quarta-feira, julho 06, 2011

ENTRE O PROGRESSO, PERIFERIAS E MONSTROS


obra de Cabrita Reis
Usemos um novo Título
ENTRE A PERIFERIA DA LUZ E O MONSTRO INSTÁVEL


Razoavelmente antes do TGV, comboios a vapor gastavam seis horas para cobrir a distância entre o Algarve e o Barreiro. E mesmo assim houve desastres monstruosos, arrasando muita ou pouca gente. Toda a Europa, que guerreara desde a antiguidade, embora muio desenvolvida com as tecnologias do século XX, gerou nesse século, a partir da Alemanha, sobretudo duas hediondas guerras mundiais, umas das maiores tragédias da humanidade, feita pelas mãos humanas e cabeças superiores, da engenharia às artes. A II Guerra Mundial foi servida com as mais devastadoras armas inventadas pelos homens. A Europa ficou pulverizada em ruínas, sobretudo na Alemanha, onde o belicismo alcançou grandezas e poderes de destruição aparentemente imparáveis. A vida é má para os pobres, mas as gerações recentes não podem imaginar os efeitos da II Guerra Mundial, fronteira do horror. Já na I Guerra se haviam usado gases dizimantes, a morte em combate por gases, enquanto os sobreviventes dessa loucura ficaram para sempre presos às sequelas de tais armas. E mais tarde, pior ainda, a todos os níveis dos efeitos produzidos, a bomba atómica, lançada pelos americanos em Hiroshima e Nagasaki, continua activa nos resultados sobre a contaminação da terra, o que não impediu os mais poderosos de engendrarem energia eléctrica por centrais nucleares, cujos percalços cravaram em certas regiões a marca indizível do Mal, desde Chernobyl ao Japão, recentemente.

Todas estas coisas, e todas as posteriores bombas que são potencialmente as grandes empresas transnacionais, a invenção fútil e por vezes mortal de matérias utilizadas em vários géneros de construção, tudo isso arrasta o mundo para uma voracidade consumista acima dos recursos aqui e além disponíveis, pelo que os Bancos inventaram Donas Brancas universais para que o dinheiro corresse, fosse donde fosse, enchendo os impérios adicionados às Mega Empresas, acicatando consumos aberrantes, trocas virtuais de dinheiro, nas Bancas de todo o Mundo, onde se ganham e perdem por dia, sem trabalho nem qualquer virtude para além do risco, biliões e biliões de unidades monetárias. Prontas a explodir na cara ingénua dos americanos, europeus, asiáticos e outros, de súbito percebeu-se que, nas caves da corrupção e de todas as armadilhas, se inventavam operações financeiras perigosíssimas, produtos ditos «tóxicos», que foram levados para os balcões onde as frenéticas populações arriscavam ganhar depressa o mais possível, para encherem de automóveis as estradas e auto-estradas, veleiros inacreditavelmente inúteis, usados em nome do prazer, que enchem hoje milhões de marinas em todos os continentes, a par de uma das maiores crises financeiras de sempre, da qual ainda não se reabilitou a América e a partir da qual a sofisticada Europa, na qual se tentaram edificar uma união de Estados sob o a força do euro, moeda única e a esperança da partilha de trabalhos, de desenvolvimentos, num espaço alargado de meios e interacções, a solidariedade gerida entre tratados de invulgar complexidade e futuros anunciados acima das utopias do século passado.

A crise geral infectou quase o mundo inteiro, fez os seus prisioneiros nos EUA, deixou o continente Europeu a tremer de operações icontáveis, barcos nas marinas, gente igualmente a turisticar como se tudo fosse breve e controlável, enquanto umas brughelianas entidades de rating, situadas no continente Americano mas abarcando o mundo inteiro, se encarregam de espreitar a movimentação financeira e económica um pouco por toda a parte — e, como num mero jogo de cartas, esses limites do imaginário, gente que trabalha para inomináveis forças do poder, pelo dinheiro, decretam diariamente, em joguinhos de letras e de + ou -, aquilo que apregoam ser a situação dos países em termos de moeda e de credibilidade financeira. Isto permite fazer guerras muito perigosas e injustiças ainda maiores: centenas de comunidades são atacadas por classificações que flutuam entre o «excelente» e o «lixo», ficando prisioneiras de dívidas colossais e juros que nem Pilatos cobrou. O que se vê através das televisões leva à indignação muita gente: porque os operadores de rating não foram formados especificamente nem recrutados com transparência, de forma democrática, enquanto os monstros do lucro se escondem atrás de empresas colossais, brilhantes e com clientes de inocente zelo. É só roubar. E depois sujeitar os países, de forma o mais aviltante possível, a entrar em recessão com a obrigação de pagamentos de megatoneladas. O FMI, eficaz e de receitas sempre iguais, ajuda os países em dificuldades a mergulhar até ao fundo das suas fezes, na esperança de que, em breve, a superfície ficará limpa, lisa e com os seus Bancos floridos.

Portugal tem andado numa roda viva e já entrou em recessão. Corta-se em tudo e privatiza-se o que quiserem. Os ministros vão a Bruxelas por tudo e por nada, voltam com uns tostões sob a marca de juros a 15%. E continuam a ter esperança.

Mas há pior: a Europa de tom federativo, de partilhas e solidariedades, capaz de irmanar os povos demografica e geograficamente menores aos maiores, tendo em contra proporcionalidades e grandes cerimónias de tráfego de divisas, tem estado a colar-se à Alemanha, a França pelos ajustes, nada de irradiante, moral e criador. A Grécia praticamente rebentou e a Comissão Europeia, além de outros patamares, atrasaram o auxílio, enquanto a Irlanda tinha de manobrar juros a 30%, sendo tais países alcunhados pela esferas nórdicas de periféricos. Os periféricos ou se governam ou vão à vida e sucumbem. E ninguém vai preso. Merkel, que às vezes acaricia os nossos ministros, acusou-nos de termos de trabalhar mais. «Ui, aquela gente periférica é uma peste que nos está a estragar o negócio». A falta de decoro, como aconteceu com o Presidente da República Checa e Cavaco. Estes mimos animam-se. Não fazem nada para refrescar as relações de países que aceitaram tratados ilegíveis. E agora? Já dizem, alguns meliantes, que a Grécia deve estudar o seu abandono do euro. Querem limpar as periferias. Nós ainda sabemos navegar em caravelas e fazer um manguito à III Guerra Mundial. A periferia é donde vem quase tudo, senhora Merkel: representa os rostos da Europa; sem periferia restariam uns países bem pen- santes que o mar virá submergir em breve. E de resto, porque é que a Alemanha não se considera a periferia do Norte? Já passei por aí e descortinei uns portos negros, poluídos, importadoramente grandiosos. Cuidado com as raças, a geografia e a xenofobia.

domingo, maio 22, 2011

REFUNDEMOS A IDEIA DE PERIFERIA E DOS POVOS


Angela Merkel


Ninguém entrou na Europa de pé descalço e ranho no nariz. A periferia de que se fala hoje, à medida que a UE baralhava a fruta calibrada com zelo e dentro do maior rigor comercial, perdia ganhos e sobretudo nexo. Não demorou muito tempo para que os tratados, uns atrás dos outros, apenas parecessem votados a consultas na diagonal, folheados na oblíqua descendente de cada página e os sublinhados substituídos por chavetas destinadas a agarrar montes de notas em modelo, entre carimbos envelhecidos, entre durezas chauvinistas, ordens vindas de um tal senhor Big BROTHER, em grandeza aproveitada por Angela Merkel a fim de brincar com bolas das inquietantes chuvas de granizo, bolas cada vez maiores, catapultadas na direcção dos «irmãos» periféricos, isto é, europeus pequenos ou distantes, gente não nascida na devida genética, colada às precárias e tormentosas fronteiras de um mundo imaginado por centros imperiais, memória de outros séculos.

Portugal (para a senhora Merkel, divindade que governa a Alemanha) é sem dúvida um resto de nação a seguir à Espanha, área periférica, velha glória geróntica com mais de oitocentos anos como Nação, coisa que o mundo moderno, maneirista e redutor, tem vindo a colonizar, apagando uma História indelével. É afinal um território que muitos milhões de turistas partilham em visitas sasonais, costa visitada por povos de ontem e de hoje, costa, enfim, voltada para o Oceano Atlântico, o rosto da Europa, como reparou e exaltou um grande poeta do mundo, português genuíno e conhecedor de outras fronteiras, Fernando Pessoa, poeta raro, inventor de si em vários heterónimos igualmente geniais, cada um nascido na maior credibilidade, Álvaro autor da «Ode Marítima,» Bernardo Soares o do «Livro do Desassossego.» Essa realidade (que abarca o mundo) não pode ter a alcunha de periférica, expressão capciosa ou perversa que deseja insinuar lugar da margem, sítio distante e meio alienado, a quem a geografia política volta as costas, deixando-o rente ao mar quer como que a dispensar os restos da Grande Barca da mitologia bíblica, Nave que aterrou nos baixios em perda, segundo a grande Alemanha do Euro. Ancorada no rosto da Europa, ali a barca desceu emissários, recolhida nos areais donde partiram importantes navegadores, argonautas já com o futuro nos olhos, homens aos quais a História Universal deve mais do que à regente alemã, factor de duas aterradoras guerras mundiais, hoje querendo recentrar antigos aliados e velhas nações numa arena que tudo determina. O uso da palavra periférico, relativamente a países que fazem e destinam o limite notável da Europa, territórios imprescindíveis à compreensão de outros tempos, imperdíveis assimiladores de culturas de antigas civilizações, intérpretes iniciais dos direitos e juízos greco-latinos.



perigosamente, Merkel não sabe bem o que diz

«Em países como a Grécia, Espanha e Portugal, as pessoas não devem poder ir para a reforma mais cedo do que na Alemanha. Todos temos de fazer um esforço, isso é importante, não podemos ter a mesma moeda, e uns terem muitas férias e outros poucas»

Sem graça nem verdade, uma frase de ignomínia. E até errada. Não periferia e primaveril, mas enterrada na ignorância centralista e na arrogância de um poder neste caso sem eloquência. Ora a Alemanha, que se reconstruiu com a ajuda dos seus adversários, organizando-se (com mérito) sob a cobertura do famoso plano Marshall, tem de acertar a geografia social. Desta vez, nem sequer foi Portugal que provocou a odiosa e actual crise; há responsáveis intercontinentais, lá fora, nos horizontes de outras «periferias». Apesar de tudo, a Alemanha não é o exemplo que Merkel pretende apresentar. O problema deveria ser mais estudado, sobretudo na actual situação e perante triunviratos europeus sem legitimidade, apostados na força do dinheiro e de um divisionismo que em nada se parece com o sentido da frase: União Europeia. A comparação feita pela chanceler sustenta-se no facto de a Alemanha ter dos mais curtos períodos de férias para os trabalhadores
20 dias. Em curso, este país aproxima a idade da reforma dos 65 para os 67 anos, enquanto os países do sul contemplam os 65 anos. Diz a senhora: «A Alemanha ajuda. Mas a Alemanha ajuda se os outros se esforçarem mais. E isso tem que ser demonstrado». Ora estas questões não podem avaliar-se assim nem numa ideia redutora de unicidade.



Quando se desmontam os esquemas que iludem certas quantidades e minimizam qualidades, podemos verificar o seguinte, nas médias: Alemanha 30 dias de férias; Portugal 25 dias; Alemanha em horas de trabalho 1380; Portugal em horas de trabalho 2119: Alemanha, reforma (65 em trânsito gradual para 67); mulheres (em trânsito para 64).

Infeliz relação esta: a grandeza geográfica, no poder de compra e matérias primas não legitimam, em nada, e muito menos numa Europa que se pretendia solidária, assimetrias radicais, autoridade política de uns para com os outros e não aprovada por todos. A utopia pode consolidar-se numa vontade real e sólida; mas não a pesar batatas segundo a demografia, o rendimento per capita, os doutores existentes, os favores dos tratados. Os portugueses sabem bem o que é o mar, por exemplo: é nele que a sua riqueza transcende muitas zonas da Europa. Mas isso não legitima que tais zonas inventem cotas mais do que suspeitas e tenham imposto aos periféricos atlânticos o abatimento de frotas de pesca e corte de milhares de hectares de vinha. Todos sabem aonde isto leva, a médio e longo prazo. A emigração para a Europa não tem aqui, apesar dos princípios, um ancorador humanitário e eticamente impoluto. O escrutínio do mal, dos emigrandes sem verdadeira reparação, esse sim, pode reger-se por uma contextualizada racionalidade de cotas.

terça-feira, maio 03, 2011

BIN LADEN MORTO AO SEU NÍVEL:COM PRECISÃO

restos de uma das torres destruídas
em Nova Iorque pela Al-Qaeda



Osama Bin Laden, líder da Al-Qaeda foi abatido no Paquistão por um golpe assente em boa informação, rapidez e excelência técnica: como ele gostaria de infligir aos outros, com bom planeamente e bom nível de devastação. Aqui, essa devastação não existiu senão na medida da escala mítica atingida por este homem quase inverosímil. O atentado às torres do World Trade Center foi trabalhado com grande rigor, com operacionais infiltrados em áreas diversas dos Estados Unidos, incluindo cursos de pilotagem de alto nível, como se procura para as enormes aeronaves que circulam os céus. A complexidade dessa operação, que durou anos, obrigava a um exigente esforço de coordenação, tempos, factores técnicos e psicológicos. O seu apocalíptico resultado matou mais de 3000 pessoas e provocou algo nunca visto em edifícios desta avançada estruturação: as torres, trespassadas cada qual por um avião, quase ao mesmo tempo, começaram a arder, produzindo temperaturas muito altas: em relativamente pouco tempo, fumegando de maneira avassaladora, os edifícios começaram a ceder por amolecimento dos materiais estruturantes. Foi um espectáculo inesquecível e um símbolo de guerra e de ódio jamais imaginado em tamanha grandeza.

Conhecido o esconderijo de Bin Laden, surpreendentemente quase «à vista de todos», tudo era preciso acautelar: a operação que abateu o líder da Al-Qaeda teve início há quatro anos e foi agora liderada directamente pelo chefe da CIA. Ao fim de 40 minutos tudo terminara: morria o homem que «odiava mais os inimigos do que amava os filhos».

Tanto como as populaçõoes que apoiavam Bin Laden exprimiram a sua alegria pelo sucesso do atentado em Nova Iorque, em ondas de furiosa alegria e queima de muitos símbolos americanos, assim a bandeira dos E.U.A., entre o júbilo de populações daquele e de outros países, serviu entretanto de estandarte de vitória, réplica dita justa. Não é bem assim, mas alguma simetria nos permite aceitar a expressão. Bin Laden não era uma figura extraordinária e a «teoria» pela qual procurava arrasar o Ocidente, tornava-se pueril, expremia mais ensandecimento do que um quadro de ideias que reflectissem a importância do conhecimento humano a todos os níveis, incluindo na margem irremediável dos erros.

Durante a guerra que a União Soviética travou no Afeganistão, não se pode falar em Bin Laden como um assinalável combatente. A sua fanatasia minimizava a mediatização que os próprios ocidentais punham à disposição das suas ameaças. Seja como for, os que aplaudem a sua trajectória e dizem empenhar-se no mesmo projecto obrigam o mundo a prevenir-se contra actos terroristas ferozes, que matam milhares de inocentes, e, em boa verdade, nada explicam nem ajudam a construir. Veja-se a tristeza e o vago luxo do casarão onde vivia Bin Laden, reforçado, envolvido por um muro de mais de três metros de altura e arame farpado. Não era muito difícil, em certo sentido, confrontar aquela construção bem vasta, isolada mas a cerca de cem metros de um quartel da guarda paquistanesa.
Financiando e mentalizando uma larga quantidade de soldados fanáticos, niilistas e prontos a morrer pela Causa, embora bafejados pela promessa no valor do martírio e da oferta de dezenas de virgens celestes, logrou apuramentos especiais para a grande prova. Usando a tecnologia e o capitalismo, pôs o seu império do dinheiro ao serviço de várias células, ao mesmo tempo que libertava vídeos e mensagens contra os Estados Unidos e o Ocidente, todos por ele acusados de fomentarem a corrupção, o judaísmo, a homosseualidade e a subjugação do Islão.

A morte de Bin Laden, não acabando com o terrorismo, é pelo menos uma lição da pequenez destas figuras lunáticas que têm povoado a história do mundo. Hitler foi o que foi. Ditadores, que geriam muitos países a leste e em África, distinguiram-se (ou ainda se distinguem) por concepções de poder e de imposição a toda a gente sob o seu comando as mais absurdas normas,
aviltando o ser humano. Compreende-se, embora tratando do acto com as normas religiosas da orientação espiritual do virtual Salvador do Islão, que os americanos o sepultassem no oceano. É que estas figuras, afinal patéticas, arrastam multidões para uma mitologia em torno delas.

sábado, abril 16, 2011

A TECNOLOGIA VOTADA À ROTINA DO DINHEIRO











































RATING. RATING. RATING
FMI. FMI. FMI. FMI. FMI. FMI
UE UE UE UE UE UE UE UE




As BRUXAS de SALÉM, lembram-se?
gente entre os trinta e os cinquenta anos, crentes nas modernas bruxarias e vales sombrios onde enterram plutónio e os cadáveres ocasionais após a arrumação de Chernobyl. Vai, aviãozinho, carregado de matérias cósmicas e humanos fios de disparo. Viste o que acabaste por fazer em duas grandes cidades japonesas? Ora que tem isso a ver com os dias de hoje e as bombas existentes, capazes de destruirem dezassete vezes a terra que habitamos (Terra, TNT, Tintas de escarnecer).



A tecnologia não é um bem em si mesma: os homens usam-na cada vez mais para abater concorrentes, negócios, ideias simples. Estes computadores, e uns milhões mais, têm o poder de alterar o mundo, de contrair os negócios menos lícitos. Assim se abatem concorrentes e sonhos mal começados.


As escolinhas dos talibã parecem-se com estas: badalando a cabeça, o euro está a ser atacado e os países mais fracos são metidos em água com sabão. São os homens, em coligação com Deus. Os meninos sentam-se nas mesas da escola Talibã e martelam a tabuada do Kapitalismo. Compram, vendem, juram, acham que a felicidade dos homens é comprimirem-se até lhes rebentar o sistema vascular. BLOG !

sexta-feira, abril 15, 2011

É PRECISO ACABAR COM AS AGÊNCIAS DA PESTE



Mais depressa do que se pressentia, e tendo sobretudo em conta os milhares de meios e modos de comunicação que tornaram global a vida dos povos sobre a Terra, os desastres de toda a espécie, incluindo os naturais, fazem do mundo de hoje um espectáculo carregado de ameaças, conflitos armados de toda a espécie, confrontos de povos e civilizações, aumento aterrador dos movimentos subterrâneos que dinamizam centenas de milhares de actos complexos no domínio de diferentes tipos de tráfico, armamento, droga, contrafacção, escondimento de fraudes de grande complexidade, com efeitos demolidores sobre as sociedades, as finanças e a economia. Porque, em vez de um progresso contido e estabilizado, sem os desequilíbrios monstruosos entre vastas áreas de pobreza e fome, culturas estacionárias e minorias poderosas, com acumulação de dividendos por vezes suficientes para a compra de cidades inteiras ou de geminar duas enormes empresas transnacionais.


A crise que se está a viver em todo o mundo, com pontos iniciais na América, entre bancos ensandecidos e burlas capazes de arrasarem meia dúzia de Estados, é hoje uma epidemia à escala planetária. As contracções que poderá gerar, lançando na bancarrota muitos países, além de accionarem as instituições que combatem tais situações (nunca por altruismo, naturalmente) podem vir a esmagar grandes nacões da base da nossa história e da nossa civilização. A Grécia, envolvida por constantes cercos de juros altíssimos, foi forçada a pedir a intervenção do FMI, tal como a Irlanda (tão próspera até há relativamente pouco tempo) e agora Portugal. Os bancos, muito poluídos por recentes convenções especulativas, produtos tóxicos, como é referido, foram salvos por avalistas poderosos, os próprios Estados, e estão hoje a viver (e a pedir dinheiro) numa terrível faixa de risco. Tudo se descoordenou, enquanto as agências internacionais de rating, obra tentacular de um capitalismo selvagem, avassalador, que faz crescer e morrer milhões de pequenas empresas todos os dias, cobrem jornais e televisões com as suas validações impertinentes, previsíveis, e em nada justas no campo das operações de crédito internacional com que os países, cada vez mais, se governam segundo projectos mais ou menos megalómanos. A miséria cresce, avança no ponto de 50% da população mundial, enquanto nas áreas mais ricas (tendo sempre em conta a exploração alucinatória do petróleo e de outras matérias) famílias e agentes do alto comércio, da alta indústria, engradecem e enriquecem numa escala que roça o absurdo. O capitalismo, enquanto se sofisticava nas formas de explorar clientes e accionistas diversos, tornou o mundo presa de interesses e associações capciosos. A União Europeia, lugar de uma civilização superior e milenar, começou a gerar uma área poderosa, através de tratados e projectos de entrosamento económico, produtivo, de trocas e circulação de mercadorias a par do aumento da tendência turística.


Vejamos um pouco do horror, agora que Portugal se deixou cair nas chamadas normas de austeridade, que emagracem tudo e provocam anos de recessão, pressupondo salvações equilibradas quando nada se faz para um novo paradigma de ordem equilibrada entre ter e haver.



A Moody's, Fitch e Standard & Poor's são três agências de rating visadas pela acção que dará entrada na Procuradoria-Geral da República no início da próxima semana e que é subscrita por um grupo de professores de Economia. Um acto decisivo, ético e moral. Mas o problema tem de ser debatido à escala do mundo: tudo o que aquela gente faz é crime de manipulação de mercados, acções que têm tudo menos uma base científica e uma coordenação relacionada à escala dos continentes e das uniões. Ora a verdade é que estas agências (onde o próprio FMI já denunciou irregularidades de comportamento) usam e abusam do poder que têm e necessitam de uma supervisão muito mais estreita, melhoria de objectivos, projectos de estabilidade mundial. As suas actividades têm um impacto significativo, mesmo brutal, nos custos de endividamento dos países, podendo afectar (já o fizeram) a sua estabilidade financeira e outras. Os técnicos que estão a enfrentar esta monstruosa barreira de destruições, lembram que a UE considera a possibilidade de responsabilizar financeiramente estas agências pelas consequências dos seus erros, ao que estas respondem ameaçando abandonar a actividade da Europa. Bem se vê que não se batem em estado de honra em argumentos, mas nas retiradas estratégias que, bem vistas as coisas, deviam ser pulverizadas com o esforço da UE, EU, Japão, China, Índia, Canadá, por exemplo. Há muitas coisas de que o mundo ainda precisa, mas não desta electrónica agiotagem, com «jogadores» encobertos e aos quais devia ser movida uma «guerra», essa sim, global. Até porque a globalidade é um embuste, unindo diferenças em artifícios como doenças, uma rede vil donde parecem brotar as próprias doenças modernas. Biológicas e tecnológicas.

segunda-feira, abril 11, 2011

IMAGENS E GENTE DE UM INQUIETO ACONTECER

LANÇAMENTO DESTE LIVRO NO DIA 16 DE ABRIL, ÁS 18 HORAS

NO HOTEL REAL PALÁCIO, RUA TOMÁS RIBEIRO, 115, LISBOA

Os meus apelos sempre foram de orientação pluridisciplinar, quer quando lia semanalmente «O Mundo de Aventuras», riscando, pelas horas de silêncio, perturbadoras bandas desenhadas, quer quando escrevia, numa velha remington de meu pai, histórias mais ou menos tristes, entre postais ilustrados de palácios em ruinas. Fui, desde cedo, um amador de paixões e um fabricante de brinquedos alternativos.

Terão, os amigos de agora, um fio de escolhas, aliás a oportunidade de ler este livro e reflectir sobre os modos diversos através dos quais a vida de certa gente uma família inteira, por exemplo se concentra e dissolve em planos de imagens inquietantes, a maior das nossas aprendizagens, sem métrica, matemática ou redutores automatismos. Há aqui, de certa maneira, histórias de vida, o enlace a nossa falsa inocência (em meninos) com a palpitação do desejo e do sonho na chegada da razão e da consciência, assim entre a infinidade das percepções enganadoras e os encobrimentos de uma privacidade inalienável.

Viagem dura, enquanto os parentes faleciam e eram enterrados em cemitérios de cal. O trajecto, depois de uma longa e mística travessia do Alentejo, até Lisboa, desconhecida, sem medida nem paz. O tempo, nos cadernos de confissão, voltava atrás, fazia-me visitar as praias, adiantando-se depois até aos trinta anos, para novos olhares a montante e a jusante, sob as sombrias abóbadas da Escola Superior de Belas Artes. Eis como este livro trata de um acontecer inquieto, arrancado à terra, à vida e à morte da família, enquanto se convocam, pela arte, partidas e retornos, memória dos desentendimentos entre pessoas, a sua difícil condição humana. Os velhos professores da memória académica ensinavam coisas elementares e deixavam a aula repousar em silêncio, propícia para a leitura do «Diário de Notícias». Ficávamos, pelo menos, a saber, que o valor lumínico do nariz estava bem acima dos valores baixos, sombras sob o queixo. Apesar de tudo, das acusações conra a precariedade do ensino artístico tutelado na cópia dos Columbanos e Velosos Salgados, não fui molestado nas Belas Artes, nem nada nem ninguém tentou furar-me os olhos.

quarta-feira, março 30, 2011

S0UAD MARSSI, ARGÉLIA, CANÇÕES POLITIZADAS

Souad Massi

Souad Massi, quando nos olha, é já um acontecimento perturbante. Quando o seu olhar se consolidava (vivia ela junto do pai e ouvia-o cantarolar canções árabes tradicionais, a par da mãe que ouvia pela rádio James Brown e outros ícones da música anericana) já os seus dons de sensibilidade musical lhe brotavam nos lábios.

É um caso recente mas, a bem dizer, quase todos os verdadeiros casos são recentes. Por vezes, cedo demais, apodrecem depressa mas a fala das plausíveis raridades dá a volta ao mundo espalhando pela distância a força e a distenção dos músculos, cordas vocais fidelíssima ao directório das verdadeiras vocações.

Li no Público que a música da argelina Souad Marssi reflecte ascendências próprias, respirando o ambiente da tradição musical magrebina misturado com a folk, o rock ou o funk. Há mais de uma década que vive em Paris para onde foi desiludida com o clima político do país natal. Mas continua a visitar a Argélia, matando saudades da família. Canta em árabe. Também em francês ou em inglês.

É, com os músicos habituais que actua, daqui a dias, na Fundação Gulbenkian, no ciclo das Músicas do mundo.

Ao lhe perguntarem o que achava da actual situação da mulher, a sua resposta parece emergir do seu lado ainda inocente:

«Quando era jovem era um dia (o da mulher) que me dizia muito, porque sabia que havia mulheres que se tinham revoltado, lutando pela implementação dos seus direitos. Hoje continuam a existir muitas injustiças em torno das mulheres, como as diferenças salariais em relação aos homens, embora me pareça que a situação mudou para melhor, principalmente na Europa. Mas ainda há muito a fazer. Em França, é como se estiesse em casa, na Argélia. Aí sou universal: falo das mulheres, da paz, do amor, para mim temas universais. Seja como for, a Argélia é um mundo à parte. Estamos abertos ao Ocidente, somos africanos, somos árabes. Depois de tempos convulsivos, alguns de nós ainda vivem a psicose da guerra civil. Mas as pessoas gostam muito do Presidente porque ele conseguiu trazer ao país alguma estabilidade, embora não gostem das pessoas que o rodeiam. Espero que, mais tarde ou mais cedo, um movimento de estudates possa fazer alguma coisa para melhorar o país».

Perguntada sobre o fenómeno da sua música, diz:

«A música sensibiliza as pessoas. Une-as. Acompanha as revoluções. Ao longo da história, todas as revoluções tiveram a sua música. esde Bob Dylan ou Joan Baez, por exemplo. É esse o poder da música, denunciar e sensibilizar, principalmente quando existe uma relação de confiança entre o público e o artista e este tem qualquer coisa de relevante a transmitir.»


DENTRO


Música politizada que tanto pode exprimir a melancolia folk como a celebração africana. É esse o universo da cantora argelina Souad Massi e é no mais profundo dessa ressonância que ouvimos em Lisboa. Algumas palavras que ela pronuncia, uma respiração e um modo de estar naturais, o modo franco e doce com que olha para a câmara, tudo isso me faz lembrar «O Estrangeiro», de Camus, e a sua cativante personagem de amor, Maria. Quando Mersault ficava deitado de costas no mar, suspenso, boiando e olhando o céu azul, Maria estava no seu pensamento.


Há personalidades que nos olham com uma sabedoria estranha, que nos atraiem para o mundo delas, tanto pelo rosto e pelas mãos enquanto falam, como pela música que espalham no mundo, de fala plural, dizendo-nos quase ao ouvido falas de há instantes que conseguimos conservar na memória para sempre. De quando em vez, elas passam por nós, murmuradas, numa despedida.

MORREU ÂNGELO DE SOUSA, PINTOR SUCINTO


pintor Ângelo de Sousa

Sempre que passava por Lisboa e me encontrava na Brasileira ou na S.N.B.A., dizia-me: «Olá, estás bom?» Claro que não esperava pela resposta porque tinha mais coisas engatilhadas para exprimir: «não tens pintado, o ensino é uma porra. Estás cansado? Olha que porra, então a gente não vê as carradas de lixo que transportas para a pintura?» Lembro-me de responder: «Tens toda a razão, vê lá, eu a produzir poética de lixo e tu a limpares esse lixo até te comsolares com uma simples linha oblíqua, de alto a baixo, na tela.». E ele, sarcástico: «Olha como ele está esperto...» Ganhámos esta guerra jocosa no dia em que nos defrontámos na minha prestação de provas de agregação universitária e eu o surpreendi diante do seu ar enfim sério, desafinando por vocação nas últimas palavras da sua argumentação. Disse mais tarde, a alguém no Porto, que o tipo ( o tipo era eu) o tinha surprendido, quer pela natureza das provas, quer pela fundamentação das respostas, sem esperas nem tibiezas. Há tempos, escreveu-me e os postais dos seus convites trazaiam agora uma reconfortante nota de humor e de amizade.


Ângelo de Sousa, vítima de uma doença grave, estava afastado da actividade artística há vários meses. Como hoje se diz no «Público», Ângelo foi «um dos protagonistas da contemporaneidade artística portuguesa, destinguindo-se sobretudo pelo seu experimentalismo e pela procura incessante de novas linguagens». Esta citação do jornal foi obtida do director do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, João Ferandes. Mas Ângelo de Sousa é claramente interior aos atrevimentos vanguardistas de Fernandes, com quem podia conviver na partilha de coisas insensatas sobre os «modelos» do tempo moderno e a sua revolução contra o lixo, a favor de um simples risco que tanto macula um monumento como o assinala para a história das escolhas. Para sintetizar o sentido da obra de Ângelo de Sousa, coisas como Algumas formas ao alcance de todos, deve acentuar-se que ele desenvolvera um importante estudo sobre as cores, aliás só usadas de esguelha ou por magníficas sobreposições nos quadros da sua geometria secreta. Ângelo de Sousa morre com 73 anos, nasceu em Moçambique, em 1938. Frequentou a Escola Superior de Belas Artes do Porto (1955) onde se formou em Pintura. Integrou, na década de 60, o grupo dos «Quatro Vintes»: artistas que tinham obtido, ao abrigo dos inflaccionismos daquela Instituição, a classificação de 20 valores, Armando Alves, Jorge Pinheiro e José Rodrigues. É depois disso (e da ironia disso) que Ângelo criou uma obra pessoal e única, que amadureceu expressando-se principalmente na pintura, embora ele também desenvolvesse outras disciplinas de índole artística, desenho, esultura, fotografia, e cinema e vídeo. Foi bolseiro da Fundação Gulbenkian para frequentar importantes escolas de Arte inglesas. Leccionou na ESBAP,depois FBAUP.

terça-feira, março 22, 2011

ARTUR AGOSTINHO FALECEU COM 90 ANOS


A morte de Artur Agostinho corresponde a um daqueles momentos em que país se espanta e descai, sob o peso da notícia, com as mãos suspensas. Tive oportunidade há pouco, à hora do almoço, de ver um homem do povo (distinto e claramente) pronunciar o nome do artista em tom interrogativo, como se tivesse ouvido uma impossibilidade. Aquele homem simples tinha consigo, como muitos portugueses, um forte apreço por este homem de todos os ecrãs, do fundo da rádio, há muitos anos, serões para trabahadores apresentados exaustivamente por ele, grande agilidade e poder criativo a reatar jogos de futebol, actor televisivo desde o início, num tempo em que já passara pelo cinema, ao ladde António Silva, com uma pronúncia inconfundível e um perfeito sentido das situações que se lhe apresentavam. Artur Agostinho foi, sem dúvida, uma das mais populares figuras públicas do país. E o mundo que nos deixa, de uma imensa variedade e bravura técnica, vai torná-lo vivo durante muito tempo. E nunca será um fóssil achado na terra submersa, daqui a milhares de anos, na área do antigo Parque Mayer.
Artur Agostinho, um dia

quarta-feira, março 16, 2011

O HORROR CÓSMICO E O SUAVE PERDÃO A DEUS


Esta é uma imagem recente da grande tragédia que se abateu sobre o Japão, um terramoto seguido de um colossal tsunami e um conjunto de efeitos secundários que colocam o país em risco nuclear, sem tornar visível as cidades que desapareceram, a devastação sem nome, entre colapsos urbanos, rodoviários e outros, além de mais de dez mil mortos. O que se passou no Japão, em pouco tempo, até nos faz desfocar o horror, então «expertimental», do primeiro lançamento das bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki. É verdade que muitos erros foram cometidos no Japão, apesar do seu enorme avanço tecnológico, e já na sua reconstrução avançada ainda se escolheram zonas de falhas sísmicas para implantar centrais nucleares. A grande quantidade de energia nuclear de que o Japão dispõe não passa, contudo, de 20% do total de que necessita. Se Hiroshima pode ser considerada como uma estratégia de guerra, e portanto como um erro humano, a realidade actual (num universo que não percebemos o que seja nem se ele é regido de alguma forma) teria então de ser interpretada como um erro de Deus.
Com as seguintes imagens, procurei chamar a atenção para a notícia e para o absurdo dela, em extensão e non-sense: não tanto a brutalidade do tremor de terra e a devastação que durou cerca de cinco minutos, seguida nos dias seguintes por centenas de outras; não tanto a já habitual formação de tsunamis com ondas de dez metros de altura e penetração de 12 quilómetros pelo território cada vez mais desfeito; e nem sequer o que que acontece com as centrais nucleares cujo colapso relativo lançou para a atmosfera uma onda de gás radioactivo cujas consequências conhecidas promovem a evacuação de largas áreas habitadas e empurra os próprios japoneses a tentarem abandonar a sua terra, os seus haveres, procurando noutra parte do mundo uma eventual salvação.
Detalhe entre os detalhes: a beleza solitária de uma rapariga que chora entre os destroços e os planos sucessivos, até ao azul, de montes de ruínas, perdas de tudo e, em especial, de vidas humanas.
Ferreira Fernandes escreveu no «Diário de Notícias»: «Como é possível darmo-nos conta do que é um terramoto de grau 9, um tsunami de dez metros e explosões em três reactores nucleares, se quem os vive grita menos do que um repórter televisivo sobre as pedradas de camionistas na rotunda do Carregado?»


Esta vítima da tragédia que se abateu sobre o Japão, mais parece um anjo de asas decepadas e ainda capaz de olhar para o futuro através dos mortos e destroços em volta.
Ferreira Fernandes escreveu no «Diário de Notícias»: «No Japão, um pai agradece o telefone da SIC, emprestado para avisar o filho, na América, de que está vivo. À volta é um mar de lama que pousou sobre a sua cidade e a calou (arrasou, diria eu, se essa mesma palavra não fosse usada nos jornais portugueses de cada vez que Pinto da Costa fala de um árbitro).»
E com esse cenário de fogo, de água e de ar apocalípticos, o japonês disse ao filho que nem tudo eram tristezas.
Poderemos nós, agora, enquanto arriscamos o país a cair numa tragédia gerada pelas mãos humanas e por atritos infinitamente escassos, dizer que a esperança cabe em dez dias e que, se iniciámos a construção do TGV em plena crise finaceira, isso é infinitamente menos do que pretendem fazer os japoneses: reconstruir para o ano a cidade de Sendai.

SEM BRIGAS E EXCLUSIVISMOS PACHECO ENSINA

OS HOMENS PARECEM TODOS IGUAIS, POR DENTRO
E POR FORA. A IMPRESSÃO DIGITAL DESEMGANA-NOS,
DEMONSTRA, AO MICROSCÓPIO, QUE NÃO HÁ UM
DESSES «DESENHOS» IGUAL AO OUTRO

DINAMITE CEREBRAL
SOLIDÃO DO PENSAMENTO

Pacheco Pereira, figura das mais relevantes e mediáticas do nosso meio, é sem dúvida uma personalidade de grande recorte intelectual no país, senhor de diversos aprofundamentos históricos e sócio-políticos, parlamentar emérito, colaborador em jornais e revistas, comentador com larga presença na televisão, professor universitário. A sua trajectória nos meios de comunicação social (ganhou logo audiência na rádio) tem sido vertiginosa, plural, competitiva e competente, excepto no que se aponta ao seu carácter impositivo, sobreponível aos outros, que conquista adeptos e inimigos. Adeptos por vezes maneiristas e demasiado seguidistas, inimigos sobretudo de ordem política, quando Pacheco comete excessos e se reclama, sem razão, de uma razão que outros já superaram. Seja como for, Portugal de hoje só é caracterizável se se tiver na devida conta personalidades como Pacheco Pereira, o Magalhães que sempre soçobrava ao garrido palavreado daquele colega na rádio («Flash Back»), o Santana, os homens da Federação Portuguesa de Futebol, o Cardeal Patriarca e, em sisifianas tarefas, Cavaco Silva, Presidente da República, Sócrates e Passos Coelho, um em actividade controversa e outro em contraponto amuado. Em todas as importantes prestações que Pacheco Pereira tem oferecido ao país, além daquele programa da rádio, da televisão, dos comentários político-artidários, poderiamos destacar o já pesadote A QUADRATURA DO CÍRCULO, por vezes a funcionar como «Círculo da Quadratura. Seguir debates e teorias sobre a política portuguesa e política em geral, eis o que muita gente faz com a ajuda das prestações da Pacheco Pereira. Por mim, fui ganhando cansaço, porque a comunicação audio-visual de Pacheco em grupo, pequeno ou grande, tanto faz, ele rompe com todas as regras da síntese, da inteligibilidade, da desmontagem não ardilosa de um tema. Suponho que quase todos os seguidores deste protagonista da vida nacional, pelo menos os menos mitificadores e mais abertos à circulação das ideias, já se aperceberam que a notoriedade do (personagem) não corresponde à qualidade. É um mau comunicador, porque não respeita os parceiros, os telespectadores ou presentes, nem se respeita a si mesmo. O mensageiro apaga a mensagem. Pensei muito vez: como será este homem enquanto docente? Como será este indivíduo num programa de uma só pessoa? Ele-mesmo?

Finalmente, num canal televisivo, chegou-nos a resposta: sentado a uma mesa, num cenário azulado e graficamente singelo, uma perna à frente, outra atrás, evocando ambiguamente a situação de quem está num café, Fernando Pesssoa ocorre, o lettring não nos trai: o desassossego da dinamite cerebral corrobora a solidão do pensamento.

Neste programa, José Pacheco Pereira, sem arrogância e sem complacências desnecessárias, dá-nos a ver e a entender algumas questões que, no quotidiano, tantas vezes nos iludem ou enganam grosseiramente: a encenação parte do ponto comunicador e a edição respeita um certo espaço ortogonal onde o centro e o tema são convocados. Há mesmo o escrúpulo exemplar, para uma televisão em geral trapalhona, em accionar uma câmara na perpendicular exacta, que nos mostra (portanto em plongé) muitos dos materiais que o comunicador analisa. E aí vemos surgir erros gráficos e jornalísticos de uma velha preguiça do fazer ou imposta pelo negócio, o peso e a composição dos elementos, porquê e para quê. Os jornalistas têm muito a aprender nesse aspecto, embora tudo seja sucinto mas certeiro. Outros pontos e contrapontos surgem, num roteiro bem ordenado, numa abordagem isenta das coisas vistas e pensadas, como é o nosso quotidiano e a realidade em que nos movemos, entre problemas que tocam a antropologia e a sociologia, a estética e a poética das coisas e das palavras.

O tema que desmonta uma certa realidade, dinamite cerebral, conjuga-se com a solidão do pensamento, o acto de dar a ver o que é próprio da nossa condição intrínseca de ser, pensar e agir.

A GERAÇÃO DESENRRASCADA EM LIBERDADE

Aspecto de um protesto em euforia pacífica. A geração que hoje estuda e ainda sonha com um futuro digno, talvez possível, em Portugal, se todos aceitarem uma vida económica, pacata, regada por cerveja e tremoços, tertúlias futebolísticas, férias de trabalho a limpar as Matas, entre muitas outras coisas com esta configuração de esquerda iluminada e humilde. Assim será possível sobeviver, aguentar os furacões, ondas gigantes, terramotos, guerras locais e nucleares, atmosferas poluídas, comida frugal - tudo sem publicidade, nem divertimentos massificantes, entre pequenos passeios em pequenos automóveis eléctricos, com paragem de meia hora, nos postos de abastecimento.
Não é preciso trabalhar muito para manter um país vivo. É mais limpo e mais saudável. Poderá mesmo dispensar-se a moeda, em grande número de trocas e actividades. Há certas procuras de conhecimento que mudarão de forma substancial, porque se investigará mais para um quotidiano passeante do que para largadas de competitividade (uma palavra obsoleta inventada nos programas eleitorais dos partidos políticos e no espaço dos empreendedores.) Esta última palavra, mais usada no séulo XXI, pertence a um pensamento ligado à enconomia e à religião. O empeendorismo em Fátima, largou das hostes em bancarrota, peregrinos pedindo o passado, e teve de criar uma nova cidade a fim de produzir, para o país e o resto do mundo, incluindo China, Índia, Estados Unidos, Brasil, Angola, África do Sul, Indonésia, pequenos objectos electrónicos com jogos, informação geral, história das religiões, telefone sem imagem nem câmara. Entre estes exemplos, e muitos mais, o mundo destituído de armas, máquinas, sistemas energéticos proibitivos, ladrões, gurus, políticos ligados aos sistemas do século XX. Com os aparelhos de leitura, haverá chaves de casa, do automóvel, das caixas nos antigos bancos, mapas das cidades, servições ainda exploradas. Este caldo de cultura tem, para a história, uma vantagem: é que tornará desnecessário os serviços de saúde, os ajuntamentos no futebol, os endireitas, os juizos, a produção em biliões e biliões de unidades em casos como a cosmética, os desportos de risco, os cursos chatos, as creches, e até, em muitos casos, os empregos, porque a autosubsistência, inspirada no Oriente, fará de cada família uma unidade bastante, eventual cooperante, com outras, nas novas cidades de uma dezena de milhares de habitantes. Essa opção, além de integrar os seres humanos no meio, usa o que ele dá e renova naturalmente. Os doentes com AVC, cancros, doenças degenerativas dos vários sistemas, patologias nervosas, enfartes, tromboses, insuficiências renais, depressões, para citar apenas o mais óbvio, libertará os espaços onde as multidões se amontuam, tossindo, escarrando, sempre à espera de uma consulta, doentes profissionais. Muitas das chamadas doenças modernas regredirão para níveis de há milénios, quando ainda não existiam praticamente. Esta perspectiva que começa a desenvolver-se com a crise da globalização, tende à pacificação das sociedades, à unificação das religiões, à morte dos privilégios milionários. Apesar de tudo, os peregrinos de Fátima continuarão a calcorrear a berma das estradas, pois as religões terão como prece a marcha moderada, exercícios físicos e novas técnicas de reflexão.

Estes exemplos, de 2011, mostram o início da época dos passos.
O cartaz inclui uma verdade simples, ninguem deve viver acima
de ninguém.
Seculo XXI: a grande marcha desenrrascada

sábado, fevereiro 12, 2011

A VONTADE POPULAR QUE DESTRONOU O FARAÓ

Aspecto geral (nocturno) da praça Central do Cairo, Egipto, no auge do delírio libertário, noite de 11 de Fevereiro de 2010, quando o Presidente Mubarak acabou por ceder às pressões nacionais e internacionais e abandonou o poder, delegando no Exército a coordenação das operações de transição. Este homem que governou o Egipto durante 30 anos, e sucumbira às obscuridades dos manipuladores do poder, manteve-se agarrado à lógica anterior num discurso em que apelava à unidade. Por sua parte, depois de duas semanas de resistência, Mubarak afirmou não ter intenções de se candidatar a novo mandato, em Setembro, devendo o país reorganizar-se a partir daí. A expectativa colossal em que se mantinha a multidão, silenciosa, de olhos ao alto, explodiu ao sentir-se traída desta maneira. O que terá acontecido entre os restantes membbros activos da presidência, logo a seguir à emissão do discurso, só um dia se saberá. É que, pouco tempo depois de haver reiterado o seu cargo, Mubarak optou por se demitir. A notícia fez explodir a alegria dos egípcios ali concentrados. A liberdade passa por aqui! - - dizia-se. Graças a
Deus! O Egipto é um país livre!
O grito da liberdade


A voz do povo transcende as habituais esperas e negociações entre grupos em conflito. Há os que temem a dificuldade de fazer esta transição de forma sustentada e profícua. Sabe-se, todavia, algumas coisas importantes. Há dados de naturesa assinalável: muitas das pessoas que se manifestaram eram nacionalistas de boa educação, indivíduos que vivem em cidades e que querem ter oportunidade de construir uma democracia que lhes permita viver melhor. Não nos podemos dissociar dos factos históricos desde a fundação do Egipto moderno, a falta de tradição democrática, a fragilidade das instituições, embora o Exército possa, dada a sua força e o apoio do povo e de potências aliadas, criar as estruturas constitucionais para a formação de um país cujos meios podem alargar-se e comsolidar-se acima do mais.


Uma frase «lapidar» de Mubarak quando falou ao país,
sustentando a sua continuidade no poder até setembro.

Dentro e fora do país, em nações como a Rússia, as multidões criaram fenómenos de contaminação considerável. Os gritos e os sinais da nova situação, apoiada pelos militares, permite ter como fiáveis uma transformação bem sustentada do Egipto

Um curioso acto de fé

O poder está agora nas mãos do Conselho Supremo das Forças Armadas. A revolução não poupou o número dois do regime, Omar Suleimam, que a maioria dos manifestantes da praça Thair dizia ser a extensão de Mubarak Depois de tudo o que de trágico e de eufórico aconteunaquele lugar (Thair) nas últimas semanas, havia que dar o salto e tentar uma manobra mais arrojada: uma marcha até ao próprio palácio presidencial

a dada altura, surgiu a notícia de que Mubarak
estava em fuga. Apesar das dúvidas imediatas, os sinais penderam para uma verdade há muito esperada, numa luta sem armas. Afinal foi a festa

ANIVERSÁRIO E HISTÓRIAS DE PAULA REGO

Paula Rego
Dia de aniversário para Paula Rego, uma das mais importantes artistas portuguesas e europeias, e dia de júbilo para quem aprecia a sua obra, desde os anos 60, ou para quem, de alguma forma, se reconhce nela. Trabalhava eu no Suplemento Literário do «Diário de Lisboa» e para séries sobre arte da RTP1, tive o privilégio de ser uma das primeiras pessoas a entrevistar a pintora, na altura em que se documentava a sua primeira exposição individual em Lisboa, Galeria de Arte Moderna da S.N.B.
Durante algum tempo, a equipa de reportagem filmou a pintora Paula Rego, ainda jovem, a colar e a pintar estranhas formas sobre um suporte horizontal apoiado no chão. O que sobrou da edição desse trabalho, teria bastado para um poema audio-visual projectável integradamente em rubricas culturais. Foi lamentável, contudo, a imagem a preto e branco, porque aconteceu numa altura em que a cor ainda não tinha chegado à RTP.
fragmento de uma peça de Paula Rego

fragmento de um mural a tinta de água de Paula Rego


Quando se fez uma pausa técnica durante as filmagens atrás referidas, aproveitou-se o tempo para a entrevista que haviamos combinado com a artista, eu e ela sentados perto de uma janela. Só nesse instante, perto um do outro, é que me apercebi da invulgar beleza daquele rosto, da sua modelação suave, da busca das palavras, entre gestos vagos, palavras que pareciam ter pouco a ver umas com as outras. Já faziam lembrar as histórias que Paula Rego veio a desenvolver mais tarde, desde um clima surreal e onírico até a uma espécie de realismo expressionista, passando pelos desenhos de grande escala, em pinceladas livres, que podemos observar no segundo fragmento de uma das suas mais decisivas histórias, nesta técnica, que se desenrolavam como desenhos para crianças, percorríveis ao longo da sua alegria, ruído e musicalidade. (2ª imagem).
Quando perguntei a Paula se a sua pintura atendia ao real, nos seus instantes e nos seus protagonistas,
ela pareceu meditar muito, com os olhos parados.
Mas de súbito, disse, com a voz na garganta:
Sim, clado que sim. (pausa) Mas porque pergunta?
Vejo-a como se estivesse alheia a esse problema, recortando papéis e colando, recortando e pintado.
(El a riu-se brevemente):
Eu não sei o que é a pintura e o que é o real. Mas tenho uma ideia. Não pinto porque exista o real e porque ache que ele tem de ser atendido. Ou talvez melhor: entendido. (pausa, tinha um dedo na boca e recomeçara a pensar): Olhe, eu sei que o real é importante para certos artistas. Eu gosto mais de reflectir sobre a realidade da pintura. É um jogo, sabe, e por vezes regista coisas da nossa vida. Faço-a com a colaboração dos meus filhos, dos seus rabiscos, das suas pinceladas, formas a que eles chamam nomes de bichos. (Apontando ao quadro, no chão) Veja, estão ali, são papéis, bocados dos riscos deles, um cão com o rabo de fora, flores, e o meu arranjo por dentro e por fora. Ao contar estas histórias, talvez absurdas, sinto-me de novo menina. Menina sujando tudo em volta.
Os seus quadros, os que vimos na SNBA, são por vezes gritos do tempo passado, episódios da história do país. Ou não?
(Ela olhou-me, num frio segundo, e disse:)
Mas quando pintei esses quadros, além da saudade, havia perdido pelo menos uma pessoa importante. A morte pode não provocar dor mas imobiliza-nos a pensar. Seja como for, eu estava estudando histórias da História, «O Regicídio», por exemplo. Não é só o rei que morre, é uma parte do nosso país que se perde.
Acha?
Sim, porque não? Um amigo meu disse que esse quadro, bem como outros desse género, lembram menos o meu olhar e mais as minhas mãos. Ele gosta das cartolinas cortadas. Ou de mim. Mas as histórias da História, embora sejam também engraçadas, devem ter... ter mais permanência.
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Este excerto, reelaborado da gravação para a TV, dá-nos
um discurso muito mais estranho do que esta parte mais
«líquida». Paula, para o fim do nosso «tempo», lembrava
certas falas do teatro de Becket. Hoje continua bem aten-
ta, ainda muito activa, desvendando nas histórias de que
não se lembra cenas e sequências que nem a represen-
tação pode sustentar.

quarta-feira, janeiro 05, 2011

MORREU O PINTOR MOÇAMBICANO MALANGATANA

pintor Malangatana

pintura de Malangatana

O pintor moçambicano Malangatana morreu esta madrugada, aos 74 anos, no Hospital Pedro Hispano. O seu início de carreira pública começou há 50 anos, quando vendeu os primeiros quadros. O produto dessa venda permitiu-lhe arranjar uma casa e recolher a família em Maputo. Malangatana Valente Ngwenya nasceu a 6 de Junho de 1936, em Matalana, povoação que se situava perto da então Lourenço Marques, hoje Maputo. Meio século depois de ter aportado à vida urbana, morreu de doença grave, um grande amigo de Portugal, um dos moçambicanos mais conhecidos, um homem do mundo sempre dedicado ao trabalho artístico.
Foi pastor, aprendeu ritos e propiciações como curandeiro, tornou-se empregado doméstico. Tendo vivido com o avô paterno e estudado até à terceira classe, aos 11 anos já começara a trabalhar, porque o seu estatuto lhe permitia aceder a diversas actividades, inclusive a de cuidador de meninos.
Em boa verdade, Malangatana foi mais do que pintor, no sentido de género que subsistia à altura, há cinquanta anos. Ele fez cerâmica, tapeçaria, gravura e escultura. Como artista de um tempo de pesquisas, a sua imaginação levou-o a experimentar areia, conchas, pedras e raízes. Mas também fez poesia, assumiu a condição de actor, dançarino, músico, dinalmizador cultural, organizador de festivais, e até deputado pela FRELIM.
Seja como for, a sua vivência junto dos colonos portugueses, durante a adolescência, permitiu-lhe assimilar as questões da pintura. Augusto Cabral, biólogo e artista plástico, iniciou-o nessa arte. E mais tarde trabalhou sob orientação do arquitecto Pancho Guedes, o qual lhe disponibilizou um espaço na garagem de sua casa em Maputo e lhe comprou quadros, inflaccionando os preços.


Nesta peregrinação da vida e da arte, Malangatana mostrou-se interessado, bem cedo, em fazer uma exposição de pintura. Para espanto de Augusto Cabral, a exposição foi um sucesso.
Desde as imagens da Matalana, local de uma infância tutelada e de estudos primários, a pintura de Malangatana nunca mais parou de ter sucesso e o autor de criar círculos de amigos, em Moçambique, Portugal, no estrangeiro. O seu confronto com o mundo e o entrosamento com as raízes e povos da sua terra, viriam marcar, de forma profunda, os quadros que pintou, longamente povoados pelas massas populares, gente que nos olha, nos avalia, nos espera ou nos ouve. Tanto na pintura mural com na pintura em tela, entre aventuras de invenção plástica, forças e fraquezas humana, este homem absorveu sempre um manancial de temas a abordar e nos quais o homem, em pausa, era o centro da festa ou da perplexidade. Olhava também para os acontecimentos do mundo, tristes ou alegres, e por muito que se discuta parte dos clichés, para alguns o estilo, a verdade é que a maior parte da obra de Malangatana está cheia de paisagens humanas, dores, esperanças, da coesão comunitária também.
Malangatana sempre reiterou sentir uma grande aproximação pelos artistas portugueses, sobretudo desde os anos 70, nomeadamente durante o período em que foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. Essa relação honra o pintor e os artistas de Portugal.
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N. Parte deste texto corresponde-se ou cita nota do Público

sexta-feira, dezembro 31, 2010

GOSTO CEGO DA MODA OU LENDA DE AUSCHWITZ?


CARTAZ DA CAMPANHA DE CHOQUE CONTRA A DOENÇA
A MORTE DO MODELO ISABELLE CARO PODE SENSIBILIZAR
OUTRAS DOENTES SOFRENDO DE ANOREXIA
EM ANALOGIA COM A BULIMIA, MAIS LIGADA
A CAUSAS CULTURAIS, EM PARTICULAR AS DA MODA
A morte de Isabelle Caro alerta muita gente jovem para os arquétipos de beleza instituídos através da indústria do vestuário. Ela própria acabou por reagir na altura em que se viu num ponto de muita gravidade: era tarde, não havia retorno.
Isabelle Caro tornou-se um caso preocupante, em 2007, quando expôs o seu corpo esquelético num cartaz cujo contexto evoca a moda, procurando assim denunciar os efeitos da anorexia nervosa, doença que a fez entrar em coma no ano de 2006, quando pesava apenas 25 quilos. «Esta foto sem roupa nem maquilhagem não me favorece. A mensagem é forte: tenho psoríase, o peito descaído, um corpo de pessoa idosa».
Nas doenças do comportamento alimentar a percentagem de casos aumentou com as induções da padronização dos corpos magros como modelo de beleza. A anorexia nervosa é rara, tem uma prevalência de o,4 por cada mil, referiu há pouco tempo Daniel Sampaio. «Mais frequente entre as jovens é a bulimia nervosa, que afecta duas pessoas em cada mil.» A bulimia tem causas mais culturais, é menos influenciada pela genética, ligando-se com razoável nitidez às escolhas contextuais da moda, à sua mitologia de perfil neurótico, o que vai alargando as atitudes críticas a este mundo ao mesmo tempo risível e patético. Os desfiles em passerelle ganham um aspecto aterrador, de péssimo gosto, em nome de uma estética afinal falseada, com raparigas muito novas, desnutridas até ao absurdo, metendo os pés para dentro porque lhes ensinaram a andar sem desalinho, acabando por trocar frequentemente as pernas, perdendo a pose do tronco cuja ideia de gentileza mais se aproxima de uma caricatura dançante.
As modelos têm sido focadas mediaticamente por tais desempenhos, fruto de uma alimentação inaceitável. Quando morreu a manequim brasileira Ana Carolina Reston, em 2006, foram impostas regras, um pouco em todo o mundo, para definir o peso mínimo que as modelos deviam ter para entrar na profissão e participar nos desfiles. Ana Carolina Reston só comia tomates e maçãs. Aos 21 anos pesava 46 quilos.
Hoje, nos hospitais e Centros de Saúde, há mais vigilância para estes casos. O factor moda é confrontador com tal problemática. Como sempre, os grandes interesses de certos sectores industriais ou do espectáculo, onde a moda tem de ser rigorosamente incluída, contribuem amplamente para estes desacertos e efeitos de sub-culturas em torno do homem, da sua beleza e da realidade natural do seu corpo. O desenvolvimento de muitos destes «costureiros de luxo», de aparecimento eufemístico no fim dos desfiles, tem de ser controlado, quer na qualidade medonha do que por vezes fazem passar (não em venda, supõe muita gente) quer na saúde e boa estrutura física das modelos, gente jovem submetida a regimes de trabalho e conservação física fora dos óbvios direitos que lhes assiste na profissão. A liberdade de se suicidarem desta forma não corresponde a nenhum direito fundamental da pessoa humana.

quinta-feira, dezembro 23, 2010

LUTAS E ERROS NATURAIS GRITAM MAIS MORTES


desastres naturais

A Europa, após uma história onde grandes tragédias se produziram, gerando milhões de mortos e milhares de derrocadas do património construido, Dresden só ruínas e silencios no limite, foi reconstruída no século em que, por duas vezes, esteve à beira do abismo ou do suicídio. Foi no século passado, século XX, estranhamente uma das épocas em que as revoluções industriais e as descobertas tecnológicas chegaram mais longe, tendo o homem aflorado o vazio do espaço cósmico e viajado, várias vezes, até à Lua, que o homem pareceu capaz de representar o futuro e anunciar a utopia das emigrações entre mundos. Mas essa Europa, trazendo consigo a memória da reconstrução e os efeitos de novos arranjos sociais, entre a defesa de direitos naturais e a concepção de novas estruturas sócio-políticas, chegou ao século XXI como uma grande instalação comunitária, na perspectiva de criar um outro espaço de poder, dotado de moeda única, congregando a adesão de dezenas de países em torno do que parecia ser a coroação de uma ideia solidária, de uma partilha do bem estar e da gestão de recursos entre todos, reguladamente, respeitosamente, segundo tratados que evoluiram de fase em fase, até ao último nesta data, o tratado de Lisboa. A breve trecho, apesar da entrega de fundos aos países menos evoluídos, tendo em conta a consolidação de meios de produção e atributos circulando livremente nas trocas de todos os tipos, algo de demasiado coordenado, calibrado, cotado, entre limites disto e daquilo sem um verdadeiro aprofundamendo das virtualidades de cada região, história, cultura, criação de bens e processos de trabalho na qualidade, começou por ensombrar uma visão menos burocrática das coisas, alargou-se insidiosamente por sinais da ordem das tecnocracias. As regras vieram desabar um pouco por toda a parte, abstractamente ditadas de Bruxelas, coração da agora chamada União Europeia. A arquitectura de minúcias começou a obstruir países periféricos, como a Grécia, a Espanha, Portugal, a Irlanda enfim, com sintomas de que a pulverização económica e os desastres financeiros à escala planetária fazem parte de contaminações absurdas e de uma espécie de super-máfia que tudo pode influenciar, tudo pode distorcer, tudo pode infectar até um novo abismo cuja fractura absorvente é preciso a todo o custo evitar, invertendo as seduções que a uma espécie apocalipse vão conduzindo, sendo geradas pelos sistemas económicos enfeudados à volúpia do crescimento, da riqueza, do endividamento, de tudo, enfim, cuja natureza deveria ter sido sonhada ao contrário.

Se a imagem aqui reproduzida traduz um dos maiores desastres naturais, entre muitos outros que o próprio homem tem ajudado a convocar, outras vão surgindo, entre a fúria dos elementos e a disputa dos homens em torno de novos poderes e de novas grandezas um dia abaladas como o foram as Torres Gémeas ou a imensa fraude financeira expedida por Wall Street. A América vergou os joelhos, a esperança tão bem traduzida por Obama foi confrontada com todos os desesperos emergentes. Na Europa também, e pelos mesmos pecados, enquanto os maiores operadores da especulação de valores monetários se crisparam contra o euro, através das maiores fragilidades e poupando o poder nuclear que representam a Alemanha, a França, a Inglaterra. As assimetrias abriram fendas por todos os lados, o cataclismo lembra os outros, os naturais, que tantos milhões de mortos fizeram. Com uma orientação destas, assombrando as soberanias nacionais, os tecnocratas de Bruxelas, economistas sobretudo, não vão longe. As uniformidades que vergam regiões, países pequenos mas antigos e de culturas profundas, a um quadro sem metas proporcionais, são traçados que rasgam no mundo as maiores e mais perigosas assimetrias.

Parafraseando uma nota de Pacheco Pereira, direi como ele: «só há um mérito no actual impasse europeu, é as pessoas poderem perceber melhor uma realidade que já existia antes e que se negavam a admitir. Esta realidade é a das relações de força que levam a uma evolução da União Europeia para uma oligarquia, quase uma duarquia, europeia, que decide em função dos seus interesses nacionais e não de um ¨espírito europeu.¨
«A retórica europeísta parece ser hoje pouco mais do que uma muleta dos necessitados para que os salvem da situação de desespero. Mas, se as pessoas percebem melhor aquilo que no optimismo beato europeu não queriam ver, convinha que compreendessem também que o que vai acontecer é que os que precisam vão ficar cada vez mais federalistas e integracionistas, e os que não precsam cada ves mais nacionalistas. Ou seja: não ae aprendeu nada.»

sexta-feira, dezembro 17, 2010

OUT OF CONTEXT - FOR PINA | ALAIN PLATEL

imagens apresentasa pelo Público


Trata-se de uma peça grandiosa, onde o corpo refloresce a cada instante, composição cénica que nos mobiliza intensamente o olhar: algo que parece surgir-nos pela primeira vez, em estado de absoluta recepção: OUT OF CONTEXT-FOR PINA. É, de facto, um decisivo encontro cheio de reencontros e por eles as marcas de Pina Bausch. Ela dizia que a liberdade característica do seu movimento vinha do imenso trabalho que nele colocava. Esta ideia é, porventura, uma linha convocada para a peça aqui referida.
SObre esta obra, as palavras iniciais de Tiago Bartolomeu são justas e comoventes: «Com Out of Context -for Pina é um outro Alain Platel que se apresenta. Não há efeitps cenográficos vorazes, nem uma arqui-estrutura que esmaga. Não há sequer um fio que nos conduza. Mas há, como sempre, corpos que parecem vir de um outro mundo, e, por virem de longe, nos surpreendem com o modo como se relevam, intensos, presentes, inteiros. (...) São corpos praticamente nus, embrulhados em cobertores, que falam pouco; e, quando o fazem, citam ridículas canções de amor. São corpo mudos, ou quase mudos, que usam o movimento não como matéria para a acção, mas como a própria acção. E, por isso, mais do que corpos, são espectros que deanbulam num palco vazio, imersos numa paisagem sonora hipnotizante, à espera de nada. À espera de nós.
Esta obra pode parecer «fora de contexto», mas apenas porque se oferece a Pina Bausch e a relembra no ser, na inovação, naquela forma como Pina levava aos corpos a revelação de uma brisa, ou o prazer e o medo do corpo movendo-se sobre a chuva. «Alain Platel, 51 anos, coreógrafo que se reinventou depois de mais de vinte anos à procura de uma ordem para o seu movimento, fala-nos hoje de um lugar mais sereno, onde a urgência tem mais a ver com o presente do que com o futuro.
Segunda-feira, 20, em Lisboa, no Teatro Maria Matos

CARLOS PINTO COELHO, COMO FALAR DE CULTURA

foto publicada no Público
CARLOS PINTO COELHO (1944-2010) falecido anteontem, aos 66anos, com problema cardio-vascular a cuja intervenção cirúrgica não resistiu. Jornalista de mérito, apresentador de televisão, com uma forma singular de falar de cultura, distingiu-se particularmente com o programa ACONTECE, durante uma década, facto profissional que lhe conferiu grande visibiidade. Hiperactivo, o seu curríulo, exposto pelos jornais, dá bem a determinação com que trabalho. Foi, com um ano de idade, para Moçambique: viveu em Lourenço Marques até aos 19 anos, altura em que regressou a Portugal. José Nunes Martins disse dele: «Fica como um personagem luminoso na televisão portuguesa.

domingo, novembro 28, 2010

PERFORMANCE DOS MASSACRES CIRCUNSTANCIAIS

dos jornais
Cimeira da NATO, um dia ao acaso da rua, gente nova agregou-se num ponto de Lisboa, ao Chiado, e fingiu morrer num massacre que algumas vozes, falando para o mundo, atribuíram a uma acção militar daquele organismo do tempo da Guerra Fria. Esta gente tem, pelo menos, memória de filmes e notícias visuais de situações destas, porque a representação performativa foi momentaneamente convincente. Os protagonistas, por certo, nasceram quase todos muito tarde para saber do que falavam, exprimimdo à porta de casa que não aconteceram ou nunca foram assim. Fora da história, alheios aos verdadeiros massacres, estes jovens podem tornar a catarse apenas em mimetismo lúdico, efectivamente descomprometido.
Nada me liga especialmente ao estudo sobre a NATO, mas fui do tempo em que esse organismo se constituíu e acompanhei sempre os factos e reuniões que se lhe referiram. A organização para defesa do Atlântico Norte fez parte, até há pouco, do medo mútuo do Bloco de Leste e dos Estados Unidos da América: as suas restrições envolviam fronteiras geoestratégicas cujo sentido se perdeu ao cair o Muro de Berlim, sobretudo à medida que a Rússia enveredava por um modelo de regime aceitante dos mercados e de muitas das heresias capitalistas. Conservar a mesma designação, porventura com a mesma estrutura militar, em princípios e equipamento, parece mais um acto de sobrevivência de certa força pronta para se gerir em expansão do que uma cordial adaptação do mundo entre a América e a Rússia, geografia política cujo verdadeiro fim lembra forças emergentes mais a leste, poderosas, competitivas, talvez um dia invasoras - China e Índia, entre outras. Mas a Nato quase nunca exerceu grande prestação guerreira, chegando a ajudar trabalho de protecção a operações humanitárias. Combate agora, apoiada, esse sector de terríveis noções sobre o ser e a vida, os talibãs, no Afeganistâo, cujo desenvolvimento atroador terá efeitos sobretudo nefastos em toda a região.
Para os que fingem morrer no chão de uma cidade pacífica, sob o peso do avanço da Nato, o que é legítimo em termos de liberdade de expressão, seria talvez oportuno lembrar os que têm morrido em nome da paz, combatentes ligados à saúde, apoio em alimentação, jornalistas que escrevem e fotografam para se fazer a História concreta, sem véus de fantasia nem bandeiras longínquas.