quinta-feira, julho 16, 2009

A PIANISTA REBELDE OU OS CANTOS DO EXÍLIO

Maria João Pires

Parece que algumas das mais importantes personalidades do nosso meio artístico e cultural, zangadas com a mediocridade do país, a tacanhez dos gostos e dos governos, a falta de zelo pelas actividades artísticas, começam a ponderar o abandono deste lugar de tantos ostracismos, procurando o Brasil como terra para novos enquadramentos. Sempre tivemos este tipo de de exílios, dantes sobretudo para França, onde ainda hoje, ligados às artes plásticas e ao cinema, são referência gente como Maria de Medeiros, Bértholo, Lourdes de Castro. Coisa semelhante acontece com londres, cidade onde Paula Rego tem um ponto de ancoragem, entre outros, ou mesmo a Holanda, país arduamente escolhido por Maria Beatris para fazer carreira. Na semana passada lemos as queixas de Sousa Tavares, agora mais público e publicado, em rota de aterragem no Brasil, onde o tratam bem e não o conhecem nas ruas. Conheço engenheiros, homens de letras ou artistas, que emigraram para o Brasil, sem protecção de rectaguarda, pessoas que acabaram por voltar, não muito tempo depois, em face de se se sentirem discriminadas e repelidas polidamente pelas classes privilegiadas das grandes cidades, apesar do convívio, como altos quadros, que mantinham nas empresas com os sues homónimos. Pode ser que isto tenda a mudar. Sabemos de casos, de gente mais comum, que tem baterias de rectaguarda e não alimenta tanto a vontade de ir viver e morrer no Brasil, em nome de uma solução que a pátria desolada não lhes assegura minimamente, mesmo em Lisboa ou Porto. Maria João Pires, pianista de excelência, portuguesa por inteiro mas dotada de capacidades invulgares, talvez perto de geniais, louvada e aplaudida em muitos pontos do mundo, entre prémios, homenagens e audições históricas, é agora (também) um dos últimos casos de exílio no Brasil, país ao qual parece ter dito que pediria a respectiva nacionalidade. Trata-se de um agravo conhecido, que tem implicações mais pesadas do que as telúricas vontades de Sousa Tavares, desconfortos perante os políticos, governos, instituições desse domínio, todas e todos em geral acusados pela pianista de desleixo, a par de indiferença ou recusas quanto ao projecto que ela tinha em andamento - o Centro de Belgais (Castelo Branco), iniciativa que envolvia muito empenho de artistas portugueses e estrangeiros. Continuo a pensar que as figuras de decisivo recorte público, de grande talento e por vezes muito mediáticas, não são as mais indicadas para contraírem síndromas de impertinência no seu país, pois constituem, de facto, uma frente que tem meios de luta e que pode, inclusive, arrastar consigo admiradores, forças aumentadas, coligadas, capazes de fazerem exigências perturbantes de direito à cultura. Os anónimos, os que vivem no fundo do poço, pessoas correntes e de vida por vezes penosa, esses têm por vezes resistido (apesar da diáspora que nos representa no mundo) com sentido de associação, protesto, edificação de espaços produtivos por muitas áreas. Os artistas deveriam ter igualmente esta força, estão mais apoiados e para a sua mediatização nem sequer precisam traficar muito, como nos casos extremos, em que avançar pelas televisões é penoso, humilhante, mas conduz alguns carentes a conseguir no dia seguinte milhares de dadores de coisas várias, na grandeza e no infortúnio. Com isto não quero nem julgar nem condenar as opções de ninguém. Não é disso que se trata. A própria Maria João Pires, cuja rebeldia é amavelmente citada, cujos actos têm revelado posturas de sustentação e dignidade, também não pediu direitos de autor quando, em muito nova, preferia brincar trepando pelos telhados ou fazendo «coisas malucas». A liberdade de transgredir faz parte de certos direitos tendencialmente reconhecidos aos criadores de nomeada e em várias disciplinas de índole artística. Num filme conhecido, A Bela Impertinente, de Jacques Rivette, a irrequietude de um modelo feminino leva o pintor, segundo razões pessoais, a combater perante o corpo que lhe escapa e a memória de amor distante que deseja recuperar. Eu acho que o artista sai vencido, mas também sei que os nossos caprichos de representação, em torno de um real ou de uma lembrança dele, nada reconquistam, pouco constróem. Compreendo que a pintura de Frenhofer o levasse a desejar maior superação do cerco, metáfora que tantos de nós subscreveriam, e acho louvável que, apesar de tudo, o pintor da história tenha permanecido ali, ainda que transitoriamente. Por vezes, os anjos procuram-nos na morada habitual e não num endereço apagado.


quarta-feira, julho 08, 2009

MORREU, BRANCO, O CANTOR MICHAEL JACKSON

Esta era a imagem de Michael Jackson quando do lançamento do vídeoclip Thriller, em 1984, obra considerada das melhores de todos os tempos. Não há sinais das borbulhas afirmadas na adolescência e o trabalho de imagem adequava-se à pujança dos meios vocais e do gesto, dança invulgar, indiciada por muitos dos ritos urbanos, sobretudo onde florescem diversas misturas rácicas e mitomanias assmbrosas. Fala-se de uma infância problemática, difícil, aliás bem cedo explorada pela própria família na dança e num tom vocal específico, preso também à vontade do próprio Jackson, menino de vocações exploráveis. Um articulista, ao falar desta época, intitula a sua prosa com o título «uma estrela à custa de cinto». Joe, o pai, não admitia falhas aos filhos e recorria à violência para lhe incutir um rigor fanático. O tempo levou esta figura, tão poderosa em Thriller, a uma estranha metamorfose, duvidosamente fundada em certa doença da pele, que empurrou o cantor e dançarino para um caminho alucinatório, por vezes fascinante mesmo sob o peso das suas marcas, das sucessivas operações ao corpo, à derme, às feições do rosto, um rosto enfim ocultável e patético, ilustração inquietante dos ídolos em decadência, dos vícios que entretanto os cerca de solidão e crises depressivas de grave recorte. Jackson não era um monstro e morreu de forma abrupta, sem recurso, tratado das mais diversas sequelas derivadas da sua vida e das lesões que provocava a si mesmo. Teria estranhos hábitos, na sua relação com crianças e bichos exóticos, assaz perigosos, que chegou a ter em casa, com ênfase. Que desejaria ele daquela sala onde, em determinada altura, coleccionou manequins que declarava serem os seus amigos? Metáfora contra a solidão? Resistência à exploração da indústria dos espectáculos? Mas ele próprio os queria assim, talvez sem os saber gerir com vontade bem activada, cultura e bom senso. Seja como for, sem falar em genealidade, o seu talento era insofismável e a sua obra fez história. Nada que justifique, para além do respeito que lhe é devido nesta hora, a hipertrofia dos processos megalómanos em que envolveram as cerimónias da sua despedida e da quase sacralização do ídolo. Assim nos enganamos cada vez mais, sendo certo que os actores dos grandes espectáculos passam ao futuro pelo estreito caminho do envelhecimento irreversível.
este foi o rosto que Michael Jackson impôs a si mesmo,
não se sabe em nome de quê

segunda-feira, julho 06, 2009

SOUSA TAVARES, LANZAROTE, BARÃO NO BRAZIL

Miguel Sousa Tavares numa das varandas da sua casa
que dispõe de uma soberba vista sobre o Tejo



Há dois ou três anos, escrevi neste mesmo blog um auto de homenagem a Sousa Tavares: eram palavras de quem apreciava a frontalidade e lucidez do jornalista, agora escritor, filho de duas personalidades que ainda conheci e que me confrontaram com a coragem de afirmar uma luta, uma arte, a habitual e cobarde intriga da nossa vida, incluindo a intelectual e a política. Sousa Tavares não me desiludiu. E de súbito o EQUADOR, obra legítima, interessante, mas que lhe cortou, em todo o caso, a geografia da identidade e deixou-o a fazer acrobacia na latitude entre separa Portugal do Brasil, sequioso dos grandes espaços e de mais carga inspiradora.
Caro concidadão, a sua entrevista ao jornal «Diário de Notícias», ontem, domingo, é das peças mais decepcionantes que já sairam do nómado adolescente que ficou a residir no seu retrato inconsciente: porque foi muito desconfortante vê-lo reclinar-se na fama, rebolar na boca as quantias que ganhou, o júbilo de um discutível viajante, uma coisa assim a parecer-se com o pequeno salto de Saramago, ele que foi só amar entre as pedras e espreitar daí, sem as pujanças do tal país novo que é o Brasil, o mundo em volta, Lisboa que você também cantou, o deserto global atravessado por artistas corredores, arranhando-se até ao martírio só para gritarem: «quase no fim da colúna, meus amigos, más chéguei: agora sou de Dakár.» Este é o lado mais pueril dos portugueses, postura pela qual ganharam mundos ao mundo para logo os perder, alcançando terras do fim da Terra, e fugindo para o Brasil pela ameaça exterior, mas fugindo para sempre, com barões e baronesas atrás, barcos carregados de meio Portugal para instalar na terra da salvação, lugar dos engenhos, dos escravos, da imensidão que dana a maior parte dos burgueses, montes de mordomias que brotavam da insanidade das pessoas e da exploração alucinada de riquezas jorrando um pouco por toda a parte, era só apanhá-las e levar à côrte. A loucura teve a sua beleza, a sua grandeza, e dela até saíram coisas absurdas e fascinantes como Manaus.
Apetecia-me dizer, à maneira de Caeiro: «eu sou desta terra, vejo e penso a terra, faço pinturas e escrevo livros, não há mais nada para fazer até ao fim daquele outeiro». É verdade, o Sousa Tavares já ouviu falar nos meus livros? Não ouviu. Mas eu, que nem sequer sou pior escritor do que o meu caro concidadão, não venho em nenhuma página, em nenhum telejornal, não viajo quatro vezes ao Brasil só com a massa de uma edição ou duas ou três. E sabe porquê? Porque, depois de vir de Angola, tive de esgaravatar tudo, palmo a palmo, sem jeito para pedir o favor de um destino inteiro, nem o berço onde me caísse do céu uma nuvem de açucar. E como eu há muita gente por aí, os que deveriam ter a oportunidade de sentir na pele essa doçura de cortesia de que você fala. Não, não pense nisso: o homem que lhe fala é bem mais velho do que você e não tem nenhum azedume pelo triunfo dos outros. Mas nos regimes actuais, o triunfo tem uma indústria por trás. Você é um produto dessa indústria e teve berço e esperteza para saltar a sebe. Está aborrecido com o país (um escritor que almoça, telefonado, com Sócrates) e julga ter urgência em apanhar um abanão, pensando que dessa forma alcançará um pouco do tal elixir da juventude, o sal de um inapagável talento. Precisa de inspiração, foge para o Brasil. É verdade que não tem a obrigação de usar a sua sorte e o seu jeito numa verdadeira causa por Portugal. Se somos macambúzios, geramos Vergílios Ferreiras (sem Nobel). A lista não terminaria. Porque os países velhos, são sobretudo antigos, e é nessa nobreza que a experiência escorre para dentro de nós. Juan Gris dizia que a grandeza de um artista se media, sobretudo, pela quantidade de experiências que ele trazia dentro de si. O Brasil serve para experimentar, para exprimir. A força de Angola, mesmo despida da demografia brasileira, mesmo na passagem pela floresta em guerra, deu-me estados de espírito inquietantes, deles retirei «Angola 61». E você a dar-nos recados, sem se importar com a ofensa que nos lega, porque a sua mobilidade também teve o nosso contributo, que é que pensa?
«Vou para o Brasil. É um país novo, de que eu gosto há muitos anos. E sou muito bem tratado sem ser popular na rua, o que é óptimo. É um país optimista, não está cansado, não está desiludido, sem esperança. Mesmo que agora haja tanta asneira feita no Brasil, todos os dias, não é? Só que que eles têm espaço e tempo para uma maior dose de asneira do que nós». O caro concidadão quer espaço e os emigrantes brasileiros vêm até aqui por sufoco e não acham o português (conforme os contextos) assim tão macambúzio. Podem é ter perdido quase todo o cosmopolitismo que já usaram (Eça de Queiroz devia ressuscitar) e por isso agem de forma mais pagã, nas festas tradicionais, com o património cultural de que dispõem. E os ricos fazem como os ricos paulistas. Mas olhe, Sousa Tavares, cuidado com o espaço, não se meta a ser um «sem terra», porque logo-logo terá terrinha para escrever, mas será rondado por outros sem-terra, muitos outros que nunca mais acabam, e você, macambuzado, pensará na bela casa da Lapa, com vista para o Tejo, decidirá vender a terrinha (que é o que eles todos fazem), virá a Lisboa comer uma boa cabeça de cherne, trocará o Algarve pelo Alentejo, e visitará, com algum esforço, compreendo, o «nosso» Saramago, lá nas pedras de Lanzarote. É mais verdadeira, esta ideia, e só tenho pena que o Nobel Português (da literatura) não se tenha curado das antigas solidões. Não é por acaso que ele diz de si, com algum sarcasmo, está bem de ver: «ele que vá para o Brasil ou para Marte, tanto me faz». Alguma coisa há-de fazer. Pois se um génio-para-si-mesmo-sonhando, aqui em Campo de Ourique, lhe está a dizer estas coisas, é porque alguma distorção ética haverá na sua preferência, tanto mais que, se há coisa que você é, e muito bem, é português. Devia estar mais ofendido com as garotadas que você disse aos jornalistas, como se se babasse de ir participar numa fulgurante imitação dos prazeres colonialistas. Mas não fico ofendido: acho apenas que você se desentendeu. E garanto-lhe, eu que conheci de perto o seu pai, em pleno PREC, tenho contactado com muito poucas pessoas tão portugueses como você, meu caro concidadão. Já não diria o mesmo da senhora sua mãe, que muito apreciei, e cuja obra nos legou, em português.

sábado, junho 27, 2009

CAMPO DE ADORADORES DA MORTE PELO SOL

O senhor Silva pertence às redes comunitárias de adoradores do sol. Na praia, certamente. O mundo já não pode viver sem os Silvas. Eles não querem nada com as serras e as cidades. É no verão que se deslocam aos milhares, porque o sol queima muito mais nessa altura. As estradas, logo a partir de Julho, enchem-se de gente. Gente dentro de carros fumegantes. As auto-estradas são pagas e quanto maior for o percurso mais se paga. Os Silvas viajam com um plano de poupança, usando de preferência pequenos carros utilitários, em segunda mão e pagos a prestações. Em estradas atulhadas. Antes de Julho já as filhas dos Silvas andam dias e dias a caçar todos os raios de sol, ali mesmo em Santo Amaro. Umas têm medo dos avisos quanto à exposição aos raios solares por causa dos cancros da pele. Mas são como os fumadores: um terço deles, em todo o país, deixou de fumar pelo aumento do preço mas, acima de tudo, pela proibição de expelir fumo de cigarros em todos os lugares públicos, escolas, empregos, restaurantes, hospitais, e até igrejas. A campanha sobre as praias, largamente desenvolvida pelas autoridades, não fez baixar os adoradores da morte pelo sol. Não é por acaso que as meninas, fugindo ao provincianismo e aos costumes antigos, já afirmam querer a cremação quando morrerem. Caixões e cemitérios, que parolice, que seca: é muito mais higiénico a cremação dos cadáveres. Depois, sem nojos, ficar numa pequena ânfora de estilo grego, ali na própria sala, ou no quarto da família. Se há pessoas que derramam os mortos, por acidente, na carpete, outras há que usam processos de prevenção contra tais casos, ajudando a indústria dos sarcófagos de metais preciosos para uso dos mais colados à necrófilia. De resto, há quem vá a uma ponte velha, aí abrindo a caixinha e polvilhando o espaço e as águas com o pó dos mortos. Outras alternativas são as próprias praias, onde muitos começaram a morrer: e é mesmo durante o banho de mar que filhos e netos de um Silva qualquer (já não se trata de uma questão de minorias) despejamam as cinzas a cerca de cinquenta metros da orla de areia suja, entre a espuma dos dias, eles boiando com a ajuda de bóias de plástico insuflado e uma coroa de flores que deixarão ao sabor das correntes. A berraria dos miúdos é clara e intensa, chegam a esticar os dedos molhados por baixo da caixinha, sujando-se com a cinza do avô e logo admoestados pelas mamãs para lavarem já já os dedos na água salgada até não sentirem nem um só grão na pele. Mas quanto ao resto, não há problema: a multidão enche cada campo em que se transformou a praia, cada pessoa luta arduamente pelo seu bocado de território. Quando consegue lá estender a toalha, abre logo um chapéu de sol e desata a cobrir-se de protector solar número 40. A segurança e a comodidade são coisas que desapareceram há muito. A qualidade de vida, ao descer na maior promiscuidade, costuma matar, de insolação e enfartes, pelo menos dez pessoas por semana. Agora as concessões são a dobrar e comportam, a preços fabulosos, serviço médico e de enfermagem. Os deputados da Assembleia Nacional Superior já enfrentaram a hipótese de criar cotas para cada praia e consoante as horas. E alternâncias. E até proibições. Como ninguém tomava as medidas relativas aos vários regulamentos, os campos foram municiados com grandes chapéus de sol, mas os Silvas preferem ir para os piores sítios, com direito a pequenas sombrinhas de sua propriedade, as quais espetam na areia, o eixo logo rodeado de mochilas, cães, meninos e bolas. Qualquer Silva que se prese, após essa hora de marcha, luta e pouso, abrem os seus banquinhos portáteis, ficam em calções, besuntados a 40, e lendo jornais (Bola, Record, Correio da Manhã). É claro que o sol atravessa a lona dos toldos, mesmos dos toldos institucionais, e ninguém descobre ninguém neste mar de adoradores do sol, ou mesmo da morte por lento suicídio em nome do bronzeamento. As mulheres são as que mais rezam sob o sol e o creme a escorrer, pele escuríssima, tudo muito pior do que em Fátima.

quarta-feira, junho 17, 2009

CONDIÇÕES DOS JUDEUS IMPOSTAS À PALESTINA



Gritos, disparos de armas de fogo, pedras voando na atmosfera carregada de fumos, um cheiro pesado espalhando-se sobre o asfalto amolecido nuns pontos, cicatrizado noutros. Anos da Intifada, memória humilhada das derrotas militares e dos territórios ocupados, Arafat num cartaz tão longe, velhos de plantações mirradas, outrora capazes de produzirem cebolas, agora definitivamente labirintos de cimento e arame farpado. Corredores vigiados. Agonia na Faixa de Gaza, enre campos e ruínas. Os povos palestinianos sabem, em suma, de uma dor qualquer, baça e funda, que tem a ver com tudo em volta, Telavive, os israelitas, anos 40, mais tarde a guerra dos seis dias. Os problemas do Médio Oriente persistem, cortantes, apesar da História soprar outros ventos, odores indizíveis, o cheiro da terra queimada. E um cuidado com os velhos azimutes, porque o rumo da morte já não se sabe com antecedência qual seja. Foi feito mais um apelo para reconhecimento do Estado de Israel, enquanto Estado Judaico, apelo inserido num discurso de Benjamin Netabyahu, primeiro ministo daquele país, mas os conteúdos pontuais são quase um insuto, o que acabou entretanto por ensombrar expectativas, as próprias simulações de abertura, tudo num estranho ciclo vicioso onde Deus capitula e o sagrado domina aterradoramente todos os espíritos. Ninguém irá apoiar o apelo de Benjamin, aliás produzido na Universidade de Bar.Ilan, perto de Telavive. O Egipto não poderá dar a mão a um programa implícito totalmente desajustado da situação. Nem o Egito, nem a maior parte dos Estados da Zona. É verdade que o primeiro ministro Benjamin Natanyahu declarou pela primeira vez, no seu discurso, aceitar um Estado da Palestina. Só que as condições apresentadas para essa aceitação, não parecem poder tornasr-se História, porque foram urdidas de forma impenetrável e de verdadeiro desprezo pelos outros. Tais condições foram rejeitadas pelos palestinianos e também pelos países árabes, incluindo mesmo os que têm acordo com Israel.

O presidento Egípcio, Mubarak, adiantou dias atrás ter comunicado ao presidente dos EUA, Barak Obama, que «todas as crises no mundo árabe passam por Jerusalém». Esclareceu haver comunicado ao ministro israelita que as negociações sobre o estado definitivo dos territórios palestinianos deveriam ser imediatamente retomadas e no ponto em que foram interrompidas». Com efeito, as ideias anunciadas por Benjamin Netanyahu não respondem às epectativas da comunidade internacional, infirmam o próprio estatuto do Estado dos Palestiniamos e bloqueiam os dados imprescindíveis para a existência de pas naquela zona. O Egipto assinou acordos com Israel, em 1978, e a Jordánia em 1994. O Líbano e a Síria têm suspenso um processo de paz com Telavive, Pois esses dois países colocaram as mais sérias reservas ao conteúdo do discurso de Netanyahu. O modo com o estas personalidades têm encarado os «direitos» de Israel, ou aqueles que os combatem, legam à contemporaneidade uma das mais absurdas contendas em volta de arcaicas mitologias, como se a vida das pessoas pudesse ser tratada dessa maneira ou assim pirateada, aliás desde a instalação artificial e combinada dos judeus na terra segregada aos povos da região, na altura.


Tudo tem sido visto por orgãos internacionais, por vezes até em combinação com eles, o chamado milagre de desenvolvimento do Estado de Israel, não apenas à custa de engenho e arte, ou de domínio tecnológico, mas também pela guerra e, em nome da defesa, por expansão humana ou territorial. Judeus de Gush Emunin, em 1974, tomaram para sua insta~lação Sebatia, perto de Nablus (norte da Cisjordânia), fazendo aquilo que constitui o primeiro colonato ilegal no território palestiniano, nessa zona ocupada por Israel após a guerra de 1967. Além disso, a inclusão tocou a Jerusalém Oriental. Os israelitas ocuparam o Sinai e os Montes Golã. Com o decorrer do tempo, os colonatos (ilegais perante a lei internacional) multiplicaram-se com arrogância. As caravanas tomavam as colinas e aí emerguam casas, subsidiadas, integrando as melhores condições possíveis. De pólo a pólo, os pequenos povoados ganharam escala e demografia de autênticas cidades. Basta dizer que hoje são 300 mil só na Cisjordânia. Yizahak Samir (1992), depois de perder as eleições, chegou a confidaenciar que tencionava construir tanto e tanto que impedisse a devolução dos territórios aos palestinianos. Não haveria nada para resolver e é nisso que consiste a actual ameaça dos colonos. Há jeito de entendimentos com estes actos prepotentes e insensatos?

Pois então veja-se como Benjamin Netanyahu concebe as coisas: (publicado do Diário de Notícias em 16.06.09. O texto anterior baseia-se em trabalhos de Lumena Raposo)

Estado judaico: os palestinianos têm de recopnhecer Israel como nação judaica.

Garantias intenacionais:O Estado Palestiniano não pode ter exército, não pode controlar o seu espaço aéreo nem adquirir amas.

Jerusalém:Permanecerá a capital de Israel. Os palestinianos têm de abdicar da sua reivindicação à capital de Jerusalém Orientalk.

Colonoatos:Israel não construirá mais colonatos na Cisjordânia mas fica indiciado a autorização do denominado «crescimento natural» nos já existentes.

Direito ao regresso: O problema dos refugiados palestinianos tem de ser solucionado fora de Israel. (Milhões de refugiados palestinianos vivem em campos da Cisjordânia, Jordânia, Líbano, Síria e Faixa de Gaza)

Depois disto, sobretudo com este guião iniminável, parece que a Nação Judaica se prepara para vingar, com outro, o Holocausto que Hitler, não os palestinianos, lhe infligiram.

domingo, junho 14, 2009

ARTE CONTEMPORÂNEA | Artur Cruzeiro Seixas


CRUZEIRO SEIXAS

Conheci pessoalmente Cruzeiro Seixas em Angola, nos anos 60, aproveitando um tempo de licença na cidade de Luanda. Entre amigos, aí visitámos a belíssima colecção de arte africana que o pintor conseguira formar ao longo dos anos, naquele grande território atormentado por guerras inúteis. Ao rever alguns textos escritos sobre a sua última exposição na Galeria S. Mamede (CENAS INTOCÁVEIS), reparei numa frase que eu próprio citara, a partir do catálogo. Franklin Rosemot dizia a certa altura das suas considerações: «uma figura principal no movimento surrealista internacional pela segunda metade do século XX, ele continua a ser, como a presente exposição o demonstra, um excelente exemplo e mentor do século XXI». Ao revisitar, entre memórias, a casa de Cruzeiro Seixas em Luanda, mobílias populares integralmente pintadas de azul, objectos brancos, molduras brancas, nichos e patamares onde se situavam as principais esculturas mágicas, salto por cima daquela nota entusiástica: o artista português, hoje ainda activo e a viver numa residencial de idosos, falou-me há dias dos seus sonhos e das figuras humanas que lhe preencheram os melhores momentos de convívio, com afecto e verdadeiro conhecimento da sua obra. O Surrealismo foi sem dúvida um movimento determinante na história da arte relativa ao século XX: intenso, inovador, capaz de se desdobrar pelas almas contagiantes, este Movimento também se fracturou em consequência das mudanças de modo e fundamento em todas as grandes transformações do tempo. Em Portugal, Cesariny herdou um perfil soberano, talvez inspirado em Breton, mas o que podemos estudar na obra de Cruzeiro, mentor por sua vez de outros artistas, é um talento fiel ao rigor e à encenação do espaço. O pintor não era surrealista porque sim, tanto quanto aconteceu no século XX, mesmo quando alguns perdiam o apego ao modo, visando outras experiências, opostas, mas continuando a dizer-se representativos do Movimento, ostentando o seu forte galardão, quer na via caligráfica, quer simplesmente da abstracção, por vezes ciosos de sopros orientais. Ora isso mudava muita coisa. Cruzeiro Seixas, criador das suas composições, morfologias, lendas, oratórias do mito e dos seres intocáveis, sempre se conservou fiel às técnicas que desenvolveu e aperfeiçoou, sempre manteve o seu pensamento alinhado pelos princípios e concepções da estética surrealista. Quase profissional, no sentido desse apego a um jogo certeiro, sem cartas viciadas, ele tem sido um autor de excelência, transportável, sem desgaste maior, para o século XXI.


apontamento da memória

Artur Cruzeiro Seixas nasceu em 1920. A sua ligação ao grupo «Os Surrealistas» cobriu a apresentação inicial ao público (colectiva em 1949): trazia «estranhas esculturas de meias de seda armadas em estruturas de arame». Mas a sua afirmação verdadeiramente significativa aconteceu na área do desenho, escrita inusitada, caligrafia de delicada presença formal. Tratou-se, e durou até hoje, assim o posso dizer, de uma especialidade aparentemente suspensa da própria banda desenhada, antes de ela ser essa verdade cósmica, de superior design, que Alex Raymond nos legou. Esta imaginária filiação em nada belisca o espírito superior, com outros riscos e outros propósitos, do belo formulário gerido por Cruzeiro Seixas. Ele foi, quase de súbito, surrealista, plástica e poeticamente, na metamorfose que imprimia a muitas das figuras, sujeitando-as ao paroxismo de cenas de violência e crueldade, como referiu José Augusto França. Mas o que importou foi o seguimento gráfico, lírico, poses das citadas encenações operáticas, composições de palco (o plano ou o palco) inventadas com ênfase, formas por vezes inspiradas na poesia de Lautréamont, universos de valor onírico, maior entre os maiores da arte portuguesa dos anos sessenta. Senhor seguro de uma imagética efectivamente invulgar, a dança das linhas modeladoras, neste autor, servem profundas dinâmicas estruturais e uma suavidade algo feminina, desde as anatomias e os adereços ao tipo de musicalidade virtualmente inserida nas cenas e nas «paragens» de cada enquadramento.


um mundo metamórfico e crepuscular

Cruzeiro Seixas toma o rumo de Angola em 1951 e ali trabalhou no museu de Luanda, estudando os universos da expressão plástica nativa. Muito respeitado no meio, contribuindo para a cultura da cidade, inclusive quando acolheu Nikias Skapinakis (pinturas de Lisboa) e outros artistas. Ele teve o mérito de aceitar um convite de artistas para expor em colectivo, apesar do estatuto que alcançara enquanto director do museu, num espaço de lamentáveis lacunas nesse campo. Quando voltou a Lisboa foi entendido justamente pelo lado da cultura demonstrada e opções estéticas inspiradas, tendo assim sido director da Galeria S.Mamede, de 1969 a 1974, e a ele se deve uma boa parte do lançamento de autores como Paula Rego, Mário Botas, António Areal ou Cesariny. Os surrealistas portugueses, após alguns endeusamentos e liturgias vindas de França, chegaram a disputar o seu próprio pelouro, defeito próprio de certos radicalismos ao tempo.




Rosemont, surrealista americano, ainda escreveu sobre Seixas e as suas imagens nestes termos: ele é um autor «a quem o mundo deve indiscutivelmente tantos dos mais maravilhosos desenhos das últimas cinco décadas, e é também um dos mais incontestáveis mestres deste Pluriverso em perpétua transformação».
Estas palavras gravam-se nas imagens aqui expostas. E também nos casos da pintura, com a mesma base de desenho, onde figuras híbridas, em metamorfose, lembram ainda a realidade antropomórfica, barcos de areia e astros como bolas amassadas à beira mar. Tocam, com idêntico sentido, as modelações em tons de terra cota, a visibilidade das ondas, o real aberto diante de nós com o seu fogo petrificante, poses monumentais, um mundo metamórfico e crepuscular, sob atmosferas sensivelmente empurradas pelos ventos, entre seres e coisas e justaposições, força romântica que se atenua pela melancolia do mundo. Esta obra parece elaborar respostas à obra de Rimbaut, no sentido dos encontros, aliás num trajecto de quem deseja em tudo ser sublime,
«absolutamente moderno».



das cenas intocáveis

texto publicado no JL

sábado, junho 06, 2009

AMANHÃ EUROPEIAS EM PLENA POLITICOMANIA

dos jornais

Um amigo meu encontrou-me no café, sentou-se, pediu água lisa, e começou a tentar sair da lavandaria das europeias. «Não estou preocupado, meu caro, estou sobretudo indignado. E não é para seguir a máxima de Soares. Nem os gritos do povo, índios nas feiras, tabernas carregadas de políticos de aviário bebendo café e copos de três, beijocando quem cospe neles ou lhes devolve bafos e salivas. São todos umas tribos de abruptos, todos têm razão de coisa nenhuma, os pachecos com os seus maneirismos no poder de interrupção, capela do círculo em quadratura, maçonaria de pacote, blogues e santanas por aí, à coca, copistas das cópias das antigas eleições, muito pau, muita bandeira, slogans capitalistas, esquerdistas, direitistas, enquanto rolam ferreiras pelo Chiado abaixo, sorrindo idades e arcaísmos, devegar se vai ao longe, treta dos liceus para pequeninos. Nem devagar nem depressa. Não há longe. E lá vêm os capelães da evangelização de rua, os arautos das canetas esferográficas, lápis de cor, cadernos de cópia, panfletos ou garotadas para os velhotes esfarrapados da reforma, batuques, portas a fechar portas e a abrir portões, melna sem pá, estilo francês, la fraternité, muito discurso a fingir de jeitoso, trocadilhos, e por duas ou três razões. Ou quatro, Os sócrates não podiam deixar o trono para virem umas horas apoiar os seus candidatos, vitais moreiras acusados de burros, de falharem tudo, sim, sim, os rangéis é que estão a dar, não nas faladuras, talvez por serem quase virgens em coisas destas e terem uma voz aguda e rachada, uma escolha brilhante (dizem) das ferreiras para fazerem o papel delas, aquelas que chamaram aos sócrates cooveiros da Pátria e afirmaram, brando no laranja, que as reformas não se fazem em democracia: fazem-se depois de se suspender a democracia pelo menos durante seis meses. Tudo à bruta, num tufão de mudança, políticos atirados deste para outros continentes, nada de provedores, nem de juízes, juízes também, porque não? Um estágio, sem vencimento, na Guiné-Bissau, seria de um fulgor sem nome. Indignado, eu? Eu nem queria parar a democracia, queria varrer os partidos, tudo se recicla ao cabo de certo tempo. Em vez deles, experimentava, através de um programa de televisão, punha lá gente miúda e boa, humilde e sábia, ansiãos também, daqueles dos governos comunitários nas aldeias, mas sem etiquetas, num gran círculo sem quadratura, projecto eventualmente capaz de mitigar a nossa depressão pânica. Os actuais partidos, os grandes e velhos partidos, deveriam pagar multas imensas por cada arruada cometida, gente a comer febras, a beber vino, a esconder segredos: iriam todos descascar batatas batatas em prisão preventiva até confessarem os recentes manobrismos, reconhecendo que propaganda de rua, com brinquedos e outras acenos, não são maneira de falar às populações, a festinha balofa, os milhares de euros gastos para lavar a roupa suja, entre duas ou três palavras sobre a europa, lá onde se acomodam primas donas, delinquentes da extrema esquerda, defensres do natural equilíbrio dos mecados, tudo ao molhe e no malho, malta do dinheiro selvagem, malta que finge esquecer a lei dos mais fortes, a morte do planeta por erros colossais dos seus homenzinhos conscientes. São os xavieres de sacristia, os louçãs analistas, padres metodistas com pedra no sapato, dragas como as Irínias mais afinadas, ildas trotantes, cortantes, fundamentalistas, jerónimos dos partidos que são como condomínios fechados, homens sem cabelos brancos nem sobrancelhas façanhudas, todos reféns de mitologias doentes, de incapacidades mórbidas. Todos os nossos partidos estão em desacordo com tudo, mas em cinco minutos aceitaram o dinherrinho para as arruadas e, em mais de um ano, não foram capazes de se entender para a substituição de um senhor provedor, que acabou, doente e indignado, por resignar. E por aí se vê que nada, entre cassetes, vai muito mais longe do que malhar no freeport, manuelas malhadas pelos marinhos, bancos corruptos, banqueiros por prender, aliás entre outros da mesma casta social. E o ensino, meu caro? A ministra vem do outro mundo falar de forma tecnicista, salvadora, capaz dos maiores milagres, O ensino não tem nada a ver com tão enviesados manobrismos nem os professores precisavam de andar tanto na rua, humilhando-se. Os sindicatos têm as suas tocas de permanência, não doutrinam nem ajudam ninguém: é também gente petrificada por décadas no seu altar, não resignam nem à porrada e aceitam eleições continuamente iguais. O espectáculo dos últimos dias, repetindo até ao vómito fórmulas gastas, arcaicas, todas de feirantes no seu pior estilo, ideias nenhumas, barretes muitos, que é que eles fazem amanhã? A crise não está a servir para nada, é uma oportunidade perdida: a ideia de progresso alfacinha é a mesma, mais carros, mais condomínios fechados, mais hipermercados, mais assimetrias sociais (até ao crime), mais vencimentos inomináveis, mais imobiliário sem norte, abjecto, casas devolutas, casas a mais, cidades grandes a mais, vileza das estradas, o interior candidato a deserto, nem memória da agricultura diversificada, nem uma única ideia sobre como mudar o homem e as sociedades para um outro paradigma (como se dis agora), um projecto capaz de excluir o excesso e o lixo, os fósseis e a morte das florestas» Estou sem fôlego, amigo, disse ao meu amigo. Apreendeste tudo isso nos jornais, onde tudo não passa desse barro e dessa acidez, ficando bem longe de retornos aos primeiros grandes ciclos da vida organizada. O trânsito, na capital da Nigéria, visto do ar, perturba qualquer consciência. Mas isso, como quase tudo mais ou menos semelhante a isso, incluindo a migração para as cidades que parece continuar até à sufocação, o planeta vai calar ou apagar daqui a menos de dois séculos. Os abruptos, ao emigrarem para Sírius, serão porventura visitados por uma Nova verdade, respirando uma atmosfera de metano e acabdo submetidos a uma outra genética totalmente imprevisível. Deus ainda não sabe o que fazer com a sua criação.

sábado, maio 23, 2009

INVULGAR HOMENAGEM A UMA VIDA DIFERENTE


Tomei conhecimento em Silves, há cerca de uma semana, que a cidade perdeu um dos seus mais curiosos habitantes, apesar da pobreza e da diferença, cidadão que teve a desdita de nascer com deficiência mental, em definitivo limitado no desenvolvimento da fala, bem como noutros aspectos estruturais ser enquanto da prestação comum enquanto ser humano. Cresceu inicialmente sob a protecção dos pais, gente modesta mas responsável dos deveres inerentes a um caso assim, desde muito cedo, aliás, compreendido e acompanhado pela população da cidade. Na cama de um anexo hospitalar, já com idade avançada mas impossivelmente determinável, morreu Zé Xana, assim mesmo, como era conhecido por toda a gente. Confirmaram-me o que eu próprio verificara, ao longo de décadas, sempre que vinha a férias: que o Zé, eterno moço, inicialmente descalço e depois ajudado e arranjado por instituições sociais, desfrutara sempre de uma saúde de ferro. Umas vezes encontrava-o de sandálias com meias e um casaco escuro, em espinha, calças pardas, amarrotadas, barba crescida, pele curtida do vento e do sol, cabelos hirsutos, negros, gritantes. Outras vezes, anos depois, descobria-o nos sítios habituais, derivas por lugares que lhe eram próprios, paragens nas mesmas praças, rindo a quem passava, «café, café... o Zé sabe, tu és Amorim. Teu pai teu pais?» Se alguém se afastava, com alguma indiferença, ele não barafustava nem gritava -- dizia apenas para a distância maior: «Quando voltas morim, quando voltas? Teu pai teu pai?» Sentava-se na calçada e ria, em bronze, cabelos rijos; chamava por outros que passavam, voltava bem depressa à sua deambulação pela cidade, vencendo horas e horas de passos e pausas junto de qualquer sítio. Sempre capaz de identificar quem via, se era alguém, se era alguém da realidade social da terra ou comerciantes que vinham habitualmente ao mercado. Vencia, com risos e bonomia, todos os silêncios, a mudez dos domingos, a incerteza de certos acontecimentos, e cada vez mais, ao contrário da idade invisível, a sua memória acumulava nomes e rostos de muitas pessoas, fosse qual fosse a hora de chegada, até aqueles que regressavam da guerra no Ultramar, voltando outros. Souzinha souzinha, tás tu?» E eu: «Em Lisboa». Ele ria-se porque já sabia: «Souzinha, zinha, teu mano teu mano, teu mano onde mora? Teu pai morto, tua mãe morta, teu mano souza?» Olhava-o, abismado, via-lhe um rosto de rapaz enrugado, quase castanho, cabelos duros com pintinhas brancas aqui e além: «Toma, Zé, vai beber o teu café». E ele queria, aceitava, pedia mais, ria sempre e não se afastava de nós enquanto não nos despedíssemos dele.
Vivia, por último, numa casinha estreita e branca. As vizinhas e outras pessoas haviam decidido naturalmente tratar de limpar-lhe a casa, lavar as roupas, dar-lhe de comer. Para uma cidade acinzentada e pobre, onde as pessoas se metiam em casa durante dias e dias inteiros, sobretudo quando da morte da indústria corticeira, tal solidariedade era quase patética. E mesmo quando tudo mudou para melhor, de 74 aos anos 90, ninguém esqueceu o Xana, nem o tratou com mais negligência. Ele foi sempre nosso companheiro de chegadas e partidas, ali ficava nas ruas empedradas, acenando com gestos do coração, rouco, ainda que o cuspo lhe aflorasse aos lábios. «Souza, teu mano, pá? diz, diz, teu mano e os meninos, os menos grandes?» Os olhos húmidos sabiam exprimir essa saudade, anunciar essas lacunas, como aconteceu durante a guerra e depois do 25 de Abril.

Zé Xana nunca trabalhara, por clara incapacidade cognitiva; trabalhava, contudo, até o sol se pôr. Era o seu modo de trabalhar, manter o seu mundo em volta, exercer a faculdade da memória específica. Assim procurava os outros, saudava os outros, mesmo quando começou a decair, sujando-se, deixando romper-se a roupa. Lá foi recolhido, enfim, para o tal anexo de um velho hospital, a saber o que sofria, não no desespero da morte. Creio que ele não sabia o que isso era, o que não espanta, pois nós mesmos não sabemos, embora nos passe o resultado dela pela consciência. O Zé esteve sempre atento às visitas, porque as recebia, visitas sobretudo da sua zona, pessoas simples, gente que ele agarrava com os olhos sombrios ou molhados, atribuindo o nome certo a cada um, agitado, logo pedindo «abraça, abraça, abraça».
Morreu, enfim, o Zé Xana, figura emblemática de um certo quotidiano. E, por mais surpreenden- te que pareça, a cidade fez-lhe o funeral, um bonito funeral, e encheu as ruas que permitem acesso, demorado, ao cemitério. Vivendo numa bebulosa onde as memórias se certificavam de centenas de pessoas, talvez parentes, Xana passou aos habitantes da cidade uma mensagem profunda, assim agradecida por uma multidão que respeitou, com a grandeza da humildade, aquele desconhecido diferente, morto por nada, aquele «estrangeiro» que todos sabiam ser português e que todos acompanharam à derradeira morada.
Deus não estava ali, mas os homens sabem, por vezes, fazer o Seu trabalho.

segunda-feira, maio 11, 2009

TELEVISÃO DE MASSAS E REVOLUÇÃO IMPOSSÍVEL


A televisão é uma das maiores descobertas do século XX e tem hoje horizontes técnico-expressivos que parecem ultrapassar a capacidade humana quanto à sua veradadeira utilização, entre formatações, efeitos especiais e diversos tratamentos temáticos. Tanto podemos ver um espaço cénico quase impensável, inteiramente virtual, como sermos confrontados com a mais pindérica forma de contextualizar certos processos de comunicação. Os maneirismos primários abundam em quase todos os programas ditos de entretenimento. A «(lei» da oferta e da procura, já de si perversa, torna-se completamente distorcida pelos programadores dos quatro canais portugueses e apêndices em função prioritária: a famosa competitividade caduca nos caducos modos de administração ou de gestão e os criadores, reduzidos ao novo riquismo aparente dos meios, tornam-se reféns de modelos pseudo-avançados, em nome das massas, da carnificina para as massas e níveis de audiência, vivendo obsecados por esses rasgos de triunfo à percentagem. Estas pessoas (consideradas acima do próprio saber elitista) não passam afinal de manipuladores da opinião pública, acabando por acreditar piamente no jogo: se os temas de violência e e intriga fazem subir as audiências, é porque os telespectadores preferem amplamente as matérias de tais produtos.
Assim falava, dizemos por analogia, um Freedman, entre outros, defendendo economias de marcado livre, sem regras «castradoras», pois só dessa troca aberta sairia um natural equilíbrio entre os agentes produtores e s consumidores, entre exportações e importações: a «lei» da oferta e da procura determinaria a dinâmica capaz de contribuir para o simétrico princípio dos vasos comunicantes. Trata-se de mais um embuste, corrente cega que levou o capitalismo de índice neo-liberal a contaminar o mundo inteiro, sob o rótulo retumbante da globalização, a jusante do fenómeno da multiplicação dos escudos pela «banqueira do povo» (Dona Branca) e em biliões e biliões de perdas rasas. O mais apto capitalismo, de preferência «sem Estado ou menos Estado», desabou estrondosamente, a gritar pelo «Pai». Porque, como é óbvio, os operadores e agentes financeiros e toda a panóplia de gigantes da Banca sempre fizeram bluf ao longo da História. Para que um mercado equilibrado e pacífico, sem fronteiras, decorra como sugeria o imaginário de algumas luminárias, seria preciso que todos os homens estivessem marcados por uma honestidade à prova de todos os riscos, não precisando de fiscais, coordenadores ou supervisores. Mas, como a História já demonstrou, o género humano não pertende ao imaginário reino dos anjos bons: aquelas criaturas, dotadas de inteligência, primam em grande medida pela desonestidade, pelo gosto do poder, numa insana ganância fixada nos valores monetários ou de propriedade, e assim se guerreiam pelo vértice da pirâmide. De resto, vivem desde há muitos séculos civilizações baseadas nessa estrutura triangular, ou seja, segundo critérios totalitários, tanto políticos como militares e religiosos, donde surgiram, quer em nome de Deus (a entidade mais totalitária que nos inspira) quer em nome da sobrevivência, sobre placas de oiro. Foi nesta perspectiva cada vez menos defensável que surgiram os grandes objectivos civilizacionais (suicidas) que delinearam, a longo prazo, o crescimento a todo o custo, em vários campos, na quase totalidade dos campos, cujos primeiros resultados já contaminaram praticamente todo o século XX e anunciam crises planetárias e sociais na actualidade e séculos futuros. Admitindo que esta alucinação demente tem ainda condições de reversibilidade, a mudança de rumo implicaria implosões deliberadas e colossais, uso inverso dos meios naturais e tecnológicos, ampla racionalização do contacto com o território, por forma a pulverizar os núcleos comunitários da vida colectiva. E o maior dos trabalhos, a verdadeira revolução, consistiria em matar as emergentes grandes guerras, com o maior pragmatismo possível, dentro de uma enorme reserva de direitos. Espero que os mitómanos saudosos dos fabulosos torcionários da História não me interpretem como arauto da utopia do mal. E que pennsem na grandeza dos meios de que dispõem num mundo cada vez mais pestífero, entra montanhas de informação ou informação feita lixo. Há um interessante video-clip britânico que retrata um mundo em destroços, em consequência do excesso, e algumas minmorias de humanos dependentes da televisão, programas in formáticos, informação em massa, lixo envolvente de tudo isso. A imagem central e ezemplar desse vídeo mostra um homem ainda novo, obeso, engolindo pela boca e pelos olhos milhões de dados informativos que se desfaziam uns aos outros e criavam o risco de fazer explodir o pobre e derradeiro homem do consumo. Essa imagem é-nos dada em directo, depois de assistirmos, com horror, à irreversível expansão da criatutra em todos os sentidos. Um crâneo solto derrama no ar a pasta do cérebro.

PARA UM JUÍZO SOBRE AS NOVELAS E SUA ERRATA

Os dirigentes das televisões, directores de programação, sobreudo, dizem que os produtos emitidos (caso das novelas) são escolhidos ao «gosto do público» e não para fazerem vénias a minorias pem pensantes. Ao falarem assim parece que esquecem o facto de uma das maiores invenções do século XX quase não servir para nada, edicando-se ao arbítrio sa publicidade e ao «estímulo» da líbido. Ao contrário do que dizem tais mercadores, sabe-se que o público se converte, no verdadeiro sentido ao produto de qualidade. Seria perfeitamente possível, no manejo das emissões e horas de presença, fazer com que os telespectadores reconhecessem o muito maior valor artístico (onde o entusiasmo do ver se confirma) da novela Olhos nos Olhos (imagem em cima) em confronto com subprodutos nefastos, em termos culturais e lúdicos, como Flor do Mar ou Feitiço do Amor, títulos que, só por si, confirmam o mais pindérico aceno ao teor marcantilista e de reles manipulação, por baixo, do chamado gosto popular.
À novela acima assinalada deveria ser-lhe dedicado um estudo exaustivo, não só por se tratar da grande excepção, mas porque, no campo formal e conceptual, se distingue por quase tudo, da fotografia à interpretação, do argumento ao modo como é tratado, da escrita ao universo da família judaica, às simulações e aprofundamento de sentimentos. Trata-se de um trabalho de excelência (empacotado por baixo de duas novelas inomináveis), sujas armadilhas de desconforto anti-pedagógico. Ali há jogo, suspense, nível cultural, óptimo desempenho dos actores, vertentes históricas e sociológicas. Um dia, a televisão há-de sentir na pele as mudanças do público para modelos mais próximos desta experiência, se não os minimizarem.


Feitiço do Amor é um daqueles subprodutos ainda muito vinculados à ortodoxia brasileira (separadores em paisagem aérea, a fazer o bonito pelo turismo, e canções gravadas parea acompanhar certas cenas, e cujo nível de som come quase por completo a voz dos autores, o que
é um erro básico. De resto, o turismo trata-se de outra maneira e as canções não podem pecar por defeito. Parece mentira, mas aqui houve sete operadores de texto, sendo certo que a personagem principal, num enjoativo papel debitado por Rita Pereira, numa auto-protecção eqívocada do mau da fita (Afonso) e do bom da Fita (Henrique). Maria João Luis excede-se, ganhando pouco com isso. Uma televisão que se respeitasse a si mesma trataria de superar a voracidade pelas audiência e estudaria com os bons técnicos e actoes de que dispomos outras vias para a telenovela em geral, no sentido do superior interesse do público e do país em termos de cultura disponível nos aufio-visuais. O que se está a fazer só não é crime porque não vem no famoso e errático código penal.


Flor do Mar não tem classificação. É um produto inadmissível para qualquer valência média de cultura e mesmo de apego ao jogo, ao entretenimento. Os operadores de escrita fazem o inominável em banalidade de texto e concepção grosseira de tipos: os personagens têm mil vezes na boca a pergunta de quem não percebeu bem («Desculpa?») ou respostas igualmente estereotipadas («É impressão tua»). Para actores de qualidade já uma direcção sem préstimo. Rogério Samora (Gaspar) faz porventura o pior papel da sua vida (e nem se sabe como disfrutam tanto este medíocre intérprete). A sua atitude (da Actors Studio?) de pôr e tirar os óculos tem momentos absolutamente risíveis. E esteve quase para improvisar o mesmo truque com uma desgraçada caneta. Provoca a hilariedade e o drama torna-se farsa. Gaspar grita em mais de 70% das suas falas, aliás como outros, levados na corrente dionisíaca. Mercês (C. Carvalheiro) faz uma tia que nem o piores momentos do teatro D. Maria serviriam para medida. É uma coscuvilheira compulsica e caricata. A Salomé (Paila L. Antunes, que deveria continuar a trabalhar a sua figura feminina e a graciosidade que ainda a serve) rasga-se toda em mulher má e ganaciosa, afogando as suas melhores qualidades e deixando em destaque a sua boca de lábios a contradizer a fulgor dos olhos. Além do mais, há canções a propósito e tudo e de nada, separadores paisagísticos, nehuma criatividade de registo, todo o abuso no Flash back. Aqui foi seguida à letra a pior das metodologias brasileiras, erro crasso de que os nosso geniais irmãos ainda não se libertaram. A telenovela brasileira tem de ser substituída por idêntico género, mas
em termos próprios do nosso tempo e numa dinâmica que não se leia como erro, errância, publicidade crassa. Aliás, nos seiados, nem sequer o Equador serve de exemplo: texto seco e pobre, cenas breves por conveniência, péssima direcção de actores, hieratismos ridículos. Aí nos cale uma boa produção, contextos de qualidade, e um razoável acerto da câmara.


sexta-feira, maio 01, 2009

PRIMEIRO DE MAIO, TRABALHADORES E PÂNTANOS



O Primeiro de Maio foi considerado o dia do trabalhador. Todos os anos aumenta o número de potenciais trabalhadores, enquanto tudo se multiplica inutilmente e as cidades industriais são tomadas pela poluição até níveis impensáveis, proibitivos, contrários à vida e ao respeito pelo nosso habitat, mesmo que pensemos em termos planetários. Os grandes países que caminham para a obstrução de tudo por tudo, subindo na soma absurda das taxas de crescimento, obrigam os operários e outros agentes da produção a recorrer à mecânica dos pedais e das bicicletas à medida que os carros entopem as vias e são sujeitos às mais diversas mutações híbridas. Um capitalismo sem medida e sem balança de estabilidade foi implodido de forma global, entre estrangulamentos de toda a ordem, desemprego alucinante, falências, crises de difícil saída. Apesar das tentativas para manter no futuro um Maio florido, hoje, em Lisboa, a multidão fazia o caminho do protesto. É notório o desencaminhamento de todos, incluindo a agressão a um candidato às eleições para a Europa, desvio sem sentido na pessoa considerada, de todo sem relação com os oportunistas da crise, em termos nacionais e mundiais.
Grande turbulência por essa Europa fora, no medo por um futuro inacessível. Chovem objectos inúteis de fábricas inúteis, justamente quando mais precisávamos de planeamento justo e justifi- cado, nem demais nem demenos, um outro sistema, um novo caminho civilizacional em que os espaços comunicassem harmoniosamente entre si, produzindo a medida certa e criando a boa quadrícula da distribuição dos povos pelos territórios, sem metrópoles monstruosas e assime- trias de tudo em tudo. O crescimento não favorece o desenvolvimento, nem as cidades odiosas ajudam a aprender melhores comportamentos e um espírito criativo assente em sólidas bases éticas.
Talvez um dia, assim, o mundo se redimensionasse de forma humanista, Maio de novo florido fora da industrialização por excesso. Lembram-se do 1º de Maio de 74, em Portugal? Parecia anunciar um país novo, as mãos dadas, e afinal chegámos em 2009 a uma democracia feita de partidos apodrecidos em pântanos, o mundo em volta também.

sábado, abril 25, 2009

25 DE ABRIL OU A REVOLUÇÃO DOS CRAVOS


Acordei ao som da rádio, portas a bater, carros assustando a manhã. Um amigo telefona-me e dá-me a notícia: o tal movimento dos cpitães está na rua. O governo vai cair. Ainda lhe pergunto, sobreposto ao entusiasmo das vozes: E basta que esse movimento esteja na rua? Você tem assim tão grande fé? E ele, em perfeita bonomia:
Não é de fé que se trata, é de esperança. Eu, ainda ensonado: Ainda bem por nós todos. E a rua, como está? O meu amigo, impaciente: A rua desobedece às ordens de segurança, é gente e gente, talvez gente que não tem fé nem esperança, tem apenas a certeza.
E assim, ao abrir o rádio, uma voz convicta dizia: Aqui, Movimento das Forças Armadas.

quinta-feira, abril 23, 2009

OMNIA VANITAS OU A POLÍTICA VANDALIZADA


Há dias, na RTP1, depois do noticiário das 20 horas, uma Judite de Sousa irreconhecível, sem a sua habitual cordialidade e doçura, apesar da beleza que conserva, surgiu, ao lado do seu colega José Alberto Carvalho, pronta a assaltar liminarmente, superficialmente, o Primeiro Ministro, José Sócrates. É assim que tem acontecido um pouco por toda a parte, em nome da crise, em jeito de sátira, numa vandalização da ética jornalística, ou do debate, ou de qualquer tipo de análise, pró ou contra. Os personagens desta batalha na Assembleia da República, nos jornais, nos meios de comunicação audio-visual, além das manifestações a céu aberto e anfiteatros dos partidos políticos, salas das Casas do Povo e outras Associações Cívicas, todos eles se vangloriam de alguma razão de agravo, todos eles se hostilizam contra promessas que asseguram ter sido feitas pelo Governo e não cumpridas. O Governo, por seu turno, desincomoda-se tanto quanto pode, faz anúncios das medidas para suster a crise, o maior desastre do capitalismo desde as primeiras décadas do século XX, incluindo obviamente a aberrante teoria do livre funcionamento dos mercados, como se os homens fossem iguais e igualmente honestos, santos, rectos nas trocas e na hora de pagar as trocas. Pois aquela senhora, que sempre tenho apreciado e faz um bom trabalho de casa, estava agressiva, desordenada, o José Albeto, à direita, um pouco menos, e o Primeiro Ministro, interrompido a todo o instante, à direita e à esquerda, dedilhando as suas cábulas, as suas fichas, os seus números, entre miríadas de constelações cénicas ou retornos de uma finança esfrangalhada, de um mundo que continua a mitificar-se, apesar dos erros de assombro cometidos por grandes senhores da Banca em todo o mundo, das sua megalomanias sobre inúteis crescimentos, epopeias de roubos, espaços devastados por negociatas sem nome, produtoras de assimetria e pobreza, ou ainda sob o fedor de instituições que mais parecem cloacas dos mais danados vampiros, paraísos fiscais, buracos negros que abocanham quase toda a riqueza excedente da labuta tóxica, entre gases capazes de sufocarem o próprio planeta dentro de meia dúzia de séculos.
Toda a entrevista/debate atirada a José Sócrates foi um ensaio de como não se faz aquele trabalho, nem no tom, nem no método, nem no implícito sectarismo. A defesa do Primeiro Ministro acabou por se parecer com esse jogo, pois tinha que manter a articulação da fala e do pensamento a despeito das interrupções muitíssimo frequentes, fúteis, a mostrar o desejo de driblar o adversário, provocando-lhe um entorse ou a queda, por forma a estragar-lhe a resposta. E depois o que queriam e o país profundo já vomita, entre pesadelos de incompreensão: o caso Freeport e a excitação das insinuações sobre a alegada corrupção daquele político na questão das licenças em golpe de cunha e de fortes luvas pagas em prestações. Mesmo que se queira perceber esta franja de pequenas e grandes manias, após tanta sufocação em pús pelo mundo inteiro, qualquer cidadão derrapa entre incertezas, a corrupção da corrupção é um terrível teatro impróprio para o futuro e sobretudo para o enorme trabalho em câmara lenta da Justiça que nos julga, processos de décadas, crimes correndo pelas redes que os Procuradores mal suportam na carga de códigos contraditórios.
A certa altura (e eu percebo), o Primeiro Ministro, de tanto satisfazer a fome dos interlocutores por maldades escondidas, desatou a «sticar» em várias esquinas e foi encalhar naquele noticiário das sextas feiras, na TVI, onde efectivamente qualquer espectador pode perceber a vã sabedoria (ali tão desaproveitada) de Vasco Pulido Valente e o desprendimento grosseiro, sarcástico, da apresentadora atrapalhando o trânsito, tudo muito perto do insultuoso, brejeiro, alienante, aspectos de uma profissão que sabe o que é a liberdade de expressão. Ora isso (que é bem grave)
é agora espaço de virtudes sussurradas no noticiário pelo Director Eduardo Moniz, um homem que se acolhe sobre vitrais e tem o despudor de declarar qualidades e direitos num organismo vergado ao dinheiro e ao embuste das programações, conteúdos, no pior desentendimento da acção comunicativa, cultural e cívica, bem distribuída pelo tempo e no espaço. É assim, ele próprio, o profissional impoluto que reivindica, orando, encostar o Primeiro Ministro à parede por ter tido menos cortesia do que habitualmente demonstra. Quem é que se salva de uma coisa destas, 50 minutos, excluindo o futebol, rajadas com balas acima da simulação, pré-acusatórias de mil desastres na governação. A acção que Sócrates moveu relativamente a um jornalista, em situação que não conheço em detalhe, é agora superada pela vandalização da ética para a televisão e pelo jogo em redor: só falta chamar como testemunha Manuela Ferreira Leite, do PSD, que garantiu perante as câmaras ser o Primeiro Ministro «o coveiro da Pátria». É um emprego que alguns políticos mudos não teriam desvontade de aceitar, logo que bem remunerado e dotado de assessores.

segunda-feira, abril 13, 2009

A FALA CORTANTE NA URGÊNCIA E FORÇA DA ARTE




parte da Instalação «Ghost»
da franco-argentina Kader Attia
O discurso desta intervenção artística (The Saatchi Galery) cai sobre nós com o fragor da sua insolência e das alegorias sem mordaça. Há figuras humanas envelhecidas, lassas ou em letargia profunda. Corpos em cadeiras de rodas, ou alinhados na prece totalitária. Os velhos sentados, rodando devagar, são por vezes reconhecíveis como líderes do nosso tempo. Nas suas cadeiras robotizadas, que nunca se tocam programaticamente, os personagens inquietantes parecem interpretar no espaço uma corografia da perfeição e do medo, a perfeição do caos, o caos da nossa alienação progressiva. Aos espectadores é conferida a faculdade de observar esta circularidade e percursos contraditórios em plongé ou articulando passos hesitantes no centro da acção, de forma garantida e sem choques: uma anunciação da tecologia directiva que também nos manieta, entre milagres de morcego, desastres impossíveis, mas tudo a inspirar o pavor de devir, dos sonhos substituídos.
No texto de Cristina Margato, enviada especial a londres para cobrir este acontecimento, podemos ler que a peça «Old Persons Home» é uma possível metáfora de um mundo político sujeito a leis e interesses pouco transparentes. Concebida por dois artistas Chineses, San Yuan e Peng Yu, obra também pode ser conotada como paródia à morte das Nações Unidas, sugerindo a forma como o Ocidente olha outros universos religiosos e culturais, como o islâmico.
Cristina Margato chama a atenção que estamos a 20 anos sobre a fatwa a Salman Rushdie, em que o radivalismo ialâmico continua a mostrar-se «incontornável ao ponto de nos questionarmos sobre a becessidade de autocencura na abordage à iconografia religiosa islâmica (como aconteceu, por exemplo, com o caso dos cartoons dinamarqueses». O sangue brota de todos os mártires de forma semelhante e o seu reenquadramento trágico não envolve problemas de fé nem de vinfança. Tal oportunidade já os judeus tiveram e ainda hoje lhes sabe a amargo, dispersos, contidos num Estado poderoso mas com um destino bem problemático. Um dia, rodeados das suas virgens oferecidas por Alá, os sobreviventes na terra acabarão por corar légrimas de sangue e de vergonha como entretanto ainda muitos cristão o fazem perante os genocídios que a sua religião cometeu, A Inquisição como uma das mais ferozes forças da cegueira, do dogma e da subversão servida em bandejas de mentira e as Cruzadas, brutalizando povos inteiros os seus lugares de recolha espiritual. *
Sem medo, The Saatchi Galery aborda alguns temas tabu no Islão. Grande parte de outras peças, para além de «Old Persons», muitas peças foram de facto concebidas por artistas da Palestina, Irão,Iraque, Egipto, Tunísica, Líbano, Síria ou Argélia. As mentes que se contariem até um fio de vingança e morte começam a pertencer a uma dimensão que nos escapa, entre espaços sufocantes, apesar de tudo com artistas clandestinos cujo desejo de testemunho passa pelo grito das palavras e das obras, aliás num respeito bem principal por tradições remotas e leituras limpas dos textos sagrados. Aí haverá sempre, por vez oculto, sofrido até à morte, o estado da conição da mulher, tema central da exposição e das reflexões civilizadas e hoje, nas suas faces odiosas, revelando seres sem dreitos, sem o benefício da honra e da sua cidadana.
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* Este texto foi reescrito sobre parte do artigo de Cristina Margato (Expresso/actual) e procura, com excertos, estabelecer a forma laegamente usada pelo autor deste blog.

segunda-feira, março 23, 2009

HÁ QUEM ENFRENTE A MORTE SIGNIFICANDO-A

Jade Boody



O ser humano, crente nas suas forças e na sua criatividade, tanto enfrenta os males do mundo como luta contra eles ou chega a produzi-los, entre sucessivos e aterradores paradoxos de um psiquismo em cuja natureza profunda continuamos mergulhados, presos na mais espessa das sombras. A frágil evolução dos nossos valores de harmonia, aliás desde sempre, sofre fracturas inexplicáveis; e a metamorfose de seres sublimes em anjos negros é, a todo o instante, fácil de acontecer no espaço global hoje glorificado como a maior conquista das civilizações.
Prestemos alguma atenção ao caso dramático de Jade Goody, de 27 anos, ultimamente tão mediatizado. Ela era asssistente de dentista, aberta à vida de formas eventualmente contraditórias, e descobriu de súbiro, naquele repentismo com que Deus costuma escolher-nos sem a menor justificação, que tinha um cancro no colo do útero. Estava-se em 19 de Agosto de 2008. Para que o arrepio fosse maior, o choque brutal verificou-se quando Jade participava numa edição indiana do «Big Brother». Desde então, esta rapariga, assim assinalada por um corpo igualmente perfeito e já obsoleto, lutou com o maior empenho contra a doença, tornando-se um verdadeiro exemplo de resistência e de alerta para a importância do rastreio do mal, tanto mais que o progresso alcançado contra tais casos, quer no diagnóstico, quer no recurso à providencial descoberta da vacina específica, estava já em aplicação. As autoridades sanitárias britânicas assinalaram o facto, após a notícia sobre Jade, do muito maior afluxo de raparigas ao exame médido e à vacina disponível. Goody desempenhou um extraordinário papel em termos de serviço público, expondo-se em vez de se fechar, e absorvendo o que lhe restava de vida - porque a vida é o que melhor nos define, não o cadáver que leganmos à terra, olhos cerrados, em redor a opacidade de um silêncio que ninguém percebe e alguns louvam, argumentando que a memória da vida, por ezes manchada de contradições, tende a comsolidar a construção do nosso testemunho.
É tudo muito estranho, inclusivamente o facto de sabermos que o Universo terá uma vida de biliões de anos em palpitação vital, enquanto as galáxias também morrem ou dão lugar a outras nos choques de trajectórias que parecem perfeitas na imagem imóvel, pela distância, mas que significam mutações inenarráveis ou até a emergência de novas estrelas. No caso de Jade Goody, bastou vencer o «Big Brother» britânico para ser estrela, a fama individual a inundar todo o seu espaço social. Lançou livros, perfumes, as bugiganas do consumismo alienante. Só que, nacircunstância, vivemos manietados a diversos mimetimos. Jade trabalhou num outro «reality show», situação em que soube ter cancro. A habituação ao viver público diante das câmaras levou-a, porventura à patética decidão de vender à comunicação audio-visual os direitos registarem a fase terminal a da doença mediante um pagamento de consenso. Muitos dizem:os seus últimos dias como meradoria. A sua ideia da Jade, contudo, era a de assegurar em parte o modo de vida dos filhos, tanto mais que a revista «OK» e «Living TV» concordavam com a verba de 1,5 milhões de euros.*
Esta história, a escolha que implica, pode chocar muitas pessoas bem pensantes ou conservadoras. Em letra de lei e de princípios morais, tudo isso poderá ter acolhimento filosófico. Mas uma vida apanhada assim, à «falsa fé», como diz o povo, não se ajusta facilmente, quando a consciência passa a conhecer tudo e a falta de nexo para tão rápida visita da morte. Direi por mim, e sem pensar muito, que a pena de morte que nos cabe logo ao nascer, justifica, antes de cumprida metade da existência, escolhas ou respostas assim, entre o suicídio e a coragem de abordar o problema com ressonância para todo o mundo, talvez como ressonância profunda perante o inexplicável, o deastre não provocado na esteira da nossa indisciplina, antes uma espécie de destino vingativo, breve, absurdo. Menos equívoca foi a própria Jade: às portas da morte ainda soube arranjar forças para um último acto de grandeza: despedir-se dos filhos. Sentada, disse-lhes: «a mamã vai para o céu e o céu é onde as pessoas ficam melhor. Quando olharem para o céu e virem uma estrela, é a mamã olhando para vocês».
Dir-se-á: «este ignóbil mediatismo retira transcendência aos nossos actos, esmagando a sua própria grandeza.
João Lopes, crítico de cinema, considera que Jade é mais uma personagem, «sem dúvida das mais comoventes, devorada pela fúria desumana da televisão». Claro que Jade, filha da sua época e dos seus estímulos apropriativos, escolheu aquela participação (talvez fútil mas que não implicava o prémio de um cancro); mas há meios que não cessam de se diabolizar: «o liberalismo televisivo conseguiu isso, substituir o reconhecimento público da lei (e das fronteiras definidas) pela euforia anti-humanista do espectáculo».

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* Esta intervenção está apoiada nas notícias publicadas, no artigo de Paula Rito, do Diário de Notícias, e numa bela crónica escrita pelo crítico João Lopes.

a morte interventiva

quinta-feira, março 19, 2009

EM NOME DA VIDA OS DOGMAS DA MORTE

A Natureza, nas suas bondades e adversidades, coloca ao homem as mais inquietantes questões. O homem é um dos seres mais complexos deste espaço em que vive. Após milhões e milhões de anos de existências orgânicas, elementares, vegetando na Terra, a matéria viva multiplicou-se em diversidade, tamanhos, consistências grupais, conquistando espaço em força e formas híbridas de afirmação, de relação com o meio e as suas próprias engrenagens sem verdadeira utilidade. O homem acabou por se contituir, com pequenas diferenças morfológicas, no ser mais complexo e superior entre milhões de espécies, algumas mais possantes do que ele mesmo.
Quando se chegou a modos tribais, primeiro nómadas, de assumir a vida, de reconhecer grupos e meios de subsistência progressivamente mais sofisticados, os engenhos multiplicaram-se e as vidas de novos seres também. Ao tempo, centenas de milhares de anos decorridos, já Deus se desligara da sua criação (pelo livre arbítrio) sabendo embora que os homens iriam, sem contas nem disciplina espiritual, dar expressão à força e aceitar-se no desejo, praticando, por impulsos distintos, a cópula. E daí deduziu, a cada filho formado, que o grupo aumentava de cuidados e bocas e disputas pelos bens cuja administração se tornou difícil, gerando grandes desastres não naturais até aos nossos dias, tempo em que os bens do espírito se discutem e durante nuitos séculos se combateram. Mas cada homem que nascia era um bem, fortalecia os interesses e o poder. Apesar de, sobretudo depois das maiores guerras mundiais, a humanidade ter começado a temer o excesso de população.
Hoje há planeamento familiar (ou deveria haver por todo o lado) e as grandes energias vindas da industrialização começam a complicar a vida do planeta, clima, oceanos, doenças, cada vez maior sufocação por direitos adquiridos e entretanto perdidos, mal reabilitados, mal reconhecidos, entre a permanância absurda, redutora, das religiões que já fizeram há muitos milénios, e mal, o seu trabalho iluminante.
A Igreja Católica Apostólica Romana, a Ocidente, é das maiores religiões do mundo, foi responsável por guerras e genocídios indiscutíveis, cujas marcas são hoje cicatrizes «activas». A figura suprema deste espaço (no qual se afirmam culturas de fé e de salvação), é o chefe tutelar Supremo, é o Papa, actualmente Bento XVI, homem erudito mas determinado por normas filosoficamente insustentáveis, teologicamente indistintas, socialmente perturbadoras. Tendo inventado, nos primeiros Concílios, tanto a virgindade de Maria como outras concepções e práticas que em nada se ligam aos primitivos cristãos, a Igreja balança entre as «verdades» da Bíblia e as inconsequências de muitas normas disciplinadoras, anti-naturais, de que se fez refém.
Nos nossos dias, o problema da natalidade e de se gerar filhos em tempo socialmente próprio, em
nome do equilíbrio das comunidades, é uma realidade estrutural das civilizações. Dado que o conhecimento dos períodos de fertilidade, na mulher, podem ser avaliados, grande parte das vezes sem precisão, o dogma da proibição do uso de métodos mecânicos e químicos para controle dos casais e do seu plano de vida, tem gerado grande número de novas cegueiras no Vaticano. Sem a medida correspondente à filosofia e aos limites da vida humana, Bento XVI declarou: «Não se resolve o problema da sida com a disribuição de preservativos. Pelo contrário, o seu uso agrava o pronlema». É uma frase aterradora, basta pensar um pouco. A frase foi pronunciada a caminho da primeira viagem do Papa a África, justamente o Continente onde a delicadeza destas questões tem de ser tratada com solidariedade, compaixão, espírito científico e apoios sociais e de saúde altamente compartilhados por todos os países mais evoluídos. Houve indignações de toda a ordem, sobretudo porque o Papa colocava a Igreja, daquela forma, no centro do problema. Muitas organizações governamentais, que trabalham na luta contra a sida na África subsariana, onde o vírus já infectou mais de 20 milhões de pessoas, exprimiram protestos de forte indignação. Se a Igreja acha que tudo se resolve com serenidade natural e muita abstinência, mostra mais do que desconhecimento dos problemas, do próprio homem, contrai-se sobre os terrores que ela própria criou. O Papa, para evitar a sida, sem falar de outros casos onde a atitude é semelhante, defende a abstinência e a fidelidade. Mas esta posição cria fracturas entre os católicos, porque o pensamento humano não pode recuar dessa maneira, ainda que os valores citados podem ser estimáveis noutros contextos. Alguém disse que, se o Papa estivesse empenhado em evitar novas infecções, deveria concentrar-se na difusão do preservativo e na pedagogia sobre a sua utilização, não sendo este, aliás, o único processo capaz de fazer parar a investigação.
Há outras batalhas a travar pelo Papa: a espiritualidade passa também por defesas contra os conflitos regionais, outras doenças, as crianças subalimentadas, os corruptores agindo generalizadamente, os traficantes de drogas, o ambiente, o clima. Quem é este Papa que parte para África cuspindo o preservativo, como se não houvesse, a par da sua admissão e boa aplicação entre os povos, outros problemas naquele Continente a que a Igreja tem o dever moral e espiritual de prestar correntes de auxílio, trabalho e não liturgias fúteis?

sexta-feira, março 06, 2009

A ASSOMBRAÇÃO DAS NOSSAS INTELIGÊNCIAS


Diziam-nos na Escola que o mapa de Portugal, tendo em conta a organização sintética do seu perfil geográfico, se assemelhava a um rectângulo. Era o tal cantinho à beira-mar plantado, a partir do qual se desenvolveu o grande feito dos descobrimentos. Hoje, na Internet ou em qualquer cartografia da Europa, Portugal parece continuar com a mesma forma, rosto apontado ao Oceano Atlântico. Escapando à II Guerra Mundial, teve (na altura) de zelar pelas colónias, perdendo e recuperando. Depois daquele grande conflito que devastou os vizinhos para além da Espanha, um homem chamado Salazar, nem carne nem peixe, sentou-se em S. Bento e passou, arrumadas em boa medida as finanças, a mandar no país todo, sustentando obediências à ditadura, inventando até o abominável Tarrafal para onde exportava os piores inimigos (comunistas) e os deixava por lá a torrar até ao limite (ou além do limite possível). Fora daqui, o pensamento internacional, de uma Europa em reconstrução, assediada por filósofos e artistas, tornou-se progressista; e por esse conceito (que não seria de novo inocente) foi aberto um vastíssimo espaço, praticamente global, donde surgiram as ideias da descolonização (já), ideias logo apoiadas no terreno por gente das revoluções, movimentos de libertação, ardendo a Argélia, o Congo, os espaços ingleses, sobrando as colónias portuguesas, as quais, segundo Salazar dizia, faziam parte do nosso rectângulo, pátria pluricontinental e pluriracial.

Depois de uma guerra em três frentes, durante catorze anos, o velho político, António de Oliveira Salazar, amigo de Christine Guarnier, caiu de uma cadeira (preguiçosa) e nunca mais foi o mesmo, acabando substituído por Marcalo Caetano, cuja figura inspirava alguma confiança e ainda pareceu votada a preparar a independência das colónias. Esse tempo chamou-se de «Primavera Caetanista», rapidamente seguido de um longo inverno de adiamentos, revoltas militares, finalmente de um golpe quase pueril que tomou conta da cidade e do país, prendeu Caetano, levou-o para o Brasil, onde o exilou, aliás como o próprio Presidente da República, entre muitos afortunados com os seus contentores bem recheados de riquezas. E houve um primeiro de Maio por toda a Lisboa, vagas de cravos como aqueles que nos inundaram no 25 de Abril de 74. Governos Provisórios, Cunhal chegando em glória de faustosos exílios. Mário Soares abraçava amigos e inimigos, milhares de intelectuais e jovens estudantes desertores da guerra colonial, perseguindo Marx, Engels, Mao, formavam assembleias para tudo. Otelo, «estratega» do golpe de 25, tornou-se um democrata basista que mais parecia um César montando a sua quadriga, conquistando com os trabalhadores os latifúndios, ao desbarato, oupando casas vazias ou meio vazias ou mesmo simplesmente fechadas, tudo isso entre «intentonas», boatos, o chamado golpe do 11 de Março, contra-revolucionário, os comunistas a entrançar a sua rede de fios de aço e disposto a chegar, custasse o que custasse, ao poder, farol de todos o amanhãs que cantam. A aventura, no terreno, tropeçou ali por Monsanto e um militar desconhecido, Ramalho Eanes, em arranjos com o general Costa Braz, então presidente da República no célebre 25 de Novembro, resolveu tudo numas escassas horas - talvez o primeiro momento da crispação e da quase revolução em que o rectângulo de Portugal se tornou mais pequeno e mais compacto: de rectângulo passou a quadrado.


Chegou então uma espécie de apocalipse, político, social, de projecto: setecentos mil portugueses que viviam nas colónias, perante independências arrasadoras, tiveram de retornar a Portugal através de uma ponte aérea ou de outras formas, todas elas, em geral, reduzíveis a crónicas de horror, mágoa e lágrimas. Mas isso já não importava a pós-universitários, artistas de vanguarda, literatos, homens da resistência, vítimas de Salazar e da PIDE. Floresciam cravos, as finanças (ainda cegamente) esbanjavam sofridas «igualdades». Entre as bolhas de festa e os ricos logo mais ricos, a classe média, enviando os seus meninos à boleia dos combóios da Europa, para conhecerem gente e perderem a virgindade, acorriam ao Algarve pré-turístico; e em breve, como se vestissem plumas, viajavam por esse mundo fora, Brasil, Patagónia, Canárias, Espanha irmã, a França do Centro Pompidou. Aliás, e em geral, primeiro foi a Europa. E mais tarde coisas menos recorrentes - Tailândia, Índia, China, a própria Rússia. Uma das personalidades pós-emergentes, Pacheco Pereira, tirava férias (como num livro de mistério) para ancorar lá para os lados da Tetchénia, velando pelos restos da história nesses espaços tarkovskianos - e batendo, à chegada, em tudo o que fosse poder. No programa Flash Back, na rádio, ele interrompia tudo e todos, sem o menor sentido deontológico daquele espaço da palavra, lugar da livre expressão (o que não quer dizer desordem). Para interromper os companheiros desatava a dizer as primeiras palavras da sua interrupção. Assim, por exemplo: «Eles tiveram... Eles tiveram... Eles tiveram... Eles tiveram...» sempre até à ruptura e os outros abandonarem falas inacabadas. E então: «Eles tiveram os amigos debaixo de olho, bem mais apurado do que o olho do colega José de Magalhães (ainda não havia computador do mesmo nome): foram colocar-se atrás da cortina do PS, ouviram o palavreado esticado à direita, e desceram a plateia agitando bandeiras do PSD-PP. Os meus amigos sabem que, contra a retórica do pântano, essa atitude, em vez de demagógica, tinha toda a legitimidade revolucionária» «Está a brincar».«Não estou nada a brincar». Magalhães protesta. E o Pacheco: «Isso não interssa nada, não estamos a falar de informática, você informatiza a assembleia e ficamos submersos numa osmose de vírus». «Não é nada disso». «É. É. É. É.» Alguém conseguia falar: «Não é, não senhor, é um acto de arrogância e um reles desprezo pelos adversários políticos». «Mas eles disseram que, mas eles disseram que». «Que porra meus, senhores: o quadrado estava mesmo formado». Cada vez éramos menores, e os meios da comunicação sociais, quadrados e rombóides, geravam comentadores políticos por tudo quanto era canto, menos, em todo o caso, os treinadores de bancada do futebol e os Mao Tsé Tung das claques desportivas que já tinham farda, dragões, armas, associações e até sindicatos».


A polícia não sabia quem era esta gente mas já se sentia determinada a arranjar um sindicato. E os juízes também. Os juízes ajuizando devagar, entre montanhas de papel e nenhum computador. Não foi por acaso, além do mais, que Pacheco Pereira, tão badalado como Santana Lopes mas por outras razões, se meteu noutro quadrado, o do círculo, na televisão, onde funga mais lento, mais gordo, mais ancestral, arrastando as palavras numa espécie de cuspo contínuo que escapa da sua boca sem parar. O colega do CDS, companheiro indefectível, apanhou-lhe o barroquismo da retórica, tudo está mal, o Sócrates tem de ser investigado. Freeport anda no ar, foi mais um vírus criado para a época de eleições. Quando Sócrates acertava com o martelo na cabeça de um prego (ui!), eles andaram um pouco à nora. Agora aí está tudo de novo, bem preparado e a horas. As vozes dos corredores conventuais dizem que o Sócrates nunca teve ideias. Nem licenciatura. E é arrogante. Os tiros de barreira contra o governo, de gente que fez parte de não-governos, vieram acompanhar o básico (muito táctico-estratégico) de Ferreira Leite, ilustre senhora que comanda o PSD. No momento em que ela começou a balbuciar (nunca falou no déficit de 6.8) logo disse: «Este homem não tem estatura para primeiro ministro, gere a coisa pública ao contrário, será ele, não o salvador do país, mas o «coveiro» da Pátria.

Frases assim, maldosas e quadradas, pecam por ilusórias auto-estimas, a língua da senhora, daí em diante, já cortava a relva do governo rente ao chão - nada presta, nem os restos. Ela esquece as fracturas do seu partido, isso é coisa de outros, sinal do unanimismo. Discutem minudências na Assembleia, suspeitas, erros de contas, cêntimos a mais na algibeira daquele ou daquela. Uma palavra mais pesada. Os escândalos dos bancos BPN e do outro, dos ricos, BPP, onde foi descoberto um buraco negro que pode absorver tudo o que resta de nós. Manuela quer poupar, nada de obras públicas, uns biscates aqui e além, baixa de impostos, auxílio âs pequenas Empresas, pequenas Empresas, pequenas Empresas. O Rangel ruge por eles, um garoto aprendiz também, são o futuro do Partido. E o Sócrates já não sabe onde esconder tantos dos seus crimes, derrapagens, as ideias fogem e toda a gente diz que ele não faz nada nem há dinheiro para nada. A crise é global, mas o país devia ter previsto tudo porque tem bruxos para isso. Paulo Portas, de grande oratória e um tique de cabeça que parece vindo da Revolução Francesa (a do cinema, claro) está abaixo nas sondagens. Mas oprimeiro submarino onde ele gastou uma pipa de massa (era o TGV dele) vai servir-lhe para uma viagem inaugural, como capitão Nemo. António Costa responde aos parceiros. Os parceiros não sabem como se ouvir uns aos outros.



«Oiçam bem, não podem dizer que nada funciona. As leis são entregues ao Professor Cavaco e eles veta-as. É
um direito que lhe cabe. Vá vetou oito Decretos-Lei. Cavaco, saindo da bruma dos seus tempos, agora conduzindo um Audi, continua a não ter dúvidas mas admite que por vezes se engana. Jerónimo, o vermelho desbotado da longa existência, mantém ordenadas as suas hostes e é bom de ver aquele comité central tão parecido com uma escola cheia de meninos atentos. O Bloco de esquerda não lhes quer nada. É um Bloco que começa na menina agrimensora, morena, de olhos escuros e palavra rápida, e termina, por agora, no púlpito do Louçã.» Que líder! Vão por ele, dizemos nós, irresponsáveis, porque o Bloco é que está a dar. É chic. É solto. E tem a grandeza de alma para declarar que, mesmo que ganhasse a maioria absoluta, não assumiria o poder. A sua vocação é a política. Mas a Ferreirinha do «Eixo do Mal»,onde, mais do que nas «Noites da Má Língua», acompanha uma gente alienígena que bolsa palavras como sopros de ar, ou vómitos retidos, vozes sobre vozes, esgares de crítica sem montante nem jusante, todos simpáticos mas sem perceber nada do boi de que falam. A Clarinha viaja e escreve bem: não devia estar naquela «Coreia» omde nunca se saberá, entre as coisas nada aceitáveis que os colegas dizem, quando surgirá UMA, uma ideia apenas, que saibam sintetizar e analisar. Aquilo assim é muito rasca e absolutamente tolo e absolutamente snob. Eixo fedorento.

Veja este rosto sereno, Eduardo Moniz. Veja o que a gente vê. Eduardo Moniz, génio da TVI, devia misturar estes programas todos, com uma telenovela pelo meio, daquelas que arranja com bons actores e boa produção, embora feitas de intrigas e maldades verdadeiramente impensáveis. Ó homem, veja se conserva sempre algo de muito semelhante a «Olhos nos Olhos». E trate da redacção do telejornal: você está mesmo convencido de que o povo português quer tanto molho de desgraças, crimes e massacres à hora do jantar? Essa pornografia devia ir para o fundo da noite, não os bons filmes, ou bons ou razoáveis. Ver um filme até às 3 da manhã. A lei devia regular isso: porque quem faz a verdadeira censura ao normal senso de cultura são vocês. Todas as televisões fazem o mesmo, com aquelas manhãs pirosas, com aquelas notícias repetidas, com aquelas tardes (das Júlias) e o esmagamento da nossa sanidade mental, sob o peso dos comentadores de futebol. Dizem que se gastam 300 horas de emissão por mês só com o futebol. Ainda por cima não há futebol em Portugal, não se disputa a bola com precisão de passe e cruzamentos de avanço: joga-se ao pontapé às canelas, preónios, tendões, mãos agrrando a camisola do adversário e árbitros todos incompetentes e corruptíveis. Moniz deve dizer à Manuela Moura Guedes que, além de se apresentar pelo nome, deve ler o ponto sem ironizar notícias, situações governamentais ou similares, a querer palmilhar a língua breve do Sousa Tavares. Ah, o Equador. E o Vasco Pulido Valente a arfar um «péssimo», um «não faz sentido, toda aquela assembleia, assim medíocre». Eis a razão do quadrado.
Daqui a um ano, se for vivo, direi o resto e o que me dizem para dizer: estive a contar e são, pelo menos, cem páginas sem Pachecos, rangers, bloquianos. E tudo mais ou menos com as personagens assim, embora haja hipóteses de que os melões do poeta Alegre sejam apenas performances para se candidatar a Presidente da República.
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texto segundo a voz popular e a rede política.

DE RECTÃNGULO A QUADRADO