segunda-feira, novembro 01, 2010

O BELO ENGANO EM MISTÉRIOS DE LISBOA

um filme sobre um romance não é a narrativa
integral dessa obra literária

Para ver cinema hoje, em Portugal e em português, é preciso fazer um seguro contra todos os percalços, surdez, publicidade, claustrofobia, além de ganhar um elevado sentido de precaução acerca do que os críticos ou colunistas de circunstância dizem das obras (nacionais) tão pouco distribuídas, sequestradas pelos monopólios da respectiva indústria de comprar para reter e censurar. Alguns filmes de autores portugueses, sem contar com Manuel de Oliveira, «emigram» logo que nascem, vendidos ao estrangeiro e mercantilizados através de prémios, pequenos prémios e citações autenticadas das agências internacionais. Quanto à opinião dos nossos opinidadores, tal é a sua vanidade contraditória, deve ser comparada com a obra de António Areal, «Dramática História de um Ovo» estrelado. A partir das duas estrelas, comecemos a desconfiar, a fritura pode estar contaminada pelos francesismos de outrora. No caso das duas estrelas, devemos pedir estudos de opinião a verdadeiros conhecedores, obscuros cidadãos que ainda gostam de Ucello e veneram Tarkoski ou Orson Wells. Mas tais criaturas são referências obsoletas, dirão outras criaturas que bebem Coca-cola. O pior é que, tanto no cinema como na literatura ou na pintura, não podemos alienar esses exemplos. Ninguém se lembra de riscar a azul Tolstoi nem de retirar da história do cinema um Eisenstein. Depois é preciso saber que o cinema é uma arte autónoma e capaz das mais completas sínteses pelos meios que opera: da luz à cor, do claro-escuro à profundidade de campo, do movimento ao ritmo e à cadência quase quotidiana da urdidura a que se chama montagem, do ponto de vista em termos de percepção ao ponto de vista enquanto conceito sobre o visível, entre evidências e significativas obscuridades, tudo isso, aliás, em apresentação do espaço e do tempo, sob sonoridades do real, na voz e nos murmúrios, na tradução de ventos ou brisas, por vezes acelerando as emoções produzidas com o adequado recurso à música, sem esquecer que muitas vezes reiventa a pintura, a fotografia, as dores e as alegrias das mais empenhadas captações das guernicas eternizadas pela história, viagem dos povos, carnificinas e outras temáticas do mundo e da vida, a espera juvenil de um amor ou essa «luz de inverno» que antecede a morte.

Vejamos o belo engano do filme «Mistérios de Lisboa», obra em dois grandos actos, homóloga daquele livro de Camilo Castelo Branco e realizada faustosamente por Raoul Ruiz. Pode ler-se Camilo como se viajássemos por um folhetim do século XIX, embora o escritor tenha a potencialidade de abertura à palavra e se empenhe na criação de atmosferas que o tempo absorvia como nas antecipações das dores românticas impossíveis. Manuel Halpern, no JL, chama a nossa atenção, a propósito daquele filme, para as «novelas publicadas em jornais, cheias de intrigas, histórias de faca e alguidar, escândalos, paixões assolapadas, crimes e tragédias», traçando pouco depois uma ligação de modo/moda à obra «Mistérios de Paris», de Eugene Sue, e voltando a Raoul, importante realizador europeu de origem chilena, cuja carreira tem melhores recortes e profundidade. Em todo o caso, saudando o esforço do produtor Paulo Branco, Halpern aponta ( e é consistente no que diz) que «nunca se viu nada assim no cinema português. Uma irrepreensível reconstituição de época com 266 minutos, uma notável competência técnica, um elenco extenso, um guarda-roupa apurado, um grande realizador estrangeiro.» Infelizmente, a grandeza física do filme não basta para resolver o problema apontado por Raoul: o livro parece quase lido na íntegra, pedra sobre pedra, e o filme desgasta-se quanto mais o tenta. A primeira parte seria fácil de finalizar e teria uma coerência formal quase completa. Na segundo parte, e é bom dizê-lo, a linha formal altera-se, a ideia de folhetim dilata-se, o medonho comprimento de cada coisa descrita e redita pela imagem, tudo falado em francês (aliás bem) não passa afinal de um outro filme, aceno ao mercado internacional e porventura a tentativa de premiar os altos favores da produção. Há certas áreas de mais incisiva qualidade: a excelente fotografia, acenando à pintura e ao profundo sentido dos espaços naturais ou arquitectónicos, tratada através de uma luz lendária, de um efeito de distância, acolhendo de forma notória a composição dos elementos do plano, personagens, adereços, sombra/luz, legibilidade.

A regência dos planos é um dos mais brilhantes aspectos da realização da obra: a câmara é um dos fortes factores da realização conceptual do filme, ela inventa prodigiosos olhares de grande amplitude de concentração, abarcando sinais determinantes sobre o que vai acontecer; começa a rodar circularmente em travelling e circunda a cena e as falas, permitindo desvendamentos invulgares do próprio significado romanesco, tanto do lugar como do clima intimista de certas retomas. E tudo continua a resolver-se dessa forma, não bem por panorâmicas, mas quase sempre por travellings -- em frente, atrás, para cima e na perpendicular, entre contrapontos dos planos picados, cuja zona próxima se povoa de entidades ou presenças objectuais desfocadas, através das quais se descortinam (em pleno foco) coisas e certa gente. Tudo isto segundo uma geometria clássica, dentro de alguma virtude renascentista, ou ligada aos roteiros em espiral, de expressão frondosa mas contida. Este método de encenação entre planos, cenas, sequências, incluindo a colagem, o ir e vir de quem vê e significa, passa por um constante distaciamento quanto aos quadros vivos do que está acontecendo, chega ao plano médio e fixa-se, nunca chega verdadeiramente ao enquadramento muito aproximado de coisas e sobretudo rostos. O espectador é assim conduzido a fluir sempre, mas como quem espreita diversas cenas, nas quais figuram pessoas que nunca consegue conhecer verdadeiramente. É um critério em ordem à homogeneidade, não uma virtude, em especial quando a dor transforma a alma e a face de gente suspensa do destino.

O som: a banda sonora referente à música acompanha, por vezes como nos momentos do grande cinema, a maior parte de tudo o que é preciso fazer pulsar, novamente em murmúrio, outra vez carregando a densidade dos próprios movimentos de câmara. Muitas cenas passadas nos salões da aristocracia emplumada e fútil, beneficiando (ou não) do olho sempre a circular, espectador voyant, que acompanha o que de facto ganha visbilidade, tudo parece acontecer no silêncio em redor, além dos poucos que falam, explíctos de intriga e devaneio: o tal silêncio em redor é cumplíce do «segredo», sublinha o «mistério», facto relevante da forma escolhida por Ruiz e que talvez falhe frequentemente pelo não tratamento do meio tom contra um rumor indistindo na sala.

Actores: é um caso particularmente interessante, não porque tudo esteja bem entrosado em correntes de frases ou falas, mas porque as marcas das personagens, no plano representativo da fala, dependem de uma identidade que parece inalterável, de uma pronúncia quase a roçar a voz branca. Porque tudo acontece além e não aqui, perto de nós, naturalmente. Se os personagens sofrem mutações de enredo, em termos de redenção, digamos assim, isso é história trabalhada a meio do corredor ou junto a porta inacessível de um salão, sob o peso grave de altas pinturas murais. São opções que têm um sentido formal e estético, uma significação própria, tudo apurado com extrema competência. Mas se a competência exceder o lado plausível de um sorriso ou de um rosto em lágrimas, a questão pode dar que pensar. E no belo filme de Ruiz dá, com toda a certeza, nem sempre numa roda de consensos. Seja como for, notável é o trabalho de Adriano Luz (padre Dinis no filme). Os actores acertam na meia tinta da atmosfera descarregada à sua volta, deslizam numa obediência ao mesmo fado que também trabalha a metamorfose, o dos personagens que se refazem em diferentes fatos/factos, tendo por isso o encargo mais difícil, uma estranha riqueza interior, um lado de inverosimilhança que teria sido bom ter sido mais espreitado em toda a obra, mesmo correndo ao lado ou para além de Camilo.

Off: o recurso à voz off era quase inevitável numa opção destas. E não é bom nem acontece para bem do filme, embora possa recobrir a narrativa de tanto caso. Esta solução, assaz muitas vezes a arranhar o pefil das coisas e das pessoas, poderá ser útil ao folhetim, não é com certeza tão harmónica como o entendimento da sonoridade musical da paisagem.

Segunda parte: é um delírio de estradas coladas umas às outras, bem desenhado na sua própria monotonia, encostado a uma câmara menos versátil e todo oferecido a algum mecenas francês. São actores portuguseses, com excepções curtas, que se encarregam (bem) deste fardo que acrescenta desnecessariamente mais duas horas e meia às duas da primeira parte. Não me apetece comentar. Gostava de ver Raoul Ruiz, com tão pouco dinheiro como Fernando Lopes, inventar um filme a partir da obra literária «Uma Abela na Chuva».

Adriano Luz e Maria João Bastos



Actores belíssimos que as telenovelas devoram e os filmes «para toda a gente» compromete. Haverá ainda vida que nos possa legar um cinema português sem os vícios da indústria e dos pecados de vassalagem à ignorância, aos devaneios cosmopolitas da criação redutora?

sábado, outubro 16, 2010

OS HOMENS QUE DISPENSARAM SER HERÓIS

Miguel Sousa Tavares

No Expresso de hoje, 16 de Outubro, Miguel Sousa Tavares escreve sobre os resgatados mineiros do Chile:

«O Chile deu uma lição ao mundo e soube aproveitá-la, com planeamento e sabedoria. Durante 24 horas, milhões de pessoas, da China à Patagónia, tornaram-se fisicamente familiares daquele quarteto que, mais ainda do que os mineiros, ocupou a boca de cena o tempo todo: o Presidente Sebastián Piñera e a sua primeira dama, o cinematográfico ministro das Minas, uma espécie de António Mendonça austral, e a já-não-muito-jovem loira das relações públicas (...) Piñera aproveitou cada minuto de transmissão para efeitos de propaganda interna e externa. Ignorou ostensivamente o contributo da NASA para a construção da Fénix e não só, o papel determinante do americano chamado à pressa do Afeganistão para manobrar a perfuradora que chegou ao abrigo (...)
Nada, porém, teria funcionado se não fosse a extraordinária lição dada pelos mineiros, eles próprios. Dezassete dias sem comunicação com o exterior, sem poder dizer que estavam vivos, sem saber se os procuravam ainda e racionando a comida que dava apenas para dois dias. Um líder assumido desde o início, um chefe de turno que, não só não fugiu às responsabilidades, como se impôs para assumi-las. E uma capacidade de resistência, uma vontade e determinação exemplarmente patentes no texto da mensagem enviada para cima, ao fim de dezassete dias, agrafada à sonda que, enfim, os descobriu: "1. estamos todos bem no refúgio. 2. somos 33". Repare-se: nenhum apelo desesperado ("salvem-nos"), nenhuma queixa inútil ("não temos comida, as condições são terríveis"), nada. Apenas o que interessava saber cá em cima. A partir daí, esperaram, confiaram, prepararam-se para a hora do resgate e fizeram questão de sair barbeados, limpos, calmos, dignos: nada de sair como mártires, sujos, miseráveis, a apelar ao sentimento e à desgraça. Essa foi a grande lição: os grandes momentos exigem grandes homens»

ARTE COMO ESTATUTO SOCIAL E VERTIGEM

Leonor Nazaré

Num recente programa de televisão dedicado à situação do ensino artístico em Portugal, com a colaboração da Sociedade Nacional de Belas Artes e algumas personalidades do contexto,ouvimos coisas bem interessantes e a confirmação de que os governos que nos governam têm vindo a contrair a presença da Educação Visual, as bases do ensino artístico até ao 12º ano, bem como o valor formativo, em termos gerais pluridisciplinares.
Falando com os críticos e curadores, a coordenadora do programa, entrevistou brevemente Leonor Nazaré, do CAM, e por ela ficámos também informados de que o peso das instituições de prestígio, Gulbenkian, Culturgest, Serralves, é determinante para o sucesso de muitos artistas mais ou menos dotados. Os jovens sim, porque já não se praticam actualizações sobre o que estão a fazer os mais velhos (dotados de obra séria), e nenhum artista hoje pode dar-se ao luxo de não tratar, com os meios inerentes ao meio, do seu próprio marketing. Mais: as instituições vocacionadas para o serviço público, como as que citámos, têm todo o direito de enveredar por uma tendência, estudando-a e propondo-a com prioridade cultural. Mas a Leonor está enganada, no seu plinto dourado: são essas organizações as que mais têm o dever de formar públicos, de ser plurais na qualidade e na publicação pedagógicas das artes em geral. Grupinhos de curadores, sedentes de voltar a dividir (para reinar?) aquilo que é aberto e indivisível nas suas semelhanças e diferenças, disso já vimos as consequências, lutas, razões cegas, injustiças.
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Leonel Moura

Leonel Moura, artista plural, incisivo e por vezes impertinente com aqueles que não saúdam a sua intocável razão, tem feito percursos interessantes nas artes plásticas, desde a bad painting à recente exploração da robótica. Não sendo uma descoberta isolada, esse trabalho com robots, ele aprofundou variantes e criou uma realidade sua, apelativa, que produz efeitos (não bem resultados) de grande interesse visual e susceptíveis de alcançarem melhores performances.
Também entrevistado naquele programa, Leonel Moura, como habitualmente, falou em geral de instituições ligadas ao ensino artístico e da sua dificuldade na procura dos acompanhamentos das rápidas mudanças dos novos paradigmas neste domínio. Paradigma, para tudo e todos, eis a questão. Mas sim, as escolas e outras instituições ligadas às artes devem acompanhar os novos valores, novos métodos e novas tecnologias. Os computadores são uma ferramenta de eleição, mas a massificação da sua presença tem perigos evidentes. É verdade, contudo, que o próprio computador pode fazer de pincel, pode criar formas e figuras inusitadas. Eu próprio já apresentei experiências desse tipo, com obras inteiramente trabalhadas através do computador enquanto ferramenta principal. Mas isso, num campo não dogmático como a arte, não tem nada a ver com instrumentos obsoletos ou de última geração. Pode trabalhar-se com pincéis, rolos e ferros de soldar. E com as mais invulgares matérias sustentáveis. O que é lamentável é a afirmação peremptória, e destituída de qualquer verdade estético-funcional, com que Leonel Moura mimoseou os telespectadores. «A Arte tem de acompanhar a velocidade das transformações técnicas e de conteúdo da criação artística no presente. Um pincel, por exemplo, é já, sem dúvida, um instrument o obsoleto».
Um pincel é um instrumento como qualquer outro. E se hoje usamos o machado de aço e madeira para cortar certos materiais, isso deve-se ao fascinante património que bem conhecemos -- o coup de point. Magritte representou mimeticamente um cachimbo e legendou esse trabalho da seguinte forma: Isto não é um cachimbo. Hoje podemos fazer o mesmo com a representação de um pincel (isto não é um pincel) e trabalhar com ele logo a seguir: a grande capacidade do homem em recorrer a ferramentas inesperadas ou antigas, torna os aparelhos obsoletos paralelos a um bisturi electrónico.

domingo, outubro 10, 2010

BREVE, A MORTE, ENTRE O LUGAR E O TEMPO

o lugar
Todos os dias passo neste lugar, numa rua mortiça do bairro onde vivo. Passo por aqui e sei que este velho maple, abandonado pelos donos como traste velho e usado pelos pedreiros de uma obra ali à esquina como travamento do trânsito, tem sido conservado no tempo, há largos meses, já sem serventia mas suscitando eventuais encenações do quotidiano.
Perguntei ao vizinho:
«Que raio, então esta tralha vai ficar aqui para sempre?»
E ele:
«A Câmara só tem um giro, de mês e mês, para recolha de coisas assim».
«E acha bem?»
Ele levantou, de espanto, as fartas sobrancelhas:
«Essa é boa, eu não pertenço à Câmara, vizinho».
«Tem, razão, desculpe. É que isto brada aos céus».
«O responsável por isso já lá está, no céu».
«Que ideia é essa?»
«Oiça, oiça: há cerca de duas semanas sentou-se ali um pobre trolha, meio tonto do vinho, que trazia na mão apenas aquelas pedras na lata. Pousou a lata e fez um cigarro. Fumou, tossindo, durante algum tempo. Depois, aparentemente sem forças, deixou-se ficar a olhar para os carros que passavam ali, devagar. Em breve estava a dormir, até o chapéu caíu para o lado. Ninguém lhe tocou, ninguém procurou acordá-lo. Há casos assim, de respeito, de compaixão».
Eu percebi a história mas não a persistência do maple naquele lugar impróprio. Mas o vizinho tinha resposta para isso, aliás igualmente estranha:
«O homem ficou ali toda a noite, sempre na mesma posição reclinada. De manhã, os transeuntes que o haviam visto na tarde da véspera, procuraram saber se o homem precisava de auxílio. E tudo se passou um ápice».
«Tudo o quê?»
«A descoberta (em alarido) de que o desgraçado estava morto».
«Estava morto?»
«Exactamente».
«E depois?»
«Depois foi um ajuntamento de pessoas, a espera durante cinco horas pelo delegado de saúde, e por fim a remoção do cadáver para a morgue.»
Eu disse apenas, para me redimir:
«Que tragédia...»
Logo me lembrei de outra coisa:
«Mas isso não desculpa o facto de não terem removida o maple.»
O vizinho sorriu, meio desolado:
«Muitas pessoas que vivem aqui perto e acompanharam o acontecimento, incluindo a absurda espera pelo delegado de saúde, impediram o piquete camarário de retirar o objecto».
«Porquê?»
«Eles apenas disseram que, se as autoridades tinham o seu tempo para cumprir a lei, eles também reivindicavam a permanência do maple no mesmo lugar, pois assim poderiam exprimir todo o seu tempo de nojo, em memória da vítima.»
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o mesmo objecto serve duas histórias diferentes
mas de reflexão idêntica, aqui e no blog contrupintar02

quinta-feira, outubro 07, 2010

REPÚBLICA PORTUGUESA, CEM ANOS E DOIS DIAS

ilustração alusiva à proclamação da República Portuguesa



Foram vontades e sonhos, a revolta contra o abismo, algumas consciências visionárias. Portugal mudou de regime com a proclamação da República a 5 de Outubro de 1910. A comemoração dos cem anos da República propriamente dita decorreu há dois dias, mas as ressonâncias foram de molde a cuidar ainda do facto, passando apenas alguns sinais dessa história conturbada e fascinante.
A primeira acção da I República que se colou aos meus olhos e ao meu espírito, além das conversas ouvidas durante a infância, foi o cuidado havido em instaurar um verdadeiro ensino artístico, embrião de um tipo de cultura que é inerente à realidade da civilização. Quando ingressei na ex-Escola de Belas Artes (depois superior, depois integrada, como faculdade, na Universidade de Lisboa) começei a perceber a história deste ensino maldito, sempre na rectaguarda do que se foi fazendo na Europa. Mas os republicanos, vivendo uma revolução complexa, entre golpes e governos de poucos meses, institui aquele ensino em 1911, um ano apenas depois do seu começo. Mal ou bem, com mestres de academias e frouxa modernidade, a verdade é que o conceito integrava uma visão própria de progresso. E, apesar das várias e tímidas transformações das Escolas de Belas Artes, atrás só nomeadas, a verdade é que um novo regime demonstra uma nova ideia ao fim de um ano. E essa ideia, defeituosamente instalada pela elites do tempo, acumulou atrasos e mais erros, tendo chegado ao seu verdadeiro nível ao fim de um tempo de cobardia de cerca de 90 anos. A própria democracia proporcionada pelo 25 de Abril de 1974 (e esta já é uma generalização incerta) só criou condições para fazer avançar o ensino superior artístico 13 anos depois das primeiras comissões da Escola terem feito chegar ao parlamento e aos governos para lhes lembrar o que, neste âmbito, já deviam ao país e à sua substância ce cultura e civilização. Ninguém percebia o que era isso, os artistas foram transitoriamente declarados como desnecessários, e um posterior acaso de pessoas e de certas circunstâncias permitiu abrir a tal luz ao fundo do tunel, entre vários meses de trabalho de uma Comissão providencial. Os governantes (em Portugal) demonstraram quase sempre, nessa época, uma enorme desactualização sobre as questões da cultura, realidade que não permitiu a criação de um espírito nacional aí ancorado, sede da abertura ao futuro -- como bem compreenderam os republicanos de 1911.

Não vou reiterar, noutros campos a comemoração deste centenário, porque isso está feito e as festividades tiveram pontos fortes, apesar da crise que nos atinge neste momento. O Viva à República será assim (talvez) um dito e uma imagem que emblematizam a hora, cem anos atrás.

Apesar da agitação havida e dos recontros de frentes de acção política. É inquietante e libertador ler a história da I República.


a hora dos revolucionários

À noite do dia 4 a moral encontrava-se baixa entre as tropas monárquicas estacionadas no Rossio, devido ao perigo constante de serem bombardeadas pelas forças navas e nem as baterias de Couceiro, aí colocadas estrategicamente, traziam conforto. No quartel general discutia-se a melhor posição para bombardear a Rotunda. às três da manhã, Paiva Couceiro partiu com a bateria móvel, escoltado por esquadrão da guarda municipal, e instalou-se no Jardim de Castro Guimarães, no Torel, auardando a madrugada. Quando as forças da Rotunda começaram a disparar sobe o Rossio, revelando a sua posição, Paiva Coiceiro abriu fogo provocando baixas e semeando a confusão entre os revoltosos. O bombardeamento prosseguiu com vantagem para os monárquicos, mas às oito da manhã Paiva Couceiro recebeu ordem para cessar fogo, pois ia haver um armistício de uma hora.
Entretanto, no Rossio, depois de Paiva Couceiro ter saído com a bateria, o moral das tropas monárquicas, julgando-se desamparadas, piorou ainda mais, devido às ameaças por parte das forças navais com bombardeio. Infantaria 5 e alguns elementos de Caçadores 5 garantiram que não se oporiam ao desembarque de marinheiros. Face a esta confraternização com o inimigo, os comandantes destas formações dirigiram-se então ao quartel-general onde foram surpreendidos pela notícia do armistício.
Quando as tropas retiraram do Rossio, e com a saída à rua por parte dos populares, a situação tornou-se muito connfusa, mas já favorável aos republicanos, dado o evidente apoio popular. Machado Santos confronta o general Gorjão Henriques com o facto consumado e convida-o a manter-se no comando da divisão mas esterecusa. Machado Santos entrega assim o comando ao general António Carvalhal que sabia ser republicano. Pouco depois, pelas 9 horas da manhã, era proclamada a República por José Relvas, na varanda do edifício da Câmara Municipal de Lisboa, após o que foi nomeado um Governo Provisório, presidido por membros do Partido Republicano Português, com o fim de governas a nação até que fosse aprovada uma nova Lei Fundamental. 1
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1. O triunfo da revolução, consultado em Wikipédia, a enciclopedia livre

Lê-se e não e acredita, parece quase uma opereta um uma performance amadorística, não contando com a instabilidade posterior, entre grandes sonhos para um país novo e a derrocada já anunciada a montante, no estertor da monarquia. E depois parece um guião para o 25 de Abril, esse dia morno em que os carros de combate de Salgueiro Maia «acantonaram» no Terreiro do Passo. Houve a Junta de Salvação Nacional e também uma Assembleia Constituinte para redigir outra Lei Fundamental, agora já em começo de roptura numa crize mal explicada e mal gerida, eventualmente o início de uma Superior Reforma à escala global, como tanto se apregoa. Mas de verdade ninguém sabe verdadeiramente em que consiste essa globalidade e se deve ou não ser combatida quanto antes. Lá porque as comunicações o permitem, não parece razoável deitar ao lixo todos os enxovais e apertarmos o botão de uma mútua mortandade.

uns esperando por outros, um passeio armado pela Rotunda

quinta-feira, setembro 30, 2010

QUE EUROPA É ESTA, ESMAGADORA E SONSA?


A balada dos cães passou na lama escura das cidades europeias. Viajou do grande Ocidente do capital todo-poderoso e varreu tudo até às zonas frias do Leste, mesmo quando Moscovo, há um mês apenas, ardia sob um sol de 38º. Estava tudo a aquecer, em Agosto, e a voracidade dos cães ficcionais já vinha de longe, após a pulverização de um dos maiores bancos do mundo, não por ter sido abandonado pelos milhões de clientes ou dólares mas por ter um só gestor ensandecido, jogando apenas para mergulhar em rios de dinheiro. Está preso, pediu perdão, Obama não lhe respondeu. O presidente americano, atónito mas firme, atravessou um país em risco de receber sobre as cidades, como o efeito em cadeia de todos os jogos, o verdadeiro mega-registo da nossa pobre D.Branca.
A Europa, com pompa e circunstância, carregada de homens de fatos cinzentos e jovens gestores a manipular tudo e todos, deu o sinal de alarme. E foi o que se viu. Ninguém mais sossegou, ministros, ministras, presidentes, ministros das finanças, ministros da economia, banqueiros e bancadas, bolsas e zeladores dos mundos virtuais. Em pouco tempo a Grécia estava a ser intervencionada, sem meios e cravada de dívidas. E nós, portugueses, devedores cegos, presos à banca, ao fisco, às agências de tudo o que possa parecer transacionável, mal podíamos acreditar num destino assim. Galhardamente, ainda nos deixámos levar a férias, do Brasil à Tailândia, e fomos sufocar no Algarve, numa promiscuidade de 80.000 pessoas para nesgas de areia pouco maior que um campo de futebol. Todas as praias da região ficaram assim, atulhadas, embora destituídas dos benefícios, com a paisagem das falésias atravancada por altos muros de hotéis e casario fora do valor PIN.
Sócrates, o Primeiro Ministro português, atravessava a mudança de clima e das falências com uma estranha convicção de que os seus projectos valiam bem não escutar muito os alarmes de tsumani à vista. Ele promovera o plano tecnológico e o país tinha agora importantes polos de produção informática e similar, exportando para 47 países, bem como o retorno de núcleos de investigadores, a par de centros ou criadortes independentes cujo grau de inovação era manifestamente considerável, além das descobertas meio solitárias e invenções à média de duas por dia. As corporações não suportaram as bicadas deste homem meio despachado, mal credenciado de canudos, e desataram a tratá-lo como nunca se vira: o homem era assim escarnecido no próprio país, nesta última República incandescente. Sócrates aguentou, mas não foi capaz de se descolar da sua pele mais ambígua e deve ter acreditado, como muita gente entre nós, que ali estava, afinal, o desvendamento da teoria da conspiração, Freeport, Face Oculta, o Joaquim da Sucata, Ferreira Leite, a direita toda, mesmo no PS, e a esquerda, numa arruaça em plena Assembleia da República como nunca se viu nem filmou.
Recentemente, o eleito líder do PSD, calibrado pela juventude social-democrata, sorriu para Sócrates (que certamente desconfiava de toda a gente) e ofereceu-lhe tapete negocial para a viabilização do PEC, tendo em conta que eram mais fortes as urgências do país do que a pequenez provinciana dos partidos. E o país premiou Passos Coelho (PSD) transferindo para ele as inclinações de voto. Cavaco, o Presidente, jubilou relativamente ao seu próprio futuro. Mas ainda havia as perguntas póstumas de dois procuradores, no encerramento do caso Freeport. E a crise aumentava, até a Espanha soçobrara. Devagar se vai ao longe, terá pensado o Ministro das Finanças, Teixeira dos Santos. A dívida é enorme, senhor ministro, dizia alguém dos bastidores. É preciso cortar, agora sobretudo na despesa. E o senhor quem é?, perguntava o Ministro. Antes de tudo, sou cidadão português, europeu convicto. E veio para falar com quem? Vim, na qualidade de presidente do PSD, encontrar-me com o Primeiro Ministro. Teixeira dos Santos ficou perplexo e disse: Pois entre, ele está aí, a tratar dos grandes centros escolares e das reformas na Saúde e na Educação. Passos Coelho espantou-se: Mas isso já não estava adiantado? Claro que sim, mas é preciso mais, cuidar da nossa formação e do povo em geral.
Quando Passos Coelho, após uma larga reunião, passarinhou para o átrio, viu os jornalistas e tomou bem depressa a posição de Estado. A malta dos jornais e tevês queria saber da conversa, naquele delicioso espírito bisbilhoteiro que faz com que uma notícia sem história, sem nada, se torne vendaval na primeira página, dita nos maiores caracteres possíveis. Por exemplo: «Foi negado ao Primeiro Ministro acesso ao multibanco». No artigo, sabe-se afinal que o Primeiro Ministro passara por uma caixa de multibanco onde um grupo de pessoas se queixava da demora quanto à abertura daquele equipamento.
Coelho disse: O Primeiro Ministro não aceita parar com os impostos e preferir o corte na despesa, como estava combinado. Nunca voltarei aqui sem testemunhas.
E cairam o Céu e a Trindade, centenas de radicais, pró e contra, atravancaram os ecrãs das televisões, barafustando em muitos comprimentos de onda, embora sem ganhos fora das teorias habituais, fazendo somente diagnósticos apócalípticos. Medina Carreira, figura ímpar, embora demasiado parecida com o Mr Magoo, fala de garotos, de incompetentes, de um país tão absurdo e demente que nem sequer se parece com Portugal. Passos Coelho, por seu turno, procurou precarver-se, preparando a eventual catástrofe do orçamento chumbar. Reuniu à sua volta, numa tarde lapidar, 20 grandes personalidades, economistas sobretudo, afectas ao PSD. Queria ouvir (calado) o que eles tinham para dizer sobre o desastre iminente. Ouviu, reguardou-se, e o ruído voltou, contra o parecer da OCDE, entre comparações suspeitas e desmuseradas.
Então o Presidente Cavaco convocou os partidos para lhe dizerem o que pensavam fazer na altura da discussão do orçamento, tendo em vista a baixa gradual do déficit. Nada aconteceu de relevante, embora Passos Coelho voltasse a dizer que não aprovaria um orçamento em que subissem os impostos.
E por fim, ontem, a bomba: Sócrates, Teixeira dos Santos e Silva Pereira apresentaram-se ao país para divulgar as grandes linhas de orientação de um duro plano de austeridade capaz de enquadrar o orçamento para 2011. Em primeira página, o «Diário de Notícias» apregoa: «Sócrates anuncia um ano terrível aos porugueses. E é verdade. Leiam-se os jornais. Só há que esperar pelas bombas do «outro» lado. Um alto dignitártio do PSD, reagindo de forma teatral à conferência de imprensa dada pelo Governo, disse, tremente: Sócrates veio declarar ao país a incompetência do seu governo.
Eu só digo o que vejo e sei. Sócrates anunciou o que toda a gente lhe pedia, e fê-lo acima de todas as minguadas expectativas: para salvaguardar os riscos da execução orçamental, o governo e as personalidades que deram a cara, enunciaram cortes em todo o funcionamento do estado, cortes na despesa social, cortes no Serviço Nacional de Saúde, cortes no PIDDAC, outros cortes que minimizam despesas desde o ensino às autarquias, regiões autónomas, serviços diversos. É feita diminuição da receita fiscal, sobe o IVA, e são afastados outros focos de despesa. Tudo vai dar, como preconizavam vários tutores e curadores, a um total de Quatro mil milhões de euros e mais uns trocos que davam para um golpe de resgate financeiro nas Ilhas Caimão.
Entretanto, os problemas que afectam a Grécia e sobretudo a Irlanda, além dos países a Leste que aderiram à Europa mas não se comprometeram na zona euro, levantam questões muito graves e crispações perigosas: porque os países mais fortes e mais poderosos não estão a partilhar quadros de solidariedade, antes parecem gerar caminhos cuja geografia revela pontos fracos, deslizes, barreiras, impiedosas assimetrias. A Europa devia conhecer melhor a sua história: no século passado aqui se desencadearam duas guerras mundiais. E já apareceram as pimeiras vozes, no quadro da actual situação, alertando para os enviesamentos de uma dinâmica contraproducente, envolvida no modo como o dinheiro é usado, e nos perigos de uma guerra generalizada, agora transversal a outros conflitos latentes, do Irão a todo o Mediterrâneo. A geografia política e económica do mundo está longe de ter sido fixada e estabilizada. As forças críticas emergentes surgem um pouco por muitas latitudes e longitudes.

terça-feira, setembro 07, 2010

TALVEZ A ARTE MINTA PARA DIZER A VERDADE

abertura do blog de António Lobo Antunes

A vida é feita de uma falsa continuidade e a arte procura alcançá-la com propriedade de sentido e valores expressivos de diferente projecção no espaço perceptivo de cada um de nós: porque somos dotados de um sistema visual de grande resolução objectiva, revestindo-se de notória propriedade na absorção do real, apesar de depender de um conjunto de regras redutoras da natureza integral dos objectos percepcionados. A resolução das imagens no cérebro permite-nos nomear conceptualmente as coisas e colar a elas um saber plural, capaz de descodificar uma aparência e oferecer à vigília consciente a forma tridimensional da coisa vista, guardando dela e do próprio espaço envolvente o significado inteiro, grande parte das informações aí achadas. Esta questão tem de ser ajuizada convenientemente nos actos de reresentação do visível, quer pelo desenho ou pela escrita alfabética, entre muitos outros géneros de instaurar discursos artísticos, como nas artes plásticas, no cinema e na fotografia, na poesia ou na literatura em geral. A arte contorna as evidências (porque elas encobrem de certa maneira o real) a fim de tornar visível cada parte registada pelo olhar e pelo fundo enganador da visão. Em certo sentido, já tem sido dito que a arte transforma as aparências (mentindo) para as dar a ver com mais verdade. Estas notas ocorrem-me a propósito de uma estranha controvérsia gerada a partir da reacção dos militares, sobretudo declarada pelo Presidente da Associação dos Ex-Combatentes. O alarido tomou conta de muita gente, uns que defendiam o escritor e outros que o julgavam pela negativa, considerando parte de uma peça inserida no 2º livro de crónicas de António Lobo Antunes. E há quem, nessa ira, se esqueça do atroador «Cu de Judas», uma das primeiras obras daquele escritor sobre a guerra de Angola, testemunho magoado e nada louvando, peça que muitos de nós leram com um nó na garganta. O problema, desta vez, é que a frase mais destacada do protesto, parece mesmo, antes de qualquer literatura declarada, um outro testemunho, laminar, decisivo, destituído de ficção ou simbologia -- a verdade apenas, por mais absurda que a pequena história se apresente. Ao contrário do que costuma acontecer nas crónicas de Lobo Antunes, cujos textos surgem quase sempre orvalhados de um segundo sentido, entre símbolos e metáforas finais, a crónica apontada contém um período tão limpo como a verdade da própria verdade. Escreveu, a certa altura, Lobo Antunes: «Eu estava numa zona onde havia muitos combates e para poder mudar para uma região mais calma tinha de acumular pontos. Uma arma apreendida ao inimigo valia pontos, um prisioneiro ou um inimigo morto outros tantos pontos. E para podermos mudar, fazíamos de tudo, matar crianças, mulheres, homens. Tudo contava e, como quando estavam mortos valiam mais pontos, então não fazíamos prisioneiros».

Trata-se, com efeito, de uma implícita afirmação de grande gravidade. Também estive em Angola, mais ou menos na mesma altura, em Zala e Nambuangongo, onde perdemos vidas, mas a guerra ainda não adquirira o grau de sofisticação para provocar tais «ajustes de contas». Vinte anos depois de ter regressado de África, escrevi um livro a que chamei, talvez impropriamente, «Angola 61, crónica de guerra». O livro só será crónica porque todos os factos e pessoas nele abordados correspondem à pequena e grande história do batalhão, embora transmitidos por uma forma literária a lembrar a expressão ficcional, incluindo um forte apelo ao cinema. Mas há nele denúncias aterradoras, como tenho lido noutros textos e, em particular, na obra de Lobo Antunes, a que toca militares e a que não toca. Mentiras dizendo verdades cortantes, da guerra à Inquisição e a muitos outros estados de várias idades históricas do nosso país. Um colega amigo, a propósito do assunto aqui abordado, chamou-me a atenção para o lado gélido, como que imparcial ou neutro, da redacção daquele parágrafo de Lobo Antunes: o desinteresse pela forma literária, assaz mal falada, e o batimento seco e sintético dos factos e dos métodos com que eram contabilizados. Para este meu amigo, trata-se de um forte indício de que o escritor testemunhou aquele procedimento, quase impensável, mesmo para quem esteve na guerra colonial, ou através da filmografia sobre o Vietnam. Mas nada disto é assim tão simples e o problema (visto que tantos outros foram deslidos) parece residir no facto aparentemente institucional em si, difícil de esconder dos não alinhados ou dos oficiais da companhia. Até porque, num outro ponto da crónica, Lobo Antunes declara que pertencia a um batalhão de 600 homens, dos quais morreram 150, percentagem altamente desajustada de todas as estatísticas conhecidas, entre as mais isentas. Aliás, o escritor acedeu a desfazer esse eqívoco em carta para o Presidente dos Ex-Combatentes, carta onde não explica a questão dos espólios e dos pontos; porque sempre disse que a escrita dele só pode ser lida como expressão simbólica, mesmo nos eventuais eventos que decorram de factos presenciados. Isto é verdade que nos acontece; e Lobo Antunes, apesar de tudo, não estava ali a escrever um relatório para enviar a um qualquer chefe do Estado-Maior. Feitas estas distinções e abertas estas disponibilidades de circulação pelo sentido da obra de Lobo Antunes, aquela e outras do mesmo índice de acutilância, atrevo-me, sem querer assumir-me como advogado de defesa de um escritor que muito admiro, a adiantar mais duas ou três questões de valor substantivo: a) Em Angola, anos 60, uma companhia era constituída por 3 grupos de combate, cerca de 160 homens, entre soldados, cabos, sargentos, alferes, um tenente e um capitão, comandante da unidade. O tenente em geral era o médico, e os alferes milicianos concretizavam a cadeira superior hierárquica, com vértice no capitão. Os sargentos comandavam secções de 9 homens, integrando o grupo de combate. O problema posto pelo texto de António Lobo Antunes, enfrenta os seguintes (possíveis) problemas: ou o sistema de pontuação por acções desenvolvidas em combate e similares situações era circunscrito a um grupo de pessoas, secreto, e nesse caso a transferência do que mais pontuasse seria negociada por subterfúgios, ou esta roleta implicava toda a companhia, facilitando a transferência do vencedor para uma «unidade pacífica», o que coloca dentro da sigilosidade da operação toda a gente, desde o capitão ao último dos soldados. Apesar de tudo o que me foi dado ver, negociatas, abastecimentos directos e sem a menor transparência, escolhas de materiais passando por percentagens, desgaste não explicado nos géneros entregues às companhias, promiscuidade entre militares e civis em preparações especiais de aquartelamentos, pressão disciplinar sobre aqueles que não acatavam trocas obscuras entre chefias consoante interesses pessoais e vantagens financeiras, violência aplicada a dois prisioneiros, a verdade é que nunca estive perante situações tão abjectas quanto as referidas por Lobo Antunes. Podemos duvidar delas na base de um raciocínio técnico como aquele que sintetizei atrás, mas não podemos condenar o seu relato, mesmo que em relação directa com a realidade passada. Porque o contexto, o género da crónica, absorvem o significado dos conteúdos para o domínio do símbólico, da analogia com outras possíveis crueldades, em metáfora capaz de desmontar o real e a sua verdade numa outra verdade. Em termos litrários, Lobo Antunes pode ter-se socorrido de um jogo promocional cruel para dizer outras verdades, assinalando a brutalidade de muitos meios bélicos, aceites como norma. O próprio treino militar, antes de qualquer prontidão, chega a ser cínico e bárbaro, e bem me lembro disso em Mafra. Já não falo das mortes de jovens em instrução militar ligada aos comandos nem da criação de sistemas de dependência psicológica.

Resta talvez anotar que a forma dos artistas se assumirem como testemunhas empenhadas perante desvios sociais, políticos, religiosos, militares, seja qual for o grau de possível sanção (ilegal) que as corporações accionem contra eles, tem sido entre nós muito pobre. Há mais casos na literatura do que nas artes plásticas, e há uma infinidade de documentos expressivos em cinema, com graus aterradores de verosimilhança perante casos históricos amplamente conhecidos. De resto, quem são os portugueses ainda vivos, participantes sem escolha numa guerra dita colonial com 14 anos de extensão, que não tenham percebido como esses milhões de factos e resíduos traumáticos foram omitidos até ao maior dos desrespeitos por um povo assim sacrificado, com muitos dos seus mortos enterrados no teatro de operações e que só agora, lentamente e sobretudo pelas famílias, começam a ser resgatados, em recato, sem pompa nem circunstância. Todos as pequenas intrigas futebolísticas com que as televisões nos intoxicam sem medida, entre outras coisas idênticas, deveriam desde há muito ter sido substituidas em parte por debates, revelações, a história da guerra travada teimosamente por Portugal em Angola, Moçambique e Guiné. Muitos ainda esperam por isso, mas só lhes cabe ouvir as migalhas de programas com filmes de arquivo e testemunhos de patentes superiores. A guerra não foi nada disso. E Lobo Antunes, que era tenente miliciano no teatro de operações e sabe que não é preciso mentir num universo com tantos exemplos reais para abordar, tem de facto razão quando lidera frases assim: eu poderia escrever que na minha companhia, formada por 150 homens, morreram 150; e no batalhão, de 600 homens, morreram também todos eles, isto numa forma de exprimir que ninguém se salva após tão terrível experiência. O escritor, na correspondência travada com o Etado-Maior, diz que quanto mais simbólica é a linguagem mais verdadeira se torna. E asseverou que o tema acarreta «reacções emocionais fortes», até porque «a guerra colonial foi profundamente injusta. Pode esquecer-se a guerra mas ela não nos esquece. Deu cabo da nossa juventude e há-de dar cabo da nossa velhice. A negação de nada serve e a guerra continua a ser uma experiência muito dolorosa para mim. Quando venho de um almoço com os meus camaradas, essa noite é muito difícil. Todos nós morremos um bocadinho na guerra».

foram consultados materiais publicados no blog de ALA e por José Roldão

segunda-feira, setembro 06, 2010

POR MAPUTO: REDESCOLONIZAÇÃO EM VIOLÊNCIA

registos da reportagens televisivas
Já ouvi da boca de vários personalidades conhecidas palavras resmungadas que a descolonização, pelo menos no que se refere a Portugal, não fora precipitada, fora, pelo contrário, indevida, no tempo e nos métodos. Tem-se falado muito, também, num dos autores mais favoráveis aos processos de descolonização, Franz Fanon, que alertou, apesar disso, para os enormes riscos que se corria ao lançar povos inteiros, de súbito e ainda largamente impreparados, para a contemporaneidade. O desajustamento seria, em alguns casos, de efeitos devastadores, entre o desenho das fronteiras e a divisão das etnias ou nações. E foi afinal isso que se fez, apesar de alguns territórios privilegiados por prolongamentos coloniais enviesados, como no caso da antiga Rodésia, hoje um país vandalizado, sem ordem nem produção ordenada, esmagado por uma das mais patéticas ditaduras do Continente. Angola, por sua vez, entregue, por acordo institucional, aos três «movimentos de libertação, em breve se lançou numa terrível guerra civil, muitas vezes mais grave do que a guerra colonial, após a qual cidades haviam desaparecido, populações tinha percorrido fracturas enormes de deslocalização e outras, enquanto Luanda inchava de gente, de perturbação e um vasto tipo de carências, enquanto um núcleo em volta do Presidente e de outras entidades militares ou políticas, enriquecidas desproporcionalmente já nessa época, se entricheiravam na maior grandeza, entre o luxo, os bens e a força sobre todos os que caminhavam esforçadamente, estropiados, num largo horizonte de perigos ocultos e miséria.

Há sempre semelhanças entre estes desastres: Moçambique dividiu-se, logo após o cessar fogo das tropas portuguesas e o seu abandono do território, em duas forças opostas, em litígio bélico de intensidade muito menor do que o de Angola, mas, apesar de tudo, largamente danoso para o país. A FRELIM, desde o início da guerra colonial, apostada nos ditames libertadores, teve à sua ilharga, ainda durante esse tempo, o movimento homónimo RENAM, débil, menos municiado e ideologicamente impreciso. Mas, quando vieram as eleições de tipo democrático, a FRELIM foi vencedora, tendo na Assembleia Nacional de confrontar-se comos deputados que a RENAM conseguiu eleger. Esse perfil das forças que iniciaram os caminhos da independência não era preocupante e a sucessão dos vários presidentes tem decorrido com consensos quase nada pertrubadores. O problema, dada a escassez de meios imediatos de riqueza, coisa já existente em Angola, passou a residir nas políticas de de contenção, realidade agravada pela explosão populacional em Maputo, em termos por vezes capazes de provocar repugnância, desde o lixo, às sujidades dos imóveis e dejectos em avenidas principais. Tudo isto foi sendo combatido, como quem rema contra a corrente, pois o tipo de cultura das populações do interior não era ajustável às regras da vida citadina nesta escala. A situação, há pouco tempo, começou a degradar-se. Até que, em revolta contra o aumento dos bens básicos de consumo, a população, recrutada por SM S, entrou em estado de revolta, bloqueou a cidade, o próprio achefe de aeroporto, acabando por cometer alguns desacatos sobre lojas e pessoas. O governo reagiu em termos de espera, socorrendo-se da PSP para situar algum recato. algumas dispersões. O Chefe de Estado falou em nome do apaziguamento, sublinhado o dinheiro que se perdia em cada dia de paralisação da cidade, o que ocorreu, de forma completa, durante pelo menos dois dias. Apesar dos destroços, mortos e feridos, este incidente esbateu-se depressa: seja como for, não deixa de ser um sério aviso para aqueles que vivem acima de maior parte das pessoas, em assimetrias monstruosas, fio em certa medida anunciador dos erros cometidos nos anos 70, por Portugal e pelas Colónias. Esvaziadas dos quadros técnicos e administrativas competentes, o esforço de equilíbrio e de ordem social gerou ou agravou diversos tipos de «epidemias» que este género de subdesenvolvimento costuma tornar crónico. É o salto na contemporaneidade, seguido de catástrofes indizíveis.


Tudo isto poderia ser diferente, pausado, seguro, equilibrado, partilhado, num Continente que, em vez de entrar em agonia, deveria ser tomado pela humanidade como fundo de garantias em diferentes plataformas de produção e comservação? Por mim, penso que sim, não por achar que a descolonização estava fora do projecto nacional. De resto, a ditadura teve todos os sinais para salvar a face e os povos. Um «génio» chamado Salazar castrou toda um país com as suas sobrevivências e referências através das colónias. O que penso é que a descolonização não devria ter sido feita sob uma espécie de efeito de derrota, sem nada se preservar, indústrias, fecundação da terra, organização social, disciplina. Os portugueses e moçambicanos brancos que tiveram de abandonar de súbito aquele país, como aconteceu ao mesmo tempo em Angola, foram apenas martirizados por slogans e dirigentes cobardes que não souberam negociar e agilizar as tropas numa ajuda pós-militar. Alguém me poderá garantir, com razões técnicas e humanas de valor indesmentível, porque carga de água um exército que combate em três ferentes sem destruir os territórios e as populações tem de se retirar à pressa, com a tralha mal atada à cintura e uma cerveja para refrescar o «regresso» a Metrópole? Tratou-se de um erro grotesco, o que aliás veio reflectir-se em Portugal, num PREC maníaco-depressivo, falsamente chamado de revolucionário, proletarizando o campesinato e procurando mesmo a tomada do poder por um golpezinho patético, o qual o país conseguiu travar em pião -- e sem sanear verdadeiramente os que haviam ensandecido pelos quartéis e pelas quentes veredas do Alentejo. Assim ficaram as coisas, pela teimosia inerente a Salazar, pela incapacidade assombrosa de Caetano, pelo varrimento de toda a ética militar dos chefes que tinham «trabalhado» nas ditas colónias durante 14 anos, conhecedores dos problemas e do apoio que podiam dar no próprio espaço da independência e durante os primeiros tempos da mesma.
Franz Fanon tinha razão. Mas, como muita gente naquele tempo, achou mais rico o espectáculo das bandeiras desfraldadas pelas anharas fora e guardou no bolso as consequências que ele mesmo anunciara. Os militares portugueses, que não queriam meter-se na política, apoiaram um dos maiores desastres políticos sofrido pelo país. Hoje queixam-se de relatos que espreitam a história, como no recente caso de Lobo Antunes, mas esquecem sempre de olhar-se ao espelho e de relembrar uma guerra sobre a qual também se teceram elogios e aceitações de brandura. Não direi tanto, sobretudo nos costumes, até porque uma década dá para ensaiar uma civilização e os seus poderes ou armadilhas encobertas.

um pouco de sangue, nada mais, os motins acabam depressa, mas o futuro ainda não chegou.

domingo, agosto 29, 2010

DO TERROR RELIGIOSO AO ABUSO DO DINHEIRO

liturgia católica fixa demasiado a circunstância do poder que salva

Diante das realidades que constituem a estrutura e a substância do nosso sistema civilizacional, entre crises e cristalizações, devemos estabelecer algumas questões sobre a razoabilidade do que nos é dado ver. É preciso que indaguemos a natureza dos vários desenvolvimentos, que fundamento têm e que futuro proporcionam. A análise crítica de Husserl sobre o estado das ciências e das culturas, tendo em conta o propósito filosófico relativo ao século XX, parece mostrarà que a ideia de crise não se circunscreve ao domínio do económico. O mundo em que vivemos é afinal um espaço extremamente dividido quanto vasta qualificação do trabalho e isso obriga-nos a indagar a natureza das directivas do fazer, dos factos produtivos, como é que se projectam, quais as suas referências humanas e vitais, quadro sobre o qual se espalha uma névoa baptizada com o nome de crise (crise financeira e económica) no qual muitos pensadores actuais, perplexos, encurralados, crentes ou ´cada vez mais envolvidos em diversos processos de dúvida. Porque foram impelidos a pensar se a crise pode ser avaliada e desmontada como um dado em si ou deve enquadrar-se em planos que superam a fixidez do binómio onse se juntam as razões financeiras e económias. A passagem do estilo românico ao gótico, ligada às edificações de carácter religioso, teve certamente uma base económica consoante a realidade financeira (executante) dos tempos. Contudo, a caracterização dos projectos, que implicava pesquisa e orçamentação, tinha por raiz mais funda intuitos ou satisfações de base cultural, a demarcação de um imaginário largamente religioso, vontade sócio-política de garantir o poder para a salvação. À superfície, o próprio consumo, materializado através dos sonhos e dos desejos viciosos ou culturalmente definidos, tende a ser distendido ou controlado por duvidosos métodos de natureza moral -- limite sempre a dissolver-se pelo aumento de necessidades inventadas e pela permissividade onde o poder se justifica, entre a tolerância calculista e a defesa totalitária dos sistemas mais conservadores ou orientados para a estabilidade das escilhas maniqueistas. Esta questão foi aborada pelo professor Weber no sentido de uma pesquisa a montante, onde começa e engrandece a riqueza, tendo ele preferido ligar a crise a causas ainda mais remotas, embora hoje dissipadas pelos métodos de análise, ou seja: o esforço de compreensão da crise, mesmo na sua perspectiva actual, deve integrar outros afctores além dos habituais -- factores psicológicos, culturais e teológicas. Em entrevista ao expresso, Weber evocou então um esquema que relaciona a teologia e a economia na «questão do dinheiro». Disse ainda: «Um dos motibos do fascínio pelo dinheiro é a especulação financeira, o facto de usar o dinheiro para produzir mais dinheiro. Já citei uma frase muito conhecida de Benjamim Franklin, que Max Weber comentou no seu livro sobre a relação entre o calvinismo e o desenvolvimento do capitalismo. Aí já temos uma relação entre teologia, religião e economia. Retomei essas teses de Weber (anotou Samuel Weber para tentar saber se o fascínio pelo dinheiro estaria ligado à tradição teológica, sobretudo a cristã) que tanta pensar ao mesmo tempo um Deus único e criador imortal e as suas criaturas humanas, imortais na origem mas que se tornaram mortais devido ao pecado e à culpa». 1


o banqueiro multiplicador .

Esta perspectiva da origem do capitalismo liga-se ao problema da ética, que tem persistido. Em boa verdade, a única regra para produzir mais riqueza e o máximo lucro no manor limite de tempo, é uma das lógicas que tem levado ao descontrolo do sistema, perto do abismo terminal, donde não haverá verdadeiro retorno. Foi esta, de resto, a lógica que comprometeu a estratégia da Emrom, nos Estados Unidos, pois aí, contra toda a ética, «implantara-se um sistema sem orientação e que funcionava unicamente para produzir mais lucro e riqueza a favor de um número reduzido de pessoas».

o banqueiro duplamente multiplicador

Destaque incontornável: a acumulação de riquezas sem limites escita uma resposta defensiva contra o medo de que o tempo caminhe para a destruição do indivíduo. Basta observar as grandes catedrais (o Vaticano é exemplar) e o poder de certas Igrejas para se perceber quanto o fascínio por tal exibicionismo tentava impor aos crentes na doutrina por elas representada a ideia da salvação material, a única capaz de assegurar a pertectuação à posteriori do indivíduo. Algumas das mais abjectas alucinações do capitalismo selvagem assentaram no cavo arbítrio antropofágico que o dinheiro comporta, deificando o seu detentor. Bernard Madoff, embora pudesse ter atingido, na legalidade, a maior fortuna de todos os tempos, prosseguiu pela ilegalidade, dei a si mesmo o privilégio de se considerar Deus.


o esmagamento pelo jogo do dinheiro 2 rocha de sousa

entre dois blocos desmuserados do império financeiro 3 rocha de sousa

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1. baseado em «Samuel Weber», entrevistado por António G uerreiro

2. plano de um filme de Anthony Hopkins
3. Plano de um filme de Anthony

sexta-feira, agosto 27, 2010

UM PAÍS ARRASADO PELA LAMA E APESAR DA FÉ

fotos publicadas na Sánado, do Sundy Times

O inefável tecto do mundo, aravés do qual Deus nos espreita, desfez-se em água, na maior quantidade de sempre, e arrasou em larga medida o Paquistão, submergindo paisagens inteiras e dizimando pessoas, animais, plantas, culturas, como nunca acontecera até ao mais remoto índice destes fenómenos. Cerca de sete milhões de hectares arável ficaram submersos numa cheia sem precedentes. Cem mil cabeças de gado morreram nas inundações e as que sobreviveram estão a ser roubadas por grupos de ladrões, no mais cruel dos males fratricidas. A contagem das pessoas atingidas mortalmente por esta catástrofe parece ultrapassar os dois milhões, enquanto vinte milhões de desalojados têm errado em trágicas derivas ou sido socorridos pelos mais diversos meios, embora muitos se acantonem em pequenos rectângulos de território, na esperança da sobrevivência, num último alento quanto ao possível auxílio. De resto, setecentos e noventa milhões de euros correspondem à estimativa das colhietas destruídas.

Todos aqueles, povos e governos, que se distanciam destes problemas e jamais os desejarão relacionar com males cíclicos, desta vez entrosados e precipitadas pela acção humana, terão de suportar um dia (nem sequer muito longínquo) em que a sua sbrevivência se encontrará perto do ponto zero de algum amanhã, como que entrando na mais pobre de qualquer verificação substantiva. A cadeia de incêndios, todos os anos repetida nem sequer pelo poder divino, continuará a ser ateada por negligência, falta de civismo ou mãos assassinas ao serviço de obscuros «projectos» e dos mais sórdidos interreses, numa ganância que também se globaliza. E enquanto ninguém pensa nisso, retardando políticas ambientais profundas, os sistemas de sustentação planetária vão começando a caducar, mares subindo, gelos escorrendo, territórios desertificando-se, a atmosfera como que mudando de natureza. A brutalidade do que aconteceu no Paquistão em nada demove os terroristas do «saque». No norte do país, os agentes da polícia têm ordens para disparar sem aviso contra os saqueadores. Enquanto isso, e onde ainda se podem tentar resgates materiais, a população retira das suas casas em ruínas parcos haveres, coisas utilizáveis, guardando tais bens onde for viável, já que os ladrões se atiram a quaisquer valores transacionáveis, aparelhos, frígoríficos, fogões, tudo o que, nessa linha, cai na sua aproximação. Os agricultores têm sido os mais atingidos por esta praga não menos odiosa do que a diluviana.


Tanta desolação, em tão grandes áreas, é realidade que merece grande reflexão da parte de toda a gente, dos próprios paquistaneses agora vítimas dos seus compatriotas profissionais das armas, da guerrilha, do saque seja a quem for. Enquanto o actual sistema económico mundial agrava crises e promove trocas imensas nos corredores do banditismo internacional, das lutas religiosas e sectárias, parece que os homens desafiam os deuses da sua fé, perdendo-se entre causas atroadoras, entre várias hipóteses de fomentarem um inqualificável confronto civilizacional.

Malik Fiyyaz, um agricultor de 50 anos que perdeu dez hectares de plantações e teve um prejuizo de setenta e três mil euros, queixou-se da seguinte forma: «Estamos a viver na miséria». Ele recordou a morte de um dos seus vizinhos ao ver todas as suas colheitas perdidas e a história de outros dois que perderam todo o seu gado, sobretudo roubado por saqueadores. Também eles comentaram, segundo a revista «Sábado»: «Vai levar tempo até conseguirmos reconstruir os nossos recursos, mas havemos de o fazer. Não temos outra opção».

E as crianças, que opção têm elas?

domingo, agosto 22, 2010

RUY DE CARVALHO:VOU LÁ VISITAR PASTORES

Ruy Duarte de Carvalho

FALECEU RECENTEMENTE RUY DUARTE DE CARVALHO

ANGOLA

Ele o disse: «Eu cumpri a minha tarefa cívica, que é a de alertar para uma outra percepção das coisas»

Tive o privilégio de conhecer pessoalmente Ruy de Carvalho e de me sentir seu amigo. Foi naqueles anos 60 de uma guerra antecipadamente perdida, conversando em Luanda, num dos meses em que nos davam disponibilidade, e depois no fim da comissão, quando aguardava embarque e privava de perto ccom um outro grande amigo, engenheiro Anibal Fernandes, branc natural de Angola, que fez o favor de me dar a conhecer muitas das coisas que não pudera sondar enquanto andava pelo mato, nos exílios de Zala, Nambuangongo, ou na bela costa do Ambriz. Ruy de Carvalho arrancava a sua viagem africana e cultural, escrevia muito, poesia, depois estudos sobre o que via e ouvia, já nómado, partindo e regressando de mais à frente, conhecedor de Angola como ninguém, observador das gentes, dos seus percursos e formas comunitárias de vida. Ruy fazia uma clara caminhada de antropólogo e etnógrafo, áreas do saber que viriam a integrar parte da sua formação universitária. Ele deu aulas em Coimbra, deu aulas noutros pontos e de outro modo, observando, registando, atravessendo línguas e linguagens. Deixou uma obra icontornável nesse domínio, um legado científico, poético e literário, à terra a quem se ligou, angolano por escolha, institucionalmente. Por dentro também, num bem-amar de filho cujo território maternal tinha em si nome de mulher, alma de toda a sua vida.

«Morreu inesperadamente. Deixa análises antropológicas, ensaios, quase romances, poemas, filmes, esculturas, fotografias. Era como um príncipe, altivo, simples mas pertinaz, quer entre homens do poder e senhores da guerra, quer entre ou pastores»

Estas são palavras lapidares de António Lopes Neves, que entrevistou Ruy Duarte por ocasião da saída do seu livro «Actas da Maianga - Dizer da(s) Gerra(s) em Angola.

Adeus, Ruy, sei que perguntaste por mim várias vezes. Notícias tiveste, mas não pudemos partilhar melhor o que ambos fizemos. Eu não sou figura pública. Isso não me impede de resgatar aqui a tua memória, como a senti naqueles dias de brasa.

domingo, agosto 08, 2010

A CONDIÇÃO HUMANA EM MEMÓRIA DE J.BOSCH


Chegámos de muito longe e conservamos, da nossa remota origem, certas marcas, memórias difusas e liturgias indecifráveis. A condição humana implica um conjunto de actos, desejos e relatividades entre os membros de cada comunidade, sob a chuva que molha, na passagem por situações idênticas a muitas outras, e aqui a ganhar valor simbólico, a evovar as personagens de Bosch, seres insulares, oblíquos, desterrados do reino dos cubanos nesta florida jangada de pedra. Alguém se embrulhou no insólito caso das escutas, em plena campanha para as legislativas, em Portugal, bem se vê, e perdeu eleitorado ao promulgar a lei do casamento homosexual e resumiu a situação do país numa só palavra, aliás terrível: «insustentável». Falamos de Cavaco Silva, (o Silva, como dizia D. Jardim), Cavaco presidente de todos os portugueses, um político que parece ter compaixão por esta figura boschiana, ajudando-a a sustentar o barrete, a enfrentar chuvas e tormentas, a ponderar as eleições presidenciais que certamente serão protagonizadas pelo homem de Belém. Este documento jornalístico (Expresso, incluindo algum vocabulário) tem uma grandeza pictórica, uma obscuridade medieval, e é capaz de cavalgar muitas larachas insulares, multas, zangas, contradições, dívidas no estilo cubano, obras e obras que a jangada quase não suporta, uma coisa, em grande, mas a lembrar a anterior ilha de Faro.

O SACRIFÍCIO DE TÂNTALO OU O SER DE HAMLET

Sócrates, Primeiro Ministo
Tântalo foi um mitológico rei da Frígia ou da Lídia, casado com Dione. Era filho de Zeus e da princesa Plota, o que não é poca coisa.
Como sempre, Tântalo ousou, certa vez, testar a omnisciência dos deuses, pelo que roubou os manjares divinos e serviu-lhes carne do próprio filho, Pélope, num festim. Como castigo foi lançado ao Tártaro onde, num vale abundante em vegetação e água, acabou sentenciado a não poder saciar a sua fome e a sua sede, pois os ramos onde havia frutos erguiam-se para fora do seu alcance ao pretender chegar-lhes e o mesmo é com a água: se se acercava dela, o líquido escoava sem apelo.
Felizmente há outras versões em que Tântalo é admitido na mesa dos deuses por ser filho de Zeus.
Assim seja com esta personagem que parece esperar poder saciar a sede com a ajuda deste copo solitário. As histórias sobre esta personagem e as mitologias lusitanas são por vezes tão cruéis como a tremenda tentação de Tântalo -- desafiar os deuses. A perplexidade expressa nesta imagem deve fazer-nos meditar mais na nossa mitologia.

MUITA GENTE AZOUGADA E PODERES INQUIETOS

Pinto Monteiro, P.G.R

A caravana risonha da oposição, o homem que
aspira ser 1º Ministro e um 1º Ministro Sombra
Pinto Monteiro, P.G.R, diz que, apesar dos latidos que se ouvem entre as caravanas mais diversas, não se vai demitir (era o que mais faltava), embora haja em Portugal o hábito de resolver questões políticas pela via judicial. Conforme, senhor Procurador, como ainda não temos hipermercados para excepções de natureza e execução judicial, o mais certo é a vontade típica ceder à derrota antecipada, porque os actos que chegam às cerimónias da audição, coacção inquérito e julgamento, sem contar com uma possível condenação, custam tudo aos olhos da cara ou a venda clandestina de um rim. Isto está pelas horas da morte, senhor Procurador. Veja aqui mesmo, nesta nota resgatada à imprensa, o espírito laico e divertido dos próximos zeladores da nossa democracia e certamente pagadores de dívidas. Não têm o futuro que julgam, mas é preciso não os desanimar. Aliás, é o que faz o tal senhor de cabelos brancos, das finanças, que os jornais apelidam de 1º Ministro Sombra. O senhor Procurador não é sombra nem o quer ser, daí repudiar qualquer postura idêntica à da Rainha de Inglaterra. Eu, se fosse ao senhor, não desdenharia aqueles poderes, assentes, sempre que preciso, em assessores exímios e seguranças capazes de calarem o Dr, Louçã só com um sopro (de arma, está claro). Em geral, concordo que o aparelho da Justiça e suas próteses mais conhecidas estão com hábitos talibaneses, o que descredibiliza a famosa civilização ocidental. Mas devagar se vai ao longe.
Vou aconselhar a quem me lê, a leitura da sua entrevista ao expresso em que todas estas coisas (dos poderes, sobretudo) vêm, a meu ver, bem explicadas, claras e com a nobreza que não ficaria mal a uma Rainha -- ou a um rei, obviamente.
Não, não se preocupe com o Paulo. Ele tem os submarinos às costas, como todo o polítivo, em Portugal, tem sempre qualquer carga explosiva sobre os ombros. Mas o Paulo Portas já fechou as portas do Independe, o «tomba ministros». De resto, como escreve o Sousa Tavares, «há quase cem anos que Portugal é governado em obediência ao poder das corporações e a pergunta é: valeu a pena?»
Eu não sei, mas há quem saiba. E o senhor Procurador talvez pudesse esclarecer-me uma outra sequela que me intriga: que paixão é esta de dizer que a política é dos políticos e em nada se mustura com as questões judiciais? Eu não quero fazer cinzento da mistura entre preto e branco, mas os valores daquelas duas áreas, e seus objectivos, são como o ocre e o terra de Siena-- tocam-se, vêm da mesma terra. Há questões políticas claramente paralelas a questões juduciais.
Há nisso uma espécie de maniqueismo de cozinha, corte à faca, cada qual no seu galho.

sábado, agosto 07, 2010

CHUMBOS PARA A CAÇA, ADIA-SE QUEM NÃO SABE

Isabel Alçada, Ministra da Educação


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Apesar dos elogios que o Expresso dedidcou à nova decisão da Ministra Isabel Alçada, a maioria dos comentadores não percebe porque razão o todo poderoso Ministério da Educação envereda agora com a medida que acaba com os «chumbos» (expressão popular) no decurso dos estudos básicos do secundário. Esta ideia vem de longe, de um ministro engenheiro, procurava destramatizar a aprendizagem e torná-la mesmo um pouco lúdica. Desde a «invasão dos pedagogos» e das famosas «Ciências da Educação» que toda a superfície da área dos ensinos e das aprendizagens, abalada por ventos inesperados e «contranatura», ficou assim arrepiada, ora febril, ora gelada por várias tormentas. A ideia de chumbo e de um passarinho caindo ferido na asa, é brincadeira. Se pronunciarem com a tonalidade de qualquer carioca percebem logo. Quando não fui capaz de convencer o professor Delfim Santos, historiador e filósofo, de que sabia o que era o humanismo nas artes, ele interrompeu o meu exame. Daí a uma hora, na pauta, vinha a seguinte expressão a seguir ao meu nome: prova adiada. Fiquei perplexo, mas depressa compreendi que o professor era tão sofisticado e inovador naquele acto (de reprovar) como o era nas brilhantes palestras que se alargavam às áreas comuns. E percebi mais: percebi que estava a cometer um erro, contra o meu próprio estatuto de futuro pintor e professor, ao ter-me apresentado a exame com tão poucas bases em ordem ao que ouvira durante o ano.
Diz Miguel Sousa Tavares que a anterior ministra, Maria de Lurdes Rodrigues, experimentou começar a mudança por cima: pelos professores. A sua longa e desgastante tentativa de avaliar pelo mérito, responsabilizando também os professores por desajustes abaixo do razoável quanto às falhas gritantes dos alunos, foi derrotada na rua (que não na opinião pública). E foi derrotada pela mais poderosa força em defesa da mediocridadae a que já assistimos em trinta e seis anos de democracia. Diz ainda Sousa Tavares: «todos os que tiveram medo de enfrentar o lóbi dos sindicatos dos professores, com assento diário numa imprensa que prefere tomar partido pelos que berram e não pelos que têm razão», todos esses talvez venham a sofrer o desabar dos nossos interesses formativos após o rompimento da razão profunda de todas as aprendizagens. Claro que é preciso haver, durante o ano lectivo, processos de estratégia pedagógica permitindo ao professor explicar antes o que torna imperativo adiar um ano, entre conteúdos e respostas, a responsabilidade em precariedade do lado do aluno, procurando ainda algum acompanhamento atempado.
Daniel Oliveira considera que a retenção é uma questão meramente metodológica e prática. Não é uma questão de princípio. Podemos ser muito exigentes e não chumbar quase ninguém. Basta sermos bem sucedidos a transmitir conhecimento. Podemos ser facilitistas e chumbar toda a gente. Basta acharmos que a nossa principal função não é ensinar, é avaliar».
O problema da relação ensinar/avaliar terá de valer por um melhor aprofundamento do sentido
da própria vida. Não se ganha por se fazer sempre batota. Podemos adiar uma jogada, porque só dessa forma, em muitos planos do ser, seremos capazes de viajar, com clareza, pelo valor humano e técnico da jogada adiada. Falamos, enfim, de jogada ganha.

OS EVENTUAIS BEATOS DO FREEPORT NATURA

Mário Crespo

A pergunta não se dirige a Mário Crespo, obviamente, figura respeitável do nosso universo televisivo. A pergunta deve ser colocada por ele, que todos os dias, semanas e semanas a fio, tem indagado o Processo Freeport até à exaustão, um pouco em surdina, como é agora seu hábito, outras vezes interrompendo de razões algum dos muitos convidados: políticos, juristas, ecologistas, gente do mundo e do estrelato. Eu não percebo porque é que um homem desta craveira, que estudou lá pelas Américas ou coisa semelhante, se obstina desta forma com um tema vulgar, enovelado em telenovela pelos jornais e pelas malfeitorias dos julgadores de rua. Fala-se (isso já percebi) em políticos implicados, porventura o próprio 1º Ministro, na concessão de licença para a obra, colada a uma área de conservação natural, processo esse que teria trazido às mãos de alguém quantias significativas. Agora, como toda a gente já sabe, do processo resultaram dois incriminados, sendo o mesmo arquivado, resmas e resmas de papel com inquéritos e audições em torno do tema, nos quais foram ouvidas muitas e muitas personalidades de nome solene. Mas, ao darem ordem de arquivar todas essas inquirições, que sobraram da gesta do Seixal, dois procuradores vieram a correr juntar, da sua parte, 27 perguntas dirigidas ao 1º Ministro, mais um acontecimento por acontecer na corrida dos boatos e tempo disponível, cerca de seis anos. Penso: cá está o gato com o rabo de fora. Era o 1º Ministro que toda aquela gente farejava, para ser pelo menos arguido e se vendesse mais papel, se arranjasse um longo processo em caso de haver provas q.b. capazes de abalarem algum juiz, ou, enfim, se fechasse tudo, uma década mais tarde e sem indemnizações, por alegada falta de provas, porque as que pareciam bastar não comoveram uma Justiça de olhos vendados. Será esta a história do ensaio da cegueira, presumido para o futuro por Saramago? O Jornal de Sexta, da TVI, interpretado por Manuela Moura Guedes, caíu por causa desta história e ficou tudo mal contado, incluindo o desabafo do 1º Ministro, já então personagem nebulosa da história, personalidade que, desde o Freeport e do comentário feito àquele especial magazine de TVIsexta, nunca mais deixou de ser zurzida em canal aberto e até interrogado por uma Comissão de Inquérito, nomeada, para esse assunto, pela Assembleia da República.
Eu estou inocente, garanto. Estou a interrogar interrogando-me, a fim de ver para além da névoa que esconde, desde há séculos, D. Sebastião. Parece-me óbvio que Sócrates não tem condições para ousar parecer o rei sem norte. Mas, certamente, há-de perguntar a si mesmo, porque carga de água anda o Mário Crespo neste imenso pantanal, sem se cansar, descurando as suas virtudes técnicas e culturais.

sexta-feira, julho 30, 2010

MORREU ANTÓNIO FEIO: DAQUI JÁ O SAUDAMOS

António Feio
Morreu o artista António Feio, vítima de um cancro no pâncreas, contra o qual lutou de forma corajosa e usando os seus próprios meios de actor, um homem de vocação precoce e nos últimos tempos, apesar da doença, trabalhando com intensidade, com um humor de denúncia, a gritar a vida que afinal saudava contra todos os absurdos.











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António Feio, lembrado hoje, desde cedo, na televisão, foi sendo conhecido por quem (porventu-ra) só o descobrira tarde. Ali estava o menino a contracenar com Rui de Carvalho há muitos anos . Foi recordada a sua vida, o seu tempo em Moçambique e as prestações lá desenvolvidas, como depois, num outro tempo, aqui, fazendo drama (excepcional na peça onde se tratava o tema da droga). Devotado também à comédita, trabalha como encenador e professor de expressão dramática. Aprofunda largamente o vasto espaço do humor, abrangendo o seu lado absurdo, o non-sense, sem abdicar de sinais de denúncia, em diferentes paralelos, visando o real humano.
Aqui fica a nossa voz, por António Feio, sem lamentação e apesar da perda que significa a sua morte, numa altura em que o vazio acontece, injusto, na hora de uma idade ainda fecunda.

quinta-feira, julho 29, 2010

MUSEU DO CÔA COM GRAVURAS AFUNDADAS

MUSEU DO CÔA

O MUSEU DO CÔA será inaugurado amanhã, sexta-feira, 30 de Julho. A grandeza e originalidade deste projecto, além de todo o parque cuja visão de futuro e abertura ao conhecimento dos testemunhos civilizacionais da humanidade enobrece o país dos Descobrimentos, não parece capaz de resistir à crise, uma vez que, tanto quanto se sabe hoje, 29, só a Ministra da Cultura presidirá ao decorrer da cerimónia. Mas não é isso o mais importante. O mais importante (e desconcertante) é o sinal enganador com que as autoridades nos presenteiam: uma inabalável exposição temporária de gravura («Gesto e Inscrição»), com obras coleccionadas pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. São 38 trabalhos, entre os quais nove artistas portugueses, nomeadamente Pedro Cabrita Reis, Fernando Calhau, José Pedro Croft, Julião Sarmento, Michael Bibertein, Alberto Carneiro, Carlos Figueiredo, Ângelo de Sousa e Francisco Tropa.


Sendo o Museu e o complexo do Côa uma forte realidade que marcará muitos reconhecimentos de vários períodos relativos aos riscos iniciais, à emergência encantatória da arte na marcha evolutiva do Homem, terrível é o modo como os portugueses de hoje, abúlicos e manipulados pelos que julgam ser vértices da nossa inteligência, parecem incapazes de um gesto de indignação perante aquela não escolha de obras, todas de artistas respeitáveis, conhecidos sobretudo fora da gravura que nos honra, embora capazes de surgirem ali, sem regra nem abertura, pois a sua reputação curricular não os classifica como gravadores e nem é sábio Portugal fazer-se notar no início deste património com nove artistas apenas, no quadro de uma omissão irreverente e descuidada da verdade. Nem sequer é preciso ir muito longe para nos tornarmos maiores: ali faltou a coragem de nomear objectivamente GIL TEIXEIRA LOPES, BARTOLOMEU CID e DAVID DE ALMEIDA. Esta nota precisa de que se diga haver muitos mais gravadores portugueses da época moderna, mas, dedilhando as ranhuras dos antiquíssimos desenhos que nos distinguem, mais atrás e justamente poderíamos chegar ao ponto de distinguir outras figuras de outros tempos, espíritos que nos honram ainda, bem como a nossa fecundidade criadora, a arte que tanto esquecemos e dividimos. É grave que o hábito de usar cassetes modernas mas irremediavelmente afundadas além das outras faça com que as instituições próprias inaugurem este importante património com um gesto de pequenez, incapaz de se tornar velame de 500 ou lâmina da primeira implantação de um povo de pouca força, mas cuja diáspora, hoje, vale bem um resto de indignação perante arranjos com este perfil, nem crise nem sonho, gente enfim disfarçada, sem convencimentos, gente borboleta, de breve vida, nomes de ontem e de agora colocados no canto de nada, como se o mundo não os tivesse visto antes de nós mesmos. Bom era que abrissem os museus tumulares, nos quais há património de gravura que bem poderia (aqui) fazer a ponte entre a grandeza de um fragmento da nossa verdade artística específica e o horizonte longínquo no qual tanta gente retratou tantos animais, entre o desejo e da esperança.