terça-feira, junho 15, 2010

ESCREVERAM NO PAPEL: ONDE VAMOS MORAR?

Graça Lobo

Usando as próprias palavras com que os ARTISTAS UNIDOS falam do espectáculo que baseiam em Beckett/Joyce, eis um espaço de fascínio e muitas imagens entretanto perdidas para a mordaça do consumo:

As palavras inconfundíveis de dois dos maiores escritores do século XX através de cartas, excertos, do monólogo de Molly Bloom ao monólogo de Lucky, uma visita demorada a dois dos grandes mistérios da literatura.

Com Gaça Lobo, Virgílio Castelo e Jorge Silva Melo; tradução de Miguel Esteves Cardoso, José Maria Vieira Menes, Jaime Salazar Sampaio.

integrado no Festival do Silêmcio, Instituto Franco-Português, quarta,16, 21,30, entrada livre

sexta-feira, maio 28, 2010

A CASA GRANDE E OS LAMENTOS DE OUTRORA

lembrança para Iria Jawaa

Terra longe na distância do Quevec.
E os passos outrora quentes,
quase brancas as manhãs, brancas as casas,
colmo de abrigo e de repente as asas,
inteiras, ligeiras em frente
e por força do mundo em redor,
já rodando, redondo, no rosto da gente.

Oiçamos os velhos sábios de outrora.
Vozes começando devagar.
Resmungações dos animais, demais,
pateando o caminho de terra e capim,
uma porta, a primeira, rangendo sim,
preguiçando nos gonzos sem folga
ou abrindo céus ainda brandos de cinza
apesar da mornidão adivinhada
na brisa já lavada,
insectos de trajectos em volta,
também cruzados, zumbindo,
distâncias se calhar de outro calcular.

Bem logo passos inivisíveis a lavrar
os fios todos sinuosamente
como certos rios,
grandes, grandes mas sem navios.
Ficam aqui e além os camponeses em brios
por vezes em passos largos decididamente sim
a par das vozes renovadas
e cada vez mais além e assim.

Cheira a homens e a bichos.
Cheira a terra e a flores.
Abrem-se os olhos cismando amores,
tudo certo no excesso de tudo,
o morro mais alto escolhido no gesto mudo,
magia, geometria,
seria nele erguida a Casa Grande.
Assim se fizeram as paredes de massa elementar,
paus atravessados, zonas de adobe,
e os quartos de chão revestido,
e as salas de cozinhar e de comer,
colmo por cima, as madeiras aqui,
os tapetes além,
a bela crueza de tudo
e as faces pálidas dos avôs,
dos bisavôs, ali se fizera um mundo,
todos juntos na regra e na matriz
do sonho profundo.

Nesse tempo lembrado em agonia, a lenda
era dividida em histórias para contar à noite,
lus de fogo, suspensa, misteriosa, como na tenda,
outros, pois sim, zelando pela paz em turnos,
cada olho no fundo da noite,
no perfil da mata,
enquanto os ouvidos escolhiam rumores,
destrançando acasos e sinais.

Ainda ninguém sabia que esse modelo de vida
estava a ser esmagado a qui e além, em ferida,
requiem que os cânticos e as danças
ainda se refaziam contra o medo
e contra as lanças.

sábado, maio 15, 2010

VERDADEIRA REFERÊNCIA DE UMA GERAÇÃO

Professor José Saldanha Sanches

Morreu ontem, aos 66 anos, este homem que tantas vezes nos vistou pela televisão, soltando a sua palavra lúcida e o seu comunicativo modo de estar. Rui Cardoso escreve, no Expresso de hoje, que Saldanha Sanches foi referência de uma geração da Academia de Lisboa - «no tempo dos livros proibidos e filmes censurados, da negação dos mais elementares direitos de cidadania». Do alto da escadaria da Faculdade de Direito, a suz voz fez despertar consciências e arrebatou multidões. Sanches era, segundo Fernando Rosas, um orador brilhante, tão capaz de explicar e mobilizar, como de destruir os argumentos adversários com uma retórica demolidora.»
Corajoso e convicto, era dos poucos que não fugia quando a polícia carregava ou quando a PIDE fazia emboscadas. Por isso esteve várias vezes preso. O 25 de Abril abriu-lhe as portas de Caxias. Depois dessa data, juntamente com a sua mulher, Maria José Morgado, foi um dos primeiros a demarcar-se dos delírios esquerdistas e das políticas radicais.
O «Expresso» publica hoje a sua última crónica, ditada na cama do hospital, texto de que se publica aqui, como homenagem esclaredora, um pequeno excerto:
«Além das vassalagens, não podemos esquecer os outros papa-reformas, profissionais da acumulação de reformas públicas, semipúblicas e semiprivadas. Basta ver o caso do Banco de Portugal, ou outros menos imorais, que permitem a uma série de cidadãos -- gente séria, acima de qualquer suspeita -- alimentar-se vorazmente, em acumulações de pensões, com reformas e complementos, começando a recebê-los em tenra idade. Muitas vezes até com carreiras contributivas virtuais, sem trabalho e beneficiando de promoções (dizem que para isto são muito boas a Emissora Nacional/RTP e a Carris). Tudo isto, como sempre, é feito ao abrigo da lei. É que isso dos crimes contra a lei é para os sucateiros. O problema é que a lei que dá é refém dos beneficiários que tiram e da sua ética».
Fiscalista
Passará na televisão um pungente documentário em que Saldanha Sanches, entrevistado por Mário Crespo, revisita a prisão em que esteve preso e as memórias de um quotidiano sem sentido.

terça-feira, maio 11, 2010

PORTUGAL DE JOELHOS: CHEGOU BENTO XVI

Papa Bento XVI
Século XXI

Chegou o Papa Bento XVI. Vem em visita pastoral, dizer missa no Terreiro do Paço, viajar para Fátima, contemplar o Porto. Isto espanta. Porque de manhã visitou os Jerónimos, rezou durante dez segundos e voltou à vida social que o rodeava. Comeu frugalmente, segundo dizem. Mas o luxo das liturgias e dos altares construídos de propósito só para uma missa, um aceno, a benção capaz de salpicar um milhão de pessoas em Fátima. Ou no Porto. Que significa isto no século XX. A Igreja não muda de modelo nem peda a ajuda de um designer da ruptura. Quantos Papamóveis existirão no mundo. Porque é que o Santo Padre não visita uma aldeia nordestina apoiado num animal em vias de extinção, um animal humilde e amigo como o burro. Nunca mais se esqueceria esse pontificado. Estas visitas imperiais esquecem-se umas às outras. José R. Almeida, na revista Notícia, escreveu assim, sob o título Mafia e Vaticano: «O celibato tornou-se obrigatório no clero católico a partir de 1537, no papado de Gregório VII. De acordo com a lei canónica, o voto de celibato é quebrado quando o padre se casa, mas não necesariamente quando este tem relações sexuais ocasionais. Haverá, então, que alterar a lei canónica e metê-la na lei civil para que não haja trânsfugas pedófilos nas dioceses dos EUA, Irlanda e agora Alemanha, Holanda, etc. O bispo holandês John Magee encobriu actos homosexuais e pedófilos, mas com este currículo foi secretário pessoal de três papas: Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II. O Vaticano, quando slecciona os seus secretários, não sabe dos seus currículos? O actual papa, Bento XVI, não soube dos crimes preticado pelo padre Lawrence Murfhy, que terá abusado de duzentas crianças surdas (New York Times)? E diz o nosso cardial José Saraiva Martins que "não se lava roupa suja em público!" O Vaticano está a viver nula aldeia global pedófila e quer convocar um sínodo. Que o convoque e com urgância! Tudo isto é fastidioso e velho. Venha o padre Fontes para papa e as mulheres para bispos! E assim seja. Amém.»

Transcrevi um texto que não escreveria (se calhar escreveria bem mais duramente e fazendo outras perguntas, além das citadas) mas o testemunho revela um estado de espírito que não parece tolerar mais do mesmo, entre manchas oleosas num pântano a apoderecer. Fica aqui a ideia da mudança destas malogradas repetições imperialistas de um cerimonial que já não deveria ser o da Igreja Católica, deixando, enfim, cair o Romana.

quarta-feira, abril 28, 2010

AGÊNCIAS DE NOTAÇÃO FINANCEIRA OU DEUS

imagem do parlamento da Ucrânia


ministro português Teixaira dos Santos
Cada dia que passa e cada jornal que leio rasgam fogueiras nas noites do meu psiquismo. A Rússia quer mais quarenta e oito anos de estacionamento da sua frota de guerra na Crimeia. No parlamento da Ucrânia, essa força aceite pelos deputados pró-russos teve a oposição violenta dos deputados da oposição pró-ocidental. A imagem mostra um mínimo instante da batalha com chuva de ovos, socos e puxões de cabelos.
Poderão dizer-me: em Portugal isto não acontece. Eu acho que acontece, mas por meios menos transparentes, quer escudados em obtusas comissões de inquérito, por dá cá aquela palha, quer alargados a raivas incontidas contra o governo, entre teorias da conspiração e desentendimentos bravios de tudo o que dizem os partidos, uns contra os outros, alguns em campanhas de zelo contra todos os magalhães do mundo, sócrates da eternidade, ferreiras de mandatos obstinados de cinco meses, atrasando o trânsito e navegando em contra-mão. Ninguém quer falar da crise numa perspectiva global, no quadro de uma catástrofe gerada pelos donos do mundo, do capital que escondem e mostram em breves inserts para derrubar bolsas, moedas, comunidades. Tais forças, perante as quais nennhum Sócrates nem nenhum Passos podem seja o que for, já não se bastam com os seus monopólios e grandes grupos de pilhagem: têm agora diversas correias de transmissão, que põem e dispõem, sem que nenhum tribunal da decência os salpique de ácido.
Foi assim, mais uma vez, com Portugal: suas Excelências da agência de notação financeira Standart & Poo'rs (S&P) cortou o rating da dívida da República Portuguesa, passando dos anteriores A+ para A-, um corte de dois níveis de que não há memória no mercado português. O outlook permanece «negativo».
Estas palavras são citadas de um artigo de Paula Cordeiro, no «Diário de Notícias» de hoje. Toda a lógica de fundo da União Europeia começa a ser posta em causa, ou por ela mesma ou por forças colossais que espreitam a falência dos Estados sociais, abrindo veredas e túneis a fim de desmoronarem governos, países, centenas e centenas de anos de diversos patrimónios nacionais.
Tudo está sendo embrulhado em muretes e muralhas e entidades surgidas não se sabe de onde, comandadas não se entende como, com tabelas em computador, analisando estatíscas ou informações obtidas a distância. Portugal não tem que ser metido na alhada europeia toda ou noutras alhadas a Ocidente e a Oriente. E digo isto porque as leis tratadistas em que nos embrulham superam o que foi negociado em Lisboa, sendo as assimetrias na Europa cada fez mais despudoradas, desde as longínquas calibragens de frutos, orientações exteriores à memória histórica e cultural do país, abate de grande parte da frota de pesca, da agricultura que nem sequer bolia com a francesa, tudo assim, ensarilhado em orgãos majestáticos de enorme luxúria de meios e pouco entendimento das periferias, das populações ou dos ventos que sopram colonialmente sobre as nossas pobres imitações de cosmopolitismo, ideia decadente em si mesma.
A Grécia foi (com graves faltas dela) o vértice de um vórtice com o qual Alguém quer devastar o euro, as agências feitas de homens que nenhum de nós conhece e que nunca debaterem nada com o mundo, nos grandes plenários que a tecnologia permite. Não ouvi mais falar numa nova estrutura coordenadora e fiscalizadora do sistema bancário nem me parece que as tais agências tenham uma concorrente europeia digna de crédito real e mediático. Assim, os interesses dos grandes Estados são motores de crises sobre crises, a luta de mercados inúteis, de moedas patéticas, de redes para o tráfico de influências, promiscuidades várias, corrupção e deuses inacreditavelmente vivos e livres nos seus grotescos pés de barro.
«É tempo (disse Teixeita dos Santos) de o Governo e os partidos, em especial o PSD, se entenderem quanto a isto (medidas necessárias). É preciso focar a atenção no que é e deve ser prioritário para o País, pois as dificuldades ainda não acabaram. O país está a atravessar um momento decisivo (...) e tem de saber responder a este ataque dos mercados»

quinta-feira, abril 15, 2010

AS CITAÇÕES DITADAS AO NOSSO QUOTIDIANO



de PLUMA CAPRICHOSA
Clara Ferreira Alves



ÚNICA









Na sua crónica
Somos um pequeno e desgraçado país
temos uma elite sofrível e uma classe política sem cultura política nem histórica

Sai-se da pátria e regressa-se à pátria e as notícias são as mesmas; é como se o mundo girasse e nós parados. à espera do apocalipse. Tudos nos diz que amanhã será pior e toda a gente nos pede mais sacrifícios, mais penúria e mais infelicidade. É impossível levantar um país de vencidos ou convencê-lo a fazer alguma coisa por si. Leio as notícias sobre o extraordinário salário de António Mexia, da EDP, os 3,1 milhões anuais, e penso o que pensa uma pessoa normal: não vale a pena. Os velhos morrem de frio no Inverno porque não têm dinheiro para pagar «a luz» e o senhor eneria tem um salário igual ao dos melhores 200 gestores americanos. Numa empresa falsamente privatizada que floresce num regime de monopólio e em que o Estado é o maior accionista. E aquilo é o salário, fora os benefícios e os cartões. Fora as reformas e as pensões. A permanente resignação perante a imoralidade é que nos torna passivos, fracos, assustados, irresolutos e cúmplices da delapidação do nosso dinheiro. E um governo socialista autorizou isto e promoveu isto. E pior do que isto. Não se trata de premiar o mérito, trata-se de premiar a estupidez. Porque deixamos isto passar.
(...)
Em Portugal, deixámos de ter símbolos e não temos modelos. O português mais influente é um jogador de futebol. O segundo mais influente é um treinador de futebol. E ponto final. Temos uma elite sofrível e uma classe política sem cultura política nem histórica, ludibriada por autodidactas ou por rapazes com cursos tirados no estrangeiro e que chegam a Portugal com um objectivo: enriquecer. Enriquecer à sombra do partido, do padrinho na banca e do Estado. De nós. E a justiça trata de si e dos seus privilégios. Somos um pequeno e desgraçado país.

quarta-feira, abril 14, 2010

AS CITAÇÕES DITADAS AO NOSSO QUOTIDIANO



de A ESPUMA DAS COISAS
António Mega Ferreira

Notícia







Este espectáculo de encenação de um pseudomartírio pela liberdade atingiu o auge com o desfile de «pressionados» e «pressionantes» a que a Comissão de Ética da Assembleia da República deu guarida, palco e tempo de antena, nas últimas semanas. Não posso deixar de notar, como cidadão, que, enquanto se tratavam questões de imperioso interesse nacional como o Orçamento e o PREC, ou as eleições para a liderança do principal partido de oposição, as páginas dos jornais e os noticiários de televisão foram servindo de câmara de eco a um cortejo de lamúrias, indiscrições, meias-verdades e delações que, à hora a que escrevo esta crónica, já tinham chegado a Morais Sarmento (que foi ministro de Durão Barroso) e a António Costa, que não está no governo há três anos. Francisco Balsemão, que, além de empresário, sempre foi jornalista, encarregou-se de relativizar estas «pressões», ele que, tendo sido primeiro-ministro, deve saber bem do que fala. Mas, para lá da reverência da praxe, ninguém lhe prestou atenção.
Há clara desproporção, parece-me, entre o alarido e a matéria de facto: por enquanto, do alegado plano governamental para o controlo dos media só há a convicção não fundamentada de três ou quatro jornalistas e não-jornalistas, expressa por vezes em termos histriónicos e despropositados, infelizmente tolerados pelo presidente da comissão. Tudo, claro está, ouvido da boca de terceiros, porque ninguém falou de «pressões» directas, o que deixa bem claro que as mesmas nunca existiram. O momento mais hilariante foi o da mirabolante «revelação» de que o primeiro-ministro teria telefonado ao Rei de Espanha para lhe pedir que intercedesse para o afastamento de uma apresentadora de telejornal de um canal privado... Que ego, senhores, que ego!

terça-feira, abril 13, 2010

AS SUAVES SESSÕES DA JÚLIA DOS ESPÍRITOS


Meus aigos, esta é a imagem digital do protoplasma da Júlia, distinta apresentadora de televisão e que ultimamente nos tem presenteado com sessões finíssimas da mais transcendente estrada de comunicação entre a nossa palpável e medíocre dimensão de humanos com o espaço onde se deslocam, invisíveis quase sempre, os perespíritos e os espíritos que nos são próximos ou distantes, a maior parte dos quais parecem divagar (cómoda ou incomodamente) pelos lugares da sua vida carnal, pelos sítios onde se deslocam os seus parentes queridos. Júlia dos Espíritos acompanha uma medium inglesa, soft e certeira, claramente ao vivo, todos ao vivo e no meio da maior das claridades. Como se vê, trata-se de uma espécie de laboratório nada semelhante às difusas e sonurizadas sessões dos tradicionais espiritas. Aqui pode haver gente como o Rui de Carvalho, leve, sério e confirmativo. E outra gente com a mesma placidez bonita, sem ansiedades, nem dores, nem esquizofrenias. São todos e todas como maçãs maduras, limpas e sem bichos.
Júlia Pinheiro (dos Espíritos) diz à senhora (inglesa) para começar. E ela, de pé, sem formalidades, com voz natural, aponta para um dos circunstantes: «Este, por exemplo». E Júlia diz que vamos começar e que ela será intérprete das falas da senhor vidente. Parece uma representação lindamente estudada em casa, tão bem, tão bem, que a própria apresentadora, conhecida por ser esganiçada até ao cansaço dos ouvintes, sucumbe ao milagre de falar em tom natural, na mais fluente e doce das traduções. «Aquele senhor tem uma figura de mulher junto ao seu ombro. Usa um chapéi de palinha, é branca, usa um belíssimo vestido de verão. Ela diz que continua a amá-lo muito, mas revela-se perturbada ao lembrar o filho que perderam num horrível desastre. O homem leva a mão aos olhos, também perturbado, mas recompõe-se depressa». «Que pode dizer-nos sobre isto?», pergunta a Júlia do Espíritos. Ele diz que sim, que é verdade, o filho morreu há um ano, num desastre de mota, dois anos depois do falecimento da mãe, ainda jovem.
Esta é uma narrativa possível do que acontece naquele programa. Se fosse possível ter esta internet dos mortos, com um motor de busca bem superior ao Google, um mundo já tinha dado uma volta muito grande, transfigurando-se em muitos aspectos. E teria sido prestado um serviço inestimável às religiões, incluindos aquelas que acenam céus palpáveis, capazes de convencerem o mais empedernido dos homens a se suicidarem, fazendo-se explodir com bombas, assim combatendo o inimigo na Terra e catapultando-se para lugares paradisíacos, onde o amor tem novas cores.
Esta total e grosseira falta de respeito pelos que estudam a eventual sobrevivência da alma, ou se ela existe e como, com que propriedades, porquê e para quê, é conenável. Um travestimento desta natureza, sem que ninguém se indigne, não pode passar por entretenimento: é um jogo preparado para criar expectativas palpitantes nos crentes, algo «dizível» daqueles dois mundos. Mas eu não sei se o jogo se chama embuste, ou outra coisa pior, e não percebo como se mantém em emissão, com a maior naturalidade, um tão grave atentado à nossa inteligência e condição humana. Ou será que só a política, rasteira, de idêntico nível, é aconselhada à moderação ou mesmo a sair de campo? Perguntem à Manuela Moura Guedes se quer participar no programa da Júlia dos Espíritos. Não sei se ela arrasta maus ou bons espíritos, mas repetirá sem papas na língua o que lhe comunicarem do Além, doa a quem doer. Júlia, isso não é deontologicamente aceitável, nem com falinhas mansas.

sexta-feira, abril 02, 2010

PORTUGAL E O TRÁFICO DE SUBMARINOS AO SOL

Portugal, rosto da Europa que se fez ao mar com pouca gente e muita vontade de desbravar mundos, mandou degredados para Angola e escravos para o Brasil, onde ajudou a criação de um esplendoroso país, apesar das suas assimetrias e a deslocação temporária da corte para lá, abarrotando os barcos de quinquilharias, brasões e muitos condes. Por lá edificou o milagre de Manaus, ópera, simulação cosmopolita, intrigas gostosas, enquanto pela selva os sequestrados da borracha produziam riqueza para os outros, entre as zonas do café, cacau, e outras riquezas fabulosas até ao petróleo de hoje e a violência e os sem-terra e as favelas impenetráveis.
Por cá tudo foi definhando, mesmo durante a dura vigilância do regime de Salazar e os tarrafais todos, diversos, implantados longe e perto, bem disfarçados pelo império inteiro. Cristine Garnier falou com legendagem desse homem que um dia foi traído por Deus e caíu de uma cadeira. Estávamos em guerra, catorze anos em três frentes, com todos os orçamentos possíveis e fértil terreno para traficar benefícios, entre construções logísticas, ementas erradas e ferros e géneros comprados com luvas.
Hoje, em plena crise económica e financeira, face dilacerada de um capitalismo global que quer crescer até rebentar, e já rebenta e já encalha em dólares e euros, incapaz de pensar o planeta e os erros da obesidade da teoria e da prática, destruidora, que abrirá em breve os braços a milhões e milhões de formigueiros imparáveis, da China, da Índia, da Ásia em geral. A Europa, entretanto, sobrevive numa lógica de mercado e de colagem de países entre si, pequenos e pobres, grandes e ricos, sob a orientação de tratados que não unem coisa nenhuma nem apontam para um verdadeiro espaço de coesão, de respeito mútuo, de partilha devidamente regulada. Aquilo a que se chama União Europeia é o que resta da civilização ocidental, de muitas mordomias e serviços sociais apreciáveis, entre profundas rupturas da colonização mercantilista americana.
Portugal, que olha cegamente para a sua enorme zona marítima, onde se podem engendrar riquezas enormes, de sobrevivência digna, deixou que lhe roubassem normativamente a sua frota pesqueira e da marinnha mercante, icluindo a rectaguarda dos grandes estaleiros. Passara o 25 de Abril e os três DDD, houvera muita desarrumação e algumas conquistas, aproximámo-nos da democracia. Mas acabavam indústrias, reajustavam-se poderes, os partidos políticos competiam, em fé e batota de meios, como os clubes de futebol.
Caíram as torres gémeas, na América, aviso dantesco do que pode aproximar-se dos nossos egoismos e dos nossos devaneios bem pensantes. A própria América sentiu o abalo e apanhou uma virose de corrupção que fez entrar em falência um grande banco, a crise alastrando como a peste, um vento devastador chegando à velha e senhorial Europa. Portugal andava enredado em monstruosas intrigas, lutas de alecrim e manjerona, aumento da corrupção, luta pelo poder, comissões de inquérito para tudo e para nada, castrando a actividade do governo relativamente a todas as coisas decisivas e às outras, as de campanário, por causa de mentiras, de luvas encobertas, de amigos indevidos do primeiro ministro, derrocadas sobre derrocadas, esforços ignorados pela comunicação social, papel a sobreviver sobre um mar de boatos. E por fim, quando abrandava o fluxo criativo das atoardas e dos barões falantes, era preciso descobrir mais cobre para transmitir novas descodificações. E aí estão os submarinos encomendados por Paulo Portas, que acreditou na argumentação dos militares, e nas irregularidades, nos tráficos de influência, milhões de euros de luvas, mais do que ganham (por nada) os nossos governadores de
geraçlão espontânea. A Alemanha não brinca em serviço (viu-se desde há muito) e já prendeu alguns prevaricadores, tratando do resto, Portugal sacudido, não tanto pela verdade e pelo julgamento de vários crimes, antes debicando audições tontas, de costas voltadas para as verdadeiras necessidades de cooperação, deslizando para o fundo do mar: Paulo Portas vai lembrar-se das «investigações» do Indepentente e outra gente combinará a aceder aos paraísos do dinheiro, até porque, um dia, esta terra crestada acarinhará os submarinos sem gasóleo. Restará um moinho de vento, comprado na candonga, para alumiar os sobreviventes.

fotos da imprensa, Expresso

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sábado, março 20, 2010

UM SÓ SEMANÁRIO, EXCERTOS DA PÁTRIA HOJE

excertos, hoje, de um só jornal de referência sobre a realidade
portuguesa
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*As energias renováveis vão ultrapassar, em 2013, a electricidade fóssil.
*Máfia italiana opera no Algarve.
*O já famoso call-center de António Preto, fiel de Ferreira, ressuscitou, agora com Preto na sombra e jovens actores pagos para obter apoios para Rangel. O candidato diz que não sabia, mas acha «irrelevante» o facto de sereItálicom actores.

*Socialistas criticam o PEC e até no governo surgiram as primeiras divisões.

*A maior e mais real ameaça à liberdade de imprensa é o tipo de jornalismo que hoje se faz e que é ditado, primeiro que tudo, pela necessidade de vender informação e conquistar audiências a qualquer preço. (M. Sousa Tavares)
*Os ordenados dos gestores públicos são uma afronta ao país que vai pagar o PEC. (F.Madrinha)
*Vamos entrar numa nova leva e privatizações sem se pensar uma vez mais para que serve o Estado. (Ricardo Costa)

*O PEC devia listar sacrifícios rumo a um futuro risonho. Mas só lá estão os Sacrifícios (Ferreira leite)
*O Congresso trata o pobre Rangel como se fosse Einstein e Passos Coelho como se fosse a loira burra do PSD (Clara F. Alves)
* Fomos levados ao engano, porque a nossa imprensa, quase toda, vive à procura de sangue, escândalos, tragédias ou heróis. E porque, entre procurar a verdade da história além das aparências, esperar pelas investigações das autoridades sem antecipar conclusões, ou optar logo pela versão mais trágica e chocante, escolheu esta sem hesitar. (M.Sousa Tavares)

*A «lei da rolha» não lembra ao diabo mas lembrou a Santana, ainda às voltas com os seus fantasmas (F. Madrinha).
*Marcelo resiste a apoiar Rangel: «Alguém vai de preservar a unidade para o futuro» (Expresso)
*«Se alguém sabe de alguma suspeição contra mim, então que me diga na cara para eu me poder defender (P. Passos Coelho).

* O Bloco de Esquerda resiste à penalização dos seus militantaantes, até «por razões históricas e orgânicas», explica João Teixeira Lopes, dirigente do BE, recordando que o seu partido é uma coligação de várias tendências e que os militantes ainda ecordam com tristeza os episódios de afastamento dos dissidentes do PCP. (Ricardo J. Pinto).
*Por falar em rolhas, não devia haver uma lei para silenciar sindicalistas por uns meses? Gente pensava que o Mário Nogueira tinha ficado contente com o acordo que fez com Isabel Alçada. Mas não, ele voltou!» (Gente).
* Manuela Ferreira Leite não conseguiu ver aprovada aquela brilhante ideia de suspender a democracia por seis meses mas não se deixou vencer. Se não se convence o país, resta convencer o partido, ajudada pelo favor inesperado de Santana Lopes (Gente. Expresso, sob o título «Gente» tinha saudades do camarada Estaline.) Da nossa parte: seis meses não bastariam, pois só de 12 todos nós precisaríamos para por na ordem os partidos e os seus líderes, e as suas não-ideologias.

* Pacheco Pereira já encomendou a Amorim um camião de rolhas para a Marmeleira (Gente)
* O Primeiro Ministro é averiguado, os administradores são demitidos e julgados, as sucatas transformam-se num vértice político de incontornável significado, os bancos têm lucros, o desemprego aumente... (Ruben de Carvalho)
*BE quer ouvir os gestores da PT e da TVI, incluindo Cebrián. Pede ainda os documentos das viagens de Rui Pedro Soares a Madrid. (Rosa P. Lima)
* «Vamos estar lá para ver», disse Ricardo Rodrigues, que não tem dúvidas de que a comissão visa «atingir o primeiro ministro» e que promete contra-atacar caso os trabalhos resvalem para «denegrir, triturar e enxovalhar» a imagem de José Sócrates. (Rosa P. Lima).
* O governo começou o debate do PEC com argumentos de esquerda contra as deduções. Continuou com argumentos da direita liberal pelas privatizações. A meio desta semana já se socorria dos argumentos de Paulo Portas contra as prestações sociais. Se isto dura muito mais tempo ainda acabaremos a explicar a Sócrates que a culpa da crise não é dos imigrantes. (Daniel Oliveira)
* O deputado social-democrata considera que o ministro das Finanças achincalhou oa mais de quatro mil presidentes de Junta de Freguesia. (João Figueiredo protesta contra a frase «money for de boys» pronunciada pelo ministro Teixeira dos Santos quando já estava azucrinado com a voracidade dos presentes por mais euros).
* Ao meter o seu bedelho paquidérmico em todo o lado, o Estado acaba por esquecer as funções que deviam ser a sua prioridade: as polícias e as magistratu- ras. (Hemrique Raposo)
* Trichet insiste na flexibilidade salarial. Nota sobre as concepções avançadas do Governador do Banco Central Europeu sobre produtividade, situação do mercado laboral e competitividade.
* Apesar do mandato de Carrilho na Unesco só terminar em 2012, o governo português quer afastar aquela individualidade do lugar porque recusa cumprir ordem de Lisboa. Luis Amaral não prestou qualquer declaração sobre o assunto.
* Nobre Guedes, ex-ministro do Ambiente, perdeu mesmo a honra. O Supremo tribunal de Justiça não deu razão ao ex-ministro do Ambiente, Luis nobre Guedes. Este acusava o Expresso de «violação da honra» no caso do artigo «Co-icineração feita em segredo», que foi manchete do jornal em 24 de Dezembro de 2004.
* Clara Ferreira Alves, apreciadora de Jardim ou indiferente às suas bordalescas intervenções ao longo de 30 anos, mil vezes piores que aquela dos corninhos apontados aos deputados por um ministro da República no Continente, pareceu reconhecer a preparação para o bem e para o mal de Passos Coelho, mesmo ao procurar fazer o seu número final apresentando perdão àquele ilustre político, mas escreveu logo a seguir: Perdoar a Jardim, ele? A Jardim não se perdoa, Jardim é o único que pode perdoar. É Deus. Daí, o lapso, e espero que não tenha sido porque Jardim se fartou de cuspir sobre Pasos Coelho. (...) Estranhamente, o congresso e o partido, que precisam urgentemente de um vencedor, tratam Marcelo como se fosse César, tratam o pobe Rangel como se fosse Einstein e tratam Passos Coelho como se fosse a loura burra do PSD. Desculpem a apropriação. Sócrates deve divertir-se a ver isto com os amigos.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

MADEIRA: TRAGÉDIAS TAMBÉM PODEM REDIMIR


foto inicial: Diário de Notícias

Tantas vezes, entre a notícias de cimento e flores, nos julgámos aqui com algum direito à indignação pelas palavras de João Jardim, mordendo aqueles que em qualquer hora poderiam estar a dar-lhe a mão. Agora sobreveio a tragédia, a ira da Natureza, uma ira cega mas que tem a sua lógica, e as mãos mortas tiveram de superar, com dignidade, o reboliço revisteiro do Continente e da Madeira.
Leio e transcrevo pontos relevantes de um texto de Violante Saramago, alguém que que há trinta anos se converteu a viver naquela ilha, justamente no Funchal. A frase que lhe destacarm do texto é esclarecedora: «Não se pode transformar ribeiros em caminhos estreitos». Ao descrever os primeiros dados do desastre, Violante escreve: «tudo isto estava anunciado, só faltava a data. Anunciado?» Expliquemos um pouco mais: «Não se podem transformar ribeiros de 12 a 14 metros de leito em caminhos de cimento em que água corre a valocidades vertiginosas. Não se podem onstruir rotundas sobre ribeiras. Tudo isto tinha de rebentar. E não falamos de apenas uma, são três ribeiras que desaguam no Funchal. Alguém imagina cimentar o Tejo?» Assim, «tudo isto correu pior do que poderia ter acontecido. Nãp se aprendeu nada com a catástrofe de 1993 e daqui a uns anos vai voltar a acontecer. As construções foram feitas de forma caótica». Concluindo a parte principal do seu texto, Violante Saramago: «Custa-me que não tenha tido a hombridade de repensar o ordenamento (refre.se a João Jardim). A Madeira é atingida ciclicamente. Não foi nenhum castigo divino e não é só uma força da Natureza, que só tem um sentido: os bairros de lata e os mais desfavorecidos. Não há nenhum ordenamento e esta palavra devia começar a fazer parte da consciência de Alberto João Jardim».
Seja como for, agora na Madeira e como vai acontecendo um pouco por toda a parte, em termos desproporcionados, uma súbita tromba de água desabou sobre a ilha e fez ateradoramente o que a força da gravidade ordenava. Simplesmente 50 cm por mero quadrado ultrapassa a mais atrevida tempestade. E tudo desabou das montanhas, ultrapassando a estreiteza dos caminhos, derrubando casas, vias rodoviárias, mitos e muitos carros levados numa torrente de facto impressionante, alguns ja sem dono pela morte que quebrou dezenas de vidas humanas. É para essas vítimas que devem orientar-se as orações daqueles que crêem nesse apelo.
E também, num tempo das mais aberrantes quezílias partidárias, casos sombrios e mal abordados, tudo dentro da crise e da lassidão dos costumes, é justo realçar os políticos do governo que se dirigiram rapidamente ao Funchal, inteirando-se de tudo, e começandoa esboçar um plano de auxílio e reconstrução, o qual já está plenamente a funcionar. Apoiando tudo e esclarecendo tudo, na base da sua experiência da Ilha, João Jardim esteve bem.

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

RANGEL RANGENDO CONTRA AS CIRCUNSTÂNCIAS















Rangel, no mau augúrio de renegar Bruxelas, atitude que nunca considerara ponderar, cedeu a pressões e ao tamanho do seu próprio ego, e desceu de súbito em Lisboa, praticamente só rodeado de jornalistas, à hora dos noticiários, para se declarar candidato à presidência do PSD, o que defendeu num compreensível voto de salvação para o país, começando pelo seu partido e respondendo ao estado de sítio que se foi armando em torno do actual governo, sobretudo de Sócrates, situação que ele diz enfaticamente estar disposto a enfrentar rompendo com tudo, combate que nomeia por ruptura. D. Sebastião, que nunca voltou da bruma, não teria dito melhor: romper com a mudança tantas vez apregoada, sem exército nem jantares de família, só, depois com quem vier por bem, pela ruptura, a fim de salvar o país desta vil confusão em que se encontra. Manuela Ferreira Leite pode, enfim, baixar o véu: cumprida a sua atribulada, curta e enovelada missão, o seu superior sentido da Verdade ganhou o Estadista (como ela dizia) que nunca mente, nunca se contradiz nem populariza a retórica, disposto porventura a provar que a crise é superável de forma cristalina, apesar de fervilhar numa circunstância excepcionalmente difícil.

domingo, fevereiro 07, 2010

OS VELHOS PADECIMENTOS DA NAÇÃO

Bordalo Pinheiro
«TOMA»


Deixo cair o jornal no chão. Não havia nele nem um bocadinho de estrada, bem um bocadinho de brisa, só restava um princípio de náusea. Náusea, presumo, daquilo que nos vai rodeando a cabeça, presas as pernas e o tronco. Parecem consolidados os desconfortos da revolução institucionalizada, desencantos de um cerco «global» cuja invenção só podia ter saído de zarolhos utópicos. Desde o vamos cantando e rindo até o avante, camaradas, avante. O convívio e a partilha não são apenas actos de afecto, são também caminhos da inteligência associada à emoção/razão. Se uma pequena comunidade disputa um resto um resto de carapau ou a ordem de quem põe o caixote do lixo na rua, onde nem sequer é recolhido, a desgraça será ainda limitada mas já anuncia guerras como as do século XX. O que deveremos então pensar dos 127 países da União Europeia, agregados por tratados e alçapões, fingindo que acreditam numa ordem falsamente generalizável, apesar das brumas repetidas todos os anos, entre deveres, obrigações e dívidas? As fracturas estão à vista com a universal derrapagem do capitalismo (dos mercados), trafulhices bancárias em cascata, o colosso americano, sob o manto esperançoso de Obama, ficando por instantes de joelhos e com muita gente a mudar de casaca. Coisas da grandeza e da ganância, dir-se-á. Então e a velha Europa, estreita nos deslizamentos obscuros ou descarados, bem depressa a comparar o caso da Grécia com o de Portugal: um manga de alpaca da UE a bolçar para o mundo a esquemática parecença do que se passa nos dois países, acicatando os mercados (especuladores) a venderem e a comprarem restos da nossa última hepatite. A Alemanha e a França, entre perdões generosos desde 1948, depois das guerras que fizeram e de terem sido salvos por estrangeiros, criam agora os seus pactos de consistência, mais desenvolvimento, mais pompa em carros negros. E assim, embora por vezes não pareça, borrifam-se para quem ainda está fora da zona euro mas se alistou na Europa. Ou para outros, como nós, cuja «memória do esquecimento», embora queime a alma, não evita os devaneios crescentes das viagens em massa, de cultura e recreio, os consumos aberrantes, os negócios globais, a diluição progressiva da identidade de cada povo, a colonização redutora quase toda feita de hambúrgueres, de súbito um 11 de Setembro num tempo civilizacional cada vez mais onírico, a meio dos pântanos, tempestades naturais, céus tóxicos na consequência cega das indústrias vorazes e invasores.



«A CANGA»
Bordalo Pinheiro


Portugal, que ficou mais ou menos pobre depois da má gestão após os Descobrimentos, e mesmo durante esse período, nem sequer fez o nojo dos seus 9.000 mortos da chamada guerra colonial. Fecharam-se as bocas, rezam os velhos pais de um norte pedregoso e que, felizmente, ainda não se parece com a Madeira, enquanto Lisboa concentra todas as casacas virtuais de governos em bicos dos pés, mitigando a salvação dos desastres, por milhões de euros, junto de grandes escritórios de advogados, serviços caríssimos mas que ajudam a enconrir as multidões entrevadas dos ministérios, a aumentar a dívida, a omitir centenas de institutos cujos objectivos não são promulgados e nos quais praticamente ninguém acredita, pesar das carreiras públicas que por essa via pululam na capital. Para além do gesto rapace dos construtores civis e dos tais institutos mais ou menos obscuros, seria talvez útil, quanto à poupança decretada por Bruxelas, começar a extinguir tantas partes em que o governo se divide e multiplica, publicando o efeito de tais decisões e descarregando a papelada naquela Bélgica central em ordem á memória futura. Porque a justiça não vai tratar disso tão cedo, os dinheiros escassos passam-lhe ao lado, ao lado das secretárias, enquanto os juizes encapelados têem em diagonal 14.000 páginas de um só processo e continuam vinculados a morfologias e metodologias velhas, litúrgicas, insensatas. Por isso lá se afundou a Justiça numa paraplegia considerável, e basta, para se ver tal coisa, reparar na grande evidência fo Titanic/Casa Pia. E entretanto de nada nos serve ter um Primeiro Ministro com nome extraído da cultura clássica, Sócrates, igual ao do filósofo que inventou a Alegoria da Carverna. E não é que, entre ressonâncias ininteligíveis, viemos parar ao limite da mesma, sombras e sombras passando, golpes baixos ou altos, deitando por terra (ou quase) o governo, todos fazendo da luta partidária a mais grosseira das inconsciências sobre o respeito que nos devia merecer a história e a gestão das coisas. Se calhar é preciso inventar uma democracia que não viva de expedientes, de falsos cosmopolitismos sempre a virar em provincianismos. Sobre a simples vigilância e renovação da frota automóvel do Governo, os nossos escritores de televisão poderão, a todo o tempo, fazer romances dos caminhos secretos de muitas coisas. Dos carros aos caminhos secretos dos projectos, vida e morte dos sobreiros arrancados aos milhares, haveria muito a dizer sobre as comunicações e os monopólios das energias catastróficas, privadas, semi-privadas, geridas, como os bancos, na linha de dezenas de milhares de euros por mês, fora os prémios de milhões, fora aí de um património que não se sabe donde vem e para que serve. Melhor ainda seria pagar a dívida macionalizando as marinas do país, com apropriação «revolucionária» dos milhares emilhares de iates que por lá existem: vendidos aos países emergentes resolviam muitas coisas. E a dívida deles poderia ser paga em prestações suaves por um período de 300 anos. Isto resulta apenas de um breve diagnóstico da crise nacioanal (e do mundo). Mas eu não sou o Madina Carreira, cada vez mais parecido com o simpàtico Mr. Magoo, que arrasa tudo e todos, apoiado em mapas e gráficos, trabalhos de casa. Eu gosto muito de o ouvir, mas não chega a nenhum saber construtivo. Perguntaram-lhe outro dia: «então, perante essa situação, que resoluções tomaria para as resolver? E ele: «Eu? Eu deixava ir tudo abaixo, bater no fundo». E riu-se. É uma figura muito respeitada e não tem sonre as costas os boatos em volta do Primeiro Ministro, histórias obscuras que já permitiriam vários filmes policiais e mesmo de terror. Os títulos até são sugestivos. «Face Oculta» poderia tornar Portugal num país de magiais visitáveis. O nosso jornalismo, diz Sócrates, é de espreitar à fechadira. Ele acha que a privacidade tem de ser respeitada e as escutas e sua publicação vão contra esse direito. Mas o que se escreveu representa a imagem espreitada? E o som ouvido?

A MÁSCARA

Bordalo Pinheiro

A máscara, sátira de Bordalo Pinheiro, não se refere a Manuela Ferreira Leite: esta reivindica A VERDADE, mesmo que se contradiga votando a favor dos dinheiros para o cubano Jardim. Máscaras há agora por toda a parte e há ricos que têm esse hábito, enquanto guardam o dinheiro nos «paraísos fiscais», esperando por melhores tempo de investir. Ou nem isso. A Europa, afinal ainda rica mas decadente e sem ideias novas, retornou ao feudalismo a coberto de um manto diáfano da União (de mistura com subsidiaridade.). O Feudo dominador é o de Bruxelas, onde também há ratos e espiões das mais diversas estirpes. Lá se cafunga em diversas reuniões para coisa nenhuma, ou pouca coisa, com milhares de funcionários viajando sem cessar entre o maple
aquecido e os parlamentos pirosos. Dos nossos deputados europeus, vejo-os mais por cá do que tenho notícias deles estarem lá. Enchem a televisão de balbúrdias, onde todos dizem todos o mesmo e ao mesmo tempo. O Ruído é inabalável. As flores da nossa mais funda reflexão passa pelas dezenas de comentadores políticos, sem nada para resolver o mal que acusam, com grande relevo para Rebelo de Sousa, Vitorino, o inefável Pacheco Pereira, esse também um pouco por todo o lado, à espera de que o PSD reapareça. Pacheco lidera A Quadratura do Círculo, mas por mero desprespeito pelas regras do diálogo. O Eixo do Mal, onde a gritaria atormenta a vizinhança, pode salvar-se da negatica pela prestação de Clara Ferreira Alves, naturalmente quando a deixam falar. Mas é um grupo engraçado, tolo mas engraçado, um grupo que ainda não percebeu estar em vias de se afundar a um sopro (atrás da fechadura) do Primeiuro Ministro. Mas enfim, salve-se quem puder. Falarei com a Clara quando todos estivermos no Inferno, onde teremos mais companhias: Louçã, Portas (por causado Independente), a líder Manuela Ferreira Leite (por causa da verdade rasutada), Sócrates (por ter descido o déficit) e falta ainda escolher um membro do Partido Comunista: o Comité Central insiste no colectivo. Vão todos.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

FORMAS DE VER E VENCER A BATALHA DA VIDA

Daniela Ruah

O meu interesse pelas novas gerações de actores passa por remotas experiências que fiz no teatro, mais tarde no aprofundamento da linguagem do cinema e nas técnicas de trabalho da telenovela, onde estudei o comportamento e o talento de alguns actores. Daniela Ruah tinha o meu apreço. E foi com muita admiração que segui o seu recente trajecto em Londres e nos Estados Unidas da América. Há em tudo uma grande capacidade de aventura, trabalho responsável, estudo e pragmatismo. Ela fala de ter seguido um sonho, mas os dados que nos revela, incluindo o «contrato» com os pais e o sentido de estratégia contribuem para sublinhar as formas de afirmação destes e de outros portugueses. Daniela preparou-se arduamente para sair do país, aprender na sua área, informando-se previamente de como passar as barreiras travadas no tempo. Ela insiste na estratégia e na definição de objectivos. Esforço e objectividade podem beneficiar, bem entendido, do factor sorte. Em relação à adaptação a um meio diferente, muito competitivo e dinâmico, a actriz não apouca o trabalho, em Portugal, nas novelas, campo onde se faz um treino próprio para a representação e ritmos de resposta. Em entrevista que concedeu à revista ÚNICA, salienta, entretanto, que nos Estados Unidos e no que importa à representação, não há trabalho mais exigente, quer nos horários, quer quanto à quantidade de cenas a gravar por dia. Em Portugal, chega-se a fazer 35 cenas. Na produção em que se encontra a trabalhar agora, Danuela Ruah actua apenas em cinco cenas, para 12 horas de gravação, ritmo que se assemelha mais ao do cinema, com mais atenção ao detalhe. No trabalho actual, a actriz tem um papel de inspectora (policial) e é curioso saber como adquire formação específica, tendo boas condições de agilidade e rápida adaptação ao uso de armas, às técnicas de visar alvos e de disparar. Quando preparava a sua ideia de trabalhar nos Estados Unidos da América, entregou-se por inteiro, durante dois anos, a um curso em Londres. Integrar-se numa nova cultura é bem complicado. Parte-se do princípio de que se conhece o essencial de um país, ou mesmo bem, mas isso só acontece se se viver nesse país, sujeitando-se às regras e pressões do meio. Quando foi para Nova Iorque sentiu que o tempo e os contactos com outros colegas haviam feito a diferença, percebeu que se encontrava mais aberta e fala mesmo de bem estar psicológico. O sistema de agentes e agências funciona, há muito trabalho, e um agente é mesmo indispensável para começar. Daniela é agora representada pela Gersh, uma das maiores agências de actores da América. Apesar de tudo, teve que cavar o chão à sua frente, apresentar sites da área e até colaborar em clipes, partilhar currículos, conseguir resultados na head Shot (foto de rosto), o que entra frequentemente em situações de casting. Um aspecto de que ela nos fala e mostra as diversas vertentes destes contextos de busca e aperfeiçoamento, refere-se à participação, sem remuneração, em pequenos filmes de colegas, entrar também nas sessões de leitura de argumentos cinematográficos. Num desses contactos, um director de casting acabou por, mais tarde, a lembrar e pedir a via de contacto através de Gresh. Daniela foi parar a uma produção de Geoge Lucas. Esta aventura reveste-se de factos e passos ganhos que a actriz venceu na medida em que percebera até que ponto interessa observar regras, oportunidades, tendo uma boa relação com as dinâmicas do meio. E a sua onda de entusiasmo leva-a a contar o trabalho com Linda Hunt, estar ali com aqueles actores de igual para igual. Daniel Ruah foi também questionada sobre a sua origem judia, a forma como vive com essa realidade, religião, aspectos, a siatuação actual. E conta coisas importantes de uma passagem por Israel, em casa de familiares, bem como a estranheza de um povo que vive plenamente a vida mas não se desliga do medo, da violência inesperada, de como encaram o presente e o futuro. Numa simples fala intercalada em muitas outras, e a este respeito, Daniela comenta: «Entristece-me profundamente não ver como se possa dialogar com uma formação radical e terrorista como o Hamas, que tem por único objectivo aniquilar Israel. De resto, o maior objectivo deles é mesmo o de ocupar o mundo.

Dados, citações e referências da entrevista concedida à revis única,
Bernardo Mendonça e Raquel Albuquerque

A IRRELEVÂNCIA DOS MEROS CONTEXTUALISTAS

A QUEDA, Camus segundo um articulista do Diário de Notícias

«Em Paris, discute-se a subida ao panteão de Albert Camus, morto há 5o anos. O debate, centrado nas acusações de aproveitamento político, ilude uma evidência, a de que Camus já não pesa no cânone literário. Na adolescência, imitei milhões e li-o de ponta a ponta com constante facínio. Hoje, nama de recorda a respectiva existência. Embora a lucidez (e o talento) o distanciassem dos intelectuais da sua geração e lugar, paradigmas da subserviência a totalitarismos, a verdade é que o «contexto» tem um preço, e que Camus paga com a própria irrelevância a merecida irrelevância de uma certa França» (Alberto Gonçalves 9.01.10)

Não é possível ler os efeitos deste azedume, em pleno equívoco, sem sentir um arrepio de pavor, percebendo a cega intenção de apagar da história as grandes vozes que ultrapassam contextos e ficam suspensas, até à morte dos homens, solidária com eles, no tecto do mundo. A temporalidade grosseira desta apontamento, a insinuação da queda na verdadeira ascese do livro com o mesmo nome, de Camus, tudo isso serviu para apontar o escritor como irrelevante, tocado apenas de uma lucidez que não passava de talento, que a irrelevância se paga caro, como a que acabámos de ler, sobretudo quando ela nos é dita na espuma da mediocridade e falsamente ancorada no esquecimento da irrelevância de uma certa França. O sinal de uma obscura ideologia aparece subjacente a quem diz que imitou milhões de vezes Camus, lendo-o de ponta a ponta com constante fascínio. O adolescente que se declara, hoje, enganado com tanto fascínio era por certo um pré-mutante incapaz de discernir a universalidade sólida dos grandes escritores com a leveza incolor de outros paradigmas. Porque alguém que leu anos a fio lbert Camus e o declara hoja que nada lhe recorda a respectiva existência, é certamente um fragmento de gelo (circunstancial) descendo da fria Árctica. Se a bruxelante França se entretem a arrematar o preço para fazer subir Camus ao Panteão, é certamente porque perdeu génio e amor próprio, coisas do degelo. Se alguma vez Camus esteve distanciado «dos intelectuais da sua geração e lugar, paradigmas da subserviência a totalitarismos, a verdade é que o «contexto» tem um preço, e que Camus paga a própria irrelevância a merecida irrelevância de uma certa França». Em toda esta ambiguidade, há aqui uma pontinha do véu a erguer-se da renúncia rasteira. Camus escolheu um certo exílio para de afastar de um certo reino, pujante na altura em que escreveu A Peste e nos falou de Oran, uma cidade sem pombos. Essa obra pertende ao património superior da humanidade, intemporaliza-se, e ele um dos autores de sempre, com uma das mais influentes obras que tocaram as gerações do pós-guerra, quer pelo seu arrebatador valor humanístico, quer pela lúcida poética com que desenvolve a crítica dos homens e da vida, nessa escrita da inquietação muitas vezes pacificada, brilando na pureza e sobriedade do estilo. É certo que a obra de Camus tece as suas ancoragens no nosso tempo surdo, mas a forma como daí se projectou no futuro, talvez espelhando Sisifo e Prometeu, tornou-a destinada a ultrapassar os limites da época. Maria ainda o olha através das lágrimas, porque ela sabia o que via aquele homem repousando de costas nas águas mornas e com os olhos cheios de azul.............................

Felizmente, O CCB homegeia Albert Camus, Prémio Nobel, 50 anos depois da sua morte. Mega Ferreira considera que a grande questão que atravessou o pensamento do escritor é a liberdade, sendo essa uma das razões que tornam a sua obra intemporal. Aqui se refere a vida plítica activa de Camus, posições polémicas, protesto à esquerda por causa da guerra da Argélia. Mas a condição humana vai mais além, no que escreve sobre a estranheza dela e sobre o absurdo. O seu «grande contributo consiste na forma como soube mostrar que o essencial é a coragem de enfrentar os valores dominantes sempre que eles são contra a moral»..F

terça-feira, janeiro 05, 2010

50 ANOS DEPOIS DA MORTE DE ALBERT CAMUS

ALBERT CAMUS
(1913 -1960)

A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente

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uma só frase de Camus, escritor e filósofo francês basta
para o recuperarmos na beleza e lucidez das suas palavras

sábado, dezembro 19, 2009

IMAGENS DE ALGUNS FILMES DE ELIA KAZAN

Comemora-se este ano o centenário do nascimento de Elia Kazan, cineasta dos maiores de toda a história do cinema. Recuso-me a ficar calado. Algumas imagens aqui e uma síntese do história deste artista invulgar depois

A LESTE DO PARAÍSO 1955

PÂNICO NAS RUAS 1950


RIO VIOLENTO 1966

AMÉRICA AMÉRICA 1963

O ÚLTIMO MAGNATA 1976

VIVA ZAPATA 1952

ELIA KAZAN: PORQUE NÃO DEVEMOS ESQUECÊ-LO

Elia Kazan
Entre nós, como é habitual em muitos casos, o centenário do nascimento de Elia Kazan (1909)passou quase despercebido. Penso que estas datas datas, relativas sobretudo a grandes criadores do audio-visual, do teatro, das artes cuja natureza nos permite caracterizá-las com o tempo e o espaço, deveriam ser sempre assinaladas, pelo menos, na atelevisão. Não era nada difícil fazer uma notícia, falar com algum conhecedor credível, e passar entretanto algum trecho de uma das suas melhores obras, ou eventualmente filme inteiro. Mais ou menos dilatado, o momento de comunicação pública, seria sempre de boa qualidade, com a vantagem de dservir a conservação de memórias culturalmente inalienáveis. É que, Elia Kazan, emigrado muito cedo para, foi sem dúvida um dos maiores nomes de sempre do cinema. Era grego de Constantinopla, e trabalhou também para o teatro, encenando de forma notável Morte de um Caixeiro Vajante (pela escrita por Arthur Miller) e igualmente Um eléctrico Chamado Desejo (de Tennessee Williams), obra que depois realizou no cinema, com o mesmo título, e a notável exploração expressiva de um actor que não se esquece facilmente, Marlon Brando.
É importante assinalar, desde já, que Elia Kazan ganhou um enorme prestígio como director de actores. Não só os dirigia, em grandes encenações, como também os descobria, através de uma sensibilidade especial. Marlon Brando foi um desses casos, que também dirigiu em obras angukares do cinema, como também aconteceu com o mítico actor James Dean.
Dean, até pela sua prematura e trágica morte, tornou-se a marca de um certo tipo de escola, abrindo uma ilustração privilegiada da geração rebelde daquele tempo e das relações entre pais e filhos, a conquista da dignidade e o valor solitário de a salvar. Rebelde sem Causa (em Portugal distribuído com o título Fúria de Viver) deve-se ao talento de Nicolas Ray e trata-se de um filme de referência no âmbito da sua temática.
Quanto a Kazan, é curioso o seu trajecto, numa América de tantas contradições: alcançou dois óscares (como realizador) pelos filmes A Luz é para Todos (1947) e Há Lodo no Cais (1954). Depois, apesar de uma produção carregada de obras primas, a Academia afastou-o daquele mérito, o qual caberia, com fortes razões, a obras como Um Rosto na Multidão (1957) ou esse inesquecível preito de homenagem aos emigrantes da Arménia, Itália, entre outros pontos, o filme América América (1963). A sua obra é sempre marcada por uma qualidade superior na orientação dos actores, num realismo de timbre dramático avassalador, na busca de conteúdos importantes, próprios dos tempos e da condição humana. Para além destes filmes, há outros de índice igualmente superior e que têm sido injustamente esquecidos como A Voz do Desejo (1956) e O Compromisso (1969), ou esse belíssimo melodrama (com James Dean) Esplendor da Relva.
Em 1999, e apesar de todos os males de ostracismo que têm vindo a matar a memória de obras notáveis, devidas a uma recuperação saudável, mesmo para esclarecer o horror dos pecados de gula manipulada pela espectacularidade tantas vezes gratuita (e cara) das indústrias do meio, Kazan fou contemplado por Hollywood, com a atribuição de um Óscar honorário. O cineasta viria a falecer cerca de quatro anos depois.
Os que tiveram o privilégio de conhecer a obra destes homens, incluindo muitos mais depois recuperados a Leste e noutras cinematografias indissociáveis da nossa verdadeira formação, devem assumir tal memória, sobretudo partindo de professores, artistas, cineastas, escritores, actores, a fim de não nos perdermos em falsos avanços ou na perda do gosto em termos culturais, e também qualidades sociais e ideológica (formativas) de tais exemplos.

sábado, dezembro 12, 2009

VEJA PACHECO ESCRITO POR EÇA DE QUEIROZ



contrapontos

Li hoje um curioso artigo no Diário de Notícias, «Desonestidde de Pacheco», na página A VESPA. O articulista parece ter descoberto mais uma qualidade na natureza pública de Pacheco Pereira. Lá para o fundo do blog lembro-me de ter escrito qualquer coisa sobre ele e A QUADRATURA DO CÍRCULO, ou melhor, O CÍRCULO DA QUADRATURA, que é de facto o que mais parece a dinâmica giratória e retórica sobreposta de Pacheco e Xavier. O terceiro não importa porque vai e volta, e o apresentador/moderador, de óculos redondos e barba rasa, nunca se digna a parar um dos permanentes para dar a palavra ao outro, zelando pela disciplina conunicacional, contra sobreposições e interrupções, a fim de que a emissão chegue ao telespectador com um mínimo de respeito por este oculto personagem.
Embora conhecesse intervenções deste tipo, às avessas, cheias de sinuosidades argumentativas por tudo e por nada, coisas pequenas, murmúrios em forma de boato, a precariedade do trabalho político, no governo e um pouco por toda a parte, dentro da minha cabeça a vespa agitava-se radiofonicamente, cada vez mais eléctrica e estridente. Este trauma fez-me lembrar um famoso tempo de antena radiofónico que dava pelo nome, sempre a condizer, de «Flash-Back». A audiência devia ser enorme. Pacheco Pereira só deixava de falar quando ia passear ao antigo Leste, nomeadamente à Tchechénia (diziam os jornais). Na volta, e sem falar no passeio, a pancadaria nos políticos do tempo recomeçava e Pacheco, desdobrando em redondo longos pensamentos da melhor dialéctica, comia as papas do interlocutor, o queixoso José de Magalhães. Não sei se haveria mais gente no programa, nem qual o coordenador. Lembro-me, sobretudo, de Magalhães (não, não falo do computador, coitado), quando episodicamente ele tentava falar: logo logo logo o interrompia o companaheiro, repetindo uma entrada qualquer, as vezes que fossem precisas, até o outro ser vencido e se sentir amordaçado, compelido a falar na hora tardia da esmola.
Outro dia passei pelo programa do CÍRCULO e fiquei pasmado ao ver um recem saído de Ministro, arfante e simpático, a dar explicações e a justificar a famosa compra do (agora sim) Magalhães: e logo o nosso Pacheco, com o Xavier contristado à espera da sua rábula, se lançou como gato a bofes para desmontar toda uma enorme e artificiosa manobra económica, a forma de comprar o aparelho, o embuste dos programas do próprio computador, tudo péssimo, feito para o terceiro mundo e fabricar mais gente analfabeta. Aqui fiquei um bocadinho perplexo: então as pessoas do terceiro mundo podem receber coisas de embuste, aparentemente porque, na sua menor capacidade de entender, só é devido aos outros, na Europa, o direito a programas bem feitos, dignos de uma escola verdadeira? Parece, pela conversa, que nem aqui se deveria devassar o espaço educativo com aquele princípio tecnológico, piroso e terceiro mundista. Pela boca morre o peixe. E o peixe engole, na água, o oxigénio dela - e não sabe nada de Teoria da Educação.
Resolvi então investigar na VESPA qual o pecado cometido pelo historiador bizarro, enovelante, que vai para a última fila da Assembleia da República e de lá aparece na televisão, ou dizendo uma verdade sinuosa e ponto final, ou refastelando-se no banco, a cabeça inclinada e um sorriso sardónico nos lábios. É, além do mais, e se calhar mais, um personagem que talvez o Eça gostasse de conhecer, escrevendo-o depois num romance que começaria em Moscovo e se desenrolaria no Alto do Pina, em Lisboa, antes, muito antes do PREC. e do ABRUPTO.

Diz o articulista do Diário de Notícias (12.12.2009):
«Se dúvidas restassem sobre a matriz estalinista de Pacheco Pereira e a sua evidente queda para a reescrita da história, o seu Ponto Contraponto na Sic-Notícias dissipa-as. Na última edição, a 6 deste mês, o que era suposto ser mais um programa de análise dos media, foi, tão-só, o tempo de que o "historiador" precisa para desfiar a sua agenda de ajustes de contas pessoais.
Cada programa é utilizado para disparar as mais diversas desonestidades intelectuais contra os seus inimigos, estejam eles fora ou dentro do PSD, fora ou dentro das redacções. Foi o que aconteceu com a análise feita à brochra distribuída por todos os jornais no dia em que entrou em vigor o Tratado de Lisboa. A versão portuguesa de um folheto, cujo conteúdo é certamente discutível, e que foi publicado no mesmo dia nos 27 Estados membros da U.E., foi alvo da fúria de Pacheco que o classificou como um documento de propaganda do Governo do PS pago com o dinheiro dos contribuintes nacionais. Mais adiante, no mesmo programa, quis comparar o DN e o Público, para dizer que, infelizmente, os dois jornais "estão cada vez mais iguais". Socorria-se Pacheco da capa das revistas respectivas, que ambos os jornais publicam aos domingos. Uma capa de publicidade! Exemplo que demonstra que, por mais que Pacheco tenha abandonado há muito o trilho de Estaline, o ex-ditador soviético nunca saíu de dentro de Pacheco...»
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a isto chamaria eu uma gravidez de risco

quarta-feira, dezembro 09, 2009

COPENHAGA, ADIAMENTO DA NOSSA ESPERANÇA

imagem publicada na imprensa, altos fornos
debitando para o espaço milhares de toneladas de gases impróprios


Apesar do entusiasmo com que as sociedades mais avançadas encaravam o século XX, por comparação com as alegrias e capitais de esperança quase utópica alimentadas no século XIX, a história, com bases científicas bem sustentadas, ficou sobretudo marcada com duas grandes catástrofes de exclusiva responsabilidade humana: e estou a referir-me, naturalmente, às duas Grandes Guerras mundiais, talvez com relevo mais apocalíptico para a segunda a projectar-se no espaço e no tempo (afinal de ambas), desde a expansão gigantesca das tropas sob o comando geral de Adolfo Hitler, cujas ideias sobre a raça ariana, a dura concepção dos sistemas, a par da exclusão dos judeus, se exprimiu em campo das formas mais hediondas e ocupou em pouco tempo praticamente toda a Europa. Apesar do extraordinário avanço das tecnologias nesse tempo, há cerca de oitenta anos, o fim da guerra e a partilha da Alemanha entre Russos e Americanos, veio traduzir-se, desde logo em termos de reconstrução, num leque de resoluções ao mesmo tempo aterrador e utópico. Não foi preciso esperar muito tempo para se sentirem os efeitos que por vezes decorrem da dinâmica bélica, acabando por se projectar nos mercados e em mutações dos sistemas de vida. Os crescimentos desproporcionados, sobretudo no recurso aos combustíveis fósseis, carvão e petróleo, todos sabemos, induziram brutais gastos de energia, produção massificada de bens de conusmo, opções que, visionando a imensidão do planeta, desde sempre prescindiram do estudo quanto aos efeitos de grandes perdas em lixo, materiais e gases corrosivos, tóxicos, perturnadores do próprio equilíbrio sistémico do planeta. sem pontadOs pensadores castrofistas conseguiram antecipar cenários inquietantes e foram surguindo filmes de ficção que procuravam, contudo, conferir a maior das verosimilhanças a desastres profundos, tratados já com elementos de uma investigação dos sistemas que equilibram a realidade e a realidade da vida. As novas tecnologias, em ambientes difundidos para todo o mundo pela televisão, também reflectiam as aprendizgens decorrentes da complexa abordagem e exploração do espaço cósmico. Mas os limites existem, apesar de tudo. E basta referir que a estratosfera é já um enorme caixote de lixos, entre centenas e centenas de satélites com inúmeras funções. Cá em baixo, há aterros indizíveis, onde só os indigentes profundos procuram restos, comida existente nas embalagens azedas, jantares de pães soltos mas duros, cascas de frutos, uma imensidade de detritos que a fome e o engenho parecem reconverter para usos comuns. Cartões transitórios, entretanto utilizados pelos milhões de cidadãos sem abrigo, cuja casa desmontável se implanta na rua, seja qual for a natureza do tempo, acrescentam às cidades um efeito desagredor da realidade afinal delicada, insustentável (sem ponta de metáfora) ao lado das indústrias poluentes, que rompem em baixo paisagens inteiras e enviam para o espaço biliões de toneladas de gases tóxicos, numa incalculável destruição de equilíbrios, apesar da absorção do Co2 pelos oceanos e florestas. Apesar disso, a verdade é que na superfície da Terra o peso dos factores emitidos desafina a balança dos fenómenos e diversos efeitos relativos à manutenção do equilíbrio.
Hoje, estamos à beira do limite. A derrocada das condições de vida nesta nossa nave colocou-nos, pelas nossas próprias mãos, num cenário de catástrofe global e, a prazo, de total extinção das espécies. Por isso, depois de assembleias mais ou menos falhadas desde há vinte anos, aposta-se tudo na reunião, em Copenhaga, de representantes qualificados de 190 países, um total de cerca de 15.000 pessoas. O aparato ilude. Desde há pouco que já se conhece a reincidência dos Estados Unidos da América em não se comprometerem, apesar de declarações da China e de outros países terem começado por admitir reduções de poluição significativas. As energias aternativas são uma via já em prática mas os donos do petróleo que resta esperam cinicamente enriquecer ainda mais à custa de plataformas especulativas e contrárias ao esforço pretendido. Porque, embora eles pareçam julgar que nada vai acontecer, a verdade é que vai -- e vai muita mais depressa do que se julgava, com os gelos a derreterem, os oceanos a subir, o aquecimento do planeta anunciando alterações climáticas apocalípticas.
Imaginemos um qualquer erro de cálculo e a antecipação de novas ressurreições.

terça-feira, dezembro 08, 2009

INSTRUMENTO ESTRUTURAL DO HOLOCAUSTO

esta e outras fotografias foram publicadas na internet
pelo título

exactamente como foi previsto há 60 anos
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Não há erudição que nos valha para trazer à lembrança do mundo a tragédia dos genocídios que os nazis, durante a II Guerra Mundial, perpetraram com o mais ignóbil dos zelos, dispondo de instrumentos capazes de aniquilarem seres humanos aos milhares por dia, meios conhecidos depois como campos de concentração e de extermínio, fábricas da morte ligadas aos polos de captura por linhas férreas exclusivas. Alguém escreveu que o Deus em que uma parte das sociedades acredita, é hoje o mesmo de ontem, de há 60 anos, de há dois mil anos, eterno, omnipresente e omnisciente. Criador do mundo, Ele soube, no próprio instante da criação, todos os instantes da história humana, para falar apenas de nós. É velho este argumento, mas ou as qualidades divinas são aquelas (e então partilha com os nazis tudo num só segundo) ou, a ter cambiantes, o que produziu como universo é de sua livre e exclusiva vontade, assim responsável único pelos desastres verificados entre os homens, no seu tempo mensurável, e considerando que Deus não tem dimensão e que o seu tempo é imensurável, tudo contido num milionésimo de segundo ou menos.


Estas pessoas sobreviveram ao gelo da morte, ao fogo do inferno, às cinzas poluentes que se libertavam de certas chaminés e a certas horas. São o testemunho para a história futura dessa ignomínia a que se chamou o Holocausto. É uma questão da História lembrar que, na altura em que o Supremo Comandante das Forças Aliadas durante a II Guerra Mundial, General Dwight D. Eisenhower, encontrou as vítimas dos campos de concentração, logo estabeleceu um plano de registo exaustivo das pessoas, lugares, testemunhos, através de fotografias, filmes e gravações. E fez mais. Fez com que os alemães das cidades vizinhas fossem guiados até aqueles campos para que pudessem ser testemunhos vivos dos acontecimentos, participando, inclusive, nos trabalhos de enterramento dos mortos. Eisenhower pensava que esta operação era fundamental: ter o máximo de documentos, tanto pela importância deles em si como para lutar contra aqueles que, em algum momento ao longo da história, tentassem lavar os restos do horror, dizendo que tudo aquilo nunca acontecera. Foi um homem avisado, o general, pois passaram apenas 60 anos sobre a guerra e já apareceram os sinais da negação. Quanto ao problema do mal, justamente nesta dimensão preventiva, é bom relembrar o que disse Edmund Burk: «tudo o que é necessário para o triunfo do mal é que os homens de bem nada façam».
Os prolemas da realidade actual começam a ser atravessados por tais memórias e a desencadear litígios na própia Europa, entre questões religiosas, rácicas e da emigração. O Irão, entre outros países, tem vindo a sustentar que o Holocausto não passa de um mito. Num tempo de globalização, com redes comunicacionais em grande escala, a tese do apagamento de certos factos é bem revelador de quanto importa tratar a fundo do património da humanidade, a todos os níveis. É incomportável ver a destruição de monumentos fundamentais na história do mundo, a tiro de canhão, como quem procura, como os talibãs, estabelecer à sua volta comunidades destituidas do sentido de civilização.


O email distribuido na internet a cerca de 40 milhões de pessoas é uma tentativa de preservar a verdade histórica e os valores civilizacionais por que nos batemos.
Há poucos dias, o Reino Unido removeu o Holocausto dos seus currículos escolares porque «ofendia» a população muçulmana que afirma que o Holocausto nunca aconteceu.
Esta atitude é um sintoma assustador, sinal do medo que está a atingir o mundo e quão
facilmente cada país se pode deixar arrastar.


Mas é bem certo que a memória não pode ser destruída, nem por grupos terroristas, nem por teocracias que misturam até ao sangue falsos dogmas religiosos com as convenções políticas menos esclarecidas. A verdade é que, pelo plano dos campos de concentração, sabe-se hoje com propriedade que foram mortos 6 milhões de judeus, 20 milhões de russos, 10 milhões de cristãos e cerca de 1900 padres. Os instrumentos de morte foram conservados, num esforço de significar no futuro a irracionalidade que eles representaram e a sua pérfida geometria, ligações ferroviárias aos pontos, longínquos ou não, de recolha de gente abater. E é pena qus meios da comunicação social, hoje, passem tão ligeiramente por factos ocorridos em África, nomeadamente a guerra entre dois países, por oposição étnica, donde resultaram, em dois meses, a morte de 800.000 pessoas. Onde se colocam estes números? Quem os limpa das próprias escolas africanas?

segunda-feira, novembro 23, 2009

ARTE POR DÉCADAS RESULTA NUM VER REDUTOR

obra de Artur Bario

obra de Joaquim Vieira


O meu apreço pelos textos e análises críticas que Hugo Canoilas publica no seu blog «O Infinito ao Espelho» assenta no entendimento que ele mostra ter sobre as coisas da arte (e não apenas), acertando a voz, sobretudo, nas horas menos resolvidas da nossa fraca vontade de achar. Há bem pouco tempo, referindo-se à exposição realizada pelo CAM e ordenada em volta da década de 70, ele fez uma afirmação (invulgar entre nós) ao considerar que o conjunto de trabalhos exibidos naquele Centro podiam estar em qualquer outra parte do mundo. «Podiam ter acontecido na Polónia ou na América Latina, pois pertencem a um movimento que se tornou global, onde as mudanças sócio-políticas se repercutiram de forma intensa no plano artístico, não sendo possível, por vezes, separar uma acção artística de uma demonstração política».
Esta observação está na área de algumas intervenções minhas, sobretudo na medida em que defendi as diversas redes dos géneros artísticos, já desdobrados por um pluralismo cultural formado na dinâmica das transformações do princípio do século XX, entre tecnologias encantatórias e o aprofundamento científico da natureza dos problemas perceptivos, a par de uma nova consciência do mundo. Iludiram-se os que julgavam possível (e necessário) castrar a inteligência dos criadores numa qualquer unicidade de «produção». A pluralidade de hipóteses formais e de outras metodologias para reformular os modelos em decisivos processos paralelos do fazer, na diferença e na semelhança. É isto que se vê no CAM, libertos provisoriamente dos ostracismos e sobreposições sem nexo. Esta ideia das décadas, onde certas coisas parecem óbvias mas logo rompem com o tempo, é impertinente, em especial quando entregue a uma nova categoria de agentes culturais chamados curadores. Os curadores não são artistas, embora o desejem pela guilhotinagem que praticam sobre muitos artistas, criando pequenos montes de jovens talentosos, prometedores (ou já geniais), quase sem solha para a história, balançando as tais diferenças na semelhança sem notar que tal relação não é a do paradoxo mas o sentido da natureza das coisas.