quarta-feira, julho 21, 2010
CONSTITUIÇÃO MEIO RASGADA, AINDA DE NOME SOCIALISTA E JÁ AMPUTADA DA JUSTA CAUSA
sexta-feira, julho 02, 2010
BONS OFÍCIOS DOS MERCADOS LIVRES E CEGOS
segunda-feira, junho 28, 2010
AS TERRAS QUE NOS FALAM DE OUTRAS TERRAS
Os cineastas que, desde cedo, procuram sugerir paisagens claramente de outros lugares noutros planetas, a fim de encenarem as cenas do nosso imaginário de encontros fora da terra, voos gravitacionais a planetas próximos ou longínquos da nossa galáxia, depois de uma longa investigação drecta e automática do sistema solar, procuram por vezes lugares como este. É um lugar que parece deserto e impróprio para a vida humana, não passa de uma paisagem, aliás deslumbrante, de certa zona da Islândia. Os trabalhos de produção de um filme naqueles termos exigem deslocações a sítios destes, registos, documentação, correspondências, o menos onerosas possível, relativamente ao projecto e determinadas se quências. Mas o que faz com que outros homens, sem qualquer função criativa, se aventurem a desbravar caminhos para terras assim, a montanhas inenarráveis, perdendo-se ou morrendo, chegando em muitas situações a pontos da Terra onde ninguém mais chegou? Esse é outro mistério: talvez simplesmente o desejode superação de obstáculos que caracteriza o ser humano. Talvez ainda, e por outro lado, a remota memória que há em nós todos de um paraíso, de um lugar fora do planeta, a quietude, a grandeza dos espaços, o anonimato dos seres. Há quem diga que os portugueses estão possuídos deste mal ou desta interior grandeza -- porque se espalharam por todas as terras que lhes evocam terras escondidas dentro de si. O enfrentamento, aliás metódico, dos oceanos pode ser um indício de uma transcendência que só há poucos anos estamos a escavar, através de telescópios colocados em órbita, e que, apontados a certas zonas do Universo, acabam por nos mostrar milhares de fotografias de acontecimentos colossais verificados há milhões de anos luz. A luz chega-nos entretanto de outras terras e já nos falam substancialmente delas. O mistério resta no próprio Universo, para o qual na há hipótese de explicação, nem mesmo pelo embate de partículas circulando no espaço negro. E circulando ou movendo-se porquê, para quê? Um padre disse que falara com Deus a esse respeito, ao que Ele teria respondido: «Não sei nada de Partículas. Isso são invenções do homem»
Ele também, como se sabe.
O MISTÉRIO INIMITÁVEL DOS ESPELHOS
Por vezes as imagens projectadas nos espelhos e reflectidas por eles parecem insinuar que todo aquele regresso da coisa enviada, é impossível, mesmo que virtual, e mais se assemelha a um mistério dos prestigitadores em sala de recreio, algo como se fazia há um século. Os macacos, seres de grande inteligência na escala darwinista, ainda não perceberam, embora já saibam agitar a sua própria imagem para que o seu homónimo o imite de imediato. Mas até isso é inimitável. E há momentos de impaciência, como acontece durante a aprendizagem humana, em que o macaco percebe o limite da imagem, espreitando à direita e à esquerda, passando mesmo para o outro lado do espelho, onde, estranhamente, nenhum irmão seu se encontra. Na guerra colonial, havia soldados que fitavam longamente as fotografias da família, da namorada, deles mesmos. E levavam muito tempo para se reconhecerem, presos de angústia quando o registo da sua imagem pertencia a um tempo recuado e eles eram outros, perdidos numa rua da aldeia ou levando fato de domingo para o alto dos penhascos. Alguns desses homens, mais sombrios e menos capazes de aceder ao sentido intemporal da imagem, isolavam-se na depressão e chagavam a suicidar-se. Aqui não, descansem os espírtos sensíveis: aqui vemos a coisa projectada e a imagem reflectida: são siamesas e não há ninguém que as separe verdadeiramente.
quinta-feira, junho 24, 2010
MANUELA, CONTRA SÓCRATES, DESAFIA JUSTIÇA
Este jornal da TVI, às sextas feiras à noite, com a apresentação encenada de Manuela Moura Guedes, era de facto truculento. Conheço desde há muito, através da televisão, a figura e a acção desta apresentadora e lembro-me do seu lado algo risonho e gracioso, inclusivamente a cantar numa festa da Estação. Fazia-se, para muitas pessoas, apresentadora de referência. E assim durou até uma súbita passagem do tempo, incidentes da natureza ou da vontade. Quando voltou aos ecrãs da TVI, parecia um pouco estranha, na fisionomia, mas sobretudo na forma de dizer. Não em tudo, com certeza´, mas de certeza no famoso jornal de sexta-feira, à noite, com o tempo todo para ela e um só assunto da política portuguesa: o governo socialista, o desgoverno do país, a inaceitável maneira de decidir do 1º Ministro, as obscuras relações dele com outros, o seu enleio na Freeport, numa licenciatura de «aviário», no desnorte das escolhas e na queda em crise, algo de perturbante, de mistura com o processo da «face oculta», cuja existência era bem antiga e até infligida pelos gastos de Gueterres, um homem brilhante que esteve, contudo, quase a afogar-se no pântano, donde se furtou a tempo e em nome das Grandes Causas. Durão Barroso, que calhou na sequência de poderes, fugiu antes de pronunciar a perigosa palavra pântano. Limitou-se a dizer que o país estava de tanga (ele também) e tratou de lutar para que o fizessem presidente da Comissão Europeia, onde se tem mantido, afrancesado, falando em inglês e metendo o português no bolso. Não era tanto o trabalho de Moura Guedes que feria a nossa sensibilidade, quer apreciássemos ou não José Sócrates: eram os esgares que fazia com todo o rosto, olhando de soslaio, em pausa, para acentuar um sentido pseudo-oculto do que acabara de dizer. Saramago concorreu com ela em questões mais sérias e numa simples entrevista: Deus havia cometido erros grosseiros e o caso de Caim empolgara o escritor de «Levantados do Chão». Devagar, nem sempre a ganhar, ele procurava levar a água ao seu moinho e descobrir que bispos usavam capachinho. O Presidente da Ordem dos Advogados foi questionado, no tal jornal de sexta, pela então já renovadamente famosa, Manuela Moura Guedes. O homem não é de ficar aterrado, fala em rajadas de velocidade apreciável, cala as interrupções vibrantes de Manuela Guedes, e diz coisas que o Pº Ministro nunca lhe disse: «o que a senhora faz não é jornalismo, não tem nenhuma dignidade, esboroa-se em ataques soezes e longe do mínimo respeito deontológico na dignidade dos actos públicos, profissionais, institucionais, com a postura a que devia aspirar». Ponho aspas para sinalizar o muito que esse senhor disse, a reprodução não é à letra, mas o sentido sim, além do muito mais que ele disse. Não houve réplica no outro número, Sócrates desceu ao proscénio, a face oculta, tudo isso mas nem tudo isso, porque os eventuais personagens dessa «Nova Ordem do Mundo» nunca eram citados por inteiro, a horas, em percentagem. Vejamos um pouco desta telenovela:
Sócrates: Acham que aquilo [o jornal sexta] é um telejornal? É um telejornal travestido feito de ódio e perseguição pessoal (...) A liberdade de imprensa quando é utilizada para injuriar está afinal a difamar essa liberdade.
Manurla M. Guedes: Não me senti incomodada por outros governos. (reagindo à pergunta)De alguma forma, mas eles são uns anjinhos, comparados com este Governo. Meu Deus do Céu, verdadeiros anjinhos»
Sócrates: Tenho tomado conhecimento da divulgação pela TVI de uma gravação contendo referências ao meu nome a propósito do caso Freeport e esclareço o seguinte: No que me diz respeito, essas afirmações são completamente falsas, inventadas e injuriosas».
Manuela M. Guedes: Sócrates não cala os jornalistas da TVI com ameaças e críticas. Tentou tirar credibilidade ao jornal mais visto pelos portugueses. Não vai conseguir e vai responder em tribunal.
E assim por diante, sem dizer chega. Sócrates defendeu-se com o direito que lhe cabe quando é objectivamente atacado pelos orgãos da comunicação social. Nem sempre o fará da melhor forma, mas o que lhe compete não é escrever colunas de resposta por tudo quanto e sítio (de má língua). O que me espanta, neste tricot à portuguesa é a volubilidade de tudo, a perda de tempo e de ideias, o lado tendencioso das colunas de jornais, das «colunas» das televisões. Falam em audiências e competitividade: é coisa que não há, porque começa por não haver bem cultural nem competência: como é que se concorre com outros publicando o mesmo que eles (mal) e à mesma hora? Como é que o jornal de sexta queria respeito das pessoas mais sérias se não fazia televisão séria, levantando (sobre os problemas de Sócrates e da Governação) questões de fundo, problematizando métodos, sistemas, relações económicas, concepções sobre o mundo e a globalização, entrevistando (sem medo da régie no último minuto) personalidades bem posicionadas sonre essas questões -- e mesmo sobre alguns comportamentos do 1º Ministro.
Anjinhos, Manuela? Quem são os anjinhos se você não batia as asas, batia os lábios?
sexta-feira, junho 18, 2010
JOSÉ SARAMAGO MORREU HOJE EM LANZAROTE
terça-feira, junho 15, 2010
ESCREVERAM NO PAPEL: ONDE VAMOS MORAR?
Usando as próprias palavras com que os ARTISTAS UNIDOS falam do espectáculo que baseiam em Beckett/Joyce, eis um espaço de fascínio e muitas imagens entretanto perdidas para a mordaça do consumo:
As palavras inconfundíveis de dois dos maiores escritores do século XX através de cartas, excertos, do monólogo de Molly Bloom ao monólogo de Lucky, uma visita demorada a dois dos grandes mistérios da literatura.
Com Gaça Lobo, Virgílio Castelo e Jorge Silva Melo; tradução de Miguel Esteves Cardoso, José Maria Vieira Menes, Jaime Salazar Sampaio.
integrado no Festival do Silêmcio, Instituto Franco-Português, quarta,16, 21,30, entrada livre
sexta-feira, maio 28, 2010
A CASA GRANDE E OS LAMENTOS DE OUTRORA
Terra longe na distância do Quevec.
E os passos outrora quentes,
quase brancas as manhãs, brancas as casas,
colmo de abrigo e de repente as asas,
inteiras, ligeiras em frente
e por força do mundo em redor,
já rodando, redondo, no rosto da gente.
Oiçamos os velhos sábios de outrora.
Vozes começando devagar.
Resmungações dos animais, demais,
pateando o caminho de terra e capim,
uma porta, a primeira, rangendo sim,
preguiçando nos gonzos sem folga
ou abrindo céus ainda brandos de cinza
apesar da mornidão adivinhada
na brisa já lavada,
insectos de trajectos em volta,
também cruzados, zumbindo,
distâncias se calhar de outro calcular.
Bem logo passos inivisíveis a lavrar
os fios todos sinuosamente
como certos rios,
grandes, grandes mas sem navios.
Ficam aqui e além os camponeses em brios
por vezes em passos largos decididamente sim
a par das vozes renovadas
e cada vez mais além e assim.
Cheira a homens e a bichos.
Cheira a terra e a flores.
Abrem-se os olhos cismando amores,
tudo certo no excesso de tudo,
o morro mais alto escolhido no gesto mudo,
magia, geometria,
seria nele erguida a Casa Grande.
Assim se fizeram as paredes de massa elementar,
paus atravessados, zonas de adobe,
e os quartos de chão revestido,
e as salas de cozinhar e de comer,
colmo por cima, as madeiras aqui,
os tapetes além,
a bela crueza de tudo
e as faces pálidas dos avôs,
dos bisavôs, ali se fizera um mundo,
todos juntos na regra e na matriz
do sonho profundo.
Nesse tempo lembrado em agonia, a lenda
era dividida em histórias para contar à noite,
lus de fogo, suspensa, misteriosa, como na tenda,
outros, pois sim, zelando pela paz em turnos,
cada olho no fundo da noite,
no perfil da mata,
enquanto os ouvidos escolhiam rumores,
destrançando acasos e sinais.
Ainda ninguém sabia que esse modelo de vida
estava a ser esmagado a qui e além, em ferida,
requiem que os cânticos e as danças
ainda se refaziam contra o medo
e contra as lanças.
sábado, maio 15, 2010
VERDADEIRA REFERÊNCIA DE UMA GERAÇÃO
terça-feira, maio 11, 2010
PORTUGAL DE JOELHOS: CHEGOU BENTO XVI
Chegou o Papa Bento XVI. Vem em visita pastoral, dizer missa no Terreiro do Paço, viajar para Fátima, contemplar o Porto. Isto espanta. Porque de manhã visitou os Jerónimos, rezou durante dez segundos e voltou à vida social que o rodeava. Comeu frugalmente, segundo dizem. Mas o luxo das liturgias e dos altares construídos de propósito só para uma missa, um aceno, a benção capaz de salpicar um milhão de pessoas em Fátima. Ou no Porto. Que significa isto no século XX. A Igreja não muda de modelo nem peda a ajuda de um designer da ruptura. Quantos Papamóveis existirão no mundo. Porque é que o Santo Padre não visita uma aldeia nordestina apoiado num animal em vias de extinção, um animal humilde e amigo como o burro. Nunca mais se esqueceria esse pontificado. Estas visitas imperiais esquecem-se umas às outras. José R. Almeida, na revista Notícia, escreveu assim, sob o título Mafia e Vaticano: «O celibato tornou-se obrigatório no clero católico a partir de 1537, no papado de Gregório VII. De acordo com a lei canónica, o voto de celibato é quebrado quando o padre se casa, mas não necesariamente quando este tem relações sexuais ocasionais. Haverá, então, que alterar a lei canónica e metê-la na lei civil para que não haja trânsfugas pedófilos nas dioceses dos EUA, Irlanda e agora Alemanha, Holanda, etc. O bispo holandês John Magee encobriu actos homosexuais e pedófilos, mas com este currículo foi secretário pessoal de três papas: Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II. O Vaticano, quando slecciona os seus secretários, não sabe dos seus currículos? O actual papa, Bento XVI, não soube dos crimes preticado pelo padre Lawrence Murfhy, que terá abusado de duzentas crianças surdas (New York Times)? E diz o nosso cardial José Saraiva Martins que "não se lava roupa suja em público!" O Vaticano está a viver nula aldeia global pedófila e quer convocar um sínodo. Que o convoque e com urgância! Tudo isto é fastidioso e velho. Venha o padre Fontes para papa e as mulheres para bispos! E assim seja. Amém.»
Transcrevi um texto que não escreveria (se calhar escreveria bem mais duramente e fazendo outras perguntas, além das citadas) mas o testemunho revela um estado de espírito que não parece tolerar mais do mesmo, entre manchas oleosas num pântano a apoderecer. Fica aqui a ideia da mudança destas malogradas repetições imperialistas de um cerimonial que já não deveria ser o da Igreja Católica, deixando, enfim, cair o Romana.
quarta-feira, abril 28, 2010
AGÊNCIAS DE NOTAÇÃO FINANCEIRA OU DEUS
Tudo está sendo embrulhado em muretes e muralhas e entidades surgidas não se sabe de onde, comandadas não se entende como, com tabelas em computador, analisando estatíscas ou informações obtidas a distância. Portugal não tem que ser metido na alhada europeia toda ou noutras alhadas a Ocidente e a Oriente. E digo isto porque as leis tratadistas em que nos embrulham superam o que foi negociado em Lisboa, sendo as assimetrias na Europa cada fez mais despudoradas, desde as longínquas calibragens de frutos, orientações exteriores à memória histórica e cultural do país, abate de grande parte da frota de pesca, da agricultura que nem sequer bolia com a francesa, tudo assim, ensarilhado em orgãos majestáticos de enorme luxúria de meios e pouco entendimento das periferias, das populações ou dos ventos que sopram colonialmente sobre as nossas pobres imitações de cosmopolitismo, ideia decadente em si mesma.
quinta-feira, abril 15, 2010
AS CITAÇÕES DITADAS AO NOSSO QUOTIDIANO
de PLUMA CAPRICHOSA
Clara Ferreira Alves
ÚNICA
Na sua crónica
Somos um pequeno e desgraçado país
temos uma elite sofrível e uma classe política sem cultura política nem histórica
quarta-feira, abril 14, 2010
AS CITAÇÕES DITADAS AO NOSSO QUOTIDIANO
de A ESPUMA DAS COISAS
António Mega Ferreira
Notícia
terça-feira, abril 13, 2010
AS SUAVES SESSÕES DA JÚLIA DOS ESPÍRITOS
sexta-feira, abril 02, 2010
PORTUGAL E O TRÁFICO DE SUBMARINOS AO SOL
fotos da imprensa, Expresso
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sábado, março 20, 2010
UM SÓ SEMANÁRIO, EXCERTOS DA PÁTRIA HOJE
terça-feira, fevereiro 23, 2010
MADEIRA: TRAGÉDIAS TAMBÉM PODEM REDIMIR
sexta-feira, fevereiro 12, 2010
RANGEL RANGENDO CONTRA AS CIRCUNSTÂNCIAS
domingo, fevereiro 07, 2010
OS VELHOS PADECIMENTOS DA NAÇÃO
Deixo cair o jornal no chão. Não havia nele nem um bocadinho de estrada, bem um bocadinho de brisa, só restava um princípio de náusea. Náusea, presumo, daquilo que nos vai rodeando a cabeça, presas as pernas e o tronco. Parecem consolidados os desconfortos da revolução institucionalizada, desencantos de um cerco «global» cuja invenção só podia ter saído de zarolhos utópicos. Desde o vamos cantando e rindo até o avante, camaradas, avante. O convívio e a partilha não são apenas actos de afecto, são também caminhos da inteligência associada à emoção/razão. Se uma pequena comunidade disputa um resto um resto de carapau ou a ordem de quem põe o caixote do lixo na rua, onde nem sequer é recolhido, a desgraça será ainda limitada mas já anuncia guerras como as do século XX. O que deveremos então pensar dos 127 países da União Europeia, agregados por tratados e alçapões, fingindo que acreditam numa ordem falsamente generalizável, apesar das brumas repetidas todos os anos, entre deveres, obrigações e dívidas? As fracturas estão à vista com a universal derrapagem do capitalismo (dos mercados), trafulhices bancárias em cascata, o colosso americano, sob o manto esperançoso de Obama, ficando por instantes de joelhos e com muita gente a mudar de casaca. Coisas da grandeza e da ganância, dir-se-á. Então e a velha Europa, estreita nos deslizamentos obscuros ou descarados, bem depressa a comparar o caso da Grécia com o de Portugal: um manga de alpaca da UE a bolçar para o mundo a esquemática parecença do que se passa nos dois países, acicatando os mercados (especuladores) a venderem e a comprarem restos da nossa última hepatite. A Alemanha e a França, entre perdões generosos desde 1948, depois das guerras que fizeram e de terem sido salvos por estrangeiros, criam agora os seus pactos de consistência, mais desenvolvimento, mais pompa em carros negros. E assim, embora por vezes não pareça, borrifam-se para quem ainda está fora da zona euro mas se alistou na Europa. Ou para outros, como nós, cuja «memória do esquecimento», embora queime a alma, não evita os devaneios crescentes das viagens em massa, de cultura e recreio, os consumos aberrantes, os negócios globais, a diluição progressiva da identidade de cada povo, a colonização redutora quase toda feita de hambúrgueres, de súbito um 11 de Setembro num tempo civilizacional cada vez mais onírico, a meio dos pântanos, tempestades naturais, céus tóxicos na consequência cega das indústrias vorazes e invasores.
«A CANGA»
Bordalo Pinheiro
Portugal, que ficou mais ou menos pobre depois da má gestão após os Descobrimentos, e mesmo durante esse período, nem sequer fez o nojo dos seus 9.000 mortos da chamada guerra colonial. Fecharam-se as bocas, rezam os velhos pais de um norte pedregoso e que, felizmente, ainda não se parece com a Madeira, enquanto Lisboa concentra todas as casacas virtuais de governos em bicos dos pés, mitigando a salvação dos desastres, por milhões de euros, junto de grandes escritórios de advogados, serviços caríssimos mas que ajudam a enconrir as multidões entrevadas dos ministérios, a aumentar a dívida, a omitir centenas de institutos cujos objectivos não são promulgados e nos quais praticamente ninguém acredita, pesar das carreiras públicas que por essa via pululam na capital. Para além do gesto rapace dos construtores civis e dos tais institutos mais ou menos obscuros, seria talvez útil, quanto à poupança decretada por Bruxelas, começar a extinguir tantas partes em que o governo se divide e multiplica, publicando o efeito de tais decisões e descarregando a papelada naquela Bélgica central em ordem á memória futura. Porque a justiça não vai tratar disso tão cedo, os dinheiros escassos passam-lhe ao lado, ao lado das secretárias, enquanto os juizes encapelados têem em diagonal 14.000 páginas de um só processo e continuam vinculados a morfologias e metodologias velhas, litúrgicas, insensatas. Por isso lá se afundou a Justiça numa paraplegia considerável, e basta, para se ver tal coisa, reparar na grande evidência fo Titanic/Casa Pia. E entretanto de nada nos serve ter um Primeiro Ministro com nome extraído da cultura clássica, Sócrates, igual ao do filósofo que inventou a Alegoria da Carverna. E não é que, entre ressonâncias ininteligíveis, viemos parar ao limite da mesma, sombras e sombras passando, golpes baixos ou altos, deitando por terra (ou quase) o governo, todos fazendo da luta partidária a mais grosseira das inconsciências sobre o respeito que nos devia merecer a história e a gestão das coisas. Se calhar é preciso inventar uma democracia que não viva de expedientes, de falsos cosmopolitismos sempre a virar em provincianismos. Sobre a simples vigilância e renovação da frota automóvel do Governo, os nossos escritores de televisão poderão, a todo o tempo, fazer romances dos caminhos secretos de muitas coisas. Dos carros aos caminhos secretos dos projectos, vida e morte dos sobreiros arrancados aos milhares, haveria muito a dizer sobre as comunicações e os monopólios das energias catastróficas, privadas, semi-privadas, geridas, como os bancos, na linha de dezenas de milhares de euros por mês, fora os prémios de milhões, fora aí de um património que não se sabe donde vem e para que serve. Melhor ainda seria pagar a dívida macionalizando as marinas do país, com apropriação «revolucionária» dos milhares emilhares de iates que por lá existem: vendidos aos países emergentes resolviam muitas coisas. E a dívida deles poderia ser paga em prestações suaves por um período de 300 anos. Isto resulta apenas de um breve diagnóstico da crise nacioanal (e do mundo). Mas eu não sou o Madina Carreira, cada vez mais parecido com o simpàtico Mr. Magoo, que arrasa tudo e todos, apoiado em mapas e gráficos, trabalhos de casa. Eu gosto muito de o ouvir, mas não chega a nenhum saber construtivo. Perguntaram-lhe outro dia: «então, perante essa situação, que resoluções tomaria para as resolver? E ele: «Eu? Eu deixava ir tudo abaixo, bater no fundo». E riu-se. É uma figura muito respeitada e não tem sonre as costas os boatos em volta do Primeiro Ministro, histórias obscuras que já permitiriam vários filmes policiais e mesmo de terror. Os títulos até são sugestivos. «Face Oculta» poderia tornar Portugal num país de magiais visitáveis. O nosso jornalismo, diz Sócrates, é de espreitar à fechadira. Ele acha que a privacidade tem de ser respeitada e as escutas e sua publicação vão contra esse direito. Mas o que se escreveu representa a imagem espreitada? E o som ouvido?
A MÁSCARA
aquecido e os parlamentos pirosos. Dos nossos deputados europeus, vejo-os mais por cá do que tenho notícias deles estarem lá. Enchem a televisão de balbúrdias, onde todos dizem todos o mesmo e ao mesmo tempo. O Ruído é inabalável. As flores da nossa mais funda reflexão passa pelas dezenas de comentadores políticos, sem nada para resolver o mal que acusam, com grande relevo para Rebelo de Sousa, Vitorino, o inefável Pacheco Pereira, esse também um pouco por todo o lado, à espera de que o PSD reapareça. Pacheco lidera A Quadratura do Círculo, mas por mero desprespeito pelas regras do diálogo. O Eixo do Mal, onde a gritaria atormenta a vizinhança, pode salvar-se da negatica pela prestação de Clara Ferreira Alves, naturalmente quando a deixam falar. Mas é um grupo engraçado, tolo mas engraçado, um grupo que ainda não percebeu estar em vias de se afundar a um sopro (atrás da fechadura) do Primeiuro Ministro. Mas enfim, salve-se quem puder. Falarei com a Clara quando todos estivermos no Inferno, onde teremos mais companhias: Louçã, Portas (por causado Independente), a líder Manuela Ferreira Leite (por causa da verdade rasutada), Sócrates (por ter descido o déficit) e falta ainda escolher um membro do Partido Comunista: o Comité Central insiste no colectivo. Vão todos.
segunda-feira, janeiro 11, 2010
FORMAS DE VER E VENCER A BATALHA DA VIDA
O meu interesse pelas novas gerações de actores passa por remotas experiências que fiz no teatro, mais tarde no aprofundamento da linguagem do cinema e nas técnicas de trabalho da telenovela, onde estudei o comportamento e o talento de alguns actores. Daniela Ruah tinha o meu apreço. E foi com muita admiração que segui o seu recente trajecto em Londres e nos Estados Unidas da América. Há em tudo uma grande capacidade de aventura, trabalho responsável, estudo e pragmatismo. Ela fala de ter seguido um sonho, mas os dados que nos revela, incluindo o «contrato» com os pais e o sentido de estratégia contribuem para sublinhar as formas de afirmação destes e de outros portugueses. Daniela preparou-se arduamente para sair do país, aprender na sua área, informando-se previamente de como passar as barreiras travadas no tempo. Ela insiste na estratégia e na definição de objectivos. Esforço e objectividade podem beneficiar, bem entendido, do factor sorte. Em relação à adaptação a um meio diferente, muito competitivo e dinâmico, a actriz não apouca o trabalho, em Portugal, nas novelas, campo onde se faz um treino próprio para a representação e ritmos de resposta. Em entrevista que concedeu à revista ÚNICA, salienta, entretanto, que nos Estados Unidos e no que importa à representação, não há trabalho mais exigente, quer nos horários, quer quanto à quantidade de cenas a gravar por dia. Em Portugal, chega-se a fazer 35 cenas. Na produção em que se encontra a trabalhar agora, Danuela Ruah actua apenas em cinco cenas, para 12 horas de gravação, ritmo que se assemelha mais ao do cinema, com mais atenção ao detalhe. No trabalho actual, a actriz tem um papel de inspectora (policial) e é curioso saber como adquire formação específica, tendo boas condições de agilidade e rápida adaptação ao uso de armas, às técnicas de visar alvos e de disparar. Quando preparava a sua ideia de trabalhar nos Estados Unidos da América, entregou-se por inteiro, durante dois anos, a um curso em Londres. Integrar-se numa nova cultura é bem complicado. Parte-se do princípio de que se conhece o essencial de um país, ou mesmo bem, mas isso só acontece se se viver nesse país, sujeitando-se às regras e pressões do meio. Quando foi para Nova Iorque sentiu que o tempo e os contactos com outros colegas haviam feito a diferença, percebeu que se encontrava mais aberta e fala mesmo de bem estar psicológico. O sistema de agentes e agências funciona, há muito trabalho, e um agente é mesmo indispensável para começar. Daniela é agora representada pela Gersh, uma das maiores agências de actores da América. Apesar de tudo, teve que cavar o chão à sua frente, apresentar sites da área e até colaborar em clipes, partilhar currículos, conseguir resultados na head Shot (foto de rosto), o que entra frequentemente em situações de casting. Um aspecto de que ela nos fala e mostra as diversas vertentes destes contextos de busca e aperfeiçoamento, refere-se à participação, sem remuneração, em pequenos filmes de colegas, entrar também nas sessões de leitura de argumentos cinematográficos. Num desses contactos, um director de casting acabou por, mais tarde, a lembrar e pedir a via de contacto através de Gresh. Daniela foi parar a uma produção de Geoge Lucas. Esta aventura reveste-se de factos e passos ganhos que a actriz venceu na medida em que percebera até que ponto interessa observar regras, oportunidades, tendo uma boa relação com as dinâmicas do meio. E a sua onda de entusiasmo leva-a a contar o trabalho com Linda Hunt, estar ali com aqueles actores de igual para igual. Daniel Ruah foi também questionada sobre a sua origem judia, a forma como vive com essa realidade, religião, aspectos, a siatuação actual. E conta coisas importantes de uma passagem por Israel, em casa de familiares, bem como a estranheza de um povo que vive plenamente a vida mas não se desliga do medo, da violência inesperada, de como encaram o presente e o futuro. Numa simples fala intercalada em muitas outras, e a este respeito, Daniela comenta: «Entristece-me profundamente não ver como se possa dialogar com uma formação radical e terrorista como o Hamas, que tem por único objectivo aniquilar Israel. De resto, o maior objectivo deles é mesmo o de ocupar o mundo.
Dados, citações e referências da entrevista concedida à revis única,
Bernardo Mendonça e Raquel Albuquerque
