segunda-feira, abril 11, 2011

IMAGENS E GENTE DE UM INQUIETO ACONTECER

LANÇAMENTO DESTE LIVRO NO DIA 16 DE ABRIL, ÁS 18 HORAS

NO HOTEL REAL PALÁCIO, RUA TOMÁS RIBEIRO, 115, LISBOA

Os meus apelos sempre foram de orientação pluridisciplinar, quer quando lia semanalmente «O Mundo de Aventuras», riscando, pelas horas de silêncio, perturbadoras bandas desenhadas, quer quando escrevia, numa velha remington de meu pai, histórias mais ou menos tristes, entre postais ilustrados de palácios em ruinas. Fui, desde cedo, um amador de paixões e um fabricante de brinquedos alternativos.

Terão, os amigos de agora, um fio de escolhas, aliás a oportunidade de ler este livro e reflectir sobre os modos diversos através dos quais a vida de certa gente uma família inteira, por exemplo se concentra e dissolve em planos de imagens inquietantes, a maior das nossas aprendizagens, sem métrica, matemática ou redutores automatismos. Há aqui, de certa maneira, histórias de vida, o enlace a nossa falsa inocência (em meninos) com a palpitação do desejo e do sonho na chegada da razão e da consciência, assim entre a infinidade das percepções enganadoras e os encobrimentos de uma privacidade inalienável.

Viagem dura, enquanto os parentes faleciam e eram enterrados em cemitérios de cal. O trajecto, depois de uma longa e mística travessia do Alentejo, até Lisboa, desconhecida, sem medida nem paz. O tempo, nos cadernos de confissão, voltava atrás, fazia-me visitar as praias, adiantando-se depois até aos trinta anos, para novos olhares a montante e a jusante, sob as sombrias abóbadas da Escola Superior de Belas Artes. Eis como este livro trata de um acontecer inquieto, arrancado à terra, à vida e à morte da família, enquanto se convocam, pela arte, partidas e retornos, memória dos desentendimentos entre pessoas, a sua difícil condição humana. Os velhos professores da memória académica ensinavam coisas elementares e deixavam a aula repousar em silêncio, propícia para a leitura do «Diário de Notícias». Ficávamos, pelo menos, a saber, que o valor lumínico do nariz estava bem acima dos valores baixos, sombras sob o queixo. Apesar de tudo, das acusações conra a precariedade do ensino artístico tutelado na cópia dos Columbanos e Velosos Salgados, não fui molestado nas Belas Artes, nem nada nem ninguém tentou furar-me os olhos.

quarta-feira, março 30, 2011

S0UAD MARSSI, ARGÉLIA, CANÇÕES POLITIZADAS

Souad Massi

Souad Massi, quando nos olha, é já um acontecimento perturbante. Quando o seu olhar se consolidava (vivia ela junto do pai e ouvia-o cantarolar canções árabes tradicionais, a par da mãe que ouvia pela rádio James Brown e outros ícones da música anericana) já os seus dons de sensibilidade musical lhe brotavam nos lábios.

É um caso recente mas, a bem dizer, quase todos os verdadeiros casos são recentes. Por vezes, cedo demais, apodrecem depressa mas a fala das plausíveis raridades dá a volta ao mundo espalhando pela distância a força e a distenção dos músculos, cordas vocais fidelíssima ao directório das verdadeiras vocações.

Li no Público que a música da argelina Souad Marssi reflecte ascendências próprias, respirando o ambiente da tradição musical magrebina misturado com a folk, o rock ou o funk. Há mais de uma década que vive em Paris para onde foi desiludida com o clima político do país natal. Mas continua a visitar a Argélia, matando saudades da família. Canta em árabe. Também em francês ou em inglês.

É, com os músicos habituais que actua, daqui a dias, na Fundação Gulbenkian, no ciclo das Músicas do mundo.

Ao lhe perguntarem o que achava da actual situação da mulher, a sua resposta parece emergir do seu lado ainda inocente:

«Quando era jovem era um dia (o da mulher) que me dizia muito, porque sabia que havia mulheres que se tinham revoltado, lutando pela implementação dos seus direitos. Hoje continuam a existir muitas injustiças em torno das mulheres, como as diferenças salariais em relação aos homens, embora me pareça que a situação mudou para melhor, principalmente na Europa. Mas ainda há muito a fazer. Em França, é como se estiesse em casa, na Argélia. Aí sou universal: falo das mulheres, da paz, do amor, para mim temas universais. Seja como for, a Argélia é um mundo à parte. Estamos abertos ao Ocidente, somos africanos, somos árabes. Depois de tempos convulsivos, alguns de nós ainda vivem a psicose da guerra civil. Mas as pessoas gostam muito do Presidente porque ele conseguiu trazer ao país alguma estabilidade, embora não gostem das pessoas que o rodeiam. Espero que, mais tarde ou mais cedo, um movimento de estudates possa fazer alguma coisa para melhorar o país».

Perguntada sobre o fenómeno da sua música, diz:

«A música sensibiliza as pessoas. Une-as. Acompanha as revoluções. Ao longo da história, todas as revoluções tiveram a sua música. esde Bob Dylan ou Joan Baez, por exemplo. É esse o poder da música, denunciar e sensibilizar, principalmente quando existe uma relação de confiança entre o público e o artista e este tem qualquer coisa de relevante a transmitir.»


DENTRO


Música politizada que tanto pode exprimir a melancolia folk como a celebração africana. É esse o universo da cantora argelina Souad Massi e é no mais profundo dessa ressonância que ouvimos em Lisboa. Algumas palavras que ela pronuncia, uma respiração e um modo de estar naturais, o modo franco e doce com que olha para a câmara, tudo isso me faz lembrar «O Estrangeiro», de Camus, e a sua cativante personagem de amor, Maria. Quando Mersault ficava deitado de costas no mar, suspenso, boiando e olhando o céu azul, Maria estava no seu pensamento.


Há personalidades que nos olham com uma sabedoria estranha, que nos atraiem para o mundo delas, tanto pelo rosto e pelas mãos enquanto falam, como pela música que espalham no mundo, de fala plural, dizendo-nos quase ao ouvido falas de há instantes que conseguimos conservar na memória para sempre. De quando em vez, elas passam por nós, murmuradas, numa despedida.

MORREU ÂNGELO DE SOUSA, PINTOR SUCINTO


pintor Ângelo de Sousa

Sempre que passava por Lisboa e me encontrava na Brasileira ou na S.N.B.A., dizia-me: «Olá, estás bom?» Claro que não esperava pela resposta porque tinha mais coisas engatilhadas para exprimir: «não tens pintado, o ensino é uma porra. Estás cansado? Olha que porra, então a gente não vê as carradas de lixo que transportas para a pintura?» Lembro-me de responder: «Tens toda a razão, vê lá, eu a produzir poética de lixo e tu a limpares esse lixo até te comsolares com uma simples linha oblíqua, de alto a baixo, na tela.». E ele, sarcástico: «Olha como ele está esperto...» Ganhámos esta guerra jocosa no dia em que nos defrontámos na minha prestação de provas de agregação universitária e eu o surpreendi diante do seu ar enfim sério, desafinando por vocação nas últimas palavras da sua argumentação. Disse mais tarde, a alguém no Porto, que o tipo ( o tipo era eu) o tinha surprendido, quer pela natureza das provas, quer pela fundamentação das respostas, sem esperas nem tibiezas. Há tempos, escreveu-me e os postais dos seus convites trazaiam agora uma reconfortante nota de humor e de amizade.


Ângelo de Sousa, vítima de uma doença grave, estava afastado da actividade artística há vários meses. Como hoje se diz no «Público», Ângelo foi «um dos protagonistas da contemporaneidade artística portuguesa, destinguindo-se sobretudo pelo seu experimentalismo e pela procura incessante de novas linguagens». Esta citação do jornal foi obtida do director do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, João Ferandes. Mas Ângelo de Sousa é claramente interior aos atrevimentos vanguardistas de Fernandes, com quem podia conviver na partilha de coisas insensatas sobre os «modelos» do tempo moderno e a sua revolução contra o lixo, a favor de um simples risco que tanto macula um monumento como o assinala para a história das escolhas. Para sintetizar o sentido da obra de Ângelo de Sousa, coisas como Algumas formas ao alcance de todos, deve acentuar-se que ele desenvolvera um importante estudo sobre as cores, aliás só usadas de esguelha ou por magníficas sobreposições nos quadros da sua geometria secreta. Ângelo de Sousa morre com 73 anos, nasceu em Moçambique, em 1938. Frequentou a Escola Superior de Belas Artes do Porto (1955) onde se formou em Pintura. Integrou, na década de 60, o grupo dos «Quatro Vintes»: artistas que tinham obtido, ao abrigo dos inflaccionismos daquela Instituição, a classificação de 20 valores, Armando Alves, Jorge Pinheiro e José Rodrigues. É depois disso (e da ironia disso) que Ângelo criou uma obra pessoal e única, que amadureceu expressando-se principalmente na pintura, embora ele também desenvolvesse outras disciplinas de índole artística, desenho, esultura, fotografia, e cinema e vídeo. Foi bolseiro da Fundação Gulbenkian para frequentar importantes escolas de Arte inglesas. Leccionou na ESBAP,depois FBAUP.

terça-feira, março 22, 2011

ARTUR AGOSTINHO FALECEU COM 90 ANOS


A morte de Artur Agostinho corresponde a um daqueles momentos em que país se espanta e descai, sob o peso da notícia, com as mãos suspensas. Tive oportunidade há pouco, à hora do almoço, de ver um homem do povo (distinto e claramente) pronunciar o nome do artista em tom interrogativo, como se tivesse ouvido uma impossibilidade. Aquele homem simples tinha consigo, como muitos portugueses, um forte apreço por este homem de todos os ecrãs, do fundo da rádio, há muitos anos, serões para trabahadores apresentados exaustivamente por ele, grande agilidade e poder criativo a reatar jogos de futebol, actor televisivo desde o início, num tempo em que já passara pelo cinema, ao ladde António Silva, com uma pronúncia inconfundível e um perfeito sentido das situações que se lhe apresentavam. Artur Agostinho foi, sem dúvida, uma das mais populares figuras públicas do país. E o mundo que nos deixa, de uma imensa variedade e bravura técnica, vai torná-lo vivo durante muito tempo. E nunca será um fóssil achado na terra submersa, daqui a milhares de anos, na área do antigo Parque Mayer.
Artur Agostinho, um dia

quarta-feira, março 16, 2011

O HORROR CÓSMICO E O SUAVE PERDÃO A DEUS


Esta é uma imagem recente da grande tragédia que se abateu sobre o Japão, um terramoto seguido de um colossal tsunami e um conjunto de efeitos secundários que colocam o país em risco nuclear, sem tornar visível as cidades que desapareceram, a devastação sem nome, entre colapsos urbanos, rodoviários e outros, além de mais de dez mil mortos. O que se passou no Japão, em pouco tempo, até nos faz desfocar o horror, então «expertimental», do primeiro lançamento das bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki. É verdade que muitos erros foram cometidos no Japão, apesar do seu enorme avanço tecnológico, e já na sua reconstrução avançada ainda se escolheram zonas de falhas sísmicas para implantar centrais nucleares. A grande quantidade de energia nuclear de que o Japão dispõe não passa, contudo, de 20% do total de que necessita. Se Hiroshima pode ser considerada como uma estratégia de guerra, e portanto como um erro humano, a realidade actual (num universo que não percebemos o que seja nem se ele é regido de alguma forma) teria então de ser interpretada como um erro de Deus.
Com as seguintes imagens, procurei chamar a atenção para a notícia e para o absurdo dela, em extensão e non-sense: não tanto a brutalidade do tremor de terra e a devastação que durou cerca de cinco minutos, seguida nos dias seguintes por centenas de outras; não tanto a já habitual formação de tsunamis com ondas de dez metros de altura e penetração de 12 quilómetros pelo território cada vez mais desfeito; e nem sequer o que que acontece com as centrais nucleares cujo colapso relativo lançou para a atmosfera uma onda de gás radioactivo cujas consequências conhecidas promovem a evacuação de largas áreas habitadas e empurra os próprios japoneses a tentarem abandonar a sua terra, os seus haveres, procurando noutra parte do mundo uma eventual salvação.
Detalhe entre os detalhes: a beleza solitária de uma rapariga que chora entre os destroços e os planos sucessivos, até ao azul, de montes de ruínas, perdas de tudo e, em especial, de vidas humanas.
Ferreira Fernandes escreveu no «Diário de Notícias»: «Como é possível darmo-nos conta do que é um terramoto de grau 9, um tsunami de dez metros e explosões em três reactores nucleares, se quem os vive grita menos do que um repórter televisivo sobre as pedradas de camionistas na rotunda do Carregado?»


Esta vítima da tragédia que se abateu sobre o Japão, mais parece um anjo de asas decepadas e ainda capaz de olhar para o futuro através dos mortos e destroços em volta.
Ferreira Fernandes escreveu no «Diário de Notícias»: «No Japão, um pai agradece o telefone da SIC, emprestado para avisar o filho, na América, de que está vivo. À volta é um mar de lama que pousou sobre a sua cidade e a calou (arrasou, diria eu, se essa mesma palavra não fosse usada nos jornais portugueses de cada vez que Pinto da Costa fala de um árbitro).»
E com esse cenário de fogo, de água e de ar apocalípticos, o japonês disse ao filho que nem tudo eram tristezas.
Poderemos nós, agora, enquanto arriscamos o país a cair numa tragédia gerada pelas mãos humanas e por atritos infinitamente escassos, dizer que a esperança cabe em dez dias e que, se iniciámos a construção do TGV em plena crise finaceira, isso é infinitamente menos do que pretendem fazer os japoneses: reconstruir para o ano a cidade de Sendai.

SEM BRIGAS E EXCLUSIVISMOS PACHECO ENSINA

OS HOMENS PARECEM TODOS IGUAIS, POR DENTRO
E POR FORA. A IMPRESSÃO DIGITAL DESEMGANA-NOS,
DEMONSTRA, AO MICROSCÓPIO, QUE NÃO HÁ UM
DESSES «DESENHOS» IGUAL AO OUTRO

DINAMITE CEREBRAL
SOLIDÃO DO PENSAMENTO

Pacheco Pereira, figura das mais relevantes e mediáticas do nosso meio, é sem dúvida uma personalidade de grande recorte intelectual no país, senhor de diversos aprofundamentos históricos e sócio-políticos, parlamentar emérito, colaborador em jornais e revistas, comentador com larga presença na televisão, professor universitário. A sua trajectória nos meios de comunicação social (ganhou logo audiência na rádio) tem sido vertiginosa, plural, competitiva e competente, excepto no que se aponta ao seu carácter impositivo, sobreponível aos outros, que conquista adeptos e inimigos. Adeptos por vezes maneiristas e demasiado seguidistas, inimigos sobretudo de ordem política, quando Pacheco comete excessos e se reclama, sem razão, de uma razão que outros já superaram. Seja como for, Portugal de hoje só é caracterizável se se tiver na devida conta personalidades como Pacheco Pereira, o Magalhães que sempre soçobrava ao garrido palavreado daquele colega na rádio («Flash Back»), o Santana, os homens da Federação Portuguesa de Futebol, o Cardeal Patriarca e, em sisifianas tarefas, Cavaco Silva, Presidente da República, Sócrates e Passos Coelho, um em actividade controversa e outro em contraponto amuado. Em todas as importantes prestações que Pacheco Pereira tem oferecido ao país, além daquele programa da rádio, da televisão, dos comentários político-artidários, poderiamos destacar o já pesadote A QUADRATURA DO CÍRCULO, por vezes a funcionar como «Círculo da Quadratura. Seguir debates e teorias sobre a política portuguesa e política em geral, eis o que muita gente faz com a ajuda das prestações da Pacheco Pereira. Por mim, fui ganhando cansaço, porque a comunicação audio-visual de Pacheco em grupo, pequeno ou grande, tanto faz, ele rompe com todas as regras da síntese, da inteligibilidade, da desmontagem não ardilosa de um tema. Suponho que quase todos os seguidores deste protagonista da vida nacional, pelo menos os menos mitificadores e mais abertos à circulação das ideias, já se aperceberam que a notoriedade do (personagem) não corresponde à qualidade. É um mau comunicador, porque não respeita os parceiros, os telespectadores ou presentes, nem se respeita a si mesmo. O mensageiro apaga a mensagem. Pensei muito vez: como será este homem enquanto docente? Como será este indivíduo num programa de uma só pessoa? Ele-mesmo?

Finalmente, num canal televisivo, chegou-nos a resposta: sentado a uma mesa, num cenário azulado e graficamente singelo, uma perna à frente, outra atrás, evocando ambiguamente a situação de quem está num café, Fernando Pesssoa ocorre, o lettring não nos trai: o desassossego da dinamite cerebral corrobora a solidão do pensamento.

Neste programa, José Pacheco Pereira, sem arrogância e sem complacências desnecessárias, dá-nos a ver e a entender algumas questões que, no quotidiano, tantas vezes nos iludem ou enganam grosseiramente: a encenação parte do ponto comunicador e a edição respeita um certo espaço ortogonal onde o centro e o tema são convocados. Há mesmo o escrúpulo exemplar, para uma televisão em geral trapalhona, em accionar uma câmara na perpendicular exacta, que nos mostra (portanto em plongé) muitos dos materiais que o comunicador analisa. E aí vemos surgir erros gráficos e jornalísticos de uma velha preguiça do fazer ou imposta pelo negócio, o peso e a composição dos elementos, porquê e para quê. Os jornalistas têm muito a aprender nesse aspecto, embora tudo seja sucinto mas certeiro. Outros pontos e contrapontos surgem, num roteiro bem ordenado, numa abordagem isenta das coisas vistas e pensadas, como é o nosso quotidiano e a realidade em que nos movemos, entre problemas que tocam a antropologia e a sociologia, a estética e a poética das coisas e das palavras.

O tema que desmonta uma certa realidade, dinamite cerebral, conjuga-se com a solidão do pensamento, o acto de dar a ver o que é próprio da nossa condição intrínseca de ser, pensar e agir.

A GERAÇÃO DESENRRASCADA EM LIBERDADE

Aspecto de um protesto em euforia pacífica. A geração que hoje estuda e ainda sonha com um futuro digno, talvez possível, em Portugal, se todos aceitarem uma vida económica, pacata, regada por cerveja e tremoços, tertúlias futebolísticas, férias de trabalho a limpar as Matas, entre muitas outras coisas com esta configuração de esquerda iluminada e humilde. Assim será possível sobeviver, aguentar os furacões, ondas gigantes, terramotos, guerras locais e nucleares, atmosferas poluídas, comida frugal - tudo sem publicidade, nem divertimentos massificantes, entre pequenos passeios em pequenos automóveis eléctricos, com paragem de meia hora, nos postos de abastecimento.
Não é preciso trabalhar muito para manter um país vivo. É mais limpo e mais saudável. Poderá mesmo dispensar-se a moeda, em grande número de trocas e actividades. Há certas procuras de conhecimento que mudarão de forma substancial, porque se investigará mais para um quotidiano passeante do que para largadas de competitividade (uma palavra obsoleta inventada nos programas eleitorais dos partidos políticos e no espaço dos empreendedores.) Esta última palavra, mais usada no séulo XXI, pertence a um pensamento ligado à enconomia e à religião. O empeendorismo em Fátima, largou das hostes em bancarrota, peregrinos pedindo o passado, e teve de criar uma nova cidade a fim de produzir, para o país e o resto do mundo, incluindo China, Índia, Estados Unidos, Brasil, Angola, África do Sul, Indonésia, pequenos objectos electrónicos com jogos, informação geral, história das religiões, telefone sem imagem nem câmara. Entre estes exemplos, e muitos mais, o mundo destituído de armas, máquinas, sistemas energéticos proibitivos, ladrões, gurus, políticos ligados aos sistemas do século XX. Com os aparelhos de leitura, haverá chaves de casa, do automóvel, das caixas nos antigos bancos, mapas das cidades, servições ainda exploradas. Este caldo de cultura tem, para a história, uma vantagem: é que tornará desnecessário os serviços de saúde, os ajuntamentos no futebol, os endireitas, os juizos, a produção em biliões e biliões de unidades em casos como a cosmética, os desportos de risco, os cursos chatos, as creches, e até, em muitos casos, os empregos, porque a autosubsistência, inspirada no Oriente, fará de cada família uma unidade bastante, eventual cooperante, com outras, nas novas cidades de uma dezena de milhares de habitantes. Essa opção, além de integrar os seres humanos no meio, usa o que ele dá e renova naturalmente. Os doentes com AVC, cancros, doenças degenerativas dos vários sistemas, patologias nervosas, enfartes, tromboses, insuficiências renais, depressões, para citar apenas o mais óbvio, libertará os espaços onde as multidões se amontuam, tossindo, escarrando, sempre à espera de uma consulta, doentes profissionais. Muitas das chamadas doenças modernas regredirão para níveis de há milénios, quando ainda não existiam praticamente. Esta perspectiva que começa a desenvolver-se com a crise da globalização, tende à pacificação das sociedades, à unificação das religiões, à morte dos privilégios milionários. Apesar de tudo, os peregrinos de Fátima continuarão a calcorrear a berma das estradas, pois as religões terão como prece a marcha moderada, exercícios físicos e novas técnicas de reflexão.

Estes exemplos, de 2011, mostram o início da época dos passos.
O cartaz inclui uma verdade simples, ninguem deve viver acima
de ninguém.
Seculo XXI: a grande marcha desenrrascada

sábado, fevereiro 12, 2011

A VONTADE POPULAR QUE DESTRONOU O FARAÓ

Aspecto geral (nocturno) da praça Central do Cairo, Egipto, no auge do delírio libertário, noite de 11 de Fevereiro de 2010, quando o Presidente Mubarak acabou por ceder às pressões nacionais e internacionais e abandonou o poder, delegando no Exército a coordenação das operações de transição. Este homem que governou o Egipto durante 30 anos, e sucumbira às obscuridades dos manipuladores do poder, manteve-se agarrado à lógica anterior num discurso em que apelava à unidade. Por sua parte, depois de duas semanas de resistência, Mubarak afirmou não ter intenções de se candidatar a novo mandato, em Setembro, devendo o país reorganizar-se a partir daí. A expectativa colossal em que se mantinha a multidão, silenciosa, de olhos ao alto, explodiu ao sentir-se traída desta maneira. O que terá acontecido entre os restantes membbros activos da presidência, logo a seguir à emissão do discurso, só um dia se saberá. É que, pouco tempo depois de haver reiterado o seu cargo, Mubarak optou por se demitir. A notícia fez explodir a alegria dos egípcios ali concentrados. A liberdade passa por aqui! - - dizia-se. Graças a
Deus! O Egipto é um país livre!
O grito da liberdade


A voz do povo transcende as habituais esperas e negociações entre grupos em conflito. Há os que temem a dificuldade de fazer esta transição de forma sustentada e profícua. Sabe-se, todavia, algumas coisas importantes. Há dados de naturesa assinalável: muitas das pessoas que se manifestaram eram nacionalistas de boa educação, indivíduos que vivem em cidades e que querem ter oportunidade de construir uma democracia que lhes permita viver melhor. Não nos podemos dissociar dos factos históricos desde a fundação do Egipto moderno, a falta de tradição democrática, a fragilidade das instituições, embora o Exército possa, dada a sua força e o apoio do povo e de potências aliadas, criar as estruturas constitucionais para a formação de um país cujos meios podem alargar-se e comsolidar-se acima do mais.


Uma frase «lapidar» de Mubarak quando falou ao país,
sustentando a sua continuidade no poder até setembro.

Dentro e fora do país, em nações como a Rússia, as multidões criaram fenómenos de contaminação considerável. Os gritos e os sinais da nova situação, apoiada pelos militares, permite ter como fiáveis uma transformação bem sustentada do Egipto

Um curioso acto de fé

O poder está agora nas mãos do Conselho Supremo das Forças Armadas. A revolução não poupou o número dois do regime, Omar Suleimam, que a maioria dos manifestantes da praça Thair dizia ser a extensão de Mubarak Depois de tudo o que de trágico e de eufórico aconteunaquele lugar (Thair) nas últimas semanas, havia que dar o salto e tentar uma manobra mais arrojada: uma marcha até ao próprio palácio presidencial

a dada altura, surgiu a notícia de que Mubarak
estava em fuga. Apesar das dúvidas imediatas, os sinais penderam para uma verdade há muito esperada, numa luta sem armas. Afinal foi a festa

ANIVERSÁRIO E HISTÓRIAS DE PAULA REGO

Paula Rego
Dia de aniversário para Paula Rego, uma das mais importantes artistas portuguesas e europeias, e dia de júbilo para quem aprecia a sua obra, desde os anos 60, ou para quem, de alguma forma, se reconhce nela. Trabalhava eu no Suplemento Literário do «Diário de Lisboa» e para séries sobre arte da RTP1, tive o privilégio de ser uma das primeiras pessoas a entrevistar a pintora, na altura em que se documentava a sua primeira exposição individual em Lisboa, Galeria de Arte Moderna da S.N.B.
Durante algum tempo, a equipa de reportagem filmou a pintora Paula Rego, ainda jovem, a colar e a pintar estranhas formas sobre um suporte horizontal apoiado no chão. O que sobrou da edição desse trabalho, teria bastado para um poema audio-visual projectável integradamente em rubricas culturais. Foi lamentável, contudo, a imagem a preto e branco, porque aconteceu numa altura em que a cor ainda não tinha chegado à RTP.
fragmento de uma peça de Paula Rego

fragmento de um mural a tinta de água de Paula Rego


Quando se fez uma pausa técnica durante as filmagens atrás referidas, aproveitou-se o tempo para a entrevista que haviamos combinado com a artista, eu e ela sentados perto de uma janela. Só nesse instante, perto um do outro, é que me apercebi da invulgar beleza daquele rosto, da sua modelação suave, da busca das palavras, entre gestos vagos, palavras que pareciam ter pouco a ver umas com as outras. Já faziam lembrar as histórias que Paula Rego veio a desenvolver mais tarde, desde um clima surreal e onírico até a uma espécie de realismo expressionista, passando pelos desenhos de grande escala, em pinceladas livres, que podemos observar no segundo fragmento de uma das suas mais decisivas histórias, nesta técnica, que se desenrolavam como desenhos para crianças, percorríveis ao longo da sua alegria, ruído e musicalidade. (2ª imagem).
Quando perguntei a Paula se a sua pintura atendia ao real, nos seus instantes e nos seus protagonistas,
ela pareceu meditar muito, com os olhos parados.
Mas de súbito, disse, com a voz na garganta:
Sim, clado que sim. (pausa) Mas porque pergunta?
Vejo-a como se estivesse alheia a esse problema, recortando papéis e colando, recortando e pintado.
(El a riu-se brevemente):
Eu não sei o que é a pintura e o que é o real. Mas tenho uma ideia. Não pinto porque exista o real e porque ache que ele tem de ser atendido. Ou talvez melhor: entendido. (pausa, tinha um dedo na boca e recomeçara a pensar): Olhe, eu sei que o real é importante para certos artistas. Eu gosto mais de reflectir sobre a realidade da pintura. É um jogo, sabe, e por vezes regista coisas da nossa vida. Faço-a com a colaboração dos meus filhos, dos seus rabiscos, das suas pinceladas, formas a que eles chamam nomes de bichos. (Apontando ao quadro, no chão) Veja, estão ali, são papéis, bocados dos riscos deles, um cão com o rabo de fora, flores, e o meu arranjo por dentro e por fora. Ao contar estas histórias, talvez absurdas, sinto-me de novo menina. Menina sujando tudo em volta.
Os seus quadros, os que vimos na SNBA, são por vezes gritos do tempo passado, episódios da história do país. Ou não?
(Ela olhou-me, num frio segundo, e disse:)
Mas quando pintei esses quadros, além da saudade, havia perdido pelo menos uma pessoa importante. A morte pode não provocar dor mas imobiliza-nos a pensar. Seja como for, eu estava estudando histórias da História, «O Regicídio», por exemplo. Não é só o rei que morre, é uma parte do nosso país que se perde.
Acha?
Sim, porque não? Um amigo meu disse que esse quadro, bem como outros desse género, lembram menos o meu olhar e mais as minhas mãos. Ele gosta das cartolinas cortadas. Ou de mim. Mas as histórias da História, embora sejam também engraçadas, devem ter... ter mais permanência.
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Este excerto, reelaborado da gravação para a TV, dá-nos
um discurso muito mais estranho do que esta parte mais
«líquida». Paula, para o fim do nosso «tempo», lembrava
certas falas do teatro de Becket. Hoje continua bem aten-
ta, ainda muito activa, desvendando nas histórias de que
não se lembra cenas e sequências que nem a represen-
tação pode sustentar.

quarta-feira, janeiro 05, 2011

MORREU O PINTOR MOÇAMBICANO MALANGATANA

pintor Malangatana

pintura de Malangatana

O pintor moçambicano Malangatana morreu esta madrugada, aos 74 anos, no Hospital Pedro Hispano. O seu início de carreira pública começou há 50 anos, quando vendeu os primeiros quadros. O produto dessa venda permitiu-lhe arranjar uma casa e recolher a família em Maputo. Malangatana Valente Ngwenya nasceu a 6 de Junho de 1936, em Matalana, povoação que se situava perto da então Lourenço Marques, hoje Maputo. Meio século depois de ter aportado à vida urbana, morreu de doença grave, um grande amigo de Portugal, um dos moçambicanos mais conhecidos, um homem do mundo sempre dedicado ao trabalho artístico.
Foi pastor, aprendeu ritos e propiciações como curandeiro, tornou-se empregado doméstico. Tendo vivido com o avô paterno e estudado até à terceira classe, aos 11 anos já começara a trabalhar, porque o seu estatuto lhe permitia aceder a diversas actividades, inclusive a de cuidador de meninos.
Em boa verdade, Malangatana foi mais do que pintor, no sentido de género que subsistia à altura, há cinquanta anos. Ele fez cerâmica, tapeçaria, gravura e escultura. Como artista de um tempo de pesquisas, a sua imaginação levou-o a experimentar areia, conchas, pedras e raízes. Mas também fez poesia, assumiu a condição de actor, dançarino, músico, dinalmizador cultural, organizador de festivais, e até deputado pela FRELIM.
Seja como for, a sua vivência junto dos colonos portugueses, durante a adolescência, permitiu-lhe assimilar as questões da pintura. Augusto Cabral, biólogo e artista plástico, iniciou-o nessa arte. E mais tarde trabalhou sob orientação do arquitecto Pancho Guedes, o qual lhe disponibilizou um espaço na garagem de sua casa em Maputo e lhe comprou quadros, inflaccionando os preços.


Nesta peregrinação da vida e da arte, Malangatana mostrou-se interessado, bem cedo, em fazer uma exposição de pintura. Para espanto de Augusto Cabral, a exposição foi um sucesso.
Desde as imagens da Matalana, local de uma infância tutelada e de estudos primários, a pintura de Malangatana nunca mais parou de ter sucesso e o autor de criar círculos de amigos, em Moçambique, Portugal, no estrangeiro. O seu confronto com o mundo e o entrosamento com as raízes e povos da sua terra, viriam marcar, de forma profunda, os quadros que pintou, longamente povoados pelas massas populares, gente que nos olha, nos avalia, nos espera ou nos ouve. Tanto na pintura mural com na pintura em tela, entre aventuras de invenção plástica, forças e fraquezas humana, este homem absorveu sempre um manancial de temas a abordar e nos quais o homem, em pausa, era o centro da festa ou da perplexidade. Olhava também para os acontecimentos do mundo, tristes ou alegres, e por muito que se discuta parte dos clichés, para alguns o estilo, a verdade é que a maior parte da obra de Malangatana está cheia de paisagens humanas, dores, esperanças, da coesão comunitária também.
Malangatana sempre reiterou sentir uma grande aproximação pelos artistas portugueses, sobretudo desde os anos 70, nomeadamente durante o período em que foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. Essa relação honra o pintor e os artistas de Portugal.
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N. Parte deste texto corresponde-se ou cita nota do Público

sexta-feira, dezembro 31, 2010

GOSTO CEGO DA MODA OU LENDA DE AUSCHWITZ?


CARTAZ DA CAMPANHA DE CHOQUE CONTRA A DOENÇA
A MORTE DO MODELO ISABELLE CARO PODE SENSIBILIZAR
OUTRAS DOENTES SOFRENDO DE ANOREXIA
EM ANALOGIA COM A BULIMIA, MAIS LIGADA
A CAUSAS CULTURAIS, EM PARTICULAR AS DA MODA
A morte de Isabelle Caro alerta muita gente jovem para os arquétipos de beleza instituídos através da indústria do vestuário. Ela própria acabou por reagir na altura em que se viu num ponto de muita gravidade: era tarde, não havia retorno.
Isabelle Caro tornou-se um caso preocupante, em 2007, quando expôs o seu corpo esquelético num cartaz cujo contexto evoca a moda, procurando assim denunciar os efeitos da anorexia nervosa, doença que a fez entrar em coma no ano de 2006, quando pesava apenas 25 quilos. «Esta foto sem roupa nem maquilhagem não me favorece. A mensagem é forte: tenho psoríase, o peito descaído, um corpo de pessoa idosa».
Nas doenças do comportamento alimentar a percentagem de casos aumentou com as induções da padronização dos corpos magros como modelo de beleza. A anorexia nervosa é rara, tem uma prevalência de o,4 por cada mil, referiu há pouco tempo Daniel Sampaio. «Mais frequente entre as jovens é a bulimia nervosa, que afecta duas pessoas em cada mil.» A bulimia tem causas mais culturais, é menos influenciada pela genética, ligando-se com razoável nitidez às escolhas contextuais da moda, à sua mitologia de perfil neurótico, o que vai alargando as atitudes críticas a este mundo ao mesmo tempo risível e patético. Os desfiles em passerelle ganham um aspecto aterrador, de péssimo gosto, em nome de uma estética afinal falseada, com raparigas muito novas, desnutridas até ao absurdo, metendo os pés para dentro porque lhes ensinaram a andar sem desalinho, acabando por trocar frequentemente as pernas, perdendo a pose do tronco cuja ideia de gentileza mais se aproxima de uma caricatura dançante.
As modelos têm sido focadas mediaticamente por tais desempenhos, fruto de uma alimentação inaceitável. Quando morreu a manequim brasileira Ana Carolina Reston, em 2006, foram impostas regras, um pouco em todo o mundo, para definir o peso mínimo que as modelos deviam ter para entrar na profissão e participar nos desfiles. Ana Carolina Reston só comia tomates e maçãs. Aos 21 anos pesava 46 quilos.
Hoje, nos hospitais e Centros de Saúde, há mais vigilância para estes casos. O factor moda é confrontador com tal problemática. Como sempre, os grandes interesses de certos sectores industriais ou do espectáculo, onde a moda tem de ser rigorosamente incluída, contribuem amplamente para estes desacertos e efeitos de sub-culturas em torno do homem, da sua beleza e da realidade natural do seu corpo. O desenvolvimento de muitos destes «costureiros de luxo», de aparecimento eufemístico no fim dos desfiles, tem de ser controlado, quer na qualidade medonha do que por vezes fazem passar (não em venda, supõe muita gente) quer na saúde e boa estrutura física das modelos, gente jovem submetida a regimes de trabalho e conservação física fora dos óbvios direitos que lhes assiste na profissão. A liberdade de se suicidarem desta forma não corresponde a nenhum direito fundamental da pessoa humana.

quinta-feira, dezembro 23, 2010

LUTAS E ERROS NATURAIS GRITAM MAIS MORTES


desastres naturais

A Europa, após uma história onde grandes tragédias se produziram, gerando milhões de mortos e milhares de derrocadas do património construido, Dresden só ruínas e silencios no limite, foi reconstruída no século em que, por duas vezes, esteve à beira do abismo ou do suicídio. Foi no século passado, século XX, estranhamente uma das épocas em que as revoluções industriais e as descobertas tecnológicas chegaram mais longe, tendo o homem aflorado o vazio do espaço cósmico e viajado, várias vezes, até à Lua, que o homem pareceu capaz de representar o futuro e anunciar a utopia das emigrações entre mundos. Mas essa Europa, trazendo consigo a memória da reconstrução e os efeitos de novos arranjos sociais, entre a defesa de direitos naturais e a concepção de novas estruturas sócio-políticas, chegou ao século XXI como uma grande instalação comunitária, na perspectiva de criar um outro espaço de poder, dotado de moeda única, congregando a adesão de dezenas de países em torno do que parecia ser a coroação de uma ideia solidária, de uma partilha do bem estar e da gestão de recursos entre todos, reguladamente, respeitosamente, segundo tratados que evoluiram de fase em fase, até ao último nesta data, o tratado de Lisboa. A breve trecho, apesar da entrega de fundos aos países menos evoluídos, tendo em conta a consolidação de meios de produção e atributos circulando livremente nas trocas de todos os tipos, algo de demasiado coordenado, calibrado, cotado, entre limites disto e daquilo sem um verdadeiro aprofundamendo das virtualidades de cada região, história, cultura, criação de bens e processos de trabalho na qualidade, começou por ensombrar uma visão menos burocrática das coisas, alargou-se insidiosamente por sinais da ordem das tecnocracias. As regras vieram desabar um pouco por toda a parte, abstractamente ditadas de Bruxelas, coração da agora chamada União Europeia. A arquitectura de minúcias começou a obstruir países periféricos, como a Grécia, a Espanha, Portugal, a Irlanda enfim, com sintomas de que a pulverização económica e os desastres financeiros à escala planetária fazem parte de contaminações absurdas e de uma espécie de super-máfia que tudo pode influenciar, tudo pode distorcer, tudo pode infectar até um novo abismo cuja fractura absorvente é preciso a todo o custo evitar, invertendo as seduções que a uma espécie apocalipse vão conduzindo, sendo geradas pelos sistemas económicos enfeudados à volúpia do crescimento, da riqueza, do endividamento, de tudo, enfim, cuja natureza deveria ter sido sonhada ao contrário.

Se a imagem aqui reproduzida traduz um dos maiores desastres naturais, entre muitos outros que o próprio homem tem ajudado a convocar, outras vão surgindo, entre a fúria dos elementos e a disputa dos homens em torno de novos poderes e de novas grandezas um dia abaladas como o foram as Torres Gémeas ou a imensa fraude financeira expedida por Wall Street. A América vergou os joelhos, a esperança tão bem traduzida por Obama foi confrontada com todos os desesperos emergentes. Na Europa também, e pelos mesmos pecados, enquanto os maiores operadores da especulação de valores monetários se crisparam contra o euro, através das maiores fragilidades e poupando o poder nuclear que representam a Alemanha, a França, a Inglaterra. As assimetrias abriram fendas por todos os lados, o cataclismo lembra os outros, os naturais, que tantos milhões de mortos fizeram. Com uma orientação destas, assombrando as soberanias nacionais, os tecnocratas de Bruxelas, economistas sobretudo, não vão longe. As uniformidades que vergam regiões, países pequenos mas antigos e de culturas profundas, a um quadro sem metas proporcionais, são traçados que rasgam no mundo as maiores e mais perigosas assimetrias.

Parafraseando uma nota de Pacheco Pereira, direi como ele: «só há um mérito no actual impasse europeu, é as pessoas poderem perceber melhor uma realidade que já existia antes e que se negavam a admitir. Esta realidade é a das relações de força que levam a uma evolução da União Europeia para uma oligarquia, quase uma duarquia, europeia, que decide em função dos seus interesses nacionais e não de um ¨espírito europeu.¨
«A retórica europeísta parece ser hoje pouco mais do que uma muleta dos necessitados para que os salvem da situação de desespero. Mas, se as pessoas percebem melhor aquilo que no optimismo beato europeu não queriam ver, convinha que compreendessem também que o que vai acontecer é que os que precisam vão ficar cada vez mais federalistas e integracionistas, e os que não precsam cada ves mais nacionalistas. Ou seja: não ae aprendeu nada.»

sexta-feira, dezembro 17, 2010

OUT OF CONTEXT - FOR PINA | ALAIN PLATEL

imagens apresentasa pelo Público


Trata-se de uma peça grandiosa, onde o corpo refloresce a cada instante, composição cénica que nos mobiliza intensamente o olhar: algo que parece surgir-nos pela primeira vez, em estado de absoluta recepção: OUT OF CONTEXT-FOR PINA. É, de facto, um decisivo encontro cheio de reencontros e por eles as marcas de Pina Bausch. Ela dizia que a liberdade característica do seu movimento vinha do imenso trabalho que nele colocava. Esta ideia é, porventura, uma linha convocada para a peça aqui referida.
SObre esta obra, as palavras iniciais de Tiago Bartolomeu são justas e comoventes: «Com Out of Context -for Pina é um outro Alain Platel que se apresenta. Não há efeitps cenográficos vorazes, nem uma arqui-estrutura que esmaga. Não há sequer um fio que nos conduza. Mas há, como sempre, corpos que parecem vir de um outro mundo, e, por virem de longe, nos surpreendem com o modo como se relevam, intensos, presentes, inteiros. (...) São corpos praticamente nus, embrulhados em cobertores, que falam pouco; e, quando o fazem, citam ridículas canções de amor. São corpo mudos, ou quase mudos, que usam o movimento não como matéria para a acção, mas como a própria acção. E, por isso, mais do que corpos, são espectros que deanbulam num palco vazio, imersos numa paisagem sonora hipnotizante, à espera de nada. À espera de nós.
Esta obra pode parecer «fora de contexto», mas apenas porque se oferece a Pina Bausch e a relembra no ser, na inovação, naquela forma como Pina levava aos corpos a revelação de uma brisa, ou o prazer e o medo do corpo movendo-se sobre a chuva. «Alain Platel, 51 anos, coreógrafo que se reinventou depois de mais de vinte anos à procura de uma ordem para o seu movimento, fala-nos hoje de um lugar mais sereno, onde a urgência tem mais a ver com o presente do que com o futuro.
Segunda-feira, 20, em Lisboa, no Teatro Maria Matos

CARLOS PINTO COELHO, COMO FALAR DE CULTURA

foto publicada no Público
CARLOS PINTO COELHO (1944-2010) falecido anteontem, aos 66anos, com problema cardio-vascular a cuja intervenção cirúrgica não resistiu. Jornalista de mérito, apresentador de televisão, com uma forma singular de falar de cultura, distingiu-se particularmente com o programa ACONTECE, durante uma década, facto profissional que lhe conferiu grande visibiidade. Hiperactivo, o seu curríulo, exposto pelos jornais, dá bem a determinação com que trabalho. Foi, com um ano de idade, para Moçambique: viveu em Lourenço Marques até aos 19 anos, altura em que regressou a Portugal. José Nunes Martins disse dele: «Fica como um personagem luminoso na televisão portuguesa.

domingo, novembro 28, 2010

PERFORMANCE DOS MASSACRES CIRCUNSTANCIAIS

dos jornais
Cimeira da NATO, um dia ao acaso da rua, gente nova agregou-se num ponto de Lisboa, ao Chiado, e fingiu morrer num massacre que algumas vozes, falando para o mundo, atribuíram a uma acção militar daquele organismo do tempo da Guerra Fria. Esta gente tem, pelo menos, memória de filmes e notícias visuais de situações destas, porque a representação performativa foi momentaneamente convincente. Os protagonistas, por certo, nasceram quase todos muito tarde para saber do que falavam, exprimimdo à porta de casa que não aconteceram ou nunca foram assim. Fora da história, alheios aos verdadeiros massacres, estes jovens podem tornar a catarse apenas em mimetismo lúdico, efectivamente descomprometido.
Nada me liga especialmente ao estudo sobre a NATO, mas fui do tempo em que esse organismo se constituíu e acompanhei sempre os factos e reuniões que se lhe referiram. A organização para defesa do Atlântico Norte fez parte, até há pouco, do medo mútuo do Bloco de Leste e dos Estados Unidos da América: as suas restrições envolviam fronteiras geoestratégicas cujo sentido se perdeu ao cair o Muro de Berlim, sobretudo à medida que a Rússia enveredava por um modelo de regime aceitante dos mercados e de muitas das heresias capitalistas. Conservar a mesma designação, porventura com a mesma estrutura militar, em princípios e equipamento, parece mais um acto de sobrevivência de certa força pronta para se gerir em expansão do que uma cordial adaptação do mundo entre a América e a Rússia, geografia política cujo verdadeiro fim lembra forças emergentes mais a leste, poderosas, competitivas, talvez um dia invasoras - China e Índia, entre outras. Mas a Nato quase nunca exerceu grande prestação guerreira, chegando a ajudar trabalho de protecção a operações humanitárias. Combate agora, apoiada, esse sector de terríveis noções sobre o ser e a vida, os talibãs, no Afeganistâo, cujo desenvolvimento atroador terá efeitos sobretudo nefastos em toda a região.
Para os que fingem morrer no chão de uma cidade pacífica, sob o peso do avanço da Nato, o que é legítimo em termos de liberdade de expressão, seria talvez oportuno lembrar os que têm morrido em nome da paz, combatentes ligados à saúde, apoio em alimentação, jornalistas que escrevem e fotografam para se fazer a História concreta, sem véus de fantasia nem bandeiras longínquas.

UM ACIDENTE DE CAMPANHA, ROSTO DE PAPEL


Achei há dias, num jornal sem data, este rosto transtornado pela queda de um olho, rosto rasgado num qualquer acidente do passado ou do futuro, grandeza poetica talvez ameaçada, o olho pendido a pressentir o mundo ao contrário. Este género de imagens ainda funcionam para nós como sinais de perigos ainda sem nome, se esperamos o incerto amanhã que está por surgir; mas podem também apontar para a história, a montante, fugas, exílios, um golpe falhado de catana. Se o poeta, político transitório, ainda se tem como poeta, pensemos que ele volte a cantar arrebatamentos de Portugal.

quarta-feira, novembro 24, 2010

PARA O IMAGINÁRIO DE JOANA VASCONCELOS

Muito espantados andam os portugueses medianamente cultos com uma jovem artista plástica portuguesa, Joana Vasconcelos. Porque se trata, na verdade, de alguém que, em poucos anos, explorando um imaginário rico e bizarro, usando adereços industriais, tampões, pentes e outros objectos/materiais desse tipo, constrói (com uma autêntica indústria caseira) faustosas peças que competem com o sonho jurácico, lustres de tampões, piscinas com a forma das nossas fronteiras, sapatos de salto alto e revestidos por tampas de panela, qualquer coisa do tamanho de um automóvel.
Acontece que descobrimos o uso dos mais diversos preservativos, no tamanho e na cor, enrolados ou desenrolados, unidos uns aos outros, ou sobrepostas ao jeito de certas flores, tudo à chinesa e a favor da moda. Os que viram este espectáculo disseram mesmo que a moda habitualmente proposta nas passerelles, em cima de esqueletos execráveis, fica muito longe desta pujança e deste convite ao prazer (do visual aos outros). Joana Vasconcellos não foi ainda ultrapassada: estes objectos, além de nos preservarem das doenças sexualmente transmissíveis, como salienta o Papa, acedendo ao seu uso, podem manipular-se consoante a vontade expressiva que nos acometa, fazendo deles balões e balõezinhos, atados ou não uns aos outros, flutuando na piscina pedagógica (Portugal metendo água), ou prontos para exportação e com instruções. Sabe-se que as melhores marcas, além do ar, aguentam cinco litros de água. Mil preservativos mais ou menos cheios de líquidos mais ou menos coloridos, atados como um grande astro e dinamitados para uma hora zero em pleno Tejo, eis o lado efémero, performativo, que poderá (assim ou de outra maneira) ser apurado por Joana. Até porque se trata de coisa bem didáctica. Um amigo nosso lembrou que os mesmos preservativos, talvez 2 ou 3 mil, mais ou menos cheios de um gaz leve, formariam no espaço o efeito de grande e espantoso OVNI, o maior jamais visto. Spielberg podia ser convidado para o evento e convidado a transfigurar a máquina de «Encontros do Terceiro Grau».

alguém pensou que esta rapariguinha seria capaz
de um tão elegante e imaculado aparecimento?

Um dos mais susgetivos bazar da moda,
da arte pós-pop, erótico e floral

quarta-feira, novembro 10, 2010

DOIS ESCRITORES LUSÓFONOS BEM DIFERENTES

Nia Couto, Moçambique, as palavras transitivas

A propósito de alguns livros, de relações e confrontos entre elites de Angola e Moçambique, abordo hoje, sumariamente, duas figuras que desde há anos (Mia Couto há mais) são convocadas por universidades e outras instituições portuguesas. O escritor moçambicano, que nasceu a 5 de Julho de 1955, na Beira, pertence a um género literário ligado ao realismo mágico e à ficção histórica. Ostenta a nacionalidade moçambicana mas é natural que tenha também a portuguesa: é filho de pais portugueses e visita Portugal, onde campeia em diversas actividades culturais, com sensível assiduidade. A sua veia poética, aos catorze anos de idade, já transitara para o jornal Notícias de Beira. Mudou-se em 1971 para Lourenço Marques, iniciando estudos em medicina, embora tenha abandnado essa área e haja enveredado pelo jornalismo. Trabalhou no jornal Tribuna. Agiu pela independência da Província, sobretudo através da Agência de Informações de Moçambique, formando ligações de correpondentes entre distritos durante o tempo da guerra de libertação. Foi director da revista Tempo até 1981, passou para o jornal Notícias e aís se manteve até 1985, altura em que já publicara o seu primeiro livro de poemas, Raiz de Orvalho. Contrariando a propaganda marxista militante, demitiu-se de director do jornal a dim de continuar os estudos universitários na área de biologia.

O seu desenvolvimente como escritor tem neste percurso bases de forte interesse. É considerado um dos mais importantes escritores de Moçambique e bebe, em Portugal, apoios de Fundações e Universidades para melhor girar além fronteiras. Tem sido, assim, muito traduzido; e em muitas das suas obras tenta recriar a língua portuguesa com uma influência moçambicana, utilizando o léxico de várias regiões do país e produzindo um novo modelo de narrativa africana. As palavras inventadas nem sempre se baseiam em lexicos locais, mas o seu «abuso» de tal efeito contrinuiu em muito para o êxito alcançado e para a protecção obtida nas editoras. A sua obra já é vasta, sobretudo novelas e contos, mas falta-lhe chegar a um trabalho de maior fôlego, por via das qualidades da nossa língua e exprimindo a grandeza (a paisagem humana e do trabalho) na dimensão alargada do tempo lento e precioso vivido entre afectos e também numa perspectiva antropológica. 1
______________________________
1 Aspectos colhidos na Wikipédia e integrantes de uma análise crítica sobre o autor.

UM PENSADOR ANGOLANO

Ruy Duarte de Carvalho

Ruy Duarte de Carvalho, escritor emérito, cineasta, escultor e antropólogo angolano, foi encontrado morte na sua residêmcia na Namíbia, como tivemos oportunidade de salientar aqui, em Agosto passado. Tinha apenas 69 anos. Nascera em 1941, Santarém, Portugal e passou a infância em Angola e na Namíbia, onde viria morar anos depois. Retornou a Santarém aos dezanove anos para ingressar no curso técnico em agropecuária. O seu primeiro livro surgiu em 72, intitulado, Chão de Oferta. São poesias marcadas por temáticas portuguesas e africanas.
Optou pela nacionalidade angolana em 1983, depois de muitos anos de trabalho no sector do desenvolvimento agrícola. Morou também algum tempo em Moçambique e, depois de terminar o doutoramento em antropologia na École des Hautes Études de Sciences Sociales, em Paris, assumiu a docência na universidade de Luanda.
Ruy foi considerado pela crítica como um importante nome da literatura portuguesa, assim representando uma síntese do mundo lusófon, não apenas pela sua bografia, mas também pela dedicação às temáticas desse idioma. Muitos pontos da cultura erudita referiram a importância do autor.O esforço de unir antropologia e literatura levou Roy Duarte de Carvalho a um verdadeiro trabalho de se livrar do academismo que porcura opor as duas áreas. Os seus trabalhos antropológicos de natureza mais reflexiva, a par dos seus textos de ficção, encontram-se num mesmo ponto de vista, perspectiva de um observador assumidamente não neutro. O seu olhar para a literatura e para a antropologia exige do autor uma reflexão sobre si próprio e sobre esse mesmo olhar -- o que legitima uma observação conscientemente parcial e não por isso menor.
Nesta perspectiva, a literatura que pratica, cerca de 15 livros, pouco ou nada se pode comparar com a do moçambicano Mia Couto. O seu admirável estudo sobre os Kuvale, povo que vive no sudoeste de Angola, foi publicado em 1999 sob o título Vou lá visitar pastores. Entretanto a produção cinematográfica deste cientista e poeta (documentário e ficção) revela a intensidade do olhar que dirigia à pessoa humana, aos problemas sociais. São bons exemplos Nelisita: narrativas nyaneka (1982) e Moía: o recado das ilhas (1989). Documentários de longa metragem que se contrapõem às narrativas antropológicas e cinematográficas, tudo fazendo parte de um universo de observação empírica sem perda da autocrítica, atitude ética que o autor relevou da sua concepção do mundo.
A sua escrita trespassa os conteúdos propriamente discorridos por ter em comum o facto de reflectir sobre si, autor e autor social, não apenas sob a condição de escritor, também na perspectiva de um modo particular de ser e observar. Aliás, em Ruy Duarte, como noutros escritores de orientações semelhantes, há um fôlego (tempo, espaço, substância), a literatura não se basta enquato forma de observar o mundo, reflecte-se a si mesma e aos actos da formação da escrita.

quarta-feira, novembro 03, 2010

DIA DE NASCER E DE MORRER: CARLOS AMADO

escultor Carlos Amado

A morte do escultor e professor Carlos Amado é noticiada no «Diário de Notícias» sob o título «Um escultor que conciliou modernidade com tradição», juizo talvez um pouco subjectivo mas susceptível de ser avaliado sobretudo nas concepções do artista sobre a vida, sobre a própria natureza do ser humano, da cultura e do ensino seperior das artes. Carlos Amado, longamente companheiro e admirador do professor Lagoa Henriques, a quem foi dedicado até ao fim, homenageando-o há pouco tempo com uma espécie de resgate da escultura poética do Mestre, desenho, obra pública, comunicação audio-visual, as coisas e os lugares de um homem de facto invulgar na sua saudação à vida. Com alguma modéstia, Amado seguiu de perto o emigo e trabalhou muito em ajudas logísticas e outras.
Carlos Amado foi discípulo do escultor Salvador Barata-Feyo, de Lagoa Henriques e de Joaquim Correia. Não tem uma obra escultórica muito extensa, mas não foi displicente nos estudos que desenvolveu, sobretudo enquanto professor na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Faleceu na segunda-feira, na Ericeira, onde comemorava os seus 74 anos. O Director da Faculdade de Belas Artes, Luis Jorge Gonçalves, teceu ao colega elogios em torno do seu empenho e da forma como marcou, em certos pontos, aquela Escola, cuja história, desde o 25 de Abril de 1974, muitos de nós ajudaram a reformar, actualizar e integrar-se na Universidade, como Faculdade de Belas Artes, numa deriva de sacrifícios, perdas e debate com os sucessivos governos durante cerca 13 anos consecutivos.
Carmos Amado nasceu em Carcavelos a 1 de Novembro de 1936. Foi professor de desenho, escultura e museologia na ex-Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e na actual Faculdade. Ainda activo, tinha agendada uma palestra na Academia Nacional de Belas Artes sobre o restauro de obras de pintura na I República, por Luciano Freire, e de escultura, monumentos e palácios nacionais.

segunda-feira, novembro 01, 2010

O BELO ENGANO EM MISTÉRIOS DE LISBOA

um filme sobre um romance não é a narrativa
integral dessa obra literária

Para ver cinema hoje, em Portugal e em português, é preciso fazer um seguro contra todos os percalços, surdez, publicidade, claustrofobia, além de ganhar um elevado sentido de precaução acerca do que os críticos ou colunistas de circunstância dizem das obras (nacionais) tão pouco distribuídas, sequestradas pelos monopólios da respectiva indústria de comprar para reter e censurar. Alguns filmes de autores portugueses, sem contar com Manuel de Oliveira, «emigram» logo que nascem, vendidos ao estrangeiro e mercantilizados através de prémios, pequenos prémios e citações autenticadas das agências internacionais. Quanto à opinião dos nossos opinidadores, tal é a sua vanidade contraditória, deve ser comparada com a obra de António Areal, «Dramática História de um Ovo» estrelado. A partir das duas estrelas, comecemos a desconfiar, a fritura pode estar contaminada pelos francesismos de outrora. No caso das duas estrelas, devemos pedir estudos de opinião a verdadeiros conhecedores, obscuros cidadãos que ainda gostam de Ucello e veneram Tarkoski ou Orson Wells. Mas tais criaturas são referências obsoletas, dirão outras criaturas que bebem Coca-cola. O pior é que, tanto no cinema como na literatura ou na pintura, não podemos alienar esses exemplos. Ninguém se lembra de riscar a azul Tolstoi nem de retirar da história do cinema um Eisenstein. Depois é preciso saber que o cinema é uma arte autónoma e capaz das mais completas sínteses pelos meios que opera: da luz à cor, do claro-escuro à profundidade de campo, do movimento ao ritmo e à cadência quase quotidiana da urdidura a que se chama montagem, do ponto de vista em termos de percepção ao ponto de vista enquanto conceito sobre o visível, entre evidências e significativas obscuridades, tudo isso, aliás, em apresentação do espaço e do tempo, sob sonoridades do real, na voz e nos murmúrios, na tradução de ventos ou brisas, por vezes acelerando as emoções produzidas com o adequado recurso à música, sem esquecer que muitas vezes reiventa a pintura, a fotografia, as dores e as alegrias das mais empenhadas captações das guernicas eternizadas pela história, viagem dos povos, carnificinas e outras temáticas do mundo e da vida, a espera juvenil de um amor ou essa «luz de inverno» que antecede a morte.

Vejamos o belo engano do filme «Mistérios de Lisboa», obra em dois grandos actos, homóloga daquele livro de Camilo Castelo Branco e realizada faustosamente por Raoul Ruiz. Pode ler-se Camilo como se viajássemos por um folhetim do século XIX, embora o escritor tenha a potencialidade de abertura à palavra e se empenhe na criação de atmosferas que o tempo absorvia como nas antecipações das dores românticas impossíveis. Manuel Halpern, no JL, chama a nossa atenção, a propósito daquele filme, para as «novelas publicadas em jornais, cheias de intrigas, histórias de faca e alguidar, escândalos, paixões assolapadas, crimes e tragédias», traçando pouco depois uma ligação de modo/moda à obra «Mistérios de Paris», de Eugene Sue, e voltando a Raoul, importante realizador europeu de origem chilena, cuja carreira tem melhores recortes e profundidade. Em todo o caso, saudando o esforço do produtor Paulo Branco, Halpern aponta ( e é consistente no que diz) que «nunca se viu nada assim no cinema português. Uma irrepreensível reconstituição de época com 266 minutos, uma notável competência técnica, um elenco extenso, um guarda-roupa apurado, um grande realizador estrangeiro.» Infelizmente, a grandeza física do filme não basta para resolver o problema apontado por Raoul: o livro parece quase lido na íntegra, pedra sobre pedra, e o filme desgasta-se quanto mais o tenta. A primeira parte seria fácil de finalizar e teria uma coerência formal quase completa. Na segundo parte, e é bom dizê-lo, a linha formal altera-se, a ideia de folhetim dilata-se, o medonho comprimento de cada coisa descrita e redita pela imagem, tudo falado em francês (aliás bem) não passa afinal de um outro filme, aceno ao mercado internacional e porventura a tentativa de premiar os altos favores da produção. Há certas áreas de mais incisiva qualidade: a excelente fotografia, acenando à pintura e ao profundo sentido dos espaços naturais ou arquitectónicos, tratada através de uma luz lendária, de um efeito de distância, acolhendo de forma notória a composição dos elementos do plano, personagens, adereços, sombra/luz, legibilidade.

A regência dos planos é um dos mais brilhantes aspectos da realização da obra: a câmara é um dos fortes factores da realização conceptual do filme, ela inventa prodigiosos olhares de grande amplitude de concentração, abarcando sinais determinantes sobre o que vai acontecer; começa a rodar circularmente em travelling e circunda a cena e as falas, permitindo desvendamentos invulgares do próprio significado romanesco, tanto do lugar como do clima intimista de certas retomas. E tudo continua a resolver-se dessa forma, não bem por panorâmicas, mas quase sempre por travellings -- em frente, atrás, para cima e na perpendicular, entre contrapontos dos planos picados, cuja zona próxima se povoa de entidades ou presenças objectuais desfocadas, através das quais se descortinam (em pleno foco) coisas e certa gente. Tudo isto segundo uma geometria clássica, dentro de alguma virtude renascentista, ou ligada aos roteiros em espiral, de expressão frondosa mas contida. Este método de encenação entre planos, cenas, sequências, incluindo a colagem, o ir e vir de quem vê e significa, passa por um constante distaciamento quanto aos quadros vivos do que está acontecendo, chega ao plano médio e fixa-se, nunca chega verdadeiramente ao enquadramento muito aproximado de coisas e sobretudo rostos. O espectador é assim conduzido a fluir sempre, mas como quem espreita diversas cenas, nas quais figuram pessoas que nunca consegue conhecer verdadeiramente. É um critério em ordem à homogeneidade, não uma virtude, em especial quando a dor transforma a alma e a face de gente suspensa do destino.

O som: a banda sonora referente à música acompanha, por vezes como nos momentos do grande cinema, a maior parte de tudo o que é preciso fazer pulsar, novamente em murmúrio, outra vez carregando a densidade dos próprios movimentos de câmara. Muitas cenas passadas nos salões da aristocracia emplumada e fútil, beneficiando (ou não) do olho sempre a circular, espectador voyant, que acompanha o que de facto ganha visbilidade, tudo parece acontecer no silêncio em redor, além dos poucos que falam, explíctos de intriga e devaneio: o tal silêncio em redor é cumplíce do «segredo», sublinha o «mistério», facto relevante da forma escolhida por Ruiz e que talvez falhe frequentemente pelo não tratamento do meio tom contra um rumor indistindo na sala.

Actores: é um caso particularmente interessante, não porque tudo esteja bem entrosado em correntes de frases ou falas, mas porque as marcas das personagens, no plano representativo da fala, dependem de uma identidade que parece inalterável, de uma pronúncia quase a roçar a voz branca. Porque tudo acontece além e não aqui, perto de nós, naturalmente. Se os personagens sofrem mutações de enredo, em termos de redenção, digamos assim, isso é história trabalhada a meio do corredor ou junto a porta inacessível de um salão, sob o peso grave de altas pinturas murais. São opções que têm um sentido formal e estético, uma significação própria, tudo apurado com extrema competência. Mas se a competência exceder o lado plausível de um sorriso ou de um rosto em lágrimas, a questão pode dar que pensar. E no belo filme de Ruiz dá, com toda a certeza, nem sempre numa roda de consensos. Seja como for, notável é o trabalho de Adriano Luz (padre Dinis no filme). Os actores acertam na meia tinta da atmosfera descarregada à sua volta, deslizam numa obediência ao mesmo fado que também trabalha a metamorfose, o dos personagens que se refazem em diferentes fatos/factos, tendo por isso o encargo mais difícil, uma estranha riqueza interior, um lado de inverosimilhança que teria sido bom ter sido mais espreitado em toda a obra, mesmo correndo ao lado ou para além de Camilo.

Off: o recurso à voz off era quase inevitável numa opção destas. E não é bom nem acontece para bem do filme, embora possa recobrir a narrativa de tanto caso. Esta solução, assaz muitas vezes a arranhar o pefil das coisas e das pessoas, poderá ser útil ao folhetim, não é com certeza tão harmónica como o entendimento da sonoridade musical da paisagem.

Segunda parte: é um delírio de estradas coladas umas às outras, bem desenhado na sua própria monotonia, encostado a uma câmara menos versátil e todo oferecido a algum mecenas francês. São actores portuguseses, com excepções curtas, que se encarregam (bem) deste fardo que acrescenta desnecessariamente mais duas horas e meia às duas da primeira parte. Não me apetece comentar. Gostava de ver Raoul Ruiz, com tão pouco dinheiro como Fernando Lopes, inventar um filme a partir da obra literária «Uma Abela na Chuva».

Adriano Luz e Maria João Bastos



Actores belíssimos que as telenovelas devoram e os filmes «para toda a gente» compromete. Haverá ainda vida que nos possa legar um cinema português sem os vícios da indústria e dos pecados de vassalagem à ignorância, aos devaneios cosmopolitas da criação redutora?