sábado, maio 23, 2009

INVULGAR HOMENAGEM A UMA VIDA DIFERENTE


Tomei conhecimento em Silves, há cerca de uma semana, que a cidade perdeu um dos seus mais curiosos habitantes, apesar da pobreza e da diferença, cidadão que teve a desdita de nascer com deficiência mental, em definitivo limitado no desenvolvimento da fala, bem como noutros aspectos estruturais ser enquanto da prestação comum enquanto ser humano. Cresceu inicialmente sob a protecção dos pais, gente modesta mas responsável dos deveres inerentes a um caso assim, desde muito cedo, aliás, compreendido e acompanhado pela população da cidade. Na cama de um anexo hospitalar, já com idade avançada mas impossivelmente determinável, morreu Zé Xana, assim mesmo, como era conhecido por toda a gente. Confirmaram-me o que eu próprio verificara, ao longo de décadas, sempre que vinha a férias: que o Zé, eterno moço, inicialmente descalço e depois ajudado e arranjado por instituições sociais, desfrutara sempre de uma saúde de ferro. Umas vezes encontrava-o de sandálias com meias e um casaco escuro, em espinha, calças pardas, amarrotadas, barba crescida, pele curtida do vento e do sol, cabelos hirsutos, negros, gritantes. Outras vezes, anos depois, descobria-o nos sítios habituais, derivas por lugares que lhe eram próprios, paragens nas mesmas praças, rindo a quem passava, «café, café... o Zé sabe, tu és Amorim. Teu pai teu pais?» Se alguém se afastava, com alguma indiferença, ele não barafustava nem gritava -- dizia apenas para a distância maior: «Quando voltas morim, quando voltas? Teu pai teu pai?» Sentava-se na calçada e ria, em bronze, cabelos rijos; chamava por outros que passavam, voltava bem depressa à sua deambulação pela cidade, vencendo horas e horas de passos e pausas junto de qualquer sítio. Sempre capaz de identificar quem via, se era alguém, se era alguém da realidade social da terra ou comerciantes que vinham habitualmente ao mercado. Vencia, com risos e bonomia, todos os silêncios, a mudez dos domingos, a incerteza de certos acontecimentos, e cada vez mais, ao contrário da idade invisível, a sua memória acumulava nomes e rostos de muitas pessoas, fosse qual fosse a hora de chegada, até aqueles que regressavam da guerra no Ultramar, voltando outros. Souzinha souzinha, tás tu?» E eu: «Em Lisboa». Ele ria-se porque já sabia: «Souzinha, zinha, teu mano teu mano, teu mano onde mora? Teu pai morto, tua mãe morta, teu mano souza?» Olhava-o, abismado, via-lhe um rosto de rapaz enrugado, quase castanho, cabelos duros com pintinhas brancas aqui e além: «Toma, Zé, vai beber o teu café». E ele queria, aceitava, pedia mais, ria sempre e não se afastava de nós enquanto não nos despedíssemos dele.
Vivia, por último, numa casinha estreita e branca. As vizinhas e outras pessoas haviam decidido naturalmente tratar de limpar-lhe a casa, lavar as roupas, dar-lhe de comer. Para uma cidade acinzentada e pobre, onde as pessoas se metiam em casa durante dias e dias inteiros, sobretudo quando da morte da indústria corticeira, tal solidariedade era quase patética. E mesmo quando tudo mudou para melhor, de 74 aos anos 90, ninguém esqueceu o Xana, nem o tratou com mais negligência. Ele foi sempre nosso companheiro de chegadas e partidas, ali ficava nas ruas empedradas, acenando com gestos do coração, rouco, ainda que o cuspo lhe aflorasse aos lábios. «Souza, teu mano, pá? diz, diz, teu mano e os meninos, os menos grandes?» Os olhos húmidos sabiam exprimir essa saudade, anunciar essas lacunas, como aconteceu durante a guerra e depois do 25 de Abril.

Zé Xana nunca trabalhara, por clara incapacidade cognitiva; trabalhava, contudo, até o sol se pôr. Era o seu modo de trabalhar, manter o seu mundo em volta, exercer a faculdade da memória específica. Assim procurava os outros, saudava os outros, mesmo quando começou a decair, sujando-se, deixando romper-se a roupa. Lá foi recolhido, enfim, para o tal anexo de um velho hospital, a saber o que sofria, não no desespero da morte. Creio que ele não sabia o que isso era, o que não espanta, pois nós mesmos não sabemos, embora nos passe o resultado dela pela consciência. O Zé esteve sempre atento às visitas, porque as recebia, visitas sobretudo da sua zona, pessoas simples, gente que ele agarrava com os olhos sombrios ou molhados, atribuindo o nome certo a cada um, agitado, logo pedindo «abraça, abraça, abraça».
Morreu, enfim, o Zé Xana, figura emblemática de um certo quotidiano. E, por mais surpreenden- te que pareça, a cidade fez-lhe o funeral, um bonito funeral, e encheu as ruas que permitem acesso, demorado, ao cemitério. Vivendo numa bebulosa onde as memórias se certificavam de centenas de pessoas, talvez parentes, Xana passou aos habitantes da cidade uma mensagem profunda, assim agradecida por uma multidão que respeitou, com a grandeza da humildade, aquele desconhecido diferente, morto por nada, aquele «estrangeiro» que todos sabiam ser português e que todos acompanharam à derradeira morada.
Deus não estava ali, mas os homens sabem, por vezes, fazer o Seu trabalho.

segunda-feira, maio 11, 2009

TELEVISÃO DE MASSAS E REVOLUÇÃO IMPOSSÍVEL


A televisão é uma das maiores descobertas do século XX e tem hoje horizontes técnico-expressivos que parecem ultrapassar a capacidade humana quanto à sua veradadeira utilização, entre formatações, efeitos especiais e diversos tratamentos temáticos. Tanto podemos ver um espaço cénico quase impensável, inteiramente virtual, como sermos confrontados com a mais pindérica forma de contextualizar certos processos de comunicação. Os maneirismos primários abundam em quase todos os programas ditos de entretenimento. A «(lei» da oferta e da procura, já de si perversa, torna-se completamente distorcida pelos programadores dos quatro canais portugueses e apêndices em função prioritária: a famosa competitividade caduca nos caducos modos de administração ou de gestão e os criadores, reduzidos ao novo riquismo aparente dos meios, tornam-se reféns de modelos pseudo-avançados, em nome das massas, da carnificina para as massas e níveis de audiência, vivendo obsecados por esses rasgos de triunfo à percentagem. Estas pessoas (consideradas acima do próprio saber elitista) não passam afinal de manipuladores da opinião pública, acabando por acreditar piamente no jogo: se os temas de violência e e intriga fazem subir as audiências, é porque os telespectadores preferem amplamente as matérias de tais produtos.
Assim falava, dizemos por analogia, um Freedman, entre outros, defendendo economias de marcado livre, sem regras «castradoras», pois só dessa troca aberta sairia um natural equilíbrio entre os agentes produtores e s consumidores, entre exportações e importações: a «lei» da oferta e da procura determinaria a dinâmica capaz de contribuir para o simétrico princípio dos vasos comunicantes. Trata-se de mais um embuste, corrente cega que levou o capitalismo de índice neo-liberal a contaminar o mundo inteiro, sob o rótulo retumbante da globalização, a jusante do fenómeno da multiplicação dos escudos pela «banqueira do povo» (Dona Branca) e em biliões e biliões de perdas rasas. O mais apto capitalismo, de preferência «sem Estado ou menos Estado», desabou estrondosamente, a gritar pelo «Pai». Porque, como é óbvio, os operadores e agentes financeiros e toda a panóplia de gigantes da Banca sempre fizeram bluf ao longo da História. Para que um mercado equilibrado e pacífico, sem fronteiras, decorra como sugeria o imaginário de algumas luminárias, seria preciso que todos os homens estivessem marcados por uma honestidade à prova de todos os riscos, não precisando de fiscais, coordenadores ou supervisores. Mas, como a História já demonstrou, o género humano não pertende ao imaginário reino dos anjos bons: aquelas criaturas, dotadas de inteligência, primam em grande medida pela desonestidade, pelo gosto do poder, numa insana ganância fixada nos valores monetários ou de propriedade, e assim se guerreiam pelo vértice da pirâmide. De resto, vivem desde há muitos séculos civilizações baseadas nessa estrutura triangular, ou seja, segundo critérios totalitários, tanto políticos como militares e religiosos, donde surgiram, quer em nome de Deus (a entidade mais totalitária que nos inspira) quer em nome da sobrevivência, sobre placas de oiro. Foi nesta perspectiva cada vez menos defensável que surgiram os grandes objectivos civilizacionais (suicidas) que delinearam, a longo prazo, o crescimento a todo o custo, em vários campos, na quase totalidade dos campos, cujos primeiros resultados já contaminaram praticamente todo o século XX e anunciam crises planetárias e sociais na actualidade e séculos futuros. Admitindo que esta alucinação demente tem ainda condições de reversibilidade, a mudança de rumo implicaria implosões deliberadas e colossais, uso inverso dos meios naturais e tecnológicos, ampla racionalização do contacto com o território, por forma a pulverizar os núcleos comunitários da vida colectiva. E o maior dos trabalhos, a verdadeira revolução, consistiria em matar as emergentes grandes guerras, com o maior pragmatismo possível, dentro de uma enorme reserva de direitos. Espero que os mitómanos saudosos dos fabulosos torcionários da História não me interpretem como arauto da utopia do mal. E que pennsem na grandeza dos meios de que dispõem num mundo cada vez mais pestífero, entra montanhas de informação ou informação feita lixo. Há um interessante video-clip britânico que retrata um mundo em destroços, em consequência do excesso, e algumas minmorias de humanos dependentes da televisão, programas in formáticos, informação em massa, lixo envolvente de tudo isso. A imagem central e ezemplar desse vídeo mostra um homem ainda novo, obeso, engolindo pela boca e pelos olhos milhões de dados informativos que se desfaziam uns aos outros e criavam o risco de fazer explodir o pobre e derradeiro homem do consumo. Essa imagem é-nos dada em directo, depois de assistirmos, com horror, à irreversível expansão da criatutra em todos os sentidos. Um crâneo solto derrama no ar a pasta do cérebro.

PARA UM JUÍZO SOBRE AS NOVELAS E SUA ERRATA

Os dirigentes das televisões, directores de programação, sobreudo, dizem que os produtos emitidos (caso das novelas) são escolhidos ao «gosto do público» e não para fazerem vénias a minorias pem pensantes. Ao falarem assim parece que esquecem o facto de uma das maiores invenções do século XX quase não servir para nada, edicando-se ao arbítrio sa publicidade e ao «estímulo» da líbido. Ao contrário do que dizem tais mercadores, sabe-se que o público se converte, no verdadeiro sentido ao produto de qualidade. Seria perfeitamente possível, no manejo das emissões e horas de presença, fazer com que os telespectadores reconhecessem o muito maior valor artístico (onde o entusiasmo do ver se confirma) da novela Olhos nos Olhos (imagem em cima) em confronto com subprodutos nefastos, em termos culturais e lúdicos, como Flor do Mar ou Feitiço do Amor, títulos que, só por si, confirmam o mais pindérico aceno ao teor marcantilista e de reles manipulação, por baixo, do chamado gosto popular.
À novela acima assinalada deveria ser-lhe dedicado um estudo exaustivo, não só por se tratar da grande excepção, mas porque, no campo formal e conceptual, se distingue por quase tudo, da fotografia à interpretação, do argumento ao modo como é tratado, da escrita ao universo da família judaica, às simulações e aprofundamento de sentimentos. Trata-se de um trabalho de excelência (empacotado por baixo de duas novelas inomináveis), sujas armadilhas de desconforto anti-pedagógico. Ali há jogo, suspense, nível cultural, óptimo desempenho dos actores, vertentes históricas e sociológicas. Um dia, a televisão há-de sentir na pele as mudanças do público para modelos mais próximos desta experiência, se não os minimizarem.


Feitiço do Amor é um daqueles subprodutos ainda muito vinculados à ortodoxia brasileira (separadores em paisagem aérea, a fazer o bonito pelo turismo, e canções gravadas parea acompanhar certas cenas, e cujo nível de som come quase por completo a voz dos autores, o que
é um erro básico. De resto, o turismo trata-se de outra maneira e as canções não podem pecar por defeito. Parece mentira, mas aqui houve sete operadores de texto, sendo certo que a personagem principal, num enjoativo papel debitado por Rita Pereira, numa auto-protecção eqívocada do mau da fita (Afonso) e do bom da Fita (Henrique). Maria João Luis excede-se, ganhando pouco com isso. Uma televisão que se respeitasse a si mesma trataria de superar a voracidade pelas audiência e estudaria com os bons técnicos e actoes de que dispomos outras vias para a telenovela em geral, no sentido do superior interesse do público e do país em termos de cultura disponível nos aufio-visuais. O que se está a fazer só não é crime porque não vem no famoso e errático código penal.


Flor do Mar não tem classificação. É um produto inadmissível para qualquer valência média de cultura e mesmo de apego ao jogo, ao entretenimento. Os operadores de escrita fazem o inominável em banalidade de texto e concepção grosseira de tipos: os personagens têm mil vezes na boca a pergunta de quem não percebeu bem («Desculpa?») ou respostas igualmente estereotipadas («É impressão tua»). Para actores de qualidade já uma direcção sem préstimo. Rogério Samora (Gaspar) faz porventura o pior papel da sua vida (e nem se sabe como disfrutam tanto este medíocre intérprete). A sua atitude (da Actors Studio?) de pôr e tirar os óculos tem momentos absolutamente risíveis. E esteve quase para improvisar o mesmo truque com uma desgraçada caneta. Provoca a hilariedade e o drama torna-se farsa. Gaspar grita em mais de 70% das suas falas, aliás como outros, levados na corrente dionisíaca. Mercês (C. Carvalheiro) faz uma tia que nem o piores momentos do teatro D. Maria serviriam para medida. É uma coscuvilheira compulsica e caricata. A Salomé (Paila L. Antunes, que deveria continuar a trabalhar a sua figura feminina e a graciosidade que ainda a serve) rasga-se toda em mulher má e ganaciosa, afogando as suas melhores qualidades e deixando em destaque a sua boca de lábios a contradizer a fulgor dos olhos. Além do mais, há canções a propósito e tudo e de nada, separadores paisagísticos, nehuma criatividade de registo, todo o abuso no Flash back. Aqui foi seguida à letra a pior das metodologias brasileiras, erro crasso de que os nosso geniais irmãos ainda não se libertaram. A telenovela brasileira tem de ser substituída por idêntico género, mas
em termos próprios do nosso tempo e numa dinâmica que não se leia como erro, errância, publicidade crassa. Aliás, nos seiados, nem sequer o Equador serve de exemplo: texto seco e pobre, cenas breves por conveniência, péssima direcção de actores, hieratismos ridículos. Aí nos cale uma boa produção, contextos de qualidade, e um razoável acerto da câmara.


sexta-feira, maio 01, 2009

PRIMEIRO DE MAIO, TRABALHADORES E PÂNTANOS



O Primeiro de Maio foi considerado o dia do trabalhador. Todos os anos aumenta o número de potenciais trabalhadores, enquanto tudo se multiplica inutilmente e as cidades industriais são tomadas pela poluição até níveis impensáveis, proibitivos, contrários à vida e ao respeito pelo nosso habitat, mesmo que pensemos em termos planetários. Os grandes países que caminham para a obstrução de tudo por tudo, subindo na soma absurda das taxas de crescimento, obrigam os operários e outros agentes da produção a recorrer à mecânica dos pedais e das bicicletas à medida que os carros entopem as vias e são sujeitos às mais diversas mutações híbridas. Um capitalismo sem medida e sem balança de estabilidade foi implodido de forma global, entre estrangulamentos de toda a ordem, desemprego alucinante, falências, crises de difícil saída. Apesar das tentativas para manter no futuro um Maio florido, hoje, em Lisboa, a multidão fazia o caminho do protesto. É notório o desencaminhamento de todos, incluindo a agressão a um candidato às eleições para a Europa, desvio sem sentido na pessoa considerada, de todo sem relação com os oportunistas da crise, em termos nacionais e mundiais.
Grande turbulência por essa Europa fora, no medo por um futuro inacessível. Chovem objectos inúteis de fábricas inúteis, justamente quando mais precisávamos de planeamento justo e justifi- cado, nem demais nem demenos, um outro sistema, um novo caminho civilizacional em que os espaços comunicassem harmoniosamente entre si, produzindo a medida certa e criando a boa quadrícula da distribuição dos povos pelos territórios, sem metrópoles monstruosas e assime- trias de tudo em tudo. O crescimento não favorece o desenvolvimento, nem as cidades odiosas ajudam a aprender melhores comportamentos e um espírito criativo assente em sólidas bases éticas.
Talvez um dia, assim, o mundo se redimensionasse de forma humanista, Maio de novo florido fora da industrialização por excesso. Lembram-se do 1º de Maio de 74, em Portugal? Parecia anunciar um país novo, as mãos dadas, e afinal chegámos em 2009 a uma democracia feita de partidos apodrecidos em pântanos, o mundo em volta também.

sábado, abril 25, 2009

25 DE ABRIL OU A REVOLUÇÃO DOS CRAVOS


Acordei ao som da rádio, portas a bater, carros assustando a manhã. Um amigo telefona-me e dá-me a notícia: o tal movimento dos cpitães está na rua. O governo vai cair. Ainda lhe pergunto, sobreposto ao entusiasmo das vozes: E basta que esse movimento esteja na rua? Você tem assim tão grande fé? E ele, em perfeita bonomia:
Não é de fé que se trata, é de esperança. Eu, ainda ensonado: Ainda bem por nós todos. E a rua, como está? O meu amigo, impaciente: A rua desobedece às ordens de segurança, é gente e gente, talvez gente que não tem fé nem esperança, tem apenas a certeza.
E assim, ao abrir o rádio, uma voz convicta dizia: Aqui, Movimento das Forças Armadas.

quinta-feira, abril 23, 2009

OMNIA VANITAS OU A POLÍTICA VANDALIZADA


Há dias, na RTP1, depois do noticiário das 20 horas, uma Judite de Sousa irreconhecível, sem a sua habitual cordialidade e doçura, apesar da beleza que conserva, surgiu, ao lado do seu colega José Alberto Carvalho, pronta a assaltar liminarmente, superficialmente, o Primeiro Ministro, José Sócrates. É assim que tem acontecido um pouco por toda a parte, em nome da crise, em jeito de sátira, numa vandalização da ética jornalística, ou do debate, ou de qualquer tipo de análise, pró ou contra. Os personagens desta batalha na Assembleia da República, nos jornais, nos meios de comunicação audio-visual, além das manifestações a céu aberto e anfiteatros dos partidos políticos, salas das Casas do Povo e outras Associações Cívicas, todos eles se vangloriam de alguma razão de agravo, todos eles se hostilizam contra promessas que asseguram ter sido feitas pelo Governo e não cumpridas. O Governo, por seu turno, desincomoda-se tanto quanto pode, faz anúncios das medidas para suster a crise, o maior desastre do capitalismo desde as primeiras décadas do século XX, incluindo obviamente a aberrante teoria do livre funcionamento dos mercados, como se os homens fossem iguais e igualmente honestos, santos, rectos nas trocas e na hora de pagar as trocas. Pois aquela senhora, que sempre tenho apreciado e faz um bom trabalho de casa, estava agressiva, desordenada, o José Albeto, à direita, um pouco menos, e o Primeiro Ministro, interrompido a todo o instante, à direita e à esquerda, dedilhando as suas cábulas, as suas fichas, os seus números, entre miríadas de constelações cénicas ou retornos de uma finança esfrangalhada, de um mundo que continua a mitificar-se, apesar dos erros de assombro cometidos por grandes senhores da Banca em todo o mundo, das sua megalomanias sobre inúteis crescimentos, epopeias de roubos, espaços devastados por negociatas sem nome, produtoras de assimetria e pobreza, ou ainda sob o fedor de instituições que mais parecem cloacas dos mais danados vampiros, paraísos fiscais, buracos negros que abocanham quase toda a riqueza excedente da labuta tóxica, entre gases capazes de sufocarem o próprio planeta dentro de meia dúzia de séculos.
Toda a entrevista/debate atirada a José Sócrates foi um ensaio de como não se faz aquele trabalho, nem no tom, nem no método, nem no implícito sectarismo. A defesa do Primeiro Ministro acabou por se parecer com esse jogo, pois tinha que manter a articulação da fala e do pensamento a despeito das interrupções muitíssimo frequentes, fúteis, a mostrar o desejo de driblar o adversário, provocando-lhe um entorse ou a queda, por forma a estragar-lhe a resposta. E depois o que queriam e o país profundo já vomita, entre pesadelos de incompreensão: o caso Freeport e a excitação das insinuações sobre a alegada corrupção daquele político na questão das licenças em golpe de cunha e de fortes luvas pagas em prestações. Mesmo que se queira perceber esta franja de pequenas e grandes manias, após tanta sufocação em pús pelo mundo inteiro, qualquer cidadão derrapa entre incertezas, a corrupção da corrupção é um terrível teatro impróprio para o futuro e sobretudo para o enorme trabalho em câmara lenta da Justiça que nos julga, processos de décadas, crimes correndo pelas redes que os Procuradores mal suportam na carga de códigos contraditórios.
A certa altura (e eu percebo), o Primeiro Ministro, de tanto satisfazer a fome dos interlocutores por maldades escondidas, desatou a «sticar» em várias esquinas e foi encalhar naquele noticiário das sextas feiras, na TVI, onde efectivamente qualquer espectador pode perceber a vã sabedoria (ali tão desaproveitada) de Vasco Pulido Valente e o desprendimento grosseiro, sarcástico, da apresentadora atrapalhando o trânsito, tudo muito perto do insultuoso, brejeiro, alienante, aspectos de uma profissão que sabe o que é a liberdade de expressão. Ora isso (que é bem grave)
é agora espaço de virtudes sussurradas no noticiário pelo Director Eduardo Moniz, um homem que se acolhe sobre vitrais e tem o despudor de declarar qualidades e direitos num organismo vergado ao dinheiro e ao embuste das programações, conteúdos, no pior desentendimento da acção comunicativa, cultural e cívica, bem distribuída pelo tempo e no espaço. É assim, ele próprio, o profissional impoluto que reivindica, orando, encostar o Primeiro Ministro à parede por ter tido menos cortesia do que habitualmente demonstra. Quem é que se salva de uma coisa destas, 50 minutos, excluindo o futebol, rajadas com balas acima da simulação, pré-acusatórias de mil desastres na governação. A acção que Sócrates moveu relativamente a um jornalista, em situação que não conheço em detalhe, é agora superada pela vandalização da ética para a televisão e pelo jogo em redor: só falta chamar como testemunha Manuela Ferreira Leite, do PSD, que garantiu perante as câmaras ser o Primeiro Ministro «o coveiro da Pátria». É um emprego que alguns políticos mudos não teriam desvontade de aceitar, logo que bem remunerado e dotado de assessores.

segunda-feira, abril 13, 2009

A FALA CORTANTE NA URGÊNCIA E FORÇA DA ARTE




parte da Instalação «Ghost»
da franco-argentina Kader Attia
O discurso desta intervenção artística (The Saatchi Galery) cai sobre nós com o fragor da sua insolência e das alegorias sem mordaça. Há figuras humanas envelhecidas, lassas ou em letargia profunda. Corpos em cadeiras de rodas, ou alinhados na prece totalitária. Os velhos sentados, rodando devagar, são por vezes reconhecíveis como líderes do nosso tempo. Nas suas cadeiras robotizadas, que nunca se tocam programaticamente, os personagens inquietantes parecem interpretar no espaço uma corografia da perfeição e do medo, a perfeição do caos, o caos da nossa alienação progressiva. Aos espectadores é conferida a faculdade de observar esta circularidade e percursos contraditórios em plongé ou articulando passos hesitantes no centro da acção, de forma garantida e sem choques: uma anunciação da tecologia directiva que também nos manieta, entre milagres de morcego, desastres impossíveis, mas tudo a inspirar o pavor de devir, dos sonhos substituídos.
No texto de Cristina Margato, enviada especial a londres para cobrir este acontecimento, podemos ler que a peça «Old Persons Home» é uma possível metáfora de um mundo político sujeito a leis e interesses pouco transparentes. Concebida por dois artistas Chineses, San Yuan e Peng Yu, obra também pode ser conotada como paródia à morte das Nações Unidas, sugerindo a forma como o Ocidente olha outros universos religiosos e culturais, como o islâmico.
Cristina Margato chama a atenção que estamos a 20 anos sobre a fatwa a Salman Rushdie, em que o radivalismo ialâmico continua a mostrar-se «incontornável ao ponto de nos questionarmos sobre a becessidade de autocencura na abordage à iconografia religiosa islâmica (como aconteceu, por exemplo, com o caso dos cartoons dinamarqueses». O sangue brota de todos os mártires de forma semelhante e o seu reenquadramento trágico não envolve problemas de fé nem de vinfança. Tal oportunidade já os judeus tiveram e ainda hoje lhes sabe a amargo, dispersos, contidos num Estado poderoso mas com um destino bem problemático. Um dia, rodeados das suas virgens oferecidas por Alá, os sobreviventes na terra acabarão por corar légrimas de sangue e de vergonha como entretanto ainda muitos cristão o fazem perante os genocídios que a sua religião cometeu, A Inquisição como uma das mais ferozes forças da cegueira, do dogma e da subversão servida em bandejas de mentira e as Cruzadas, brutalizando povos inteiros os seus lugares de recolha espiritual. *
Sem medo, The Saatchi Galery aborda alguns temas tabu no Islão. Grande parte de outras peças, para além de «Old Persons», muitas peças foram de facto concebidas por artistas da Palestina, Irão,Iraque, Egipto, Tunísica, Líbano, Síria ou Argélia. As mentes que se contariem até um fio de vingança e morte começam a pertencer a uma dimensão que nos escapa, entre espaços sufocantes, apesar de tudo com artistas clandestinos cujo desejo de testemunho passa pelo grito das palavras e das obras, aliás num respeito bem principal por tradições remotas e leituras limpas dos textos sagrados. Aí haverá sempre, por vez oculto, sofrido até à morte, o estado da conição da mulher, tema central da exposição e das reflexões civilizadas e hoje, nas suas faces odiosas, revelando seres sem dreitos, sem o benefício da honra e da sua cidadana.
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* Este texto foi reescrito sobre parte do artigo de Cristina Margato (Expresso/actual) e procura, com excertos, estabelecer a forma laegamente usada pelo autor deste blog.

segunda-feira, março 23, 2009

HÁ QUEM ENFRENTE A MORTE SIGNIFICANDO-A

Jade Boody



O ser humano, crente nas suas forças e na sua criatividade, tanto enfrenta os males do mundo como luta contra eles ou chega a produzi-los, entre sucessivos e aterradores paradoxos de um psiquismo em cuja natureza profunda continuamos mergulhados, presos na mais espessa das sombras. A frágil evolução dos nossos valores de harmonia, aliás desde sempre, sofre fracturas inexplicáveis; e a metamorfose de seres sublimes em anjos negros é, a todo o instante, fácil de acontecer no espaço global hoje glorificado como a maior conquista das civilizações.
Prestemos alguma atenção ao caso dramático de Jade Goody, de 27 anos, ultimamente tão mediatizado. Ela era asssistente de dentista, aberta à vida de formas eventualmente contraditórias, e descobriu de súbiro, naquele repentismo com que Deus costuma escolher-nos sem a menor justificação, que tinha um cancro no colo do útero. Estava-se em 19 de Agosto de 2008. Para que o arrepio fosse maior, o choque brutal verificou-se quando Jade participava numa edição indiana do «Big Brother». Desde então, esta rapariga, assim assinalada por um corpo igualmente perfeito e já obsoleto, lutou com o maior empenho contra a doença, tornando-se um verdadeiro exemplo de resistência e de alerta para a importância do rastreio do mal, tanto mais que o progresso alcançado contra tais casos, quer no diagnóstico, quer no recurso à providencial descoberta da vacina específica, estava já em aplicação. As autoridades sanitárias britânicas assinalaram o facto, após a notícia sobre Jade, do muito maior afluxo de raparigas ao exame médido e à vacina disponível. Goody desempenhou um extraordinário papel em termos de serviço público, expondo-se em vez de se fechar, e absorvendo o que lhe restava de vida - porque a vida é o que melhor nos define, não o cadáver que leganmos à terra, olhos cerrados, em redor a opacidade de um silêncio que ninguém percebe e alguns louvam, argumentando que a memória da vida, por ezes manchada de contradições, tende a comsolidar a construção do nosso testemunho.
É tudo muito estranho, inclusivamente o facto de sabermos que o Universo terá uma vida de biliões de anos em palpitação vital, enquanto as galáxias também morrem ou dão lugar a outras nos choques de trajectórias que parecem perfeitas na imagem imóvel, pela distância, mas que significam mutações inenarráveis ou até a emergência de novas estrelas. No caso de Jade Goody, bastou vencer o «Big Brother» britânico para ser estrela, a fama individual a inundar todo o seu espaço social. Lançou livros, perfumes, as bugiganas do consumismo alienante. Só que, nacircunstância, vivemos manietados a diversos mimetimos. Jade trabalhou num outro «reality show», situação em que soube ter cancro. A habituação ao viver público diante das câmaras levou-a, porventura à patética decidão de vender à comunicação audio-visual os direitos registarem a fase terminal a da doença mediante um pagamento de consenso. Muitos dizem:os seus últimos dias como meradoria. A sua ideia da Jade, contudo, era a de assegurar em parte o modo de vida dos filhos, tanto mais que a revista «OK» e «Living TV» concordavam com a verba de 1,5 milhões de euros.*
Esta história, a escolha que implica, pode chocar muitas pessoas bem pensantes ou conservadoras. Em letra de lei e de princípios morais, tudo isso poderá ter acolhimento filosófico. Mas uma vida apanhada assim, à «falsa fé», como diz o povo, não se ajusta facilmente, quando a consciência passa a conhecer tudo e a falta de nexo para tão rápida visita da morte. Direi por mim, e sem pensar muito, que a pena de morte que nos cabe logo ao nascer, justifica, antes de cumprida metade da existência, escolhas ou respostas assim, entre o suicídio e a coragem de abordar o problema com ressonância para todo o mundo, talvez como ressonância profunda perante o inexplicável, o deastre não provocado na esteira da nossa indisciplina, antes uma espécie de destino vingativo, breve, absurdo. Menos equívoca foi a própria Jade: às portas da morte ainda soube arranjar forças para um último acto de grandeza: despedir-se dos filhos. Sentada, disse-lhes: «a mamã vai para o céu e o céu é onde as pessoas ficam melhor. Quando olharem para o céu e virem uma estrela, é a mamã olhando para vocês».
Dir-se-á: «este ignóbil mediatismo retira transcendência aos nossos actos, esmagando a sua própria grandeza.
João Lopes, crítico de cinema, considera que Jade é mais uma personagem, «sem dúvida das mais comoventes, devorada pela fúria desumana da televisão». Claro que Jade, filha da sua época e dos seus estímulos apropriativos, escolheu aquela participação (talvez fútil mas que não implicava o prémio de um cancro); mas há meios que não cessam de se diabolizar: «o liberalismo televisivo conseguiu isso, substituir o reconhecimento público da lei (e das fronteiras definidas) pela euforia anti-humanista do espectáculo».

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* Esta intervenção está apoiada nas notícias publicadas, no artigo de Paula Rito, do Diário de Notícias, e numa bela crónica escrita pelo crítico João Lopes.

a morte interventiva

quinta-feira, março 19, 2009

EM NOME DA VIDA OS DOGMAS DA MORTE

A Natureza, nas suas bondades e adversidades, coloca ao homem as mais inquietantes questões. O homem é um dos seres mais complexos deste espaço em que vive. Após milhões e milhões de anos de existências orgânicas, elementares, vegetando na Terra, a matéria viva multiplicou-se em diversidade, tamanhos, consistências grupais, conquistando espaço em força e formas híbridas de afirmação, de relação com o meio e as suas próprias engrenagens sem verdadeira utilidade. O homem acabou por se contituir, com pequenas diferenças morfológicas, no ser mais complexo e superior entre milhões de espécies, algumas mais possantes do que ele mesmo.
Quando se chegou a modos tribais, primeiro nómadas, de assumir a vida, de reconhecer grupos e meios de subsistência progressivamente mais sofisticados, os engenhos multiplicaram-se e as vidas de novos seres também. Ao tempo, centenas de milhares de anos decorridos, já Deus se desligara da sua criação (pelo livre arbítrio) sabendo embora que os homens iriam, sem contas nem disciplina espiritual, dar expressão à força e aceitar-se no desejo, praticando, por impulsos distintos, a cópula. E daí deduziu, a cada filho formado, que o grupo aumentava de cuidados e bocas e disputas pelos bens cuja administração se tornou difícil, gerando grandes desastres não naturais até aos nossos dias, tempo em que os bens do espírito se discutem e durante nuitos séculos se combateram. Mas cada homem que nascia era um bem, fortalecia os interesses e o poder. Apesar de, sobretudo depois das maiores guerras mundiais, a humanidade ter começado a temer o excesso de população.
Hoje há planeamento familiar (ou deveria haver por todo o lado) e as grandes energias vindas da industrialização começam a complicar a vida do planeta, clima, oceanos, doenças, cada vez maior sufocação por direitos adquiridos e entretanto perdidos, mal reabilitados, mal reconhecidos, entre a permanância absurda, redutora, das religiões que já fizeram há muitos milénios, e mal, o seu trabalho iluminante.
A Igreja Católica Apostólica Romana, a Ocidente, é das maiores religiões do mundo, foi responsável por guerras e genocídios indiscutíveis, cujas marcas são hoje cicatrizes «activas». A figura suprema deste espaço (no qual se afirmam culturas de fé e de salvação), é o chefe tutelar Supremo, é o Papa, actualmente Bento XVI, homem erudito mas determinado por normas filosoficamente insustentáveis, teologicamente indistintas, socialmente perturbadoras. Tendo inventado, nos primeiros Concílios, tanto a virgindade de Maria como outras concepções e práticas que em nada se ligam aos primitivos cristãos, a Igreja balança entre as «verdades» da Bíblia e as inconsequências de muitas normas disciplinadoras, anti-naturais, de que se fez refém.
Nos nossos dias, o problema da natalidade e de se gerar filhos em tempo socialmente próprio, em
nome do equilíbrio das comunidades, é uma realidade estrutural das civilizações. Dado que o conhecimento dos períodos de fertilidade, na mulher, podem ser avaliados, grande parte das vezes sem precisão, o dogma da proibição do uso de métodos mecânicos e químicos para controle dos casais e do seu plano de vida, tem gerado grande número de novas cegueiras no Vaticano. Sem a medida correspondente à filosofia e aos limites da vida humana, Bento XVI declarou: «Não se resolve o problema da sida com a disribuição de preservativos. Pelo contrário, o seu uso agrava o pronlema». É uma frase aterradora, basta pensar um pouco. A frase foi pronunciada a caminho da primeira viagem do Papa a África, justamente o Continente onde a delicadeza destas questões tem de ser tratada com solidariedade, compaixão, espírito científico e apoios sociais e de saúde altamente compartilhados por todos os países mais evoluídos. Houve indignações de toda a ordem, sobretudo porque o Papa colocava a Igreja, daquela forma, no centro do problema. Muitas organizações governamentais, que trabalham na luta contra a sida na África subsariana, onde o vírus já infectou mais de 20 milhões de pessoas, exprimiram protestos de forte indignação. Se a Igreja acha que tudo se resolve com serenidade natural e muita abstinência, mostra mais do que desconhecimento dos problemas, do próprio homem, contrai-se sobre os terrores que ela própria criou. O Papa, para evitar a sida, sem falar de outros casos onde a atitude é semelhante, defende a abstinência e a fidelidade. Mas esta posição cria fracturas entre os católicos, porque o pensamento humano não pode recuar dessa maneira, ainda que os valores citados podem ser estimáveis noutros contextos. Alguém disse que, se o Papa estivesse empenhado em evitar novas infecções, deveria concentrar-se na difusão do preservativo e na pedagogia sobre a sua utilização, não sendo este, aliás, o único processo capaz de fazer parar a investigação.
Há outras batalhas a travar pelo Papa: a espiritualidade passa também por defesas contra os conflitos regionais, outras doenças, as crianças subalimentadas, os corruptores agindo generalizadamente, os traficantes de drogas, o ambiente, o clima. Quem é este Papa que parte para África cuspindo o preservativo, como se não houvesse, a par da sua admissão e boa aplicação entre os povos, outros problemas naquele Continente a que a Igreja tem o dever moral e espiritual de prestar correntes de auxílio, trabalho e não liturgias fúteis?

sexta-feira, março 06, 2009

A ASSOMBRAÇÃO DAS NOSSAS INTELIGÊNCIAS


Diziam-nos na Escola que o mapa de Portugal, tendo em conta a organização sintética do seu perfil geográfico, se assemelhava a um rectângulo. Era o tal cantinho à beira-mar plantado, a partir do qual se desenvolveu o grande feito dos descobrimentos. Hoje, na Internet ou em qualquer cartografia da Europa, Portugal parece continuar com a mesma forma, rosto apontado ao Oceano Atlântico. Escapando à II Guerra Mundial, teve (na altura) de zelar pelas colónias, perdendo e recuperando. Depois daquele grande conflito que devastou os vizinhos para além da Espanha, um homem chamado Salazar, nem carne nem peixe, sentou-se em S. Bento e passou, arrumadas em boa medida as finanças, a mandar no país todo, sustentando obediências à ditadura, inventando até o abominável Tarrafal para onde exportava os piores inimigos (comunistas) e os deixava por lá a torrar até ao limite (ou além do limite possível). Fora daqui, o pensamento internacional, de uma Europa em reconstrução, assediada por filósofos e artistas, tornou-se progressista; e por esse conceito (que não seria de novo inocente) foi aberto um vastíssimo espaço, praticamente global, donde surgiram as ideias da descolonização (já), ideias logo apoiadas no terreno por gente das revoluções, movimentos de libertação, ardendo a Argélia, o Congo, os espaços ingleses, sobrando as colónias portuguesas, as quais, segundo Salazar dizia, faziam parte do nosso rectângulo, pátria pluricontinental e pluriracial.

Depois de uma guerra em três frentes, durante catorze anos, o velho político, António de Oliveira Salazar, amigo de Christine Guarnier, caiu de uma cadeira (preguiçosa) e nunca mais foi o mesmo, acabando substituído por Marcalo Caetano, cuja figura inspirava alguma confiança e ainda pareceu votada a preparar a independência das colónias. Esse tempo chamou-se de «Primavera Caetanista», rapidamente seguido de um longo inverno de adiamentos, revoltas militares, finalmente de um golpe quase pueril que tomou conta da cidade e do país, prendeu Caetano, levou-o para o Brasil, onde o exilou, aliás como o próprio Presidente da República, entre muitos afortunados com os seus contentores bem recheados de riquezas. E houve um primeiro de Maio por toda a Lisboa, vagas de cravos como aqueles que nos inundaram no 25 de Abril de 74. Governos Provisórios, Cunhal chegando em glória de faustosos exílios. Mário Soares abraçava amigos e inimigos, milhares de intelectuais e jovens estudantes desertores da guerra colonial, perseguindo Marx, Engels, Mao, formavam assembleias para tudo. Otelo, «estratega» do golpe de 25, tornou-se um democrata basista que mais parecia um César montando a sua quadriga, conquistando com os trabalhadores os latifúndios, ao desbarato, oupando casas vazias ou meio vazias ou mesmo simplesmente fechadas, tudo isso entre «intentonas», boatos, o chamado golpe do 11 de Março, contra-revolucionário, os comunistas a entrançar a sua rede de fios de aço e disposto a chegar, custasse o que custasse, ao poder, farol de todos o amanhãs que cantam. A aventura, no terreno, tropeçou ali por Monsanto e um militar desconhecido, Ramalho Eanes, em arranjos com o general Costa Braz, então presidente da República no célebre 25 de Novembro, resolveu tudo numas escassas horas - talvez o primeiro momento da crispação e da quase revolução em que o rectângulo de Portugal se tornou mais pequeno e mais compacto: de rectângulo passou a quadrado.


Chegou então uma espécie de apocalipse, político, social, de projecto: setecentos mil portugueses que viviam nas colónias, perante independências arrasadoras, tiveram de retornar a Portugal através de uma ponte aérea ou de outras formas, todas elas, em geral, reduzíveis a crónicas de horror, mágoa e lágrimas. Mas isso já não importava a pós-universitários, artistas de vanguarda, literatos, homens da resistência, vítimas de Salazar e da PIDE. Floresciam cravos, as finanças (ainda cegamente) esbanjavam sofridas «igualdades». Entre as bolhas de festa e os ricos logo mais ricos, a classe média, enviando os seus meninos à boleia dos combóios da Europa, para conhecerem gente e perderem a virgindade, acorriam ao Algarve pré-turístico; e em breve, como se vestissem plumas, viajavam por esse mundo fora, Brasil, Patagónia, Canárias, Espanha irmã, a França do Centro Pompidou. Aliás, e em geral, primeiro foi a Europa. E mais tarde coisas menos recorrentes - Tailândia, Índia, China, a própria Rússia. Uma das personalidades pós-emergentes, Pacheco Pereira, tirava férias (como num livro de mistério) para ancorar lá para os lados da Tetchénia, velando pelos restos da história nesses espaços tarkovskianos - e batendo, à chegada, em tudo o que fosse poder. No programa Flash Back, na rádio, ele interrompia tudo e todos, sem o menor sentido deontológico daquele espaço da palavra, lugar da livre expressão (o que não quer dizer desordem). Para interromper os companheiros desatava a dizer as primeiras palavras da sua interrupção. Assim, por exemplo: «Eles tiveram... Eles tiveram... Eles tiveram... Eles tiveram...» sempre até à ruptura e os outros abandonarem falas inacabadas. E então: «Eles tiveram os amigos debaixo de olho, bem mais apurado do que o olho do colega José de Magalhães (ainda não havia computador do mesmo nome): foram colocar-se atrás da cortina do PS, ouviram o palavreado esticado à direita, e desceram a plateia agitando bandeiras do PSD-PP. Os meus amigos sabem que, contra a retórica do pântano, essa atitude, em vez de demagógica, tinha toda a legitimidade revolucionária» «Está a brincar».«Não estou nada a brincar». Magalhães protesta. E o Pacheco: «Isso não interssa nada, não estamos a falar de informática, você informatiza a assembleia e ficamos submersos numa osmose de vírus». «Não é nada disso». «É. É. É. É.» Alguém conseguia falar: «Não é, não senhor, é um acto de arrogância e um reles desprezo pelos adversários políticos». «Mas eles disseram que, mas eles disseram que». «Que porra meus, senhores: o quadrado estava mesmo formado». Cada vez éramos menores, e os meios da comunicação sociais, quadrados e rombóides, geravam comentadores políticos por tudo quanto era canto, menos, em todo o caso, os treinadores de bancada do futebol e os Mao Tsé Tung das claques desportivas que já tinham farda, dragões, armas, associações e até sindicatos».


A polícia não sabia quem era esta gente mas já se sentia determinada a arranjar um sindicato. E os juízes também. Os juízes ajuizando devagar, entre montanhas de papel e nenhum computador. Não foi por acaso, além do mais, que Pacheco Pereira, tão badalado como Santana Lopes mas por outras razões, se meteu noutro quadrado, o do círculo, na televisão, onde funga mais lento, mais gordo, mais ancestral, arrastando as palavras numa espécie de cuspo contínuo que escapa da sua boca sem parar. O colega do CDS, companheiro indefectível, apanhou-lhe o barroquismo da retórica, tudo está mal, o Sócrates tem de ser investigado. Freeport anda no ar, foi mais um vírus criado para a época de eleições. Quando Sócrates acertava com o martelo na cabeça de um prego (ui!), eles andaram um pouco à nora. Agora aí está tudo de novo, bem preparado e a horas. As vozes dos corredores conventuais dizem que o Sócrates nunca teve ideias. Nem licenciatura. E é arrogante. Os tiros de barreira contra o governo, de gente que fez parte de não-governos, vieram acompanhar o básico (muito táctico-estratégico) de Ferreira Leite, ilustre senhora que comanda o PSD. No momento em que ela começou a balbuciar (nunca falou no déficit de 6.8) logo disse: «Este homem não tem estatura para primeiro ministro, gere a coisa pública ao contrário, será ele, não o salvador do país, mas o «coveiro» da Pátria.

Frases assim, maldosas e quadradas, pecam por ilusórias auto-estimas, a língua da senhora, daí em diante, já cortava a relva do governo rente ao chão - nada presta, nem os restos. Ela esquece as fracturas do seu partido, isso é coisa de outros, sinal do unanimismo. Discutem minudências na Assembleia, suspeitas, erros de contas, cêntimos a mais na algibeira daquele ou daquela. Uma palavra mais pesada. Os escândalos dos bancos BPN e do outro, dos ricos, BPP, onde foi descoberto um buraco negro que pode absorver tudo o que resta de nós. Manuela quer poupar, nada de obras públicas, uns biscates aqui e além, baixa de impostos, auxílio âs pequenas Empresas, pequenas Empresas, pequenas Empresas. O Rangel ruge por eles, um garoto aprendiz também, são o futuro do Partido. E o Sócrates já não sabe onde esconder tantos dos seus crimes, derrapagens, as ideias fogem e toda a gente diz que ele não faz nada nem há dinheiro para nada. A crise é global, mas o país devia ter previsto tudo porque tem bruxos para isso. Paulo Portas, de grande oratória e um tique de cabeça que parece vindo da Revolução Francesa (a do cinema, claro) está abaixo nas sondagens. Mas oprimeiro submarino onde ele gastou uma pipa de massa (era o TGV dele) vai servir-lhe para uma viagem inaugural, como capitão Nemo. António Costa responde aos parceiros. Os parceiros não sabem como se ouvir uns aos outros.



«Oiçam bem, não podem dizer que nada funciona. As leis são entregues ao Professor Cavaco e eles veta-as. É
um direito que lhe cabe. Vá vetou oito Decretos-Lei. Cavaco, saindo da bruma dos seus tempos, agora conduzindo um Audi, continua a não ter dúvidas mas admite que por vezes se engana. Jerónimo, o vermelho desbotado da longa existência, mantém ordenadas as suas hostes e é bom de ver aquele comité central tão parecido com uma escola cheia de meninos atentos. O Bloco de esquerda não lhes quer nada. É um Bloco que começa na menina agrimensora, morena, de olhos escuros e palavra rápida, e termina, por agora, no púlpito do Louçã.» Que líder! Vão por ele, dizemos nós, irresponsáveis, porque o Bloco é que está a dar. É chic. É solto. E tem a grandeza de alma para declarar que, mesmo que ganhasse a maioria absoluta, não assumiria o poder. A sua vocação é a política. Mas a Ferreirinha do «Eixo do Mal»,onde, mais do que nas «Noites da Má Língua», acompanha uma gente alienígena que bolsa palavras como sopros de ar, ou vómitos retidos, vozes sobre vozes, esgares de crítica sem montante nem jusante, todos simpáticos mas sem perceber nada do boi de que falam. A Clarinha viaja e escreve bem: não devia estar naquela «Coreia» omde nunca se saberá, entre as coisas nada aceitáveis que os colegas dizem, quando surgirá UMA, uma ideia apenas, que saibam sintetizar e analisar. Aquilo assim é muito rasca e absolutamente tolo e absolutamente snob. Eixo fedorento.

Veja este rosto sereno, Eduardo Moniz. Veja o que a gente vê. Eduardo Moniz, génio da TVI, devia misturar estes programas todos, com uma telenovela pelo meio, daquelas que arranja com bons actores e boa produção, embora feitas de intrigas e maldades verdadeiramente impensáveis. Ó homem, veja se conserva sempre algo de muito semelhante a «Olhos nos Olhos». E trate da redacção do telejornal: você está mesmo convencido de que o povo português quer tanto molho de desgraças, crimes e massacres à hora do jantar? Essa pornografia devia ir para o fundo da noite, não os bons filmes, ou bons ou razoáveis. Ver um filme até às 3 da manhã. A lei devia regular isso: porque quem faz a verdadeira censura ao normal senso de cultura são vocês. Todas as televisões fazem o mesmo, com aquelas manhãs pirosas, com aquelas notícias repetidas, com aquelas tardes (das Júlias) e o esmagamento da nossa sanidade mental, sob o peso dos comentadores de futebol. Dizem que se gastam 300 horas de emissão por mês só com o futebol. Ainda por cima não há futebol em Portugal, não se disputa a bola com precisão de passe e cruzamentos de avanço: joga-se ao pontapé às canelas, preónios, tendões, mãos agrrando a camisola do adversário e árbitros todos incompetentes e corruptíveis. Moniz deve dizer à Manuela Moura Guedes que, além de se apresentar pelo nome, deve ler o ponto sem ironizar notícias, situações governamentais ou similares, a querer palmilhar a língua breve do Sousa Tavares. Ah, o Equador. E o Vasco Pulido Valente a arfar um «péssimo», um «não faz sentido, toda aquela assembleia, assim medíocre». Eis a razão do quadrado.
Daqui a um ano, se for vivo, direi o resto e o que me dizem para dizer: estive a contar e são, pelo menos, cem páginas sem Pachecos, rangers, bloquianos. E tudo mais ou menos com as personagens assim, embora haja hipóteses de que os melões do poeta Alegre sejam apenas performances para se candidatar a Presidente da República.
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texto segundo a voz popular e a rede política.

DE RECTÃNGULO A QUADRADO

domingo, fevereiro 22, 2009

FALECEU MESTRE LAGOA HENRIQUES

Prof. Escultor Lagoa Henriques

Tinha 85 anos. Serviu a cultura e o ensino artístico, com ardor e um entusiasmo quase pueril, durante mais de meio século, acompanhando os processos da vida, os métodos da descoberta, a natureza poética do traço em belos sentidos de deriva sobre o papel. Acompanhei muito o seu trabalho, enquanto artista e professor, em Lisboa, antes da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa ter sido integrada, como Faculdade, na Universidade dita clássica. Ele saira antes, inconformado com os arrastamentos dos governos, num apelo por programas de televisão, temas sobre lugares e gente na margem, uma didáctica simples, feita do seu modo de representar a própria invenção da fala, entre metáfora e devaneios narrativos sobre as imagens. O mundo deslumbrava-o, e as coisas, e os restos, e as recordações da mãe, entre fotografias e pequenos objectos que povoavam, um pouco por toda a parte, a sua casa, dentro do próprio atelier. Casa alcandorada, pisos de madeira, salas intimistas, abarrotando das mais insólitas memórias da sua apetência pelo achamento de novos sentidos aqui, e em plena praia, ou além, numa viagem meio bizarra. Ao acabar as suas séries televisivas, um pouco traído nesse sonho, já não tinha a sua Escola e os seus alunos, um auditório atento, olhos de espanto perante a invenção dos gestos explicativos, dos arredondamentos, da graça e da ponderada gravidade do encadeado das frases. Retomou, apesar de tudo, a actividade do ensino nas Universidades privadas, procurando conservar a sua verdade pedagógica e a visão poética dos seres.
Era um mestre do estar, um praticante da viagem interior, comovido cultor de afectos.
Na notícia da sua morte, alguém escreveu por ele:
«Adeus, até sempre que é o tempo certo.»

terça-feira, fevereiro 10, 2009

VIDA IMPÚDICA E PÚDICA DO DITADOR SALAZAR



Olhamos para a figura severa, num palácio nocturno, e reconhecemos logo a figura do homem que governou Portugal durante 48 anos, em ditadura, o povo amordaçado, rédea curta, polícia política nas esquinas do nosso descontentamento. Não era figura com quem se brincasse e toda a gente acreditava no seu viver solitário, mandando em tudo do centro da sua casa de S. Bento, a polícia e os ministros. Uma governanta de cutelo servia-o e e ajudava-o na disciplina destinada aos agentes da PIDE que tratavam da segurança do forte de S. Julião da Bara, onde gostava de passar as suas férias, ver a horta caseira, fazer a sexta e ler. Muitos falavam de uma grande paixão que o acometera nos tempos de Coimbra, coisa que derrapou, assim ficando tão só como disse Christine Garnier, na sua visita longa e seu amor tardio. Quando ela partiu (estava a escrever um livro, «Férias com Salazar»), o carro rolou devagar e ele ficou a acenar da porta. Ela escreve isso mesmo. E terminou com o célebre período de uma palvra apenas: «Só»
Ora acontece que, depois de ensaios televisivos mais ou menos históricos, de época, o último dos quais tem sido o EQUADOR, escrita imprópria para a oralidade, trechos secos e pequenos, os actores como gente do teatro amador, debitando pouco e movendo-se como se houvesse um risco no chão, a SIC enfia-nos pela garganta uma inacreditável «Vida Privada de Salazar», coisa sem sentido nem verdade, pior que todos os filmes feitos sobre o milagre de Fátima. A produção, no Equador, apostou no cenário. Grandezas. O director cortou aos actores todas as deixas e a fluência dos racords. É teatro e teatro a mais. No caso de Salazar é mais ficção do que outra coisa, com um actor (que conhecemos do seu mérito nas novelas) mas que, através da sua juventude carregada da lama na pele, sem nada de parecido com Salazar, sopra o que pode para alguns comparsas conhecidos, atura a D. Maria, mas desde cedo caiem-lhe no colo mulheres lindíssimas, em actos de amores perdidos, ele bem vestido, beijando como um galã tímido. Meus senhores, que diabo de coisa é esta? Como é que se faz um trabalho que fica a milhas do já discutível Amália?


Na hora da morte, que deixou de começar com a queda de uma cadeira «preguiçosa», sendo substituída por um tempo meio omisso da queda na banheira, o homem que está na água, e quando nos calha ver um raro grande plano da personagem, não é nem o actor nem o Salazar: é a máscara de Marlon Brando, sem tirar nem pôr, rosto que Copola apadrinharia com todo o gosto.











Irene Pimentel, uma historiadora credível, arrasa a série sobre Salazar. E seguimo-la no jornal «Diário de Notícias». Segundo o que diz, só o diálogo com o futuro Cardeal Cerejeira e a proibição da família Perestrelo que, por razão de classe, impede o relacionamento entre o jovem Salazar e a filha Julinha, têm rigor histórico. Esta é a opinião da historiadora Irene Pimentel sobre a estreia, no domingo, da miní série da SIC «A Vida Privada de Salazar». São dela as seguintes palavras: «Achei a série altamente especulativa. Duvido muito que muitas das histórias contadas se tenham passado de facto» Irene Pimentel afasta-se da condição de crítica de televisão. Mas a verdade é que aquilo não se trata de televisão, nem de cinema, é um subproduto que chega a envergonhar algumas das novelas que já somos capazes de fazer (repare-se em «Olhos nos Olhos»), descontando a piroseira infecciosa dos roteiros, histórias impensáveis, arrastadas, próprias para uma forte punição e despedimento com justa causa. Salazar não é Salazar, mesmo que fosse capaz de rebolar na cama com mulheres tão estereotipadas. O actor está sempre a dar tiros no pé. Não digo que ele tivesse de ser a máscara de Salazar. Mas poderia sugerir. E, ainda por cima, é um jovem talentoso a pisar a casca de banana, que investigou fontes obscuras do ditador e não sabe nada daquele Portugal, aliás bem ausente da composição de interiores e exteriores.








Irene Pimentel considera que os «diálogos são pouco ricos». Não são diálogos, argumentamos nós. E de facto as figuras de 1905 não falavam assim, não se vestiam assim, não se movimentavam assim.
Esta ímpia apresentação, cena após cena, tem uma forma (mesmo na inexorável patetice dos momentos) inadequada a contextos e tempos. De resto, como o sotaque lisboeta das meninas da Beira, ao menos em honra da figura do impúdico Presidente do Conselho e sua voz desde cedo esganiçada - «a Nação não se discute e a Pátria nao está à venda».
Salazar não morreu de forma trágica como o filme sugere, um «padrinho», pesado e nu, a ser escorregadiamente amparado pela governanta e uma criada. Os jornais foram comedidos e alguns (censurados) tentaram descrever a queda da cadeira numa jeito algo ridicularizado, em contraste com a pose de Estado que Salazar assumia nas poucas vezes que aparecia em público. Depois vêm os incautos tapar-nos os olhos com a peneira, porque nem uma obra destas o Presidente do Conselho merecia, o homem que fez as guerras coloniais e transigiu com os males (e mal entendidos) da polícia política. Nuno Santos, director de programas da SIC não quer perceber que a aventurazinha desta vida de Salazar, além de ficcionada até ao ridículo, só passa por um rol insensato de relacionamentos do político com mulheres (assim?), «sem qualquer contextualização histórica, sem nenhuma ideia da importância política do António Salazar no século XX português. Tudo é desleixado e alguns actores, que representam gente que existiu, são, como a própriia figura deste Presidente do Conselho, ensurdecedores erros de casting.




Jorge Queiroga, realizador da série, classificou os resultados alcançados como «excelentes». É inconcebível. É assim, que gente assim, em nome de audiências opacas, prestam serviços ao país, actos redutores e cada vez menos classificáveis. O pobre actor que teve de fazer esta cena na banheira, parece-se muito mais com Marlon Brando do que com Salazar. Este recorte da cena, reinventado aqui e partindo da imagem do filme, mostra à saciedade o trabalho patético assim desenvolvido. O duvidoso «Primeiro Português de Sempre» (do concurso televisivo) recebeu de Queiroga esta púdica e impúdica homenagem.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

CARTAS DE AMOR | PESSOA PINTADO POR POMAR

Pessoa pintado por Pomar


Terrível Bebé: gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo e o Bebé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque é que havia de gostar, e isso mesmo, e tudo torna ao princípio, e parece-me que ainda lhe telefono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na boca, com exactidão e gulodice e comer-lhe na boca os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu ombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e porque é que a Ofelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gás e expressão geral de não estar ali mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé fosse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece impossível ser escrito por um ser numano, mas é escrito por mim.


Fernando Pessoa (1888 - 1935) para Ofélia Queiroz



Júlio Pomar no seu atelier

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

GIL TEIXEIRA LOPES: SOPROS DE VIDA

Gil Teixeira Lopes SOPROS DE VIDA

Gil Teixeira Lopes expõe (13 de Fevereiro), no Centro Cultural de Cascais e apoio da Fundação D. Luís, um conjunto de suas obras suas a que, neste caso, confere o título SOPROS DE VIDA. Como já é habitual neste autor, a força da sua obra pictórica faz-se acompanhar de ensaios e peças de escultura. A História terá de reiterar a importância e o colossal vigor do trabalho deste artista, professor catedrático jubilado de Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. E é ainda preciso fazer apostas destas perante os opacos silêncios que, em Portugal, sufocam a voz de artistas assim, algumas gerações que marcaram a arte contemporâmea portuguesa até aos nossos dias e que uma certa crítica recente, sem memória, presa a uma aprendizagem mimética das vanguardas acentuadas sobretudo a meio do século XX, espectáculos muitas vezes não mais que redutores, a par dos exemplos maiores a quem foi permitido que atravessassem a fronteira dos anos 80. Os jovens passaram, em muitos casos com justiça, a ser tutelados (ou mesmo orientados) por tal crítica tecnocrática; mas o excesso de informação consumista diversificou falsas originalidades, procurando o dogma e o esquecimento de todos os passados. Muito mecenas, algumas instituições, que absorveram alguns críticos como curadores, abriram imensos caminhos aos jovens. Há jovens em todas as veredas da busca, novas galerias, bienais, feiras, lojas do devaneio. Os grandes autores vivos do século XX português são ostracizados, por vezes escandalosamente, como sempre aconteceu com o pintor Gil Teixeira Lopes, Grande Prémio Internacional de gravura, obra que deveria ser revista e explicada justamente aos jovens. Sobraram Júlio Pomar e Paula Rego. São cumprimentados casos intermédios mas apoiados, como Graça Morais, Cabrita Reis, Angelo de Sousa, entre alguns outros. Hogan foi devidamente compensado quase a título póstumo. Querubim Lapa não tem rosto. Artur Rosa fotografa a Helena. Júlio Resende está lá para cima. João Abel Manta não é solicitado. E tudo o que era preciso rever, comparar, mostrar o que é isso da evolução das formas em autores que já faleceram mas deram importantes contributos para o próprio século XXI: Sá Nogueira, António Charrua, D'Assumpção, Bual, Menez, Eduardo Luiz, Costa Pinheiro, António Areal, José Escada, Manuel Baptista, Jorge Pinheiro, uma galeria imensa de já falecidos e outros ainda vivos, cuja obra teve circunstancialmente um sucesso por vezes mitigado e aos quais teria certamente de pertencer Gil Teixeira Lopes. Ao superar, durante anos, um enorme sofimento com cirurgias ao coração, refém da morte próxima, Gil conseguiu fazer um transplante cardíaco, lutar de novo, não parar nunca, e aí está o testemunho cujos êxitos são genuínos e os fracassos próprios de quem corre riscos e nunca cede, nem à doença. O gosto telúrico desta gravador/pintor, desenhador, escultor, pode ser acusado de ampliado na retórica. Mas então veja-se o modo de criar na Renascença e a reabilitação transformista dos maiores mestres da modernidade. É preciso que se saiba, de uma vez por todas, que a arte portuguesa contemporânea não se divida em dois compartimentos intransitáveis: antes dos anos 80 e depois dos anos 80. Mesmo no domínio da opinião, a ganância em efeitos como os que vemos, agora, em volta, pelo mundo inteiro, desconstrói o mundo, esconde os valores, faz do excesso a pequenez do animismo recente.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

EUTANÁSIA: O HOMEM E DEUS


Uma figura de relevo da Igreja Católica, em declarações reiteradas, tem insistido publicamente que o Holocausto não passa de uma manipulação contra a História, nunca aconteceu, devendo estimar-se em cerca de duzentos ou trezentos mil os judeus mortos nas repressões e incidentes da 2ª Guerra Mundial. Personalidades de todo o mundo, e de muitas áreas do pensamento humano, têm, por sua vez, protestado com laminar indignação perante este incidente que já nem cabe no que de mais retrógado persiste nas próprias elites do Vaticano. O silêncio de omissão mantido pelo Papa vem, mais uma vez, ensombrar o seu pontificado: o que se lhe exige é o cumprimento do seu poder sobre a hierarquia dos seus cardeais e bispos, entre o rigor das atitudes e a sensata ligação delas ao senso dos cléricos no seu território evangelhico. As vozes insistem em que o Papa repreenda o pronunciante, as suas palavras, a sua distorcida visão da História e do mundo. Tarde, sem maiores consequências de esclarecimento para com a sua comunidade religiosa, julga-se que o Papa terá, enfim, proibido a propalação daquele discurso sem base no mais sólido conhecimento adquirido e provado sobre aquele aterrador crime contra a humanidade. Será que devagar se vai ao longe? O Papa será um precioso teólogo mal assessorado por entidades humanistas? Como é que o mundo poderá tomar contacto mais ilustrado e visivel com as posições de Bento XVI em circunstâncias desta natureza?
Eluana sofreu um acidente de viação há dezassete anos, tendo ficado inutilizada para esta vida a que chamamos de humana e pela qual a ciência se tem batido estoicamente, obtendo resultados cada vez mais avançados, num assombro tal que os seus intérpretes chegam a cometer actos de tão grande quanto absurdo zelo. Primeiro com a conivência da família, agora já perante o desespero de comunidades inteiras, os médicos têm mantido a vítima, durante todo este tempo de dezassete anos, ligada às máquinas e por tanto em estado vital, letárgico, sem qualquer percepção das coisas e de si própria, um sopro mecânico capaz de simular, em sinistro prodígio, a aparência do sono.
Sempre que este assunto se coloca às sociedades, perante casos hediondos de sofrimento e de «prolongamento» dos sinais vitais das vítimas, nada ou apenas isso, mesmo perante casos de morte cerebral confirmada, a maior parte das pessoas vinculadas à religião, no nosso caso a Igreja Católica e a sua insustentável concepção do Universo, reagem muito mal à paragem de assistência mecanizada, com ajuda suave para evitar longos e inúteis sofrimentos em indivíduos cuja morte não está a ser anunciada, está a ser camuflada. Esta atitude é hoje impensável e alguns casos célebres, sobretudo de um tetraplégico em Espanha, despertaram a reflexão sobre a vida e a morte, a relação entre o homem e Deus. A Igreja, que condena o aborto mesmo em casos muito controversos, que renuncia a todos os métodos contraceptivos insinuando a mera funcionalidade reprodutiva dos casais, também aqui, sem base nos pressupostos teosóficos, éticos, humanistas, e mesmo apenas religiosos, se opõe a qualquer prática de eutanásia (rigorosa e assistida) para que os casos de mortes arastadas e de um sofrimento clamoroso sejam evitados.
Muitas perguntas se podiam fazer aqui. Porque há decisões deste tipo que são contraditórias, dos
próprios princípios sobre a vida, sobre a solidariedade, sobre os direitos humanos em ordem à qualidade da vida e do próprio prazer. Se o casal constituído por um homem e uma mulher, rejeitando todos os métodos contraceptivos, excepto aquele que se diz natural (Ogino), procura dar ao mundo filhos desejados e nunca o consegue por causa de um incidente de infertilidade feminina ou masculina, que diz a Igreja a estes exemplares seguidores da doutrina? Há sempre a inacessível máxima que nos assegura «serem insondáveis os desígnios de Deus». Num caso destes, em certa aldeia no norte da Europa, o padre consultado poderia ter respondido: devem comportar-se consoante a lei de Deus, apesar do vosso incidente, o qual a Deus se deve. Já ouvi contar esta história passada no Alentejo (é lá que tudo tem o contexto sócio-cultural adequado, diz a maioria dos falantes). Nesse caso, o padre consultado disse apenas: «desenrrasquem-se.» E os «pobres de espírito» insistiram: «Mas a gente não sabe desenrrascar uma coisa destas». O pároco, de nariz avermelhado, agora com ar mais bondoso, disse: «Em verdade, como sabeis, os casais, com a regra da Natureza ou a abstinência, cumprirão uma procriação limpa de pecado e apoiada pelo senhor. Mas como vocês não podem ter filhos segundo a regra, isso significa certamente que Deus os presenteou com uma vida conjugal feita só de prazer».
Ali perto, nessa zona, havia um rapaz que tratava sozinho da mãe, cuja vida se reduzira a uma respiração incerta e muda. A senhora sofria imenso, gemendo todo o tempo, e o filho, ao ouvir falar na eutanásia legalizada na Holanda, também resolveu consultar o padre. Este explicou-lhe, pelas suas próprias palavras, naturalmente enviesadas, escudadas pelo pecado, em que consistia a eutanásia. O rapaz coçou a cabeça e perguntou ao seu pastor: «Então, se a minha mãe está a sofrer tanto e já nem vive, só respira, os médicos podem deixá-la morrer devagarinho, sem dor?» O padre ergueu as mãos e colocou-as, com força, sobre os ombros do moço. Então disse, com forte determinação: «Não, meu filho, médicos são homens como nós. E isto não é um caso que caiba aos homens. É só tarefa de Deus»

domingo, janeiro 25, 2009

O POETA E O POLÍTICO, PERPLEXO

Manuel Alegre, poeta antes de tudo, espírito cuja vontade política se tem vinculado ao Partido Socialista, tem ultimamente atravessado, não um deserto, não uma anhara, mas uma certa invernia belicosa, inusitada e chata. A perplexidade tem tomado conta do poeta, aceno de criação próxima ou apelos das esquerdas coloridas. A verdade é que Manuel Alegre tem sido um importante protagonista da vida nacional, entre os factos da glória abrilista até essa hora em que se candidatou à Presidência d República, acabdo por somar um punhado de votos razoável, pérolas para negociar entendimentos e os sinuosos asssédios da esquerda. Tais forças sonham com um partido, o poeta a presidi-lo. Com a sua nobre presença no hemiciclo da Assembleia da República, Alegre está feliz e perplexo ao mesmo tempo. Não pode deixar de lembrar-se do PDR, aventura de Zenha e Eanes. E isso mais o impele para segurar bem a cabeça, rasurando breves declarações. Contudo, ali no seu canto, vai mandando (da esquerda gráfica e bem pensante) algumas setas ao palco do poder, deliciando-se certamente em pensar pela sua mesma cabeça e votando a suspensão do estatuto de avaliação dos professores, novelo imenso inventado pela inamovível Ministra da Educação, fístula do Sistema, método sinuoso e de discutível utilidade científica.
Sócrates, Primeiro Ministro cujo plano já deu frutos em fábricas de componentes sofisticados, já em exportação para 47 países, foi apanhado pelas ventanias da globalização e pela língia viperina de institucional Manuela Ferreira Leite (PSD). O homem tem algumas virtudes, entre as quais a determinação. O destino foi-lhe adverso: o universo financeiro e económico do mundo inteiro, em tempestade apocalíptica, espalhou no caos as peças do velho xadrez lusitano. O Primeiro Ministro tem um barco de pequeno calado, o que aumenta riscos de naufrágio, e tem ainda, pelo que lhe resta, um duelo de cavalheiros com Alegre e, sem contar com mais uma cabala na orla do imobiliário, Sócrates tem de contar com a sentença ensurdcedora ditada por Manuela Ferreira Leite, que o designa assim, crispada e arrogante: «Sócrates não é o salvador da pátria, mas posso garantir, com toda a certeza, que é o seu coveito»
Manuela não tem jeito para a poesia, como se vê, e estes palavrões não auguram nada de bom para uma gestão moderna e pontes de colaboração. Coisas assim inundam no exemplo do Eixo do Mal (TVI) onde os participantes, que sabem tudo e como fazer tudo, desatam em algazarra e graças de uma qualquer encenação snob, chiquérrima intelectualmente. Coveiro de Portugal? Em 2009? Donde vem esta conversa? O Alegre devia chamar a si um aceno pertinente, de mão em cutelo. Esta delicada caricatura do poeta, além de se interrogar sobre futuros partidos e jovens cantando e rindo com as suas fardas e bandeiras verdes, devia soletrar admoestações aos que maculam a dignidade dos outros e procuram enterrar a verdade poética. Nesta imagem singular, desenho de um excelente autor português que já citámos atrás, o poeta está perplexo. Ora a Pátria enche as páginas da sua obra poética er não é justo que ele, tantas vezes empolgado nas lides da revolução, apague a sua voz forte sem desfazer o equívoco de certas metodologias políticas: Coveiro da Pátria? Há grosserias que um poeta não deve ignorar.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

VISCERAIS COMENTADORES DE BANCADA

Considerando o que tem sido afirmado ultimamente sobre Barack Obama e a sua candidatura a Presidente dos Estados Unidos da América, bem como a agudização do entusiasmo por esta personalidade e pelos seus recentes discursos, havia ontem, dia da tomada de posse no cargo alegadamente conquistado com inegável mérito, grande expectativa quanto ao que iria dizer o novo Presidente à Nação e ao Mundo. Em estado de disponibilidade perante a cobertura televisiva que se desenvolvia, ouvi as palavras de Obama e achei-as apropriadas, de uma abrangência forte e até dorida da América, sobre a sua natuureza e o seu poder, além da bem caracterizada esperança na força humana do país para vencer a crise em que se encontra mergulhado. Palavras de esperança, forma cativante, humanismo bem expresso.
Estas impressões, que hoje me foi possível confirmar nas traduções do jornal, pareceram-me, na altura, de uma inteligente obviedade, peça de oratória calorosa, com diagnósticos sintetizados e logo projectados na largueza enunciadora de uma grande convicção no futuro.
Contudo, ontem, pouco depois do discurso e com os seus comentadores a postos, os canais de televisão portugueses abriram debates sobre o acontecimento. Os comentadores nascem como cogumelos e, neste caso, havia dois que nunca tinha visto. Língua não lhes faltava, sem parcimónia nem cuidado analítico. A «ferida» era fresca, as palavras mal tinham acabado de chegar até nós. Mas aquele senhor, aliás como outros que o meu espanto foi solicitando, abocanhavam a prestação de Obama, considerando-a menor, generalista, cheia de lugares comuns, incapaz de ultrapassar o já visto, pobre na alusões a qualquer projecto palpável. Era uma torrente de certezas críticas que só tenho podido apreciar frequentemente após os jogos de futebol. Já nas bancadas, os amantes daquele desporto, assumem credenciais de julgadores, de árbitos, até mesmo de treinadores, quer quanto às escolhas, quer quanto às tácticas. No caso do discurso, ontem, as bancadas tinham enviado comentadores de política (ou temas similares) para os estúdios. Esta natureza azeda e de espúrios convencimentos tem vindo a afirmar-se entre nós, talvez por causa da crise, ou porque os temas sobre as finanças e a economia, na actual incerteza dos números e dos desastres, haja implementado o espaço oferecido aos oportunistas, aos ouvidores, inquisidores e ministros de sentença. Eles aí estão. Mesmo que eu não tivesse percebido nada das palavras sonoras de Obama, ouvir estes críticos só críticos em negatividade, tão apressados e tão convencidos, acabaria por me convencer da minha esperteza, maior do que a deles, alegadamente.

terça-feira, janeiro 20, 2009

JANEIRO, 1980: PATRIMÓNIO NACIONAL

insularidades

Portugal é rico em patrimónios deste tipo, na sua traça final, ao abandono. Este trecho de um rua inteira, resultado de tremor de terra que ocorreu nas ilhas Terceira e Graciosa no dia 1 de Janeiro de 1980. Ninguém pensava que o horror de 1973 se repetisse. Mas aconteceu. Morreram 71 pessoas, houve 400 feridos, e mais de 15 mil pessoas ficaram se abrigo. Rui Ochôa, que se encontrava nos açores, escreveu ara a revista Única que mais de 8o% dos edifícios de traça renascentista ficaram destruídos. A tragédia dava lugar a uma profunda desolação semanas depois da catástrofe. Igrejas, edifícios públicos e habitações sucumbiram a um sismo de 7,2 e tudo indicava que os açoreanos teriam de esperar, entre dores, muito tempo dedicado à rconstrução. Muita população via, uma vez mais, as suas casas destruídas. A emigração para a América colocou-se, de novo a muita gente. Há sequelas, para memória futura, que ainda assinalam o horror daquee dia: eram 16 horas e 42 minutos,

domingo, janeiro 18, 2009

PERGUNTA INQUIETANTE DE MIA COUTO

E SE OBAMA FOSSE AFRICANO?

A partir da época em que conheci aceitavelmente o escritor Mia Couto, nas suas presenças, na sua obra, entre notícias de amigos e colegas, fiquei sempre com a ideia de que ele era um interessante contador de histórias, um surpreendente inventor de palavras, e isso deu-me também a noção de um trabalho antropológico, de um olhar do branco africano capaz de se filiar, pela cabeça e pelo coração, no contexto de Moçambique mais profundo. A verdade é que à medida que ele se notabilizava, viajando frequentemente a Lisboa e mantendo aqui contactos de influência (não estou a falar de tráfico), o retrato que eu fazia deste autor ganhou prolongamentos e próteses intercontinentais, começei a vê-lo, sobretudo por vias mediáticas, por vezes até à saciedade, como entidade capaz de ter um pé em África e outro na Europa, particularmente em Portugal, onde a sua fama tem feito com que instituições várias tenham preterido criadores portuguses, de inegável mérito, a favor de Mia Couto. Há muitas razões para isso, algumas eventualmente louváveis, e por certro as sequelas da memória colonial, das guerras, entre sentimentos de artistas por lá abandonados ou minimizados apesar da vontade de os tornar parte do espaço lusófono. Devagar, e muito depois de Mia Couto, chegaram outros, Pepetela, Rui Carvalho, vários, incluindo a comunicação via Internet.

Que faria Obama em Moçambique?

Mia Couto publicou (ou publicaram-lhe) um oportuno artigo na revista/única (17.01.2009), sob o título E se Obama fosse africano? A redacção da revista publica uma pequena nota que diz ter o escritor moçambicano assistido com reservas às reacções eufóricas com a vitória de Obama (presume que em Moçambique, ou África em geral). A desconfiança é justificada porque, como dizia Franz Fanon, a passagem súbita de populações ocupadas e primitivas à contemporaneidade (na sua expressão técnico-cultural) provocaria grandes tragédias e difíceis assentamentos de identidade. Se a descolonização portuguesa foi lenta e desatrada, as outras todas (muito resultantes de concepções desemcadeadas após o termo da segunda Guerra Mundial) não evitaram sequelas por vezes hediondas. Os regimes nacionais, um pouco pouco por toda a parte, em África, cristalizaram em ditaduras impensáveis e prioridades militares paralisantes, as guerras civis e tribais sucederam-se e os países (que nunca lhes ocorreu alterar as fronteiras coloniais) regrediram até situações inenarráveis: a riqueza de Angola não reedifica a justiça política e social, Moçambique precisava de ter petróleo e menos insidiosos racismos. Ruanda e Uganda escusavam de consumar em três meses um dos maiores massacres da história humana (800.000 mortos), a África do Sul já deveria ter menos assassinos nas ruas, a Guiné sobrevive entre golpes de Estado e ditadores inconsequentes, o Zimbabwue pertence a Mugabe mesmo que ele sobreviva ao último habitante, o Congo, que já teve um dono inominável, desfaz-se em pedaços e carnificinas. Exemplos que não esgotam esta verificação breve.


Com mais brandura, o que se compreende, Mia Couto, aliás também preso pelo tema, reconhece esta realidade e é dela que parte para fazer a pergunta sobre Obama. Para ele Obama não teria o menor espaço de manobra em África, incluindo Moçambique, seria agredido, preso e sabe-se lá que mais. O escritor sublinha: «Os Bushes de África não toleram a democracia». A odiada América ainda consegue gerar estas ondas de combate aceitável, a riqueza de debates e de complexas escolhas. A esperança em Obama é por boas razões mas ele próprio já relativizou (no centro da crise mundial) o poder das soluções. Mia Couto conta que o Zambiano Keneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país como filho de malawianos». As raças africanas (já lá foi o tempo em que se dizia que a África é para os africanos) combatem-se a este nível, do geral ao particular, e os senhores do poder, sentados em montanhas de armamento, decretam as exclusões, as discriminações, os massacres.

Ora Obama não é africano e a sua cor de mulato também leva à exclusão, nomeadamente numa hipotética (impossível) campanha eleitoral. Hitler queria a pura raça ariana. Certos líderes em África parecem defender uma «pureza africana». O absurdo é tremendo porque os africanos são diferentes entre si, dividem-se em raças e étnias (com fronteiras erradas) e quase todas elas se hostilizam entre si. Mia Couto ameniza compreensivelmente (e com algum conhecimento de causa) a paisagem apocalíptica de África. Diz: «existem excepções neste quadro generalista» e acena com o bom desempenho de Moçambique. Se é verdade que em Moçambique não há uma guerra arrasante, muitos sabem como pensam certos líderes, deputados, senhores do poder. O verniz não isola interiores, inflamações. E em Maputo quebra-se a toda a hora, vertendo purulências nas ruas. Mia Couto, sabendo que o entusiasmo dos africanos por Obama seria esmagado à primeira veleidade (clonada) de actuação semelhante à que acabou de terminar com êxito, escreve avisadamente: «No mesmo dia em que Obama confirmava a sua condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África». E anuncia, para os próprios iludidos a antiga Metrópole: «África continua sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmuserada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo»

Este corajoso depoimento de Mia Couto termina com palavras de esperança, imaginando o tempo em que todas as entnias e raças africanas terão oportunidade de celebrar, na sua casa, «aquilo que agora festejamos em casa alheia». Só não faz a estimativa de quantas gerações terão de ser sacrificadas para que isso aconteça. Seja como for, e por isso a ferida dos que viveram África não sara, esse Continente, possível salvador de outros excessos, é ensurdecedoramente belo, fica-nos no sangue, é património da humanidade, deveria ter um destino ecuménico e nunca ser poaauíso pelo sistemas do crescimento sempre. Talvez seja consolador imaginar um não crescimento equilibrante, sem metrópoles gigantescas, nel lixos asfixiantes, nem terras apodrecidas, nem fomes e doenças aterradoras.
A Terra perdeu um minuto na sua própria velocidade de rotação.