sexta-feira, setembro 12, 2008

CADA ESCOLA É UMA ESCOLA

Marçalo Grilo, ex-Ministro da Educação



No pós 25 de Abril de 1974, entre cravos e bandeiras de esperança, as escolas, secundárias ou superiores, ficaram reféns das mais variadas teses de reforma. Já havia a reforma da autonomia universitária (a aceitação política do facto, pelo menos) e abaixo desse patamar depressa começou a verdadeira revolução, ao sabor dos elencos partidários, maiorias, minorias de interventores, as liberdades e o caos. O caos era quase todo da mesma cor, mas as liberdades variavam consoante uma mistura capciosa de ordens, as do Povo e as do Ministério a Educação.
Quando Marçalo Grilo era Director Geral no sector da Educação, estava a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa a procurar consagrar uma reforma posterior à de 57, mas num trajecto que já vinha de 72. A pretensão dos elementos desta instituição de Ensino Superior era a de contribuir para a actualização do país nesse domínio, numa altura em que o Ministério da Educação mantinha as rédeas do sistema como podia, ainda sem grandes ideias, Os Conselhos Directivo e Científico da Escola fizeram sentir a Marçalo Grilo que a situação das Escolas Superiores de Belas Artes do país, à semelhança do que se fizera em Espanha, e em geral, aliás, na Europa, implicava a integração daquela área, a do domínio dos estudos de índole artística, nas universidades. Estava-se num tempo em que já não se concebiam tais instituições sem investigação artística, estudos de arte avançados, incluindo o design e a arquitectura nas suas principais vertentes. Tudo, naturalmente, numa lógica de desenvolvimento a que os nossos governos saídos de Abril pelo menos tiravam o chapéu. Pensou-se que tal atitude não correspondia a uma simples gesto de cortesia. Em todo o caso, e para grande espanto dos colegas estrangeiros, em Portugal só havia, soltas, desalinhadas em inovações execráveis, três Escolas Superiores: Belas Artes, em Lisboa, no Porto, e Medicina Dentária.
Aquele membro do Governo, ao tempo, resistiu a todos os argumentos apresentados pelos representantes da Escola de Lisboa: dizia, em suma, que o país não precisava de artistas (julga-se que se referia apenas áquela altura), que o Design roçava a utopia e não tinha designação nacional, que a arquitectura sim, sobretudo pela natureza da sua produção.
Ninguém quererá discutir isto de novo, considerando o nosso estatuto na Europa e o presumível facto da natural evolução do ex-ministro da Educação, hoje Administrador da Fundação Calouste Gulbenkian e Presidente do Fórum para a Cidadania entre 2006 e 2008. Marçalo Grilo revela-se mais aberto, falando sobre o domínio da Educação entre os professores, pontos de decisão, autonomia das escolas. Foi sereno na entrevista, sem contradições de maior, advogando que «não há um sistema educativo, há escolas, e cada uma deve ter autonomia para desenvolver o seu projecto educativo». Afirmou também que «temos professores magníficos e que são eles a peça fundamental para resolver o puzzle da educação. Um puzzle que nunca estará completo sem os pais e, claro, os alunos. Que estão lá para aprender e ir o mais longe possível».
Já se ouviu isto em qualquer parte, em qualquer tempo, em diferentes situações. É como se fosse possível, demagogicamente, dizer, com a sonoridade de 74: «Menos Estado e mais Escolas Autónomas». Procurando bem, na entrevista, conceitos, métodos, que processo autonómico defende Marcalo Grilo,veremos como fala da autonomia das escolas, se a seu belo prazer, entre a vila e o cosmopolitismo, mas de forma calibrada na relação com o meio e os materiais disponíveis, se numa invenção e numa liberdade da Escola integrada. Ele acentuou, quanto à reforma da escolas, «que o parceiro que menos deveria intervir é o próprio governo. Se olhar para uma escola inglesa, o papel do governo é essencialmente regulador». Embora não se deva brincar com estas coisas e se deva respeitar a opinão dos outros, quem evoca o exemplo inglês não o pode extrapolar, sem qualquer insert regulador, para o nosso espaço sócio-cultural. Porquê? Porque não é possível: serve, em termos académicos, para colocar questões, estudar outras formas, entre a diferença e a semelhança. Há um momento da entrevista em que parece que o entrevistado é imperativamente a favor da autonomia integral das esclas, estejam elas onde estiverem, com mais ou menos limitações, com mais ou menos menoridades de contexto, origem, ausências, distâncias. Não é bem isto, como parece, pois o estado sempre regula alguma coisa, o leitinho, tecnologias novas, algumas regras universais, a da própria sobrevivência do Estado, por exemplo.
Mas vejamos que teoria floresce aqui, sensata ou utópica. Numa das suas respostas, Marçalo Grilo diz: «Mais do que tomar medidas, é preciso ser cauteloso, sensato, equilibrado na sua aplicação. A ideia da uniformização das escolas é aberrante e perigosa, porque as escolas são toda diferentes e nesse sentido devem adoptar sistemas de governo e formas de aplicação da lei que podem ser diversas. A uniformidade é inimiga da melhoria do funcionamento das escolas. Aquela ideia peregrina de ter um sistema educativo, uma espécie de estrutura tentacular em que as escolas eram todas iguais, está hoje completamente abandonada. Cada escola é uma escola e cada uma dela terá formas, quer do ponto de vista organizativo, quer do ponto de vista pedagógico, consoante as melhores soluções».
Em Portugal, neste momento, é preciso meditar nestas palavras. Não porque estejam erradas e defendam a instauração súbita da utopia no real. Mas porque um caminho destes, no caos de aptidões e estruturas que existem, na brutal distância que separa os saberes uns dos outros, precisa de outros alinhavos primeiro. Houve uma altura em que o país não precisava de artistas nem de designers. As prioridades eram outras e as vontades políticas também. Pois vejamos: se naquele tempo o Drector Geral errava a sua mira, sob a plausível verdade do seu saber, a estranheza da parte dos professores ali presentes começava pela pintura que estava atrás da secretária da pessoa que os recebia de forma tão certeira. Hoje o senhor Administrador volta, apesar de muitas outras aprendizagens entretanto conseguidas, a pecar por desajuste entre a teoria e a prática. Cada escola consigo mesma. o Estado, pouco. Entre isso e o agora, nem uma almofada? Porque há corpos que rejeitam certos remédios. E há Escolas que rejeitam certas camas. É preciso quem os socorra e as socorra numa tragédia assim, contra assombro da solidão do interior ou mesmo no recurso a um mínimo de rede contra o grande espaço urbano, onde a peste impera.

Rocha de Sousa

quarta-feira, setembro 10, 2008

QUEM É ESTA MULHER QUE VEM COM McCAIN?


Lugar de OPINIÃO do «Diário de Notícias», secção o tempo e a memória, de Mário Soares. Sob o título «Mudança dos Republicanos», este político incansável, atento, activo, controverso mas inegavelmente lúcido, alinhou no capítulo 1 da sua crónica de 8.09.08, uma importante série de considerações sobre o «choque psicológico e do excepcional êxito da Convenção Democrática», que parece ter remobilizado o Partido Democrático dos E.U.A, considerando, nesses termos, que se esperava uma forte reacção da Convenção Republicana. Nada disso se verificou. Bush teve assim o pretexto de que precisava para não comparecer, dado que a sua presença já era vista como perigosa, tal é o nível baixíssimo da sua popularidade e a própria agitação, quase simbólica, das forças da Natureza.
McCain, candidato republicano à Presidência dos E.U.A. tinha vindo a ensaiar um distanciamento de Bush, o que era, de um ponto de vista estratégico, bem compreensível. Contudo, numa viragem surpreendente, aquele candidato mudou a sua orientação política, convidando para o cargo de vice-presidente a «quase desconhecida e ultraconservadora governadora do Alasca, Sara Palin». Mário Soares faz então diversas perguntas: se as razões do convite partiam do facto da personalidade convidada ser mulher?, se tivera importância o facto de ser gonernadora do Alasca?, se garantia o discurso electrizante apropriado às circunstâncias? Seja como for, pelo menos esse discurso foi de facto produzido, deixando em segundo plano as palavras do próprio McCain. Palavras que o articulista achou formarem um discurso «descabido, confuso e pouco convincente.
A imagem feminina da senhora Palin, antes de falar, parece capaz de adoçar a virulência republicana. Nada disso, pelo que se viu. «A senhora Palin (escreve Soares) ultrapassou, pela direita radical, as posições desastrosas de Bush e de Cheney. Um discurso que, embora muito aplaudido na Convenção, fará mais estragos, no eleitorado americano, do que se imaginava pudesse criar o Gustav. Ela foi o verdadeiro furacão que abalou a Convenção.» Com efeito, é quase certo que terá consequências sensíveis sobre muito do eleitorado moderado e flutuante, republicano ou independente, aquele mesmo eleitorado que McCain procurava captar.
Mário Soares também foi sensível ao contraste entre a senhora Palin e McCain no jogo das aparências, o desiquilíbro entre uma relativa juventude e um homem que acaba de festejar os seus 72 anos. E contudo, a senhora Palin alimenta «ideias dificilmente aceitáveis pelo eleitorado moderado (mesmo republicano) que tem vindo a afastar-se de Bush. É uma neocon radical. Reclama mais armas, mais política de força, intensificação das guerras, mais pena de morte, mais petróleo, sem a mínima preocupação com a defesa do planeta ameaçado. É religiosa fanática, contra o aborto, contra os gays, criacionista, subscreve os desvarios anticientíficos contra a teoria da evolução, unilateralista, estando convencida de que a América, com a benção de Deus, poderá governar o mundo. Ela ignora as crises, o desemprego, o déficit astronómico.» Vistas bem as coisas, e aceitando que o articulista poderá alimentar algumas subjectividades, o que parece é que esta mulher, uma vez eleita, daria à América mais quatro anos do mesmo assombro. «Um pesadelo para os E.U.A, um desastre para o Ocidente. Soares quer concluir o que é óbvio numa argumentação assim, aliás plausível: que o desastre atingiria a Europa e o Mundo. Na esteira de um clima, aguçado pelo homem, que já começou a tratar do assunto.*

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* Leitura do artigo de Mário Soares, com citações, dada a sua oportunidade

quarta-feira, setembro 03, 2008

AS MÁSCARAS E O CORPO, ARTE OU DESEJO

AS TRIBOS DE OMO
fotografias de Hans Silvester



Nos confins da Etiópia, entre séculos de modernidade, Hans Sylvester dedicou seis anos a fotografar tribos ou homens, mulheres, crianças e velhos, verdadeiros génios de uma arte ancestral. A seus pés, eles tinham o rio Omo que cavalga o triângulo Etiópia, Sudão, Quénia, o grande vale de Rift que se separa lentamente de África, uma região vulcânica, enfim, que forneceu a estas comunidades uma imensa paleta de pigmentos, ocre, ocre avermelhado, verde, amarelo, branco ou cinzento. Na verdade, essa gente invulgar tem um jeito dinâmico para a pintura e usa como suporte das tintas o seu próprio corpo. Como chegam a medir dois metros de altura, não têm melhor tela para exercer a magia da sua arte. A força dessa arte pode resumir-se a três palavras: os dedos, a velocidade e a liberdade.
Desenham, por exemplo, com as mãos abertas e com as pontas das unhas, por vezes com um bocado de madeira, uma raiz, um tronco queimado. Os gestos são vivos, rápidos, espontâneos, desde a infância; tais gestos consolidam um movimento essencial que faz lembrar os grandes mestres contemporâneos, justamente quando eles têm muito para aprender e tentam, por bem, tudo esquecer.
Somente o desejo de ornamentar, de seduzir, de ser belo, um jogo e um prazer permanentes, isso lhes parece bastar, às gentes de Omo, para mergulharem os dedos na tinta e, dentro em pouco, dois ou três minutos, alcançar a expressão plástica: ela surge sobre o peito, os seios, o pubis, as pernas, tudo nada menos que as conhecidas invenções gestuais, mais ou menos contidas, de um Miró, um Picasso, um Pollock, um Tàpies, um Klee. Todas as diferenças são aqui ultrapassadas e aceites as semelhanças da vontade intrínseca, lúdica, litúrgica, entre a beleza e magia do ser.

sexta-feira, agosto 22, 2008

QUANTO MAIS CRESCEM MAIS TROPEÇAM EM SI MESMOS


Sei perfeitamente que alguns dos meus visitantes, ou mesmo muitos, olhará com desdém para esta fotografia. Digo de propósito desdém, pois todos os que cumprem a quotidiana liturgia do consumo e da competitividade, próprios da civilização contemporânea, têm vindo a tornar-se um pouco maquinais, miméticos, falando em «novo paradigma» e assumindo atitudes de cada vez maior indiferença perante o que os cerca de facto, senhores, enfim, de uma visão do real em colapso de miopia ou culturalmente mais redutora. Sonha-se com o êxodo transitório, férias nas praias do Brasil ou noutras paragens do bem estar turístico, lugares da mornidão indutora do sono. As pessoas sabem que se morre todos os dias em quantidades avassaladoras, da guerra ou das pestes, numa linha que contradiz aquilo que erradamente se costuma chamar evolução, globalização, partilha, humanitarismo. É mentira que isso esteja a acontecer equilibradamente no mundo. Qualquer miserável F16 resolvia a iniciação coordenada, vital, de pelo menos cem famílias, uma aldeia ou uma pequena cidade.
Também não vale a pena classificarem a escolha da imagem, aqui oferecida à reflexão dos meus contemporâneos, como mero sintoma de morbidez. A morbidez atravessa, isso sim, o Iraque, o Afeganistão, o conflito entre paquistaneses e israelitas, as raivas fracturantes da antiga Jugoslávia, a Tetchenia, a Giorgia e os tumores que combate sem os tratar, tropas russas usando estratégias de avanço contra o inimigo que lembram o czarismo ou o stalinismo, arrasando tudo, bombardeando apenas com o critério de bater militares e milhares de civis. Do outro lado do mundo, tratando a interminável luta por meios nefastos, a Colômbia tem um país clandestino e canceroso dentro de si. Em África, o crime ou é brutal e ensurdecedor ou se inscreve na teimosia sonsa e ditatorial de senhores como Mugabe.
Mas o verdadeiro problema, que reside em estratégias de longo prazo para orientação dos povos em função da convivialidade, da verdadeira partilha, não da famosa competitividade e da espantosa ideia de que os mercados, livres, se equilibram pela «lei» da oferta e da procura, terá de criar meios para que não nos digladiemos por conveniências de riqueza e poder: isso é o suicídio a longo prazo, sem contar com uma tecnologia cujo ramo atávico rebenta com os eco-sistemas do planeta. Os objectivos terão de ser desviados para um outro azimute e por forma a que as religiões assim se direccionem. Até nesse campo, os modelos transformaram-se em males, numa cegueira apocalíptica capaz de rasgar muitos mais abismos; porque se juntam à política, à gestão da força e da manipulação das mentes, devorando-se umas às outras ou a si mesmas.
A foto aqui proposta regista um acontecimento que nem sequer resultou de qualquer atentado terrorista ou das emblemáticas batalhas pela justiça. Neste caso, cerca de 150 pessoas, com maioria de mulheres e crianças, além de 50 feridos, fora vítimas da sua insensatez. No domingo, 3 de Agosto, na altura em que uma multidão de crentes entrou em pânico, procurando fugir do templo hindu Naina Devi, no Estado de Humachad Pradesh, a 250 quilómetros de Nova Deli, Índia, indícios fortuitos levaram aquela massa humana à tragédia. Mais de 50.000 peregrinos estavam no templo a participar no festival religioso de nove dias que todos os anos atrai centenas de milhares de fiéis. A queda de um bocado de estuque e o boato de um deslizamento de terras chegaram para provocar esta enorme tragédia, o esmagamento de duas centenas de pessoas.
A fé e os rituais também devem ter as suas regras de segurança, a começar pela arquitectura dos edifícios de culto. Esta falta de rigor traduz uma perversidade intrínseca, desacredita os princípios sagrados, pode levar a alucinações monstruosas, de medo e matança, de fuga e descrença. Não é quanto mais melhor, ocultando os desastres principais. O que importa é descobrir a beleza do mundo, mas sem fundamentalismo, reforçando a consciência das feridas e da investigação para as curar.

segunda-feira, agosto 18, 2008

ANA TERESA: SÉRIE FOTOGRÁFICA NARCISA

foto Maria Teresa Vicente série Marcisa double life

As estratégias auto-representativas estiveram desde sempre ligadas à criação artística, com especial ênfase nos últimos quarenta anos. Desde as grutas de Altamira às representações egípcias, à escultura grega, a representação de si próprio ou do Outro, parece estar intrinsecamente ligada à génese da arte.
A obsessão actual com a corporalidade, com a relação entre o sujeito e a sua imagem, não é paradigma das artes plásticas, podendo ser encontrada tanto na literatura como na dança contemporânea. Na arte contemporânea podemos observar que preside um certo imaginário intrínseco de criação de um mundo próprio, o qual já não é mero espelho do mundo, obrigado a reflectir fielmente o que o rodeia, mimético, com uma estética que permita aceder a níveis metafísicos superiores mas sim a um mundo fragmentado, que gera novas visões, um relativismo de prspectivas, elegendo o corpo como tema que permite uma reflexão sobre o estilhaçamento do Eu e sobre a sua fragilidade. O espelho surge então como objecto que favorece a imaginação, o sonho. A transparência do espelho é comparável à superfície da água que, no mito de Narciso, «enuncia que o desejo de retorno uterino, quer o desejo de fusão no Uno, e a forma como estes coincidem com a morte». *
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*texto da própria Maria Teresa Vicente e itação de um ensaio de Margarida Medeiros
Uma outra questão é a narrativa ambígua que emana destas fotografias, quase de micro-narrativas dúbias, já que por vezes estas assumem um caráter quase poético, mas nas quais a tensão e a estranheza patentes se revelam nos pormenores e na presença, implícita ou não, de um segundo sujeito. É no indizível que a narativa ganha força, na construção e composição da imagem, bem como nas relações sugeridas entre os vários objectos e sujeitos que poviam estas imagens. Por não haver um sentido claro, cabe ao espectador a cumplicidade da produção de um significado.







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sábado, agosto 16, 2008

A CURIOSA FARSA DE UM CORTEJO MEDIEVAL


O título desta mensagem visual já explica quase toda a minha opinião acerca destes eventos, divertidos sem dúvida mas enviesados quanto à história, diversos tipos de iconografia, encenação ou cenografia. Estas jovens parecem-se pouco com os intérpretes de rua, o que não significa que a Idade Média não tivesse algo de semelhante. Mas loiras assim? Em tempos de luta com sarracenos e coisas semelhantes? Elas não vinham na frente do cortejo. Os homens a pé, com bandeiras, adagas e escudos, elmos e cota metálica, além de gente com tambores de ensurdecer, batendo, batendo, na pele esticadas dos tambores, esses sim, abrindo espaços, distanciavam os alaúdes, escondendo sons até que eles pudessem sustentar as danças das mulheres no terreiro do palácio. Uma farsa amável que percorreu várias vezes a cidade e honrou a princesa que vinha postar-se na varanda de todos os sonhos de outrora.


mouros antes, depois,
uns decepados ou fugidos,
outros para sempre partilhando
os nossos destinos

sexta-feira, agosto 15, 2008

SILVES: FEIRA MEDIEVAL OU ILUSÃO CÉNICA


A Feira Medieval de Silves é uma tradição recente. A iniciativa parece razoavelmente adequada à actividade comercial e à transacção de artesanatos. A dificuldade de estudar o assunto, sobretudo pela sua eventual configuração com a Idade Média, oferece ainda mais escolhos por se tratar da simulação de um espectacular evento decorrido (era o tema este ano) numa das mais florescentes cidades sob domíno árabe no século XI, coisa que mal foi sugerida, ao contrário dos outros anos, pois a presença dos mouros esteve praticamente nula e os trajes usados em 2007 escasseavam, quase todos eles haviam sido substituídos, em precariedade, por novas e raras peças. A estereotipação de modelos de barracas, lugares de venda de refeições, comércio a céu aberto, tudo isso, embora em áreas mais vastas, quase nada mostrava de recuperação icónica, de adereços ou acções históricas. Um esforço deste tipo poderia enquadrar (até para o futuro) maior fidelidace didáctica. Claro que a vertente comercial tem vindo a absorver a orientação das coisas: um mínimo de rigor, a par da extensão das coisas acaba dominado por comerciantes marroquinos, objectos artesanais sem modelos de autenticidade, argolas, pulseiras com vidrinhos, colares aos milhares, algum anedotário da cerâmica, coiros, adereços de ornamento e tecidos. O sucesso não é da simulação mas da mania das compras, vulgaridades que o português compra, aqui ou no estrangeiro. Trata-se pois de uma feira como outra qualquer, mais intimista, mas escandalosamente falsa na identidade cénica.



domingo, agosto 10, 2008

RUÍNAS ANTIGAS, CIVILIZAÇÕES PERDIDAS

Efeso

pelo Médio Oriente
e a força das gentes
convictas do poder divino








dos egípcios,
Karnak.
e um faraó
refém do
poder dos
sacerdotes







Não me lembro se visitei estes lugares, ruínas antigas, memória de trabalhos que duravam séculos. Mas tenho visitado documentos e legendas que se completam com um registo bem poderoso, o da fotografia, entre olhares de hoje para ontem. Nestas imagens mal lembradas, o registo fotográfico mostra-nos formas rigorosas, imensas por vezes, suspensas pelas forças arquitecturais e o belo traço da geometria, além de edifícios inteiros, nus, fortes, monumentais, inacreditavelmente assentes em terrenos arenosos, tudo no trânsito das civilizações, ou de gente que queimava vidas inteiras para apurar e sobrepor tantos materiais do puzzle ilusório, a eternidade procurada numa precariedade desconhecida. Mas a verdade é que nem os deuses são eternos, nunca sobreviverão ao apagamento das espécies, incluindo a humana. As ruínas antigas, de civilizações perdidas, são em parte a demonstração de que já não passam disso; são visitáveis pelos últimos homens, numa curiosidade mórbida de saber quem fomos há milhares de anos, mas não mais como última prece do seu poder, agora que os pedaços de templos e palácios só servem imagens parcelares do mundo outrora, o esforço e a inteligência de uma espécie, que é entretanto presumível, nem sequer sobreviverá aos insectos. Levo as fotografias para casa, para os filhos. Se calhar para os netos, ou para os netos dos netos, num tempo previsivelmente aquecido e tormentoso, em que as prioridades terão pouco que ver com o crescimento físico e o dinheiro, material de jogos e tentações avassaladoras.

sábado, agosto 09, 2008

SOLJENITSINE, DO GULAG ÁS HONRAS DE ESTADO

Alexandre Soljenitsine (1918-2008)

Alexandre Soljensitsine, escritor russo, Prémo Nobel da Litertura em 1970, faleceu no início da semana e foi lembrado em todo o mundo. Soljensitsine, um escritor russo nas suas grandes linhas de definição, consagrou-se em parte como os artistas apanhados pela violência da História, dotados de uma grandeza trágica ou heróica. Acabou por ser assim, depois de vinte anos de exílio, ao regressar à Rússia, louvado a vários níveis, herói enfim respeitado e que veio a morrer no princípio da semana, aos 89 anos. O regresso verificara-se em 1994. Passara entretanto exilado durante 20 anos, 17 dos quais nos Estados Unidos. O seu regresso foi também a persistência da voz profunda da Rússia, a Rússia imensa e mítica.

Soljenitsin não se identificava com a figura habitual do dissidente, tendo mantido uma nítida distância crítica em relação a Sakarov. Aliás permaneceu refractário à ideia da ocidentalização da Rússia. O seu discurso, para além disso, marcou quase todos aqueles que, com o «Arquipélago de Gulag», o glorificaram. O seu retorno envolveu um discurso religioso, otodoxo, acompanhado por posições nacionalistas ou a inegável expressão de um misticismo das raízes. A mágoa dos companheiros de outrora tinha as suas razões: não porque faltassem as provas, os documentos, os testemunhos, as análises do que se havia passado na pátria do «socialismo real. De facto, a obra de Soljenitsine, cujo primeiro volume se publicou em 1973, emprestava uma dimensão grandiosa e altamente documentada dos factos, altura em que o Gulag, afinal, se tornara uma palavra-chave da consciência ocidental acerca do que acontecera na União Soviética. Em boa verdade, o livro que consagrou o autor do ponto de vista literário foi uma novela extraordinária que se intitulou «Um Dia na Vida de Ivan Denissovith». Aí acopanhamos a jornada de um camponês num campo de trabalho soviético. Obra que reflecte a própria experiência do escritor, o qual passou oito anos como prisioneiro num desses sinsitros lugares, aliás amplamente multiplicados por Staline. Após a entrega do Nobel a Soljenitsine, o herói futuro, em vez de voltar ao seu país, acolheu-se significativamente a Estocolmo. O medo não poupa os heróis. O seu retorno à terra mãe, décadas depois, pode envolver cada emigrante qualificado na liturgia do reconhecimento e da grandeza. Soljenitsine, cumpridas as suas vontades, foi enterrado com a benção grandiosa do Estado.

terça-feira, agosto 05, 2008

A ESTRANHA PEDAGOGIA NAS ESTRADAS


São estranhas, em Portugal, as campanhas das autoridades que têm a seu cago a vigilância, prevenção e acções pedagógicas no sector rodoviário de todo o teritório. Não é a primeira vez que abordo aqui esse problema, um dos mais sérios com que nos defrontamos nos noticiários, num clima especulativo e demagógico pela referência das imagens, bem como na repetição inconsequente das mesmas razões para os desastres, sem que, em sede de redacção, os jornalistas se detenham a examinar, noutras perspectivas, a regularidade, em números e desgaste, dos desastres que acontecem nas nossas auto-estradas, estradas e cidades.
Todos os anos, nas Festas e na abertura da temporada de férias correspondentes ao Verão, as brigadas de segurança às estradas, anunciam efectivos mobilizados na ordem dos milhares. E publicam, entre viaturas identificadas e viaturas não identificadas, uma cadeia de graduação de multas que chega a ser humilhante, tendo em conta o que se repete anualmente. A polícia de serviço nas rodovias têm formação adequada, segundo creio, mas nunca se nota a diferença de métodos quanto a situações também diferentes, nem um diálogo pedagógico com os condutores, ultrapassando a mera trindade do alcool, excesso de velocidade, incumprimento de regras.
A polícia, e os seus técnicas, ainda não se pronunciaram sobre questões como as seguintes:
>Terá o país dimensão e meios para os dois milhões de carros que andam por aí?
>Haverá algum curso de formação de instrutores e meios modernos de abordar matérias relativas à condução, à psicologia dos condutores, às diferentes situações que se lhes deparam, aos adequados preceitos de aprendizagem bem fundamentada do código da estrada?
>E esses instrutores estão capacitadas a abordar a quase totalidade dos problemas que podem surgir a um condutor, manobras agressivas mas necessárias, conhecimento do carro, da sua mecâmica e da mecânica em geral?
>A polícia estará habilitada a abordar os automobilistas na estrada, nos métodos de paragem, de pedir documentos, de espiolhar todas as desnessidades às quais eles são amarrados?
>A teoria inerente aos exames para obtenção da carta está bem exposta, não terá excesso de índices cuja matéria é facilmente esquecível? A perda do exame de código por «morte súbita», como nas séries com pistolas durante a guerra do Vietnam, não será desajustada do nosso temperamento e graus de relação com a realidade?
>Porque é que o ensino não usa simuladores e porque razão não se estuda, com base científica, a natureza de certos desastres, os mais típicos, os mais regulares, os de evidente continuidade?
>O patrulhamento do trânsito é fixo ou acompanhado, sobretudo em motocilos, cuja mobilidade e visibilidade permite tomar decisões preventivas a montante e a jusante das colunas?
>Porque não se procede ao reordenamento dos bloqueios, através das brigadas em motociclos?
>O que é que se ganha em agir ilegitimamente, com carros disfarçados, que chegam a disputar situações de velocidade e infringem claramente (num exemplo aos outros) as regras relativas à via contínua, estados de aproximação, tipos de sinais, entre outros?
>Porque é que, em vez da actual rotina e a baixa descida, em geral, de desastres mais ou menos graves e de mortos, não se opta pela ajuda em vez de infligir medo e mesmo terror aos automobilistas? O medo nunca foi bom conselheiro nestas questões. Conheço condutores que adquiriram traumas fóbicos ou de «fuga em frente» pelas inúmeras experiências desadequadas a que foram sujeitos pelo comportamento das autoridades. A polícia não faz por mal, acredito, mas a problemática das estradas, incluindo a mais iníqua das sinalizações dentro e fora das cidades, têm reunido um conjunto vastíssimo de comportamentos de risco a desabar sobre os condutores de viaturas ligeiras ou outras?
>Outro tanto se deve dizer quanto aos camonistas, entre o comportaento relativo aos ligeiros como no que se refere aos dispositivos de sinalização em viagem. Experimentei viajar de noite numa zona montanhosa de Espanha, onde fui encontrando vários carros pesados. Tais carros acendiam logo que se apercebiam da nossa presença, atrás, uma luz vermelha: assim eu era advertido de que não podia ultrapssar dadas as condições existentes. Pouco depois, o condutor do camião acendia o farolim amarelo, avisando-me que devia estar preparado para uma eventual ultrapassagem. Quando as condições estavam reunidas, o condutor acendia o farolim verde, apitando, encostando à direita e moderando a velocidade. Isto existe por aí? E será que não se percebe a vantagem (civilizada) do dispositivo?
>Não deverá a polícia distinguir o comportamento de acompanhar e coordenar o trânsito, em marcha paralela, quando são previsíveis grandes quantidades de veículos, das operações fiscalizadoras, propriamente ditas, aí sim, podemdo estar em brigadas estacionadas, em comunicação umas com as outras, usando de privilégio de mandar parar carros para verificar toda as condições que são devidas ao trajecto que o condutor esteja a cumprir?
Eu acho que basta pensar um bocadinho e asim evitar a repressão dantesca, com carros ilegais e multas de um valor absurdo, tanto para certos casos, como para o país, que não pode ser vampirizado desta maneira. O dinheiro ganha-se de outra forma. Penso eu (de que) e não tenho nenhum Boby...

quarta-feira, julho 30, 2008

SLAVOJ ZIZEK, DISCURSO CRÍTICO DA IDEOLOGIA


Parece oportuno fazer aqui, para esta época, a convocação de parte do discurso crítico da ideologia, de Slavoj Zizek, apontado indevidamente como «filósofo pop» e editado em Portugal pela Relógio D'Água, pensador de dimensão provocadora, pulsando multidões na Europa e nos Estados Unidos. As citações aqui feitas foram extraídas do depoimento «Em Discurso Directo», publicado no suplemento Actual do Expresso (19.07.08).
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Lentamente, o tempo do pensamento crítico está a chegar. Vejamos alguns exemplos maravilhosos da ideologia actual. A questão da tolerância. Está na moda lutar contra a intolerância e ser pela tolerância. Porque é que automaticamente se formula a luta contra o racismo em luta pela tolerância? Martin Luther King, nos seus discursos, quase não usava a palavra «tolerância». Para ele, o racismo antinegros não era um problema de tolerância, era um problema de injustiça económica, legalidade, ética. Seria uma humilhação para ele dizer: «Nós, os negros, queremos mais tolerância». Porque é que traduzimos o racismo em problema de tolerância? A resposta é clara: porque algo aconteceu com a chamada era pós-ideológica ou pós-política. E o preço que estamos a pagar é este: todos os problemas são formulados como culturais e não como políticos. O que debatemos hoje em política? Não tanto a economia, mas mais o direito ao aborto, o casamento dos homossexuais... Isto é um fenómeno típico de como a esfera da economia é cada vez mais despolitizada.
*
É preciso repolitizar. Se não repolitizarmos a economia aproximamo-nos da catástrofe. Toda a gente hoje ri de Fukuyama, do seu «fim da História», mas penso que agora até a esquerda é basicamente fukuyamista. Ninguém pergunta se há alternativa à democracia parlamentar, uma alternativa ao capitalismo. Quando eu era jovem sonhávamos com um socialismo de rosto humano; hoje sonhamos com um capitalismo de rosto humano, com um pouco mais de direitos humanos, de direitos dos homossexuais, de direitos das mulheres...A verdadeira pergunta séria, para mim, é esta: é isto suficiente, ou já estamos a ser confrontados com novos conflitos que não podem ser resolvidos neste quadro democrático-parlamentar do capitalismo? É por achar que sim que permaneço de certo modo um marxista. Fukuyama, no seu último livro, admite que a biogenética está a colocar problemas éticos e práticos que não podemos resolver no quadro da eonomia de mercado. Ele próprio propõe uma mais forte intervenção do Estado. Temos agora uma nova lógica do «apartheid». Mike Davis, no livro Plamet of Slums, diz que há mais de um bilião de pessoas a viver em bairros de lata, gente que faz parte da sociedade mas está excluída do espaço público. Negri e Hardt sublinham o facto de, hoje, o modo de trabalho predominante ser imaterial.
*
O que acho triste é que na verdade não temos uma boa teoria do que se está a passar realmente. O que é tão enigmático e perigoso na China? Até agora, a melhor legitimação do capitalismo era que mais tarde ou mais cedo ele trazia a democracia. Mas não é o que está a acontecer na China. O que está a emergir lentamente são os chamados «valores capitalistas asiáticos». Isto é algo novo, na medida em que não precisa de democracia. Imaginemos que os protestos de Tiananmen tinham ganho e que tinha havido reformas democráticas radicais. Penso, e digo-o sem regozijo, que nesse caso a China teria tido o sucesso económico que tem hoje.
*
Eu não gostaria de viver numa sociedade onde fosse necessário argumentar contra a violação das mulheres. Outro exemplo: o referendo irlandês. Sou muito pró-europeu, mas apoio o «não» irlandês. Porquê? Choca-me o modo como a Europa reagiu e tratou os irlandeses como idiotas. A elite europeia iluminada permite uma única escolha: votar «sim». A democracia é cada vez mais a democracia aclamatória. E o problema da Europa é que os burocratas europeus querem impor a imagem de que ou se aceita o que eles querem ou teremos a extrema-direita, os protofascistas, o nacionalisno, etc. Não é tão linear como isto: o que eles estão a propor é a sua visão simples e tecnocrática da Europa. É errado ler os votos dos irlandeses como anti-europeus. Há hoje dois modelos em competição: o capitalismo liberal e a China ou os valores asiáticos. Eu não quero viver num mundo onde estas são as únicas escolhas. Temos necessidade de alternativa.

segunda-feira, julho 28, 2008

A INFORMAÇÃO REDUTORA, DESDITOSO AMANHÃ


Leio habitualmente as crónicas de Clara Ferreira Alves na revista Única, do Expresso. É raro não estar desse lado da escrita, da forma de ver o mundo, nas admiráveis imagens sobre situações em invulgares derivas pelo mundo. Desta vez (26. 07. 08), Clara intitula o seu texto com a expressão SPAM LUSITANO. «Uma boa parte do que se publica nos jornais é Spam. Spam é lixo electrónico, a quantidade inesgotável de mails e mensagens sobre coisa nenhuma, avisos e alertas desnecessários, indignações de rodapé e comentários de nada». Em torno disto, nos diversos graus de operacionalidade, os milhares de milhões de dólars gastos assaltam qualquer noção de bens verdadeiros e de segurança no caminho para o futuro. Toda a vigilância sobre a consciência é inútil: o lixo retorna com enormes propriedades de ser hiperexplicado e eufórico, denso de infiltração no que pode ser a nossa identidade mais profunda e verdadeira.
«Existem novas leis: a imagem sobrepõe-se à palavra, a palavra tem de estar dividida e segmentada em parágrafos e pedaços, com destaques, de modo a prender a atenção. Na luta infernal pela atenção dispersa do ouvinte, leitor, espectador, tudo tem de ser hiperexplicado ou, em alternativa, sensacional e disfórico. Uma vez convenientemente digerida nos intervalos de outras informações que competem entre si, a informação não chega a ser hierarquizada nas nossas mentes e tudo é igual a tudo, na grande teoria da indiferenciação cultural que gera a nossa indiferença. Só o aberrante, o pais austríaco que manteve a filha prisioneira durante 24 anos, ou o grandioso, a Espanha ter ganho o Europa 2008, ou o catastrófico inovador, o tsumani na Ásia que matou 250.000 pessoas, ou o criminoso policial, o desapareciento de Madeleine McCann, provoca a nossa intenção não dividida.Todo o resto cai em saco roto, e não nos espanta ver em rodapé de um noticiário pimba de televisão a notícia 180 mortos no Iraque em atentado terrorista, porque a notícia que devia ser importante tornou-se secundária. O terramoto da China foi completamente engolido nas nossas televisões pelo futebol e os desígnios insondáveis de Scolari».

Valerá a pena transcrever mais? Os telejornais podem abrir com notícias de um negócio de compra de jogadores de futebol e os factos internacionais pulverizam-se a todo o instante. Mesmo as nossas realidades comuns e incomuns passam ao formato e ao conteúdo dos tablóides mais grotescos. Clara Ferreira Alves termina um parágrafo esclarecedor com a segunte frase:«o major Valentim é mais importante do que as tropas portuguesas no Afeganistão?». A mediocridade toma conta do nosso espaço físico e cultural como o maior dos derrames de crude sobre países inteiros. A brutalidade de tudo isto acontece na própria estrutura em que nos movemos, numa completa dependência de um único (e esgotável) meio de produção de energia. A deriva de quotidianos concentrados no consumo grosseiro, nos espectáculos megalómanos, nas bandas que ensurdecem toda a gente em parques carregados de 30 a 40.000 pessoas, a eleição sacra dos desportos radicais e a pompa luxuosa como por vezes são apresentados, tudo isso bloqueia a qualidade plural de direitos que acabamos por atirar para o caixote do lixo. Os cérebros atrofiam-se, o corpo incha, a indiferença pelo sofrimento cresce. Os dietistas e coordenadores de ginásios inventam a maravilha de um corpo afinal cada vez mais obsoleto, mesmo que capaz de sobreviver mais anos. A própria farmacologia tornou-se, à escala global, um horror de propaganda e duplicações terapeuticas desnecessárias. Tudo se distende em deformação manipuladora, em informação castrante, em diluições das identidades nacionais. A civilização, assente em tais pressupostos de crescimento, e não de medida ou bom senso, finge organizar-se mas tende para a implosão.

Perguntava um senhor de bengala a um menino da rua: «Bom, agora que já comeste o bolo diz-me lá o que é que queres ser quando fores grande?
E ele, com a esperteza amarrotada: «Jogador de futebol»

quinta-feira, julho 17, 2008

IMAGENS DE UM PESADELO SEM LIMITES

Guerreiros mujaedines abrigam-se, em Setembro de 1999,
do fogo de soldados talibãs.

PRISÃO
Foto que rendeu a João Silva uma mencão honrosa. Presente na exposição da galeria Diário de Notícias: série de imagens recolhidas em trabalhos realizados no Iraque, Líbano, Afeganistão, Malawi. Esta fotografia serviu para ilustrar uma matéria de Michael Wines sobre as cadeias do Malawi, em Junho de 2005. Centenas de prisionairos dormem amontoados numa cela para duas ou três pessoas. Cada «cela» chega a comportar 160 prisioneiros. Esta imagem alucinante ultrapassa muito, muito acima do pensável os maiores exemplos da falta de respeito pelos direitos humanos.
«As minhas imagens são como se as pessoas estivessem a ver um pesadelo prolongado», diz João Silva, repórter de guerra português, que terá exposto parte do seu vasto trabalho na Galeria DN, em Lisboa, a partir da data deste post. Modesto nas palavras mas corajoso na acção, o repórter que já esteve muitas vezes (demais) perto do inferno, reuniu uma série de testemunhos dessa fogueira pelo mundo fora. Da África do Sul, onde acompanhou o fim do apartheid, ao genocídio do Ruanda, passando pelas guerras no Iraque e Afeganistão, viu e registou a morte, a miséria, o ódio, o racismo. E atravessaram a sua lente, valendo-lhes alguns prémios, outras «paisagens» da irraccionalidade humana. Obteve assim uma menção honrosa no World Press Photo, com imagens de um ataque sniper a uma patrulha do exército norte-americano em Karmah e com o espantodo registo de uma prisão no Malawi. E a cores, pois, segundo amigos próximos, o jornalista terá dito que o preto e branco é o refúgio de fotógrafos medíocres, opinião muito controversa, pois todos os meios podem servir os génios. O resultado deriva do génio, da sensibilidade, do talento, da vertigem de diálogo do homem com o real a cada instante.

segunda-feira, julho 14, 2008

S.VICENTE, AS PRAIAS DO FIM DO MUNDO

fotografia de Paulo Barata (fragmento)


Lá para o fundo
das terras do fim do mundo,
as de perto,
pertode S. Vicente,
orladas de rochas onduladamente,
há praias em concha plana
que são breves desertos
escondidos pela Natureza
entre abismos de falésias fracturadas,
brancas e lisas enseadas,
curvas largas, lentas, em belos sedimentos
sempre afagadas pelas marés subindo.

Há gaivotas que voam devagar, rindo.
Há murmúrios das águas saltando, abauladas,
sobre as rochas baixas, redondas, faseadas,
paisagem rasa e geométrica,
cascos e barcos outrora partindo,
barcaças, depois traineiras, sem braços nem velas,
sempre a velha aventura do mar nas tardes belas,
sempre a falésia do promontório, vigilante,
e as vozes soltas dos pescadores rasurados,
peixe de rede, lulas à candeia, polvos com tridente,
ninguém antes nem depois do retorno à muralha.
Há horas assim, muitas, com sardinas saltando na malha,
ou tentáculos estendidos nas canas a prumo,
crucificados, feridos,
lagosta dos pobres nos dias seguintes,
petisco depois das lides.
e olhares de longe, do cimo da falésia,
como quem espera o fim das marés
e o direito de usar as asas de da Vinci
para pousar no anfiteatro dos deuses,
poucos, solitários, já destituídas de transcendência
ou de asas próprias de cada ascendência.

E então, nas praias desertas, mal habitadas,
um milagre aconteceu.
Não era um deus com asas de madeira,
nem Ícaro, nem da Vinci.
Era apenas um jovem saltando do alto da falésia
pendurado num belo e leve pano de riscas coloridas,
pássaro brincando, subindo e descendo
em traços de curva perfeita,
por vezes tão baixo que tocava o mar,
logo voltando a subir, a subir,
até desaparecer na quina das altas rochas a prumo.
As gaivotas, suaves,
seguiam-lhe de longe o milagre do rasto.

segunda-feira, julho 07, 2008

A PRESIDENTA DA FUNDAÇÃO JOSÉ SARAMAGO


Pilar del Rio, mulher de José Saramago, concedeu uma interessante entrevista ao jornal «Diário de Notícias». Ficou a perceber-se que se trata de uma personalidade carregada de auto-estima e que não tem medida para relativizar aquilo de que gosta. Quer ser considerada e nomeada como Presidenta da Fundação José Saramago porque é mulher. Dizem-lhe que a palavra não existe. Mas ela sabe que tem de existir e aponta o caso das mulheres que são chamadas para um ministério: todos as tratam por ministras. A política é um campo onde ela se expressa pela vanguarda e pela mais carismática imobilidade. Vota à esquerda, em Espanha, e uma vez por outra no PSOE. E em Portugal, como seria? Não hesita: Votaria no Partido Comunista. Os jornalistas fazem o que agrada às empresas. Pensa que os jornalistas não têm qualquer capacidade para ajudar a mudar o mundo. Quem poderá mudar o mundo são os seres humanos com capacidade para isso. Não se sabe se e como acontecerá. Pilar continua jornalista porque aprendeu a ler aos sete anos e sentiu sobre si a «revelação» de que queria ser jornalista. Não há jornalismo neutro. Um momento genial de Fidel de Castro quando esteve em Portugal: ele observava que os jornalistas, em redor, pareciam todos democratas. Descartando-se de perguntas de escasso interesse, Castro bombardeou assim os jornalistas: quantos anos estudaram jornalismo? É uma carreira universitária? Cobram muito? E a resposta dos jornalistas foi a seguinte: «Estamos num país democrático».
(Não lembra ao diabo, realmente)
Pilar del Rio tem muito mais pica: para ela, na Europa, todos os governantes que governam para seu benefício próprio e não para o povo são democratas? Berlusconi é um democrata? Bush é um democrata? Quem massacra um povo como o do Iraque é um democrata? Perguntas que vão desaguar, a terminar, nas especialidades de Fidel. Pilar, aliás, gosta de Hugo Chávez, embora não fosse a pessoa com quem tomaria café. Virtudes sim, defeitos à parte. Seja como for, Chávez é a pessoa que está a pôr água e luz nas casas onde não havia, faz escolas e preocupa-se com a saúde.
Ela pensa-se de esquerda. Votaria à esquerda. Não gosta de uma Europa onde pontificam senhores como Berlusconi e Sarkozy. E falando de Zapatero e Sócrates, Pilar disse que não são consideráveis porque vão ser isolados. «Quem manda é essa coisa tão patética e ridícula chamada Berlusconi» Pessoas assim irão fazer o possível por isolar os partidos socialistas.
Um pouco mais adiante, a vibrante Maria del Pilar diz que Zapatero é esperto e que soube rodear-se de mulheres, entes que (obviamente) trabalham mais do que os homens, melhor e em várias coisas de cada vez. Saramago? «Saramago gosta de mulheres» Aliás, perguntada sobre o casamento de homosexuais, diz que «é muito pior e mais complicado para a vida matrimonial os homens com barriga». A propósito: que presidente para os Estados Unidos? «Um negro». Dizendo que Hillary está cheia de ira e de raiva. «As pessoas deixaram-se levar pelo discurso muito bonito e poético de Obama»
(Quem diria?)
A Caminho foi comprada pelo império Leya. Não é desconfortável para Saramago? «Montar um escâmdalo porque a Leya comprou a Caminho parece-me um pouco provinciano.» A Fundação seguirá o critério de Saramago, o espírito crítico, mas sem negócio. Existem projectos, aberturas a publicações de escritores desconhecidos. «Não. Porque Saramago ainda tem vários séculos de vida». Gosta de estar orgulhosamente só? Pergunta errada porque Pilar é «a pessoa mais orgulhosamente acompanhada que existe no mundo». Acredita em Deus? «Não, porquê?» Nunca foi à missa? «Fui quando tinha de ir porque a minha mão me obrigava, porque me obrigava a sociedade, porque me obrigava a norma políticamente correcta e porque nos diziam que tínhamos de crer em Deus porque se não acreditássemos íamos para o inferno e o inferno era a ameaça que nos controlava.» Não Ficou chocada quando leu O Evangelho segundo Jesus Cristo?

«Não! Por Deus?»

Em Portugal só os falsos amigos é que ficaram chocados. Há problemas de tradução, catelhano é uma coisa, português outra. Mas, no plano político, zelará pela melhor tradução possível, pelo politicamente correcto. «Se a igreja Católica não tem problemas de defender o que defende, de dizer que as pessoas têm de morrer sem cuidados paliativos e todas essas coisas que vão contra o senso comum...» Diz-se que Maria del Pilar foi responsável por levar José Saramago para Espanha. «Claro que não. Foi o governo Cavaco Silva. Arranje outra razão». A Fundação José Saramago entende-se numa perspectiva ecológica. Isso importa à Presidenta? «Sim, mas a Presidenta assume o espírito da Fundação, que é o espírito que Saramago passa. Como iríamos viver tranquilamente a ler estpendos livros se o mundo está feito numa merda? Eu não posso ler rodeada de porcaria».
(É aceitável)
Que acha do próximo livro do seu marido?
«É um livro saramaguiano, cem por cento saramaguiano»

terça-feira, julho 01, 2008

NARCISA DOUBLE LIVE ou Ana Teresa Vicente


Esta exposição de fotografias de Ana Teresa Vicente mostra o lado mais profundo desta forma de registo e expressão, domínio onde a tecnologia abriu novos espaços de pesquisa, o que é notório, aliás, nos exemplos aqui apresentados. Aqui, uma jovem licenciada (Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa) trabalha uma encenação das coisas, dela mesma, em confronto com o espelho. O espelo ele mesmo. O espelho que resulta de uma janela e dos olhares que a atravessam e retornam. Ana Vicente pode questionar a distância, entre portas, ou projectar-se no espelho sem que a atitude narcísica se consolide, antes explica o Outro por fragmentações do real, detalhes, essa espécie de invisibilidade que continua existente epois da apropriação do visível.
Um dos problemas hoje recorrentes concentra-se na realidade e na aparência do corpo, dilatando-se a relação entre o sujeito e a sua imagem. A arte contemporânea, fracturante, legitimou diversos modos de aceder ao imaginário e de trazer para o espaço da realidade. O mito de Narciso, em vez de nos amarrar a um processo de auto-contemplação, desdobra-se num plano de múltiplas alucinações, entre o que se julga ver e a dimensão do sonho.
Ana Teresa Vicente, com as suas belas fotografias, chama-nos a atenção para muitas coisas, do projecto mimético, cara a cara, pelo espelo, o encontro com o Outro, ilusão que tem vindo a centrar-se na edificação da bra em superfície. Nesse sentido, cita Roland Barthes quando ele nos fala da ideia de Spectrum ao abordar o sentido de uma fotografia: «assim que permito ser fotografado, torno-me num espectro, numa sombra» As velhas fotografias dos nossos avôs, algo desfocadas em sépia, são agora mais verdaeiras do que no tempo em que eles viveram, tempo em que ainda desconhecíamos a sua verdadeira natureza de fantasmas. Memória para o futuro, tais apropriações dependiam e dependem de actos de encenação. E a nossa criação de novos duplos, após esse reencontro, tudo liberta e tudo irrealiza em ordem a outra invenção do real.


fotografias de Ana Teresa Vicente

A DIFÍCIL ARTE DE SER COMENTADOR


Não me sinto especialmente ligado aos chamados comentadores políticos (e afins) da televisão. E o que me faz publicar a fotografia do ministro Jaime Silva, omitindo a do prof. Marcelo Rebelo de Sousa, é o facto daquele membro do governo ter sido colocado bem perto da guilhotina. Escapou até agora, ao que parece, porque não há, entre nós, nem guilhotinas nem pena de morte.
Sou um observador vulgar dos acontecimentos políticos, não percebo porque é que os governos são todos tão maus, nem entendo muitos critérios jornalísticos, a completa anarquia da maior parte dos debates televisivos. Sou político porque sou cidadão. E hoje, aliás, o que me convoca para este espaço é mais uma questão relativa à deontologia dos redactores de jornais e a componente ética dos comentadores que nos visitam sem qualquer respeito por nós.
Num pequeno texto de Leonete Botelho, editado no «Público» de há dias, é dada a notícia de que Jaime Silva tem sido criticado em surdina por deputados do PS. O problema parece prender-se, depois de outros desaires, com algumas declarações do ministro da Agricultura e Pescas sobre «as supostas orientações políticas da CAP e da CNA», o que lhe teria trazido dissabores, comentários mordazes, a sua colocação na lista dos remodeláveis.
Esta pequena nota de entrada contextualizante ao que se segue, serve sobretudo para se sentir o modo de avaliações que se processa entre nós, entre pontas contundentes e sem qualquer análise de fundo ao que cada interveniente diz ou aponta programaticamente, tanto mais que essas questões, segundo me parece, deveriam ser explicitadas diante do público e discutidas de forma pedagógica. Fora isso, declaro que não venho avaliar nem julgar o ministro mal-amado, a sua perigosidade para o desastre nacional, a qualidade do seu jeito para o cargo que ocupa. Venho, isso sim, como cidadão e consumidor de informação audio-visual, fazer uma chamada de atenção para as declaracões cada vez mais incómodas da rubrica de Marcelo Rebelo de Sousa na televisão. Lembro-me de o apreciar desde longa data, apesar de algumas ginásticas menos correctas politicamente, mas, da última vez, tenho de considerar que a sua intervenção, em especial no que se referia àquele ministro, ultrapassou qualquer domínio de decência, de análise justificada, tudo atirado gesticuladamente para o ar com uma total falta de cortesia relativamente a quem o ouvia. Fiquei sabendo que «o ministro é a pessoa mais inculta do mundo», que nem vale a pena saber o que diz, porque é «completamente incompetente», além de poder levar com mais adjectivos decapitantes, como de resto aconteceu.
E eu, pergunto: a imprensa não escalpeliza esta competência do comentador político? Isto não é mais importante do que um cigarro fumado a bordo de um avião oficial a caminho da Venezuela? O que é preciso Marcelo Rebelo de Sousa dizer mais, aos sacões, cada vez com menos ordem e pior inteligibilidade, para que se faça a análise pública desse fenómeno, dado o lugar conferido ao professor, o programa especialmente tratado que lhe concedem, o que ele diz e como diz? Isto é tolerável, na sua completa falta de ética, ou há processos e pessoas que se guardam na gaveta das impunidades? Não teria sido possível, a um mestre do direito, prolixo aliás, desenvolver comentários bem medidos, bem explicados e sem aquela abusiva falta de respeito? O que é que está a acontecer na parcialidade partidária do professor, respeitável em si mas desaconselhável num programa de televisão conduzido daquela maneira? O comentário politicamente empenhado deve ter um lugar próprio e não se ocultar no nome. Há felizmente dois ou três exemplos do que resta no tornado português.
E, por mais estranho que pareça, calhou ter a oportunidade de ouvir o tal ministro a responder aos jornalistas sobre o incidente daquelas declarações. Para além de relativizir o programa como de entretenimento, sintetizou o problema e a sua posição com meia dúzia de frases claras, adequadas e respeitadoras.

quarta-feira, junho 25, 2008

APELO POR RUÍNAS E FLORES SELVAGENS


Em criança, quando começaram a demolir duas casas perto da minha, eu sentia um secreto desejo de pedir à vizinha da frente, muito amiga da minha família, que me deixasse ir ver as obras em curso. Sempre sorrindo, ela levava-me até à janela (com as obras na frente) e eu ficava com o nariz colado ao parapeito. Logo no primeiro dia, a vizinha deu por isso e foi buscar uma pequena cadeira de tabúa, encostando o espaldar à parede. Fez-me subir, disse para eu ter cuidado a fim de não cair e foi à vida, na cozinha ali perto. E eu ficava fascinado, olhando os operários em cima das paredes e escadas, com picaretas, desmantelando tudo pedra a pedra. Nas paredes que ainda restavam, havia nódoas da presença de quadros entretanto retirados, além de pregos e bases para lâmpadas eléctricas. Com o tempo foram restando as portas interiores como molduras vazias e o entulho aumentava ao ritmo do trabalho daqueles trabalhadores equilibristas. Como já escrevi uma vez, este espectáculo (não sei se motivado pelo cinema) ficou-me profundamente gravado na memória e nunca mais deixei de me sentir fascinado quando encontrava ruínas na paisagem ou em pinturas e bilhetes postais.
Mais tarde, quando isso me acontecia, perguntava a mim mesmo que razão haveria para aquele apreço, para aquele apelo, ao contrário do desencanto que sentia perante as flores, ornamento usual nas casas, retomado em fresco. Por mais estranho que pareça, e porque desenhava com prematura qualidade, este desapego pela beleza óbvia das flores, acontecia sempre e deixava-me intrigado. No tempo em que começou a ser um hábito os habitantes da pequena cidade do sul (onde nasci e vivi) fazerem grandes passeios aos pomares, pelo rio ou pelas veredas, ou também à serra, junto da primeira barragem ali construída. As casas de lavoura, pobres, abandonadas, continuavam a fixar os meus olhos. E foi nessa altura que descobri outras flores, lindas, mais verdadeiras do que todas as outras, flores nascidas ao acaso, secas mas vivas, ásperas, com pétalas que pareciam a protecção do milho, tufadas e coloridas em tons abertos num centro geométrico. Eram lindas as flores silvestres, essa vida muito bem integrada no ambiente e com um desenho ao mesmo tempo solto e rigoroso. Invariavelmente, quando percorro as veredas da serra, perto da cidade, apanho flores dessas e coloco-as em jarras como as pessoas fazem com as outras, decorativas, macias, e aparentemente artificiais. Mas as flores que eu arrumo na jarra não precisam de água. Meses mais tarde continuam na mesma, perenes. Também fiquei a gostar destas formas naturais, tanto como os destroços das velhas casas.

fotografias de Miguel Baganha

quinta-feira, junho 19, 2008

O ENIGMA E O 'CÓDIGO' DE MIGUEL ÂNGELO


Michelangelo di Ludovico Buonarroti Simoi («Miguel Ângelo») nasceu em Caprese a 6 de Maio de 1475. Foi, como sabemos, pintor, escultor, poeta e arquitecto durante o renascentismo italiano. A sua versatilidade em vários campos tornou-o rival de Leonardo, ícone do Renascimento. É certo que o seu talento e a sua actividade multidisciplinar permitem-nos usar o termo superior para o caracterizar como génio, tendo mesmo desempenhado tarefas diplomáticas. Era Il Divino. Se Miguel Ângelo nos lembra de imediato a época da Renascença, os artistas, historiadores, e outros especialistas, não podem deixar de pensar também no grande vértice desse tempo, na ciência e na arte, Leonardo da Vinci. Os segredos da sua invenção abriram espaço a uma literatura de falsas descobertas, teses oportunistas que o editorialismo voraz logo aproveitou: fala-se então do «Código de Leonardo da Vinci», uma pirueta de mercado, o que de resto aconteceu com duas figuras públicas do nosso meio televisivo, escrevendo a seguir, bem perto, livros com ar de tratados, «Codex 632» ou «Fundamento de Deus». Umberto Eco abrira caminhos para esta babilónia e outros embustes, com o seu livro «O Nome da Rosa».
variações em torno de Miguel Ângelo, onde alguns julgam ver na
linha da composição o perfil de Dante, especulação que não tardará
a fazer com quem descubra aí a abertura do código de Miguel Ângelo
*
Em boa verdade, esta cadeia de descobertas quase miraculosas e de embustes a fingir de conexões matemáticas ou metafísicas, a par de algumas que não passam de suposições de mensagens subliminares ou de meras zangas do pintor (neste caso Miguel Ângelo) com mestres do seu ofício, incluindo Leonardo. Assim se vendem milhões de livros inúteis e se criam novas mitologias, em pleno século XXI, no qual já chegaria a crença nos extra-terrestres, religião emergente que desperta seitas e agride a fé dos praticantes das religiões ditas tradicionais.
Fala-se de uma primeira teoria, surgida em 1950, quando um diplomata venezuelano visitou a Capela Sistina, no Vaticano. Assombrado com a grandeza daquele fresco que preenche a totalidade de uma das paredes do edifício, Joaquim Diaz González «descobriu» (o que, de resto, é pequena alucinação) que Miguel Ângelo, o renascentista responsável pela obra, escondera o perfil de Dante na cadeia de relações formais, figurativas, estruturais, que edificam o fresco. É até provável que Conzález quisesse elogiar a obra do pintor e a personalidade criadora de Dante,
poeta italiano que escreveu «A Divina Comédia». A escalada deste processo, como tantos outros ao longo da História da Arte, acabaria por reacender as fogueiras da especulação rendosa, datava a primeira etapa da construção do código de Miguel Ângelo. Todos estes temas, suprindo as faltas de enganos aliciantes na cultura actual, reabrindo caminhos como os da «Ilha do Tesouro», nada mais faz do que empreender, em termos de verdade, a formação de outras ilusões, de novos contos do vigário, aliás com luxuosos volumes a satirizar os álgidos relatórios das maiores Academias sobreviventes. Basta olhar para a ilustração apresentada no «Diário de Notícias» para que nos seja possível enjeitar a grosseira linha do perfil de Dante (em baixo, à esquerda), percurso que procura dar como certa a relação compositiva que suscita a união de polos fortes, dos quais se infere a subjacente figura do poeta. Isto embora não se entenda, depois, qual a razão da linha flectir para a testa quando a composição mantém, em cima, um trajeto visual de continuidade. O que, de resto, acontece em pleno nariz: na massa compositiva desse sector existe um bloco de figuras que preenche, na horizontal, até ao limite direito, cerca de um terço da largura do fresco. A menos que se transforme esta extraordinária obra de arte num labirinto de jornal, nada justifica, incluindo a geometria subjacente da composição, a viragem conveniente daquele nariz, o que de resto se vê no arbitrário perfil da boca, cortanto em ângulo uma figura cheia, bem blocada e conhecida. Essa abusiva invenção de uma lógica do percurso para um perfil aparece ainda, a terminar, com a linha do queixo e a oblíqua a apontar na direcção de uma figura reinante nos males do inferno. Uma outra, para tanto, foi cortada e transposta fora do critério seguido noutros casos. E o que faremos com as massas atrás da nuca, conjunto nivelável na horizontal, como da direita, ficando o campo divino, como convém, ao centro da caixa craneana? Mal vai o perfil: não só por estas incongruências, contrariando uma composição inventada por grandes eixos horizontais, os quais integram dois círculos - mas no que respeita à força divina, ao centro, no terço superior da peça, e em baixo, no terço inferior da imagem geral, delineando perfeitamente outro círculo como geometria estruturante da obra. Além de outros aspectos, à esquerda e à direita, nesta faixa que se estende por cima da estreita paisagem dos proscritos, visando completar a simetria do que parece caótico mas bem assenta numa grelha de sentidos copiados das medianas, havendo, em cima e em baixo, na mediana que divide em duas a superfície integral, as tais circunferências, uma maior, outra menor, tudo segundo a hierarquia dos céus, purgatórios, infernos, apesar do desnudamento das gentes e do espectáculo contorcionista conseguido, ópera laica, contra a bíblica memória em que o autor foi convidado a situar-se. Esta teoria risível, que talvez venda jornais, tem o seu ponto mais grotesco, quanto à localização e à forma, na grafia que assinala o olho esquerdo da figura evocada. E se esse olho, avesso à razão da grafia envolvente, por estradas imaginárias na composição, ali aparece - que faremos com a ausência do pavilhão auricular?
As outras fases desta deriva ensandecida pela Capela Sistina incluem outras grandes descobertas: Deus, metido naquilo que dizem ser uma caixa craneana com o cérebro supremo, vem de longe, de infinitas distâncias, e entrega a Adão, pelo toque dos respectivos dedos indicadores, a capacidade de raciocínio. Adão é de facto aquele homem lasso, repousando de costas na rampa de erva que determina o cenário natural. Esta é uma das mais heréticas visões da mensagem de Miguel Ângelo, pois a criação seria uma dádiva de sinais contrários (o dedo direito de Deus tocando o dedo esquerdo de Adão) e isso abre horizontes de pesquisa agora indizíveis.

quarta-feira, junho 18, 2008

A IRLANDA VOTOU NÃO AO TRATADO DE LISBOA


Quanto mais penso na imensa extensão de cordame embrulhado nas intempéries, assim, mesmo à beira Tejo, em Lisboa, cidade cujo nome foi atribuído com júbilo ao tratado europeu, não posso deixar de rever o complicado processo a que obriga a oficilização de tais documentos, tornando-os legíveis e funcionais, ancoragem muito difícil, porque todos os países membros da União Europeia têm de ratificar por unanimidade a peça, quer através de referendos, quer no quadro dos respectivos parlamentos. É inacreditável imaginar-se como possível e rápida a ratificação de uma peça destas, sobretudo tendo em conta que há países que estão obrigados a proceder à decisão (por razões constitucionais, o que acontece na Irlanda) através de referendo, enquanto outros podem optar apenas pelo parlamento. Vinte e sete países a prestarem honras ao sim, acto que tanto se defendeu na conclusão do Tratado durante a presidência portuguesa, lembra uma espécie de birra revolucionária ou utopia universalista, porque nada disso algum dia será transparente, seja qual for a globalização que amacie e torne obedientes tantas diferenças de identidade, cultura, urgência. Ao falar-se nos valores do sistema democrático faz-se porventura justiça a um antigo processo de governar as sociedades. Mas há sempre nuances, heranças muito antigas, instituições tocadas de outras sensbilidades, um modo de ser, entre latitudes, inquebrável para certos efeitos da história e da qualidade de vida, a subtil característica, a mais funda, que distingue os povos e as nações. Isso não impede que trabalhem em conjunto, em aliança, federadamente, por exemplo, mas tal escolha a não alterar a necessidade de sustentar as marcas indeléveis, problemas palpáveis a considerar compensadamente por cada excepção a um universalismo de pedra e cal.
Por muito evoluídos que sejam alguns países do norte da Europa, a verdade é que também esses não didferem muito quanto àquela casca de civilização que envolve a humanidade e que, durante as dores mais graves, rompe e nos desvia a todos do tal homem novo cujas lendas pintam sob o tecto galáctico de todas as utopias. Um Tratado como o que foi referendado na Irlanda e recusado com um rotundo não pela chamada voz do povo é o mais líquido acontecimento da nossa verdadeira natureza. Não há nenhum povo que possa assumir a responsabilidade de referendar projectos muito complexos e que só estão ao alcance de uma pequena parte dos cidadãos de qualquer comunidade, entre as mais evoluídas e as que vivem no limiar da cegueira. As questões susceptíveis de serem resolvidas dessa maneira obrigam sempre à formação prévia, esclarecedora, capaz de formar a base de lucidez e reconhecimento das questões a votar, permitindo assim um máximo de verdade nos resultados finais. Oiço as mais disparatadas vozes sobre este Tratado que já entrou em crise pelo voto negativo, não ratificador, que os irlandeses lhe atribuiram. Todos estes problemas envolvem uma vertente técnica, de especialidade, que inviabiliza a beleza do povo todo senhor do que vai fazer, como e porquê, depois de rejeitar as campanhas tóxicas pela negatividade ou a possível grandeza de uma escolha positiva, apesar de certas dúvidas ou mesmo renúncias. A Europa não se desenvolveu dessa maneira: escolheu-se em função de evitar as incomodidades dos tais apocalipses quotidianos, emoldurando alguns direitos principais, os valores humanos e de cultura, mas deixou-se envelhecer, imaginando que a sua longa história pode superar agora problemas de tão infinita complexidade. O referendo serve para questões que os povos já podem abarcar, ainda que na via de alguma incerteza, no plano da consciência decisória.
De resto, no plano de uma União Europeia, tem de se mudar de paradigma, como diz agora toda a gente, no governo, nos cafés, nas universidades, no futebol. Tem de se sacudir as migalhas dos excessos e limpar o espaço dos detritos que os ventos da história empurram em todas as direcções. Acabar com a unicidade fundamentalista, com a proliferação de normas, birras, cotas, fingimentos através do pormenor, essa idiota burocracia com a qual se julga ganhar uma força geral capaz, uma viabilidade de sucesso entre todos, um entendimento aceitável, isso sim, creio que permitiria conservar os antigos patrimónios da nossa verdade identitária. Acabe-se com esse eufemismo perverso que troca competição por competitividade. Os povos não têm de competir nem de crescer. Evoluir não é crescer. O desenvolvimento das nações pode acontecer sem obesidade e no sentido de um verdadeiro nexo entre enoção e razão. Penso muitas vezes na Noruega e só me ocorre a nitidez da desmassificação. De contrário, o homem acabará por implodir, pessoa a pessoa, como acontece num vídeo (MAX) que ilustra certa composição musical e mostra os restos de todas as monumentalidades, televisões a trabalhar continuamente, sobre pedras, muros e carrinhas de acampar. Tudo se resumia, nessa altura, a uma tecnologia de sonrevivência e alienação.