quinta-feira, julho 29, 2010

MUSEU DO CÔA COM GRAVURAS AFUNDADAS

MUSEU DO CÔA

O MUSEU DO CÔA será inaugurado amanhã, sexta-feira, 30 de Julho. A grandeza e originalidade deste projecto, além de todo o parque cuja visão de futuro e abertura ao conhecimento dos testemunhos civilizacionais da humanidade enobrece o país dos Descobrimentos, não parece capaz de resistir à crise, uma vez que, tanto quanto se sabe hoje, 29, só a Ministra da Cultura presidirá ao decorrer da cerimónia. Mas não é isso o mais importante. O mais importante (e desconcertante) é o sinal enganador com que as autoridades nos presenteiam: uma inabalável exposição temporária de gravura («Gesto e Inscrição»), com obras coleccionadas pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. São 38 trabalhos, entre os quais nove artistas portugueses, nomeadamente Pedro Cabrita Reis, Fernando Calhau, José Pedro Croft, Julião Sarmento, Michael Bibertein, Alberto Carneiro, Carlos Figueiredo, Ângelo de Sousa e Francisco Tropa.


Sendo o Museu e o complexo do Côa uma forte realidade que marcará muitos reconhecimentos de vários períodos relativos aos riscos iniciais, à emergência encantatória da arte na marcha evolutiva do Homem, terrível é o modo como os portugueses de hoje, abúlicos e manipulados pelos que julgam ser vértices da nossa inteligência, parecem incapazes de um gesto de indignação perante aquela não escolha de obras, todas de artistas respeitáveis, conhecidos sobretudo fora da gravura que nos honra, embora capazes de surgirem ali, sem regra nem abertura, pois a sua reputação curricular não os classifica como gravadores e nem é sábio Portugal fazer-se notar no início deste património com nove artistas apenas, no quadro de uma omissão irreverente e descuidada da verdade. Nem sequer é preciso ir muito longe para nos tornarmos maiores: ali faltou a coragem de nomear objectivamente GIL TEIXEIRA LOPES, BARTOLOMEU CID e DAVID DE ALMEIDA. Esta nota precisa de que se diga haver muitos mais gravadores portugueses da época moderna, mas, dedilhando as ranhuras dos antiquíssimos desenhos que nos distinguem, mais atrás e justamente poderíamos chegar ao ponto de distinguir outras figuras de outros tempos, espíritos que nos honram ainda, bem como a nossa fecundidade criadora, a arte que tanto esquecemos e dividimos. É grave que o hábito de usar cassetes modernas mas irremediavelmente afundadas além das outras faça com que as instituições próprias inaugurem este importante património com um gesto de pequenez, incapaz de se tornar velame de 500 ou lâmina da primeira implantação de um povo de pouca força, mas cuja diáspora, hoje, vale bem um resto de indignação perante arranjos com este perfil, nem crise nem sonho, gente enfim disfarçada, sem convencimentos, gente borboleta, de breve vida, nomes de ontem e de agora colocados no canto de nada, como se o mundo não os tivesse visto antes de nós mesmos. Bom era que abrissem os museus tumulares, nos quais há património de gravura que bem poderia (aqui) fazer a ponte entre a grandeza de um fragmento da nossa verdade artística específica e o horizonte longínquo no qual tanta gente retratou tantos animais, entre o desejo e da esperança.

quarta-feira, julho 21, 2010

CONSTITUIÇÃO MEIO RASGADA, AINDA DE NOME SOCIALISTA E JÁ AMPUTADA DA JUSTA CAUSA

Passos Coelho, alternativo
O rapaz pareceu-me dotado de bom senso e os portugueses em geral apreciaram que ele tivesse estendido a mão ao vilipendiado Sócrates. O país precisava disso como de pão para a boca e os sonhos de vencimento da crise iam e vinham nos passeios do nosso desencanto, apesar das festas, mega concertos, viagens para ilhas encantatórias e outros continentes. País (outrora) de marinheiros, Portugal engorda uma colossal e helénica mitologia das praias e do bronze. Qualquer crise passa sempre um bocadinho ao lado e os partidos, olímpicos, sectários, opacos, ensandecidos com a competitividade, o clubismo cego, a petrificação programática, quase nem perceberam o forte enfarte de miocárdio de que o capitalismo (selvagem ou assim-assim) foi vítima. Convalescente, ainda nos cuidados intensivos, ninguém ao certo pode garantir que este sistema está livre de perigo.
Mas eu tinha começado por falar do líder PSD, Passos Coelho. Ganhou com razoável limpeza o lugar, batendo dois adversários contrastantes: Rangel, sobretudo, rangeu quanto pôde e meteu medo a muita gente, porque a retórica e os gritos, ainda que com algumas razões, desertificam senados e nivelam a modernidade por certezas a duas dimensões.
Partem pessoas para férias, a crise ferve, Medina Carreira, com a sua cassette, nunca mais acaba de multiplicar diagnósticos, arrasando os cérebros miniaturais dos políticos, dos deputados, mas sempre sem um plano bem estruturado para dizer onde se corta e como, onde se esfola e de que forma, onde se constrói e com que parcimónia, de que lado está Portugal, enfim, no mundo da globalização aberrante. Qual é o nosso novo caminho marítimo para a Índia?
E então, na pior altura táctica e estratégica, algumas veladas palavras de Passos Coelho, foram pingando para a sociedade civil. E de súbito, com os carros a aquecerem para a primeira volta, o rapaz derrama sobre o país uma espécie de revisão constitucional, quase uma substituição da nossa Carta de Nação. Claro que o documento, que altera mais de cem artigos, foi grelhado por uma comissão de «peritos». Mudando tanta coisa, por vezes com algum cinismo, deixaram a palavra socialismo a encimar o nosso Pórtico de 76. Esqueceram-se ou procuraram derrubá-lo com o esmagamento e nova redação dos artigos? Os maiores constitucionalistas, ao comentarem ontem à noite este tufão, mostraram, urgentes, que era tempo de desnomear ideologicamente a Constituição e fazer os ajustamentos e actualizações necessárias, com bom senso, e aliás noutra altura mais apropriada, porque uma tão grande enchurrada de letras só vai atrapalhar tudo, criando manobras contra a concentração no combate à crise que é preciso apurar.
Dando uma vista de olhos pelos jornais (desta vez não para usufruir de mais um boato ou escândalo centrado em Sócrates), vemos que os partidos da esquerda consideraram a proposta do PSD « um ataque aos princípios da democracia.» O comunista António Filipe denunciou que o fim da "justa causa" levaria à arbitrariedade dos despedimentos. José Manuel Pureza alertou para o fim da gratuidade (mesmo tendencial) da saúde e da educação, lembrando que a responsabilidade de travar este projecto cabe ao PS, cujos votos são necessários para fazer a maioria de dois terços e para aprovar as alterações ao texto. À direita, o CDS acusou o PS e o PSD de tratarem a revisão com "tacticismo político", simulando um desacordo depois de terem chegado a acordo no PEC».
Desde esta surrealidade do CDS à despropositada artilharia do PSD, Portugal, sem necessidade dos Sindicatos, devia invadir em massa os partidos e clamar pela voz do povo, que é quem mais ordena.
Coelho, ao criticar ontem, na televisão, a mania de uma Constituição inamovível, o que é mentira rasca, quase lhe fugia a boca para dizer que daqui a uns anos teriamos uma Carta terceiromun... e logo atalhou para antiquada, imprestável. Mas ele devia saber que há períodos constitucionais determinados para as revisões correntes e que o texto português ainda é um dos mais avançados do mundo: coisa que se diz, naturalmente, com verdade histórica, política, e sem sectarismos de uma qualquer cegueira (mesmo branca) que ande por aí.
João Proença, da UGT, considerou que este documento «é o pior ataque ao Estado Social desde o 25 de Abril.» Ao falar sobre a frase que substitui justa causa, uma das mais cruéis e hipócritas mudanças ao texto cnstitucional, tanto esse sindicalista como os verdadeiuros peritos da matéria alargaram a voz e o gesto, sem patetices como «olhem que isto é mais profundo do que parece e tem de ser bem estudado». Coelho acha que de justa causa se deve passar para causa atendível.
Jorge Miranda, eminente constitucionalista, que fez parte da Assembleia Constituinte em 76, afirmou ontem (à Renascença) que a substituição de «justa causa» nos despedimentos «não pode ser aceite» porque viola os limites materiais da Constituição.
Além do aumento dos poderes do Presidente da República, que passaria a poder demitir o Primeiro Ministro sem haver eleições, e teria mandatos de 6 anos, entra em cena a «moção de censura construtiva» que daria lugar, perante o aceitamento dos conteúdos construtivos, à possinbilidade de prolongar-se a acção governativa, mesmo com vitória do acto censório. Paulo Otero denuncia a contradição entre reforço dos poderes presidenciais e a criação da figura da moção de censura construtiva.
E, entre tudo isto, os ganhos da Assembleia da República são, no mínimo, curiosos: A Assembleia da República iria alcançar o poder de se auto-dissolver, provocando eleições antecipadas sem constrangimento de prazos, além de ter o poder de substituir o Primeiro Ministro, sem ouvir o Presidente.
Passos Coelho escorregou e arranjou alguns eufemismos para se defender. Esta última disposição aqui citada faz-nos pensar, afinal, que há nesta aventura mazelas de terceiro mundo (com os nossas desculpas a quem luta nessa penosa condição civilizacional e cultural). Mas oiçamos ainda a voz de um homem do PSD, com lomga carreira, actual presidente da Câmara de Cascais, António Capucho, ao comentar o processo kafkiano de Passos: «Penso que se podia ter ido mais longe».

sexta-feira, julho 02, 2010

BONS OFÍCIOS DOS MERCADOS LIVRES E CEGOS

ERA PARA COMEÇAR AQUI UMA PROVA
SOBRE A BONDADE DOS MERCADOS LIVRES
E CEGOS DE CONTROLO MAS O
BLOG ENTROU NUM REGIME DE PROIBIÇÃO
DE CARACTERES QUE DESCONHEÇO
E TORNOU IMPOSSÍVEL INTERVIR ASSIM
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recomeço
Parece não haver forma de convencer as transnacionais (monstros já de si impróprios da natureza humana ) de que tais formas de concentrar riqueza, poder de compra, sempre no apetite de abocanhar os outros, são sempre anunciações de derrocadas futuras, a famosa fórmula dos mercados livres, totalmente livres de todas as circulações, incluindo as maiores trocas de dinheiro por patrimónios de grande valor monetário e cultural.
Pois eu ia falar da história (não sei se remota se contemporânea) de um multimilionário que descobre certa empresa de telecomunicações, assaz desenvolvida para o pequeno país em que se implantava. País pobre mas tranquilo. O multimilionário foi junto das autoridades mostrar o seu interesse em comprar aquela companhia. Os governantes do país liliputiano responderam com todo o polimento que não estavam interessados em vender aquele património activo, uma das suas maiores plataformas estratégicas. Mas o homem rico não os largava e foi lançando dinheiro em propostas cada vez maiores sobre a mesa que ele chamava de negociações. Claro que, após dezenas de recusa, e chamados os accionistas umareunião decisória, estes concordaram com a venda. O homem mostrou-se satisfeito e, ao assinar o título e compra, revelou que iria manter todo o passoal, embora acrescentasse alguns seus representantes no Conzselho de administração.
Logo o país se ressentiu de vários formas usadas na avaliação das tabelas, novas compras, a electricidade produzida por uma barragem de valor vital. Claro que uma coisa idêntica a esta alastra avassaladoramente pelo mundo. O menino quer, o próprio menino compra. O nosso multimilionário era um pouco assim. E ainda ameaçou com opas agressivas que pareciam mesmo um filme de ficçao científica, com espiões sonre empresas atacáveis. Mas a história deste pequeno país foi passando por essa guerra surda, virtual, enquanto o multimilionário esplhava gorjetas por todo o lado, eventualmente corruptoras, investindo em fábricas que só ele podia gerir e vender. Tudo isto contaminou o país inteiro, controlando o sistema de ensino, traficando conhecimentos e universidades, abaendo embarcações porque o peixe começava a escassear e havia possibilidades de criar alternativas a partir do estrangeiro. Até a religião (católica, neste caso) ficou em risco: o senhor todo-poderoso queria melhorara assistêmcia espiritual à sociedade e inciou uma operação de compra das igrejas, agrupando noutras as mais pequenas. Tomou conta dos artesanatos, deslocou populações, das grandes propriedades abrículas. Terra Nossa incluia cem importantes herdades, com uma sede milionária na capital. Opas sobre opas, cada vez as pequenas e médias empresas mais fiacavam isoladas, sem verdadeiro financiamento, até porque o país já se endividara, através dos bancos e do exterior, a fim de socorrer os deslocados, embora mitos casos não tivessem implicado isso, nem mesmo a saída dos donos patrimoniais. Os pobres aumentaram, rodeados de novos ricos um pouco por toda a parte.
Este país já não existe enquanto tal. Ficou dominado literalmente por um grande Consórcio nomeado Oceanoportocali. O governo, escolhido entre dois partidos, restos do que havia vinta anos atrás, alterna com aquelas forças, estas sim, vivendo na abastança. Havia uma política dupla e livre quanto aos orçamentos. Os técnicos dessa especialidade viviam a maior parte do ano em ilhas do EStado, embora haja quem diga que faziam por aí a sua economiazinha doméstica. Para lá das furnas da parte virada ao Pacífico, populações caçavam baleias e produziam óleos diversos, coleccionando também, e por outro lado, peles previosas de animais em vias de extinção. Deus, como habitualmente, estava distraído. Mas há uma zona do Universo que parece merecer-Lhe um particular interesse, sobretudo por haver aí um planeta habitado por seres inteligentes e que em pouco mais de 6.000 anos arrasaram mais ecosistemas do que os seus semelhantes ao longo de épocas remotas, há cerca de 40.000 anos. Tudo se vai alterando no planeta e a uma velocidade inquietante: ressurgem vulcões, multiplicam-se tufões e tornados, ventos roçando os 300 quilómetros por hora, terramotos no interior dos oceanos e fora, tsunamis assim desencadeadis que já destruiram cidades inteiras na Ásia e nas Américas, enquanto regiões polares se desfazem e aumantam o nível dos oceanos. O aquecimento da atmosfera leva continentes de gelo para zonas do Atlântico ou Pacífico, comunicando-se numa média aterradora.Este fenómeno tem fortes ligações com indústrias e máquinas dependentes do petróleo, sendo certo, por outro lado, que os países de cota baixa estão quase sempre inundado e a Estações do ano deixaram de fazer-se sentir: um tempo mais ou menos frio a norte e verões de um só mês, calor capaz de matar gente, o mar, mais alto, invadindo e comendo praias inteiras e destruindo grandes estruturas sobretudo dedicadas ao turismo. Nova Orleães, destruída pelo mar e por tornados incontornáveis, nunca mais foi reconstruída e por lá vive gente solitária, empobrecida, corando o ritmo da sua música de outrora e o pitoresco da invenção comunitária.
a propósito desta história, lembrei-me agora do negócio megalómano que estava para se fazer em Portugal. Não sei o que se passa. Mas vão ganhar certamente os mais fortes. Os accionistas defendem-se, com dinheiro, dos tsunamis, não defendem um certo conceito nobre de soberania, porque esse conceito também está em vias de extinção.

segunda-feira, junho 28, 2010

AS TERRAS QUE NOS FALAM DE OUTRAS TERRAS

foto de Manel Armengol

Os cineastas que, desde cedo, procuram sugerir paisagens claramente de outros lugares noutros planetas, a fim de encenarem as cenas do nosso imaginário de encontros fora da terra, voos gravitacionais a planetas próximos ou longínquos da nossa galáxia, depois de uma longa investigação drecta e automática do sistema solar, procuram por vezes lugares como este. É um lugar que parece deserto e impróprio para a vida humana, não passa de uma paisagem, aliás deslumbrante, de certa zona da Islândia. Os trabalhos de produção de um filme naqueles termos exigem deslocações a sítios destes, registos, documentação, correspondências, o menos onerosas possível, relativamente ao projecto e determinadas se quências. Mas o que faz com que outros homens, sem qualquer função criativa, se aventurem a desbravar caminhos para terras assim, a montanhas inenarráveis, perdendo-se ou morrendo, chegando em muitas situações a pontos da Terra onde ninguém mais chegou? Esse é outro mistério: talvez simplesmente o desejode superação de obstáculos que caracteriza o ser humano. Talvez ainda, e por outro lado, a remota memória que há em nós todos de um paraíso, de um lugar fora do planeta, a quietude, a grandeza dos espaços, o anonimato dos seres. Há quem diga que os portugueses estão possuídos deste mal ou desta interior grandeza -- porque se espalharam por todas as terras que lhes evocam terras escondidas dentro de si. O enfrentamento, aliás metódico, dos oceanos pode ser um indício de uma transcendência que só há poucos anos estamos a escavar, através de telescópios colocados em órbita, e que, apontados a certas zonas do Universo, acabam por nos mostrar milhares de fotografias de acontecimentos colossais verificados há milhões de anos luz. A luz chega-nos entretanto de outras terras e já nos falam substancialmente delas. O mistério resta no próprio Universo, para o qual na há hipótese de explicação, nem mesmo pelo embate de partículas circulando no espaço negro. E circulando ou movendo-se porquê, para quê? Um padre disse que falara com Deus a esse respeito, ao que Ele teria respondido: «Não sei nada de Partículas. Isso são invenções do homem»

Ele também, como se sabe.

O MISTÉRIO INIMITÁVEL DOS ESPELHOS

foto de rocha de Sousa

Por vezes as imagens projectadas nos espelhos e reflectidas por eles parecem insinuar que todo aquele regresso da coisa enviada, é impossível, mesmo que virtual, e mais se assemelha a um mistério dos prestigitadores em sala de recreio, algo como se fazia há um século. Os macacos, seres de grande inteligência na escala darwinista, ainda não perceberam, embora já saibam agitar a sua própria imagem para que o seu homónimo o imite de imediato. Mas até isso é inimitável. E há momentos de impaciência, como acontece durante a aprendizagem humana, em que o macaco percebe o limite da imagem, espreitando à direita e à esquerda, passando mesmo para o outro lado do espelho, onde, estranhamente, nenhum irmão seu se encontra. Na guerra colonial, havia soldados que fitavam longamente as fotografias da família, da namorada, deles mesmos. E levavam muito tempo para se reconhecerem, presos de angústia quando o registo da sua imagem pertencia a um tempo recuado e eles eram outros, perdidos numa rua da aldeia ou levando fato de domingo para o alto dos penhascos. Alguns desses homens, mais sombrios e menos capazes de aceder ao sentido intemporal da imagem, isolavam-se na depressão e chagavam a suicidar-se. Aqui não, descansem os espírtos sensíveis: aqui vemos a coisa projectada e a imagem reflectida: são siamesas e não há ninguém que as separe verdadeiramente.

quinta-feira, junho 24, 2010

MANUELA, CONTRA SÓCRATES, DESAFIA JUSTIÇA

Manuela Moura, Guedes contra Sócrates,
desafia, pelo ex-jornal de sexta-feira,
a lentíssima justiça portuguesa

Este jornal da TVI, às sextas feiras à noite, com a apresentação encenada de Manuela Moura Guedes, era de facto truculento. Conheço desde há muito, através da televisão, a figura e a acção desta apresentadora e lembro-me do seu lado algo risonho e gracioso, inclusivamente a cantar numa festa da Estação. Fazia-se, para muitas pessoas, apresentadora de referência. E assim durou até uma súbita passagem do tempo, incidentes da natureza ou da vontade. Quando voltou aos ecrãs da TVI, parecia um pouco estranha, na fisionomia, mas sobretudo na forma de dizer. Não em tudo, com certeza´, mas de certeza no famoso jornal de sexta-feira, à noite, com o tempo todo para ela e um só assunto da política portuguesa: o governo socialista, o desgoverno do país, a inaceitável maneira de decidir do 1º Ministro, as obscuras relações dele com outros, o seu enleio na Freeport, numa licenciatura de «aviário», no desnorte das escolhas e na queda em crise, algo de perturbante, de mistura com o processo da «face oculta», cuja existência era bem antiga e até infligida pelos gastos de Gueterres, um homem brilhante que esteve, contudo, quase a afogar-se no pântano, donde se furtou a tempo e em nome das Grandes Causas. Durão Barroso, que calhou na sequência de poderes, fugiu antes de pronunciar a perigosa palavra pântano. Limitou-se a dizer que o país estava de tanga (ele também) e tratou de lutar para que o fizessem presidente da Comissão Europeia, onde se tem mantido, afrancesado, falando em inglês e metendo o português no bolso. Não era tanto o trabalho de Moura Guedes que feria a nossa sensibilidade, quer apreciássemos ou não José Sócrates: eram os esgares que fazia com todo o rosto, olhando de soslaio, em pausa, para acentuar um sentido pseudo-oculto do que acabara de dizer. Saramago concorreu com ela em questões mais sérias e numa simples entrevista: Deus havia cometido erros grosseiros e o caso de Caim empolgara o escritor de «Levantados do Chão». Devagar, nem sempre a ganhar, ele procurava levar a água ao seu moinho e descobrir que bispos usavam capachinho. O Presidente da Ordem dos Advogados foi questionado, no tal jornal de sexta, pela então já renovadamente famosa, Manuela Moura Guedes. O homem não é de ficar aterrado, fala em rajadas de velocidade apreciável, cala as interrupções vibrantes de Manuela Guedes, e diz coisas que o Pº Ministro nunca lhe disse: «o que a senhora faz não é jornalismo, não tem nenhuma dignidade, esboroa-se em ataques soezes e longe do mínimo respeito deontológico na dignidade dos actos públicos, profissionais, institucionais, com a postura a que devia aspirar». Ponho aspas para sinalizar o muito que esse senhor disse, a reprodução não é à letra, mas o sentido sim, além do muito mais que ele disse. Não houve réplica no outro número, Sócrates desceu ao proscénio, a face oculta, tudo isso mas nem tudo isso, porque os eventuais personagens dessa «Nova Ordem do Mundo» nunca eram citados por inteiro, a horas, em percentagem. Vejamos um pouco desta telenovela:

Sócrates: Acham que aquilo [o jornal sexta] é um telejornal? É um telejornal travestido feito de ódio e perseguição pessoal (...) A liberdade de imprensa quando é utilizada para injuriar está afinal a difamar essa liberdade.

Manurla M. Guedes: Não me senti incomodada por outros governos. (reagindo à pergunta)De alguma forma, mas eles são uns anjinhos, comparados com este Governo. Meu Deus do Céu, verdadeiros anjinhos»

Sócrates: Tenho tomado conhecimento da divulgação pela TVI de uma gravação contendo referências ao meu nome a propósito do caso Freeport e esclareço o seguinte: No que me diz respeito, essas afirmações são completamente falsas, inventadas e injuriosas».

Manuela M. Guedes: Sócrates não cala os jornalistas da TVI com ameaças e críticas. Tentou tirar credibilidade ao jornal mais visto pelos portugueses. Não vai conseguir e vai responder em tribunal.

E assim por diante, sem dizer chega. Sócrates defendeu-se com o direito que lhe cabe quando é objectivamente atacado pelos orgãos da comunicação social. Nem sempre o fará da melhor forma, mas o que lhe compete não é escrever colunas de resposta por tudo quanto e sítio (de má língua). O que me espanta, neste tricot à portuguesa é a volubilidade de tudo, a perda de tempo e de ideias, o lado tendencioso das colunas de jornais, das «colunas» das televisões. Falam em audiências e competitividade: é coisa que não há, porque começa por não haver bem cultural nem competência: como é que se concorre com outros publicando o mesmo que eles (mal) e à mesma hora? Como é que o jornal de sexta queria respeito das pessoas mais sérias se não fazia televisão séria, levantando (sobre os problemas de Sócrates e da Governação) questões de fundo, problematizando métodos, sistemas, relações económicas, concepções sobre o mundo e a globalização, entrevistando (sem medo da régie no último minuto) personalidades bem posicionadas sonre essas questões -- e mesmo sobre alguns comportamentos do 1º Ministro.

Anjinhos, Manuela? Quem são os anjinhos se você não batia as asas, batia os lábios?

sexta-feira, junho 18, 2010

JOSÉ SARAMAGO MORREU HOJE EM LANZAROTE


José Saramago, escritor português, Prémo Nobel da Literatura, morreu hoje em Lanzarote, ilha das Canárias onde decdira fazer lugar da sua ancoragem na altura em que mais se notabilizou. Há quem considere esta escolha uma ambiguidade derivada de algum ressentimento, enquanto outros a relacionavam com a naturalidade da sua mulher, espanhola, Maria José do Pilar, uma companheira que travava a sua batalha por ele, pelos natureza da sua escrita, da sua ficção, dos seus valores ideológicos. Partilhava com ele de uma certa concepção desértica do mundo, ou da incerteza quanto aos caminhos de Deus. Ou talvez me engane, porque estou a escrever em cima do acontecimento e sem fazer consultas que escrevam direito por linhas tortas esta minha quase brumosa sensação acerca daquele amor e de como Saramago se comportava nas nossas ribaltas, com um discurso cuja arquitectura não anunciava nada de salvador para o futuro da Terra e do Homem, duas dimensões que haviam surgido na obra do escritor marcadas pela dor e a par da força e da esperança no limitar de cada luta. Falou-se na resistência às mordaças sistémicas, nessa gente ao mesmo tempo mítica e humaníssima, vozes de uma planície agreste, de um destino de pedra -- os heróis inesquecíveis do livro (talvez o maior) LEVANTADOS DO CHÃO, peça em que o corte dos planos multplicam a memória do realismo na vida de fracturas de cada casa rasa, preço amargo de um sedentarismo abismal, por ali, por caminhos que terminavam entre pedras ou raízes inenarráveis.
Claro que sim, não há razão para menorizar o MEMORIAL DO CONVENTO, um texto que nos lembra a imagística fílmica de uma certa Idade Média fora da História, algo com a elegância e a vontade esforçada como acontece em muitos momentos do filme RUBLIEV, da Tarkovsky. Não porque Saramago se tivesse voltado para esse imaignário, para a litúrgica fundição daquele sino monumental, para outras estranhas vontades, gesta também que reinventa a fundação de Portugal pela refundação a tempo inteiro daquele projecto conventual, veredas carregadas de coisas e pessoas, entre artefactos e segmentos monumentais para estruturas e perder de vista, Blimunda vogando na vaga história do espírito, lenda e poderes de fábula, o balão que se esvazia e se afunda na relva, sustentado pelos risos de quem o navega, e que mais uma vez é parte inesquecível do filme há pouco citado.
Mas José Saramago não foi um Nobel indiscutível nem olhou para nós através do discurso na Academia Sueca, isso que tantos de nós viram e ouviram na face de Camus, em cerimónia igual, quinze minutos de humildade, grandeza de alma e vontade sisifiana de preferir ajudar os homens, seus irmãos, do que salvar-se num encontro com Deus.
Seja como for, a televisão não se esqueceu de nos dizer que Saramago se despediu do real de forma tranquila e serena, frase que traduz um epitáfio sem mancha.

Lanzarote depois do Nobel pode ser a
grande metáfora para depois de Caim

o símbolo carpinteirado e acre de um lugar

terça-feira, junho 15, 2010

ESCREVERAM NO PAPEL: ONDE VAMOS MORAR?

Graça Lobo

Usando as próprias palavras com que os ARTISTAS UNIDOS falam do espectáculo que baseiam em Beckett/Joyce, eis um espaço de fascínio e muitas imagens entretanto perdidas para a mordaça do consumo:

As palavras inconfundíveis de dois dos maiores escritores do século XX através de cartas, excertos, do monólogo de Molly Bloom ao monólogo de Lucky, uma visita demorada a dois dos grandes mistérios da literatura.

Com Gaça Lobo, Virgílio Castelo e Jorge Silva Melo; tradução de Miguel Esteves Cardoso, José Maria Vieira Menes, Jaime Salazar Sampaio.

integrado no Festival do Silêmcio, Instituto Franco-Português, quarta,16, 21,30, entrada livre

sexta-feira, maio 28, 2010

A CASA GRANDE E OS LAMENTOS DE OUTRORA

lembrança para Iria Jawaa

Terra longe na distância do Quevec.
E os passos outrora quentes,
quase brancas as manhãs, brancas as casas,
colmo de abrigo e de repente as asas,
inteiras, ligeiras em frente
e por força do mundo em redor,
já rodando, redondo, no rosto da gente.

Oiçamos os velhos sábios de outrora.
Vozes começando devagar.
Resmungações dos animais, demais,
pateando o caminho de terra e capim,
uma porta, a primeira, rangendo sim,
preguiçando nos gonzos sem folga
ou abrindo céus ainda brandos de cinza
apesar da mornidão adivinhada
na brisa já lavada,
insectos de trajectos em volta,
também cruzados, zumbindo,
distâncias se calhar de outro calcular.

Bem logo passos inivisíveis a lavrar
os fios todos sinuosamente
como certos rios,
grandes, grandes mas sem navios.
Ficam aqui e além os camponeses em brios
por vezes em passos largos decididamente sim
a par das vozes renovadas
e cada vez mais além e assim.

Cheira a homens e a bichos.
Cheira a terra e a flores.
Abrem-se os olhos cismando amores,
tudo certo no excesso de tudo,
o morro mais alto escolhido no gesto mudo,
magia, geometria,
seria nele erguida a Casa Grande.
Assim se fizeram as paredes de massa elementar,
paus atravessados, zonas de adobe,
e os quartos de chão revestido,
e as salas de cozinhar e de comer,
colmo por cima, as madeiras aqui,
os tapetes além,
a bela crueza de tudo
e as faces pálidas dos avôs,
dos bisavôs, ali se fizera um mundo,
todos juntos na regra e na matriz
do sonho profundo.

Nesse tempo lembrado em agonia, a lenda
era dividida em histórias para contar à noite,
lus de fogo, suspensa, misteriosa, como na tenda,
outros, pois sim, zelando pela paz em turnos,
cada olho no fundo da noite,
no perfil da mata,
enquanto os ouvidos escolhiam rumores,
destrançando acasos e sinais.

Ainda ninguém sabia que esse modelo de vida
estava a ser esmagado a qui e além, em ferida,
requiem que os cânticos e as danças
ainda se refaziam contra o medo
e contra as lanças.

sábado, maio 15, 2010

VERDADEIRA REFERÊNCIA DE UMA GERAÇÃO

Professor José Saldanha Sanches

Morreu ontem, aos 66 anos, este homem que tantas vezes nos vistou pela televisão, soltando a sua palavra lúcida e o seu comunicativo modo de estar. Rui Cardoso escreve, no Expresso de hoje, que Saldanha Sanches foi referência de uma geração da Academia de Lisboa - «no tempo dos livros proibidos e filmes censurados, da negação dos mais elementares direitos de cidadania». Do alto da escadaria da Faculdade de Direito, a suz voz fez despertar consciências e arrebatou multidões. Sanches era, segundo Fernando Rosas, um orador brilhante, tão capaz de explicar e mobilizar, como de destruir os argumentos adversários com uma retórica demolidora.»
Corajoso e convicto, era dos poucos que não fugia quando a polícia carregava ou quando a PIDE fazia emboscadas. Por isso esteve várias vezes preso. O 25 de Abril abriu-lhe as portas de Caxias. Depois dessa data, juntamente com a sua mulher, Maria José Morgado, foi um dos primeiros a demarcar-se dos delírios esquerdistas e das políticas radicais.
O «Expresso» publica hoje a sua última crónica, ditada na cama do hospital, texto de que se publica aqui, como homenagem esclaredora, um pequeno excerto:
«Além das vassalagens, não podemos esquecer os outros papa-reformas, profissionais da acumulação de reformas públicas, semipúblicas e semiprivadas. Basta ver o caso do Banco de Portugal, ou outros menos imorais, que permitem a uma série de cidadãos -- gente séria, acima de qualquer suspeita -- alimentar-se vorazmente, em acumulações de pensões, com reformas e complementos, começando a recebê-los em tenra idade. Muitas vezes até com carreiras contributivas virtuais, sem trabalho e beneficiando de promoções (dizem que para isto são muito boas a Emissora Nacional/RTP e a Carris). Tudo isto, como sempre, é feito ao abrigo da lei. É que isso dos crimes contra a lei é para os sucateiros. O problema é que a lei que dá é refém dos beneficiários que tiram e da sua ética».
Fiscalista
Passará na televisão um pungente documentário em que Saldanha Sanches, entrevistado por Mário Crespo, revisita a prisão em que esteve preso e as memórias de um quotidiano sem sentido.

terça-feira, maio 11, 2010

PORTUGAL DE JOELHOS: CHEGOU BENTO XVI

Papa Bento XVI
Século XXI

Chegou o Papa Bento XVI. Vem em visita pastoral, dizer missa no Terreiro do Paço, viajar para Fátima, contemplar o Porto. Isto espanta. Porque de manhã visitou os Jerónimos, rezou durante dez segundos e voltou à vida social que o rodeava. Comeu frugalmente, segundo dizem. Mas o luxo das liturgias e dos altares construídos de propósito só para uma missa, um aceno, a benção capaz de salpicar um milhão de pessoas em Fátima. Ou no Porto. Que significa isto no século XX. A Igreja não muda de modelo nem peda a ajuda de um designer da ruptura. Quantos Papamóveis existirão no mundo. Porque é que o Santo Padre não visita uma aldeia nordestina apoiado num animal em vias de extinção, um animal humilde e amigo como o burro. Nunca mais se esqueceria esse pontificado. Estas visitas imperiais esquecem-se umas às outras. José R. Almeida, na revista Notícia, escreveu assim, sob o título Mafia e Vaticano: «O celibato tornou-se obrigatório no clero católico a partir de 1537, no papado de Gregório VII. De acordo com a lei canónica, o voto de celibato é quebrado quando o padre se casa, mas não necesariamente quando este tem relações sexuais ocasionais. Haverá, então, que alterar a lei canónica e metê-la na lei civil para que não haja trânsfugas pedófilos nas dioceses dos EUA, Irlanda e agora Alemanha, Holanda, etc. O bispo holandês John Magee encobriu actos homosexuais e pedófilos, mas com este currículo foi secretário pessoal de três papas: Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II. O Vaticano, quando slecciona os seus secretários, não sabe dos seus currículos? O actual papa, Bento XVI, não soube dos crimes preticado pelo padre Lawrence Murfhy, que terá abusado de duzentas crianças surdas (New York Times)? E diz o nosso cardial José Saraiva Martins que "não se lava roupa suja em público!" O Vaticano está a viver nula aldeia global pedófila e quer convocar um sínodo. Que o convoque e com urgância! Tudo isto é fastidioso e velho. Venha o padre Fontes para papa e as mulheres para bispos! E assim seja. Amém.»

Transcrevi um texto que não escreveria (se calhar escreveria bem mais duramente e fazendo outras perguntas, além das citadas) mas o testemunho revela um estado de espírito que não parece tolerar mais do mesmo, entre manchas oleosas num pântano a apoderecer. Fica aqui a ideia da mudança destas malogradas repetições imperialistas de um cerimonial que já não deveria ser o da Igreja Católica, deixando, enfim, cair o Romana.

quarta-feira, abril 28, 2010

AGÊNCIAS DE NOTAÇÃO FINANCEIRA OU DEUS

imagem do parlamento da Ucrânia


ministro português Teixaira dos Santos
Cada dia que passa e cada jornal que leio rasgam fogueiras nas noites do meu psiquismo. A Rússia quer mais quarenta e oito anos de estacionamento da sua frota de guerra na Crimeia. No parlamento da Ucrânia, essa força aceite pelos deputados pró-russos teve a oposição violenta dos deputados da oposição pró-ocidental. A imagem mostra um mínimo instante da batalha com chuva de ovos, socos e puxões de cabelos.
Poderão dizer-me: em Portugal isto não acontece. Eu acho que acontece, mas por meios menos transparentes, quer escudados em obtusas comissões de inquérito, por dá cá aquela palha, quer alargados a raivas incontidas contra o governo, entre teorias da conspiração e desentendimentos bravios de tudo o que dizem os partidos, uns contra os outros, alguns em campanhas de zelo contra todos os magalhães do mundo, sócrates da eternidade, ferreiras de mandatos obstinados de cinco meses, atrasando o trânsito e navegando em contra-mão. Ninguém quer falar da crise numa perspectiva global, no quadro de uma catástrofe gerada pelos donos do mundo, do capital que escondem e mostram em breves inserts para derrubar bolsas, moedas, comunidades. Tais forças, perante as quais nennhum Sócrates nem nenhum Passos podem seja o que for, já não se bastam com os seus monopólios e grandes grupos de pilhagem: têm agora diversas correias de transmissão, que põem e dispõem, sem que nenhum tribunal da decência os salpique de ácido.
Foi assim, mais uma vez, com Portugal: suas Excelências da agência de notação financeira Standart & Poo'rs (S&P) cortou o rating da dívida da República Portuguesa, passando dos anteriores A+ para A-, um corte de dois níveis de que não há memória no mercado português. O outlook permanece «negativo».
Estas palavras são citadas de um artigo de Paula Cordeiro, no «Diário de Notícias» de hoje. Toda a lógica de fundo da União Europeia começa a ser posta em causa, ou por ela mesma ou por forças colossais que espreitam a falência dos Estados sociais, abrindo veredas e túneis a fim de desmoronarem governos, países, centenas e centenas de anos de diversos patrimónios nacionais.
Tudo está sendo embrulhado em muretes e muralhas e entidades surgidas não se sabe de onde, comandadas não se entende como, com tabelas em computador, analisando estatíscas ou informações obtidas a distância. Portugal não tem que ser metido na alhada europeia toda ou noutras alhadas a Ocidente e a Oriente. E digo isto porque as leis tratadistas em que nos embrulham superam o que foi negociado em Lisboa, sendo as assimetrias na Europa cada fez mais despudoradas, desde as longínquas calibragens de frutos, orientações exteriores à memória histórica e cultural do país, abate de grande parte da frota de pesca, da agricultura que nem sequer bolia com a francesa, tudo assim, ensarilhado em orgãos majestáticos de enorme luxúria de meios e pouco entendimento das periferias, das populações ou dos ventos que sopram colonialmente sobre as nossas pobres imitações de cosmopolitismo, ideia decadente em si mesma.
A Grécia foi (com graves faltas dela) o vértice de um vórtice com o qual Alguém quer devastar o euro, as agências feitas de homens que nenhum de nós conhece e que nunca debaterem nada com o mundo, nos grandes plenários que a tecnologia permite. Não ouvi mais falar numa nova estrutura coordenadora e fiscalizadora do sistema bancário nem me parece que as tais agências tenham uma concorrente europeia digna de crédito real e mediático. Assim, os interesses dos grandes Estados são motores de crises sobre crises, a luta de mercados inúteis, de moedas patéticas, de redes para o tráfico de influências, promiscuidades várias, corrupção e deuses inacreditavelmente vivos e livres nos seus grotescos pés de barro.
«É tempo (disse Teixeita dos Santos) de o Governo e os partidos, em especial o PSD, se entenderem quanto a isto (medidas necessárias). É preciso focar a atenção no que é e deve ser prioritário para o País, pois as dificuldades ainda não acabaram. O país está a atravessar um momento decisivo (...) e tem de saber responder a este ataque dos mercados»

quinta-feira, abril 15, 2010

AS CITAÇÕES DITADAS AO NOSSO QUOTIDIANO



de PLUMA CAPRICHOSA
Clara Ferreira Alves



ÚNICA









Na sua crónica
Somos um pequeno e desgraçado país
temos uma elite sofrível e uma classe política sem cultura política nem histórica

Sai-se da pátria e regressa-se à pátria e as notícias são as mesmas; é como se o mundo girasse e nós parados. à espera do apocalipse. Tudos nos diz que amanhã será pior e toda a gente nos pede mais sacrifícios, mais penúria e mais infelicidade. É impossível levantar um país de vencidos ou convencê-lo a fazer alguma coisa por si. Leio as notícias sobre o extraordinário salário de António Mexia, da EDP, os 3,1 milhões anuais, e penso o que pensa uma pessoa normal: não vale a pena. Os velhos morrem de frio no Inverno porque não têm dinheiro para pagar «a luz» e o senhor eneria tem um salário igual ao dos melhores 200 gestores americanos. Numa empresa falsamente privatizada que floresce num regime de monopólio e em que o Estado é o maior accionista. E aquilo é o salário, fora os benefícios e os cartões. Fora as reformas e as pensões. A permanente resignação perante a imoralidade é que nos torna passivos, fracos, assustados, irresolutos e cúmplices da delapidação do nosso dinheiro. E um governo socialista autorizou isto e promoveu isto. E pior do que isto. Não se trata de premiar o mérito, trata-se de premiar a estupidez. Porque deixamos isto passar.
(...)
Em Portugal, deixámos de ter símbolos e não temos modelos. O português mais influente é um jogador de futebol. O segundo mais influente é um treinador de futebol. E ponto final. Temos uma elite sofrível e uma classe política sem cultura política nem histórica, ludibriada por autodidactas ou por rapazes com cursos tirados no estrangeiro e que chegam a Portugal com um objectivo: enriquecer. Enriquecer à sombra do partido, do padrinho na banca e do Estado. De nós. E a justiça trata de si e dos seus privilégios. Somos um pequeno e desgraçado país.

quarta-feira, abril 14, 2010

AS CITAÇÕES DITADAS AO NOSSO QUOTIDIANO



de A ESPUMA DAS COISAS
António Mega Ferreira

Notícia







Este espectáculo de encenação de um pseudomartírio pela liberdade atingiu o auge com o desfile de «pressionados» e «pressionantes» a que a Comissão de Ética da Assembleia da República deu guarida, palco e tempo de antena, nas últimas semanas. Não posso deixar de notar, como cidadão, que, enquanto se tratavam questões de imperioso interesse nacional como o Orçamento e o PREC, ou as eleições para a liderança do principal partido de oposição, as páginas dos jornais e os noticiários de televisão foram servindo de câmara de eco a um cortejo de lamúrias, indiscrições, meias-verdades e delações que, à hora a que escrevo esta crónica, já tinham chegado a Morais Sarmento (que foi ministro de Durão Barroso) e a António Costa, que não está no governo há três anos. Francisco Balsemão, que, além de empresário, sempre foi jornalista, encarregou-se de relativizar estas «pressões», ele que, tendo sido primeiro-ministro, deve saber bem do que fala. Mas, para lá da reverência da praxe, ninguém lhe prestou atenção.
Há clara desproporção, parece-me, entre o alarido e a matéria de facto: por enquanto, do alegado plano governamental para o controlo dos media só há a convicção não fundamentada de três ou quatro jornalistas e não-jornalistas, expressa por vezes em termos histriónicos e despropositados, infelizmente tolerados pelo presidente da comissão. Tudo, claro está, ouvido da boca de terceiros, porque ninguém falou de «pressões» directas, o que deixa bem claro que as mesmas nunca existiram. O momento mais hilariante foi o da mirabolante «revelação» de que o primeiro-ministro teria telefonado ao Rei de Espanha para lhe pedir que intercedesse para o afastamento de uma apresentadora de telejornal de um canal privado... Que ego, senhores, que ego!

terça-feira, abril 13, 2010

AS SUAVES SESSÕES DA JÚLIA DOS ESPÍRITOS


Meus aigos, esta é a imagem digital do protoplasma da Júlia, distinta apresentadora de televisão e que ultimamente nos tem presenteado com sessões finíssimas da mais transcendente estrada de comunicação entre a nossa palpável e medíocre dimensão de humanos com o espaço onde se deslocam, invisíveis quase sempre, os perespíritos e os espíritos que nos são próximos ou distantes, a maior parte dos quais parecem divagar (cómoda ou incomodamente) pelos lugares da sua vida carnal, pelos sítios onde se deslocam os seus parentes queridos. Júlia dos Espíritos acompanha uma medium inglesa, soft e certeira, claramente ao vivo, todos ao vivo e no meio da maior das claridades. Como se vê, trata-se de uma espécie de laboratório nada semelhante às difusas e sonurizadas sessões dos tradicionais espiritas. Aqui pode haver gente como o Rui de Carvalho, leve, sério e confirmativo. E outra gente com a mesma placidez bonita, sem ansiedades, nem dores, nem esquizofrenias. São todos e todas como maçãs maduras, limpas e sem bichos.
Júlia Pinheiro (dos Espíritos) diz à senhora (inglesa) para começar. E ela, de pé, sem formalidades, com voz natural, aponta para um dos circunstantes: «Este, por exemplo». E Júlia diz que vamos começar e que ela será intérprete das falas da senhor vidente. Parece uma representação lindamente estudada em casa, tão bem, tão bem, que a própria apresentadora, conhecida por ser esganiçada até ao cansaço dos ouvintes, sucumbe ao milagre de falar em tom natural, na mais fluente e doce das traduções. «Aquele senhor tem uma figura de mulher junto ao seu ombro. Usa um chapéi de palinha, é branca, usa um belíssimo vestido de verão. Ela diz que continua a amá-lo muito, mas revela-se perturbada ao lembrar o filho que perderam num horrível desastre. O homem leva a mão aos olhos, também perturbado, mas recompõe-se depressa». «Que pode dizer-nos sobre isto?», pergunta a Júlia do Espíritos. Ele diz que sim, que é verdade, o filho morreu há um ano, num desastre de mota, dois anos depois do falecimento da mãe, ainda jovem.
Esta é uma narrativa possível do que acontece naquele programa. Se fosse possível ter esta internet dos mortos, com um motor de busca bem superior ao Google, um mundo já tinha dado uma volta muito grande, transfigurando-se em muitos aspectos. E teria sido prestado um serviço inestimável às religiões, incluindos aquelas que acenam céus palpáveis, capazes de convencerem o mais empedernido dos homens a se suicidarem, fazendo-se explodir com bombas, assim combatendo o inimigo na Terra e catapultando-se para lugares paradisíacos, onde o amor tem novas cores.
Esta total e grosseira falta de respeito pelos que estudam a eventual sobrevivência da alma, ou se ela existe e como, com que propriedades, porquê e para quê, é conenável. Um travestimento desta natureza, sem que ninguém se indigne, não pode passar por entretenimento: é um jogo preparado para criar expectativas palpitantes nos crentes, algo «dizível» daqueles dois mundos. Mas eu não sei se o jogo se chama embuste, ou outra coisa pior, e não percebo como se mantém em emissão, com a maior naturalidade, um tão grave atentado à nossa inteligência e condição humana. Ou será que só a política, rasteira, de idêntico nível, é aconselhada à moderação ou mesmo a sair de campo? Perguntem à Manuela Moura Guedes se quer participar no programa da Júlia dos Espíritos. Não sei se ela arrasta maus ou bons espíritos, mas repetirá sem papas na língua o que lhe comunicarem do Além, doa a quem doer. Júlia, isso não é deontologicamente aceitável, nem com falinhas mansas.

sexta-feira, abril 02, 2010

PORTUGAL E O TRÁFICO DE SUBMARINOS AO SOL

Portugal, rosto da Europa que se fez ao mar com pouca gente e muita vontade de desbravar mundos, mandou degredados para Angola e escravos para o Brasil, onde ajudou a criação de um esplendoroso país, apesar das suas assimetrias e a deslocação temporária da corte para lá, abarrotando os barcos de quinquilharias, brasões e muitos condes. Por lá edificou o milagre de Manaus, ópera, simulação cosmopolita, intrigas gostosas, enquanto pela selva os sequestrados da borracha produziam riqueza para os outros, entre as zonas do café, cacau, e outras riquezas fabulosas até ao petróleo de hoje e a violência e os sem-terra e as favelas impenetráveis.
Por cá tudo foi definhando, mesmo durante a dura vigilância do regime de Salazar e os tarrafais todos, diversos, implantados longe e perto, bem disfarçados pelo império inteiro. Cristine Garnier falou com legendagem desse homem que um dia foi traído por Deus e caíu de uma cadeira. Estávamos em guerra, catorze anos em três frentes, com todos os orçamentos possíveis e fértil terreno para traficar benefícios, entre construções logísticas, ementas erradas e ferros e géneros comprados com luvas.
Hoje, em plena crise económica e financeira, face dilacerada de um capitalismo global que quer crescer até rebentar, e já rebenta e já encalha em dólares e euros, incapaz de pensar o planeta e os erros da obesidade da teoria e da prática, destruidora, que abrirá em breve os braços a milhões e milhões de formigueiros imparáveis, da China, da Índia, da Ásia em geral. A Europa, entretanto, sobrevive numa lógica de mercado e de colagem de países entre si, pequenos e pobres, grandes e ricos, sob a orientação de tratados que não unem coisa nenhuma nem apontam para um verdadeiro espaço de coesão, de respeito mútuo, de partilha devidamente regulada. Aquilo a que se chama União Europeia é o que resta da civilização ocidental, de muitas mordomias e serviços sociais apreciáveis, entre profundas rupturas da colonização mercantilista americana.
Portugal, que olha cegamente para a sua enorme zona marítima, onde se podem engendrar riquezas enormes, de sobrevivência digna, deixou que lhe roubassem normativamente a sua frota pesqueira e da marinnha mercante, icluindo a rectaguarda dos grandes estaleiros. Passara o 25 de Abril e os três DDD, houvera muita desarrumação e algumas conquistas, aproximámo-nos da democracia. Mas acabavam indústrias, reajustavam-se poderes, os partidos políticos competiam, em fé e batota de meios, como os clubes de futebol.
Caíram as torres gémeas, na América, aviso dantesco do que pode aproximar-se dos nossos egoismos e dos nossos devaneios bem pensantes. A própria América sentiu o abalo e apanhou uma virose de corrupção que fez entrar em falência um grande banco, a crise alastrando como a peste, um vento devastador chegando à velha e senhorial Europa. Portugal andava enredado em monstruosas intrigas, lutas de alecrim e manjerona, aumento da corrupção, luta pelo poder, comissões de inquérito para tudo e para nada, castrando a actividade do governo relativamente a todas as coisas decisivas e às outras, as de campanário, por causa de mentiras, de luvas encobertas, de amigos indevidos do primeiro ministro, derrocadas sobre derrocadas, esforços ignorados pela comunicação social, papel a sobreviver sobre um mar de boatos. E por fim, quando abrandava o fluxo criativo das atoardas e dos barões falantes, era preciso descobrir mais cobre para transmitir novas descodificações. E aí estão os submarinos encomendados por Paulo Portas, que acreditou na argumentação dos militares, e nas irregularidades, nos tráficos de influência, milhões de euros de luvas, mais do que ganham (por nada) os nossos governadores de
geraçlão espontânea. A Alemanha não brinca em serviço (viu-se desde há muito) e já prendeu alguns prevaricadores, tratando do resto, Portugal sacudido, não tanto pela verdade e pelo julgamento de vários crimes, antes debicando audições tontas, de costas voltadas para as verdadeiras necessidades de cooperação, deslizando para o fundo do mar: Paulo Portas vai lembrar-se das «investigações» do Indepentente e outra gente combinará a aceder aos paraísos do dinheiro, até porque, um dia, esta terra crestada acarinhará os submarinos sem gasóleo. Restará um moinho de vento, comprado na candonga, para alumiar os sobreviventes.

fotos da imprensa, Expresso

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sábado, março 20, 2010

UM SÓ SEMANÁRIO, EXCERTOS DA PÁTRIA HOJE

excertos, hoje, de um só jornal de referência sobre a realidade
portuguesa
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*As energias renováveis vão ultrapassar, em 2013, a electricidade fóssil.
*Máfia italiana opera no Algarve.
*O já famoso call-center de António Preto, fiel de Ferreira, ressuscitou, agora com Preto na sombra e jovens actores pagos para obter apoios para Rangel. O candidato diz que não sabia, mas acha «irrelevante» o facto de sereItálicom actores.

*Socialistas criticam o PEC e até no governo surgiram as primeiras divisões.

*A maior e mais real ameaça à liberdade de imprensa é o tipo de jornalismo que hoje se faz e que é ditado, primeiro que tudo, pela necessidade de vender informação e conquistar audiências a qualquer preço. (M. Sousa Tavares)
*Os ordenados dos gestores públicos são uma afronta ao país que vai pagar o PEC. (F.Madrinha)
*Vamos entrar numa nova leva e privatizações sem se pensar uma vez mais para que serve o Estado. (Ricardo Costa)

*O PEC devia listar sacrifícios rumo a um futuro risonho. Mas só lá estão os Sacrifícios (Ferreira leite)
*O Congresso trata o pobre Rangel como se fosse Einstein e Passos Coelho como se fosse a loira burra do PSD (Clara F. Alves)
* Fomos levados ao engano, porque a nossa imprensa, quase toda, vive à procura de sangue, escândalos, tragédias ou heróis. E porque, entre procurar a verdade da história além das aparências, esperar pelas investigações das autoridades sem antecipar conclusões, ou optar logo pela versão mais trágica e chocante, escolheu esta sem hesitar. (M.Sousa Tavares)

*A «lei da rolha» não lembra ao diabo mas lembrou a Santana, ainda às voltas com os seus fantasmas (F. Madrinha).
*Marcelo resiste a apoiar Rangel: «Alguém vai de preservar a unidade para o futuro» (Expresso)
*«Se alguém sabe de alguma suspeição contra mim, então que me diga na cara para eu me poder defender (P. Passos Coelho).

* O Bloco de Esquerda resiste à penalização dos seus militantaantes, até «por razões históricas e orgânicas», explica João Teixeira Lopes, dirigente do BE, recordando que o seu partido é uma coligação de várias tendências e que os militantes ainda ecordam com tristeza os episódios de afastamento dos dissidentes do PCP. (Ricardo J. Pinto).
*Por falar em rolhas, não devia haver uma lei para silenciar sindicalistas por uns meses? Gente pensava que o Mário Nogueira tinha ficado contente com o acordo que fez com Isabel Alçada. Mas não, ele voltou!» (Gente).
* Manuela Ferreira Leite não conseguiu ver aprovada aquela brilhante ideia de suspender a democracia por seis meses mas não se deixou vencer. Se não se convence o país, resta convencer o partido, ajudada pelo favor inesperado de Santana Lopes (Gente. Expresso, sob o título «Gente» tinha saudades do camarada Estaline.) Da nossa parte: seis meses não bastariam, pois só de 12 todos nós precisaríamos para por na ordem os partidos e os seus líderes, e as suas não-ideologias.

* Pacheco Pereira já encomendou a Amorim um camião de rolhas para a Marmeleira (Gente)
* O Primeiro Ministro é averiguado, os administradores são demitidos e julgados, as sucatas transformam-se num vértice político de incontornável significado, os bancos têm lucros, o desemprego aumente... (Ruben de Carvalho)
*BE quer ouvir os gestores da PT e da TVI, incluindo Cebrián. Pede ainda os documentos das viagens de Rui Pedro Soares a Madrid. (Rosa P. Lima)
* «Vamos estar lá para ver», disse Ricardo Rodrigues, que não tem dúvidas de que a comissão visa «atingir o primeiro ministro» e que promete contra-atacar caso os trabalhos resvalem para «denegrir, triturar e enxovalhar» a imagem de José Sócrates. (Rosa P. Lima).
* O governo começou o debate do PEC com argumentos de esquerda contra as deduções. Continuou com argumentos da direita liberal pelas privatizações. A meio desta semana já se socorria dos argumentos de Paulo Portas contra as prestações sociais. Se isto dura muito mais tempo ainda acabaremos a explicar a Sócrates que a culpa da crise não é dos imigrantes. (Daniel Oliveira)
* O deputado social-democrata considera que o ministro das Finanças achincalhou oa mais de quatro mil presidentes de Junta de Freguesia. (João Figueiredo protesta contra a frase «money for de boys» pronunciada pelo ministro Teixeira dos Santos quando já estava azucrinado com a voracidade dos presentes por mais euros).
* Ao meter o seu bedelho paquidérmico em todo o lado, o Estado acaba por esquecer as funções que deviam ser a sua prioridade: as polícias e as magistratu- ras. (Hemrique Raposo)
* Trichet insiste na flexibilidade salarial. Nota sobre as concepções avançadas do Governador do Banco Central Europeu sobre produtividade, situação do mercado laboral e competitividade.
* Apesar do mandato de Carrilho na Unesco só terminar em 2012, o governo português quer afastar aquela individualidade do lugar porque recusa cumprir ordem de Lisboa. Luis Amaral não prestou qualquer declaração sobre o assunto.
* Nobre Guedes, ex-ministro do Ambiente, perdeu mesmo a honra. O Supremo tribunal de Justiça não deu razão ao ex-ministro do Ambiente, Luis nobre Guedes. Este acusava o Expresso de «violação da honra» no caso do artigo «Co-icineração feita em segredo», que foi manchete do jornal em 24 de Dezembro de 2004.
* Clara Ferreira Alves, apreciadora de Jardim ou indiferente às suas bordalescas intervenções ao longo de 30 anos, mil vezes piores que aquela dos corninhos apontados aos deputados por um ministro da República no Continente, pareceu reconhecer a preparação para o bem e para o mal de Passos Coelho, mesmo ao procurar fazer o seu número final apresentando perdão àquele ilustre político, mas escreveu logo a seguir: Perdoar a Jardim, ele? A Jardim não se perdoa, Jardim é o único que pode perdoar. É Deus. Daí, o lapso, e espero que não tenha sido porque Jardim se fartou de cuspir sobre Pasos Coelho. (...) Estranhamente, o congresso e o partido, que precisam urgentemente de um vencedor, tratam Marcelo como se fosse César, tratam o pobe Rangel como se fosse Einstein e tratam Passos Coelho como se fosse a loura burra do PSD. Desculpem a apropriação. Sócrates deve divertir-se a ver isto com os amigos.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

MADEIRA: TRAGÉDIAS TAMBÉM PODEM REDIMIR


foto inicial: Diário de Notícias

Tantas vezes, entre a notícias de cimento e flores, nos julgámos aqui com algum direito à indignação pelas palavras de João Jardim, mordendo aqueles que em qualquer hora poderiam estar a dar-lhe a mão. Agora sobreveio a tragédia, a ira da Natureza, uma ira cega mas que tem a sua lógica, e as mãos mortas tiveram de superar, com dignidade, o reboliço revisteiro do Continente e da Madeira.
Leio e transcrevo pontos relevantes de um texto de Violante Saramago, alguém que que há trinta anos se converteu a viver naquela ilha, justamente no Funchal. A frase que lhe destacarm do texto é esclarecedora: «Não se pode transformar ribeiros em caminhos estreitos». Ao descrever os primeiros dados do desastre, Violante escreve: «tudo isto estava anunciado, só faltava a data. Anunciado?» Expliquemos um pouco mais: «Não se podem transformar ribeiros de 12 a 14 metros de leito em caminhos de cimento em que água corre a valocidades vertiginosas. Não se podem onstruir rotundas sobre ribeiras. Tudo isto tinha de rebentar. E não falamos de apenas uma, são três ribeiras que desaguam no Funchal. Alguém imagina cimentar o Tejo?» Assim, «tudo isto correu pior do que poderia ter acontecido. Nãp se aprendeu nada com a catástrofe de 1993 e daqui a uns anos vai voltar a acontecer. As construções foram feitas de forma caótica». Concluindo a parte principal do seu texto, Violante Saramago: «Custa-me que não tenha tido a hombridade de repensar o ordenamento (refre.se a João Jardim). A Madeira é atingida ciclicamente. Não foi nenhum castigo divino e não é só uma força da Natureza, que só tem um sentido: os bairros de lata e os mais desfavorecidos. Não há nenhum ordenamento e esta palavra devia começar a fazer parte da consciência de Alberto João Jardim».
Seja como for, agora na Madeira e como vai acontecendo um pouco por toda a parte, em termos desproporcionados, uma súbita tromba de água desabou sobre a ilha e fez ateradoramente o que a força da gravidade ordenava. Simplesmente 50 cm por mero quadrado ultrapassa a mais atrevida tempestade. E tudo desabou das montanhas, ultrapassando a estreiteza dos caminhos, derrubando casas, vias rodoviárias, mitos e muitos carros levados numa torrente de facto impressionante, alguns ja sem dono pela morte que quebrou dezenas de vidas humanas. É para essas vítimas que devem orientar-se as orações daqueles que crêem nesse apelo.
E também, num tempo das mais aberrantes quezílias partidárias, casos sombrios e mal abordados, tudo dentro da crise e da lassidão dos costumes, é justo realçar os políticos do governo que se dirigiram rapidamente ao Funchal, inteirando-se de tudo, e começandoa esboçar um plano de auxílio e reconstrução, o qual já está plenamente a funcionar. Apoiando tudo e esclarecendo tudo, na base da sua experiência da Ilha, João Jardim esteve bem.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

RANGEL RANGENDO CONTRA AS CIRCUNSTÂNCIAS















Rangel, no mau augúrio de renegar Bruxelas, atitude que nunca considerara ponderar, cedeu a pressões e ao tamanho do seu próprio ego, e desceu de súbito em Lisboa, praticamente só rodeado de jornalistas, à hora dos noticiários, para se declarar candidato à presidência do PSD, o que defendeu num compreensível voto de salvação para o país, começando pelo seu partido e respondendo ao estado de sítio que se foi armando em torno do actual governo, sobretudo de Sócrates, situação que ele diz enfaticamente estar disposto a enfrentar rompendo com tudo, combate que nomeia por ruptura. D. Sebastião, que nunca voltou da bruma, não teria dito melhor: romper com a mudança tantas vez apregoada, sem exército nem jantares de família, só, depois com quem vier por bem, pela ruptura, a fim de salvar o país desta vil confusão em que se encontra. Manuela Ferreira Leite pode, enfim, baixar o véu: cumprida a sua atribulada, curta e enovelada missão, o seu superior sentido da Verdade ganhou o Estadista (como ela dizia) que nunca mente, nunca se contradiz nem populariza a retórica, disposto porventura a provar que a crise é superável de forma cristalina, apesar de fervilhar numa circunstância excepcionalmente difícil.

domingo, fevereiro 07, 2010

OS VELHOS PADECIMENTOS DA NAÇÃO

Bordalo Pinheiro
«TOMA»


Deixo cair o jornal no chão. Não havia nele nem um bocadinho de estrada, bem um bocadinho de brisa, só restava um princípio de náusea. Náusea, presumo, daquilo que nos vai rodeando a cabeça, presas as pernas e o tronco. Parecem consolidados os desconfortos da revolução institucionalizada, desencantos de um cerco «global» cuja invenção só podia ter saído de zarolhos utópicos. Desde o vamos cantando e rindo até o avante, camaradas, avante. O convívio e a partilha não são apenas actos de afecto, são também caminhos da inteligência associada à emoção/razão. Se uma pequena comunidade disputa um resto um resto de carapau ou a ordem de quem põe o caixote do lixo na rua, onde nem sequer é recolhido, a desgraça será ainda limitada mas já anuncia guerras como as do século XX. O que deveremos então pensar dos 127 países da União Europeia, agregados por tratados e alçapões, fingindo que acreditam numa ordem falsamente generalizável, apesar das brumas repetidas todos os anos, entre deveres, obrigações e dívidas? As fracturas estão à vista com a universal derrapagem do capitalismo (dos mercados), trafulhices bancárias em cascata, o colosso americano, sob o manto esperançoso de Obama, ficando por instantes de joelhos e com muita gente a mudar de casaca. Coisas da grandeza e da ganância, dir-se-á. Então e a velha Europa, estreita nos deslizamentos obscuros ou descarados, bem depressa a comparar o caso da Grécia com o de Portugal: um manga de alpaca da UE a bolçar para o mundo a esquemática parecença do que se passa nos dois países, acicatando os mercados (especuladores) a venderem e a comprarem restos da nossa última hepatite. A Alemanha e a França, entre perdões generosos desde 1948, depois das guerras que fizeram e de terem sido salvos por estrangeiros, criam agora os seus pactos de consistência, mais desenvolvimento, mais pompa em carros negros. E assim, embora por vezes não pareça, borrifam-se para quem ainda está fora da zona euro mas se alistou na Europa. Ou para outros, como nós, cuja «memória do esquecimento», embora queime a alma, não evita os devaneios crescentes das viagens em massa, de cultura e recreio, os consumos aberrantes, os negócios globais, a diluição progressiva da identidade de cada povo, a colonização redutora quase toda feita de hambúrgueres, de súbito um 11 de Setembro num tempo civilizacional cada vez mais onírico, a meio dos pântanos, tempestades naturais, céus tóxicos na consequência cega das indústrias vorazes e invasores.



«A CANGA»
Bordalo Pinheiro


Portugal, que ficou mais ou menos pobre depois da má gestão após os Descobrimentos, e mesmo durante esse período, nem sequer fez o nojo dos seus 9.000 mortos da chamada guerra colonial. Fecharam-se as bocas, rezam os velhos pais de um norte pedregoso e que, felizmente, ainda não se parece com a Madeira, enquanto Lisboa concentra todas as casacas virtuais de governos em bicos dos pés, mitigando a salvação dos desastres, por milhões de euros, junto de grandes escritórios de advogados, serviços caríssimos mas que ajudam a enconrir as multidões entrevadas dos ministérios, a aumentar a dívida, a omitir centenas de institutos cujos objectivos não são promulgados e nos quais praticamente ninguém acredita, pesar das carreiras públicas que por essa via pululam na capital. Para além do gesto rapace dos construtores civis e dos tais institutos mais ou menos obscuros, seria talvez útil, quanto à poupança decretada por Bruxelas, começar a extinguir tantas partes em que o governo se divide e multiplica, publicando o efeito de tais decisões e descarregando a papelada naquela Bélgica central em ordem á memória futura. Porque a justiça não vai tratar disso tão cedo, os dinheiros escassos passam-lhe ao lado, ao lado das secretárias, enquanto os juizes encapelados têem em diagonal 14.000 páginas de um só processo e continuam vinculados a morfologias e metodologias velhas, litúrgicas, insensatas. Por isso lá se afundou a Justiça numa paraplegia considerável, e basta, para se ver tal coisa, reparar na grande evidência fo Titanic/Casa Pia. E entretanto de nada nos serve ter um Primeiro Ministro com nome extraído da cultura clássica, Sócrates, igual ao do filósofo que inventou a Alegoria da Carverna. E não é que, entre ressonâncias ininteligíveis, viemos parar ao limite da mesma, sombras e sombras passando, golpes baixos ou altos, deitando por terra (ou quase) o governo, todos fazendo da luta partidária a mais grosseira das inconsciências sobre o respeito que nos devia merecer a história e a gestão das coisas. Se calhar é preciso inventar uma democracia que não viva de expedientes, de falsos cosmopolitismos sempre a virar em provincianismos. Sobre a simples vigilância e renovação da frota automóvel do Governo, os nossos escritores de televisão poderão, a todo o tempo, fazer romances dos caminhos secretos de muitas coisas. Dos carros aos caminhos secretos dos projectos, vida e morte dos sobreiros arrancados aos milhares, haveria muito a dizer sobre as comunicações e os monopólios das energias catastróficas, privadas, semi-privadas, geridas, como os bancos, na linha de dezenas de milhares de euros por mês, fora os prémios de milhões, fora aí de um património que não se sabe donde vem e para que serve. Melhor ainda seria pagar a dívida macionalizando as marinas do país, com apropriação «revolucionária» dos milhares emilhares de iates que por lá existem: vendidos aos países emergentes resolviam muitas coisas. E a dívida deles poderia ser paga em prestações suaves por um período de 300 anos. Isto resulta apenas de um breve diagnóstico da crise nacioanal (e do mundo). Mas eu não sou o Madina Carreira, cada vez mais parecido com o simpàtico Mr. Magoo, que arrasa tudo e todos, apoiado em mapas e gráficos, trabalhos de casa. Eu gosto muito de o ouvir, mas não chega a nenhum saber construtivo. Perguntaram-lhe outro dia: «então, perante essa situação, que resoluções tomaria para as resolver? E ele: «Eu? Eu deixava ir tudo abaixo, bater no fundo». E riu-se. É uma figura muito respeitada e não tem sonre as costas os boatos em volta do Primeiro Ministro, histórias obscuras que já permitiriam vários filmes policiais e mesmo de terror. Os títulos até são sugestivos. «Face Oculta» poderia tornar Portugal num país de magiais visitáveis. O nosso jornalismo, diz Sócrates, é de espreitar à fechadira. Ele acha que a privacidade tem de ser respeitada e as escutas e sua publicação vão contra esse direito. Mas o que se escreveu representa a imagem espreitada? E o som ouvido?

A MÁSCARA

Bordalo Pinheiro

A máscara, sátira de Bordalo Pinheiro, não se refere a Manuela Ferreira Leite: esta reivindica A VERDADE, mesmo que se contradiga votando a favor dos dinheiros para o cubano Jardim. Máscaras há agora por toda a parte e há ricos que têm esse hábito, enquanto guardam o dinheiro nos «paraísos fiscais», esperando por melhores tempo de investir. Ou nem isso. A Europa, afinal ainda rica mas decadente e sem ideias novas, retornou ao feudalismo a coberto de um manto diáfano da União (de mistura com subsidiaridade.). O Feudo dominador é o de Bruxelas, onde também há ratos e espiões das mais diversas estirpes. Lá se cafunga em diversas reuniões para coisa nenhuma, ou pouca coisa, com milhares de funcionários viajando sem cessar entre o maple
aquecido e os parlamentos pirosos. Dos nossos deputados europeus, vejo-os mais por cá do que tenho notícias deles estarem lá. Enchem a televisão de balbúrdias, onde todos dizem todos o mesmo e ao mesmo tempo. O Ruído é inabalável. As flores da nossa mais funda reflexão passa pelas dezenas de comentadores políticos, sem nada para resolver o mal que acusam, com grande relevo para Rebelo de Sousa, Vitorino, o inefável Pacheco Pereira, esse também um pouco por todo o lado, à espera de que o PSD reapareça. Pacheco lidera A Quadratura do Círculo, mas por mero desprespeito pelas regras do diálogo. O Eixo do Mal, onde a gritaria atormenta a vizinhança, pode salvar-se da negatica pela prestação de Clara Ferreira Alves, naturalmente quando a deixam falar. Mas é um grupo engraçado, tolo mas engraçado, um grupo que ainda não percebeu estar em vias de se afundar a um sopro (atrás da fechadura) do Primeiuro Ministro. Mas enfim, salve-se quem puder. Falarei com a Clara quando todos estivermos no Inferno, onde teremos mais companhias: Louçã, Portas (por causado Independente), a líder Manuela Ferreira Leite (por causa da verdade rasutada), Sócrates (por ter descido o déficit) e falta ainda escolher um membro do Partido Comunista: o Comité Central insiste no colectivo. Vão todos.