada em conhecer bem as relações internacionais, fundo imenso em que acabou por se enredar. Mas os paquistaneses deram-lhe o benefício da dúvida, desligando-a das penas aplicáveis por práticas menos recomendáveis. Voltou ao poder em 1996, dizem que tempestuosa e arrogante. Assumiu-se como o próprio Paquistão. Lembram outra vez, em 1996, a narração das aberrações, contratos, tráfico de todas as influências, casos trágicos da antiguidade e as intrigas dos impérios onde a traição e a volúpia do poder marcavam tudo. A sua prática nessa altura, contra as recomendações da Amnistia Internacional, após acusações de mortes nas prisões, assassinatos sumários, repressão relativamente à oposição, era condenada nas dimensões imponderáveis que alcançou. Quando deixou o poder de novo, em 1996, as aberrações, contratos, tráfico de todas as influências, escapam a uma narração nestas dimensões de espaço e tempo. A história torna-se difícil de sintetizar.É por isso que, como dizem os jornais, todo esse currículo (onde contam anos de prisão) deixa uma pergunta inquietante no ar: «quem é esta mulher que aterra hoje em Carachi?» É, dizem os que sabem, uma mulher muito diferente do que era em 1986. Nessa altura (pode ler-se no Público) tinha o ardor da juventude e voltava para desafiar um ditador. Agora volta mais uma vez, mas para se ligar a um outro. Citamos a sua biógrafa Christina Lamb: «Isto vai tornar difícil ela poder dizer que está a lutar pela democracia». A verdade é que este rosto ainda cuidado e reflectindo uma beleza mítica, um combate antigo, foi, como veremos a seguir, incorporado por outro, ou vingativo, ou arrogante e sem dúvida ávido pelo poder.

N: considerações apoiadas na imprensa do dia, 18.ou.07, em especial o Público.

DENTRO DO ROSTO

Jodie Foster
A ESTRANHA EM MIM

Este filme, tendo em vista os actores e os meios de produção entre Austrália/EU, podia tratar mais o estranho que, em certas circunstâncias, passa a viver, irreversivelmente, dentro de nós. Ou seja: poderia cuidar menos do efeito exterior, na transformação «vingativa», e sobretudo das sombras com que temos lidar, em silêncio. Jodie Foster, apesar de tudo, é uma actriz adequada para estes géneros de papéis, mas a natureza morfológica e fisionómica do seu rosto faz mais por ela do que o inegável talento que possui. No filme, o namorado é assassinado e ela fica gravemente ferida. Depois, a longa cura da personagem, digamos assim, porque algo passou para dentro dela, ficou habitada, como alguém a houvesse incorporado, numa espécie de posse do seu psiquismo.
Agora é que se deve dizer que esta ideia, apesar de habitar, inegavelmente, um respeitável filme, poderia ter sido trabalhada menos fisicamente -- a estranheza de um interior mudado, misterioso, incontornável. Mas o argumento (americanizado) coloca Erica a patrulhar as ruas, após ter comprado uma arma. De um ponto de partida profundo e independemente dos bons meios, dos bons actores, o espectáculo dessa outra vida que destroçou a natureza da rapariga teria ganho em escapar à via do mercado, ao desejo do sangue, à entrega a uma forma visual que tem meios para seduzir mas resulta por vezes redutora.

quarta-feira, outubro 17, 2007

A IDADE DAS TREVAS


CITAÇÃO


«A cena é tórrida, uma escultural estudante sueca convida o professor de arqueologia para jantar.Ao longo das aulas, a criatura já tinha espantado o professor com os seus dotes e generosos decotes. Durante a comezaina, a sensual nórdica olha nos olhos o professor e diz-lhe ter uma fantasia gastronómica. 'Quero fazer uma sopa de peixe com leite das minhas mamas', repetiu ela, como se dissesse a coisa mais natural do mundo. Colocou a mão no seio esquerdo e espremeu-o de modo tal que o mamilo espreitou pela borda do decote. 'Gostava de provar?' Tomás sentiu uma erecção gigantesca a formar-se-lhe nas calças.»
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Codex 632
Dizem os jornalistas da Focus (entre outros) que esta é, provavelmente, a passagem mais conhecida do livro Codex 632, do locutor José Rodrigues dos Santos. Os críticos, injustamente, chamaram-lhe a pior sena de amor de sempre. Alguns alvitram que o arqueólogo, que já conhecia a rapariga, naturalmente, tinha sobretudo uma predilecção pelas suas nádegas. Para o caso, tanto faz, estamos na Idade das Trevas, tempo em que a mediatização e a calculada provocação levam estes livros a vender 400.000 exemplares, o que dá bem a medida para onde caminhamos todos, embalados pela «fórmula do sucesso». Fala-se muitos das fortunas dos políticos e dos gestores, mas esta espécie de venda da alma (pré-literária) por tais processos deveria obrigar os editores a publicarem com um bocado de mais ética e pudor.
Aqui há dois meses, deixei numa editora de referência um original nos termos em que o editor dizia estar mais interessado. Tratara-me sempre com luxuosa simpatia e, não tendo coragem para publicar «Angola 61», teve pelo menos o mérito de propor a obra à extinta Contexto, ao Manuel de Brito, homem que percebeu que o texto, contando situações reais, era literariamente bom e por isso falível. Mas publicou com desvelo. Na outra editora, que mostrara preferir coisas mais ensaísticas, apresentei «A Culpa de Deus», logo recusado porque era complexo e tinha uma escrita difícil para o público. Sempre com a lembrança do ensaio, acabei por voltar áquela casa de grande zelo ensaístico (contabilístico por ter colaborado nas calculadas travessuras do Rodriges) e deixei lá a «Culpa de Deus», enfim publicado por gente mais ecológica (oferta com dedicatória) e uma carta propondo uma peça de carácter ensaístico, com trechos autobiográficos, «Coincidências Voluntárias», de acordo com o que sempre me tinha dito. Recebi dois dias depois o original devolvido e uma espécie de reprimenda: «você só me mete em sarilhos, este tipo de livros não se vende e ten hoje aqui uma casa com empregados cuja vida depende da empresa, a vida deles e dos filhos»...etc. «O senhor editor ainda me disse que os livros eram grandes, tinha lá tempo para ler, nem sequer o livro oferecido sabia se teria capacidade para o ler.»
O que é que se responde a uma carta destas? Quem é este senhor que uma vez me passeia pela editora, predisposto a publicar um livro muito elogiado por um professor da universidade de Los Angelos, e agora já nem lê, portanto está incapacitado de gerir uma editora, nem só de assessores se sustentam os deuses.
O meu caso é desconhecido (ou quase) excepto os livros que publiquei sem código nem evocações de Da Vinci. Mas a promiscuidade nesta área, o tráfico de infuências, as ideologias do dinheiro, tudo isso não vale um par de mamas. Mais valia republicar a tradução do Miller. Se a espectacularidade, a todos os níveis, afunda toda a boa poesia portuguesa, literatura, ensaio, música verdadeira, ciência, então é porque nem os 3% nos salva. Vale tudo, na Idade das Trevas.

terça-feira, outubro 09, 2007

A LONGA AGONIA DAS ESPÉCIES

revista Visão


Milhares e milhares de anos depois desta nossa época turbulenta, cheia de sinais, entre avisos e genocídios, a Terra, ameaçada no seu próprio corpo pelo aquecimento dos elementos da sua estrutura atmosféria e marítima, terá o seu declíneo marciano, amargamente recortada por continentes perdidos, mares secos, transformados em crateras, planícies e rochas abismais, enfim desertificada, sem vida animal ou mesmo vegetal, gretada como o indica a fotografia aqui publicada, um grande habitante das profundidades, quase de súbito sem condições de vida, morto e apodrecendo. Enquanto o tempo passa e os homens insistem num futuro da abundância, a verdade é outra, esconde-se nas florestas delapidadas, nota-se nas cento e trinta espécies de seres vivos que se extinguem por dia. Os próprios homens, apesar da sua sofisticação tecnológica, produz futilmente e deixa que avancem no espaço e no tempo novas doenças fatais, fruto de uma genética abalada em si mesma. Dezenas e dezenas de genes acusam a sua anomalia, criando agentes propícios a distúrbios muito graves, entre os quais Alzheimer parece um imenso castigo de Deus, apesar da Sua absurda Omnipresença. Sida, tuberculose, distúrbios arteriais, depressões, diabetes, cancro, obesidade -- e a fome que mata em lugares cujo suporte natural seria uma reserva futura inalienável, África, preciosidades roubadas por poucos, sem compaixão pelos próprios irmãos que abandonam, sob a crueldade de chefes tiranos, em campos de concentração, milhares e milhares de mortos todos os anos. Os sistemas ecológicos degradam-se e abortam, os rios passam sujos de terra, óleos, peixes mortos, sobrevivendo ainda à nossa volta, milhões de insectos cada vez mais vorazes.

Quantas toneladas de habitantes do oceano terá comido aquele pesado espécime, ali morto, apodrecido, picado de mosquitos do futuro?

sábado, setembro 29, 2007

VANITAS, VANITAS, VANIDADE


Há representações de certa época que se consolidaram em torno da sagração e da morte, emblematizando na composição e nos símbolos do esquecimento, dos vagos sons, dos textos preciosos, de uma acumulação de coisas pertencentes à vã glória, o crâneo indispensável e o apelo à memória petrificada, perene. A verdade é que a origem desta moda, indício da natureza morta, envolve em véus sumptuosos esses sinais de vanglória superficial, a exibição, a frivolidade de quem ostenta no vazio, vanidade ou estultícia, um protagonismo fora do real, do discernimento e do bom senso. A música entrará no cerimonial assim edificado, a encher de vibrações as órbitas do rosto ósseo, melancólicas harmonias de timbre grave, para além do pó que desce sobre a própria obra, tornando-a baça, verdadeira ostentação do vazio, na beleza chorada de inépcias outrora, muito do que nos acontece hoje, coroas de flores sobre o mármore, à superfície dos cemitérios e por vezes na grandeza desconcertante dos jazigos, vanitas abarcando áleas de ciprestes, glórias inúteis das vanidades moldadas na pedra e nos vitrais de janelas góticas, vencimento glorioso e solene da morte. O infinito é uma mentira.

segunda-feira, setembro 17, 2007

ARTISTAS PORTUGUESES CONTEMPORÂNEOS | Paula Rego

cães vadios 1965

The Pillowman 2004 típtico

metamorfoseando-se, segundo Kafka 2002
Paula Rego é uma das mais importantes artistas do Portugal contemporâneo e fez grande parte da sua «escola», como ainda hoje acontece, em Londres. A primeira pintura deste conjunto é das mais antigas, dos anos 60, e, para muitos apreciadores da autora, ainda das melhores e mais inventivas séries de Paula, porventura muito na base do seu estudo
em instituições inglesas. Seja como for, as suas gravuras conservam o sentido de história e situam-se, por assim dizer, entre a sua fase dos anos 60 e a deste século.
*
Paula Rego considera-se uma contadora de histórias, mesmo quando a sua obra, na década de 60, se mostrava convulsiva e abstracta: ela encontrava sempre nesse universo estilhaçado os cães de Barcelona, o regicídeo, entre outras «narrativas» de um imaginário carregado de fantasmas alegres e sombrios, mundo afinal orgânico que parecia desmembrar-se e dilacerar-se de dentro para fora.
Desde o fim dos ans 70, Paula Rego, usando em Londres um modelo feminino quase grotesco à partida, trabalha a crayons de óleo situações aterradoras, algo abjectas, mostrando a mulher numa situação de escravatura actual, engtre cenários de hoje ou fingidamente de outra época. A par dessa linha, os personagens multiplicaram-se e as histórias (ou alegorias) vieram descrever interiores e exteriores em sucessivas encenações meio absurdas, o que se pode apreciar nas obras feitas para a Presidência da República (o martírio do sagrado) como no tríptico «The Pillowman» (2004). A cena da metamorfose, a pequena assasina, war, são outros temas de uma infinidade de peças que se espalham pelos museus do mundo e estarão presentes dentro em breve no Museu Rainha Sofia, Madrid.
A técnica poderosa, a fealdade dos seres a par de rostos que aspiram à beleza da escese, tudo isso passa por grandes composições onde o realismo se casa com o expressionismo, talvez mesmo com o surrealismo, cenas ásperas, tão contemporâneas quanto medievais, a violência encoberta, o desejo, a carne degradando-se em vida, as encenações de situações angustiantes, as coisas soltas, o mundo, o destino humano entre maldades e a beleza juvenil. Ao fundo, na paisagem ou entre janelas, a morte. Paula Rego não o representa mas ela faz-nos pressentir essa dimensão figurada ou ausente.











ANJO 1998

terça-feira, setembro 11, 2007

FOTO JORNALISMO NO HORROR E NA SOLIDÃO

foto de Nicolas Asfuri Frande Press
julho 2006
Elementos da Cruz vermelha retiram o corpo morto de uma criança dos escombros de uma casa no Gana. As palavras são cada vez mais raras para classificar este genocídio global que mancha o mundo com grandes extensões de sangue, da humana catástrofe.


sala de estar de uma barraca no bairro das Marianas, em Carcavelos
foto de Rui Gaudêncio, Público
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O foto-jornalismo, a par de diversos tipos de representação fotográfica, corresponde por vezes a um trabalho penoso, marcado pela dor alheia e pela nossa própria angústia. O mundo retrata-se cada vez com mais meios e menor campo de equilíbrio, de consensualidade, de pontes sustentáveis entre povos, sistemas, alternativas em nome da paz. Estas palavras constituem
já um insuportável lugar comum, mas quase ninguém dispõe de vocábulos de substituição.
A aparente serenidade europeia, que a União defende em termos de uma sofisticação
inútil, sobretudo porque as diferenças são aproveitadas para domínio de certos países
sobre os outros, esvai-se em normas, ou tratados cínicos que não abreviam conflitos nem
os sofrimentos de que todos, afinal, dependemos.

segunda-feira, setembro 10, 2007

MADELEINE, UM ROSTO DE SÚBITO IRREAL








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Na altura em que Madeleine desapareceu do aldeamento da Praia da Luz, enquanto os pais jantavam com amigos ali perto, algumas pessoas criticaram, de forma ainda moderada, o facto dos pais terem deixado dois gémeos e a menina, mais velha, a dormir, cerca das 19.30h. São hábitos, é ouitra cultura, diziam. E em plena luz do dia, quando toda a gente se deixava arrebatar com o que parecia ser um rapto bem executado, a cordialidade para com os pais, Gerry e Kate, foi muito calorosa, entre gestos e palavras sentidas. Nós próprios prestámos aqui uma alento aos pais, publicando uma bela fotografia de Madeleine, e enunciando as calamidades deste tipo que de crimes que se abatem cada vez mais sobre as famílias, um pouco por toda a parte.
Por estranho que pareça, a espera, depois das buscas no terreno, começou a envolver aspectos intrigantes, um novelo de notícias perante o programa de viagens dos pais a muitos países, apelando pela a entrega da filha e colocando cartazes em tudo quanto era sítio. A certa altura, o efeito de novela parecia assustador: os pais tinham assessores e advogados, davam conferências de Imprensa, Kate sempre com um ar hermético e a obsessão de transportar o boneco peludo que pertecia à filha.
Esgotadas certas pistas da teoria do rapto, a polícia recolhe indícios de sangue e material orgânico, quer no quarto da menina, quer num carro alugado. Todas as cabeças se voltam para os pais, numa suspeição que decorria da viragem das investigações e de longos interrogatórios a que foram sujeitos. Põe-se a hipótese de acidente, negligência, homicídio, ocultação de cadáver. Kate e Gerry passam à condição de arguidos com coação de apresentação periódica à polícia, o que não os impediu que tivessem regressado a Inglaterra, onde cumprirão as obrigações legais.
Este é um caso de estudo, pois em boa verdade ninguém pode, agora, dar como homicidas estes pais, a despeito de toda uma encenação internacional, atitudes regulares mas de inquietante tensão, contradições iniciais, silêncio entretanto. Era bom que houvesse um cabal esclarecimento do caso, pois a ficar-se sem a presença do corpo e em face do tráfico de influências habitual, uma boa parte pedagógica dos eventos perder-se-á. Veja-se como o povo da Luz, solícito e carinhoso de início, não se envergonhou de apoupar os pais de Madie logo que eles foram apenas colocados na condição de arguidos. Aliás, comportamento muito mais grave do que este (de gente pouco dada a ponderações mais profundas) foi o de certa imprensa inglesa, recorrendo às mais feias insinuações sobre a polícia portuguesa (incompetente, no mínimo) e reinventando a realidade a seu belo prazer, uma soberba típica de muitos subditos da Rainha, pessoas que tendem a ter sempre razão, a dizer de alto os erros que cometem como verdades incontornáveis. Da parte portuguesa, profissionalmente, as atitudes foram correctas, cedendo aos ingleses a prioridade no estudo dos indícios mais delicados. Gente que nem parece da Europa, que sugere ainda uma mentalidade colonial. apesar dos patamares de evolução que todos lhe reconhecem, cobre uma ilha desligada da Europa, na geografia e em muitas outras coisas, exige, conduz, nega-se a aderir ao euro, aproxima-se da negação de outras ligações e deveres. O que é bom que venha. Mas a nossa soberania em todos os sentidos não pode ser beliscada de forma nenhuma. A Inglaterra dos piratas e das grandes explorações coloniais, com privilégios na roda do mundo, tem uma das mais rasteiras imprensas de tablóide que conhecemos e portou-se, de um ponto de vista monárquico e institucional, de forma sinuosa, obscura, discriminatória, em muitas das situações que rodearam a vida e a morte da princesa Diana.
Madeleine, na sombra dos odores que os cães farejam, é hoje um rosto emblemático mas definitivamente irreal.

sexta-feira, setembro 07, 2007

A SUAVE ESCRITORA E OS TERRORISTAS

Margarida Rebelo Pinto

Esta conhecida escritora das nossas letras, protagonista de grandes êxitos editoriais, em particular quanto aos milhares de livros vendidos, tem sido louvada e combatida por diferentes protagonistas da cena intelectual portuguesa, cronistas e críticos literários, aos quais ela responde de forma desnivelada, sobretudo desnecessária. Agora apareceu a atacar os «blogues», aquilo a que chama, destemperadamente. «um território de guerrilha suja, protagonizada pelos terroristas da Internet». Assim, tal e qual, todos ao molhe. Olhe, Margarida, eu uso este «territótio» como uso a pintura, o cinema e a literatura. Saberá você que, tendo eu uma obra vasta e de qualidade reconhecida (sem pretensão às filas da frente, claro), fizeram-me ancorar aqui e além, poucas críticas aos meus livros sabotados pelas máquinas editoriais e outras, pouco estudo da pintura, audiências da tarde, pelas seis horas na televisão (séries culturais sobre arte), um cinema de ensaio premiado lá fora e usado sobretudo na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Este ficar entre parenteses, este esboço de esquecimento, estas marcas do tráfico de influências inacessível, tudo isso (fora a vida académica) são dores que você não sente, circunstância que pode afectá-la, deixando-a contudo refém de um êxito periférico, cujo significado mais profundo tem maior importância quantitativa do que literária, presumo. Públiquei «Os Passos Encobertos» (romance), «Amnésia» (teatro), «Angola 61, uma crónica de guerra» (factos reais de uma comissão em Angola), «A Culpa de Deus» (romance, para um ensaio sobre o livre arbítrio). Foi decisivo o romance «A Casa Revisitada». Está para sair «Memória das Velhas Artes e os Segredos Conventuais», «Nojo aos Velhos também», e escrevo entretanto crítica de arte no JL, como aconteceu no Diário de Lisboa, Colóquio, Opção. Não estou a fazer o meu currículo: estou a mostrar-lhe que esta obra, reconhecida por personalidades de grande relevo, por vezes até indignadas com os silêncios, não passa pelo largo crivo oferecido à sua escrita. E isso revela como se sufoca em Portugal, como se discriminam valores erradamente, porque, para falar do seu caso, convido-a a ler A Culpa de Deus, avaliando-o segundo o seu critério, tentando perceber se tal obra é menos digna do que qualquer das suas. O que fazem as distribidoras e os escritores uns com os outros? Você acharaia mal que constitíssemos um Observatório para esta área, entidade ordenadora de quantidades, qualidades, regras, pareceres, propostas e definições vinculativas em certos casos? Se você não monta nenhum «blog» é porque pode escrever um livro num mês e atirá-lo para além da própria Internet. E creia que nem todos os bloguistas são terroristas, porque, em geral, são muitas coisas mais. Veja lá não lhe apeteça o caminho de Espanha, como o nosso colega Saramago, a globalidade subverte tudo em toda a parte. Faça por admirar também os seus inimigos. Torne as suas indignações matéria literária.

AS PAREDES FALANTES E A CASINHA MOTORIZADA


Há sítios, em certas cidades e aldeias do interior, que nos apresentam coisas de grande contraste e ironia. Veja-se este caso curioso: os meninos ladinos da rua, grafitavam sem zelo paredes e empenas, perturbando com esse ruído visual as coisas em volta. Desactivado o cinema, construção desproporcionada com mão de engenheiro, a empena sul, desgastada e cega, era por vezes atacada pelos rapazes dionisíacos, que atiravam latas de tinta, superando Pollock, à parede vagamente branca. Pacientemente, os responsáveis pela cidade e o dono do cinema «paraíso», pintaram de novo toda a parede e mandaram chamar os «meliantes». Disseram-lhes que as leis são para cumprir e que o dadaismo deles enlameava uma cidade ultimamente bastante cuidada. Por isso lhe faziam uma proposta: que eles pintasse a sério, na faixa inferior da parede, e que depois logo se via. Esta acto pedagógico (algo arriscado) resultou nestes bonecos aqui apresentados: não se tratam de grafittis de cunho superior, como se vê por esse mundo fora, mas nota-se o desejo dos «artistas» em minirar os impulsos e controlar a mensagem.
Ali perto, muito perto mesmo, há uma longa fila de casas térreas, dos anos 40, onde moraram muitos operários corticeiros. Quando esses operários tiveram de migrar ou emigrar, pela destruição daquela indústria transformadora, houve descendentes dessas gerações perdidas que por ali ficaram, remoendo os dias e conservado o tecto. O mundo espalhou mal as oportunidades. Mas posso garantir-lhes que o carro estacionado diante do prédio pertence a um membro da nova comunidade. Um descendente de outra maneira de trabalhar. Coisas do tempo.


segunda-feira, setembro 03, 2007

LUGARES COM A MORTE ANUNCIADA




O jornal Público apresenta hoje, dia 3 de setembro, 07, uma reportagem sobre Grand-Lahou, cidade em vias de extinção na Costa do Marfim. Texto sintético. Profundamente tocantes as fotografias de Issouf Sanago /AFP. As pessoas ainda sorriem quando se fala em grandes catástrofes planetárias e insistem em considerar que o problema do aquecimento global é um mito urbano.
Há muito tempo, em Grand-Lahou, a população residente deslocava-se pelas ruas, vivia a plenitude das culturas locais, plantava coqueiros, cumpria, enfim, os deveres de cidadania e respondia aos preceitos religiosos, ao baptismo, por exemplo, esperança no futuro para além dos mortos enterrados na ritualidade própria e no desejo de um «reino» para além desse silêncio.
A primeira nota do texto informa-nos de que ainda há vida em Grand-Lahou, qualquer coisa como cinco mil habitantes, dos anteriores 20.000. Cerca de 15.000 deslocaram-se para longe dali, transportando tudo o que tinham, procurando assim uma vida melhor e tendo em conta que o mar, ali, continua a avançar por cima de tudo o que foi ficando.
a padaria de Maïga
Para Maïga, Grand-Lahou já foi Terra Prometida. Quando saiu do Mali estava informado de que o mar poderia galgar a terra, mas a sua fé levou-o a montar uma padaria em Grand-Lahou (1962), desacreditando dos brancos que lhe haviam anunciado o tempo das águas, das inundações irreversíveis, da morte dos coqueiros, do desaparecimento das construções em adobe precário.
cemitério submerso
Se é verdade que Grand-Lahou chegou a ser um dos principais entrepostos coloniais da Costa do Marfim, também é verdade que os missionários brancos, por 1920, tomaram as coisas a sério e iniciaram ali um trabalho incisivo de evangelização. Os mortos enterravam-se a preceito e o tempo de nojo tinha sentido. Hoje, o presidente da Câmara, diz para os jornalistas deste trabalho: «É triste ver o cemitério cristão dos nossos pais despaperecer no mar». Uma água impiedosa, na espuma dos dias, arrasa as campas e rende uma estranha homenagem a pessoas que outrora pareciam eternas.
a morte anunciada
Como é habitual em muitos destes casos, os habitantes daquele lugar, e outros, responsabilizam o governo da Costa do Marfim por nada ter empreendido a fim de travar a subida do nível das águas do mar. Falta-lhes relacionar melhor a frequência e o aumento das tempestades bíbiblicas, os dilúvios, a convulsão da própria terra. Há espaços e vidas que, pelas suas características, são empurrados para o início de grandes transformações terrestres e oceânicas. O aquecimento é global mas esse o problema aqui afectará, de forma particularmente severa, a costa ocidental de África. Foi desenvolvido, por especialistas norte americanos, um importante estudo onde se calcula que o mar possa subir ainda mais 50 cm até ao final do século, com custos colossais para o país.
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N. texto extraído da reportagem já referida, embora apresente alguns pontos de reescrita.

sábado, setembro 01, 2007

CULTURA TRANSGÉNICA DA CRÍTICA POLÍTICA

José Pacheco Pereira
professor

Personalidade de grande assiduidade interventiva, prestando trabalhos multimédia aos orgãos da comunicação social, instituições universitárias, forças partidárias e acontecimentos de reflexão política a diversos níveis, Pacheco Pereira tem marcado um longo período pós 25 de Abril da vida portuguesa com inusitada veemência teórica, incluindo o plano inventivo das hipóteses de transformação dos governos, sem desvios de uma democracia mais robusta de um ponto de vista ético. No último número da revista sábado, 30 de Agosto, 2007, coluna «A lagartixa e o jacaré», este erudito comentador preocupa-se com a RTP. Inquieto sobre quem manda nela, imagina-a governada por uma cadeia hierárquica que depende do par Santos Silva - Sócrates, como no passado aconteceu com o par Morais Sarmento - Barroso. Estes receios, poventura justificados, fazem parte do elenco de eventuais mordaças aplicadas ao universo da imprensa escrita ou audio-visual, que muitos apontam ao governo (leia-se Sócrates) e a uma espécie de projecto Big Brother para a nossa sociedade em geral, numa gestão orwelliana mais fina dos últimos fios de liberdade. O medo de ser português chegou às bancas em forma de livro, mas Pacheco Pereira, capaz de citar algum epifenómeno desse tipo, não é jogador cobarde, nem se furta aos possíveis ataques dos seus próprios correligonários: saltará sempre a crista da onda, criando rectaguardas demolidoras. A RTP foi sobretudo mais um pretexto para fazer política e atacar o primeiro-ministro, figura a quem reconhecerá alguns feitos e alguma coragem, mas que se aproxima cada vez mais do fim do mandato e da natural perda da maioria absoluta no Parlamento. Embora os monitores caseiros andem atulhados de futebol, como sempre, Pacheco Pereira, quanto à RTP, acha que ela está demasiado sobrecarregada de «momentos Chávez», expressão algo grosseira para caracterizar os momentos (quanto a mim, muito escassos) em que o primeiro-ministro aparece nos ecrãs. Pacheco diz que Sócrates se apresenta «compostinho e grave, a falar do palanque nas condições preparadas profissionalmente pela sua máquina de propaganda». O povo gosta desta visão chocarreira aplicada aos governantes, mas a intervenção séria sobre tais problemas, e num país ainda largamente iletrado, deve reger-se por melhores critérios éticos, não por uma espécie de hipertrofia transgénica no apontamento dos erros e dos fatinhos domingueiros. O crítico, aqui, acha que tudo é sempre encenado, calculado, incluindo figurantes, e enquadramentos de reportagem. E em todos estes aparecimentos do primeiro-ministro na televisão (aparecimentos a que chamarei, por agora, esporádicos), Sócrates «não se pronuncia sobre nada de importante, seja a 'ceifa' transgénica e a apatia da GNR, sejam as estatísticas preocupantes da enonomia portuguesa, seja o silêncio sobre as negociações do célebre 'tratado reformador', sobre o qual nada se sabe, apareceu de novo para as habituais sessões de propaganda». Depois, e na mesma forma, a frase ácida vai para novos pretextos de gabarolice saloia quando o primeiro-ministro entrega computadores ao abrigo do Programa Novas Oportunidades, «ocasião única de armazém, que pode ser repetida quantas vezes se quiser». A entrega dos computadores tem de facto um significado real de grande importância se pensarmos a sua relação com outros problemas da área do ensino, mas concordo que, repetida cem vezes, ou mesmo cinquenta, ou mesmo dez, ou mesmo cinco, pecará por redundância política. Quanto ao resta, as coisas fiam mais fino. E das duas, uma: ou Pacheco Pereira é a personalidade culta, sólida e séria que tantas vezes tem procurado fazer passar, ou o seu inegável talento analítico e literário estão enlameados pelo lado mais soez da política, precisando o autor desse género de populismo para apontar erros a Sócrates e ao Governo. Se estivéssemos em lugar e circunstância adequados, penso que valeria a pena confrontar Pacheco Pereira com as descaracterizações, distorções, mal-dizer paranóico, intencionalidades enviesadas, partindo apenas do modo de usar palavras como propaganda, máquina, recado governamental, conveniência, condições preparadas, palanque, falar do palanque, sempre com amplo tempo, compostinho e grave, mitologia ideológica do serviço público, e, entre outras falas engrenadas como vimos atrás, para terminar com o golpe fulminante «momentos-Chávez», momentos inadmissíveis em termos jornalísticos, sobretudo na «oficiosidade» das notícias. Lamento este género de colorido e de vocabulário, com a carpintaria jocosa (para dizer o menos) que nos foi oferecida em toda a crónica «Problema da RTP». Tal trabalho jornalístico, em vez de um outro mais didáctico e com menos empáfia, esse sim, é que anuncia o medo, é que engatilha a humilhação, é que borra o retrato para que nos sintamos pequenos e informes ao espelho do «Big Brother».

Rocha de Sousa

SARAMAGO FUNDADO E FUNDAMENTADO


O Nobel português da literatura acaba de criar uma Fundação. Pilar del Rio, sua mulher e tradutora para Castelhano, é a presidenta. O «Expresso» esteve com o casal no seu refúgio de Lanzarote. Esta é a notícia e apresentação da capa da revista UNICA, daquele semanário, de 1 de Setembro de 2007, rasgada a branco sobre uma pose fotográfica do casal, cuja expressão arrasta uma certa ambiguidde. Pilar não deve ter culpa da impressão a duas páginas do casal e sua casa, com legendas típicas das reportagens feias à alta sociedade, sobretudo depois da frase dela: viemos viver para uma ilha, rodeados de vulcões, porque não nos interessa a vida social, não nos interessa o brilho e a espuma social. Pois sim. Mas esta reportagem vale os olhos da cara e representa por isso mais do que muitas visitas sociais, enche bem uma piscina com a mornidão da «espuma social» e do seu «brilho». O escritor, talvez inquieto com a necessidade de dar corpo a realidades da sua passagem pela terra, acabou por aceitar fundar uma Fundação para memória futura, cremos nós e não é má ideia, não senhor. Até porque, como se escreve no jornal, são atribuidas a Saramago as seguintes ideias: a intervenção cívica é uma atitude característica do fundador que considera estarmos a viver numa época onde não há pensamento, nem reflexão. Ele acaba de lançar duas polémicas que estão aí a dar os seus frutos: a constituição de um novo país, a Ibéria, e o facto de ser uma atitude neocolonialista chamar-se à Améria (a que não é Estados Unidos nem Canadá) América Latina ou Hispano-América. Podem ser ideias polémicas mas não reflectem nada de soberbo para o mundo, todo esse mundo que tem que ser pensado, porventura com mais Fundações e menos Américas. A teimosia do escritor no seu casamento com Espanha parece esquecer, com algum cinismo, o papel de Portugal no Mundo, os espaços que desencadeou como nações, submetendo-se à História, do Brasil a Timor, e os milhões de pessoas que falam português. A nossa diáspora é extraordinária e só em Paris vivem dois milhões da natural projecção portuguesa, nação que é, em identidade formal, linguística, cultural, a mais antiga da Euopa. Quando o Rei de Espanha saudasse a nova província da Ibéria, milhões de portugueses em todo o mundo gostariam de cercar Lanzarote de terra vermelha, acabando com a solidão bonançosa rodeada de oceano e de súbito colonizada pelas palavras de «Levantado do Chão». Há cada vez mais chão nas palavras e na invenção geo-política do mundo. Sabemos pela voz de Pilar que, em certa altura, Saramago sonhava coisas extraordinárias, sonhos que depois não recordava. Mas eram estranhos e por vezes falados para todos. Os sonhos, diz Pilar, eram em português.











um trecho de Lanzarote e o amor junto do vulcão

quinta-feira, agosto 30, 2007

A GRANDEZA DA DÚVIDA

Madre Teresa de Calcutá

Esta mulher que ostentava frequentemente um sorriso, na sua aproximação aos grupos de humanos miseráveis, foi durante décadas dilacerada pela dor, pela dúvida, por uma solidão sem luz e sem a verdade de um convívio caloroso. Ao seu júbilo no entendimento de Cristo, seguiam-se muitas vez horas de angústia e de ausência. A caridade cristã é um domínio que se reveste de algumas obscuridades e que se confronta, todos os dias, com a aparente impossibilidade de minorar a miséria e o sofrimento em muitos pontos do mundo. Madre Teresa de Calcutá era conhecida como a «Santa dos Pobres» e foi-lhe conferido o Prémio Nobel da Paz em 11 de Dezembro de 1979. A sua obra humanitária, eventualmente discutível por alguns pragmatismos, é contudo de uma grandeza insofismável. Mas a sua entrega, longa e penosa, foi atravessada pelas dores da incerteza e do modo de como aceder a Deus. As cartas que escreveu e que havia pedido para serem destruídas após a sua morte, foram largamente conservadas pela Igreja e poderão, publicadas na biografia de Madre Teresa, servir de caminho de reflexão aos homens, sobretudo aos que se julgam pilares inabaláveis da prática diária do catolicismo. Quem julgava conhecer bem esta mulher, nos actos e nas palavras, tem hoje, no seu testemunho mais profundo, sinais dela num sentido por vezes semelhante ao drama do existencialismo nos anos cinquenta. «Como se um dos maiores ícones humanos dos últimos cem anos, cujos notáveis feitos parecem intrinsecamengte ligados à sua proximidade de Deus e que era habitualmente observada em silêncio e em oração, tanto pelos seus próximos como pelas câmaras de televisão, estivesse a viver em privado uma realidade espiritual muito diferente, uma paisagem árida da qual a divindade desaparecera» 1 Do léxico de Teresa de Calcutá fazem parte, numa inquietante autocontradição, palavras tão acutilantes e actuais como «secura», «escuridão», «tortura», «solidão». O sorriso, escreveu ela, é uma «máscara» ou «um manto que cobre tudo». Apesar do desenvolvimento das «Missionárias da Caridade» pelo mundo em geral, Madre Teresa interrogava-se, como que a sangrar: «Trabalho para quê? Se não há Deus não pode haver alma. Se não há alma, então Jesus Tu também não és verdade». Aqui aparece, em duas palavras apenas, a dúvida sobre a existência de Deus. Num documento assombroso, uma carta dirigida a Jesus, Teresa queixa-se de sua condição de sofrimento, de uma «agonia indescritível» E acrescenta: «Muitas perguntas sem resposta vivem dentro de mim com receio de as destapar ( por causa da blasfémia); se existe Deus, por favor perdoa-me. Quanto tento elevar os meus pensamentos ao Céu, há um vazio tão culpado que esses mesmos pensamentos regressam como facas e ferem a minha própria alma. Dizem-me que Deus me ama, mas a realidade da escuridão, da indiferença e do vazio, é tão grande que nada toca a minha alma. Terei cometido um erro em entregar-me ao Apelo do Sagrado Coração?1 Madre Teresa de Calcutá dirigiu ao reverendo Michael van der Peet, em Setembro de 1979, entre outras, as seguintes palavras: Jesus tem um amor muito especial por si. Contudo, em relação a mim o vazio e o silêncio é tão grande, que olho e não vejo, que escuto e não ouço (...) Na minha própria alma, sinto a terrível dor da sua perda. Sinto que Deus não me quer, que Deus não é Deus». Como se não existisse verdadadeiramente. Aos que ouvem assim esta mulher, a questão da vida, da morte e da salvação desfocam-se porventura na própria escuridão de cada um deles.

Madre Teresa de Calcutá morreu em 1997.

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1 Este texto foi trabalhado, além das citações, com as páginas dedicadas a Terese de Calcutá, pela «Visão», em 30 de Agosto de 2007

quarta-feira, agosto 29, 2007

A CRUCIFICAÇÃO PÓS-MODERNA DE JESUS


A Igreja Maná, para refazer o conceito de salvação («só em Jesus»), cartografou a sua postagem por terras de toda a nossa geografia e recrucificou-o segundo as novas tecnologias, em poster, sob a anunciação de que o «mundo está a acabar», tempo do Apocalipse, numa chuva de cartazes ilustrativos das destruições, catástrofes, pestes, guerras e outros males aterradores. Este cartaz rasgado pelos infiéis conservou a mensagem suficientemente legível, milagre certamente devido a Jesus, e o endereço electrónico de Maná, lugar virtual para onde as almas salvas poderão transmigrar, para o que bastará dedilhar www.igrejamana.com. Podem os homens pedir mais, desejar maior compaixão, agora que o sono tranquilo lhes está garantido numa outra vida verdadeira?

segunda-feira, agosto 27, 2007

PREPARANDO OS NOVOS DESCOBRIMENTOS

Endeavour acoplada à estação orbital

A nave de acesso orbital à estação que navega no espaço, em torno da terra, na qual se ensaiam projectos científicos e operações de cálculo para viagens tripuladas no cosmos, foi entretanto a Endeavour, um vai-vem com muitos anos de vida, algumas próteses e desenvolvimentos tecnológicos. Talvez seja este o seu último serviço. Novas naves estão projectadas e os russos fecharão uma das fases de construção da «plataforma», transportando para lá equipamento, módulos e técnicos astronautas de substituição. Tudo o que se passa nestas viagens, todo este mundo complexo, esperança no futuro, apoio amanhã de um planeta Terra em crise a vários níveis, tudo isso deveria ser amplamente divulgado, até onde fosse possível, como alerta didáctico para os jovens e fixação de novos objectivos, abertura a outras descobertas que desmontassem a situação de reféns da electrónica de consumo redutor que obstaculiza o sentido da invenção e aprofundamento do conhecimento do mundo.
Repare-se: se a televisão gasta trezentas horas mensais em reportagens sobre futebol, incluindo jogos, como não pensar que metade desse tempo poderia ser partilhado com a conquista do espaço e os seus ensinamentos, como referi atrás?
Os Estados Unidos da América e a Rússia (entretanto um pouco a Agência Europeia de Aeronáutica) têm unido esforços para construir a estação orbital, indispensável para futuras partidas sem tanta carga de combustível. Tal gesta lembra muito o que os portugueses fizeram para desbravar as rotas oceânicas e as terras em volta. Sabems que isso foi mais problemático e grandioso do que a ida à Lua ou estes projectos que também se apoiam numa noca cartografia das galáxias e corpos um dia semelhantes à Terra. Parece pretencioso falar assim, mas ao certo podemos dizer que o povo que levou a cabo a expensão marítima dispunha de dois milhões de pessoas, milhares de vezes menos do que os indivíduos hoje utilizáveis, sem contar com os recursos tecnológicos quase imeditoa a que podem recorrer. A descoberta humana do espaço é muito mais importante para o futuro do que se possa imaginar agora. Sem esse conhecimento e essa experiência morrerão muitos das alternativas de sobrevivência que o homem pode descobrir ou inventar.
Se a televisão gasta centenas de horas por mês a fim de transmitir relatos de futebol e programas inerentes a esse mundo, porque nãp partilhar metade desse tempo com programas de divulgação espacial e ensinamentos daí decorrenntes?

domingo, agosto 26, 2007

NA MORTE DE EDUARDO PRADO COELHO

fotografia de Daniel Mordzinky

devemos lutar sempre a fim de que figuras como
Eduardo Prado Coelho não sejam remetidas para o esquecimento

Eduardo Prado Coelho faleceu ontem, dia 26 de Agosto de 2007, por paragem cardíaca. Enfrentara ultimamente graves problemas de saúde com grande estoicismo e uma imparável prática da esperança. Acabara de entregar a sua última crónica, no Público, jornal onde escrevia há muitos anos e que lhe presta hoje uma comovente homenagem, sem palavras de circunstância e um perfil intelectual muito consistente. Pedro Mexia começa o seu artigo nomeando Eduardo Prado Coelho como o último crítico. Refere-se a um certo tipo de influência, ao prestígio, ao modo sereno como enfrentava os ódios e a relação complexa entre a vida universitária e a prestação de ensinamentos públicos, mediáticos, perante o desgaste de toda uma disponibilidade de espírito notável. Viera ao jornal também para falar de projectos: um regresso à coluna de crítica literária. Chamar-se-ia Sete Rosas Mais Tarde, inspirado em Celan. As suas crónicas tinham frequentemente um sabor poético, mesmo se a fala envolvia temas de natureza filosófica ou política. Esta morte não constituiu propriamente surpresa, dado os problemas de saúde que enfentara e a dificuldade em os superar, mas o peso da perda não é menor por isso. Vou sentir, com certeza, a falta da sua crónica, uma das primeiras coisas que lia no jornal. Era uma prosa que dava sabor especial à límgua portuguesa, a voz quase corrente e a invenção da presença de palavras inesperadas, um sobressalto, um ritmo cuja identidade não se desfocava nunca.
Eduardo Prado Coelho era filho de um dos nossos maiores ensaístas portugueses. Escrevia desde os tempos da faculdade, escreveu sempre até ontem, e oferece ao país uma obra polémica e lúcida, em cerca de vinte títulos, como O Reino Flutuannte e A Noite do Mundo. A sua versatilidade cultural permitia-lhe dar-nos essa reflexão sobre a literatura e o homem, a par de textos notáveis sobre cinema e alguns sobre a forma das artes plásticas. Na década de 80 escreveu acerca do «pós-modernismo», época em que melhor acertou o equilíbrio entre a densidade da escrita, a sensibilidade e o seu lado mais denso mas simultaneamente aberto à comuniação. Figura ao mesmo tempo amável e com apelo polémico, foi político e escritor, soube separar as águas, a honestidade a par da coragem perante situações mais difíceis. Neste sentido, o socialista Ferro Rodrigues afirma, referindo-se à época de 2002: «foi mais um intelectual na política do que um político na cultura.

quarta-feira, agosto 22, 2007

E ENTÃO JÁ NÃO SEREMOS VERDADEIRAMENTE OS FILHOS DA REVOLUÇÃO FRANCESA

Joseph Weiler

QUE REVOLUÇÃO NOS RESTA?

A entrevista que Joseph Weiler concedeu ao expresso, no dia 11 de Agosto, tritura-nos com uma linguagem sacudida e democraticamente aterradora. É preciso reflectir com ele, um homem especializado em Direito Europeu, mesmo que não seja, em rigor, um europeu -- segundo as considerações iniciais das jornalistas Cristina Peres e Luisa Meireles. Se não existe governo na União Europeia, porque «não existe nenhum momento na nossa vida cívica como cidadãos europeus», que fazemos? Há solução para isso?

Joseph Weiler: «Primeiro, temos de admitir o problema e não fingir que ele não existe, ou que as medidas previstas funcionam. Por exemplo, aumentar o poder do Parlamento Europeu. Sabemos que não é a solução completa. É engraçado, é um dos mais espectaculares erros sobre a integração europeia. Há cerca de 20 anos, o meu primeiro livro foi sobre o Parlamento Europeu, e escrevi na altura que a taxa de afluência às eleições era muito baixa. Não era surpreendente porque o PE não tem poder, então porque é que as pessoas iriam perder o seu tempo a votar? Previ -- e esse seria o meu erro mais espectacular -- que, à medida que o PE ganhasse poder real, a afluência às eleições aumentaria. Nos últimos 25 anos, ele foi ganhando imenso poder, tem hoje competência legislativa e poder de co-decisão com o Conselho, mas a taxa de afluência declina consistentemente. Mais poder e menos participação! As pessoas na Europa não parecem estar preocupadas, mas preocupa-me que elas não se preocupem. Isso mostra que já perderam muita sensibilidade cívica. A vida é boa, para quê preocupar-me? Sou um consumidor de resultados políticos, não um cidadão pró-activo.»

A União Europeia pode desaparecer?

Weiler: Não. Mas pode haver uma mudança profunda na maneira como pensamos em nós próprios. Veja um exemplo perigoso: na Grécia, as pessoas dão aos seus filhos nomes de Hector ou Helena e falam uma língua que se parece com o grego antigo. Mas não existe conexão entre esta gente e a cultura da Antiguidade. O mesmo se passa no Egipto, não existe nenhuma relação entre a sociedade egípcia actual e a grande civilização dos faraós. O perigo não é que a União Europeia desapareça, mas que continuemos a acreditar que somos filhos da Revolução Francesa. Não há uma conexão real com a herança do Iluminismo. A herança da Revolução Francesa é o Estado Republicano, o Estado dos cidadãos. Isso desaparecerá. Continuaremos a dizer as palavras, mas já não seremos verdadeiramente os filhos da Revolução Francesa. Este é o grande perigo e é trágico. O défice no processo de governança europeia contribui para isso.

sexta-feira, agosto 17, 2007

UMA MÁSCARA DE CORDAS, A OCIDENTE


O homem andava precariamente, com o rosto vendado por voltas de cordas, num aperto que simulava a sufocação. Estendia os braços, o homem, abria as mãos de forma branda, as palmas voltadas para cima, como se esperasse um aviso subtil e supremo da divindade acrediata por quase todos.
Arrastava os pés na poeira branca do caminho e atrás dele seguia muito povo, povo atónito, que nunca assistira a esta forma de castigo, martírio ou penitência. Cada vez havia mais gente, incluindo crianças que se aproximavam daquela criatura tão erstranhamente amordaçada, cega, ou nobre ou plebeia, porque os sinais de classe haviam sido trocados pelos carcereiros e o resto sujeito à chuva, à lama, ventos enfim aterradores de pó e cinzas. A região estava ocupada por contingentes militares, legiões de grande porte, logística e armamento, acorrentando uma boa parte da população que adorava Cristhus, um jovem supremo e subtil, orador enigmático, acabando por traí-lo perante a própia lassidão ou desinteresse das autoridades e pedindo a sua morte, o que aconteceu entre muitos outros casos menos relevantes. Não havia mais de três anos. Agora aquele homem com o rosto, os olhos e a boca bem apertados num abraço de cordas duras, espessas, oleadas em azeite já queimado.
«Este sim, este é o verdadeiro Cristhus, andou pela Galileia a apregoar a libertação dos povos e falando de um Pai invisível que espalhara muitas em diferentes moradas pelos confins da abóda celeste.»
«Quem é que te disse tais coisas, Eremias?
«O Senhor do Templo, aquele sacerdote que já tem mais de cem anos e que afirma a eternidade de Cristhus, o sangue derramado para nada. Por isso é que ele está, vagueia não se sabe para onde.»
«Acreditas tantgo na voz ensandecida do Senhor do Templo? Não há eternidade. Há apenas a cegueira.»
«Cristhus morreu diante de toda a gente, da própia mãe, da mulher e dos filhos. Mas essa é a dor dos homens comuns: Cristhus ressuscitou ao fim de três dias e desapareceu para sempre, julgou o povo. Aqueles que mais falavam com ele, ao entardecer, depois de uma refeição frugal, contaram histórias vividas assim e pensamentos perturbantes que ouviram da boca daquele companheiro».
Enquanto decorria esta conversa mal atada e sem sentido, entre dois caminhantes, uma coluna de guerreiros a cavalo aproximou-se do grupo, vinda em sentido contrário. A coluna parou junto do homem amarrado e o comandante, com escudo de frente e uma espada erguida na vertical, num modo de quem quer dar a conhecer-se, indagando gestualmente que gente era aquela. Olhou intensamente o homem que se arrastava pelo efeito das cordas, do calor e do pó, e perguntou:
«Quem és tu? Que fazes com esta gente, a caminho do deserto?»
O provácel Cristhus disse:
«Eu não tenho nome senhor. Não conheci família e vivi, por caridade, em mosteiros que se erguem nas montanhas a Leste.»
«Mas então comandas assim essa pobre canalha que se acumula atrás de ti?»
«Não, senhor, não comando ninguém e só conheço meia dúzia desses companheiros.?
«Mas alguma coisa fazem em conjunto, assim, numa marcha arrastada?»
«Que eu saiba, não, nada. Eles estão aí porque me seguem, apenas isso. Eu sei apenas que vou para diante, para ocidente.»
O comandante da coluna pareceu incomodado com tanta evasiva. Disse entre dentes:
«Tudo isso é muito evasivo.»
O homem com o rosto coberto de cordas, concordou assim:
«Tem toda a razão, senhor. Tudo é evasivo porque o mundo não tem limites não sabemos quem somos.»
Do alto do cavalo, para onde voltara a trepar, o comandante escarneceu:
«Sois tolo, nada mais. E para que servem essas cordas que te apertam a cabeça?»
«Não são cordas, senhor, são espinhos».