domingo, agosto 08, 2010

MUITA GENTE AZOUGADA E PODERES INQUIETOS

Pinto Monteiro, P.G.R

A caravana risonha da oposição, o homem que
aspira ser 1º Ministro e um 1º Ministro Sombra
Pinto Monteiro, P.G.R, diz que, apesar dos latidos que se ouvem entre as caravanas mais diversas, não se vai demitir (era o que mais faltava), embora haja em Portugal o hábito de resolver questões políticas pela via judicial. Conforme, senhor Procurador, como ainda não temos hipermercados para excepções de natureza e execução judicial, o mais certo é a vontade típica ceder à derrota antecipada, porque os actos que chegam às cerimónias da audição, coacção inquérito e julgamento, sem contar com uma possível condenação, custam tudo aos olhos da cara ou a venda clandestina de um rim. Isto está pelas horas da morte, senhor Procurador. Veja aqui mesmo, nesta nota resgatada à imprensa, o espírito laico e divertido dos próximos zeladores da nossa democracia e certamente pagadores de dívidas. Não têm o futuro que julgam, mas é preciso não os desanimar. Aliás, é o que faz o tal senhor de cabelos brancos, das finanças, que os jornais apelidam de 1º Ministro Sombra. O senhor Procurador não é sombra nem o quer ser, daí repudiar qualquer postura idêntica à da Rainha de Inglaterra. Eu, se fosse ao senhor, não desdenharia aqueles poderes, assentes, sempre que preciso, em assessores exímios e seguranças capazes de calarem o Dr, Louçã só com um sopro (de arma, está claro). Em geral, concordo que o aparelho da Justiça e suas próteses mais conhecidas estão com hábitos talibaneses, o que descredibiliza a famosa civilização ocidental. Mas devagar se vai ao longe.
Vou aconselhar a quem me lê, a leitura da sua entrevista ao expresso em que todas estas coisas (dos poderes, sobretudo) vêm, a meu ver, bem explicadas, claras e com a nobreza que não ficaria mal a uma Rainha -- ou a um rei, obviamente.
Não, não se preocupe com o Paulo. Ele tem os submarinos às costas, como todo o polítivo, em Portugal, tem sempre qualquer carga explosiva sobre os ombros. Mas o Paulo Portas já fechou as portas do Independe, o «tomba ministros». De resto, como escreve o Sousa Tavares, «há quase cem anos que Portugal é governado em obediência ao poder das corporações e a pergunta é: valeu a pena?»
Eu não sei, mas há quem saiba. E o senhor Procurador talvez pudesse esclarecer-me uma outra sequela que me intriga: que paixão é esta de dizer que a política é dos políticos e em nada se mustura com as questões judiciais? Eu não quero fazer cinzento da mistura entre preto e branco, mas os valores daquelas duas áreas, e seus objectivos, são como o ocre e o terra de Siena-- tocam-se, vêm da mesma terra. Há questões políticas claramente paralelas a questões juduciais.
Há nisso uma espécie de maniqueismo de cozinha, corte à faca, cada qual no seu galho.

sábado, agosto 07, 2010

CHUMBOS PARA A CAÇA, ADIA-SE QUEM NÃO SABE

Isabel Alçada, Ministra da Educação


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Apesar dos elogios que o Expresso dedidcou à nova decisão da Ministra Isabel Alçada, a maioria dos comentadores não percebe porque razão o todo poderoso Ministério da Educação envereda agora com a medida que acaba com os «chumbos» (expressão popular) no decurso dos estudos básicos do secundário. Esta ideia vem de longe, de um ministro engenheiro, procurava destramatizar a aprendizagem e torná-la mesmo um pouco lúdica. Desde a «invasão dos pedagogos» e das famosas «Ciências da Educação» que toda a superfície da área dos ensinos e das aprendizagens, abalada por ventos inesperados e «contranatura», ficou assim arrepiada, ora febril, ora gelada por várias tormentas. A ideia de chumbo e de um passarinho caindo ferido na asa, é brincadeira. Se pronunciarem com a tonalidade de qualquer carioca percebem logo. Quando não fui capaz de convencer o professor Delfim Santos, historiador e filósofo, de que sabia o que era o humanismo nas artes, ele interrompeu o meu exame. Daí a uma hora, na pauta, vinha a seguinte expressão a seguir ao meu nome: prova adiada. Fiquei perplexo, mas depressa compreendi que o professor era tão sofisticado e inovador naquele acto (de reprovar) como o era nas brilhantes palestras que se alargavam às áreas comuns. E percebi mais: percebi que estava a cometer um erro, contra o meu próprio estatuto de futuro pintor e professor, ao ter-me apresentado a exame com tão poucas bases em ordem ao que ouvira durante o ano.
Diz Miguel Sousa Tavares que a anterior ministra, Maria de Lurdes Rodrigues, experimentou começar a mudança por cima: pelos professores. A sua longa e desgastante tentativa de avaliar pelo mérito, responsabilizando também os professores por desajustes abaixo do razoável quanto às falhas gritantes dos alunos, foi derrotada na rua (que não na opinião pública). E foi derrotada pela mais poderosa força em defesa da mediocridadae a que já assistimos em trinta e seis anos de democracia. Diz ainda Sousa Tavares: «todos os que tiveram medo de enfrentar o lóbi dos sindicatos dos professores, com assento diário numa imprensa que prefere tomar partido pelos que berram e não pelos que têm razão», todos esses talvez venham a sofrer o desabar dos nossos interesses formativos após o rompimento da razão profunda de todas as aprendizagens. Claro que é preciso haver, durante o ano lectivo, processos de estratégia pedagógica permitindo ao professor explicar antes o que torna imperativo adiar um ano, entre conteúdos e respostas, a responsabilidade em precariedade do lado do aluno, procurando ainda algum acompanhamento atempado.
Daniel Oliveira considera que a retenção é uma questão meramente metodológica e prática. Não é uma questão de princípio. Podemos ser muito exigentes e não chumbar quase ninguém. Basta sermos bem sucedidos a transmitir conhecimento. Podemos ser facilitistas e chumbar toda a gente. Basta acharmos que a nossa principal função não é ensinar, é avaliar».
O problema da relação ensinar/avaliar terá de valer por um melhor aprofundamento do sentido
da própria vida. Não se ganha por se fazer sempre batota. Podemos adiar uma jogada, porque só dessa forma, em muitos planos do ser, seremos capazes de viajar, com clareza, pelo valor humano e técnico da jogada adiada. Falamos, enfim, de jogada ganha.

OS EVENTUAIS BEATOS DO FREEPORT NATURA

Mário Crespo

A pergunta não se dirige a Mário Crespo, obviamente, figura respeitável do nosso universo televisivo. A pergunta deve ser colocada por ele, que todos os dias, semanas e semanas a fio, tem indagado o Processo Freeport até à exaustão, um pouco em surdina, como é agora seu hábito, outras vezes interrompendo de razões algum dos muitos convidados: políticos, juristas, ecologistas, gente do mundo e do estrelato. Eu não percebo porque é que um homem desta craveira, que estudou lá pelas Américas ou coisa semelhante, se obstina desta forma com um tema vulgar, enovelado em telenovela pelos jornais e pelas malfeitorias dos julgadores de rua. Fala-se (isso já percebi) em políticos implicados, porventura o próprio 1º Ministro, na concessão de licença para a obra, colada a uma área de conservação natural, processo esse que teria trazido às mãos de alguém quantias significativas. Agora, como toda a gente já sabe, do processo resultaram dois incriminados, sendo o mesmo arquivado, resmas e resmas de papel com inquéritos e audições em torno do tema, nos quais foram ouvidas muitas e muitas personalidades de nome solene. Mas, ao darem ordem de arquivar todas essas inquirições, que sobraram da gesta do Seixal, dois procuradores vieram a correr juntar, da sua parte, 27 perguntas dirigidas ao 1º Ministro, mais um acontecimento por acontecer na corrida dos boatos e tempo disponível, cerca de seis anos. Penso: cá está o gato com o rabo de fora. Era o 1º Ministro que toda aquela gente farejava, para ser pelo menos arguido e se vendesse mais papel, se arranjasse um longo processo em caso de haver provas q.b. capazes de abalarem algum juiz, ou, enfim, se fechasse tudo, uma década mais tarde e sem indemnizações, por alegada falta de provas, porque as que pareciam bastar não comoveram uma Justiça de olhos vendados. Será esta a história do ensaio da cegueira, presumido para o futuro por Saramago? O Jornal de Sexta, da TVI, interpretado por Manuela Moura Guedes, caíu por causa desta história e ficou tudo mal contado, incluindo o desabafo do 1º Ministro, já então personagem nebulosa da história, personalidade que, desde o Freeport e do comentário feito àquele especial magazine de TVIsexta, nunca mais deixou de ser zurzida em canal aberto e até interrogado por uma Comissão de Inquérito, nomeada, para esse assunto, pela Assembleia da República.
Eu estou inocente, garanto. Estou a interrogar interrogando-me, a fim de ver para além da névoa que esconde, desde há séculos, D. Sebastião. Parece-me óbvio que Sócrates não tem condições para ousar parecer o rei sem norte. Mas, certamente, há-de perguntar a si mesmo, porque carga de água anda o Mário Crespo neste imenso pantanal, sem se cansar, descurando as suas virtudes técnicas e culturais.

sexta-feira, julho 30, 2010

MORREU ANTÓNIO FEIO: DAQUI JÁ O SAUDAMOS

António Feio
Morreu o artista António Feio, vítima de um cancro no pâncreas, contra o qual lutou de forma corajosa e usando os seus próprios meios de actor, um homem de vocação precoce e nos últimos tempos, apesar da doença, trabalhando com intensidade, com um humor de denúncia, a gritar a vida que afinal saudava contra todos os absurdos.











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António Feio, lembrado hoje, desde cedo, na televisão, foi sendo conhecido por quem (porventu-ra) só o descobrira tarde. Ali estava o menino a contracenar com Rui de Carvalho há muitos anos . Foi recordada a sua vida, o seu tempo em Moçambique e as prestações lá desenvolvidas, como depois, num outro tempo, aqui, fazendo drama (excepcional na peça onde se tratava o tema da droga). Devotado também à comédita, trabalha como encenador e professor de expressão dramática. Aprofunda largamente o vasto espaço do humor, abrangendo o seu lado absurdo, o non-sense, sem abdicar de sinais de denúncia, em diferentes paralelos, visando o real humano.
Aqui fica a nossa voz, por António Feio, sem lamentação e apesar da perda que significa a sua morte, numa altura em que o vazio acontece, injusto, na hora de uma idade ainda fecunda.

quinta-feira, julho 29, 2010

MUSEU DO CÔA COM GRAVURAS AFUNDADAS

MUSEU DO CÔA

O MUSEU DO CÔA será inaugurado amanhã, sexta-feira, 30 de Julho. A grandeza e originalidade deste projecto, além de todo o parque cuja visão de futuro e abertura ao conhecimento dos testemunhos civilizacionais da humanidade enobrece o país dos Descobrimentos, não parece capaz de resistir à crise, uma vez que, tanto quanto se sabe hoje, 29, só a Ministra da Cultura presidirá ao decorrer da cerimónia. Mas não é isso o mais importante. O mais importante (e desconcertante) é o sinal enganador com que as autoridades nos presenteiam: uma inabalável exposição temporária de gravura («Gesto e Inscrição»), com obras coleccionadas pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. São 38 trabalhos, entre os quais nove artistas portugueses, nomeadamente Pedro Cabrita Reis, Fernando Calhau, José Pedro Croft, Julião Sarmento, Michael Bibertein, Alberto Carneiro, Carlos Figueiredo, Ângelo de Sousa e Francisco Tropa.


Sendo o Museu e o complexo do Côa uma forte realidade que marcará muitos reconhecimentos de vários períodos relativos aos riscos iniciais, à emergência encantatória da arte na marcha evolutiva do Homem, terrível é o modo como os portugueses de hoje, abúlicos e manipulados pelos que julgam ser vértices da nossa inteligência, parecem incapazes de um gesto de indignação perante aquela não escolha de obras, todas de artistas respeitáveis, conhecidos sobretudo fora da gravura que nos honra, embora capazes de surgirem ali, sem regra nem abertura, pois a sua reputação curricular não os classifica como gravadores e nem é sábio Portugal fazer-se notar no início deste património com nove artistas apenas, no quadro de uma omissão irreverente e descuidada da verdade. Nem sequer é preciso ir muito longe para nos tornarmos maiores: ali faltou a coragem de nomear objectivamente GIL TEIXEIRA LOPES, BARTOLOMEU CID e DAVID DE ALMEIDA. Esta nota precisa de que se diga haver muitos mais gravadores portugueses da época moderna, mas, dedilhando as ranhuras dos antiquíssimos desenhos que nos distinguem, mais atrás e justamente poderíamos chegar ao ponto de distinguir outras figuras de outros tempos, espíritos que nos honram ainda, bem como a nossa fecundidade criadora, a arte que tanto esquecemos e dividimos. É grave que o hábito de usar cassetes modernas mas irremediavelmente afundadas além das outras faça com que as instituições próprias inaugurem este importante património com um gesto de pequenez, incapaz de se tornar velame de 500 ou lâmina da primeira implantação de um povo de pouca força, mas cuja diáspora, hoje, vale bem um resto de indignação perante arranjos com este perfil, nem crise nem sonho, gente enfim disfarçada, sem convencimentos, gente borboleta, de breve vida, nomes de ontem e de agora colocados no canto de nada, como se o mundo não os tivesse visto antes de nós mesmos. Bom era que abrissem os museus tumulares, nos quais há património de gravura que bem poderia (aqui) fazer a ponte entre a grandeza de um fragmento da nossa verdade artística específica e o horizonte longínquo no qual tanta gente retratou tantos animais, entre o desejo e da esperança.

quarta-feira, julho 21, 2010

CONSTITUIÇÃO MEIO RASGADA, AINDA DE NOME SOCIALISTA E JÁ AMPUTADA DA JUSTA CAUSA

Passos Coelho, alternativo
O rapaz pareceu-me dotado de bom senso e os portugueses em geral apreciaram que ele tivesse estendido a mão ao vilipendiado Sócrates. O país precisava disso como de pão para a boca e os sonhos de vencimento da crise iam e vinham nos passeios do nosso desencanto, apesar das festas, mega concertos, viagens para ilhas encantatórias e outros continentes. País (outrora) de marinheiros, Portugal engorda uma colossal e helénica mitologia das praias e do bronze. Qualquer crise passa sempre um bocadinho ao lado e os partidos, olímpicos, sectários, opacos, ensandecidos com a competitividade, o clubismo cego, a petrificação programática, quase nem perceberam o forte enfarte de miocárdio de que o capitalismo (selvagem ou assim-assim) foi vítima. Convalescente, ainda nos cuidados intensivos, ninguém ao certo pode garantir que este sistema está livre de perigo.
Mas eu tinha começado por falar do líder PSD, Passos Coelho. Ganhou com razoável limpeza o lugar, batendo dois adversários contrastantes: Rangel, sobretudo, rangeu quanto pôde e meteu medo a muita gente, porque a retórica e os gritos, ainda que com algumas razões, desertificam senados e nivelam a modernidade por certezas a duas dimensões.
Partem pessoas para férias, a crise ferve, Medina Carreira, com a sua cassette, nunca mais acaba de multiplicar diagnósticos, arrasando os cérebros miniaturais dos políticos, dos deputados, mas sempre sem um plano bem estruturado para dizer onde se corta e como, onde se esfola e de que forma, onde se constrói e com que parcimónia, de que lado está Portugal, enfim, no mundo da globalização aberrante. Qual é o nosso novo caminho marítimo para a Índia?
E então, na pior altura táctica e estratégica, algumas veladas palavras de Passos Coelho, foram pingando para a sociedade civil. E de súbito, com os carros a aquecerem para a primeira volta, o rapaz derrama sobre o país uma espécie de revisão constitucional, quase uma substituição da nossa Carta de Nação. Claro que o documento, que altera mais de cem artigos, foi grelhado por uma comissão de «peritos». Mudando tanta coisa, por vezes com algum cinismo, deixaram a palavra socialismo a encimar o nosso Pórtico de 76. Esqueceram-se ou procuraram derrubá-lo com o esmagamento e nova redação dos artigos? Os maiores constitucionalistas, ao comentarem ontem à noite este tufão, mostraram, urgentes, que era tempo de desnomear ideologicamente a Constituição e fazer os ajustamentos e actualizações necessárias, com bom senso, e aliás noutra altura mais apropriada, porque uma tão grande enchurrada de letras só vai atrapalhar tudo, criando manobras contra a concentração no combate à crise que é preciso apurar.
Dando uma vista de olhos pelos jornais (desta vez não para usufruir de mais um boato ou escândalo centrado em Sócrates), vemos que os partidos da esquerda consideraram a proposta do PSD « um ataque aos princípios da democracia.» O comunista António Filipe denunciou que o fim da "justa causa" levaria à arbitrariedade dos despedimentos. José Manuel Pureza alertou para o fim da gratuidade (mesmo tendencial) da saúde e da educação, lembrando que a responsabilidade de travar este projecto cabe ao PS, cujos votos são necessários para fazer a maioria de dois terços e para aprovar as alterações ao texto. À direita, o CDS acusou o PS e o PSD de tratarem a revisão com "tacticismo político", simulando um desacordo depois de terem chegado a acordo no PEC».
Desde esta surrealidade do CDS à despropositada artilharia do PSD, Portugal, sem necessidade dos Sindicatos, devia invadir em massa os partidos e clamar pela voz do povo, que é quem mais ordena.
Coelho, ao criticar ontem, na televisão, a mania de uma Constituição inamovível, o que é mentira rasca, quase lhe fugia a boca para dizer que daqui a uns anos teriamos uma Carta terceiromun... e logo atalhou para antiquada, imprestável. Mas ele devia saber que há períodos constitucionais determinados para as revisões correntes e que o texto português ainda é um dos mais avançados do mundo: coisa que se diz, naturalmente, com verdade histórica, política, e sem sectarismos de uma qualquer cegueira (mesmo branca) que ande por aí.
João Proença, da UGT, considerou que este documento «é o pior ataque ao Estado Social desde o 25 de Abril.» Ao falar sobre a frase que substitui justa causa, uma das mais cruéis e hipócritas mudanças ao texto cnstitucional, tanto esse sindicalista como os verdadeiuros peritos da matéria alargaram a voz e o gesto, sem patetices como «olhem que isto é mais profundo do que parece e tem de ser bem estudado». Coelho acha que de justa causa se deve passar para causa atendível.
Jorge Miranda, eminente constitucionalista, que fez parte da Assembleia Constituinte em 76, afirmou ontem (à Renascença) que a substituição de «justa causa» nos despedimentos «não pode ser aceite» porque viola os limites materiais da Constituição.
Além do aumento dos poderes do Presidente da República, que passaria a poder demitir o Primeiro Ministro sem haver eleições, e teria mandatos de 6 anos, entra em cena a «moção de censura construtiva» que daria lugar, perante o aceitamento dos conteúdos construtivos, à possinbilidade de prolongar-se a acção governativa, mesmo com vitória do acto censório. Paulo Otero denuncia a contradição entre reforço dos poderes presidenciais e a criação da figura da moção de censura construtiva.
E, entre tudo isto, os ganhos da Assembleia da República são, no mínimo, curiosos: A Assembleia da República iria alcançar o poder de se auto-dissolver, provocando eleições antecipadas sem constrangimento de prazos, além de ter o poder de substituir o Primeiro Ministro, sem ouvir o Presidente.
Passos Coelho escorregou e arranjou alguns eufemismos para se defender. Esta última disposição aqui citada faz-nos pensar, afinal, que há nesta aventura mazelas de terceiro mundo (com os nossas desculpas a quem luta nessa penosa condição civilizacional e cultural). Mas oiçamos ainda a voz de um homem do PSD, com lomga carreira, actual presidente da Câmara de Cascais, António Capucho, ao comentar o processo kafkiano de Passos: «Penso que se podia ter ido mais longe».

sexta-feira, julho 02, 2010

BONS OFÍCIOS DOS MERCADOS LIVRES E CEGOS

ERA PARA COMEÇAR AQUI UMA PROVA
SOBRE A BONDADE DOS MERCADOS LIVRES
E CEGOS DE CONTROLO MAS O
BLOG ENTROU NUM REGIME DE PROIBIÇÃO
DE CARACTERES QUE DESCONHEÇO
E TORNOU IMPOSSÍVEL INTERVIR ASSIM
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recomeço
Parece não haver forma de convencer as transnacionais (monstros já de si impróprios da natureza humana ) de que tais formas de concentrar riqueza, poder de compra, sempre no apetite de abocanhar os outros, são sempre anunciações de derrocadas futuras, a famosa fórmula dos mercados livres, totalmente livres de todas as circulações, incluindo as maiores trocas de dinheiro por patrimónios de grande valor monetário e cultural.
Pois eu ia falar da história (não sei se remota se contemporânea) de um multimilionário que descobre certa empresa de telecomunicações, assaz desenvolvida para o pequeno país em que se implantava. País pobre mas tranquilo. O multimilionário foi junto das autoridades mostrar o seu interesse em comprar aquela companhia. Os governantes do país liliputiano responderam com todo o polimento que não estavam interessados em vender aquele património activo, uma das suas maiores plataformas estratégicas. Mas o homem rico não os largava e foi lançando dinheiro em propostas cada vez maiores sobre a mesa que ele chamava de negociações. Claro que, após dezenas de recusa, e chamados os accionistas umareunião decisória, estes concordaram com a venda. O homem mostrou-se satisfeito e, ao assinar o título e compra, revelou que iria manter todo o passoal, embora acrescentasse alguns seus representantes no Conzselho de administração.
Logo o país se ressentiu de vários formas usadas na avaliação das tabelas, novas compras, a electricidade produzida por uma barragem de valor vital. Claro que uma coisa idêntica a esta alastra avassaladoramente pelo mundo. O menino quer, o próprio menino compra. O nosso multimilionário era um pouco assim. E ainda ameaçou com opas agressivas que pareciam mesmo um filme de ficçao científica, com espiões sonre empresas atacáveis. Mas a história deste pequeno país foi passando por essa guerra surda, virtual, enquanto o multimilionário esplhava gorjetas por todo o lado, eventualmente corruptoras, investindo em fábricas que só ele podia gerir e vender. Tudo isto contaminou o país inteiro, controlando o sistema de ensino, traficando conhecimentos e universidades, abaendo embarcações porque o peixe começava a escassear e havia possibilidades de criar alternativas a partir do estrangeiro. Até a religião (católica, neste caso) ficou em risco: o senhor todo-poderoso queria melhorara assistêmcia espiritual à sociedade e inciou uma operação de compra das igrejas, agrupando noutras as mais pequenas. Tomou conta dos artesanatos, deslocou populações, das grandes propriedades abrículas. Terra Nossa incluia cem importantes herdades, com uma sede milionária na capital. Opas sobre opas, cada vez as pequenas e médias empresas mais fiacavam isoladas, sem verdadeiro financiamento, até porque o país já se endividara, através dos bancos e do exterior, a fim de socorrer os deslocados, embora mitos casos não tivessem implicado isso, nem mesmo a saída dos donos patrimoniais. Os pobres aumentaram, rodeados de novos ricos um pouco por toda a parte.
Este país já não existe enquanto tal. Ficou dominado literalmente por um grande Consórcio nomeado Oceanoportocali. O governo, escolhido entre dois partidos, restos do que havia vinta anos atrás, alterna com aquelas forças, estas sim, vivendo na abastança. Havia uma política dupla e livre quanto aos orçamentos. Os técnicos dessa especialidade viviam a maior parte do ano em ilhas do EStado, embora haja quem diga que faziam por aí a sua economiazinha doméstica. Para lá das furnas da parte virada ao Pacífico, populações caçavam baleias e produziam óleos diversos, coleccionando também, e por outro lado, peles previosas de animais em vias de extinção. Deus, como habitualmente, estava distraído. Mas há uma zona do Universo que parece merecer-Lhe um particular interesse, sobretudo por haver aí um planeta habitado por seres inteligentes e que em pouco mais de 6.000 anos arrasaram mais ecosistemas do que os seus semelhantes ao longo de épocas remotas, há cerca de 40.000 anos. Tudo se vai alterando no planeta e a uma velocidade inquietante: ressurgem vulcões, multiplicam-se tufões e tornados, ventos roçando os 300 quilómetros por hora, terramotos no interior dos oceanos e fora, tsunamis assim desencadeadis que já destruiram cidades inteiras na Ásia e nas Américas, enquanto regiões polares se desfazem e aumantam o nível dos oceanos. O aquecimento da atmosfera leva continentes de gelo para zonas do Atlântico ou Pacífico, comunicando-se numa média aterradora.Este fenómeno tem fortes ligações com indústrias e máquinas dependentes do petróleo, sendo certo, por outro lado, que os países de cota baixa estão quase sempre inundado e a Estações do ano deixaram de fazer-se sentir: um tempo mais ou menos frio a norte e verões de um só mês, calor capaz de matar gente, o mar, mais alto, invadindo e comendo praias inteiras e destruindo grandes estruturas sobretudo dedicadas ao turismo. Nova Orleães, destruída pelo mar e por tornados incontornáveis, nunca mais foi reconstruída e por lá vive gente solitária, empobrecida, corando o ritmo da sua música de outrora e o pitoresco da invenção comunitária.
a propósito desta história, lembrei-me agora do negócio megalómano que estava para se fazer em Portugal. Não sei o que se passa. Mas vão ganhar certamente os mais fortes. Os accionistas defendem-se, com dinheiro, dos tsunamis, não defendem um certo conceito nobre de soberania, porque esse conceito também está em vias de extinção.

segunda-feira, junho 28, 2010

AS TERRAS QUE NOS FALAM DE OUTRAS TERRAS

foto de Manel Armengol

Os cineastas que, desde cedo, procuram sugerir paisagens claramente de outros lugares noutros planetas, a fim de encenarem as cenas do nosso imaginário de encontros fora da terra, voos gravitacionais a planetas próximos ou longínquos da nossa galáxia, depois de uma longa investigação drecta e automática do sistema solar, procuram por vezes lugares como este. É um lugar que parece deserto e impróprio para a vida humana, não passa de uma paisagem, aliás deslumbrante, de certa zona da Islândia. Os trabalhos de produção de um filme naqueles termos exigem deslocações a sítios destes, registos, documentação, correspondências, o menos onerosas possível, relativamente ao projecto e determinadas se quências. Mas o que faz com que outros homens, sem qualquer função criativa, se aventurem a desbravar caminhos para terras assim, a montanhas inenarráveis, perdendo-se ou morrendo, chegando em muitas situações a pontos da Terra onde ninguém mais chegou? Esse é outro mistério: talvez simplesmente o desejode superação de obstáculos que caracteriza o ser humano. Talvez ainda, e por outro lado, a remota memória que há em nós todos de um paraíso, de um lugar fora do planeta, a quietude, a grandeza dos espaços, o anonimato dos seres. Há quem diga que os portugueses estão possuídos deste mal ou desta interior grandeza -- porque se espalharam por todas as terras que lhes evocam terras escondidas dentro de si. O enfrentamento, aliás metódico, dos oceanos pode ser um indício de uma transcendência que só há poucos anos estamos a escavar, através de telescópios colocados em órbita, e que, apontados a certas zonas do Universo, acabam por nos mostrar milhares de fotografias de acontecimentos colossais verificados há milhões de anos luz. A luz chega-nos entretanto de outras terras e já nos falam substancialmente delas. O mistério resta no próprio Universo, para o qual na há hipótese de explicação, nem mesmo pelo embate de partículas circulando no espaço negro. E circulando ou movendo-se porquê, para quê? Um padre disse que falara com Deus a esse respeito, ao que Ele teria respondido: «Não sei nada de Partículas. Isso são invenções do homem»

Ele também, como se sabe.

O MISTÉRIO INIMITÁVEL DOS ESPELHOS

foto de rocha de Sousa

Por vezes as imagens projectadas nos espelhos e reflectidas por eles parecem insinuar que todo aquele regresso da coisa enviada, é impossível, mesmo que virtual, e mais se assemelha a um mistério dos prestigitadores em sala de recreio, algo como se fazia há um século. Os macacos, seres de grande inteligência na escala darwinista, ainda não perceberam, embora já saibam agitar a sua própria imagem para que o seu homónimo o imite de imediato. Mas até isso é inimitável. E há momentos de impaciência, como acontece durante a aprendizagem humana, em que o macaco percebe o limite da imagem, espreitando à direita e à esquerda, passando mesmo para o outro lado do espelho, onde, estranhamente, nenhum irmão seu se encontra. Na guerra colonial, havia soldados que fitavam longamente as fotografias da família, da namorada, deles mesmos. E levavam muito tempo para se reconhecerem, presos de angústia quando o registo da sua imagem pertencia a um tempo recuado e eles eram outros, perdidos numa rua da aldeia ou levando fato de domingo para o alto dos penhascos. Alguns desses homens, mais sombrios e menos capazes de aceder ao sentido intemporal da imagem, isolavam-se na depressão e chagavam a suicidar-se. Aqui não, descansem os espírtos sensíveis: aqui vemos a coisa projectada e a imagem reflectida: são siamesas e não há ninguém que as separe verdadeiramente.

quinta-feira, junho 24, 2010

MANUELA, CONTRA SÓCRATES, DESAFIA JUSTIÇA

Manuela Moura, Guedes contra Sócrates,
desafia, pelo ex-jornal de sexta-feira,
a lentíssima justiça portuguesa

Este jornal da TVI, às sextas feiras à noite, com a apresentação encenada de Manuela Moura Guedes, era de facto truculento. Conheço desde há muito, através da televisão, a figura e a acção desta apresentadora e lembro-me do seu lado algo risonho e gracioso, inclusivamente a cantar numa festa da Estação. Fazia-se, para muitas pessoas, apresentadora de referência. E assim durou até uma súbita passagem do tempo, incidentes da natureza ou da vontade. Quando voltou aos ecrãs da TVI, parecia um pouco estranha, na fisionomia, mas sobretudo na forma de dizer. Não em tudo, com certeza´, mas de certeza no famoso jornal de sexta-feira, à noite, com o tempo todo para ela e um só assunto da política portuguesa: o governo socialista, o desgoverno do país, a inaceitável maneira de decidir do 1º Ministro, as obscuras relações dele com outros, o seu enleio na Freeport, numa licenciatura de «aviário», no desnorte das escolhas e na queda em crise, algo de perturbante, de mistura com o processo da «face oculta», cuja existência era bem antiga e até infligida pelos gastos de Gueterres, um homem brilhante que esteve, contudo, quase a afogar-se no pântano, donde se furtou a tempo e em nome das Grandes Causas. Durão Barroso, que calhou na sequência de poderes, fugiu antes de pronunciar a perigosa palavra pântano. Limitou-se a dizer que o país estava de tanga (ele também) e tratou de lutar para que o fizessem presidente da Comissão Europeia, onde se tem mantido, afrancesado, falando em inglês e metendo o português no bolso. Não era tanto o trabalho de Moura Guedes que feria a nossa sensibilidade, quer apreciássemos ou não José Sócrates: eram os esgares que fazia com todo o rosto, olhando de soslaio, em pausa, para acentuar um sentido pseudo-oculto do que acabara de dizer. Saramago concorreu com ela em questões mais sérias e numa simples entrevista: Deus havia cometido erros grosseiros e o caso de Caim empolgara o escritor de «Levantados do Chão». Devagar, nem sempre a ganhar, ele procurava levar a água ao seu moinho e descobrir que bispos usavam capachinho. O Presidente da Ordem dos Advogados foi questionado, no tal jornal de sexta, pela então já renovadamente famosa, Manuela Moura Guedes. O homem não é de ficar aterrado, fala em rajadas de velocidade apreciável, cala as interrupções vibrantes de Manuela Guedes, e diz coisas que o Pº Ministro nunca lhe disse: «o que a senhora faz não é jornalismo, não tem nenhuma dignidade, esboroa-se em ataques soezes e longe do mínimo respeito deontológico na dignidade dos actos públicos, profissionais, institucionais, com a postura a que devia aspirar». Ponho aspas para sinalizar o muito que esse senhor disse, a reprodução não é à letra, mas o sentido sim, além do muito mais que ele disse. Não houve réplica no outro número, Sócrates desceu ao proscénio, a face oculta, tudo isso mas nem tudo isso, porque os eventuais personagens dessa «Nova Ordem do Mundo» nunca eram citados por inteiro, a horas, em percentagem. Vejamos um pouco desta telenovela:

Sócrates: Acham que aquilo [o jornal sexta] é um telejornal? É um telejornal travestido feito de ódio e perseguição pessoal (...) A liberdade de imprensa quando é utilizada para injuriar está afinal a difamar essa liberdade.

Manurla M. Guedes: Não me senti incomodada por outros governos. (reagindo à pergunta)De alguma forma, mas eles são uns anjinhos, comparados com este Governo. Meu Deus do Céu, verdadeiros anjinhos»

Sócrates: Tenho tomado conhecimento da divulgação pela TVI de uma gravação contendo referências ao meu nome a propósito do caso Freeport e esclareço o seguinte: No que me diz respeito, essas afirmações são completamente falsas, inventadas e injuriosas».

Manuela M. Guedes: Sócrates não cala os jornalistas da TVI com ameaças e críticas. Tentou tirar credibilidade ao jornal mais visto pelos portugueses. Não vai conseguir e vai responder em tribunal.

E assim por diante, sem dizer chega. Sócrates defendeu-se com o direito que lhe cabe quando é objectivamente atacado pelos orgãos da comunicação social. Nem sempre o fará da melhor forma, mas o que lhe compete não é escrever colunas de resposta por tudo quanto e sítio (de má língua). O que me espanta, neste tricot à portuguesa é a volubilidade de tudo, a perda de tempo e de ideias, o lado tendencioso das colunas de jornais, das «colunas» das televisões. Falam em audiências e competitividade: é coisa que não há, porque começa por não haver bem cultural nem competência: como é que se concorre com outros publicando o mesmo que eles (mal) e à mesma hora? Como é que o jornal de sexta queria respeito das pessoas mais sérias se não fazia televisão séria, levantando (sobre os problemas de Sócrates e da Governação) questões de fundo, problematizando métodos, sistemas, relações económicas, concepções sobre o mundo e a globalização, entrevistando (sem medo da régie no último minuto) personalidades bem posicionadas sonre essas questões -- e mesmo sobre alguns comportamentos do 1º Ministro.

Anjinhos, Manuela? Quem são os anjinhos se você não batia as asas, batia os lábios?

sexta-feira, junho 18, 2010

JOSÉ SARAMAGO MORREU HOJE EM LANZAROTE


José Saramago, escritor português, Prémo Nobel da Literatura, morreu hoje em Lanzarote, ilha das Canárias onde decdira fazer lugar da sua ancoragem na altura em que mais se notabilizou. Há quem considere esta escolha uma ambiguidade derivada de algum ressentimento, enquanto outros a relacionavam com a naturalidade da sua mulher, espanhola, Maria José do Pilar, uma companheira que travava a sua batalha por ele, pelos natureza da sua escrita, da sua ficção, dos seus valores ideológicos. Partilhava com ele de uma certa concepção desértica do mundo, ou da incerteza quanto aos caminhos de Deus. Ou talvez me engane, porque estou a escrever em cima do acontecimento e sem fazer consultas que escrevam direito por linhas tortas esta minha quase brumosa sensação acerca daquele amor e de como Saramago se comportava nas nossas ribaltas, com um discurso cuja arquitectura não anunciava nada de salvador para o futuro da Terra e do Homem, duas dimensões que haviam surgido na obra do escritor marcadas pela dor e a par da força e da esperança no limitar de cada luta. Falou-se na resistência às mordaças sistémicas, nessa gente ao mesmo tempo mítica e humaníssima, vozes de uma planície agreste, de um destino de pedra -- os heróis inesquecíveis do livro (talvez o maior) LEVANTADOS DO CHÃO, peça em que o corte dos planos multplicam a memória do realismo na vida de fracturas de cada casa rasa, preço amargo de um sedentarismo abismal, por ali, por caminhos que terminavam entre pedras ou raízes inenarráveis.
Claro que sim, não há razão para menorizar o MEMORIAL DO CONVENTO, um texto que nos lembra a imagística fílmica de uma certa Idade Média fora da História, algo com a elegância e a vontade esforçada como acontece em muitos momentos do filme RUBLIEV, da Tarkovsky. Não porque Saramago se tivesse voltado para esse imaignário, para a litúrgica fundição daquele sino monumental, para outras estranhas vontades, gesta também que reinventa a fundação de Portugal pela refundação a tempo inteiro daquele projecto conventual, veredas carregadas de coisas e pessoas, entre artefactos e segmentos monumentais para estruturas e perder de vista, Blimunda vogando na vaga história do espírito, lenda e poderes de fábula, o balão que se esvazia e se afunda na relva, sustentado pelos risos de quem o navega, e que mais uma vez é parte inesquecível do filme há pouco citado.
Mas José Saramago não foi um Nobel indiscutível nem olhou para nós através do discurso na Academia Sueca, isso que tantos de nós viram e ouviram na face de Camus, em cerimónia igual, quinze minutos de humildade, grandeza de alma e vontade sisifiana de preferir ajudar os homens, seus irmãos, do que salvar-se num encontro com Deus.
Seja como for, a televisão não se esqueceu de nos dizer que Saramago se despediu do real de forma tranquila e serena, frase que traduz um epitáfio sem mancha.

Lanzarote depois do Nobel pode ser a
grande metáfora para depois de Caim

o símbolo carpinteirado e acre de um lugar

terça-feira, junho 15, 2010

ESCREVERAM NO PAPEL: ONDE VAMOS MORAR?

Graça Lobo

Usando as próprias palavras com que os ARTISTAS UNIDOS falam do espectáculo que baseiam em Beckett/Joyce, eis um espaço de fascínio e muitas imagens entretanto perdidas para a mordaça do consumo:

As palavras inconfundíveis de dois dos maiores escritores do século XX através de cartas, excertos, do monólogo de Molly Bloom ao monólogo de Lucky, uma visita demorada a dois dos grandes mistérios da literatura.

Com Gaça Lobo, Virgílio Castelo e Jorge Silva Melo; tradução de Miguel Esteves Cardoso, José Maria Vieira Menes, Jaime Salazar Sampaio.

integrado no Festival do Silêmcio, Instituto Franco-Português, quarta,16, 21,30, entrada livre

sexta-feira, maio 28, 2010

A CASA GRANDE E OS LAMENTOS DE OUTRORA

lembrança para Iria Jawaa

Terra longe na distância do Quevec.
E os passos outrora quentes,
quase brancas as manhãs, brancas as casas,
colmo de abrigo e de repente as asas,
inteiras, ligeiras em frente
e por força do mundo em redor,
já rodando, redondo, no rosto da gente.

Oiçamos os velhos sábios de outrora.
Vozes começando devagar.
Resmungações dos animais, demais,
pateando o caminho de terra e capim,
uma porta, a primeira, rangendo sim,
preguiçando nos gonzos sem folga
ou abrindo céus ainda brandos de cinza
apesar da mornidão adivinhada
na brisa já lavada,
insectos de trajectos em volta,
também cruzados, zumbindo,
distâncias se calhar de outro calcular.

Bem logo passos inivisíveis a lavrar
os fios todos sinuosamente
como certos rios,
grandes, grandes mas sem navios.
Ficam aqui e além os camponeses em brios
por vezes em passos largos decididamente sim
a par das vozes renovadas
e cada vez mais além e assim.

Cheira a homens e a bichos.
Cheira a terra e a flores.
Abrem-se os olhos cismando amores,
tudo certo no excesso de tudo,
o morro mais alto escolhido no gesto mudo,
magia, geometria,
seria nele erguida a Casa Grande.
Assim se fizeram as paredes de massa elementar,
paus atravessados, zonas de adobe,
e os quartos de chão revestido,
e as salas de cozinhar e de comer,
colmo por cima, as madeiras aqui,
os tapetes além,
a bela crueza de tudo
e as faces pálidas dos avôs,
dos bisavôs, ali se fizera um mundo,
todos juntos na regra e na matriz
do sonho profundo.

Nesse tempo lembrado em agonia, a lenda
era dividida em histórias para contar à noite,
lus de fogo, suspensa, misteriosa, como na tenda,
outros, pois sim, zelando pela paz em turnos,
cada olho no fundo da noite,
no perfil da mata,
enquanto os ouvidos escolhiam rumores,
destrançando acasos e sinais.

Ainda ninguém sabia que esse modelo de vida
estava a ser esmagado a qui e além, em ferida,
requiem que os cânticos e as danças
ainda se refaziam contra o medo
e contra as lanças.

sábado, maio 15, 2010

VERDADEIRA REFERÊNCIA DE UMA GERAÇÃO

Professor José Saldanha Sanches

Morreu ontem, aos 66 anos, este homem que tantas vezes nos vistou pela televisão, soltando a sua palavra lúcida e o seu comunicativo modo de estar. Rui Cardoso escreve, no Expresso de hoje, que Saldanha Sanches foi referência de uma geração da Academia de Lisboa - «no tempo dos livros proibidos e filmes censurados, da negação dos mais elementares direitos de cidadania». Do alto da escadaria da Faculdade de Direito, a suz voz fez despertar consciências e arrebatou multidões. Sanches era, segundo Fernando Rosas, um orador brilhante, tão capaz de explicar e mobilizar, como de destruir os argumentos adversários com uma retórica demolidora.»
Corajoso e convicto, era dos poucos que não fugia quando a polícia carregava ou quando a PIDE fazia emboscadas. Por isso esteve várias vezes preso. O 25 de Abril abriu-lhe as portas de Caxias. Depois dessa data, juntamente com a sua mulher, Maria José Morgado, foi um dos primeiros a demarcar-se dos delírios esquerdistas e das políticas radicais.
O «Expresso» publica hoje a sua última crónica, ditada na cama do hospital, texto de que se publica aqui, como homenagem esclaredora, um pequeno excerto:
«Além das vassalagens, não podemos esquecer os outros papa-reformas, profissionais da acumulação de reformas públicas, semipúblicas e semiprivadas. Basta ver o caso do Banco de Portugal, ou outros menos imorais, que permitem a uma série de cidadãos -- gente séria, acima de qualquer suspeita -- alimentar-se vorazmente, em acumulações de pensões, com reformas e complementos, começando a recebê-los em tenra idade. Muitas vezes até com carreiras contributivas virtuais, sem trabalho e beneficiando de promoções (dizem que para isto são muito boas a Emissora Nacional/RTP e a Carris). Tudo isto, como sempre, é feito ao abrigo da lei. É que isso dos crimes contra a lei é para os sucateiros. O problema é que a lei que dá é refém dos beneficiários que tiram e da sua ética».
Fiscalista
Passará na televisão um pungente documentário em que Saldanha Sanches, entrevistado por Mário Crespo, revisita a prisão em que esteve preso e as memórias de um quotidiano sem sentido.

terça-feira, maio 11, 2010

PORTUGAL DE JOELHOS: CHEGOU BENTO XVI

Papa Bento XVI
Século XXI

Chegou o Papa Bento XVI. Vem em visita pastoral, dizer missa no Terreiro do Paço, viajar para Fátima, contemplar o Porto. Isto espanta. Porque de manhã visitou os Jerónimos, rezou durante dez segundos e voltou à vida social que o rodeava. Comeu frugalmente, segundo dizem. Mas o luxo das liturgias e dos altares construídos de propósito só para uma missa, um aceno, a benção capaz de salpicar um milhão de pessoas em Fátima. Ou no Porto. Que significa isto no século XX. A Igreja não muda de modelo nem peda a ajuda de um designer da ruptura. Quantos Papamóveis existirão no mundo. Porque é que o Santo Padre não visita uma aldeia nordestina apoiado num animal em vias de extinção, um animal humilde e amigo como o burro. Nunca mais se esqueceria esse pontificado. Estas visitas imperiais esquecem-se umas às outras. José R. Almeida, na revista Notícia, escreveu assim, sob o título Mafia e Vaticano: «O celibato tornou-se obrigatório no clero católico a partir de 1537, no papado de Gregório VII. De acordo com a lei canónica, o voto de celibato é quebrado quando o padre se casa, mas não necesariamente quando este tem relações sexuais ocasionais. Haverá, então, que alterar a lei canónica e metê-la na lei civil para que não haja trânsfugas pedófilos nas dioceses dos EUA, Irlanda e agora Alemanha, Holanda, etc. O bispo holandês John Magee encobriu actos homosexuais e pedófilos, mas com este currículo foi secretário pessoal de três papas: Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II. O Vaticano, quando slecciona os seus secretários, não sabe dos seus currículos? O actual papa, Bento XVI, não soube dos crimes preticado pelo padre Lawrence Murfhy, que terá abusado de duzentas crianças surdas (New York Times)? E diz o nosso cardial José Saraiva Martins que "não se lava roupa suja em público!" O Vaticano está a viver nula aldeia global pedófila e quer convocar um sínodo. Que o convoque e com urgância! Tudo isto é fastidioso e velho. Venha o padre Fontes para papa e as mulheres para bispos! E assim seja. Amém.»

Transcrevi um texto que não escreveria (se calhar escreveria bem mais duramente e fazendo outras perguntas, além das citadas) mas o testemunho revela um estado de espírito que não parece tolerar mais do mesmo, entre manchas oleosas num pântano a apoderecer. Fica aqui a ideia da mudança destas malogradas repetições imperialistas de um cerimonial que já não deveria ser o da Igreja Católica, deixando, enfim, cair o Romana.

quarta-feira, abril 28, 2010

AGÊNCIAS DE NOTAÇÃO FINANCEIRA OU DEUS

imagem do parlamento da Ucrânia


ministro português Teixaira dos Santos
Cada dia que passa e cada jornal que leio rasgam fogueiras nas noites do meu psiquismo. A Rússia quer mais quarenta e oito anos de estacionamento da sua frota de guerra na Crimeia. No parlamento da Ucrânia, essa força aceite pelos deputados pró-russos teve a oposição violenta dos deputados da oposição pró-ocidental. A imagem mostra um mínimo instante da batalha com chuva de ovos, socos e puxões de cabelos.
Poderão dizer-me: em Portugal isto não acontece. Eu acho que acontece, mas por meios menos transparentes, quer escudados em obtusas comissões de inquérito, por dá cá aquela palha, quer alargados a raivas incontidas contra o governo, entre teorias da conspiração e desentendimentos bravios de tudo o que dizem os partidos, uns contra os outros, alguns em campanhas de zelo contra todos os magalhães do mundo, sócrates da eternidade, ferreiras de mandatos obstinados de cinco meses, atrasando o trânsito e navegando em contra-mão. Ninguém quer falar da crise numa perspectiva global, no quadro de uma catástrofe gerada pelos donos do mundo, do capital que escondem e mostram em breves inserts para derrubar bolsas, moedas, comunidades. Tais forças, perante as quais nennhum Sócrates nem nenhum Passos podem seja o que for, já não se bastam com os seus monopólios e grandes grupos de pilhagem: têm agora diversas correias de transmissão, que põem e dispõem, sem que nenhum tribunal da decência os salpique de ácido.
Foi assim, mais uma vez, com Portugal: suas Excelências da agência de notação financeira Standart & Poo'rs (S&P) cortou o rating da dívida da República Portuguesa, passando dos anteriores A+ para A-, um corte de dois níveis de que não há memória no mercado português. O outlook permanece «negativo».
Estas palavras são citadas de um artigo de Paula Cordeiro, no «Diário de Notícias» de hoje. Toda a lógica de fundo da União Europeia começa a ser posta em causa, ou por ela mesma ou por forças colossais que espreitam a falência dos Estados sociais, abrindo veredas e túneis a fim de desmoronarem governos, países, centenas e centenas de anos de diversos patrimónios nacionais.
Tudo está sendo embrulhado em muretes e muralhas e entidades surgidas não se sabe de onde, comandadas não se entende como, com tabelas em computador, analisando estatíscas ou informações obtidas a distância. Portugal não tem que ser metido na alhada europeia toda ou noutras alhadas a Ocidente e a Oriente. E digo isto porque as leis tratadistas em que nos embrulham superam o que foi negociado em Lisboa, sendo as assimetrias na Europa cada fez mais despudoradas, desde as longínquas calibragens de frutos, orientações exteriores à memória histórica e cultural do país, abate de grande parte da frota de pesca, da agricultura que nem sequer bolia com a francesa, tudo assim, ensarilhado em orgãos majestáticos de enorme luxúria de meios e pouco entendimento das periferias, das populações ou dos ventos que sopram colonialmente sobre as nossas pobres imitações de cosmopolitismo, ideia decadente em si mesma.
A Grécia foi (com graves faltas dela) o vértice de um vórtice com o qual Alguém quer devastar o euro, as agências feitas de homens que nenhum de nós conhece e que nunca debaterem nada com o mundo, nos grandes plenários que a tecnologia permite. Não ouvi mais falar numa nova estrutura coordenadora e fiscalizadora do sistema bancário nem me parece que as tais agências tenham uma concorrente europeia digna de crédito real e mediático. Assim, os interesses dos grandes Estados são motores de crises sobre crises, a luta de mercados inúteis, de moedas patéticas, de redes para o tráfico de influências, promiscuidades várias, corrupção e deuses inacreditavelmente vivos e livres nos seus grotescos pés de barro.
«É tempo (disse Teixeita dos Santos) de o Governo e os partidos, em especial o PSD, se entenderem quanto a isto (medidas necessárias). É preciso focar a atenção no que é e deve ser prioritário para o País, pois as dificuldades ainda não acabaram. O país está a atravessar um momento decisivo (...) e tem de saber responder a este ataque dos mercados»

quinta-feira, abril 15, 2010

AS CITAÇÕES DITADAS AO NOSSO QUOTIDIANO



de PLUMA CAPRICHOSA
Clara Ferreira Alves



ÚNICA









Na sua crónica
Somos um pequeno e desgraçado país
temos uma elite sofrível e uma classe política sem cultura política nem histórica

Sai-se da pátria e regressa-se à pátria e as notícias são as mesmas; é como se o mundo girasse e nós parados. à espera do apocalipse. Tudos nos diz que amanhã será pior e toda a gente nos pede mais sacrifícios, mais penúria e mais infelicidade. É impossível levantar um país de vencidos ou convencê-lo a fazer alguma coisa por si. Leio as notícias sobre o extraordinário salário de António Mexia, da EDP, os 3,1 milhões anuais, e penso o que pensa uma pessoa normal: não vale a pena. Os velhos morrem de frio no Inverno porque não têm dinheiro para pagar «a luz» e o senhor eneria tem um salário igual ao dos melhores 200 gestores americanos. Numa empresa falsamente privatizada que floresce num regime de monopólio e em que o Estado é o maior accionista. E aquilo é o salário, fora os benefícios e os cartões. Fora as reformas e as pensões. A permanente resignação perante a imoralidade é que nos torna passivos, fracos, assustados, irresolutos e cúmplices da delapidação do nosso dinheiro. E um governo socialista autorizou isto e promoveu isto. E pior do que isto. Não se trata de premiar o mérito, trata-se de premiar a estupidez. Porque deixamos isto passar.
(...)
Em Portugal, deixámos de ter símbolos e não temos modelos. O português mais influente é um jogador de futebol. O segundo mais influente é um treinador de futebol. E ponto final. Temos uma elite sofrível e uma classe política sem cultura política nem histórica, ludibriada por autodidactas ou por rapazes com cursos tirados no estrangeiro e que chegam a Portugal com um objectivo: enriquecer. Enriquecer à sombra do partido, do padrinho na banca e do Estado. De nós. E a justiça trata de si e dos seus privilégios. Somos um pequeno e desgraçado país.

quarta-feira, abril 14, 2010

AS CITAÇÕES DITADAS AO NOSSO QUOTIDIANO



de A ESPUMA DAS COISAS
António Mega Ferreira

Notícia







Este espectáculo de encenação de um pseudomartírio pela liberdade atingiu o auge com o desfile de «pressionados» e «pressionantes» a que a Comissão de Ética da Assembleia da República deu guarida, palco e tempo de antena, nas últimas semanas. Não posso deixar de notar, como cidadão, que, enquanto se tratavam questões de imperioso interesse nacional como o Orçamento e o PREC, ou as eleições para a liderança do principal partido de oposição, as páginas dos jornais e os noticiários de televisão foram servindo de câmara de eco a um cortejo de lamúrias, indiscrições, meias-verdades e delações que, à hora a que escrevo esta crónica, já tinham chegado a Morais Sarmento (que foi ministro de Durão Barroso) e a António Costa, que não está no governo há três anos. Francisco Balsemão, que, além de empresário, sempre foi jornalista, encarregou-se de relativizar estas «pressões», ele que, tendo sido primeiro-ministro, deve saber bem do que fala. Mas, para lá da reverência da praxe, ninguém lhe prestou atenção.
Há clara desproporção, parece-me, entre o alarido e a matéria de facto: por enquanto, do alegado plano governamental para o controlo dos media só há a convicção não fundamentada de três ou quatro jornalistas e não-jornalistas, expressa por vezes em termos histriónicos e despropositados, infelizmente tolerados pelo presidente da comissão. Tudo, claro está, ouvido da boca de terceiros, porque ninguém falou de «pressões» directas, o que deixa bem claro que as mesmas nunca existiram. O momento mais hilariante foi o da mirabolante «revelação» de que o primeiro-ministro teria telefonado ao Rei de Espanha para lhe pedir que intercedesse para o afastamento de uma apresentadora de telejornal de um canal privado... Que ego, senhores, que ego!

terça-feira, abril 13, 2010

AS SUAVES SESSÕES DA JÚLIA DOS ESPÍRITOS


Meus aigos, esta é a imagem digital do protoplasma da Júlia, distinta apresentadora de televisão e que ultimamente nos tem presenteado com sessões finíssimas da mais transcendente estrada de comunicação entre a nossa palpável e medíocre dimensão de humanos com o espaço onde se deslocam, invisíveis quase sempre, os perespíritos e os espíritos que nos são próximos ou distantes, a maior parte dos quais parecem divagar (cómoda ou incomodamente) pelos lugares da sua vida carnal, pelos sítios onde se deslocam os seus parentes queridos. Júlia dos Espíritos acompanha uma medium inglesa, soft e certeira, claramente ao vivo, todos ao vivo e no meio da maior das claridades. Como se vê, trata-se de uma espécie de laboratório nada semelhante às difusas e sonurizadas sessões dos tradicionais espiritas. Aqui pode haver gente como o Rui de Carvalho, leve, sério e confirmativo. E outra gente com a mesma placidez bonita, sem ansiedades, nem dores, nem esquizofrenias. São todos e todas como maçãs maduras, limpas e sem bichos.
Júlia Pinheiro (dos Espíritos) diz à senhora (inglesa) para começar. E ela, de pé, sem formalidades, com voz natural, aponta para um dos circunstantes: «Este, por exemplo». E Júlia diz que vamos começar e que ela será intérprete das falas da senhor vidente. Parece uma representação lindamente estudada em casa, tão bem, tão bem, que a própria apresentadora, conhecida por ser esganiçada até ao cansaço dos ouvintes, sucumbe ao milagre de falar em tom natural, na mais fluente e doce das traduções. «Aquele senhor tem uma figura de mulher junto ao seu ombro. Usa um chapéi de palinha, é branca, usa um belíssimo vestido de verão. Ela diz que continua a amá-lo muito, mas revela-se perturbada ao lembrar o filho que perderam num horrível desastre. O homem leva a mão aos olhos, também perturbado, mas recompõe-se depressa». «Que pode dizer-nos sobre isto?», pergunta a Júlia do Espíritos. Ele diz que sim, que é verdade, o filho morreu há um ano, num desastre de mota, dois anos depois do falecimento da mãe, ainda jovem.
Esta é uma narrativa possível do que acontece naquele programa. Se fosse possível ter esta internet dos mortos, com um motor de busca bem superior ao Google, um mundo já tinha dado uma volta muito grande, transfigurando-se em muitos aspectos. E teria sido prestado um serviço inestimável às religiões, incluindos aquelas que acenam céus palpáveis, capazes de convencerem o mais empedernido dos homens a se suicidarem, fazendo-se explodir com bombas, assim combatendo o inimigo na Terra e catapultando-se para lugares paradisíacos, onde o amor tem novas cores.
Esta total e grosseira falta de respeito pelos que estudam a eventual sobrevivência da alma, ou se ela existe e como, com que propriedades, porquê e para quê, é conenável. Um travestimento desta natureza, sem que ninguém se indigne, não pode passar por entretenimento: é um jogo preparado para criar expectativas palpitantes nos crentes, algo «dizível» daqueles dois mundos. Mas eu não sei se o jogo se chama embuste, ou outra coisa pior, e não percebo como se mantém em emissão, com a maior naturalidade, um tão grave atentado à nossa inteligência e condição humana. Ou será que só a política, rasteira, de idêntico nível, é aconselhada à moderação ou mesmo a sair de campo? Perguntem à Manuela Moura Guedes se quer participar no programa da Júlia dos Espíritos. Não sei se ela arrasta maus ou bons espíritos, mas repetirá sem papas na língua o que lhe comunicarem do Além, doa a quem doer. Júlia, isso não é deontologicamente aceitável, nem com falinhas mansas.

sexta-feira, abril 02, 2010

PORTUGAL E O TRÁFICO DE SUBMARINOS AO SOL

Portugal, rosto da Europa que se fez ao mar com pouca gente e muita vontade de desbravar mundos, mandou degredados para Angola e escravos para o Brasil, onde ajudou a criação de um esplendoroso país, apesar das suas assimetrias e a deslocação temporária da corte para lá, abarrotando os barcos de quinquilharias, brasões e muitos condes. Por lá edificou o milagre de Manaus, ópera, simulação cosmopolita, intrigas gostosas, enquanto pela selva os sequestrados da borracha produziam riqueza para os outros, entre as zonas do café, cacau, e outras riquezas fabulosas até ao petróleo de hoje e a violência e os sem-terra e as favelas impenetráveis.
Por cá tudo foi definhando, mesmo durante a dura vigilância do regime de Salazar e os tarrafais todos, diversos, implantados longe e perto, bem disfarçados pelo império inteiro. Cristine Garnier falou com legendagem desse homem que um dia foi traído por Deus e caíu de uma cadeira. Estávamos em guerra, catorze anos em três frentes, com todos os orçamentos possíveis e fértil terreno para traficar benefícios, entre construções logísticas, ementas erradas e ferros e géneros comprados com luvas.
Hoje, em plena crise económica e financeira, face dilacerada de um capitalismo global que quer crescer até rebentar, e já rebenta e já encalha em dólares e euros, incapaz de pensar o planeta e os erros da obesidade da teoria e da prática, destruidora, que abrirá em breve os braços a milhões e milhões de formigueiros imparáveis, da China, da Índia, da Ásia em geral. A Europa, entretanto, sobrevive numa lógica de mercado e de colagem de países entre si, pequenos e pobres, grandes e ricos, sob a orientação de tratados que não unem coisa nenhuma nem apontam para um verdadeiro espaço de coesão, de respeito mútuo, de partilha devidamente regulada. Aquilo a que se chama União Europeia é o que resta da civilização ocidental, de muitas mordomias e serviços sociais apreciáveis, entre profundas rupturas da colonização mercantilista americana.
Portugal, que olha cegamente para a sua enorme zona marítima, onde se podem engendrar riquezas enormes, de sobrevivência digna, deixou que lhe roubassem normativamente a sua frota pesqueira e da marinnha mercante, icluindo a rectaguarda dos grandes estaleiros. Passara o 25 de Abril e os três DDD, houvera muita desarrumação e algumas conquistas, aproximámo-nos da democracia. Mas acabavam indústrias, reajustavam-se poderes, os partidos políticos competiam, em fé e batota de meios, como os clubes de futebol.
Caíram as torres gémeas, na América, aviso dantesco do que pode aproximar-se dos nossos egoismos e dos nossos devaneios bem pensantes. A própria América sentiu o abalo e apanhou uma virose de corrupção que fez entrar em falência um grande banco, a crise alastrando como a peste, um vento devastador chegando à velha e senhorial Europa. Portugal andava enredado em monstruosas intrigas, lutas de alecrim e manjerona, aumento da corrupção, luta pelo poder, comissões de inquérito para tudo e para nada, castrando a actividade do governo relativamente a todas as coisas decisivas e às outras, as de campanário, por causa de mentiras, de luvas encobertas, de amigos indevidos do primeiro ministro, derrocadas sobre derrocadas, esforços ignorados pela comunicação social, papel a sobreviver sobre um mar de boatos. E por fim, quando abrandava o fluxo criativo das atoardas e dos barões falantes, era preciso descobrir mais cobre para transmitir novas descodificações. E aí estão os submarinos encomendados por Paulo Portas, que acreditou na argumentação dos militares, e nas irregularidades, nos tráficos de influência, milhões de euros de luvas, mais do que ganham (por nada) os nossos governadores de
geraçlão espontânea. A Alemanha não brinca em serviço (viu-se desde há muito) e já prendeu alguns prevaricadores, tratando do resto, Portugal sacudido, não tanto pela verdade e pelo julgamento de vários crimes, antes debicando audições tontas, de costas voltadas para as verdadeiras necessidades de cooperação, deslizando para o fundo do mar: Paulo Portas vai lembrar-se das «investigações» do Indepentente e outra gente combinará a aceder aos paraísos do dinheiro, até porque, um dia, esta terra crestada acarinhará os submarinos sem gasóleo. Restará um moinho de vento, comprado na candonga, para alumiar os sobreviventes.

fotos da imprensa, Expresso

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