terça-feira, outubro 27, 2009

VISITAÇÃO À VOZ HUMANÍSSIMA DE LOBO ANTUNES

Lobo Antunes

Lobo Antunes, após ter publicado o seu último livro (Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?), concedeu uma significativa e comovente entrevista a Judite de Sousa, na RTP1. Lento mas a paralisar todos os meus músculos, eu ouvia cada palavra e cada frase como a Voz mais profunda, simples, linear, inusitada, que o escritor terá comunicado em som e imagem. E era um homem brando, sereno, diferente, falando da sua doença e da dignidade dos que sofreram a seu lado, com a morte anunciada. O homem que soletrava lembranças há alguns anos, e a uma outra jornalista, era o mesmo e um outro. Dizendo, aliás, que passara a lutar por se conhecer melhor a si próprio. E falando da sua escrita, uma «pasta» de palavras que era preciso deslindar, arrumar de forma menos ruidosa no espaço, compr uma primeira página, compactar o livro, dá-lo ao mundo. «Depois de escrito e distribuído o livro já não é meu.»
Um homem que vive sem Deus e que se reune com amigos para falar das coisas que mais lhes interessa, significando o tempo e o espaço das formas faladas quase tudo o que já deixou de se dizer nos quotidianos pardos e na roda ensandecida da pequena política.



À pergunta sobre se a palavra vida é uma palavra justa para definir a sua relação com os livros e a sua relação com a escrita, Lobo Antunes foi considerando:
Nesse sentido posso aceitar a definição. De facto, ao longo da minha vida tenho sistematicamente cortado os pescoços que se interpõem entre mim e os livros, e às vezes tenho a sensação de ser uma galinha que protege os ovos. Os ovos neste caso são os livres, evidentemente. Os livros, o tempo para escrever e a disponibilidade para isso.
Uma questão de método, a entrega, a precisão e o tempo:
Sabe, quando estou com um livro, é uma questão de método. Sempre. Começo às nove e meia/dez horas, acabo à uma, recomeço. E isto todos os dias, até o livro estar pronto.
Isso não é muito esgotante?
Não. O que é mais esgotante são os intervalos entre os livros. Não sei se vou ser capaz de escrever outro livro... porque os livros não são feitos pelos outros; pelo menos nos meus não tenho a inteira convicção de ser o autor deles. Outro dia, por exemplo, eu estava cansado, tinha escrito durante muitas horas. Fui à estante e tirei um livro ao acaso. Era «Os Tempos Difíceis», do Dickens... abri o livro, assim, da mesma forma, e a certa altura de um diálogo espantoso, de duas ou três linhas, na altura em que o filho vai visitar a mãe, já velha e doente, muito doente, e lhe pergunta: «tens dores, querida mãezinha?», e ela lhe responde: «tenho a impressão de que há uma dor aí, pelo quarto, mas não sei se me pertence.» Isto é verdadeiramente espantoso. O acto de escrever, agora, é um pouco parecido com isto: dá a sensação de que há um livro por aí, mas não se sabe exactamente se nos pertence»


Sobre a escrita, a folha em branco, sofrer a escrita:
Sim, representa uma certa sensação de sentimentos misturados, sofrimento, alegria, júbilo, desânimo, descrença. Mas não deixa de ser, é evidente, um trabalho agradável. (...) Na primeira versão, a sensação que tenho assemelha-se a uma estátua enterrada no jardim, é preciso cavar a terra, tirar a estatuetazinha, depois limpá-la da sujidade, dos insectos mortos, das folhas podres, até aquilo tomar a forma de um livro. A segunda versão é um magma que tem de ser muito bem trabalhado».
Sobre o tempo para a leitura em tais períodos:
Leio todos os dias, sim, para aprender. Eu continuo sem saber nada do que é escrever, e tenho a impressão, quando estou a escrever, a trabalhar, de me parecer que sou uma criança cega, a tropeçar às escuras num caminho que não conhece.»


Saber escrever, o orgulho de escrever, que modéstia?
Não tenho modéstia, acho que tenho um orgulho humilde. Quando recebi um importante prémio, em Jerusalém, era preciso fazer um discurso, a incluir num livro (...) O que me veio à cabeça, para acabar, foi uma carta de Newton (que mudou a nossa vida e a própria concepção do mundo: ele descobriu a identidade na diversidade, descobriu que a lua não cai e a pedra que cai são o mesmo fenómeno, e isso modificou por completo o nosso conceito de tempo, abrindo caminho a toda a grande física moderna, todos os avanços a partir do século XIX, Eintein, Max Planck, outros, muitas vias foram descobertas. No fim da vida ele (Newton) escreve a um amigo, mais ou mens assim: «não sei o que o futuro pensará de mim, na minha opinião fui apenas uma criança a brincar na praia que encontrou o seixo mais bonito, a concha mais colorida, enquanto o infinito oceano da verdade continua intacto diante de mim. (...) No fundo, porque uma pessoa escreve? Por um lado, para se conhecer melhor a si mesma e aos outros, por outro lado porque a arte, apesar de tudo, talvez seja a forma suprema de dignificação do homem. A nossa única possível vitória sobre a morte.»


foto citada. A preto e branco, do autor do blog

As citações da entrevista concedida por Lobo Antunes são uma breve parte do conjunto, peça verdadeiramente excepcional e assinalável pela sua humanidade e pela beleza de cada pronunciamento sobre os homens, os amigos, a «sagração» da mãe. Alguns cortes ou muito escassas «mudanças» devem-se apenas às condições de legibilidade neste espaço e nestas condições.

SARAMGO CONTINUA REFÉM DA BÍBLIA E AFINS

José Saramago

Não é do meu interesse alimentar aqui polémicas inúteis. Em volta dos temas ligados à religião católida, o escritor José Saramago contínua debicando «os maus costumes» dos textos sagrados, antigos, pelejando por uma causa já desgastada nos dias que gostaríamos de o ver a dar corpo a um grande livro sobre a conflitualidade contemporânea, os problemas da nossa civilização entretanto confrontada com com os seus próprios malefícios e vastas populações atoladas no pântano da miséria e do horror.
Até porque, ao receber aqui comentários sobre o assunto, a verdade, como diz um bloguista, é que muitas pessoas acusam Saramago de falta de verdadeiro saber sobre a história das religiões, com falhas graves em teologia. Cito: «...ele não consegue sair de um ateísmo atávico, que ainda toma o cristianismo católico como um "inimigo de classe", sem ter nenhuma da profundidade diagnóstica com que, por exemplo Nietzche aferiu a cristianização da civilização ocidental».
Este depoimento é de um «cibernauta» que se declara não cristão e que, sobre o acto de Caim, esclarece: «Caim é filho do Anjo e de Eva, e não de Adão. O homicídio é-lhe ordenado, para que na prole adâmica se pertetue o "sangue" dos Anjos, forçados a abandonar o Éden e a humanidade. Caim não foi uma criatura vil, muito pelo contrário. Foi um "construtor de cidades», simbolismo de protector dos homens e da civilização (...) Caim tmou mulher, e não foi uma irmã. Adão e Eva e seus filhos nunca foram os únicos humanos; a sua "criação" é uma escolha: um par humano foi conduzido ao Éden para lher ser ensinada a sabedoria, A criação do mundo e do homem ocorreu muito antes. O período edénico corresponde ao da edificação da civilização humana, na antiga Suméria, cujos rios, Tigre e Eufrates, são indicados no livro do Génesis»
Este colaborador da blogosfera («Klatuu») sustenta ainda que o Antigo Testamento, muito deformado por delírios da Igreja católica ao longos dos tempos, pouco tem de fantástico, relata factos históricos, a maioria comprováveis.
«Não me perguntem o que são os Anjos, mas posso garantir-vos que não são feitos de diáfano algodão doce com asinhas». Além do mais, este correspondente, insiste que «além de que sob o ponto de civilizacional, se Deus existe ou não é irrelevante. Nenhum crente tem essa certeza, tem sim essa esperança. E mesmo com "Deus morto", todas as civilizações humanas continuam sustentadas num chão religioso. É inútil combater isso como combater o Darwinismo. O caminho é impedir que toda a forma de estupidez e fanatismo destruam a civilização. Mesmo Marx viu alguma utilidade social (ainda que temporária ) na religião... sem esse "ópio" com o qual resolveríamos a angústia do homem comum, pois se nem duas refeições por dia conseguimos dar a todos os homens espalhados pelo mundo.»

Saramgo, a estas considerações, responderia certamente que o que «não está escrito» não é susceptível de se tornar símbolo ou pressuposto ganho através de outros dados. A sua orientação parece ser jocosa, lógica, pragmática. Espero que o livro «Caim» este escrito como objecto de arte e não de análises literais a segmentos do Antigo Testamento. Cada vez são mais as pessoas que se interrogam, já despojadas de tantos adereços litúrgicos e sacros, «mas Saramago não tem mais em que pensar?»
os nomes das coisas nem sempre correspondem
a essas mesmas coisas





terça-feira, outubro 20, 2009

SARAMAGO, BRUEGHEL, AS RELIGIÕES E O PAPA

fragmento de uma pintura de Brueghel

Saramago, escritor português e Prémio Nobel pela sua obra literária, é conhecido, enquanto pessoa, por falar devagar e face austera, por ter preferido viver em Lançarote, na companhia da sua mulher espanhola, Maria del Pilar. Da obra, é incontornável citar obras como «Memorial do Convento», «Levantados do Chão», «O Evangelho segundo Jesus Cristo» ou «Jangada de Pedra». A sua última edição, do livro «Caim», caíu em Lisboa (ou no país) como uma bomba, ou seja: os amigos e inimigos de Saramago vão aumentar em número. O escritor, ateu, tem contudo dedicado obras a diversas formas de reflexão sobre Cristo, a história sagrada, o papel devastador das religiões no mundo. Desta vez, porque a obra fora anunciada como se considerasse a Bíblia «um manual de maus costumes». Ora essa nota, sendo «apocalíptica», está afinal ainda longe quer das palavras dirigidas à imprensa por José Saramago e à essência do próprio livro. A reacção violenta da Igreja Católica, sendo esperada, foi em todo o caso de uma precipitação algo ingénua, pois ninguém, nas horas dessa expressão, lera o livro, o qual estava em distribuição pelas livrarias. Creio que a publicidade e aquela frase, além do historial crítico do autor, fizeram explodir a bomba antes de tempo, incentivando, paradoxalmente, a compra deste último livro de Saramago.

o horror num quadro de Brueghel
ou aquilo que a Igreja, ao longo de séculos
foi provocando

As palavras proferidas por José Saramago em Penafiel, domingo à noite, foram certamente decisivas. Esta minha «apropriação» da notícia e dos factos pretende apenas trazer para a reflexão um certo número de questões ligadas à Bíblia e aos credos religiosos. Vivemos numa época profundamente conturbada, outras o foram há muitos séculos atrás, e o papel que a Igreja Católica desempenhou na gestão de um imenso poder herdado da sua oficialização em Roma, por Constantino, modelou o mundo em termos por vezes monstruosos: as famosas Cruzadas não eram iniciativas inocentes e produziram catástrofez humanas indizíveis (embora Roma não tenha sido o seu comando directo), mas a nossa história e a nossa memória estão bem marcadas pelo brutalidade da Inquisição, abarcando poderosos e simples aldeãos, os países submetidos a um vasto mando sangrento, entre redes de culpadores e falsos culpados.
Mas demos a voz a José Saramago, Nobel da literatura: «...sem a Bíblia seríamos outras pessoas. Provavelmente melhores». Citando o artigo de João Céu e Silva, do Diário de Notícias, Saramago terá endurecido a voz depois das peimeiras considerações: «Não percebo como é que a Bíblia se tornou guia espiritual. Está cheia de horrores, incestos, traições, carnificinas» O escritor considera que «Caim» «é uma espécie de insurreição em forma de livro». Um trabalho de reflexão para outros reflectirem através dele. O problema vale o esforço dos leitores, mas, pela minha parte, continuo a entender que a escrita de Saramago, ao disciplinar-se, carpinteirada por «nivelamento», não nos arranca a entrega como acontecia nessa obra excepcional que se chama «Levantados do chão». O tema (e os temas assim desencadeados) exigiriam, sem barbarismo, algo que nunca se parecesse com um relatório. Ou então o mais estrito dos relatórios. «Nós somos manipulados todos os dias. - declarou o escritor - Temos de lutar contra isso» O problema não questiona Deus, «até porque ele não existe». O problema estende-se às religiões, «porque não servem para aproximar as pessoas nem nunca serviram».
Perante a atitude da Igreja, um outro comentário: «O que me surpreende é a frivolidade dos senhores da Igreja. Não leram o livro e vieram logo, com insólita rapidez, derramar-se em opiniões e desqualificações. Como falta de seriedade intelectual, não se poderia esperar pior. Compreendo que tenham de ganhar o seu pão, mas não é necessário rebaixarem-se a este ponto». Os comentadores da igreja entenderam como ingénua a leitura que Saramago faz da Bíblia: e ele responde «abençoada ingenuidade que me permitiu ler o que lá está e não qualquer operação de prestidigitação, dessas em que a exegese é pródiga, forçando as palavras a dizerem apenas o que interessa à Igreja. Leio e falo sobre o que leio. Para mistificações não contem comigo».
São, de uma forma geral e segundo a sua estratégia, pertinentes estas observações. O pior é que Saramago não deixa de criar divagações que facilmente se prestam aos tais ditos de ingenuidade ou de falta de capacidade para aprofundar os mitos, a sua natureza, e o espaço que abriam ou fechavam nas suas épocas de contexto. No meu livro «A Culpa de Deus» senti o peso dessa experiência, mesmo quando transcrevi alguns salmos à letra. Mas quem medita e escreve sobre esta problemática tem de contar com a poeira e os véus dos milénios. O meu problema era levar um personagem de cultura pluridisciplinar a visitar, sob vários critétrios que guardava para si, os lugares onde, dizia ele, havia mais probabilidade de Deus te deixado alguns sinais -- justamente os lugares da miséria, do sofrimento, da morte adiada. Quem fizer este exercício nunca pode convocar a Bíblia sem desmontar a ausência de sentido ou de respostas após cada inútil mortandade, que papel teria ocupado «naqueles tempos» tão continuadas e absurdas narrativas, horas da obediência à morte dos filhos em nome dos deuses, épocas onde os erros do mero mimetismo acumulavam os mais assombrosos genocídios. Em «O Evangelho segundo Jesus Cristo», o escritor pouco mais realiza do que transformar, em memória da Bíblia e dos Evangelhos, um personagem do seu próprio desejo, na sua invenção de maravilhoso sobre uma estrutura trágica e dearticulada. E, no entanto, o tema dos Evangelhos, esse sim, candente, contém matéria para desmentir, para revelar paradoxos e contradições, aliás num campo onde a linguagem de Cristo é matéria de questionação e de comparação com tradições a montante. Os Evangelhos não revelam nada, não servem para nada, apesar de alguma da sua poética e de frases atribuídas a Cristo lembrarem uma possível teatralização beckettiana. Cristo diz, plácido e maquinal: «Levanta-te e anda». Lázaro, morto, obedeceu, todos viram. Beckett, em «À Espera de Godot», repete a ansiedade de um personagem que queria sair do lugar onde esperava por «Deus» eternamente, sem que ele atendesse ao compromisso. O amigo do personagem fóbico. a cada proposta de partir («Vamos embora») apenas responde: Não podemos, estamos à espera de Godot».
Todos nós, afinal, estamos ainda naquela situação, esperando um sentido onde não há sentido nenhum, impotentes para travar a geminação sangrenta do poder religioso com o poder político. Deus poderá mudar de nome, mas a manipulação é a mesma para a qual José Saramago chama a nossa desamparada atenção. E não vale a pena perguntar, como Hitler sobre Paris, «A Palestina já está a arder?» Os que se fazem explodir na praça pública, talvez na mais horrível e demagógica forma de combater, acreditam nos sinais de Deus, decoraram os textos sagrados e entregam-se ao martírio poque já não conseguem ver o real à sua volta, porventura outra mentira que nos vem do ser e do nada.


O Evangelho segundo Brueghel

quinta-feira, outubro 08, 2009

ARRUADAS E ARRUADORES, ENTRE ARRUFADAS

imagens a condizer, pouco inocentes

Acordei em plena campanha, esta como a outra, esta como as outras, tanto faz. Os protagonistas deliram nas arruadas, entre arruceiros, atacam figuras próximas, armadilham o terreno e negam já o próprio futuro. Qualquer dia recupera-se um presidente ou muda-se de presidente. Esta política (nacional) tem ainda a sua raiz na última Assembleia Constituinte, tempo depois, difícieis, as vozes dos capitães de Abril, na madrugada de 25, em 74, teslizando pela madrugada ao sinal do canto Vila Morena. Essa gesta, à medida que se institucionalizava, foi perdendo o tremendismo revolucionário do MFA, do COPCON, do Otelo-herói-da-democracia-directa, do PCP-com-Álvaro Cunhal, do PPD-Sá Carneiro, do CDS-Amaral-e-Freitas, do PS-de-Mário Soares, esses e muitos outros, quarenta partidos pelo menos, sem febras nem tinto, só com os cravos na mão durante a grande festa, nesse ano, do 1º de Maio.
Do fundo do velho baú, vieram outros símbolos, cito apenas Eufémia, Eufémia patrona dos clandestinos e dos desvalidos nas searas, alentejana longe, morta com um tiro e uma foice de veneração, esquerdas entre esquerdas, a Fonte Luminosa no golpe de virar páginas, intentonas e golpes reaccionários, os pequenos partidos tresmalhados nas colinas da glória vã, E o 25 de Novembro pela noite, em nome de uma qualquer reacção, crispações provisórias, crenças e novos amanhãs, tudo isso e muito mais que não passa de sumário, sem falar sequer no retorno das guerras de África ou no retorno e populações de Angola e Moçambique, um terror súbito na desnecessidade daquele fazer de conta que Portugal, após catorze anos de atraso, alinhava pelas vanguardas. Franz Fanon, amigo das descolonizações, pressentiu que o vão entre a pré-história e a contemporaneidade era vasto demais para súbitos actos de fé. Pela nossa parte, hoje, sabemos como foi pior a emenda do que o soneto.


já D.Carlos gravava assim

Mas a herança apolítica dessa parte da nossa história começa a parecer uma maratona semeada de obstáculos ilegítimos, bandeiras voando sobre os atletas, armadilhas angulares com os piores condimentos, pastas abertas com coligações e tratados soltos em lágrimas, alertas, palavras soezes, e uma perda lenta mas grave e alarmante e global dos valores, direitos, conquistas, culturas, representações da democracia, governos atrapalhados em contra-mão, Assembleia dos ritos e dos gritos, novos mitos, lugar da República que se perfila na pedra das melhores iniciações.
A derrocada do Capital minou o mundo inteiro, abriu as entranhas das maiores patifarias, e já todos se acomodam para arranjar a casa da mesma maneira, depois de limpar a água suja da cheia. Ninguém aprende a urgência de se começar a terraplanagem do planeta das cidades mamutianas, tumores em Metrópoles babélicas, contra os crescimentos a todo o custo e em nome de um Outro Projecto. Tal operação levará mais de um século, mas o minimalismo resultante não significa a súbita passagem à dieta mais rdaical e a mera dedicação a plantar flores, vivendo o grande povo só assim. Mas também não tem jeito, perante a fome no mundo, que se derramem niagaras de leite no asfalto e se congelem milhões de toneladas de manteiga só para protecção de certas fortunas. O mundo da chantagem e do insulto, na obscuridade das corrupções a fingir e a sério, arrebatou a nossa gente, deputados da Assembleia também, comentadores súbitos, como congumelos, intelectuais cheios de empáfia, à esquerda e à direita, televisões arreliadas cuja liberdade não reconhece aos outros o menor comentário público de desagravo, e assim por diante, ministros sob metralha, todos maus, todos erráticos, estes, os anteriores e os futuros, como nas autarquias e nos arranjos que atravessam, num fervilhar de plena impunidade a par de grandes exemplos de trabalho sensato e colectivo. Há quem agtrevesse as malhas da lei, só da lei, porque a douta justiça, apesar de algumas pitadas de modernidade, quase deixou de funcionar, presa sob os escombros da sua independência olímpica, da sua liturgia, através de processos com mais de cinquenat mil palavras atrasando alguma ideia informática para desencarcerar juizes e ajudantes, paquetes e ouvidores a fingir.


cada vez há mais árvores que não morrem de pé

Entretanto, o tempo das eleições é assim como a época das feiras e das vendas a retalho por baixo das mesas de pano. Os novos salvadores são os do BE, paradoxais, que não querem governar e lhes basta fazer diagnósticos devastadores, contra fortunas e humores. Há limites para tudo: se não quer governar, ou pelo penos ajudar, resigna, fala pelas ruas, na Polis. Assim se fazem as misturas explosivas, de antigos partidos, ou algum maçador coktail Molotov. Um dos adversários deste partido que retalha a política nacional em quadradinhos do exame por tomografia axial contputorizada, é naturalmente o PS, ali do centrão e pontas à esquerda, e agora há um verdadeiro inimigo de 21 deputados, terceira força do hemiciclo, gente de direita a espreitar numa esquina mais ampla, CDS-liderado-pelo-Portas (o Paulo do Indendente), agora andarilho de mercados e feiras e peixarias, pedalada apreciável, esforçadamente, mostrando ao povo o paladar das palavras e do seu artifício. Lá se vai o «rendimento de inserção», se o homem se alncandora no beiral da República, em troca de qualquer salmãozito cedido pelo governo minoritário do Sócrates, o Primeiro Ministro do novo paradigma «quanto mais porrada receber melhor». E deram-lhe com tudo o que tiveram à mão e até com o próprio Presidente da Repúblico. Antes de «negociar» com os partidos, que parecem cães devoradores de carne humana, alinhados, a ladrar, ao portão do novo orçamento, Sócrates deveria entrevistar o duce Berlusconi, um mestre na arte de transgredir e de bronzear toda a gente, ele mesmo, mas sem praia.
Entretanto, ouve-se um zum-zum sobre corporações ofendidas com a avançada do governo logo nas primeiras investidas. Mas quem é que sabe aturar as corporações? E a estratificação dos sindicatos com as suas casstes piratas? O Salazar, primeiro português por concurso público nacional, é que era corporativista, uma mentira como qualquer outra, que o digam os Tenreiros e os Mellos, para usar a pitoresca linguagem do PCP, agora herdado pelo Jerónimo sem caceteiros, última mas desciplinada força política da Assembleia, acantonada nas sedes, nos seus motes, nos seus montes, no Avante. Habituaram-se a esperar, mordendo numa dialéctica incapaz de competir com as cada vez mais escancaradas zarzuelas do Louçã. A moda não é o seu forte, no PCP, e lá na sua ideia de ordem ordeira, com palavras gravadas há cerca de cinquenta anos, nem sabem que a moda passa.
O PS, que se espalhara nas europeias, lá ganhou as legislativas, passando a capa ao PSD que já se aprestava para outro triunfo, sob o manto respeitoso da Senhora Ferreira Leite, poupada, pouco arruada, sabendo muito bem gerir os espaços em branco do seu esplendoroso programa. Nada disto tem sentido, porque esta gente já devia ter sido substituída e as regras apertadas, sem arruadores nem arruadas. Como é que se governa assim, aos pingos de uma palavra consensual por cada tarde? Mas eles estão todos nessa. O país passa-lhes ao lado. O PS, traumatizado de há pouco, inclusive pela própria maioria absoluta, já anunciou (ninguém ouviu nem acredita) que falará com todos os partidos a fim de preparar os métodos da governação. Há fadistas dos antigos e dos modernos por ali, o costume, e de resto o Partido, em vez de aceitar a onda do Fado Património Universal, ainda escolhe sobretudo melodias de filmes e de nada lhe serve ter bons faladores, porque os do outro lado da mesa há décadas que são os soberanos interruptores. O Pacheco repete palavras para interromper e acaba com os outros, num instante, abrupto, quadrado, circular e fiel indefectível ao PSD. Ajudou a nova (?) líder do Partido (dizem que social democrata), Dra Manuela Ferreira Leite, ex-ministra das Finanças e da Educação, de obra pouco apreciada e mostrando-se agora inimiga de muita gente, Sócrates como o pior de todos. Se tivesse ganho as eleições, mesmo em minoria, era certo e sabido que, sem ligar a ninguém, acamparia junto das micro, pequenas e médias empresas, o Portugal profundo que diz conhecer. A senhora é sintética e não parece ter pendor para as «arruadas». Aborrecera o Santana Lopes mas corrobora a sua candidatura à Câmara Municipal de Lisboa. De resto, pelo menos até Maio, tratará da sua sucessão com a voz de Rangel, penso eu de que, mas o rapaz é muito novo, embora avantajado e aguerrido, pessoa de oratórias e retóricas maldosamente falhando os alvos ou fazendo vítimas inocentes. Não é de tal palavreado que precisamos, pois o PREC não se repete, nem à esquerda nem à direita - pode é ser pior.


a política não é para competir em arruaça,
é
para implentar em harmonia a Polis

Que é que esta gente toda, tanta que não pode ser tanta, de resto cada vez mais incapaz de esboçar, para além do perde-ganha, começa a esboçar um gesto de bom senso, de partilha, sem tapar os olhos, sem disputa inútil, um gesto, enfim, de interesse por algum projecto (tão perto do apocalipse) susceptível de abrir caminhos modestos mas seguros em direcção aos lugares passíveis de sobrevivência?
E há quem diga que a «festa» está para durar, mais para o lado da Free-Port e dos Submarinos do que relativamente a pactos sérios para ordenar o país e as suas harmonias latentes. A seguir às autárquicas (onde ninguém ganhará, mais uma vez, porque não é disso que se trata) começará logo a ronda das presidenciais. Há muitas figuras reflectindo. E dizem que já está como certa a referencia histórica cujo nome de poeta é Manuel Alegre.
Depois disto, agora que já tenho setenta anos, vou empreender uma micro empresa com papel e lápis. O país requer esse esforço. Muito obrigado, senhor Primeiro Ministro, não preciso de nenhum crédito, mas espero continuar esquecido e pagar apenas o IRS.

quarta-feira, setembro 16, 2009

E ASSIM SE MASCARA A CONDIÇÃO HUMANA

José Sócrates, do PS

Quando mais envolvido pela vida me senti, nas fases tipificadas do desenvolvimento do corpo, da razão e das emoções no quadro abrangente da consciência, mais me fui apercebendo das pressões desajustadas que se exerciam sobre mim. Há nesse encontro com as coisas e os factos, à medida que nos damos conta dos efeitos do exterior sobre nós, uma brutal exigência de descoberta e de entendimento do real, através do imperativo de fazer escolhas espúrias, quer para fora de nós, quer sofrendo os embates de fora sobre a nossa própria condição humana.


Manuela Ferreira Leite, PSD

a menoridade das campanhas eleitorais
O povo português é, em geral, gravemente deficitário em apetências informativas, formativas e empreendedoras. Grande parte da população segue com minúcia e conhecimento de causa o processo anual dos campeonatos nacionais e internacionais de futebol. São raros os adolescentes que apostam na matemática, salvando a sua espécie de tabelas estatísticas vergonhosas, tanto mais que, simultaneamente, conhecem uma vasta percentagem de jogadores de futebol, dentro e fora do país, alimentando fidelidade canina por clubes, a par de desenvolverem elevado nível de saber acerca de tácticas e estratégias naquele domínio. Se, na matemática, ainda podemos responsabilizar certos professores, nomeadamente pela escassa invenção metodológica, já no caso do futebol o problema não se põe, porque não há professores e as aulas são de livre escolha. Ora este desporto, longo como na sua prestação, e hoje corrompido por atitudes competitivas nada saudáveis, perto da violência gratuita, implica uma excessiva manobra financeira, enquanto indústria do espectáculo, sendo claramente certo, até pelo peso logístico, que não vale a mítica atenção que as próprias autoridades lhe conferem. Governos, comunicação social, instituições nacionais específicas, todo esse mundo móvel, manobrador de interesses e de teorias do sucesso, cava no tecido social assimetrias delinquentes, seguidas de mistificações paralelas e da perda continuada de valores do gosto e da cultura.
Tendo tudo isso em conta, numa generalização aos mais impensáveis espaços do país, acontece que vivemos um momento crítico da nossa história, o qual nos obriga a questionar a natureza das chamadas campanhas eleitorais a decorrerem entretanto, pelas quais se decidirá a constituição da Assembleia da República e do Governo. O que sucede nas campanhas, mediante o debate de programas e formas ainda muito ruidosas de esclarecer o eleitorado, vai marcar profundamente o futuro próximo e de médio e longo prazo da vida dos portugueses. Se empreguei atrás o termo menoridade, dirigido às acções empreendidas pelos partidos e pela comunicação social, é porque entendo, como muitos outros cidadãos, que os factos estão carregados daquele sentido, indiciando uma estratificação das estruturas partidárias, um congelamento de ideias, com maus intérpretes da expressão discursiva, maus programas, em trabalhos conduzidos fogosamente antes do próprio começo oficial das campanhas. As forças político-partidárias, beneficiando amplamente de cobertura televisiva e do uso desse meio para debates entre todos os representantes superiores de cada agrupamento, não afirmam um projecto transformador do país e das consciências bloqueadas, antes tratam de mastigar restos de história, factos sem importância, sonhos medíocres e sempre votados à mera estratégia para ganhos numéricos de votos. O que tem acontecido nos debates da televisão é bem o sintoma agudo de que o o problema de um projecto nacional, capaz de tornar credíveis certos avanços anunciados para o futuro, não se renova nem ganha nitidez, porventura iludindo um maior balanço (simétrico) dos investimentos e dos proveitos, sempre em áreas vitais e onde são escassas as indicações quanto à defesa da qualidade nos vários níveis de ensino e seus objectivos, também quanto à problemática das estruturas urbanas, à importância dos direitos na habitação, suas regras e harmoniosa ocupação do território, ligando as coisas à inqualificável obtusidade de um plano capaz que deveria aclerar uma justiça de rosto humano, menos litúrgica, menos burocrática, tendo ainda em conta a paragem laminar da exploração do imobiliário, especulável e derrotista relativamente à vida quatidiana, a par da reinvenção do tecido produtivo, da sua distribuição geográfica, dos seus efeitos plurais ou inovadores, algo que refundasse o sistema industrial, a escala das empresas e dos grupos, vocações, prioridades, numa decisiva estratégia a favor da permanência e contra mobilidades caras ou desgastantes, precriedades sem o menor respeito humano.
Parece que os políticos e as centenas de comentadores que se multiplicaram nos últimos tempos não tomaram ainda consciência de que o nomadismo dos seres humanos foi queimando etapas sem glória enquanto os eixos civilizacionais, direccionando etnias e tribos, consolidaram a urbe, as redes de comunicação, a relativa homogeneidade das nações em visíveis áreas de conquista, geologicamente relacionadas com cada evolução; e assim grandes grupos se sedentarizaram em bases de criação e resposta às necessidades colectivas. Tal estabilidade, mesmo perante as transformações da revolução industrial, revelou-se de boa prestação, inventiva, aquietando os homens no estudo e construção do seu habitat, sem que a velocidade e as guerras de interesses dúbios acabassem por diluir o desenvolvimento dos saberes e a disponibilidade conferida à edificação de diferentes patrimónios.
Isto não se refere à mobilidade técnica e cultural de massas que se deslocam pelo mundo, abarcando tanto o desejo de conhecer lugares e pessoas como a cumprir relações profissionais. Nenhum destes viajantes circunstanciais (usufruindo de maior riqueza e respostas de serviço) promovem hoje indústrias ligadas ao lazer e à procura lúdica. E nenhum deles se desaloja do emprego e das suas raízes: não voltam à sua terra para dormir debaixo da ponte e procurar emprego precário por três meses apenas, na esperança desbotada de mudar de trabalho, ao acaso da oferta, bem longe da sua casa arrendada, aliás caríssima, e dos amigos e dos restos de tardes serenas fruídas não há muitos anos.

João Jardim, PSD da Madeira

a precariedade do trabalho e o nomadismo apenas
destróem a verdadeira grandeza do espírito humano

A governação estratificada da Madeira, detida pela reeleição de um só homem, parece a alguns corresponder à estabilidade e à bondade da permanência de que falei aqui. Este homem, assim reclinado, fumando em delícia o seu charuto, é justamente o sinal contrário daquilo que se abordou atrás: os períodos de governação ou gestão de certo tipo de instituições devem ser limitados, pois o vício de tal acomodação comporta prejuizos diversos para a comunidade. Um aluvião pastoso, desvitalizado ao longo de anos, não se compara a uma terra firme e diversa onde os homens podem recriar processos técnicos e sociais de (digamos assim) sólida estabilidade.
Numa tentativa de globalização que pode criar massificações e homogeneidades cancerígenas, o mundo dá sinais de inquietação, apesar das populações, habituadas a consumir, se sujeitarem à moda do transitório, do emprego precário, dos recibos verdes, da mudança de casa, da fragilidade dos conceitos e das práticas, tudo a reduzir-se pela bitola rasca da competitividade.
Não sabem nada dos seres humanos, os senhores que anunciam com desvelo convicto e algum ênfase, a sua força: o lugar para sempre é conceito antigo. Hoje a mobilidade comanda a regra. As novas gerações não vão mais, e ainda bem, estar presas a famílias sedimentadas, a raízes de nascimento e memórias risíveis. Hoje tudo muda, tudo se troca, não haverá mais a pasmaceira do emprego fixo e da carreira garantida.
Perante estas vozes, algumas das quais, fingindo operar nesse sentido, nos roubaram em escalas monumentais, deveremos abreviar o seguinte: um professor do secundário, sujeito a mudar de escola e de terra todos os anos, viu agora a sua ansiedade aquietar-se por quatro anos; a seguir, mudará como dantes, perderá raízes recentes, amigos, alunos, sonhos. Estes homens e mulheres são o exemplo da injustiça social das sociedades modernas. Um professor só fará uma boa prestação se tiver tempo, estabilidade e permanência para estar com os seus, para investigar e descobrir novas estratégias pedagógicas. Um dia poderá escolher, por si mesmo, uma mudança que corresponda a um projecto próprio. De outra maneira, empurrado como as caravanas dos circos, virá a soçobrar muito antes da idade da refroma, se ainda houver reforma, porque há muitos organismos económicos e políticos que, de um momento para o outro, comem tudo à sua volta -- e se calhar em nome do progresso. Progresso, contudo, não é soma de lixos e de bens de consumo, perecíveis.
E o resto que se preconiza não passa desta nova versão da exploraçlão do homem pelo homem, de tão má memória. As empresas escolhem trabalhadores novos, de preferência pouco qualificados para poderem receber honorários de cão. Os mais velhos nem portas entreabertas encontram. Depois, flexibilizando tudo, um emprego dura três meses, com honorários abaixo do mínimo nacional, e poderá dar acesso a um novo patamar, do quel se transitará para o contrato. Tudo eufemístico ou abusado: cada vez mais os primeiros três meses se transformam em precariedade. E o trabalhador vai arranjar curriculum noutra empresa ou noutra cidade -- e só será um verdadeiro homem do século XXI se tropeçar nos meses e nos anos desta maneira, cada vez mais vazio e sem acesso ao desenvolvimento social e cultural. Vai ficando na orla das massas. E todos nós bem sabemos como essas multidões podem ser destruídas com uma simples pressão periférica: absurdas e cegas e mudas, cairão em cascata, aos montes e de lado. Dos que morrerem não falará a história. Os sistemas de crescimento actuais não se traduzem em mudanças qualitativas: a esquizofrenia espalhou-se por todo o lado, da América à China, passando pela perfumada e decadente Europa. Além dos exemplos aqui ilustrados, qualquer de nós, seriamente, pode arranjar centenas e centenas de precariedades, pobreza e pestes.

sábado, setembro 12, 2009

CIVILIZAÇÃO DO PARADIGMA, OBESA E CASTRADA


Estamos a viver a idade do paradigma, quando, ainda há bem pouco tempo, a obviedade é que contava. O paradigma tanto pode anteceder as decisões erradas dos pensadores como a prosódia e prosápia dos políticos, ou mesmo dos comentadores. O paradigma permite-nos encarar com maior optimismo a globalização, necessariamente massificante e geradora de soluções comunitárias híbridas. Esta cultura tende a apagar a memória mais profunda das antigas civilizações e sem excluir a compressão redutora da própria civilização contemporânea, esta mesma, feita de adições inúteis ou de necessidades artificiais, com vista a tornar tudo fascinante mas cada vez mais despido das grandes sínteses pelas quais se coordenam possíveis descobertas de viragem para objectivos fortes mas amenizantes. De resto, estamos igualmente a viver o empobrecimento da virilidade, entre perigosas mitologias sobre o corpo sexual, a par de sucessivas fracturas do prazer livre, sobretudo naquele quadro através do qual julgamos entender o mundo; não há mais paradigmas que invertam a perda da actitude eréctil ou o desconforto da ejaculação precoce, temores crescentes com diagnósticos facilitados pela desordem do mundo, pela complexificação de todos os excessos, entre o desejo, a informação e o consumo. O desgaste do homem aumenta com as forças insensatas a que se submete, porque o ensinaram (manipularam) para competir em vez de partilhar, porque lhe curaram as pestes com curto-circuitos cerebrais, convencendo-o de que o vácuo que também cresce é apenas uma armadilha da lassidão ideológica.












Há um pequeno filme de produção inglesa, ligado às opções musicais e televisivas, que nos mostra o termo da civilização tal como a conhecemos agora, entre cidades devastadas ou submersas. Imperam tribos urbanas disputando territórios e meios de comunicação abortiva, salteadores munidos de câmaras de vídeo em pleno paradigma da caça redutora de imagens, correndo nos corredores virtuais do acesso ao poder. Sobram, por outro lado, palavras intermitentes nas grandes paisagens carregadas de ruínas, siglas de velhos impérios transcontinentais, biliões de referências descodificadas que o homem das novas máfias, obeso, acumula em substituição das proteínas, por dentro de cozinhas onde se dispersam, inúteis e fora de todos os prazos, caixas de doces e enlatados sem nome. Restos de salas ou quartos exibem igualmente largas obstruções de lixo, incluindo monitores ligados em permanêmcia a uma rede de canais ZIK, marca brotheriana, aindda capaz de simular o advento de novos paradigmas, com domínio em prosódia radical, lexical, e larga incontinência de discursos opacos. O verbo surge em pleno ruído sem pausas, tudo deglutido pelos neotoxicodependentes das caravanas geminadas, apartamentos incompletos, caves soturnas alimentadas do exterior com atmosfera pouco oxigenada. Max, o reporter, caminha ou corre como qualquer personagem dos antigos thrillers americanos. Ele maneja a sua câmara como qualquer máquina letal dos exterminadores vindos do futuro para emendar erros do passado e salvar paradoxalmente o futuro, dimensão que o espaço e o tempo não explicam, acabados entretanto os paradigmas. Max é um combatente de qualquer coisa cujos limites e identidade ele mesmo já não sabe localizar com precisão. E trabalha com uma mulher irrecusável, em cenários dignos dos melhores videoclips do fim do século XX.



Um último personagem, condenado ao consumo da informação mais aleatória e alienante expedida pela ZIK, surge em planos fixos cortados por cascatas dos mais diversos dados de informação, algo que nos lembra a tortura da «Laranja Mecânica», ver contra a vontade dos olhos e a capacidade do cérebro, do corpo todo, imagens e letras, brumas, cores, alarmes, tudo sem fim e sem melodia. O homem que está preso por esta cadeia de informações não descodificadas, tudo em nada no registo macro, absorve sinais sem história e luzes insuportáveis, os gritos e ansiedades do mundo sob máscaras de empresas perdidas no fundo do tempo. A aflição deste condenado da civilização que o integra e serve tende a minimizar a nossa própria consciência e é no paroxismo daquela carga sem retorno que assistimos, em paradigma, ao rebentamento de um provável novo homem assim amordaçado à terrível ordem do horror, projectado em todas as direcções na forma de pedaços de carne e peças anatómico-estruturais cuspidas em redor, os olhos, os ossos da cabeça, todo o ventre dilatado espirrando líquidos e tripas, jactos de sangue, palavras mal digeridas e logo diferidas, parte da face, um maxilar, líquidos gordos, amnióticos, milhares de dados indecifráveis caindo, pouco depois, como flores de neve sobre um território urbano inteiro, chuva de assombro, calada no mais opaco dos silêncios.




Provavelmente, isto não passa de um pequeno artifício das artes visuais, anos 90, para gerir o medo que que excita a fome de tudo, bolos secos e carne pôdre, medo também do futuro e das graves infecções do mundo obstruído em nome de uma civilização assente no paradigma do global, entre monstruosas catástrofes «naturais» que começava a engolir toda a ideia fanática dos crescimentos insustentáveis.


Fui ver o noticiário da televisão (ontem, quando escrevia este texto) e o que vi, numa longa reportagem de alguém que, por acaso, dispunha de uma câmara vídeo, testemunhava mais do que estivera a pensar: registava a própria derrocada das torres gémeas, em nova Iorque, mostrando um certo fascínio que o horror também provoca, enquanto os bombeiros, confinados a um átrio onde nada podiam fazer, estremeciam a cada estrondo dos corpos que caíam do alto do edifício que se desfez mais tarde. Essa boca aberta no esgar da morte por explosão exprime brutalmente o que muitos cidadãos americanos e de outros países sentiram no seu dia de apocalipse.




Um novo Sísifo,
talvez um novo Prometeu
a sofrer um crescimento
que não inventou
nem pediu
nem reclamou.














Um fotógrafo que metralha o visível
com a sua câmara insaciável



































Ela sabe guardar
os circuitos
informáticos
e dar respostas

rápidas ao cameraman que
procura um atalho para o futuro

segunda-feira, setembro 07, 2009

MORREU JOÃO VIEIRA, FICA A SUA OBRA LETRISTA

João Vieira


Não há muito tempo que João Vieira me telefonou por causa de um texto meu, pedindo autorização para o publicar. Conversámos um pouco. Estava a trabalhar, era a sua voz e as suas letras emblematizando mensagens na tela, ou apenas formas, ou talvez nem isso, como diria Álvaro Lapa. Falámos devagar sobre a roda dos tempos. Eu sempre o tratei com deferência, com uma admiração disfarçada, talvez por sabê-lo mestre e isso me condicionasse numa espécie de pudor. Era respeito pela sua convicção nas coisas que produzia. Nunca esqueci a extraordinária encenação que ele fez, no Monumental, para a peça «Quem tem medo de Virginia Woolf?». Glória de Matos no seu melhor, Jacinto Ramos muito bem, embora sabendo que não podia competir com Richard Burton. E as instalações, e as coisas que João Vieira sabia inventar antes da hora em que eram expedidas do exterior. A instalação com letras de espuma, na Judite Dacruz, onde uma magnífica «desordeira» como Dorita Castelo Branco se entrelaçava, a significar gestos, ainda longe de saber o martírio que a esperava. Depois as letras boiantes no chão , nas quais as senhoras tropeçavam e tinham de descalçar os sapatos de salto alto. A desmistificação da pose era uma coisa grata a João Vieira, apesar do charme que sabia apontar aos cultos da bueruesia, no alto das escadas, nas aberturas dos salões, «mitologias de hoje», saudades de amanhã. Agora, que faleceu, pode olhar-nos assim, entre a melancolia do passado e a força de escritas que recuperava de um modo gráfico, sólido, sem drama mas com força para juizos de amanhã.

sexta-feira, setembro 04, 2009

SAUDAÇÃO A LA FÉRIA APESAR DOS FÃS ANÓNIMOS


é preciso ver o sol apesar das catástrofes


quem sabe rir pode escrever torto, e bem, por linhas direitas

Tenho sofrido a maior das perplexidades, quer pelos desfocados indicadores da democracia, quer pelos que, negando com o anonimato esses indicadores, vêm negar-me o direito de duvidar das avançadas competências de Filipe La Féria. Um comentarista anónimo, suponho que o mesmo por duas vezes, vem dizer-me que eu devo estar com dor de cotovelo, pois, do bom teatro que se faz em Portugal, Filipe La Féria consegue sempre superar e ter salas cheias. Este simpático anónimo conclui que fica à minha disposição (de) perceber. E acrescenta, sem a menor dúvida: que eu devia mudar o post dedicado a La Féria dizendo «AS COISAS IMPERDOÁVEIS QUE SOU CAPAZ DE FAZER por não saber o que hei-de fazer e querer assunto para colocar no blogue.
Estas admoestações, a que não tenho o hábito de responder em contraditório, são, no caso do senhor referido, susceptíveis de algum esclarecimento. Ele deveria ter lido com mais atenção o meu post sobre os espectáculos de La Féria, pois a ironia por vezes parece aumentar a negação; além do mais, o senhor anónimo, se desejasse saber se eu tenho ou não assuntos para publicar no blogue, podia pesquisar um mínimo os materiais aqui existentes e teria referências a muitos artistas, de várias áreas como o teatro, o cinema, a literatura, as artes plásticas, a par de problemas actuais, da civilização que vamos diluindo. Aquele meu correspondente anónimo diz-me ainda, a terminar, que, se eu moro em Portugal, antes de criticar o bom trabalho de qualquer cidadão, procure saber escrever e copiar aquilo que em outros (orgão) da comunicação está presente.
Este correspondente, que pensa com paixão e escreve pior, quer-me ensinar a escrever e a copiar as revistas. Sobretudo se morar em Portugal. Não vou naturalmente falar da minha identidade: embora não viva dos valores mediáticos, ninguém me pergunta se vivo em Portugal.

Caro Filipe La Féria: o senhor é dos trabalhadores do teatro (e não só) que conheço há mais tempo. Já nos encontrámos na Sociedade Nacional de Belas Artes, em boa hora, mas os nossos caminhos foram diferentes e o seu crispou-se, com coragem, em torno das produções de grande espectáculo, musicais, teatrais, na senda dos exemplos que nos chegaram cedo da América e da Europa. A minha iniciação no apreço por tal género de arte começou em Londres, com o famoso «Hair», o primeiro, o original, que arrebatou tanta gente. Mas tenho a certeza de que o artista que o senhor é, e tem progredido com meios desencadeados por si, concordará comigo que a encenação fílmica de «Música no Coração» fica muito áquem das produções da Brodway ou, citando ainda o cinema, a belíssima versão de «My Fair Lady». E agora, por certas de dúvidas que me assaltaram a propósito de algumas das suas encenações, aqui publicadas, gostaria de saber de si (ou que esclarecesse os seus admiradores) se é possível apreciar o seu esforço, muitos aspectos do seu trabalho, e discordar de outros ou achá-los menos dignos de concorrerem com as versões vistas de peças como as citadas em propostas aparecidas em Londres, EUA, Alemanha, Inglaterra, etc. Isto é possível e é possível dizê-lo publicamente, tal como o La Féria faz com a sua liberdade de as dar a ver ao público?
Para terminar, peço-lhe desculpa de me dirigir a si directamente. Mas é importante fazer cultura conferindo aos outros o direito de a aceitar mais ou menos, conforme processos, linhas estéticas, modos de fazer e representar. Eu sei que o La Féria não faz certas coisas, do ponto de vista formal, porque não tem meios para isso: trata-se de um problema endémico do país, contra o qual muitos de nós têm lutado. A prática por si ganha tem emprestado a algumas soluções interessantes ardis de sucesso visual e popular. Mas, estou certo de que concordará comigo, o ar solto, minimal e de gosto imediato, em certos epectáculos de que o público costuma gostar, ou até idolatrar, não nos retira a grandeza das melhores óperas de Wagner, sobretudo as que a televisão gravou em alta fidelidade e que tiveram audiências notáveis. Embora a televisão, socializando as obras, não seja, contudo, o meio apropriado para a formulação operática.
Caro La Féria, eu estou em desacordo, na generalidade, não na especialidade, com a sua estratégia estética, o modo de formar, os arquétipos em certas cenas ou personagens. Posso falar sobre isso jocosamente, mas não me condena por isso, pois não? Ou acha que eu devo copiar o que dizem sobre as mesmas obras as grandes revistas internacionais do espectáculo, comparando os respectivos conteúdos com os seus trabalhos?
Nas revistas portuguesas não encontro nada capaz para copiar. Presto-lhe assim o dever desta saudação, com a qual o revejo na vontade, e me afirmo no direito de tratar publicamente as minhas ideias, sabendo perfeitamente que você não aprecia anonimatos e frívolos encantamentos pelo que faz. Ver é compreender. Compreender implica análise crítica. E sem falar agora da crítica jocosa em que o nosso país era mestre.

quinta-feira, setembro 03, 2009

SÃO 28 BARATAS MUMIFICADAS EM SERRALVES

Este é um dos acontecimentos mais importantes da vida cultural do Porto, este ano. A publicidade paga, pelo que se pode ver por uma quase página da revista «Sábado,» exprime bem o espírito avançado que norteia os responsáveis pela apresentação das obras da colecção do Museu de Serralves. Exposição mamutiana, com obras como as que publicamos aqui, por baixo do comentário, e que obviamente só um grupo de privilegiados desta área de actividade pode acreditar terem algum valor patrimonial ou artístico, vai desdobrar-se em mais dois «capítulos». Pela qualidade dos objectos expostos, nem todos, naturalmente, podemos ter uma ideia sobre os gastos que justificam tão novas e complexas propostas. O rei não vai nu, não senhor. Estes senhores vestem-no assim e compram a artistas notáveis (Pomar ou Paula Rego), obra menos representativa desses autores, desses e de outros. Este critério começa a roçar devaneios pouco explicáveis: um dos curadores da exposição chegou a dizer em público que não se trata de coleccionar o óbvio (o melhor e mais próprio dos melhores autores) mas de nos deixarmos surpreender com o inusitado de cada «pedacinho» de tão erudita escolha.
O cartaz públicado na «Sábado», diz-nos exactamente o seguinte:

«CAIXA DE VIDRO RECTANGULAR COM 28 BARATAS MUMIFICADAS E EQUIDISTANTES UMAS DAS OUTRAS»

e, como nota de procedimento a cada espectador:
as obras da colecção Serralves. É preciso ver para sentir.

uma exposição que junta as obras mais representativas
do seu acervo a obras nunca antes expostas











?
o melhor, nunca dantes visto
a interrogação é nossa

até 27 d Setembro de 2009 | 1ª parte

terça-feira, agosto 25, 2009

PAULA REGO OU UM ROSTO DENTRO DA PINTURA

Paula Rego

Nem sempre, em Portugal, se prestam as devidas homenagens aos grandes criadores do domínio das artes. Há excepções. Mas nesses casos o excesso de vénias e privilégios redundantes chega a comprometer a o sentido das coisas, a medida do próprio génio. Paula Rego cabe perfeitamente no âmbito deste quadro, no sentido destas palavras. Este rosto arrasta com consigo a pertinência da obra entretanto louvada retrospectiva após retrospectiva, um rosto que ainda conheci jovem e belo, dividido entre uma entrevista que tinha de fazer à pintora, que soletrava o encanto das suas colagens, e o manto de formas fascinantes estendido no chão do atelier. Tudo lhe acontecia, já nessa altura, como ela pensava: pois agora, levada em ombros, como no futebol, aliena a sua grande obra dos anos 60, retira-lhe importância, e afadiga-se, entre modelos vivos e histórias de terrível sentido ou violência, no trabalho alucinante com pastéis de óleo, numa espécie de super academismo com um fio de perfídia, o gosto pelas crianças em plena catástrofe do medo e das maldades risonhas, tornando-se, enfim e afinal, numa das grandes contadoras de histórias em pintura, pintora ilustrativa, sem pudor, a quem os críticos de há uma ou duas décadas, puniriam sem piedade. Eles apagavam quem representasse ou contasse um «pedacinho» de gente à beira mar. Paula Rego tem agora, em abundância, as mais disparatadas consagrações, como este museu ou «Casa das Histórias», tudo feito segundo o lado mais visionário da pintora, mulher forte e sonhadora, que deseja e realiza histórias, as histórias da terrível tradição portuguesa, os pesadelos, os gestos torcionários sobre modelos no exercício da cópia interpretativa, fealdade a conjugar-se como beleza, o belo horrível, gente do fundo dos tempos, um rosto profundamente marcado por tão intensa entrega aos gritos e às armadilhas, um rosto, enfim, que se parece cada vez mais com os outros rostos, os pintados, os rostos do absurdo; é com eles que Paula vai conviver, patética, legando porventura a sua própria máscara às projecções de diversos estados do subconsciente e da memória. Paula sente a angústia de tanta coisa junta, percebe o lado enviesado de tanto êxito e mordomia. Mas é o que sabe fazer no atelier, lugar dos seus «brinquedos», dos seus «bonecos». Fica um pouco impertinente com a balbúrdia, diz coisas tolas e sábias, vai ter uma «catedral» para os mutantes que foi espalhando pela cultura das nossas regiões. Ao menos ninguém lhe aponta um dedo. Ninguém lhe pede contenção. Justamente: porque à sua volta todos perderam a contenção. Portugal está ali. Inteiro.



Declarando-se envergonhada com tantas exposições e ruído à sua volta, Paula Rego, na última revista do Expresso parece tomada por sentimentos patéticos, aflita com a desarrumação do ambiente de montagem do museu e das suas obras, esta tem de ficar à frente, a «Mulher-Cão», aliás capa do catálogo. Mas ela anima-se diz que «todos poderão brincar lá dentro. Seja apenas com um olhar, seja com o desejo de partir à procura dos contos escondidos naquele universo feito de espanto» (A Casa das Histórias é um projecto de Eduardo Souto Mourinho). Trata-se de, reconsagrando a obra de Paula Rego, fazer mais balanços, corresponder à sua obsessão pelos encantamentos das histórias: o museu passa a ser a casinha da senhora-menina, lugar onde ela poderá continuar a rir das suas brincadeiras desabridas e algo pérfidas. A pintora fala das histórias e assegura que «são extremamente violentas, física e psicologicamente. São más e belas, O grotesco é belo, que é a coisa mais maravilhosa que existe». E ainda acrescenta, entre outras coisas: «Há alguns contos (literatura portuguesa) que são terríveis, como o da mulher que corta o peito para dar de comer ao marido». Nesta festa do visual e do terrível, comenta: «Num país de brandos costumes, fazem cada clister... As pessoas são cruéis, mas às vezes também dão beijinhos. Portugal vive muito do chicote e caridade. Isso fascina-me. Admira-me. Espanto-me».
Depois disto não se espere que a pintura de Paula Rego seja um aprofundamento do país em termos de testemunho e denúncia. Apesar das personagens sombrias e da esquizofrenia delas, o que fica não é um dedo rasgando iniquidades. Fica a história de brincar, feita tecnicamente com grande profissionalismo. «Há muita narrativa na minha pintura. Porque não posso fazer um quadro sem ter uma história, sem ter em enredo»
Lá se vai a «pintura pela pintura», o primado da cor, o fim como abstracção. A não sar que Paula Rego seja apenas em parênteses redentor mas equívoco.



a avó dos meninos que brincam com os brinquedos dela

domingo, agosto 23, 2009

A BELA IMPERTINENTE E A DOR DE FRENHOFER

fotomontagem de rocha de sousa

Ainda bem que te revejo, Marianne. Fazias parte de outro filme meu, colada à imagem de Odette e aos sonhos brevíssimos da Alice. Meninos ainda, vasculhámos as teses de Antonioni em «Blow-Up», Brian de Palma em «Blow-Out», e assim por diante. É preferível viver assim, folheando o futuro, do que beber de uma só vez a purga do tempo. Lourdes, que belo rosto, perdeu-se num cemitério e automóveis e foi sofrer para a Grécia. Não, ela tentou libertar-se das feridas que lhe haviam provocado: voltou salva mas irremediavelmente envelhecida. Estivemos uma tarde a ver «O Contrato», do Greenaway. Sim, ainda bem que sabes: toquei no assunto num livro quase impossível de escrever, porque metade dele tem que dar a ver grandes pinturas não assinadas. Ah, isso? Podes dar uma vista de olhos, podes até ler. Sim, sim, aceito que o digas: escrever é uma forma de ler e uma forma de ver.

«No filme «Bow-Up» é claramente investigado o acto perceptivo enquanto tal e como qualidade básica da visão, comprometendo a consciência das impressões móveis numa necessidade não explicada de escolha. No caso da «Bela Impertinente», há uma espécie de enunciado vago da ideia de projecto, algo que poderia ter o mérito táctil das coisas, no sentido de as transformar em várias configurações de um sonho qualquer meio perdido, afectos antigos, o lado metafísico que informa muitas das nossas buscas práticas, técnicas, sempre a contornar ou ultrapassar o visível».


publicado a partir de Construpintar 02
onde o excerto utilizado é outro

«O pintor, que parecia ter saído de uma crise indeterminada, queria dar corpo a um certo projecto, abandonado, velho de dez anos. Eu acho a tese absolutamente determinante para enquadrarmos a natureza do pensamento plástico, a contingência da nossa relação com o mundo aparente, carregado de armadilhas e escondimentos. A Inabilidade inicial de Frenhofer, ou o ruído rasgador do aparo com que entra em perfeita deriva pelo papel, tudo isso nos remete para o lado trágico da arte enquanto criação emergindo de um pântano de memórias, fixações, afectos gastos ou desfeitos. Eu vejo isso. professor. E vejo que a tese, de um Balzac demasiado disciplinado, tem no filme um bom acerto. Em todo o caso, não posso deixar de acentuar que Rivette se perde no tempo e nos perde enquanto espectadores. Tenho que confessar, por outro lado, que a mão de Dufour exprime bem o envelhecimento da sua oficina, honrando o trabalho de Picolli na sua patética procura do amor acabado, da verdade atrás da porta -- o irreprimível desejo de dar sentido às formas antropomórficas, mas da ordem do monstruoso, que rasura sobre a tela. Para quê o modelo?, dir-se-á então. O artista, enfim na margem, aflora com o carvão a alvura preferível do papel ou rasga arduamente, em cadernos de mercearia, toscos nus de aparência velha e amarga. É isso que ele vê ou é isso que pretende dar-nos a ver, passando pelo modelo para interiorizar a parte do desejo que toda a criação envolve? Será que pinta apenas para si mesmo, arrancando a cumplicidade de Marianne, catarse regeneradora de um tempo único, afinal irrecuperável, cuja memória o vai devastar por dentro, fazendo soçobrar também a esperança inicial do modelo? É muita coisa para um filme só, apesar das quatro horas, e sobretudo porque, explicando as coisas por uma cartilha mais ou menos acessível, nos deixa entregues à nossa própria deriva. Muito bem, julgo dever dizê-lo, a citação de que a arte, permanecendo pelo tempo fora, será sempre esquisita e incompreensível. Bendita inutilidade, votada a guardar os nossos mais poderosos segredos e apontando para posteriores utilidades cuja natureza nos nos alegra e magopa, nos liberta e faz sonhar, o homem assim capaz de produzir civilização e poética. Por aí passa, mesmo em jeito de sombras chinesas, a nossa verdadeira identidade».