terça-feira, janeiro 20, 2009

JANEIRO, 1980: PATRIMÓNIO NACIONAL

insularidades

Portugal é rico em patrimónios deste tipo, na sua traça final, ao abandono. Este trecho de um rua inteira, resultado de tremor de terra que ocorreu nas ilhas Terceira e Graciosa no dia 1 de Janeiro de 1980. Ninguém pensava que o horror de 1973 se repetisse. Mas aconteceu. Morreram 71 pessoas, houve 400 feridos, e mais de 15 mil pessoas ficaram se abrigo. Rui Ochôa, que se encontrava nos açores, escreveu ara a revista Única que mais de 8o% dos edifícios de traça renascentista ficaram destruídos. A tragédia dava lugar a uma profunda desolação semanas depois da catástrofe. Igrejas, edifícios públicos e habitações sucumbiram a um sismo de 7,2 e tudo indicava que os açoreanos teriam de esperar, entre dores, muito tempo dedicado à rconstrução. Muita população via, uma vez mais, as suas casas destruídas. A emigração para a América colocou-se, de novo a muita gente. Há sequelas, para memória futura, que ainda assinalam o horror daquee dia: eram 16 horas e 42 minutos,

domingo, janeiro 18, 2009

PERGUNTA INQUIETANTE DE MIA COUTO

E SE OBAMA FOSSE AFRICANO?

A partir da época em que conheci aceitavelmente o escritor Mia Couto, nas suas presenças, na sua obra, entre notícias de amigos e colegas, fiquei sempre com a ideia de que ele era um interessante contador de histórias, um surpreendente inventor de palavras, e isso deu-me também a noção de um trabalho antropológico, de um olhar do branco africano capaz de se filiar, pela cabeça e pelo coração, no contexto de Moçambique mais profundo. A verdade é que à medida que ele se notabilizava, viajando frequentemente a Lisboa e mantendo aqui contactos de influência (não estou a falar de tráfico), o retrato que eu fazia deste autor ganhou prolongamentos e próteses intercontinentais, começei a vê-lo, sobretudo por vias mediáticas, por vezes até à saciedade, como entidade capaz de ter um pé em África e outro na Europa, particularmente em Portugal, onde a sua fama tem feito com que instituições várias tenham preterido criadores portuguses, de inegável mérito, a favor de Mia Couto. Há muitas razões para isso, algumas eventualmente louváveis, e por certro as sequelas da memória colonial, das guerras, entre sentimentos de artistas por lá abandonados ou minimizados apesar da vontade de os tornar parte do espaço lusófono. Devagar, e muito depois de Mia Couto, chegaram outros, Pepetela, Rui Carvalho, vários, incluindo a comunicação via Internet.

Que faria Obama em Moçambique?

Mia Couto publicou (ou publicaram-lhe) um oportuno artigo na revista/única (17.01.2009), sob o título E se Obama fosse africano? A redacção da revista publica uma pequena nota que diz ter o escritor moçambicano assistido com reservas às reacções eufóricas com a vitória de Obama (presume que em Moçambique, ou África em geral). A desconfiança é justificada porque, como dizia Franz Fanon, a passagem súbita de populações ocupadas e primitivas à contemporaneidade (na sua expressão técnico-cultural) provocaria grandes tragédias e difíceis assentamentos de identidade. Se a descolonização portuguesa foi lenta e desatrada, as outras todas (muito resultantes de concepções desemcadeadas após o termo da segunda Guerra Mundial) não evitaram sequelas por vezes hediondas. Os regimes nacionais, um pouco pouco por toda a parte, em África, cristalizaram em ditaduras impensáveis e prioridades militares paralisantes, as guerras civis e tribais sucederam-se e os países (que nunca lhes ocorreu alterar as fronteiras coloniais) regrediram até situações inenarráveis: a riqueza de Angola não reedifica a justiça política e social, Moçambique precisava de ter petróleo e menos insidiosos racismos. Ruanda e Uganda escusavam de consumar em três meses um dos maiores massacres da história humana (800.000 mortos), a África do Sul já deveria ter menos assassinos nas ruas, a Guiné sobrevive entre golpes de Estado e ditadores inconsequentes, o Zimbabwue pertence a Mugabe mesmo que ele sobreviva ao último habitante, o Congo, que já teve um dono inominável, desfaz-se em pedaços e carnificinas. Exemplos que não esgotam esta verificação breve.


Com mais brandura, o que se compreende, Mia Couto, aliás também preso pelo tema, reconhece esta realidade e é dela que parte para fazer a pergunta sobre Obama. Para ele Obama não teria o menor espaço de manobra em África, incluindo Moçambique, seria agredido, preso e sabe-se lá que mais. O escritor sublinha: «Os Bushes de África não toleram a democracia». A odiada América ainda consegue gerar estas ondas de combate aceitável, a riqueza de debates e de complexas escolhas. A esperança em Obama é por boas razões mas ele próprio já relativizou (no centro da crise mundial) o poder das soluções. Mia Couto conta que o Zambiano Keneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país como filho de malawianos». As raças africanas (já lá foi o tempo em que se dizia que a África é para os africanos) combatem-se a este nível, do geral ao particular, e os senhores do poder, sentados em montanhas de armamento, decretam as exclusões, as discriminações, os massacres.

Ora Obama não é africano e a sua cor de mulato também leva à exclusão, nomeadamente numa hipotética (impossível) campanha eleitoral. Hitler queria a pura raça ariana. Certos líderes em África parecem defender uma «pureza africana». O absurdo é tremendo porque os africanos são diferentes entre si, dividem-se em raças e étnias (com fronteiras erradas) e quase todas elas se hostilizam entre si. Mia Couto ameniza compreensivelmente (e com algum conhecimento de causa) a paisagem apocalíptica de África. Diz: «existem excepções neste quadro generalista» e acena com o bom desempenho de Moçambique. Se é verdade que em Moçambique não há uma guerra arrasante, muitos sabem como pensam certos líderes, deputados, senhores do poder. O verniz não isola interiores, inflamações. E em Maputo quebra-se a toda a hora, vertendo purulências nas ruas. Mia Couto, sabendo que o entusiasmo dos africanos por Obama seria esmagado à primeira veleidade (clonada) de actuação semelhante à que acabou de terminar com êxito, escreve avisadamente: «No mesmo dia em que Obama confirmava a sua condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África». E anuncia, para os próprios iludidos a antiga Metrópole: «África continua sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmuserada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo»

Este corajoso depoimento de Mia Couto termina com palavras de esperança, imaginando o tempo em que todas as entnias e raças africanas terão oportunidade de celebrar, na sua casa, «aquilo que agora festejamos em casa alheia». Só não faz a estimativa de quantas gerações terão de ser sacrificadas para que isso aconteça. Seja como for, e por isso a ferida dos que viveram África não sara, esse Continente, possível salvador de outros excessos, é ensurdecedoramente belo, fica-nos no sangue, é património da humanidade, deveria ter um destino ecuménico e nunca ser poaauíso pelo sistemas do crescimento sempre. Talvez seja consolador imaginar um não crescimento equilibrante, sem metrópoles gigantescas, nel lixos asfixiantes, nem terras apodrecidas, nem fomes e doenças aterradoras.
A Terra perdeu um minuto na sua própria velocidade de rotação.

domingo, janeiro 11, 2009

A BELA INICIAÇÃO DA ACTRIZ SOFIA ESCOBAR

Sofia Escobar
Leio jornais, naturalmente, cito jornais, obviamente. Mas desta vez não me sinto tentado a recortar a tragédia que nos envolve um pouco por toda a parte. Apetece-me antes, depois de conhecer Sofia Escobar na capa da revista Actual Expresso. Fui ler porque ela me fitou como se me conhecesse de há muito tempo. E a sua história, que é muito bonita, exemplar a vários títulos, ajuda-nos a acreditar nas pessoas e deixa-nos ficar gratos ao texto sensível de Ricardo Marques, enviado especial a Londres, com o fotógrafo Tiago Miranda, porque desta vez o jornal teve gente que pensou quantas prioridades destas costumamos perder pela força de populismos menores e vícios redutores da cultura que também nos cabe.
Sofia Escobar é uma jovem de 28 anos que, sem perder o fio à meada, resistiu sempre a amordaçar a sua vocação de actriz e cantora lírica. Teve, sobretudo no pai, em Guimarães e contra a sua timidez, determinação para prosseguir o apelo profundo que a envolvia.
Entre as revelações da infância, a primeira aventura, e mais tarde uma escolha que misturou os estudos e o canto, Sofia viu-se compensada, aos 18 anos, a frequentar o Conservatório do Porto, auto-suficiante, ofuscada pela pela trepidação da cidade, um ambiente com música por todo o lado, as aulas, gente nova, sonhos em volta.
Arrisca a partir para Londres. O seu amigo Fernando aconselhou-a a partir. Agora, em Inglaterra, estão no primeiro andar onde Sofia mora com o namorado, também actor. Ela evoluiu muito como actriz. Fernando considera que ela é uma profissional extraordinária, confiante e extraordinária. Ao falar a Ricardo, a actriz «lembra os dias em que comiam arroz com ervilhas três vezes ao dia, por não haver dinheiro para mais nada, noites perdidas a trabalhar como empregada de mesa, dos cereais com leite e dos bairros perigosos onde moraram».
Em um dia, na procura esforçada, Sofia reparou num anúncio de jornal para audições destinadas a recrutamento qualificado para participação no «Fantasma da Ópera». Foi escolhida, depois de oito meses de audições e testes. Como conta o jornalista, o pai de Sofia viajou de Portugal para a estreia e chorou do início ao fim.
Tudo isto é mais do que sonho: é vontade, vocação, capacidade de lutar e vencer obstáculos, entre afectos e uma decisiva integração no meio. O que Sofia faz não apenas profissionalmente, ou sempre fez, entrando pela multidão, criando pausas, instantes a contemplar o Tamisa e sempre a batalha pela identidade artística.
Enfim, os capítulos desta jornada sucedem-se de forma incisiva, talvez antecipando muito mais coisas. Sofia está a assumir o papel de Maria, «a doce rapariga que se apaixona pelo maior rival do irmão no musical WEST SIDE STORY» As diferenças do que se comenta abaixo, são ensurdecedoras. «Maria acaba a peça de arma em punho, sem namorado nem irmão, ambos vítimas da guerra entre os Jets e os Sharks, dois grupos na Nova Iorque dos anos 50.
Haveria muito mais para dizer sobre a sensibilidade e a actriz, esta portuguesa que talvez anuncie uma geração com minorias de grande valor e às quais o país tem que prestar a melhor das atenções. Há cerca de um mês, esta jovem portuguesa, cuja viagem pelo estudo e pela prestação de reconnhecida actividade profissional se mostrou desce cedo muito relevante, foi nomeada para a categoria de Melhor Actriz de Teatro Musical na votação do site whatsonstage. Trata-se de um facto que nos deve merecer o maior interesse: porque ela já ganhou na própria nomeação. A selecção foi feita por críticos e está aberta ao público até 31 de Janeiro.

sábado, janeiro 10, 2009

OS IMPERDOÁVEIS MUSICAIS DE FELIPE LA FÉRIA


Não saberia fazer melhor e por isso (por achar culturalmenre relevante) transcrevo parte da crónica que Alberto Gonçalves publicou na «Sábado» (8.01.09) a propósito das produções de La féria em music-hall e similares, obras que cavalgam imperdoavelmente algumas grandes realizações no cinema e no palco.
Embora Alberto Gonçalves (sociólogo) comece por afirmar que não lhe parece difícil cimpatizar com Felipe La Féria, sobretudo «quando enfurece as luminárias do nosso teatro sério», acresnta pouco depois «como custa manter a simpatia quando pensamos no teatro que ele próprio faz.»


do texto Juizo Final:
«Há dias vi na televisão uma reportagem sobre o West Side Story segundo La Féria. Quer dizer: percebi tratar-se do West Side Story porque o disseram explicitamente. De resto, nada o levava a crer. Dos cenários às coreografias, das interpretações à orquestração, os vestígios do original eram dúbioa, e isto sou eu a ser delicado. No máximo, reconheci a cena da varanda, em que dois jovens talvez tentassem cantar Tonight e um pedacinho de America, no qual o título rimava com histérica e pindérica.
«Mesmo que a redução de uma maravilha do teatro nusical ao Sabadabadu não seja grave, é um sintoma da tendência nacional para emprestar a tudo o que tocamos um peculiar toque de amadorismo, um ar de pastiche desajeitado do que daz "Lá fora". Cá dentro, faz-se o que se pode e, pelo que se constata nos espectáculos, nas artes, nas letras, na arquitectura, e, se quisermos alargar o leque, na economia ou na política, não se pode grande coisa. Grosso modo, o País está para o mundo civilizado como o carnaval de Ovar está para o do Rio, uma imitação ingénua que, não obstante, chega e sobre para nos sonsolar.
«Aqui, no consolo, o factor fundamental é a portugalidade. É claro que La Féria, o teatro "alternativo" que temos e o engº Sócrates seriam escassamente considerados em qualquer outro lugar do Hemisfério Norte. Para portuguses, porém, impõ-se admitir que não são maus. Para portugueses, aliás, ninguém é mau, mesmo os que são péssimos de acordo com os restantes critérios, Além de exibir a baixíssima conta em que os portuguses se têm, isto prova que a conta é a apropriada»
Procurando minimizar esta visão sombria do português, Alberto Gonçalves evoca personalidades que escapam à nossa menoridade genética, e considera que «há excepções à mediocridade sentida» e, nesse sentido, aponta (sem nomear senão Amália) os que, «graças ao rigor, ao talento, à inspiração ou ao que quer que os distinga, não parecem portugueses (apenas na literatura, Pessoa e Eça são bons exemplos) E há, que me ocorra, uma única excepção às excepções: chamou-se Amálias Rodrigues, era integral e visceralmente portuguesa; e, ainda assim, roçou a perfeição. O mistério de Amália consistir justamente em conciliar o que, por definição, não é conciliável, leia-se Portugal e o génio»
Mais à frente, depois de zurzir com paciência à direita e à esquerda, incluindo falas, cerimónias oficiais, filmes biográficos, Alberto Gonçalves esclarece: «Não é disso que falo. Falo de regressar sem intermediários ao significado daquela vez, tão explicável que português nenhum é capaz de a merecer ou macular. E olhem que, conforme as homenagens, muitos tentam. E, naturalmente, La Féria já tentou»


Terminamos nós, em rodapé, a fim de que tanta desgraça não nos afunde: é que, ao que parece, há frente de cada português está sempre um abismo. Fiquemos perto de Amália, que quase roçou a perfeição, e consideremos La Féria um artesão megalómano do teatro de revista à portuguesa

segunda-feira, dezembro 29, 2008

O EVENTUAL AFUNDAMENTO DAS CARAVELAS

CITAÇÃO DOS DESENHOS DE HELDER OLIVEIRA/WHO, PUBLICADOS
NA REVISTA ÚNICA
ao acaso dos nossos escolhos e secas


No ano 9 do segundo milénio, ainda tiritando de devaneios, Portugal está a descer aos infernos, roubado das suas entranhas, incluindo as restantes autoridades do saber. As imitações espalham-se pelas ruas, entre lojas e bancos, rasgos de violência, roubos com alguns tiques cosmopolitas. A Helder não escapa nenhum destes estilhaços, políticos inspirados prontos a um suicídio provinciano e a encalhar nas redes internacionais da intriga, da golpada, do conluio. Muitos deles, a maior parte, cuidam de viajar por tudo quanto é sítio, fazem compras, conspiram, espreitam os paraísos artificiais, fiscais.
Por estranho que pareça, o último governo tinha lançado ao ar alguns balões com as cores dos partidos, assaz carregados de ideias assim-assim: o patronato, agora com os cognomes de «empreendedores» tratou bem das finanças próprias, trocaram dinheiro por mais dinheiro, compraram belos barcos de recreio, subsidiaram novas marinas, financiaram, entre clandestinidades, os chamados agentes imobiliários, antigos «patos bravos». Muitas coisas obscuras começaram, além das outras, durante a crise: os espanhóis desataram a passear pela fronteira, a beber pinga de medronho, a mirar as aldeias quase abandonadas e outras de todo entregues ao matagal. Fizeram propostas, trouxeram vinho da Andaluzia, perguntaram pelas pessoas. Anda tudo pelas cidades do litoral, surfando, surfando. E esta casinha, o senhor vendia-me esta casinha? Ora essa, então somos irmãos, quanto quer dar? E quanto quer vocemecê? Vá lá mais um corpo, isto arruma-se. E tem sido um corropio de arrumos, os irmanos plantados em vivendas na margem do Alqueva, do lado de Espanha, e os sonsos de Lisboa do lado contrário. Afinal, a desertificação estava ali mesmo a calhar, com terras ao abandono mas cheias de sobreiros, uns vinhitos capazes. Os latifundiários, que Deus tem, deixaram cá uns delfins aparelhados, estavam quase sempre em Lisboa e arredores. Os latifundiários de Castela foram mais longe neste país caiado: só os senhores da Quinta da Marinha «apanharam» no primeiro dia de visitas cinco proprietários, uns das lezírias e outras vindos do sul do Tejo, além de um Comendador e o Presidente de Conselho de Administração de um banco de gerir fortunas, coisa fina.
Manuel Alegre, que estava a ponderar derivas políticas para rejuvenescer, ficou espalhado num sofá a chupar um charuto que o amigo Fidel enviara para uns quantos lusitos da esquerda. Estava bem de ver que a democracia portuguesa, nesta época, apanhara os fluxos e refluxos da crise económica Global e escassamente se podia desculpar, após as glórias de Abril e do 25 de Novembro, com as teinosias dos prima dona, barões do norte, nem dos comandos, nem do paleio amigalhaço do Otelo e suas Chaimites. Aliás, a comunicação social não ajudava nada, é feroz, simplificadora, interesseira, pendurada (a todos os níveis) das mais valias da publicidade, da boateira, esticando sempre qualquer fait-divers em ilustrações práticas das estratégias conspirativas, golpes do baú, aleivosias da riqueza em trânsito, de achamento e escondimento, tudo nas barbas brancas e sujas dos indigentes, dois milhões de pobres, no mínimo, e dois milhares de pessoas sem abrigo, só em Lisboa. E só quem lhes pode pisar os calos ou ir-lhes às canelas, é o homem da ilha, o Jardim.


A saúde está em greve, a ministra da Educação tem uns papéis à sueca para avaliar professores latinos, e o Dr. Cavaco Silva, Presidente da República, anda numa onda de coordenação estratégica, de boas relações com o Primeiro Ministro, engº José Sócrates. Sócrates não se fica, uma picadinha aqui, uma teimosia ali. Além do mais, apesar de alguns ministros menores que fazem parte do seu governo (dizem), tem outros de ferro, os quais fazem uma inveja danada aos da esquerda, Bloco, Partido Comunista com Jerónimo e muita disciplina, restos de outras forças boiando numa espécie de Mar fos Sargaços. PSD e PS (o CDS afunda-se com a grande oralidade de Portas, um ou outro, tanto faz) andam como carangueijos, pernas e marcha de lado, nuncam páram ao centro. Se a oposição é sempre maníaco-depressiva, podia, pelo menos, ajudar os que estão no poleiro. Era porreiro haver assim uma consertação centrada, bem apoiada, com pecadilhos à esquerda e à direita, mas sem função meramente ornamental.
Na sua base psicológica, dizem esses doutores de aviário que abundam na nossa praça: Cavaco e Sócrates não se entendem ao centro porque são os dois igualmente teimosos e arrogantes, o que é importante para estas tardes frias, com os hospitais atulhados de pessoas engripadas. De resto, eles sabem que já não há vacas gordas, ambos se bastam com jogos e picardias, enquanto os piratas trepam as escadas do poratló e da varanda do Palácio de Belém.
O Partido Socialista está pela primeira vez a governar sozinho com uma maioria absoluta; e, embora com alguns golpes de asa, alguma invenção modernizante, faz, em suma, mais ou menos o que fizeram os cavaquistas. Pacheco Pereira, comentador, é o chefe de todos os comentadores e dos árbitos, incluindo os do futebol. Ele fala pelos cotovelos e pelas cãs, numa oratória que leva tudo atrás, interrompe tudo, manda em tudo e sem estar com o rabo na cadeira do poder. É do quarto poder. Em alucinação como um F16, fala agora o nosso amigo Rebelo de Sousa, pirateando a Ferreira Leite, apoiada pelo Pacheco. E o Pulido, arfando, lá foi dar uma ajuda à enfática lâmina com que Manuela Guedes zurze os homens do poder. O Vitorino é uma peça rara, pertence à guerra de vanguarda, fala depressa, de forma exacta, e no fim a gente até o percebe. Os outros dois, para não falar nos 555 que há no país, forma grandes rolos fraseológicos, mas o Rebelo acaba por desfazer os rolos com uma previsão astral, vertiginosa, cortante. São os astrólogos da nossa política que está toda escrita nosa graffiti das cidades, mesmo as mais abandonadas no interior.
Paulo Portas está a precisar de Ana Dargo, miminhos esquerdinos para lhe endireitarem o pescoço garbosamente torto. O pobre do Menezes rói as unhas, de arrependimento e inveja, e manda Santana escrever Salmos, «andar por aí». Alguns lisboetas já compraram casa no Alqueva e em Porto Covo, para a hipótese do Santana derrotar o António Costa (anomalia pensável entre nós); se tal acontecer, Santana já foi copiar os arranjos dos Espanhóis, bairros inteiros reconstruidos, ruas inteiras para passear, tunéis em todas as direcções, inteiros, para os carros afocinharem. As caleches vêm para a baixa, Rossio, Terreiro do Paço. Manuel Ferreira Leite, desde que se fez à presidência do Partido Social Democrata, trepa escadas silenciosamente, cara do século XVII, pernas finas e firmes. Já foi secretária, ministra da Educação e das Finanças, e há quem diga (os arrumadores de carros) que o déficit que ela deixou, 6,8, foi decorrente de um pacto para tramar o Sócrates logo à primeira. Não tramou: Sócrates fez uma engenharia financeira capaz e acabou atraiçoado pelos banqueiros de todo o mundo, neo-liberais, capitalistas da ganâmcia cega. Louçã está contente: a esquerda sobe nas sondagens. Jerónimo, estátua de adamastor, acredita na disciplina: mais vale a escolinha, com carteiras em rampa, onde agarra o seu Comité Central, do que dinheiros sem nome, dinheiros que não subam do povo e pelas mãos calejadas do povo.

Upa, upa, o que é preciso é ter força e coragem para alcançar os patamares do poder e limpar o país de tantos engenheiros que andam por aí. Eu gosto da ideia do computador e um dia se verá como isso vai deixar marcas. Ao menos a ideia do plano tecnológico tem provas dadas, embora a imprensa não estude o problema e se entregue às momices pela bem encenada ascenção de Sócratas nessa «dádiva» à pequenada. Isso não me choca. Aborrece-me é aquela espuma que anda sempre atrás dele, Helena de Tróia independente, Alegre can-tando os partidos de Portugal. Como se fosse assim que se desmonta uma máquina destas! A Dra Manuela, apesar de algum derriço do Sócrates e dos ciumes do Pacheco, continua a desfiar azedume e a confundir solidariedade, companheirismo, esforços consensuais, com BLOCO CENTRAL. Ora fala, ora não fala. E quando fala aproveita-se pouco. Pouco de todos. Ela não tem que se irritar com tudo o que é do poder, acastanhando o seu sorriso incapaz de ternura. Quando se falou em pacificação e um grande espaço político governado por diversas partilhas de boa vontade, ela exclamou: «Só se eu estivesse doida!»


Doida não está, S. Rebelo nos acuda. Mas a insanidade do povo português vem de longe, das separações, das partidas nos cascos dos navios, caravelas atrás de caravelas, doidos aninhados nos porões, comendo solas e abocanhando, nos intervalos em terra, alguma nativa geradora de portugueses de segunda. Esses sim, eram de segunda escolha. Vê tudo bem, Marcelo, porque isso de ir apanhar as laranjas alheias também não fica muito bem num professor universitário nadador salvador.

Vão lá apamhar as laranjas, bem precisam. O Sócrates, que é um dos ministros mais bem vestidos do mundo, anda a olhar para as eleições e a visitar empresas de informática.


TENHAM CUIDADO COM AS LARANJAS ESPANHOLAS

quarta-feira, dezembro 24, 2008

O EVANGELHO SEGUNDO O PAPA BENTO XVI

«O papa mais recente, antes Joseph Ratzinger, atraiu recentemente jovens católicos e um festival oferecendo certa remissão de pecado àqueles que assistissem.»
«Este espectáculo moral, patético, seria desnecessário se fosse possível obedecer às regras originais. Mas os editos totalitaristas que começam com a revelação de autoridade absoluta, são impostos pelo medo e baseados num pecado cometido há muito tempo, entretanto acrescentados por regulamentos cujo sentido é muitas vezes simultaneamente imoral e impossível. O princípio essencial do totalitarismo é fazer leis às quais é impossível obedecer. A tirania resultante torna-se ainda mais impressionante se puder ser imposta por uma casta ou partido privilegiado, altamente zeloso na detecção do erro. Ao longo da história, a maior parte da humanidade tem vivido (e uma grande parte ainda vive) sob uma forma de ditadura assim, embrutecedora. *
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* Excerto do livro «Deus não é Grande», de Christopher Hitchens.

O EQUADOR SEGUNDO OS MILHÕES DO MERCADO


A propósito da estreia da série televisiva baseada no livro EQUADOR, de Miguel Sousa Tavares, o Diário de Notícias começou por abordar o acontecimento a partir do futebol, o que a própria TVI, produtora dos 26 episódios de uma obra monumental em quase tudo como aliás aquela estação costuma fazer: abrir o noticiário com um desses bárbaros «rncontros» em que se tornaram os jogos nos relvados dos estádios em Portugal. Pois o Diário de Notícias, pela mão de Tiago Guilherme, descobriu, na estreia do EQUADOR, que a exibição do Futebol Clube do Porto batera em audiências aquele evento. Mas o realizador da série, André Cerqueira, logo minimzou tal incidente, ao realçar o facto do interesse pela abertura da série ter sido assumido por uma audiência maior nas classes altas. A graça desta «inversão» é tanto maior quanto o jornalista-escritor, Sousa Tavares, é indefectível adepto do FCP. Não sei mesmo se estas coisas devem ser tratadas assim: o FCP anda a jogal mal (ainda) e a abertura da série começou mal, igualmente, em vários sentidos. André Cerqueira achou tudo em harmonia, sobretudo tendo em conta de que a obra literária vendeu mais de quatrocentos mil exemplares e não é legível só pelo primeiro capítulo. Após esse episódio, a habituação à forma tende a consolidar-se. Quanto aos efeitos técnicos e outros, o realizador afirmou que isso se devia, a ser verdade, aos riscos que ele aceitou correr. Salientou que o recurso a determinados meios, como o croma, é a atitude de qualquer artista. Se quisesse teria trabalhado de outra forma, sem deslizes possíveis, A verdade é que o realizador talvez não tenha arriscado tanto quanto julga, porque o risco, em arte, pouco tem a ver com a grandeza dos meios. Disseram os responsáveis que o público havia sido captado: um público «escolhido» entre aquele que menos vêm televisão: gente da classe alta. Era preciso, tão só, esperar que o fenómeno contaminasse o público em geral e se apropriasse das grandes potencialidades da obra fílmica.
Vejamos se o problema é das audiências ou as audiências altas se utilizam para disfarçar mita coisa.

Logo à partida, nesse tal famoso primeiro episódio, depressa saltou à vista o uso indiscreto do croma, quando o «contorno das personagens denunciava o facto dos actores terem sido colados ao espectáculo prévio dos cenários naturais» Cerqueira anotou logo essa grandeza dos riscos e «o facto de as pessoas só serem apontadas quando ousam» É preciso correr riscos, mesmo sacrificando alguma perfeição. Ao contrário, sem ponderar avanços, hipóteses formais das novas tecnologias, parece que todos ficam contentes. «Eu podia ter filmado em vãos de escada apenas com as personagens vestidas de época. Procurei mostrar Lisboa em todo o seu esplendor. Ver a rua Garrett, no Chiado, sem que apareça a FNAC ou a loja do Hugo Boss» Um autêntico golpe de asas, diremos nós. Quem fala assim não é gago, pode é não ser inteiramente um bom realizador de cinema ou televisão. O esplendor de Lisboa, as visibilidades entre camuflagens, são por vezes o melhor caminho para falhar meia dúzia de planos e comprometer toda uma sequência, toda a excelência da forma. Há momentos em que esse método aperta a câmara à estreiteza de uma geometria canónica e os alinhavos são depois bem difíceis de cerzir. O cinema (e mesmo a televisão) é outra coisa, tem maiores subtilezas, arrisca mais, quando, entre outros exemplos, se chega a registar planos num ponto preciso e outros a dezenas de quilómetros, assim fingindo que tudo se passou no mesmo lugar. Coisa que não tem nada a ver com o croma há pouco evocado. De resto, há vãos de escada que fazem melhor contexto do que um salão revelado de ponta a ponta.O primeiro episódio de EQUADOR está cheio de verosimilhanças locais, trabalhosas e caras, que não servem para nos fazer acreditar no lugar, nem nas pessoas como marionetes, tudo marcado, sem realismo nem metáfora.
E que faz o realizador numa grandeza espacial que lhe escapa e que enche de gente como pode? Em geral, enquanto deixa os actores e figurantes mais ou menos parados, ensaia alguns «quadros arriscados», perto das coordenadas do plano sequência. Não muitas vezes mas o suficiente para vogarmos com a câmara, mais ou menos alheios às gentes que vamos vistar. O tom da época, que poderia ter sido tratado numa fotografia mais evocativa e menos copista, perde-se na encenação empaturrada. Quanto mais se copia menos se interpreta e a primeira parte deste episódio está cheio disso. A montagem segue as regras, o que em princípio estaria bem; aqui não, em todo o caso, porque o passado chega-nos da memória à consciência em misturas de registos vagos, distantes, e outros emocionalmente muito nítidos. Em o EQUADOR, o responsável por dar a ver sem reproduzir, farta-se de nos descrever a direito, sobre linhas direitas, quadros da época e traduções do livro. Os actores, alguns dos quais são belíssimos em telenovela, estão aqui espartilhados por uma marcação cerrada, dizem pouco, falam com pedaços de literatura colados a bocados de oralidade. Já não falo de outros detalhes, como o temperamento do rei, e a falta de nuances sonoras consoante o quadro psicológico em que se movem as personagens. Esplendor sim, há a rodos, produção+produção. Mas como tudo o que é demais não presta, as marionetas apequenam-se sobre o lado sumptuoso do efeito de catedral.
Mão é assim que se faz assim.
Talvez volte a este assunto, eventualmente para poder desdizer o que desta maneira digo. Quero justamente acentuar que as sequências que desenham um trecho da Índia onde a acção decorre não parecem feitas pelo mesmo realizador: o grau de nitidez faz sempre racord, o lugar é admirável, as angulações circulares funcionam muito bem na absorção da paisagem e das personagens - e até estas parecem um pouco mais soltas do garfo que haviam egolido antes. Claro que ainda não falam, ainda representam, e, com um bocadinho de mais obediência a uma esquisita direcção, poderiam parecer estar em palco. Seja como for, entre figuração, acção, lugar e coerência fílmica, esse momento é, de forma clara, melhor do que as viscontianas vistas lentas nos «armazéns» da primeira parte, detalhe a piscar o olho ao especialista em estilos, grandeza de todos os esplendores (sem FNAC, obviamente) a mentir uma época que não chega a emergir do fausto visual.
Ele há com cada vão de escada...

segunda-feira, dezembro 22, 2008

O CÓDIGO ERRÁTICO E OCULTANTE DE MARIA


«Provavelmente, Deus não existe. Viva a sua vida sem constrangimentos».
Esta é uma norma de fazer apelo ao consumo. A crise nem sequer se relaciona com o livre arbítrio. Já Fernando Pessoa escrevia: «Come chocolates, pequena, come chocolates, olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates, olha que as religiões todas não ensinam mais do que confeitaria»
E porque Deus, presumivelmente, não existe, a responsabilidade dos actos é dos humanos.
Na última panóplia de livros oportunistas em torno do Codigo de Deus e coisas similares, os autores não podem sacudir a água do capote. O último código de que tive notícia foi pela pena de Grahan Phlips, através do breve etudo de Susana Lúcio (revista Sábado) e ainda pela releitura da obra de Daniel-Rops.
A Igreja, que se tornou toda poderosa depois dos romanos a acolherem para melhor unificação da sua própria transcendência, nunca perceber bem a irrealidade Cristo e o apagamento (para o qual ela mesma contribuiu) da alegada mãe de Jesus, Maria. Ainda durante o Vaticano II este assunto se discutia e os bispos, antecipada- mente, degladiaram-se sobre a bondade da inclusão do nome de Maria nos textos sagrados, um texto só para ela, e se poderia ser consagrada como co-redentora, tendo ajudado o filho na salvação da humanidade e mais tarde subido para junto dele, também em carne e osso. A ideia consistia no facto desta última versão a livrar de muitos pecadilhos e coisas nada canónicas. Depois de muitas querelas ao longo dos anos (e dos séculos), lá ficou determinado, sem questões de revelação, que a mãe de Cristo, aos 58 anos, fora para junto do filho e com as mesmas prerrogativas, segundo a mesma tecnologia da transcendência capaz de transportar a matéria para qualquer lugar do Universo.


Nos documentos que se multiplicaram na antiguidade e no decurso dos séculos, a substancialidade dos irmãos de Jesus Cristo parece mais palpável do que a do nosso Salvador (ainda se esperam os resultados dessa acção, a qual, em boa verdade, não se sabe em que consiste). «Para conciliar a virgindade de Maria e os irmãos de Jesus, os teólogos cristãos recorreram ao Proto-Evangelho de Tiago, que apresenta José como viúvo e tornaram os irmãos de Jesus em meio.irmãos». * A esta fórmula contrapõem-se outras, quase todas bizarras. E Psolini, no seu filme «O Enavangelgo segundo Mateus», mostra José, talvez de meia idade, afastando-se da mulher, depois de saber da sua gravidez, caminhando, curvado, de costas para nós, numa vereda entalada entre muros.
A discutível descoberta do túmulo de Maria pelo arqueólogo Bebedetti foi silenciada pelo Vaticano. O dogma da Assunção está relacionado com outro, ausente ou expurgado de qualquer evangelho, com um outro, o da Imaculada Conceição, categoria teológica urdida nos vários concílios e entre controvérsias sobre o lugar da sua morte, hoje consensualizado «turisticamente» na cidade de Jerusalém.
Sobre a vida e os atributos de Maria, os teólogos nunca chegaram verdadeiramente a um acordo, no fundo como não concluiram nada em volta de todos os respectivos acontecimentos, inverosímeis e contraditórios. A ideia da virgindade de Maria, obviamente falsa ou simbólica para qualquer de nós (a menos que nunca tivesse tido filhos nem relações com o marido ou alguém além dele), foi sempre um dos maiores embaraços para a Igreja Católica. As explicações ascendem a dezenas, todas absurdas ou pelo menos inseridas no domínio do fantástico. Neste momento, a Igreja determina (e ensina) que Maria «permaneceu Virgem até morrer». É na fase em que José teria sido convendido a levar Maria para sua casa que ela aparece pela primeira vez referida nos evnagelhos canónicos. Tarde e a más horas. Quando Proclo apontou Maria como mãe de Deus, o Patriarca enfureceu-se, bateu no sacerdote, e explicou aos fiéis que não se podia falar de Maria como um pagão se referia a deusas. Os «primeiros» boatos da «teoria» da virgindade surgiram próximo n ano 178 d.C., sonbretudo quando o filósofo Celso escreveu que Maria «engravidara de um soldado romano». Quando o Concílio de Constantinopla, em 553 d.C., Maria é designada como sempre virgem, e por estranho que pareça, o dogma acerca desta eventualidade só foi declarado inamovível no século XIII, no quarto Concílio de Latrão. A ideia de tal virgindade, nunca afirmada nos documentos mais antigos, nem mesmo naqueles que a Igreja escolheu (entre outros) para se tornarem os verdadeiros, é música celeste apenas a partir daquela altura. Como se vê, a mãe, a pretensa mãe de Jesus, nascida entre 23 e 20 a.C., teve uma vida (afinal no futuro) muito controversa. Versões colsolidadas existem várias, mas nos textos canónicos da Igreja Católica a veneração por esta obscura mulher só se acertou no século XX, aliás até níveis fundamentalistas e penosos, como Fátima e Lourdes.
Até ao concílio do Éfeso, no qual esta doutrina da virgindade de Maria havia sido oclusa, estranha, vaga, ou mesmo de todo improcedente, as falas não se encontraram. Éfeso impulsionou esta ideia, na própria concepção do culto de Maria, com várias festividades em sua honra.
À maneira de uma «providência cautelar», e antes que o mito de Maria «prescrevesse», o Vaticano II votou um texto refreente apenas áquela figura, privilégio que lhe permitiria tornar-se co-reentora, ou seja, trabalhando ao lado do filho da mesma missão, além de que, após a sua morte, ascenderia certamente aos céus, imaculada. Acabaram assim, em termos institucionais, as lutas, arrastamentos, ocultações, tudo o que, desde o início, se havia gerado em volta desta figura.
No artigo «O Plano para Esconder a Virgem Maria», há um sub-título que sintetiza muita coisa. E que diz: A sua figura prvocou uma ds guerras mais violentas de sempre nos corredores da Igreja Católica. Houve agressões físicas, subornos e excomunhões. Quem quis apagar a História da mulher mais adorada em todo o mundo?» Alguém, num plano falhado, tentou esconder a mão de Deus. Ou a mão de Deus, num dos seus inúmeros erros de cálculo, falhou o instante em que Jesus terá nascido como qualquer de nós, com intervenção biológica de José. Assim se salvaguardará a família e se continuará para acabar com a violência doméstica».
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* Susana Lúcio, revista Sábado 18.12.08

domingo, dezembro 07, 2008

MANOEL DE OLIVEIRA,CEM ANOS E 77 DE CINEMA

Manoel de Oliveira
Manoel de Oliveira, português, atingiu, sem incidentes de maior, aos cem anos de idade, setenta e sete anos de actividade no cinema, como realizador. É uma situação verdadeiramente singular, sobretudo porque, além da idade, este artista continua em plena actividade, tendo na última década realizado mais de um filme por ano. Internacionalizado e consagrado, com diversos prémios, tornou-se um dos símbolos maiores da arte que, pelas suas mãos e pelo seu olhar, começou longe, com «Douro, Fauna Fluvial». É o mais idoso cineasta do mundo (e a trabalhar), não tendo planos, segundo diz, para deixar de dizer a palavra mágica «acção!». Trata-se de um «destino» de assombro, em especial se pensarmos que se trata de um português, cidadão deste pequeno país, sem largueza de território e de gente para pensar ou frequentar as artes. De início também Manoel Oliveira passou por longos períodos de espera, ao que se somava a áspera encenação do seu cinema quando da maioridade possível. Longos planos fixos, uma direcção de actores inaceitável ou inexistente, ideias fulgurantes discutivelmente inseridas na teia do discurso, arrastamentos vários, luzes patéticas. Os franceses enamoraram-se bem depressa por este tipo de expressão cimatográfica, sobretudo por uma tradição cultural compatível e porque, não percebendo a língua portuguesa, pasmavam diante de monólogos ditos no mais embaraçado estilo liceal. Saiu até à mitificação, incluindo a invulgaridade da origem e a cada vez mais nítida proposição temática sobre Deus e o Homem.
Manoel de Oliveira vai passar o dia em que festeja o seu centésimo aniversário, quinta-feira, a trabalhar na rodagem de mais um filme: Singularidades de uma Rapariga Loura, inspirado no conto de Eça de Queirós. A crítica estrangeira não lhe poupa elogios. O Director da Cinemateca Portuguesa chama-lhe «um prodígio». E as mais altas personalidades do Estado associam-se à homenagem nacional. Somos frequantemente assim, ou oito ou oitenta. Isto acontece noutros sectores das artes, como se sabe, tudo é mau à partida; mas basta passar Badajoz, acenar em Madrid, expor-se em França, onde a curiosidade supera a inveja, e logo os ventos trazem o princípio da fama. Assim tivemos um Prémio Nobel da Literatura, comparências em Veneza, Cannes, Berlim. Os prémios de Cannes viabilizaram o cinema novo português, as rotas do mundo começaram a abrir-se aos artistas plásticos, escritores, aos músicos, aos poetas. Temos produções de raro valor nesses campos e mal sustentados pelos jovens comedores de bandas ruidosas e espectáculos de grande presença, não de grande valor.
Manoel de Oliveira, seja como for, fez um tirocínio com algumas dores; mas, quando começou a levantar voo nunca mais parou, nem o tempo nem a morte deram por ele.

sábado, novembro 29, 2008

O BAZAR LABIRÍNTICO DA VIZINHA PATRÍCIA




Este bazar ou coisa desse género, excessivo, por vezes como um campo de flores ao semi-cerramos os olhos, existe há cerca de cinquenta anos ali para a ponta da Ferreira Borges. É fascinante procurar coisas de que não precisamos naquela selva de latas, alumíneos, plásticos, vidros e madeiras. Para não falar nas caixas de cartão pintadas para quartinhos com bonecas. Já adquiri nesta casa transcendente alguns objectos mais comuns e recorrentes: caixotes do lixo e adereços funcionais para garrafas e especiarias. É tudo inútil e demasiado, pitoresco e avassala-dor, o comércio de bugigangas e de non-sense. Há dias procurei, numa parte do labirinto, encalhando em espelhos e baldes de plástico, um conjunto de pratos da Secla, objectos que eu já vira alinhados numa das montras iguazinhas ao interior. Patrícia sorriu e disse: «Já não temos material da Secla. Há tempo que a fábrica fechou».
Fiquei fulminado, como quem sabe da súbita a morte de um amigo. Quando olhava para as coisas da Secla lembrava-me das visitas que fazia à fábrica, com os alunos e com a televisão, para uma série documental. Onde estariam aquelas raparigas pintando pratos em série, num truque de mágica sempre a bater certo? Os rostos pálidos, as mãos precisas e finas, a pasta cerâmica cor de café com leite, nem escura nem clara, apenas no tom certo que o forno iria petrificar e encobrir com o vidro fosco.

A SAUDOSA AIA DA RAINHA CARLOTA JOAQUINA




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Sob o desconforto da chuva, olhando um céu de chumbo, volto à leitura dispersa dos jornais, restos do mundo, tempestades, ventos bárbaros, e acabo por encontrar, meio escondidos sinais criadores de algum júbilo: Alexandra Carita escreve sobre Filipa Martins, cujo primeiro livro que escreveu logo lhe valeu o Prémio Revelação da APE 2005. («Elogio do Passeio Público»). É-nos dito que Filipa «criou uma imagem forte de si. Nela mistura determinação com o que julga ficar-lhe bem. Mas o seu retrato só brilha quando deixa cair a máscara». Alexancra esconde os problemas do êxito neste improvável jogo da máscara, pois sem ela, nos dias que correm, dezenas de livros, de autores com talento, irão passar desapercebidos por todas as APE do país, malditos antes de o serem de facto, deslidos por editoras que não sabem o que querem ou andam a imitar os bancos, comendo-se umas às outras e publicando muito de pouca qualidade. Aliás, o artigo sobre Filipa Martins não aborda o livro nem favorece verdadeiras pistas para sabermos do seu real valor. Porque não basta dizer-nos que a autora «sabe justificar a estrutura da narrativa, a consistência de cada personagem, a construção frásica, a linguagem, o conteúdo mais supérfluo e mais profundo», completando entretanto esta espécie de retrato de alguém que viaja pelos vários continentes, licenciou-se em jornalismo e mostra o maior entusiasmo pelo programa televisivo em que trabalha, «Imagens de Marca», a par do fascínio pelo mergulho e pela fotografia (aquática, presumimos).
Assim mais esclarecidos sobre uma maneira de fazer jornalismo, lemos ainda que Filipa «voa de braços abertos quando conta de uma só vez toda a história do romance que escreveu sob a orientação de um professor faculdade e logo lhe valeu o Prémio Revelação da APE» (o sublinhado é nosso).
Penso nos escritores para si mesmos sonhando, talentos cuja criatividade vai ficando encoberta pelo desacerto com as regras das editoras agrupadas, cada vez mais semelhantes aos bancos de «todos os tráficos», deslendo obras virginais e anunciandoras de novas vozes. Um amigo meu, que tentou a primeira edição do seu primeiro livro em editora conceituada, recebeu os maiores elogios do director e o original ficou nas mãos dele, muito experiente, que lhe disse seis meses depois:«Meu caro amigo, o seu livro é notável a todos os títulos. Mas lamento dizer-lhe que não o posso publicar. Apesar da sua belíssima forma, não o posso publicar porque hoje já não se escreve assim».
O jornalisno possível, ao conceder duas grandes páginas ao sucesso de Filipa Martins, aflorando apenas envolvências de infância e outros aspectos do bem humorado feitio da autora emergente, poderia ter tocado menos nas circunstâncias ditas e um pouco mais nos céus obscurecidos que os mercados implantam nos crânios dos editores. Seja como for, ficámos a saber que Filipe obteve o seu refúgio em Queluz ou em Sintra (ela também não sabe) num espaço acolhecor onde terá vivido a saudosa aia da Rainha Carlota Joaquina.

sexta-feira, novembro 28, 2008

PAISAGEM DE UM RESCALDO TRÁGICO NA ÍNDIA

Bombaim, 26 de Novembro de 2008. Uma rua da cidade onde se espalham efeitos dos ataques verificados naquele dia, objectos, sangue, ainda corpos. A notícia e uma só pergunta a seguir, ainda em estado de choque, estupefacção, os olhos cegando de lágrimas e da luz terrosa que envolve a paisagem urbana.

VOLTAREMOS À BARBÁRIE NO SÉCULO XXI ?



A propósito desta imagem de terror, alguém poderia perguntar se ela se refere a uma tentativa de entreajuda nas cenas de exterior do filme de Fernando Meirelles, «Blindness», recentemente nociado neste blog. Este documento não vem da ficção, retrata antes um pormenor do terror generalizado em Bombaim, onde, na quarta-feira à noite, se verificou um largo número de polos de ataque, os quais foram coordenados por terroristas islâmicos. Vivendo, com a China, um recente desenvolvimento económico, a capital financeira e tecnológica da Índia viu-se submersa nesta luta imprevista, que provocou 125 mortos e mais de 300 feridos, sob a odiosa paisagem de cenas de barbárie indescritíveis, segundo várias testemunhas. O exército indiano controla a situação, mas o problema não está ainda totalmente resolvido. Ao que parece, os terroristas visavam fazer reféns estrangeiros em pontos nevrálgicos, sobretudo americanos, ingleses e franceses. Os comentadores não parecem relacionar esta operação com o 11 de Setembro (Nova Iorque), mas não deixa de ser estranho o método, a sincronia dos actos, e sobretudo os alegados objectivos.
Talvez tenha chegado a hora, com a crise internacional, a derrapagem do capitalismo e as sequelas de uma civilização cada vez mais acrescentada de processos desenvolvimentistas, aliás meros crescimentos materiais, se estamos de facto confrontados com uma viragem aterradora, após milénios de egoismo e ganância, enfim envolvidos de guerras um pouco por toda a parte, de uma universal insegurança, justamente no início do século XXI, para o qual tantas utopias se anunciavam.

terça-feira, novembro 18, 2008

O ROSTO TRÁGICO DOS REPLICANTES



Do filme «Blade Runner», que tive o gosto de rever, relembro os seres biorobóticos, programados para viverem quatro anos, destino amargo imposto pelos homens na imaginada condição de deuses, assim, ao limitarem a tecnologia do sublime ao desperdício de uma temporalidade rasca.

SARAMAGO DADO A VER POR MEIRELLES


A relação do cinema com a literatura foi sempre atravessada pelas maiores incertezas. Tudo acontece pela dificuldade em tratar formas literárias, o seu próprio tipo de recepção, num quadro linguístico muito diferente, cuja apreensão decorre de um tipo de imagens em geral fortemente coladas ao real. Um livro como «Ensaio sobre a Cegueira», de José Saramago, ao contrário de outras imitando o mais possível a vida quotidiana das pessoas, é o caso das obras aparentemente intraduzíveis no cinema. Até porque parece desenvolver-se fora da realidade, mercê de um fenómeno de cegueira súbita que se estende, como horrível epidemia, a todas as pessoas (menos uma, saberemos), situação projectada no mundo urbano, numa grande cidade algures, gerando as maiores tragédias e a destruição alargada da rede que liga os indivíduos, as suas instituições de trabalho, a gestão das logísticas e das leis capazes de conferirem à vida em comum vários equilíbrios de sustentabilidade.





O filme do brasileiro Fernando Meirelles, além de nos dar a ver os personagens e as situações do livro com grande fidelidade de aproximação, torna frequentemente mais claro o sentido (e as simbologias inerentes) do que a própria obra literária aponta.. Não é uma questão de ser melhor ou pior. É o alcance da justa medida das analogias, superações indispensáveis, identificação corporal dos grupos humanos inicialmente atirados para uma quarentena abominável. Como é provável, o modo aparente de propagação da cegueira levou as autoridades sanitárias à solução preventiva, aliás a breve trecho intolerável, em gueto, na medida em que a demografia dos pacientes aumentava, inclusive até à carência dos meios alimentares e de qualquer suporte de segurança. Fechados em duas camaratas bem depressa inundadas de desperdícios, fezes, líquidos iníquos, os cegos atemorizam-se primeiro, relacionam-se mal, dividem-se em facções: os que se apropriam da corrente de víveros impondo aos da outra caserna a lei do meis forte, através do roubo e pela troca de mulheres por certas quantidades de comida.

Julianne Moore

É preciso dizer desde já que, a partir dos primeiros sintomas, a mulher de um dos personagens (actriz Julianne Moore) conservou a visão, facto que o casal decide esconder em nome de sobrevivência. E ela conservou a visão sempre, apesar de teremer perdê-la de um momento para o outro. Mas isso permitiu-lhe, estoicamente, minimizar esforços, ordenar muitas coisas, dirimir conflitos. A história desta peste branca é contada com grande verosimilhança e detalhes surpreendentes, além de medonhos. Depressa se vai compreender que o eterior estará também vitimizado e que a assobrosa barbárie vivida na quarentena tem de ser interrompida em nome da dignidade possível, em busca da mínima aprendizagem dos actos comuns, em ordem à sobrevivência e aos agrupamentos solidários, capazes de partilharem lugares de vida, entendimentos, compreensão so estado do mundo.


O ensaio, no fundo, é mais sobre a natureza humana do que sobre aquela oclusão visual por uma espécie de cortina branca. A redenção é alcançável, pensam os mais atentos aos sintomas em redor, sobretudo quando, além da mulher não invisual, outro elemento do grupo organizado em torno dela recupera a visão. A estabilidade insular desse grupo, porventua como de outros que vemos no caos inóvel das grandes paisagens urbanas, aponta para novos objectivos e para a própria irradicação do fenómeno. É então muito plausível que nos lembremos de «A Peste», de Camus. A busca do homem, contra uma realidade absurda, assaz destruidora dos valores individuais.

A pastosidade da escrita de Saramago, a sua falta de sentido visualizador através da palavra, tornam ´«Ensaio sobre a Cegueira» algo obtuso e pouco empolgante. O filme de Meirelles descodifica sombras e ocultações, usa efeitos de fotografia, encenação e montagem, com forte qualidade expressiva e belíssimo recorte plástico. As diversas situações, crise após crise, tem um lado de blasfémia esclarecedora, faz-nos ver com a mulher que vê, sentir a grandeza da sua força, do se humanismo, da sua esperança. Há soluções cinematográficas, inclisive a passagem a uma certa unificação pelo branco e pelos valores cinza, que nos arrebatam e iluminam, desberta após descoberta. Saramgo é-nos dado a ver pela densidade funcional do filme de Meirelles. E quando a mulher, na varanda da sua casa transformada em albergue, na escolha solidária da paz, ergue os olhos ao céu, num espanto de atmosfera branca e pergunta quando será a sua vez, o realizador baixa a câmara, entrando em campo o esplendor semi-desfeito da cidade em todo o horizonte, a chave humana da salvação é desvendada à clara luz da manhã.



Rocha de Sousa


Vejo o livro como um hino à comunidade. É como se estivesse a dizer que é preciso tirar a visão às pessoas para que possamos, finalmente, criar um ambiente de solidariedade comunitária. Fernando Meirelles

segunda-feira, novembro 10, 2008

COSMOGRAFIA DO DESLUMBRAMENTO E DO LIXO

SPACEJUNK, animação de Miguel Soares

Há cerca de cinquenta ou sessenta anos a revista «Colliers» já publicava, pelo imaginário de van Braun, largos conjuntos de projectos dedicados às viagens no espaço cósmico, ou pelo menos entre os planetas mais próximos do Sistema Solar. Alguns desses projectos inspiraram, por fraccionamento, as verdadeiras pistas das primeiras cápsulas tripuladas (com vantagem para os soviéticos, nessa altura) e as possíveis viagens entre planetas. A prudência tecnológica, e as próprias limitações orçamentais, conduziram ao estudo de sucessivos rastreios comandados à distância, usando satélites artificiais capazes de orbitarem a Lua, Venus ou Marte, fase em que se acedeu a importantes conhecimentos sobre esses astros, tendo em conta cartografias decisivas e detecção dos componentes da armosfera, do solo, de uma grande variedade, aliás, de acções robóticas relativas a espectros químicos, por exemplo, cujos resultados eram enviados para a Terra. Pelo uso posterior, ou a par destes métodos, de sondas com meios de aterragem, movimentação e pesquisa, hoje já se pode defender que conhecemos praticamente todo o planeta Marte, além de estarmos cada vez mais informados sobre Vénus, Mercúrio, Júpiter ou Saturno, com exploração paralela dos vários satélies desses astros. De resto, ao lado desta programação que acabou por se estender até ao limite do Sistema Solar, além de sondas atiradas para o infinito, através da nossa Galáxia, o homem foi cumprindo um trabalho de avanço até à Lua, acabando por fazê-lo por intermédio do Projecto Apolo e de sucessivas viagens com astronautas que não só alunaram como trabalharam na superfície do nosso satélite.

Todo este conjunto de acções no espaço exterior à atmosfera terrestre, incluindo uma possível viagem até à superfície de Marte, precisa cada vez mais, no território do nsso planeta e em estações orbitais de carácter experimental e logístico, com astronautas permamentes, trocados em tempo próprio, o que se preparou, agora numa colaboração entre os mais avançados países ligados à exploração do espaço, com instalações entretanto já caducadas. Passou-se para a junção modular de nova concepção, habitáculos com gente a bordo, em rotação, sobretudo pela criação das recentes naves mediadoras, «Vai-vem». Essas naves de ida e vinda transportam vários astronautas, possindo um grande porão, apropriado, para carregamento de partes diversas, muito material de construção ou de sobrevivência, em ordem a cumpir as fases estruturantes da Estação em órbita, à qual atracam os cargueiros/mensageiros, cujos tripulantes convivem com os «residentes», fazendo, por intermédio de um grande braço móvel das naves mediadoras, o transbordo das mercadorias desse ponto para lugares estratégicos, na proximidade do ponto de montagem. Ao longo de todo este tempo, várias décadas, os estrategas de diferentes especialidades, passaram a controlar uma imensa rede de satélites robóticos que giram em torno da Terra, segundo diversas rotas, permitindo alertas de defesa, redes de comunicação e vigilância, a par de outras vias que são mais votados a experiências de retorno.

A imagem aqui publicada, de grande realismo, «imita» certas fotografias tiradas no espaço e em circunstâncias semelhantes. Este género de estações eram as «anunciadas» na «Colliers», nos anos cinquentam, e cujo modelo Kubrick usou no seu filme «2001, odisseia no espaço». Quase tudo, nesse filme, fazia parte de uma invenção decalcada em projectos «possíveis». Mas as chamadas Plataformas de Anel foram por enquanto abandonadas. Tarkoski realizou o seu filme «Solaris» num cenário a condizer com esse tipo de instalação cósmica, embora procurando, entre ruínas e lixo abandonado, desenvolver profundas reflexões sobre o homem, sua existência e situação no Universo. A figuração plástica que nos propõe Miguel Soares reveste-se, para além da sua singularidade enquanto espectáculo, a um tempo histórico do futuro no qual Plaraformas com esta confiuguração anelar, meio construídas ou meios desconstruídas teriam uso. Pode tratar-se de um desastre futuro, lixo em volta da constrção arruinada, assim destinada a vogar no silêncio até qualquer possível aproximação e queda na Terra. Mas as fases de construção chegam a parecer espectáculos assim. Os astronautas engenheiros não pousam as suas «caixas de ferramentas» numa mesa a seu lado, mas apenas no vazio e perto de si. Daqui e dali se recolhem peças, ferramentas, cabos, ligando o que há para ligar, encaixes, desperdícios de facto, consolidação dia a dia, semana a semana, ano após ano. E o que é mais inquitetante é o facto de uma rota orbital diversificada estar hoje carregada de satélites artificiais, restos de naves e de peças, caixas provisórias, tudo na mesma linha de comportamento que foi enchendo o nosso habitat dos mais diversos lixos, vulgares ou cada vez mais perigosos. Os mesmos erros além do horizonte. E talvez um dia, num local longínquo, colonizado pelo homem, espécie superior mas de difícil adaptação a uma profunda mudança de sentido e medida, dado a esta à sua mania de crescimentos apocalípticos.

domingo, novembro 09, 2008

DESENHAMENTO | PALAVRA/IMAGEM:PUREZA


O jogo de encontrar uma imagem fotográfica que possa conotar-se com certa palavra ditada por uma fonte anónima implica rebuscar em arquivos ou socorrer-nos da memória a fim de resolver esse problema. Parece uma tarefa fútil, de facto um jogo: mas não se trata principalmente disso. O que acontece é mais complexo e tem uma carga pedagógica, cultural, eventualmente interventiva. O nosso arquivo tem localizações específicas, as palavras não se encontram na mesma «gaveta» das imagens, enquanto estas se relacionam com outros espaços de arrumação e relação. Fotografar um elemento da vida para se colar à palavra «morte» pode cair num resultado ambíguo, mas pode também estabelecer uma metáfora pluralmente significante.
Aqui a imagem procura ilustrar a palavra pureza.

quinta-feira, novembro 06, 2008

SOBRE A ARTE CONTEMPORÂNEA PORTUGUESA | José Carlos Teixeira


O trabalho desenvolvido por José Carlos Teixeira envolve, sem efeitos formais ou fingindo que eles não existem integrando o projecto, indicadores que nos ajudam a entender a problemática da língua e da fala, as transmigrações entre os sinais da linguagem, o reconhecimento do todo pela parte. Isto também se ajusta ao modo da pessoa estar e como se relaciona com os contextos, objectos, situação. Uma figuração performativa pode apoiar-se na mulher sentada, ou dobrada para o chão, presente em ausência, e a simples demora desse acto confronta-se com o sentido da nossa espera visual, tanto no gesto como na pose, quando encostada à parede, em pé, reformulada pela luz: a linguagem visual muda o sentido da própria «dispensa» dada ao modelo sobre uma posição, falando com os experimentadores: a fala é sempre, mesmo quando não o parece, um pressuposto ou proposto acto performativo.


Antes de qualquer formulação dedicada ao público, as relações de José Carlos Teixeira têm sido testadas nesse âmbito perfomativo, convivial, de ensaio de ideias, todo o tempo em registo vídeo das conversas trocadas. Entre as sombras e as claridades, calculadamente, as personagens falam das suas experiências, quer se mostrem imprecisas, quer surjam debruçadas sobre a realidade, a sua intrínseca movência, a prática em revelação constante na linha do seu discurso ou das não histórias no rumor de cada introspecção, sem medo, razão das emoções que nelas formam a falsa certeza do espaço de afirmação temporal, é presente e é devir, conjugando a pertinência do nosso apelo pelo espectáculo, sem negar o valor expressivo do plano paralítico (no papel que nos cabe) para não nos alienarmos à escassez significativa de um meio riquíssimo de hipóteses formais ou de ligações dialécticas com a experiência e o seu inverso absurdo.


A pesquisa de José Carlos Teixeira, icluindo vídeo-instalações como «ESSAY ON UNSHEL TRED BODIES» ou «38 minutes of anthropology», tende a estabelecer actos separados e ligações imprevistas sobre a natureza dos nossos sentidos no contexto cultural a que pertencemos. A gravação de discursos orais encadeados, ao confrontar passagens do inglês para o português, avisa-nos sobre a qualidade das experiências individuais e em grupo, mostra-nos como os nossos sentidos estão a ser estimulados e como esse facto envolve diversas sonoridades ou expressões poéticas, sem versos, sem tonalidades cromáticas, sem espectáculo, mesmo quando, em certo momento do estudo, o operador tenta criar «desacertos» e «acertos» no corte das imagens, no seu enquadramento, no recurso ao close-up, manipulação plástica e cinética que matém no off funciona a decorrência das falas, já sem que saibamos a quem pertencem. Não se trata portanto de seguir um guião mas de reunir e confrontar as sensibilidades, urgências, nostalgias, métodos, coisa nenhuma.



Etnógrafo do profundo sentido do homem, experimental e contornando o espectáculo, José Carlos Teixeira parece desdobrar os pontos de vista, ou, como disse Elizabeth Line, «os corpos convertem-se em topografias debaixo do olhar do autor.» Por exemplo: «procuram um equilíbrio entre a promiscuidade extrema do movimento nómado, característico da era do capitalismo global e o seu próprio enraizamento.» Ver a instalação fotográfica, legendada, e confrontar essa instalação com a sua edição em vídeo, são atitudes bem diferentes afinal perante coisas semelhante: a mensagem densifica-se, a dimensão autoral do objecto ganha mais determinação.


O fenómeno da desterritorialização não tem apenas efeitos libertadores, incidindo sobre a identidade. Teixeira terá desconstruído o melhor que há na qualidade individual da pessoa (e os vídeos o demonstram em parte), enquanto a ocasionalidade tende a contribuir para tornar redutora a forma da nossa admirável contingência. Aquela ponte de outra geografia mostra, de um modo inquietante, pela aceleração das mobilidades entre velhas rotinas e gente acossada pela vida actual, sombras sem rosto, sem nome, pedaços de coisas vogando na madrugada em direcção a um amanhecer lasso.
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Rocha de Sousa, com base num estudo publicado
no Jornal de Letras em que procurou abordar al-
guns aspectos intelectualmente relevantes da ar-
te conceptual de José Carlos Teixeira.

quarta-feira, novembro 05, 2008

BARACK OBAMA, PRESIDENTE DOS EUA



Obama, membro do Senado dos Estados Unidos da América, alcançou, após uma extensa e árdua campanha eleitoral, o cargo de presidente deste país. Afro-americano, dispondo de uma folha de serviços limpa, falando com desenvoltura num projecto de mudança e de crença nas capacidades do seu país, este homem abriu uma frente de impressionante vigor durante o trajecto pelos Estados Federados da maior potência do mundo, hoje acossada por grave crise do sistema financeiro. Obama foi alvo das maiores manifestações de sempre na noite de ontem, através de todo o acto eleitoral, assumido em massa pela maior participação dos eleitores, algo como cem milhões de votantes. O seu adversário não era uma figura apagada da América dos nossos dias: McCain tem um percurso político de mais de vinte anos e é considerado um herói do Vietnam, onde combateu e foi feito prisioneiro, suportando durante cinco anos essa difícil situação num teatro de operações como foi aquele. Mas a sua visão do mundo, tocada por ideias de cariz conservador, dir-se-ia ensombrada pela diferença do discurso adversário; contudo, a sua força emocional e alguma rebeldia perante o pior do status quo, ainda o tornaram difícil, provável ganhador em alguns Estados problemáticos. Barak Obama, contudo, recortado por uma diferença sensível, com respostas bem calculadas perante as notícias do momento e a sua firmeza consistente na projecção de certa imagem cerebral mas imprindo legibilidade aos apelos que fazia, mostrou-se capaz de posturas serenas, descontraídas, paralelamente tocadas por um sentido de impressionante oportunidade intelectual.
Perante a situação do país e a penosa administração Bush, o confronto destes dois candidatos à Presidência dos EUA mostrou-se frutuosa em muitos sentidos. A votação de ontem e a expressiva vitória de Obama, tanto no acesso ao cargo de Presidente como nas maiorias do Senado e da Câmara dos Representantes, traduz-se em qualidade e valor histórico. O mundo espera que a diferença que marcou, para Obama, esta luta épica, seja de facto uma viragem capaz de unir esforços e contribuir para pacificações cada vez mais urgentes.

John McCain