quinta-feira, novembro 06, 2008

SOBRE A ARTE CONTEMPORÂNEA PORTUGUESA | José Carlos Teixeira


O trabalho desenvolvido por José Carlos Teixeira envolve, sem efeitos formais ou fingindo que eles não existem integrando o projecto, indicadores que nos ajudam a entender a problemática da língua e da fala, as transmigrações entre os sinais da linguagem, o reconhecimento do todo pela parte. Isto também se ajusta ao modo da pessoa estar e como se relaciona com os contextos, objectos, situação. Uma figuração performativa pode apoiar-se na mulher sentada, ou dobrada para o chão, presente em ausência, e a simples demora desse acto confronta-se com o sentido da nossa espera visual, tanto no gesto como na pose, quando encostada à parede, em pé, reformulada pela luz: a linguagem visual muda o sentido da própria «dispensa» dada ao modelo sobre uma posição, falando com os experimentadores: a fala é sempre, mesmo quando não o parece, um pressuposto ou proposto acto performativo.


Antes de qualquer formulação dedicada ao público, as relações de José Carlos Teixeira têm sido testadas nesse âmbito perfomativo, convivial, de ensaio de ideias, todo o tempo em registo vídeo das conversas trocadas. Entre as sombras e as claridades, calculadamente, as personagens falam das suas experiências, quer se mostrem imprecisas, quer surjam debruçadas sobre a realidade, a sua intrínseca movência, a prática em revelação constante na linha do seu discurso ou das não histórias no rumor de cada introspecção, sem medo, razão das emoções que nelas formam a falsa certeza do espaço de afirmação temporal, é presente e é devir, conjugando a pertinência do nosso apelo pelo espectáculo, sem negar o valor expressivo do plano paralítico (no papel que nos cabe) para não nos alienarmos à escassez significativa de um meio riquíssimo de hipóteses formais ou de ligações dialécticas com a experiência e o seu inverso absurdo.


A pesquisa de José Carlos Teixeira, icluindo vídeo-instalações como «ESSAY ON UNSHEL TRED BODIES» ou «38 minutes of anthropology», tende a estabelecer actos separados e ligações imprevistas sobre a natureza dos nossos sentidos no contexto cultural a que pertencemos. A gravação de discursos orais encadeados, ao confrontar passagens do inglês para o português, avisa-nos sobre a qualidade das experiências individuais e em grupo, mostra-nos como os nossos sentidos estão a ser estimulados e como esse facto envolve diversas sonoridades ou expressões poéticas, sem versos, sem tonalidades cromáticas, sem espectáculo, mesmo quando, em certo momento do estudo, o operador tenta criar «desacertos» e «acertos» no corte das imagens, no seu enquadramento, no recurso ao close-up, manipulação plástica e cinética que matém no off funciona a decorrência das falas, já sem que saibamos a quem pertencem. Não se trata portanto de seguir um guião mas de reunir e confrontar as sensibilidades, urgências, nostalgias, métodos, coisa nenhuma.



Etnógrafo do profundo sentido do homem, experimental e contornando o espectáculo, José Carlos Teixeira parece desdobrar os pontos de vista, ou, como disse Elizabeth Line, «os corpos convertem-se em topografias debaixo do olhar do autor.» Por exemplo: «procuram um equilíbrio entre a promiscuidade extrema do movimento nómado, característico da era do capitalismo global e o seu próprio enraizamento.» Ver a instalação fotográfica, legendada, e confrontar essa instalação com a sua edição em vídeo, são atitudes bem diferentes afinal perante coisas semelhante: a mensagem densifica-se, a dimensão autoral do objecto ganha mais determinação.


O fenómeno da desterritorialização não tem apenas efeitos libertadores, incidindo sobre a identidade. Teixeira terá desconstruído o melhor que há na qualidade individual da pessoa (e os vídeos o demonstram em parte), enquanto a ocasionalidade tende a contribuir para tornar redutora a forma da nossa admirável contingência. Aquela ponte de outra geografia mostra, de um modo inquietante, pela aceleração das mobilidades entre velhas rotinas e gente acossada pela vida actual, sombras sem rosto, sem nome, pedaços de coisas vogando na madrugada em direcção a um amanhecer lasso.
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Rocha de Sousa, com base num estudo publicado
no Jornal de Letras em que procurou abordar al-
guns aspectos intelectualmente relevantes da ar-
te conceptual de José Carlos Teixeira.

quarta-feira, novembro 05, 2008

BARACK OBAMA, PRESIDENTE DOS EUA



Obama, membro do Senado dos Estados Unidos da América, alcançou, após uma extensa e árdua campanha eleitoral, o cargo de presidente deste país. Afro-americano, dispondo de uma folha de serviços limpa, falando com desenvoltura num projecto de mudança e de crença nas capacidades do seu país, este homem abriu uma frente de impressionante vigor durante o trajecto pelos Estados Federados da maior potência do mundo, hoje acossada por grave crise do sistema financeiro. Obama foi alvo das maiores manifestações de sempre na noite de ontem, através de todo o acto eleitoral, assumido em massa pela maior participação dos eleitores, algo como cem milhões de votantes. O seu adversário não era uma figura apagada da América dos nossos dias: McCain tem um percurso político de mais de vinte anos e é considerado um herói do Vietnam, onde combateu e foi feito prisioneiro, suportando durante cinco anos essa difícil situação num teatro de operações como foi aquele. Mas a sua visão do mundo, tocada por ideias de cariz conservador, dir-se-ia ensombrada pela diferença do discurso adversário; contudo, a sua força emocional e alguma rebeldia perante o pior do status quo, ainda o tornaram difícil, provável ganhador em alguns Estados problemáticos. Barak Obama, contudo, recortado por uma diferença sensível, com respostas bem calculadas perante as notícias do momento e a sua firmeza consistente na projecção de certa imagem cerebral mas imprindo legibilidade aos apelos que fazia, mostrou-se capaz de posturas serenas, descontraídas, paralelamente tocadas por um sentido de impressionante oportunidade intelectual.
Perante a situação do país e a penosa administração Bush, o confronto destes dois candidatos à Presidência dos EUA mostrou-se frutuosa em muitos sentidos. A votação de ontem e a expressiva vitória de Obama, tanto no acesso ao cargo de Presidente como nas maiorias do Senado e da Câmara dos Representantes, traduz-se em qualidade e valor histórico. O mundo espera que a diferença que marcou, para Obama, esta luta épica, seja de facto uma viragem capaz de unir esforços e contribuir para pacificações cada vez mais urgentes.

John McCain

domingo, outubro 19, 2008

NO DIA EM QUE O MEALHEIRO SE PARTIU


Em casa onde não há dinheiro todos ralham e partem o mealheiro.
Estamos todos metidos num barco onde nem sequer há mealheiro, perdidos os antigos escudos, e a tormenta em redor, com ventos de todos os quadrantes. É global, ameaçadora, e obriga-nos a arrear o velame inteiro. A chuva e as rajadas de sopros trovejantes, num convés já impossível de atravessar, forçam o comandante a dar ordem de atirar o lastro inteiro, incluindo mercadorias aceitavelmente desprezíveis, pela borda fora, antes que tivesse de rasgar contratos e empurrar para o oceano alguns marinheiros de folha manos abonatória.

Tudo aconteceu muito depressa e os homens que seguem a oscilação do tempo não foram capazes de prever um efeito assim, devido a alterações do clima, entre calores, degelos e dilúvios indiscritíveis. Nos últimos anos, as cheias tinham aumentado de volume e de capacidade destrutiva, um pouco por toda a parte, empapando os arrozais da China, as culturas e vacas sagradas da Índia, ao mesmo tempo que borbulhavam em regiões civlizadas e impunes da Europa, tanto a norte como a sul, além de afogar gados, destruir cidades, mesmo em muitos Estados da E.U.A., de mistura com sucessivos tornados, ciclones, tempestades tropicais. Cheias assim foram parar a outros continentes e partes do globo, em África, como era óbvio, na América do Sul, aliás de forma semelhante no Canadá e na Austrália, países onde não faltam mealheiros e onde a paz parece disfarçar antigos rancores, vontades discriminatórias, tornando as poupanças domésticas em porcos com forma de arranha-céus, monstros em aço e nunca de barro, cujas entranhas fervilham pelo efeito da bolsa de valores, ou pelas trocas de biliões de notas fortes em negócios tão volúveis como os trapalhões artesanatos e cópias que os chinses espalham alegremente pelo mundo inteiro.



Um dia, como aconteceu com as torres de Nova Iorque, sem aviões nem terroristas à vista, o universo financeiro começou a ruir justamente nos Estados Unidas da América, antes mesmo de terem saído do Iraque (Vietnam com areia e deserto), ainda por cima à beira das eleições, tanto mais aterrador porque ninguém achara que Bush merecia a honra de ser assassinado. Era uma bolha imobiliária, diziam os técnicos. Um beliscão que atemorizara o tortuoso jogo das bolsas, começando desde logo a espalhar-se por grande número da instituições bancárias e outras, sobretudo as mais votadas aos efeitos especiais do investimento nos sectores em rodopio de moda, patos bravos em especial, bichos que não emigram, estão em muitos lados, esplorando com despudor emigrantes vindos um pouco de toda a parte, escravos afinal, mesmo com carta de alforria. Afinal, as câmaras de filmar, quando das torres, pareciam estar previamente ajustadas, tendo registado planos de certa expectativa calculista, informada, as quais produziram de facto imagens impossíveis de recolher se não houvesse sinais no ar.
Dentro e fora das bolsas de jogo a dinheiro, outras câmaras estavam de facto previamente ajustadas, como sempre, e começaram a gravar o pânico da derrocada. Estava tudo a ruir, bancos em estado de falência, descidas a pique de acções de todos os negócios, empresas transnacionais, fortalezas do dólar, um enorme tornado, em suma, que era globalizante, como tanto se gosta agora de dizer, e já atravessava o Atlântico, induzindo para o vermelho as aparentes notas de poder das instituições, soprando menos fortemente na Índia e na China porque, nessa zona do planeta, a gente é tanta que a sua força de contenção equivale à portentosa muralha que nem Mao Tse Tung considerou feudalista ou capitalista. Em rápidas manobras de defesa, os políticos da Europa e dos Estados Unidos da América, entre outros, começaram por injectar dinheiro em tudo quanto ainda era riqueza, mesmo virtual, impedindo o pior a curto e médio prazo (assim se pensou). As engenharias transatlânticas, com jactos atravessando o espaço em, pelo menos, dois sentidos, não perdiam um minuto a trabalhar, com lacaios da informática, todo esse imperialismo onde as bolsas crepitavam sempre em baixa, ruínas encobertas, desastres tão apocalípticos como o das tais poderosas torres reduzidas a papel e cinzas em menos de uma hora.


Todos os engenheiros do dinheiro, dólares e euros sobretudo, vinham de longe a dizer que o maior avanço da civilização nos tempos modernos condizia com a queda das repúblicas socialistas soviéticas, o comunismo, a simbólica queda do muro de Berlim, e também com o desenvolvimento do mercado livre, sem regulação, tudo aberto e sem fronteiras. Aos que chamavam a atenção para acções corruptoras assim facilitadas e para a impossibilidade de acreditar no automático equilíbrio das balanças comerciais e outros dados de troca, logo as elites, pomposas e académicas, clamavam que os mercados se auto-regulam. Os que precisassem de pipocas compravam a quem as produia e estes, por sua vez, importavam milho e amendoins. O preço vinha , sacralizado, das leis da oferta e da procura. Que diriam os mais avisados aos africanos acabados de descolonizar, batendo-se em guerra fratricidas, caindo a pique na miséria e na peste? Franz Fanon, que tanto os defendera, sempre havia reconhecido o perigo que espreitava os povos ainda no limiar da história, ao passarem, de súbito para a contemporaneidade. Entrariam, porventura, em derrocada e teriam depois, sob regimes ditatoriais, de recolonizar-se pela tecnologia e seus irrecusáveis operadores?

Em Nova Iorque ou em Bruxelas, se não se reinventarem regras duras e certeiras no próprio domínio democrático, é o apocalipse. Se as teorias rascas que nos têm dirigido, como em plena batota, não forem irradicadas naquele sentido (pelo menos), não haverá Sócrates, nem Ferreiras Leite, nem Portas & Portas, nem os Jerónimos, nem Louçãs, nem Medinas Carreira, Rebelos, Rangéis, Constanças, Pachecos Pereir, ou gente assim, redonda, batalhadora com espadas de madeira, mesmo os antigos presidentes, Eanes, Soares, Sampaio ou o actual, ninguém de ninguém, nos salvará da morte global, universal, na petrificação quente e gelada do planeta, perdidas as próprias tecnologias no pântano lamacento carregado de milhares de toxinas, pasta silenciosa da CO2, um buraco negro cada vez mais perto de toda essa caducidade.

Nesses longos anos do fim, é possível que sobreviva alguém despojado de tudo e sabendo qual o seu linite. Ainda capaz de criar. Mas sem a manipulação do consumo e desconhecendo o dinheiro. Ou o mealheiro.

sábado, setembro 27, 2008

O MUNDO SOCRÁTICO, A LAGARTIXA E O JACARÉ


O Homem, além de se constituir como a mais transcendente criação da Natureza, tem a liberdade de se duplicar ao espelho, ou de se contradizer perante si mesmo, ofuscando a Criação com os grandes cartazes da sua efígie, dizendo aos mais pequenos da sua espécie a importância da escala, nos valores que defende e na sua realidade visível. Sócrates foi um dos filósofos do mais profundo pensar na tão lembrada civilização grega. Tão fino e alegórico quanto um outro também deificado, Platão, o da «Alegoria da Caverna». A sombra dos seres que se recortavam na abertura daquela sublime gruta projectava-se na parede rasurada do fundo, silhuetas sobrepostas, duplicadas, simétricas, laterais - ruído enquanto verdade decifrável, o real em si, capaz de suportar os comportamentos dos seres e de se significar por cada descoberta da sua natureza aparente e encoberta.
Um pensador dos nossos dias, que circula por Lisboa e pelo Mundo, comentando quais as possibilidades de certas coisas serem valiosas, no encontro, aliás, de uma maioria de indigentes ou lunáticos da política, nunca se esquece de publicar, semanalmente, a estranheza dos acontecimentos, sobretudo em Portugal, procurando assinalar as assimetrias menos toleráveis, essa distância demencial definida entre a lagartixa e o jacaré. Sócrates já abandonou a caverna, pois sabe os meios que hoje pode usar para fazer as suas palestras, com ideologia, sem ideologia, com ponto transparente ou sem ponto nenhum, aprendendo o discurso breve e preciso, próprio dos meios de comunicação moderna. Fala curto e preciso, deliciado com a força que a sua voz ganha na distância. Os seus detractores escarnecem desses novos hábitos, porque a filosofia e a política, estruturantes da Res Pública, devem beber-se como um chá chinês, na respectiva liturgia. O Sócrates de que o comentador fala, professor independente de Platão, é hoje um homem sem qualquer espécie de ideologia, não passa de um puro pragmático, tendo poderes mágicos que fazem inveja a muita gente, o poder da metamorfose, surgindo em pleno espaço público com metade da face transformada na respectiva metade de um pigmeu chamado Loução.
É claro que, bem vistas as coisas, uma simbiose tão cabal e pragmática envolve uma duplicidade pensante verdadeiramente arrojada e de importante recorte ideológico.
Mas a o jacaré (ou será a lagartixa) vive numa amargura de grande ciumeira, vendo arrogância a torto e a direito num filósofo que tantos discípulos acharam sóbrio, dialogante, sério e grave. Só a plebe se embebeda com tal maledicência, usando nomes e características impróprias do Mestre. Ora o Mestre está com as rédeas do poder nas mãos, não pode ser lasso, nem esticar muito o cabedal: toda a gente sabe disto, mas tão tarde depois ainda dizem que o único fio condutor (de Sócrates) é o discurso do auto-elogio mais ou menos arrogante (outra vez?) suportado por muita propaganda. O outro fio condutor (desta diarreia de vaidade) é o ataque sistemático e também arrogante (mais?) a tudo o que mexe e lhe parece oposição. Meu Deus, o que havemos de fazer a este senhor que grita penalty por tudo e por nada, dizendo dos outros que já sabe tudo, tudo antecipadamente, já se vê, mesmo quando se está dormindo no sofá, sem força para saltar nele como nas alturas em que o Benfica mete um golo. Toda a gente julgava quea função das forças governantes era a de defenderem os seus pontos de vista, dando publicidade a isso (o que não se confunde com arrogância, nosso senhor nos acuda). Nesse caso, Sócrates teria de dizer, com mais ou mens pormenores, é uma questão de método, não de maldade, o que pensa do que devem ser as respostas às situações envolventes. E à própria oposição, que se deve opor, está bem de ver, com aquilo de cujo fundo discorda, propondo alternativas, com mais ou menos ideologia, com mais ou menos vitalidade.
Ninguém percebeu aquela frase de que agora assiste-se a uma nova valorização das virtudes populistas. Além do mais, o que devemos pensar dos estragos que este homem e o seu governo estão a fazer ao País, quando o exemplo para tão grande crime é declarado como o discurso socrático, anticapitalista, feito em Guimarães? O senhor que fala assim, baralhando, em plena batota, a carta do valete Loução com a carta do valete Sócrates. É um senhor com uma excelente cabeça, estilo ex-revolucionário, que gritava contra o Magalhães num programa de rádio cham,ado «Flash Back». Não, ainda não era o Magalhães computador. Era o Magalhães Magalhães, aquele que também era zurzido no programa televisivo «O Círculo da Quadratura».
Quatro cavaleiros andantes, onde em geral se sobrepunham vozes, o comentador talvez mais com empáfia do que com arrogância (coisas próximas) e sempre sem a menor dúviuda dos defeitos alheios. Mas agora todos nós estamos interessados em que ele deixe as tricas com os homens do poder político e venha, sem tantos truques de linguagem desenfreada, analisar no limite de velocidade os fenómenos deste tremor de terra que faz estremecer o mundo capitalista (já não há outra coisa em parte nenhuma) e deita pelo chão muita ganância encoberta. Que soluções? Que novos projectos e sentidos para a vida, para as urbes apodrecendo, para territórios abandonados? O deserto e o apocalipse já «todos sabemos» que estão à porta, mas é tempo de nos pouparem a essas palavras disparatadas que significam crescimento, concorrência, competitividade, liberalismo, neo-liberalismo.
Oxidou a máquina do génio, sabiam? Isso dos votos, dar votos, tirar votos, é mera estratégia urbana de pantomineiros que só mimetizam os pequeninos factos do dia a dia, o mistério de uma palavra, o conflito de A com B, os siameses que nasceram na Assembleia da República e que o
dr. Gentil Martins vai operar, para os separar a preceito. E de vez.

terça-feira, setembro 23, 2008

TELENOVELAS DO NOSSO DESCONTENTAMENTO



Não pensem que a torturada expressão desta actriz, Alexandra Lencastre, se integra no contexto de uma profunda dor de alma, o corte brutal, olhos nos olhos de quem recebe a notícia da morte de um pai ou de um filho. O que acontece é que esta senhora, engolida por tudo o que a televisão tem de pior, se vê neste constrangimento facial sem perceber o péssimo efeito que daí resulta. Será bom acrescentar-se que Alexandra Lencastre era uma boa actriz. Mas há cedências que nos estampam o amargo do lucro no próprio rosto. Alexandra representa aqui não mais do que uma birra de mulher que sobe na vida através das mais alvares maldades, das armadilhas mais torpes, inomináveis em última instância. A senhora jé é viúva de um velho comerciante com quem casou no ocaso da vida (dele), já abandonou a família reles que é das mais grosseiras caricaturas que a Lia Gama alguma vez pensou desempenhar e exagerar, apanhou entretanto maridos alheios, praticou ilícitos de dimensão cósmica, usa a filha para ter relações o seu próprio amante e filma tão edificante situação, procura entretanto caçar um falso brâmane, filho do velho há pouco citado e que desembarca (riquíssimo) em Lisboa, no império das lojas Império, herdeirode boa parte de tudo isso. Alexandra Lencastre consegue deslizar como um réptil na mansão da família da Império, manipulando a filha, cujos genes são iguais aos seus, no mesmo sentido do golpe, do roubo dos namorados alheios, na vileza de crimes de morte, meninas impertinentes até ao vótimo, sem um mínimo de ocupação, sem nada, entrando e saindo dos quartos, pronunciado os mais despudorados clichés.
Estas anotações extraídas do que pude ver e compreender deveriam ser ajustadas a todo o guião, ao mesmo tempo que gente séria e independente teria a missão oficialíssima, sem omissões nem prazos de silêncio, de analisar este apopdrecido produto, impróprio para consumo, cujos rasgos de malvadez (a personagem principal a mandar matar a irmã a fim de lhe roubar a fortuna, os filhos, o próprio marido) não têm disfarce nem fim pedagógico. Esta é que é a verdadeira violência dos audiovisuais, em telenovelas que prendem os incautos e enganam o Eduardo Moniz com parolas audiências ou sonolentas passividades. Três novelas de seguida, qualquer delas com o mesmo modelo e a mesma impunidade de louvar ao Diabo. A degeneração das personagens que espalham o ódio, os vícios, as mortandades, nada contrapõe a essa indigestão de beleza adiada a ácido sulfúrico, quer quanto a uma nuance sobre o histerismo complexo do mal, quer em relação à indigência das falas, da escrita. Tudo aparece a nu, dito a cru, combinado a cru, cruelmente, gerando grandes partes de espectáculo tão vil quanto pronográfico. As audiências não justificam tudo. Com a antiga Lassie, regressando a casa depois do maior estoicismo, podemos dizer que o irreal também poluía as mentes, apesar dos milhões de pessoas que aderiam áquele modelo. Um bom modelo, como já aconteceu, capta grandes massas de público em pouco tempo. Se a TVI fosse menos ganânciosa e tivesse um bocadinho de bom gosto e de maior paciência, veria que a difusão continuada de produtos de grande conteúdo estético e de aprofundamento do homem não demorariam tanto como pensa a aderir a esses valores. Não é por acaso que os concertos no CCB chegam a estar cheios, que Pina Bausch esgota lotações, que muitos outros importantes autores arrastam multidões. Claro que há as mutidões da «pesada» e do «futebol», mas uma coisa não exclui a outra. O que se vê na TVI, em termos de novelas portuguesas, é a pior literatura de base, o mercado dos piores valores, e a constante humilhação dos artistas nacionais, algo que parecia impossível por causa do teatro conservador e da «naturalidade» dos brasileiros, e que hoje nos absorve com inteira justiça. Há tudo por onde escolher e actores jovens a par dos mais velhos, capazes de representarem a um nível invulgar. Seria bom que, com mão certa, se escolhese e produzisse a sério, sem levar actores valiosos a se mercantilizarem trocando cachets chorudos por caretas intermináveis e gritarias arrevesadas nem realistas nem expressionistas.

quarta-feira, setembro 17, 2008

DRAGÕES, LEÕES, E OUTRAS PRECIOSIDADES



O futebol português tem sofrido com o mercado de jogadores, suspeições relativas a dirigentes e árbitos, vultos supremos do treinamento, vitórias morais, falta de sorte, tráfico de infuências, excesso de estádios e muita relva para cuidar, entre várias outras coisas confrangedoras, tendo em conta estes velhos ícones de gerações que erguerem o dedo a Federções, tribunais federativos, UEFA, Liga dos Clubes, sempre em nome de uma Pátria de aventureiros sem fronteiras.
O presidente da Câmara de Gondomar, PSD dedicado à população e plural nos seus afazeres em vários campos, sobretudo no futebol, apontado por alguns como um injustiçado, foi indiciado, por volta de 2004, pela prática de 23 crimes de corrupção desportiva e tráfico de influências, saindo em liberdade na noite de sexta-feira, tendo como medida de coacção a proibição de contactar com outros elementos envolvidos no processo, a aplicação de uma fiança de 250 mil euros e a suspensão dos cargos de presidente do Metro do Porto e da Liga Poruguesa de Portuguesa de Futebol Profissional.
É um retrato estranho do futebol nacional, o que decorre desta envolvência jurídica que aponta o dedo a um homem suspenso de três presidências, diferentes entre si, e a uma coação de 250 mil euros. Esta notícia já foi ultrapassada: Valentim Loreiro tem vindo a derrotar o tribunal e, ao que
parece, faltam-lhe ainda dirimir o ultraje de mais sete acusações. O «apito dourado» soa em todos os nossos estádios e vai, porventura, passar a figurar nos estandartes dos clubes. A profissionalização escandalosa dos jogadores, movimentando milhões e milhões de euros, devia terminar com uma boa dose de reformas antecipadas. Um futebol de amadores dispensava muita gente inútil, dirigentes em excesso, deixando que a turbulência da competitividade se acantonasse noutras fortalezas igualmente sufocantes.
(risos).

sexta-feira, setembro 12, 2008

CADA ESCOLA É UMA ESCOLA

Marçalo Grilo, ex-Ministro da Educação



No pós 25 de Abril de 1974, entre cravos e bandeiras de esperança, as escolas, secundárias ou superiores, ficaram reféns das mais variadas teses de reforma. Já havia a reforma da autonomia universitária (a aceitação política do facto, pelo menos) e abaixo desse patamar depressa começou a verdadeira revolução, ao sabor dos elencos partidários, maiorias, minorias de interventores, as liberdades e o caos. O caos era quase todo da mesma cor, mas as liberdades variavam consoante uma mistura capciosa de ordens, as do Povo e as do Ministério a Educação.
Quando Marçalo Grilo era Director Geral no sector da Educação, estava a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa a procurar consagrar uma reforma posterior à de 57, mas num trajecto que já vinha de 72. A pretensão dos elementos desta instituição de Ensino Superior era a de contribuir para a actualização do país nesse domínio, numa altura em que o Ministério da Educação mantinha as rédeas do sistema como podia, ainda sem grandes ideias, Os Conselhos Directivo e Científico da Escola fizeram sentir a Marçalo Grilo que a situação das Escolas Superiores de Belas Artes do país, à semelhança do que se fizera em Espanha, e em geral, aliás, na Europa, implicava a integração daquela área, a do domínio dos estudos de índole artística, nas universidades. Estava-se num tempo em que já não se concebiam tais instituições sem investigação artística, estudos de arte avançados, incluindo o design e a arquitectura nas suas principais vertentes. Tudo, naturalmente, numa lógica de desenvolvimento a que os nossos governos saídos de Abril pelo menos tiravam o chapéu. Pensou-se que tal atitude não correspondia a uma simples gesto de cortesia. Em todo o caso, e para grande espanto dos colegas estrangeiros, em Portugal só havia, soltas, desalinhadas em inovações execráveis, três Escolas Superiores: Belas Artes, em Lisboa, no Porto, e Medicina Dentária.
Aquele membro do Governo, ao tempo, resistiu a todos os argumentos apresentados pelos representantes da Escola de Lisboa: dizia, em suma, que o país não precisava de artistas (julga-se que se referia apenas áquela altura), que o Design roçava a utopia e não tinha designação nacional, que a arquitectura sim, sobretudo pela natureza da sua produção.
Ninguém quererá discutir isto de novo, considerando o nosso estatuto na Europa e o presumível facto da natural evolução do ex-ministro da Educação, hoje Administrador da Fundação Calouste Gulbenkian e Presidente do Fórum para a Cidadania entre 2006 e 2008. Marçalo Grilo revela-se mais aberto, falando sobre o domínio da Educação entre os professores, pontos de decisão, autonomia das escolas. Foi sereno na entrevista, sem contradições de maior, advogando que «não há um sistema educativo, há escolas, e cada uma deve ter autonomia para desenvolver o seu projecto educativo». Afirmou também que «temos professores magníficos e que são eles a peça fundamental para resolver o puzzle da educação. Um puzzle que nunca estará completo sem os pais e, claro, os alunos. Que estão lá para aprender e ir o mais longe possível».
Já se ouviu isto em qualquer parte, em qualquer tempo, em diferentes situações. É como se fosse possível, demagogicamente, dizer, com a sonoridade de 74: «Menos Estado e mais Escolas Autónomas». Procurando bem, na entrevista, conceitos, métodos, que processo autonómico defende Marcalo Grilo,veremos como fala da autonomia das escolas, se a seu belo prazer, entre a vila e o cosmopolitismo, mas de forma calibrada na relação com o meio e os materiais disponíveis, se numa invenção e numa liberdade da Escola integrada. Ele acentuou, quanto à reforma da escolas, «que o parceiro que menos deveria intervir é o próprio governo. Se olhar para uma escola inglesa, o papel do governo é essencialmente regulador». Embora não se deva brincar com estas coisas e se deva respeitar a opinão dos outros, quem evoca o exemplo inglês não o pode extrapolar, sem qualquer insert regulador, para o nosso espaço sócio-cultural. Porquê? Porque não é possível: serve, em termos académicos, para colocar questões, estudar outras formas, entre a diferença e a semelhança. Há um momento da entrevista em que parece que o entrevistado é imperativamente a favor da autonomia integral das esclas, estejam elas onde estiverem, com mais ou menos limitações, com mais ou menos menoridades de contexto, origem, ausências, distâncias. Não é bem isto, como parece, pois o estado sempre regula alguma coisa, o leitinho, tecnologias novas, algumas regras universais, a da própria sobrevivência do Estado, por exemplo.
Mas vejamos que teoria floresce aqui, sensata ou utópica. Numa das suas respostas, Marçalo Grilo diz: «Mais do que tomar medidas, é preciso ser cauteloso, sensato, equilibrado na sua aplicação. A ideia da uniformização das escolas é aberrante e perigosa, porque as escolas são toda diferentes e nesse sentido devem adoptar sistemas de governo e formas de aplicação da lei que podem ser diversas. A uniformidade é inimiga da melhoria do funcionamento das escolas. Aquela ideia peregrina de ter um sistema educativo, uma espécie de estrutura tentacular em que as escolas eram todas iguais, está hoje completamente abandonada. Cada escola é uma escola e cada uma dela terá formas, quer do ponto de vista organizativo, quer do ponto de vista pedagógico, consoante as melhores soluções».
Em Portugal, neste momento, é preciso meditar nestas palavras. Não porque estejam erradas e defendam a instauração súbita da utopia no real. Mas porque um caminho destes, no caos de aptidões e estruturas que existem, na brutal distância que separa os saberes uns dos outros, precisa de outros alinhavos primeiro. Houve uma altura em que o país não precisava de artistas nem de designers. As prioridades eram outras e as vontades políticas também. Pois vejamos: se naquele tempo o Drector Geral errava a sua mira, sob a plausível verdade do seu saber, a estranheza da parte dos professores ali presentes começava pela pintura que estava atrás da secretária da pessoa que os recebia de forma tão certeira. Hoje o senhor Administrador volta, apesar de muitas outras aprendizagens entretanto conseguidas, a pecar por desajuste entre a teoria e a prática. Cada escola consigo mesma. o Estado, pouco. Entre isso e o agora, nem uma almofada? Porque há corpos que rejeitam certos remédios. E há Escolas que rejeitam certas camas. É preciso quem os socorra e as socorra numa tragédia assim, contra assombro da solidão do interior ou mesmo no recurso a um mínimo de rede contra o grande espaço urbano, onde a peste impera.

Rocha de Sousa

quarta-feira, setembro 10, 2008

QUEM É ESTA MULHER QUE VEM COM McCAIN?


Lugar de OPINIÃO do «Diário de Notícias», secção o tempo e a memória, de Mário Soares. Sob o título «Mudança dos Republicanos», este político incansável, atento, activo, controverso mas inegavelmente lúcido, alinhou no capítulo 1 da sua crónica de 8.09.08, uma importante série de considerações sobre o «choque psicológico e do excepcional êxito da Convenção Democrática», que parece ter remobilizado o Partido Democrático dos E.U.A, considerando, nesses termos, que se esperava uma forte reacção da Convenção Republicana. Nada disso se verificou. Bush teve assim o pretexto de que precisava para não comparecer, dado que a sua presença já era vista como perigosa, tal é o nível baixíssimo da sua popularidade e a própria agitação, quase simbólica, das forças da Natureza.
McCain, candidato republicano à Presidência dos E.U.A. tinha vindo a ensaiar um distanciamento de Bush, o que era, de um ponto de vista estratégico, bem compreensível. Contudo, numa viragem surpreendente, aquele candidato mudou a sua orientação política, convidando para o cargo de vice-presidente a «quase desconhecida e ultraconservadora governadora do Alasca, Sara Palin». Mário Soares faz então diversas perguntas: se as razões do convite partiam do facto da personalidade convidada ser mulher?, se tivera importância o facto de ser gonernadora do Alasca?, se garantia o discurso electrizante apropriado às circunstâncias? Seja como for, pelo menos esse discurso foi de facto produzido, deixando em segundo plano as palavras do próprio McCain. Palavras que o articulista achou formarem um discurso «descabido, confuso e pouco convincente.
A imagem feminina da senhora Palin, antes de falar, parece capaz de adoçar a virulência republicana. Nada disso, pelo que se viu. «A senhora Palin (escreve Soares) ultrapassou, pela direita radical, as posições desastrosas de Bush e de Cheney. Um discurso que, embora muito aplaudido na Convenção, fará mais estragos, no eleitorado americano, do que se imaginava pudesse criar o Gustav. Ela foi o verdadeiro furacão que abalou a Convenção.» Com efeito, é quase certo que terá consequências sensíveis sobre muito do eleitorado moderado e flutuante, republicano ou independente, aquele mesmo eleitorado que McCain procurava captar.
Mário Soares também foi sensível ao contraste entre a senhora Palin e McCain no jogo das aparências, o desiquilíbro entre uma relativa juventude e um homem que acaba de festejar os seus 72 anos. E contudo, a senhora Palin alimenta «ideias dificilmente aceitáveis pelo eleitorado moderado (mesmo republicano) que tem vindo a afastar-se de Bush. É uma neocon radical. Reclama mais armas, mais política de força, intensificação das guerras, mais pena de morte, mais petróleo, sem a mínima preocupação com a defesa do planeta ameaçado. É religiosa fanática, contra o aborto, contra os gays, criacionista, subscreve os desvarios anticientíficos contra a teoria da evolução, unilateralista, estando convencida de que a América, com a benção de Deus, poderá governar o mundo. Ela ignora as crises, o desemprego, o déficit astronómico.» Vistas bem as coisas, e aceitando que o articulista poderá alimentar algumas subjectividades, o que parece é que esta mulher, uma vez eleita, daria à América mais quatro anos do mesmo assombro. «Um pesadelo para os E.U.A, um desastre para o Ocidente. Soares quer concluir o que é óbvio numa argumentação assim, aliás plausível: que o desastre atingiria a Europa e o Mundo. Na esteira de um clima, aguçado pelo homem, que já começou a tratar do assunto.*

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* Leitura do artigo de Mário Soares, com citações, dada a sua oportunidade

quarta-feira, setembro 03, 2008

AS MÁSCARAS E O CORPO, ARTE OU DESEJO

AS TRIBOS DE OMO
fotografias de Hans Silvester



Nos confins da Etiópia, entre séculos de modernidade, Hans Sylvester dedicou seis anos a fotografar tribos ou homens, mulheres, crianças e velhos, verdadeiros génios de uma arte ancestral. A seus pés, eles tinham o rio Omo que cavalga o triângulo Etiópia, Sudão, Quénia, o grande vale de Rift que se separa lentamente de África, uma região vulcânica, enfim, que forneceu a estas comunidades uma imensa paleta de pigmentos, ocre, ocre avermelhado, verde, amarelo, branco ou cinzento. Na verdade, essa gente invulgar tem um jeito dinâmico para a pintura e usa como suporte das tintas o seu próprio corpo. Como chegam a medir dois metros de altura, não têm melhor tela para exercer a magia da sua arte. A força dessa arte pode resumir-se a três palavras: os dedos, a velocidade e a liberdade.
Desenham, por exemplo, com as mãos abertas e com as pontas das unhas, por vezes com um bocado de madeira, uma raiz, um tronco queimado. Os gestos são vivos, rápidos, espontâneos, desde a infância; tais gestos consolidam um movimento essencial que faz lembrar os grandes mestres contemporâneos, justamente quando eles têm muito para aprender e tentam, por bem, tudo esquecer.
Somente o desejo de ornamentar, de seduzir, de ser belo, um jogo e um prazer permanentes, isso lhes parece bastar, às gentes de Omo, para mergulharem os dedos na tinta e, dentro em pouco, dois ou três minutos, alcançar a expressão plástica: ela surge sobre o peito, os seios, o pubis, as pernas, tudo nada menos que as conhecidas invenções gestuais, mais ou menos contidas, de um Miró, um Picasso, um Pollock, um Tàpies, um Klee. Todas as diferenças são aqui ultrapassadas e aceites as semelhanças da vontade intrínseca, lúdica, litúrgica, entre a beleza e magia do ser.

sexta-feira, agosto 22, 2008

QUANTO MAIS CRESCEM MAIS TROPEÇAM EM SI MESMOS


Sei perfeitamente que alguns dos meus visitantes, ou mesmo muitos, olhará com desdém para esta fotografia. Digo de propósito desdém, pois todos os que cumprem a quotidiana liturgia do consumo e da competitividade, próprios da civilização contemporânea, têm vindo a tornar-se um pouco maquinais, miméticos, falando em «novo paradigma» e assumindo atitudes de cada vez maior indiferença perante o que os cerca de facto, senhores, enfim, de uma visão do real em colapso de miopia ou culturalmente mais redutora. Sonha-se com o êxodo transitório, férias nas praias do Brasil ou noutras paragens do bem estar turístico, lugares da mornidão indutora do sono. As pessoas sabem que se morre todos os dias em quantidades avassaladoras, da guerra ou das pestes, numa linha que contradiz aquilo que erradamente se costuma chamar evolução, globalização, partilha, humanitarismo. É mentira que isso esteja a acontecer equilibradamente no mundo. Qualquer miserável F16 resolvia a iniciação coordenada, vital, de pelo menos cem famílias, uma aldeia ou uma pequena cidade.
Também não vale a pena classificarem a escolha da imagem, aqui oferecida à reflexão dos meus contemporâneos, como mero sintoma de morbidez. A morbidez atravessa, isso sim, o Iraque, o Afeganistão, o conflito entre paquistaneses e israelitas, as raivas fracturantes da antiga Jugoslávia, a Tetchenia, a Giorgia e os tumores que combate sem os tratar, tropas russas usando estratégias de avanço contra o inimigo que lembram o czarismo ou o stalinismo, arrasando tudo, bombardeando apenas com o critério de bater militares e milhares de civis. Do outro lado do mundo, tratando a interminável luta por meios nefastos, a Colômbia tem um país clandestino e canceroso dentro de si. Em África, o crime ou é brutal e ensurdecedor ou se inscreve na teimosia sonsa e ditatorial de senhores como Mugabe.
Mas o verdadeiro problema, que reside em estratégias de longo prazo para orientação dos povos em função da convivialidade, da verdadeira partilha, não da famosa competitividade e da espantosa ideia de que os mercados, livres, se equilibram pela «lei» da oferta e da procura, terá de criar meios para que não nos digladiemos por conveniências de riqueza e poder: isso é o suicídio a longo prazo, sem contar com uma tecnologia cujo ramo atávico rebenta com os eco-sistemas do planeta. Os objectivos terão de ser desviados para um outro azimute e por forma a que as religiões assim se direccionem. Até nesse campo, os modelos transformaram-se em males, numa cegueira apocalíptica capaz de rasgar muitos mais abismos; porque se juntam à política, à gestão da força e da manipulação das mentes, devorando-se umas às outras ou a si mesmas.
A foto aqui proposta regista um acontecimento que nem sequer resultou de qualquer atentado terrorista ou das emblemáticas batalhas pela justiça. Neste caso, cerca de 150 pessoas, com maioria de mulheres e crianças, além de 50 feridos, fora vítimas da sua insensatez. No domingo, 3 de Agosto, na altura em que uma multidão de crentes entrou em pânico, procurando fugir do templo hindu Naina Devi, no Estado de Humachad Pradesh, a 250 quilómetros de Nova Deli, Índia, indícios fortuitos levaram aquela massa humana à tragédia. Mais de 50.000 peregrinos estavam no templo a participar no festival religioso de nove dias que todos os anos atrai centenas de milhares de fiéis. A queda de um bocado de estuque e o boato de um deslizamento de terras chegaram para provocar esta enorme tragédia, o esmagamento de duas centenas de pessoas.
A fé e os rituais também devem ter as suas regras de segurança, a começar pela arquitectura dos edifícios de culto. Esta falta de rigor traduz uma perversidade intrínseca, desacredita os princípios sagrados, pode levar a alucinações monstruosas, de medo e matança, de fuga e descrença. Não é quanto mais melhor, ocultando os desastres principais. O que importa é descobrir a beleza do mundo, mas sem fundamentalismo, reforçando a consciência das feridas e da investigação para as curar.

segunda-feira, agosto 18, 2008

ANA TERESA: SÉRIE FOTOGRÁFICA NARCISA

foto Maria Teresa Vicente série Marcisa double life

As estratégias auto-representativas estiveram desde sempre ligadas à criação artística, com especial ênfase nos últimos quarenta anos. Desde as grutas de Altamira às representações egípcias, à escultura grega, a representação de si próprio ou do Outro, parece estar intrinsecamente ligada à génese da arte.
A obsessão actual com a corporalidade, com a relação entre o sujeito e a sua imagem, não é paradigma das artes plásticas, podendo ser encontrada tanto na literatura como na dança contemporânea. Na arte contemporânea podemos observar que preside um certo imaginário intrínseco de criação de um mundo próprio, o qual já não é mero espelho do mundo, obrigado a reflectir fielmente o que o rodeia, mimético, com uma estética que permita aceder a níveis metafísicos superiores mas sim a um mundo fragmentado, que gera novas visões, um relativismo de prspectivas, elegendo o corpo como tema que permite uma reflexão sobre o estilhaçamento do Eu e sobre a sua fragilidade. O espelho surge então como objecto que favorece a imaginação, o sonho. A transparência do espelho é comparável à superfície da água que, no mito de Narciso, «enuncia que o desejo de retorno uterino, quer o desejo de fusão no Uno, e a forma como estes coincidem com a morte». *
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*texto da própria Maria Teresa Vicente e itação de um ensaio de Margarida Medeiros
Uma outra questão é a narrativa ambígua que emana destas fotografias, quase de micro-narrativas dúbias, já que por vezes estas assumem um caráter quase poético, mas nas quais a tensão e a estranheza patentes se revelam nos pormenores e na presença, implícita ou não, de um segundo sujeito. É no indizível que a narativa ganha força, na construção e composição da imagem, bem como nas relações sugeridas entre os vários objectos e sujeitos que poviam estas imagens. Por não haver um sentido claro, cabe ao espectador a cumplicidade da produção de um significado.







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sábado, agosto 16, 2008

A CURIOSA FARSA DE UM CORTEJO MEDIEVAL


O título desta mensagem visual já explica quase toda a minha opinião acerca destes eventos, divertidos sem dúvida mas enviesados quanto à história, diversos tipos de iconografia, encenação ou cenografia. Estas jovens parecem-se pouco com os intérpretes de rua, o que não significa que a Idade Média não tivesse algo de semelhante. Mas loiras assim? Em tempos de luta com sarracenos e coisas semelhantes? Elas não vinham na frente do cortejo. Os homens a pé, com bandeiras, adagas e escudos, elmos e cota metálica, além de gente com tambores de ensurdecer, batendo, batendo, na pele esticadas dos tambores, esses sim, abrindo espaços, distanciavam os alaúdes, escondendo sons até que eles pudessem sustentar as danças das mulheres no terreiro do palácio. Uma farsa amável que percorreu várias vezes a cidade e honrou a princesa que vinha postar-se na varanda de todos os sonhos de outrora.


mouros antes, depois,
uns decepados ou fugidos,
outros para sempre partilhando
os nossos destinos

sexta-feira, agosto 15, 2008

SILVES: FEIRA MEDIEVAL OU ILUSÃO CÉNICA


A Feira Medieval de Silves é uma tradição recente. A iniciativa parece razoavelmente adequada à actividade comercial e à transacção de artesanatos. A dificuldade de estudar o assunto, sobretudo pela sua eventual configuração com a Idade Média, oferece ainda mais escolhos por se tratar da simulação de um espectacular evento decorrido (era o tema este ano) numa das mais florescentes cidades sob domíno árabe no século XI, coisa que mal foi sugerida, ao contrário dos outros anos, pois a presença dos mouros esteve praticamente nula e os trajes usados em 2007 escasseavam, quase todos eles haviam sido substituídos, em precariedade, por novas e raras peças. A estereotipação de modelos de barracas, lugares de venda de refeições, comércio a céu aberto, tudo isso, embora em áreas mais vastas, quase nada mostrava de recuperação icónica, de adereços ou acções históricas. Um esforço deste tipo poderia enquadrar (até para o futuro) maior fidelidace didáctica. Claro que a vertente comercial tem vindo a absorver a orientação das coisas: um mínimo de rigor, a par da extensão das coisas acaba dominado por comerciantes marroquinos, objectos artesanais sem modelos de autenticidade, argolas, pulseiras com vidrinhos, colares aos milhares, algum anedotário da cerâmica, coiros, adereços de ornamento e tecidos. O sucesso não é da simulação mas da mania das compras, vulgaridades que o português compra, aqui ou no estrangeiro. Trata-se pois de uma feira como outra qualquer, mais intimista, mas escandalosamente falsa na identidade cénica.



domingo, agosto 10, 2008

RUÍNAS ANTIGAS, CIVILIZAÇÕES PERDIDAS

Efeso

pelo Médio Oriente
e a força das gentes
convictas do poder divino








dos egípcios,
Karnak.
e um faraó
refém do
poder dos
sacerdotes







Não me lembro se visitei estes lugares, ruínas antigas, memória de trabalhos que duravam séculos. Mas tenho visitado documentos e legendas que se completam com um registo bem poderoso, o da fotografia, entre olhares de hoje para ontem. Nestas imagens mal lembradas, o registo fotográfico mostra-nos formas rigorosas, imensas por vezes, suspensas pelas forças arquitecturais e o belo traço da geometria, além de edifícios inteiros, nus, fortes, monumentais, inacreditavelmente assentes em terrenos arenosos, tudo no trânsito das civilizações, ou de gente que queimava vidas inteiras para apurar e sobrepor tantos materiais do puzzle ilusório, a eternidade procurada numa precariedade desconhecida. Mas a verdade é que nem os deuses são eternos, nunca sobreviverão ao apagamento das espécies, incluindo a humana. As ruínas antigas, de civilizações perdidas, são em parte a demonstração de que já não passam disso; são visitáveis pelos últimos homens, numa curiosidade mórbida de saber quem fomos há milhares de anos, mas não mais como última prece do seu poder, agora que os pedaços de templos e palácios só servem imagens parcelares do mundo outrora, o esforço e a inteligência de uma espécie, que é entretanto presumível, nem sequer sobreviverá aos insectos. Levo as fotografias para casa, para os filhos. Se calhar para os netos, ou para os netos dos netos, num tempo previsivelmente aquecido e tormentoso, em que as prioridades terão pouco que ver com o crescimento físico e o dinheiro, material de jogos e tentações avassaladoras.

sábado, agosto 09, 2008

SOLJENITSINE, DO GULAG ÁS HONRAS DE ESTADO

Alexandre Soljenitsine (1918-2008)

Alexandre Soljensitsine, escritor russo, Prémo Nobel da Litertura em 1970, faleceu no início da semana e foi lembrado em todo o mundo. Soljensitsine, um escritor russo nas suas grandes linhas de definição, consagrou-se em parte como os artistas apanhados pela violência da História, dotados de uma grandeza trágica ou heróica. Acabou por ser assim, depois de vinte anos de exílio, ao regressar à Rússia, louvado a vários níveis, herói enfim respeitado e que veio a morrer no princípio da semana, aos 89 anos. O regresso verificara-se em 1994. Passara entretanto exilado durante 20 anos, 17 dos quais nos Estados Unidos. O seu regresso foi também a persistência da voz profunda da Rússia, a Rússia imensa e mítica.

Soljenitsin não se identificava com a figura habitual do dissidente, tendo mantido uma nítida distância crítica em relação a Sakarov. Aliás permaneceu refractário à ideia da ocidentalização da Rússia. O seu discurso, para além disso, marcou quase todos aqueles que, com o «Arquipélago de Gulag», o glorificaram. O seu retorno envolveu um discurso religioso, otodoxo, acompanhado por posições nacionalistas ou a inegável expressão de um misticismo das raízes. A mágoa dos companheiros de outrora tinha as suas razões: não porque faltassem as provas, os documentos, os testemunhos, as análises do que se havia passado na pátria do «socialismo real. De facto, a obra de Soljenitsine, cujo primeiro volume se publicou em 1973, emprestava uma dimensão grandiosa e altamente documentada dos factos, altura em que o Gulag, afinal, se tornara uma palavra-chave da consciência ocidental acerca do que acontecera na União Soviética. Em boa verdade, o livro que consagrou o autor do ponto de vista literário foi uma novela extraordinária que se intitulou «Um Dia na Vida de Ivan Denissovith». Aí acopanhamos a jornada de um camponês num campo de trabalho soviético. Obra que reflecte a própria experiência do escritor, o qual passou oito anos como prisioneiro num desses sinsitros lugares, aliás amplamente multiplicados por Staline. Após a entrega do Nobel a Soljenitsine, o herói futuro, em vez de voltar ao seu país, acolheu-se significativamente a Estocolmo. O medo não poupa os heróis. O seu retorno à terra mãe, décadas depois, pode envolver cada emigrante qualificado na liturgia do reconhecimento e da grandeza. Soljenitsine, cumpridas as suas vontades, foi enterrado com a benção grandiosa do Estado.

terça-feira, agosto 05, 2008

A ESTRANHA PEDAGOGIA NAS ESTRADAS


São estranhas, em Portugal, as campanhas das autoridades que têm a seu cago a vigilância, prevenção e acções pedagógicas no sector rodoviário de todo o teritório. Não é a primeira vez que abordo aqui esse problema, um dos mais sérios com que nos defrontamos nos noticiários, num clima especulativo e demagógico pela referência das imagens, bem como na repetição inconsequente das mesmas razões para os desastres, sem que, em sede de redacção, os jornalistas se detenham a examinar, noutras perspectivas, a regularidade, em números e desgaste, dos desastres que acontecem nas nossas auto-estradas, estradas e cidades.
Todos os anos, nas Festas e na abertura da temporada de férias correspondentes ao Verão, as brigadas de segurança às estradas, anunciam efectivos mobilizados na ordem dos milhares. E publicam, entre viaturas identificadas e viaturas não identificadas, uma cadeia de graduação de multas que chega a ser humilhante, tendo em conta o que se repete anualmente. A polícia de serviço nas rodovias têm formação adequada, segundo creio, mas nunca se nota a diferença de métodos quanto a situações também diferentes, nem um diálogo pedagógico com os condutores, ultrapassando a mera trindade do alcool, excesso de velocidade, incumprimento de regras.
A polícia, e os seus técnicas, ainda não se pronunciaram sobre questões como as seguintes:
>Terá o país dimensão e meios para os dois milhões de carros que andam por aí?
>Haverá algum curso de formação de instrutores e meios modernos de abordar matérias relativas à condução, à psicologia dos condutores, às diferentes situações que se lhes deparam, aos adequados preceitos de aprendizagem bem fundamentada do código da estrada?
>E esses instrutores estão capacitadas a abordar a quase totalidade dos problemas que podem surgir a um condutor, manobras agressivas mas necessárias, conhecimento do carro, da sua mecâmica e da mecânica em geral?
>A polícia estará habilitada a abordar os automobilistas na estrada, nos métodos de paragem, de pedir documentos, de espiolhar todas as desnessidades às quais eles são amarrados?
>A teoria inerente aos exames para obtenção da carta está bem exposta, não terá excesso de índices cuja matéria é facilmente esquecível? A perda do exame de código por «morte súbita», como nas séries com pistolas durante a guerra do Vietnam, não será desajustada do nosso temperamento e graus de relação com a realidade?
>Porque é que o ensino não usa simuladores e porque razão não se estuda, com base científica, a natureza de certos desastres, os mais típicos, os mais regulares, os de evidente continuidade?
>O patrulhamento do trânsito é fixo ou acompanhado, sobretudo em motocilos, cuja mobilidade e visibilidade permite tomar decisões preventivas a montante e a jusante das colunas?
>Porque não se procede ao reordenamento dos bloqueios, através das brigadas em motociclos?
>O que é que se ganha em agir ilegitimamente, com carros disfarçados, que chegam a disputar situações de velocidade e infringem claramente (num exemplo aos outros) as regras relativas à via contínua, estados de aproximação, tipos de sinais, entre outros?
>Porque é que, em vez da actual rotina e a baixa descida, em geral, de desastres mais ou menos graves e de mortos, não se opta pela ajuda em vez de infligir medo e mesmo terror aos automobilistas? O medo nunca foi bom conselheiro nestas questões. Conheço condutores que adquiriram traumas fóbicos ou de «fuga em frente» pelas inúmeras experiências desadequadas a que foram sujeitos pelo comportamento das autoridades. A polícia não faz por mal, acredito, mas a problemática das estradas, incluindo a mais iníqua das sinalizações dentro e fora das cidades, têm reunido um conjunto vastíssimo de comportamentos de risco a desabar sobre os condutores de viaturas ligeiras ou outras?
>Outro tanto se deve dizer quanto aos camonistas, entre o comportaento relativo aos ligeiros como no que se refere aos dispositivos de sinalização em viagem. Experimentei viajar de noite numa zona montanhosa de Espanha, onde fui encontrando vários carros pesados. Tais carros acendiam logo que se apercebiam da nossa presença, atrás, uma luz vermelha: assim eu era advertido de que não podia ultrapssar dadas as condições existentes. Pouco depois, o condutor do camião acendia o farolim amarelo, avisando-me que devia estar preparado para uma eventual ultrapassagem. Quando as condições estavam reunidas, o condutor acendia o farolim verde, apitando, encostando à direita e moderando a velocidade. Isto existe por aí? E será que não se percebe a vantagem (civilizada) do dispositivo?
>Não deverá a polícia distinguir o comportamento de acompanhar e coordenar o trânsito, em marcha paralela, quando são previsíveis grandes quantidades de veículos, das operações fiscalizadoras, propriamente ditas, aí sim, podemdo estar em brigadas estacionadas, em comunicação umas com as outras, usando de privilégio de mandar parar carros para verificar toda as condições que são devidas ao trajecto que o condutor esteja a cumprir?
Eu acho que basta pensar um bocadinho e asim evitar a repressão dantesca, com carros ilegais e multas de um valor absurdo, tanto para certos casos, como para o país, que não pode ser vampirizado desta maneira. O dinheiro ganha-se de outra forma. Penso eu (de que) e não tenho nenhum Boby...

quarta-feira, julho 30, 2008

SLAVOJ ZIZEK, DISCURSO CRÍTICO DA IDEOLOGIA


Parece oportuno fazer aqui, para esta época, a convocação de parte do discurso crítico da ideologia, de Slavoj Zizek, apontado indevidamente como «filósofo pop» e editado em Portugal pela Relógio D'Água, pensador de dimensão provocadora, pulsando multidões na Europa e nos Estados Unidos. As citações aqui feitas foram extraídas do depoimento «Em Discurso Directo», publicado no suplemento Actual do Expresso (19.07.08).
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Lentamente, o tempo do pensamento crítico está a chegar. Vejamos alguns exemplos maravilhosos da ideologia actual. A questão da tolerância. Está na moda lutar contra a intolerância e ser pela tolerância. Porque é que automaticamente se formula a luta contra o racismo em luta pela tolerância? Martin Luther King, nos seus discursos, quase não usava a palavra «tolerância». Para ele, o racismo antinegros não era um problema de tolerância, era um problema de injustiça económica, legalidade, ética. Seria uma humilhação para ele dizer: «Nós, os negros, queremos mais tolerância». Porque é que traduzimos o racismo em problema de tolerância? A resposta é clara: porque algo aconteceu com a chamada era pós-ideológica ou pós-política. E o preço que estamos a pagar é este: todos os problemas são formulados como culturais e não como políticos. O que debatemos hoje em política? Não tanto a economia, mas mais o direito ao aborto, o casamento dos homossexuais... Isto é um fenómeno típico de como a esfera da economia é cada vez mais despolitizada.
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É preciso repolitizar. Se não repolitizarmos a economia aproximamo-nos da catástrofe. Toda a gente hoje ri de Fukuyama, do seu «fim da História», mas penso que agora até a esquerda é basicamente fukuyamista. Ninguém pergunta se há alternativa à democracia parlamentar, uma alternativa ao capitalismo. Quando eu era jovem sonhávamos com um socialismo de rosto humano; hoje sonhamos com um capitalismo de rosto humano, com um pouco mais de direitos humanos, de direitos dos homossexuais, de direitos das mulheres...A verdadeira pergunta séria, para mim, é esta: é isto suficiente, ou já estamos a ser confrontados com novos conflitos que não podem ser resolvidos neste quadro democrático-parlamentar do capitalismo? É por achar que sim que permaneço de certo modo um marxista. Fukuyama, no seu último livro, admite que a biogenética está a colocar problemas éticos e práticos que não podemos resolver no quadro da eonomia de mercado. Ele próprio propõe uma mais forte intervenção do Estado. Temos agora uma nova lógica do «apartheid». Mike Davis, no livro Plamet of Slums, diz que há mais de um bilião de pessoas a viver em bairros de lata, gente que faz parte da sociedade mas está excluída do espaço público. Negri e Hardt sublinham o facto de, hoje, o modo de trabalho predominante ser imaterial.
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O que acho triste é que na verdade não temos uma boa teoria do que se está a passar realmente. O que é tão enigmático e perigoso na China? Até agora, a melhor legitimação do capitalismo era que mais tarde ou mais cedo ele trazia a democracia. Mas não é o que está a acontecer na China. O que está a emergir lentamente são os chamados «valores capitalistas asiáticos». Isto é algo novo, na medida em que não precisa de democracia. Imaginemos que os protestos de Tiananmen tinham ganho e que tinha havido reformas democráticas radicais. Penso, e digo-o sem regozijo, que nesse caso a China teria tido o sucesso económico que tem hoje.
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Eu não gostaria de viver numa sociedade onde fosse necessário argumentar contra a violação das mulheres. Outro exemplo: o referendo irlandês. Sou muito pró-europeu, mas apoio o «não» irlandês. Porquê? Choca-me o modo como a Europa reagiu e tratou os irlandeses como idiotas. A elite europeia iluminada permite uma única escolha: votar «sim». A democracia é cada vez mais a democracia aclamatória. E o problema da Europa é que os burocratas europeus querem impor a imagem de que ou se aceita o que eles querem ou teremos a extrema-direita, os protofascistas, o nacionalisno, etc. Não é tão linear como isto: o que eles estão a propor é a sua visão simples e tecnocrática da Europa. É errado ler os votos dos irlandeses como anti-europeus. Há hoje dois modelos em competição: o capitalismo liberal e a China ou os valores asiáticos. Eu não quero viver num mundo onde estas são as únicas escolhas. Temos necessidade de alternativa.

segunda-feira, julho 28, 2008

A INFORMAÇÃO REDUTORA, DESDITOSO AMANHÃ


Leio habitualmente as crónicas de Clara Ferreira Alves na revista Única, do Expresso. É raro não estar desse lado da escrita, da forma de ver o mundo, nas admiráveis imagens sobre situações em invulgares derivas pelo mundo. Desta vez (26. 07. 08), Clara intitula o seu texto com a expressão SPAM LUSITANO. «Uma boa parte do que se publica nos jornais é Spam. Spam é lixo electrónico, a quantidade inesgotável de mails e mensagens sobre coisa nenhuma, avisos e alertas desnecessários, indignações de rodapé e comentários de nada». Em torno disto, nos diversos graus de operacionalidade, os milhares de milhões de dólars gastos assaltam qualquer noção de bens verdadeiros e de segurança no caminho para o futuro. Toda a vigilância sobre a consciência é inútil: o lixo retorna com enormes propriedades de ser hiperexplicado e eufórico, denso de infiltração no que pode ser a nossa identidade mais profunda e verdadeira.
«Existem novas leis: a imagem sobrepõe-se à palavra, a palavra tem de estar dividida e segmentada em parágrafos e pedaços, com destaques, de modo a prender a atenção. Na luta infernal pela atenção dispersa do ouvinte, leitor, espectador, tudo tem de ser hiperexplicado ou, em alternativa, sensacional e disfórico. Uma vez convenientemente digerida nos intervalos de outras informações que competem entre si, a informação não chega a ser hierarquizada nas nossas mentes e tudo é igual a tudo, na grande teoria da indiferenciação cultural que gera a nossa indiferença. Só o aberrante, o pais austríaco que manteve a filha prisioneira durante 24 anos, ou o grandioso, a Espanha ter ganho o Europa 2008, ou o catastrófico inovador, o tsumani na Ásia que matou 250.000 pessoas, ou o criminoso policial, o desapareciento de Madeleine McCann, provoca a nossa intenção não dividida.Todo o resto cai em saco roto, e não nos espanta ver em rodapé de um noticiário pimba de televisão a notícia 180 mortos no Iraque em atentado terrorista, porque a notícia que devia ser importante tornou-se secundária. O terramoto da China foi completamente engolido nas nossas televisões pelo futebol e os desígnios insondáveis de Scolari».

Valerá a pena transcrever mais? Os telejornais podem abrir com notícias de um negócio de compra de jogadores de futebol e os factos internacionais pulverizam-se a todo o instante. Mesmo as nossas realidades comuns e incomuns passam ao formato e ao conteúdo dos tablóides mais grotescos. Clara Ferreira Alves termina um parágrafo esclarecedor com a segunte frase:«o major Valentim é mais importante do que as tropas portuguesas no Afeganistão?». A mediocridade toma conta do nosso espaço físico e cultural como o maior dos derrames de crude sobre países inteiros. A brutalidade de tudo isto acontece na própria estrutura em que nos movemos, numa completa dependência de um único (e esgotável) meio de produção de energia. A deriva de quotidianos concentrados no consumo grosseiro, nos espectáculos megalómanos, nas bandas que ensurdecem toda a gente em parques carregados de 30 a 40.000 pessoas, a eleição sacra dos desportos radicais e a pompa luxuosa como por vezes são apresentados, tudo isso bloqueia a qualidade plural de direitos que acabamos por atirar para o caixote do lixo. Os cérebros atrofiam-se, o corpo incha, a indiferença pelo sofrimento cresce. Os dietistas e coordenadores de ginásios inventam a maravilha de um corpo afinal cada vez mais obsoleto, mesmo que capaz de sobreviver mais anos. A própria farmacologia tornou-se, à escala global, um horror de propaganda e duplicações terapeuticas desnecessárias. Tudo se distende em deformação manipuladora, em informação castrante, em diluições das identidades nacionais. A civilização, assente em tais pressupostos de crescimento, e não de medida ou bom senso, finge organizar-se mas tende para a implosão.

Perguntava um senhor de bengala a um menino da rua: «Bom, agora que já comeste o bolo diz-me lá o que é que queres ser quando fores grande?
E ele, com a esperteza amarrotada: «Jogador de futebol»