segunda-feira, maio 11, 2009
TELEVISÃO DE MASSAS E REVOLUÇÃO IMPOSSÍVEL
PARA UM JUÍZO SOBRE AS NOVELAS E SUA ERRATA
Os dirigentes das televisões, directores de programação, sobreudo, dizem que os produtos emitidos (caso das novelas) são escolhidos ao «gosto do público» e não para fazerem vénias a minorias pem pensantes. Ao falarem assim parece que esquecem o facto de uma das maiores invenções do século XX quase não servir para nada, edicando-se ao arbítrio sa publicidade e ao «estímulo» da líbido. Ao contrário do que dizem tais mercadores, sabe-se que o público se converte, no verdadeiro sentido ao produto de qualidade. Seria perfeitamente possível, no manejo das emissões e horas de presença, fazer com que os telespectadores reconhecessem o muito maior valor artístico (onde o entusiasmo do ver se confirma) da novela Olhos nos Olhos (imagem em cima) em confronto com subprodutos nefastos, em termos culturais e lúdicos, como Flor do Mar ou Feitiço do Amor, títulos que, só por si, confirmam o mais pindérico aceno ao teor marcantilista e de reles manipulação, por baixo, do chamado gosto popular.Flor do Mar não tem classificação. É um produto inadmissível para qualquer valência média de cultura e mesmo de apego ao jogo, ao entretenimento. Os operadores de escrita fazem o inominável em banalidade de texto e concepção grosseira de tipos: os personagens têm mil vezes na boca a pergunta de quem não percebeu bem («Desculpa?») ou respostas igualmente estereotipadas («É impressão tua»). Para actores de qualidade já uma direcção sem préstimo. Rogério Samora (Gaspar) faz porventura o pior papel da sua vida (e nem se sabe como disfrutam tanto este medíocre intérprete). A sua atitude (da Actors Studio?) de pôr e tirar os óculos tem momentos absolutamente risíveis. E esteve quase para improvisar o mesmo truque com uma desgraçada caneta. Provoca a hilariedade e o drama torna-se farsa. Gaspar grita em mais de 70% das suas falas, aliás como outros, levados na corrente dionisíaca. Mercês (C. Carvalheiro) faz uma tia que nem o piores momentos do teatro D. Maria serviriam para medida. É uma coscuvilheira compulsica e caricata. A Salomé (Paila L. Antunes, que deveria continuar a trabalhar a sua figura feminina e a graciosidade que ainda a serve) rasga-se toda em mulher má e ganaciosa, afogando as suas melhores qualidades e deixando em destaque a sua boca de lábios a contradizer a fulgor dos olhos. Além do mais, há canções a propósito e tudo e de nada, separadores paisagísticos, nehuma criatividade de registo, todo o abuso no Flash back. Aqui foi seguida à letra a pior das metodologias brasileiras, erro crasso de que os nosso geniais irmãos ainda não se libertaram. A telenovela brasileira tem de ser substituída por idêntico género, mas
em termos próprios do nosso tempo e numa dinâmica que não se leia como erro, errância, publicidade crassa. Aliás, nos seiados, nem sequer o Equador serve de exemplo: texto seco e pobre, cenas breves por conveniência, péssima direcção de actores, hieratismos ridículos. Aí nos cale uma boa produção, contextos de qualidade, e um razoável acerto da câmara.
sexta-feira, maio 01, 2009
PRIMEIRO DE MAIO, TRABALHADORES E PÂNTANOS


O Primeiro de Maio foi considerado o dia do trabalhador. Todos os anos aumenta o número de potenciais trabalhadores, enquanto tudo se multiplica inutilmente e as cidades industriais são tomadas pela poluição até níveis impensáveis, proibitivos, contrários à vida e ao respeito pelo nosso habitat, mesmo que pensemos em termos planetários. Os grandes países que caminham para a obstrução de tudo por tudo, subindo na soma absurda das taxas de crescimento, obrigam os operários e outros agentes da produção a recorrer à mecânica dos pedais e das bicicletas à medida que os carros entopem as vias e são sujeitos às mais diversas mutações híbridas. Um capitalismo sem medida e sem balança de estabilidade foi implodido de forma global, entre estrangulamentos de toda a ordem, desemprego alucinante, falências, crises de difícil saída. Apesar das tentativas para manter no futuro um Maio florido, hoje, em Lisboa, a multidão fazia o caminho do protesto. É notório o desencaminhamento de todos, incluindo a agressão a um candidato às eleições para a Europa, desvio sem sentido na pessoa considerada, de todo sem relação com os oportunistas da crise, em termos nacionais e mundiais.
sábado, abril 25, 2009
25 DE ABRIL OU A REVOLUÇÃO DOS CRAVOS
quinta-feira, abril 23, 2009
OMNIA VANITAS OU A POLÍTICA VANDALIZADA
segunda-feira, abril 13, 2009
A FALA CORTANTE NA URGÊNCIA E FORÇA DA ARTE
segunda-feira, março 23, 2009
HÁ QUEM ENFRENTE A MORTE SIGNIFICANDO-A
quinta-feira, março 19, 2009
EM NOME DA VIDA OS DOGMAS DA MORTE
A Natureza, nas suas bondades e adversidades, coloca ao homem as mais inquietantes questões. O homem é um dos seres mais complexos deste espaço em que vive. Após milhões e milhões de anos de existências orgânicas, elementares, vegetando na Terra, a matéria viva multiplicou-se em diversidade, tamanhos, consistências grupais, conquistando espaço em força e formas híbridas de afirmação, de relação com o meio e as suas próprias engrenagens sem verdadeira utilidade. O homem acabou por se contituir, com pequenas diferenças morfológicas, no ser mais complexo e superior entre milhões de espécies, algumas mais possantes do que ele mesmo.sexta-feira, março 06, 2009
A ASSOMBRAÇÃO DAS NOSSAS INTELIGÊNCIAS
Chegou então uma espécie de apocalipse, político, social, de projecto: setecentos mil portugueses que viviam nas colónias, perante independências arrasadoras, tiveram de retornar a Portugal através de uma ponte aérea ou de outras formas, todas elas, em geral, reduzíveis a crónicas de horror, mágoa e lágrimas. Mas isso já não importava a pós-universitários, artistas de vanguarda, literatos, homens da resistência, vítimas de Salazar e da PIDE. Floresciam cravos, as finanças (ainda cegamente) esbanjavam sofridas «igualdades». Entre as bolhas de festa e os ricos logo mais ricos, a classe média, enviando os seus meninos à boleia dos combóios da Europa, para conhecerem gente e perderem a virgindade, acorriam ao Algarve pré-turístico; e em breve, como se vestissem plumas, viajavam por esse mundo fora, Brasil, Patagónia, Canárias, Espanha irmã, a França do Centro Pompidou. Aliás, e em geral, primeiro foi a Europa. E mais tarde coisas menos recorrentes - Tailândia, Índia, China, a própria Rússia. Uma das personalidades pós-emergentes, Pacheco Pereira, tirava férias (como num livro de mistério) para ancorar lá para os lados da Tetchénia, velando pelos restos da história nesses espaços tarkovskianos - e batendo, à chegada, em tudo o que fosse poder. No programa Flash Back, na rádio, ele interrompia tudo e todos, sem o menor sentido deontológico daquele espaço da palavra, lugar da livre expressão (o que não quer dizer desordem). Para interromper os companheiros desatava a dizer as primeiras palavras da sua interrupção. Assim, por exemplo: «Eles tiveram... Eles tiveram... Eles tiveram... Eles tiveram...» sempre até à ruptura e os outros abandonarem falas inacabadas. E então: «Eles tiveram os amigos debaixo de olho, bem mais apurado do que o olho do colega José de Magalhães (ainda não havia computador do mesmo nome): foram colocar-se atrás da cortina do PS, ouviram o palavreado esticado à direita, e desceram a plateia agitando bandeiras do PSD-PP. Os meus amigos sabem que, contra a retórica do pântano, essa atitude, em vez de demagógica, tinha toda a legitimidade revolucionária» «Está a brincar».«Não estou nada a brincar». Magalhães protesta. E o Pacheco: «Isso não interssa nada, não estamos a falar de informática, você informatiza a assembleia e ficamos submersos numa osmose de vírus». «Não é nada disso». «É. É. É. É.» Alguém conseguia falar: «Não é, não senhor, é um acto de arrogância e um reles desprezo pelos adversários políticos». «Mas eles disseram que, mas eles disseram que». «Que porra meus, senhores: o quadrado estava mesmo formado». Cada vez éramos menores, e os meios da comunicação sociais, quadrados e rombóides, geravam comentadores políticos por tudo quanto era canto, menos, em todo o caso, os treinadores de bancada do futebol e os Mao Tsé Tung das claques desportivas que já tinham farda, dragões, armas, associações e até sindicatos».
A polícia não sabia quem era esta gente mas já se sentia determinada a arranjar um sindicato. E os juízes também. Os juízes ajuizando devagar, entre montanhas de papel e nenhum computador. Não foi por acaso, além do mais, que Pacheco Pereira, tão badalado como Santana Lopes mas por outras razões, se meteu noutro quadrado, o do círculo, na televisão, onde funga mais lento, mais gordo, mais ancestral, arrastando as palavras numa espécie de cuspo contínuo que escapa da sua boca sem parar. O colega do CDS, companheiro indefectível, apanhou-lhe o barroquismo da retórica, tudo está mal, o Sócrates tem de ser investigado. Freeport anda no ar, foi mais um vírus criado para a época de eleições. Quando Sócrates acertava com o martelo na cabeça de um prego (ui!), eles andaram um pouco à nora. Agora aí está tudo de novo, bem preparado e a horas. As vozes dos corredores conventuais dizem que o Sócrates nunca teve ideias. Nem licenciatura. E é arrogante. Os tiros de barreira contra o governo, de gente que fez parte de não-governos, vieram acompanhar o básico (muito táctico-estratégico) de Ferreira Leite, ilustre senhora que comanda o PSD. No momento em que ela começou a balbuciar (nunca falou no déficit de 6.8) logo disse: «Este homem não tem estatura para primeiro ministro, gere a coisa pública ao contrário, será ele, não o salvador do país, mas o «coveiro» da Pátria.
Frases assim, maldosas e quadradas, pecam por ilusórias auto-estimas, a língua da senhora, daí em diante, já cortava a relva do governo rente ao chão - nada presta, nem os restos. Ela esquece as fracturas do seu partido, isso é coisa de outros, sinal do unanimismo. Discutem minudências na Assembleia, suspeitas, erros de contas, cêntimos a mais na algibeira daquele ou daquela. Uma palavra mais pesada. Os escândalos dos bancos BPN e do outro, dos ricos, BPP, onde foi descoberto um buraco negro que pode absorver tudo o que resta de nós. Manuela quer poupar, nada de obras públicas, uns biscates aqui e além, baixa de impostos, auxílio âs pequenas Empresas, pequenas Empresas, pequenas Empresas. O Rangel ruge por eles, um garoto aprendiz também, são o futuro do Partido. E o Sócrates já não sabe onde esconder tantos dos seus crimes, derrapagens, as ideias fogem e toda a gente diz que ele não faz nada nem há dinheiro para nada. A crise é global, mas o país devia ter previsto tudo porque tem bruxos para isso. Paulo Portas, de grande oratória e um tique de cabeça que parece vindo da Revolução Francesa (a do cinema, claro) está abaixo nas sondagens. Mas oprimeiro submarino onde ele gastou uma pipa de massa (era o TGV dele) vai servir-lhe para uma viagem inaugural, como capitão Nemo. António Costa responde aos parceiros. Os parceiros não sabem como se ouvir uns aos outros.
«Oiçam bem, não podem dizer que nada funciona. As leis são entregues ao Professor Cavaco e eles veta-as. É um direito que lhe cabe. Vá vetou oito Decretos-Lei. Cavaco, saindo da bruma dos seus tempos, agora conduzindo um Audi, continua a não ter dúvidas mas admite que por vezes se engana. Jerónimo, o vermelho desbotado da longa existência, mantém ordenadas as suas hostes e é bom de ver aquele comité central tão parecido com uma escola cheia de meninos atentos. O Bloco de esquerda não lhes quer nada. É um Bloco que começa na menina agrimensora, morena, de olhos escuros e palavra rápida, e termina, por agora, no púlpito do Louçã.» Que líder! Vão por ele, dizemos nós, irresponsáveis, porque o Bloco é que está a dar. É chic. É solto. E tem a grandeza de alma para declarar que, mesmo que ganhasse a maioria absoluta, não assumiria o poder. A sua vocação é a política. Mas a Ferreirinha do «Eixo do Mal»,onde, mais do que nas «Noites da Má Língua», acompanha uma gente alienígena que bolsa palavras como sopros de ar, ou vómitos retidos, vozes sobre vozes, esgares de crítica sem montante nem jusante, todos simpáticos mas sem perceber nada do boi de que falam. A Clarinha viaja e escreve bem: não devia estar naquela «Coreia» omde nunca se saberá, entre as coisas nada aceitáveis que os colegas dizem, quando surgirá UMA, uma ideia apenas, que saibam sintetizar e analisar. Aquilo assim é muito rasca e absolutamente tolo e absolutamente snob. Eixo fedorento.
texto segundo a voz popular e a rede política.
DE RECTÃNGULO A QUADRADO
domingo, fevereiro 22, 2009
FALECEU MESTRE LAGOA HENRIQUES
terça-feira, fevereiro 10, 2009
VIDA IMPÚDICA E PÚDICA DO DITADOR SALAZAR
Olhamos para a figura severa, num palácio nocturno, e reconhecemos logo a figura do homem que governou Portugal durante 48 anos, em ditadura, o povo amordaçado, rédea curta, polícia política nas esquinas do nosso descontentamento. Não era figura com quem se brincasse e toda a gente acreditava no seu viver solitário, mandando em tudo do centro da sua casa de S. Bento, a polícia e os ministros. Uma governanta de cutelo servia-o e e ajudava-o na disciplina destinada aos agentes da PIDE que tratavam da segurança do forte de S. Julião da Bara, onde gostava de passar as suas férias, ver a horta caseira, fazer a sexta e ler. Muitos falavam de uma grande paixão que o acometera nos tempos de Coimbra, coisa que derrapou, assim ficando tão só como disse Christine Garnier, na sua visita longa e seu amor tardio. Quando ela partiu (estava a escrever um livro, «Férias com Salazar»), o carro rolou devagar e ele ficou a acenar da porta. Ela escreve isso mesmo. E terminou com o célebre período de uma palvra apenas: «Só»
Na hora da morte, que deixou de começar com a queda de uma cadeira «preguiçosa», sendo substituída por um tempo meio omisso da queda na banheira, o homem que está na água, e quando nos calha ver um raro grande plano da personagem, não é nem o actor nem o Salazar: é a máscara de Marlon Brando, sem tirar nem pôr, rosto que Copola apadrinharia com todo o gosto.
segunda-feira, fevereiro 09, 2009
CARTAS DE AMOR | PESSOA PINTADO POR POMAR
Fernando Pessoa (1888 - 1935) para Ofélia Queiroz
sexta-feira, fevereiro 06, 2009
GIL TEIXEIRA LOPES: SOPROS DE VIDA
Gil Teixeira Lopes expõe (13 de Fevereiro), no Centro Cultural de Cascais e apoio da Fundação D. Luís, um conjunto de suas obras suas a que, neste caso, confere o título SOPROS DE VIDA. Como já é habitual neste autor, a força da sua obra pictórica faz-se acompanhar de ensaios e peças de escultura. A História terá de reiterar a importância e o colossal vigor do trabalho deste artista, professor catedrático jubilado de Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. E é ainda preciso fazer apostas destas perante os opacos silêncios que, em Portugal, sufocam a voz de artistas assim, algumas gerações que marcaram a arte contemporâmea portuguesa até aos nossos dias e que uma certa crítica recente, sem memória, presa a uma aprendizagem mimética das vanguardas acentuadas sobretudo a meio do século XX, espectáculos muitas vezes não mais que redutores, a par dos exemplos maiores a quem foi permitido que atravessassem a fronteira dos anos 80. Os jovens passaram, em muitos casos com justiça, a ser tutelados (ou mesmo orientados) por tal crítica tecnocrática; mas o excesso de informação consumista diversificou falsas originalidades, procurando o dogma e o esquecimento de todos os passados. Muito mecenas, algumas instituições, que absorveram alguns críticos como curadores, abriram imensos caminhos aos jovens. Há jovens em todas as veredas da busca, novas galerias, bienais, feiras, lojas do devaneio. Os grandes autores vivos do século XX português são ostracizados, por vezes escandalosamente, como sempre aconteceu com o pintor Gil Teixeira Lopes, Grande Prémio Internacional de gravura, obra que deveria ser revista e explicada justamente aos jovens. Sobraram Júlio Pomar e Paula Rego. São cumprimentados casos intermédios mas apoiados, como Graça Morais, Cabrita Reis, Angelo de Sousa, entre alguns outros. Hogan foi devidamente compensado quase a título póstumo. Querubim Lapa não tem rosto. Artur Rosa fotografa a Helena. Júlio Resende está lá para cima. João Abel Manta não é solicitado. E tudo o que era preciso rever, comparar, mostrar o que é isso da evolução das formas em autores que já faleceram mas deram importantes contributos para o próprio século XXI: Sá Nogueira, António Charrua, D'Assumpção, Bual, Menez, Eduardo Luiz, Costa Pinheiro, António Areal, José Escada, Manuel Baptista, Jorge Pinheiro, uma galeria imensa de já falecidos e outros ainda vivos, cuja obra teve circunstancialmente um sucesso por vezes mitigado e aos quais teria certamente de pertencer Gil Teixeira Lopes. Ao superar, durante anos, um enorme sofimento com cirurgias ao coração, refém da morte próxima, Gil conseguiu fazer um transplante cardíaco, lutar de novo, não parar nunca, e aí está o testemunho cujos êxitos são genuínos e os fracassos próprios de quem corre riscos e nunca cede, nem à doença. O gosto telúrico desta gravador/pintor, desenhador, escultor, pode ser acusado de ampliado na retórica. Mas então veja-se o modo de criar na Renascença e a reabilitação transformista dos maiores mestres da modernidade. É preciso que se saiba, de uma vez por todas, que a arte portuguesa contemporânea não se divida em dois compartimentos intransitáveis: antes dos anos 80 e depois dos anos 80. Mesmo no domínio da opinião, a ganância em efeitos como os que vemos, agora, em volta, pelo mundo inteiro, desconstrói o mundo, esconde os valores, faz do excesso a pequenez do animismo recente.
quinta-feira, fevereiro 05, 2009
EUTANÁSIA: O HOMEM E DEUS
domingo, janeiro 25, 2009
O POETA E O POLÍTICO, PERPLEXO
Manuel Alegre, poeta antes de tudo, espírito cuja vontade política se tem vinculado ao Partido Socialista, tem ultimamente atravessado, não um deserto, não uma anhara, mas uma certa invernia belicosa, inusitada e chata. A perplexidade tem tomado conta do poeta, aceno de criação próxima ou apelos das esquerdas coloridas. A verdade é que Manuel Alegre tem sido um importante protagonista da vida nacional, entre os factos da glória abrilista até essa hora em que se candidatou à Presidência d República, acabdo por somar um punhado de votos razoável, pérolas para negociar entendimentos e os sinuosos asssédios da esquerda. Tais forças sonham com um partido, o poeta a presidi-lo. Com a sua nobre presença no hemiciclo da Assembleia da República, Alegre está feliz e perplexo ao mesmo tempo. Não pode deixar de lembrar-se do PDR, aventura de Zenha e Eanes. E isso mais o impele para segurar bem a cabeça, rasurando breves declarações. Contudo, ali no seu canto, vai mandando (da esquerda gráfica e bem pensante) algumas setas ao palco do poder, deliciando-se certamente em pensar pela sua mesma cabeça e votando a suspensão do estatuto de avaliação dos professores, novelo imenso inventado pela inamovível Ministra da Educação, fístula do Sistema, método sinuoso e de discutível utilidade científica. quarta-feira, janeiro 21, 2009
VISCERAIS COMENTADORES DE BANCADA
terça-feira, janeiro 20, 2009
JANEIRO, 1980: PATRIMÓNIO NACIONAL
Portugal é rico em patrimónios deste tipo, na sua traça final, ao abandono. Este trecho de um rua inteira, resultado de tremor de terra que ocorreu nas ilhas Terceira e Graciosa no dia 1 de Janeiro de 1980. Ninguém pensava que o horror de 1973 se repetisse. Mas aconteceu. Morreram 71 pessoas, houve 400 feridos, e mais de 15 mil pessoas ficaram se abrigo. Rui Ochôa, que se encontrava nos açores, escreveu ara a revista Única que mais de 8o% dos edifícios de traça renascentista ficaram destruídos. A tragédia dava lugar a uma profunda desolação semanas depois da catástrofe. Igrejas, edifícios públicos e habitações sucumbiram a um sismo de 7,2 e tudo indicava que os açoreanos teriam de esperar, entre dores, muito tempo dedicado à rconstrução. Muita população via, uma vez mais, as suas casas destruídas. A emigração para a América colocou-se, de novo a muita gente. Há sequelas, para memória futura, que ainda assinalam o horror daquee dia: eram 16 horas e 42 minutos,
domingo, janeiro 18, 2009
PERGUNTA INQUIETANTE DE MIA COUTO
E SE OBAMA FOSSE AFRICANO?A partir da época em que conheci aceitavelmente o escritor Mia Couto, nas suas presenças, na sua obra, entre notícias de amigos e colegas, fiquei sempre com a ideia de que ele era um interessante contador de histórias, um surpreendente inventor de palavras, e isso deu-me também a noção de um trabalho antropológico, de um olhar do branco africano capaz de se filiar, pela cabeça e pelo coração, no contexto de Moçambique mais profundo. A verdade é que à medida que ele se notabilizava, viajando frequentemente a Lisboa e mantendo aqui contactos de influência (não estou a falar de tráfico), o retrato que eu fazia deste autor ganhou prolongamentos e próteses intercontinentais, começei a vê-lo, sobretudo por vias mediáticas, por vezes até à saciedade, como entidade capaz de ter um pé em África e outro na Europa, particularmente em Portugal, onde a sua fama tem feito com que instituições várias tenham preterido criadores portuguses, de inegável mérito, a favor de Mia Couto. Há muitas razões para isso, algumas eventualmente louváveis, e por certro as sequelas da memória colonial, das guerras, entre sentimentos de artistas por lá abandonados ou minimizados apesar da vontade de os tornar parte do espaço lusófono. Devagar, e muito depois de Mia Couto, chegaram outros, Pepetela, Rui Carvalho, vários, incluindo a comunicação via Internet.
Mia Couto publicou (ou publicaram-lhe) um oportuno artigo na revista/única (17.01.2009), sob o título E se Obama fosse africano? A redacção da revista publica uma pequena nota que diz ter o escritor moçambicano assistido com reservas às reacções eufóricas com a vitória de Obama (presume que em Moçambique, ou África em geral). A desconfiança é justificada porque, como dizia Franz Fanon, a passagem súbita de populações ocupadas e primitivas à contemporaneidade (na sua expressão técnico-cultural) provocaria grandes tragédias e difíceis assentamentos de identidade. Se a descolonização portuguesa foi lenta e desatrada, as outras todas (muito resultantes de concepções desemcadeadas após o termo da segunda Guerra Mundial) não evitaram sequelas por vezes hediondas. Os regimes nacionais, um pouco pouco por toda a parte, em África, cristalizaram em ditaduras impensáveis e prioridades militares paralisantes, as guerras civis e tribais sucederam-se e os países (que nunca lhes ocorreu alterar as fronteiras coloniais) regrediram até situações inenarráveis: a riqueza de Angola não reedifica a justiça política e social, Moçambique precisava de ter petróleo e menos insidiosos racismos. Ruanda e Uganda escusavam de consumar em três meses um dos maiores massacres da história humana (800.000 mortos), a África do Sul já deveria ter menos assassinos nas ruas, a Guiné sobrevive entre golpes de Estado e ditadores inconsequentes, o Zimbabwue pertence a Mugabe mesmo que ele sobreviva ao último habitante, o Congo, que já teve um dono inominável, desfaz-se em pedaços e carnificinas. Exemplos que não esgotam esta verificação breve.
Com mais brandura, o que se compreende, Mia Couto, aliás também preso pelo tema, reconhece esta realidade e é dela que parte para fazer a pergunta sobre Obama. Para ele Obama não teria o menor espaço de manobra em África, incluindo Moçambique, seria agredido, preso e sabe-se lá que mais. O escritor sublinha: «Os Bushes de África não toleram a democracia». A odiada América ainda consegue gerar estas ondas de combate aceitável, a riqueza de debates e de complexas escolhas. A esperança em Obama é por boas razões mas ele próprio já relativizou (no centro da crise mundial) o poder das soluções. Mia Couto conta que o Zambiano Keneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país como filho de malawianos». As raças africanas (já lá foi o tempo em que se dizia que a África é para os africanos) combatem-se a este nível, do geral ao particular, e os senhores do poder, sentados em montanhas de armamento, decretam as exclusões, as discriminações, os massacres.
Este corajoso depoimento de Mia Couto termina com palavras de esperança, imaginando o tempo em que todas as entnias e raças africanas terão oportunidade de celebrar, na sua casa, «aquilo que agora festejamos em casa alheia». Só não faz a estimativa de quantas gerações terão de ser sacrificadas para que isso aconteça. Seja como for, e por isso a ferida dos que viveram África não sara, esse Continente, possível salvador de outros excessos, é ensurdecedoramente belo, fica-nos no sangue, é património da humanidade, deveria ter um destino ecuménico e nunca ser poaauíso pelo sistemas do crescimento sempre. Talvez seja consolador imaginar um não crescimento equilibrante, sem metrópoles gigantescas, nel lixos asfixiantes, nem terras apodrecidas, nem fomes e doenças aterradoras.



