domingo, março 11, 2012

VELHOS AO ABANDONO NUM PAÍS SEMPRE ADIADO

É nosso costume apontar a história de oito séculos que nos representa. É vulgar falar sobre as velhas famílias e os velhos avôs, irmandade e pais batendo a terra, gente sentada nos valados, os netos ao colo. Portugal foi-nos sempre mentido nas derrotas e nas vitórias, entre coroas, mortos, viagens pelos mares, povoamentos de terras descobertas, conquistadas e ocupados por mais de cinco séculos.

Hoje dizem-nos, de verdade ou novamente a mentir, que o país está em crise, o mundo também, os próprios senhores do poder por essa Europa fora, América ou Rússia, quase todo mundo, excepto os antigos impérios colonizados ou culturas milenares, a China, a Índia, alguns importantes povos asiáticos e uma orla de África, homens ganhando fortunas com o petróleo e a primavera árabe frutificando devagar e em diversas tonalidades mortais.

Ninguém se atreve a falar de velhos, preferem dizer idosos, eufemismo do medo e do desinteresse. Velhos não são os trapos. Veja-se, neste país sempre adiado, como sobram velhos por todo o lado, mais do que jovens, e frequentemente perdidos em aldeias quase desertas, casas inóspitas, paisagens de uma indevida agricultura de subsistência. Um velho sábio, aqui, conserva a força do olhar a pensar ainda no futuro. E há casas a cores, em aldeias de 200 habitantes e até um pouco menos ou mesmo abandonadas. Para 400984 velhos no interior e nas cidades, há uma taxa de mortalidade avassaladora. 35% daqueles velhos vivem sem ninguém por perto em caso de urgência; e em melhor proximidade 22%. Morreram 28722 velhos em 2011 e 103 já contados em Janeiro deste ano, 2012. Os jovens não passam de metade da população mais velha e os filhos nascem cada vez menos: a média da composição das famílias, entre pais e filhos, é apenas de 2,8.

As casas que morrem são velhas, sobretudo nas aldeias, e país abandonou-as para povoar o litoral, onde se situam as grandes cidades, num pavoroso ordenamento do território, tudo cada vez mais feio e a paisagem tomando conta de si. O mar de outrora é dedicado como ciclorama do betão onde pernoitam turistas: já não há caravelas, nem idas nem vindas, nem pesca sequer. As pessoas têm a nova religião (irracional da praia e do bronze), compraram e venderam casas, vogaram no sonho que os bancos apregoaram e hoje ouvem falar, espantadas, que Portugal tem uma grande zona marítima cheia de riquezas.


Nas grandes cidades, e mesmo na outras, mais pequenas, morrem velhos em total solidão. São descobertos por vezes dois anos depois da morte, ou meses, ou dias, caídos no chão, enrodilhados na cama, a decompor-se e sem sinal de suicídio. Morreram por que sim, porque a sociedade já não o é, e se as famílias mal têm filhos (porque já não podem na escravatura do trabalho moderno e precário) os velhos avôs e avós ficam desempregados, sem netos nem filhos, vivendo de pensões miseráveis. Porque sim. Se não comem nem pedem esmola, adoecem na sua casa de sempre, poeirenta e desarrumada, e morrem de fome, entre memórias e esquecimentos, como Deus manda. 28.722 mortos solitários, sem assistência, sem nada, nem um grito ou sinal de socorro. Deixaram-se ficar, a vida é assim. Este ano já se contam 103, só em Janeiro, como se disse, de idades entre os 70 e os 90 anos.

Não há fogo que não os ronde na terra desabitada, ervas secas em volta, casas isoladas no monte, sonho de outrora em que se ouviam gargalhadas dos netos, as fanílias ainda tinham média de dois filhos, hoje nem um lhes sobra.






Quem é esta gente que nos abandona, apesar dos socorros de comida e mantas e afectos de psicólogos? Esta gente não é ninguém, tornou-se anónima nas enormes distâncias que as cidades estabelecem entre eles e os que magoam a vida por trabalhos de duração curta. Novos e homens de meia idade. Dizem os senhores do poder, que de humanidades sabem um calhau: «Trabalho para toda a vida? Que disparate e que desperdício, a mobilidade é tudo e tudo assim nos faz felizes.» Esta gente fez cidades erradas e destruiu as actividades de manutenção de qualquer comunidade. Têm pressa, não se sabe porquê. Nem porque raio guardam o dinheiro em paraísos fiscais. Então a vida não é mobilidade, transumância, pica e corre, como o pardal urbano. O país arrisca-se a cair ao oceano: e os velhos das aldeias terão um país inteiro para eles, agradável e de pastoreio. Sem televisão. Sem Internet. Sem realidades a mais. O mar está chegando junto da bicharada e o bronze vai deixar de estar na moda.

sexta-feira, março 02, 2012

NOVA ESCRAVATURA NESTA EUROPA CIVILIZADA?


HOLANDA

SUIÇA

Falou-se há tempo na agricultura para discutir estratégias de combate. Mas onde deveria ser recrutada a mão de obra para trabalhar montanhas? Gente obscura tratou disso. A Europa civilizada, entre a Suiça, a Holanda e alguns mais, entrou em crise e fez com que o sul se catalogasse como periferia e outras coisas mais, desde pigs a candidatos à nova escravatura. Há angariadores um pouco por toda a parte, sobretudo nos países intervencionados, como Portugal ou a Grécia. Gente desesperada com a falta de trabalho e meios de sobrevivência é aliciada para postos de trabalho não identificado na Holanda, por exemplo, com remunerações à volta dos euros. As pessoas deitam tudo para trás, pagam 190 euros para serem transportadas de «táxi» (leia-se carrinha) até ao destino. Que vão ficar num hotel. Que vão trabalhar numa GPA (empresa desconhecida). Não vão nada para hotel nenhum, nem para uma vivenda. Vão para casas rústicas, tipo bungalow, nas quais, por estranho que pareça, há mini-quartos para duas e quatro «hóspedes», em certas circunstâncias dois homens e duas mulheres, ou mais tarde em casas isoladas, tipo vivenda, onde são alojados nove indivíduos, os quais pagam equipamento e outros «deveres». Pagam certas coisas à cabeça, ficam a dever a um patrão oculto, só sabem dizer quem os contratou, uma tal Manuela que tem terras em Portugal e uma casa de campo de bom aspecto e nunca abre a porta a jornalistas ou simples vizinhos. Mas ela angaria os novos trabalhadores e a filha transporta a malta no «táxi», desaparecendo à chegada. O marido da Dona Manuela fica na Holanda, distribuindo serviços e cobrando dívidas. Porque o trabalho errático e diverso logo se desvanece para dois ou três dias de cada semana, sem alimentos nem direitos de função. Os portugueses mais antigos, que ainda vivem naquele «planeta» à espera de pagar as dívidas e ganhar algum para o regresso, todos eles se queixam e há mesmo organizações embrionárias, crentes em Fátima, que procuram criar condições mínimas a esta gente minimamente tratada, esquecida, escravizada numa «não periferia», a senhorial e rica Europa, a norte, no frio, onde os carros de alguns aventureiros trabalham noites inteiras a fim de que os donos, dormindo, possam sobreviver aos 15º negativos, uma vez que nunca receberam o prometido alojamento de trabalho. A TVI deu hoje uma entrevista sobre estes casos, alguém ofereceu a cara para contar, para testemunhar, porque dos regressados ao pobre sul, afinal rosto atlântico da tal europa, ninguém se atreveu a correr esse risco. Mas há riscos? Alguém acena que sim com a cabeça. «Até os que experimentaram na Suiça e voltaram sem futuro e sem alma». Isto são casos entre milhares, na Europa que se desagrega do seu projecto, sob o «jugo» de duas figuras cimeiras, o presidente da França e a Chanceler da Alemanha. Seria este o plano que se pensava para sociedades do século XXI, esta exploração miserável do trabalho como no requiem dos antigos impérios, como na África onde a política pode resolver-se através de genocídios e de dinheiros por lavar? Procurem no coração dos despojados. Façam de conta que estão interessados. Imaginem que a mafia os recebe em hotéis de cinco a dez estrelas, ao lado de sulcos em terras de ninguém, onde o povo italiano protesta, procurando mostrar que há desalojados (e perigos para a produção agrícola) se aquele TVG Turin/França for concluído. Um luxo em plena crise para a grandeza de conquistar ao tempo três horas de morte adiada.

quinta-feira, fevereiro 16, 2012

LIÇÃO DA HOLANDA NA FEIRA DE ARTE DE MADRID


A Holanda tem sido um paraíso para os artistas, os de dentro e os de fora. Bem apoiada pelo Estado, com meios de acolhimento e trabalho excepcionais, mais uma vez esse país nos dá a ver em Madrid (Feira de Madrid) o produto qualificado desse investimento. A obra aqui presente, cuja técnica ainda não vem garantida nas notícias, vai ao fundo da tradição pictórica da Holanda e mostra como a representação, seja ela qual foi, pode ter esta força de testemunho e a grandeza serena das mensagens que nos lega.

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

DEPOIMENTO SOBRE A ACTUAL CRISE EUROPEIA

Angela Merkel

CITAÇÃO

Num acutilante texto que publicou no «Diário de Notícias» de hoje, António Catita exorta o leitor a recordar exemplos passados e lamenta o comportamento da Alemanha no contexto da actual crise europeia:
«Não nos basta o que a Alemanha, a besta nazi, causou de terrível em quase toda a Europa; não nos basta o perdão das dívidas de guerra, para que ela pudesse reerguer-se; não nos basta o mau exemplo de não cumprir os acordos de paz e de se rearmar entre as duas grandes guerras; não nos basta outro mau exemplo, o de não ter cumprido, já na UE, o défice limite fixado. Agora fala em solidariedade e em dispor-se a ajudar a Grécia. Mas que hipocrisia. Como se ajudam parceiros europeus, que tanto fizeram o mundo evoluir, impondo-lhes empréstimos a juros usurários e a queda no empobrecimento e na indignidade? Que retrocesso. E quanto à Madeira (e ao continente, podia também acrescentar), ela tem razão Mas erros, todos, afinal, cometem. Há é que seguir em frente, sempre em conjunto, obedecendo a regras equilibradas de apoio, controle e supervisão, e fazendo funcionar direitos e deveres. Só assim a Europa e a própria Alemanha se podem
salvar.
10.02.2012 António Catita, Lisboa


quarta-feira, janeiro 18, 2012

A MAIS RELES DIABOLIZAÇÃO DAS TELENOVELAS

A EXEMPLAR EXPLICAÇÃO DO CRIME

Portugal é um excessivo produtor de telenovelas, procurando imitar os piores exemplos do Brasil. Começa a exportar estes subprodutos e, na luta tão absurda pelas audiências como a das agências de rating classificando países e empresas de simples lixo, tem nos canais televisivos o melhor veículo daquela produção, produtoras que obrigam excelentes actores a fazerem comédia, tragédia e farsa na mesma cena, se for preciso. Tais produtoras inventam histórias onde muitos lobos comem muitas meninas e onde o luxo encenático mente a todos com todos os dentes. Uma cena dramática, de recorte plausível (são sobras da indigência do imaginário corrente) é quase sempre acompanhada por canções em Inglês ou Português, completamente inadequadas para o efeito e passando para primeiro plano com um som que absorve tudo e em geral obriga a prolongamentos da representação (em detrimento da expressão fílmica) para que haja espaço farto a tão edificante estética melódica, canções em geral rascas, pelo menos desfocadas do seu valor intrínseco pelo uso patético, pelo contexto errado. A cena morre sob o efeito do som.
Mas os valores humanos que poderiam ser tratadas com as mesmas audiências (era só preciso um bocadinho de tempo) desapareceram deste horizonte de horror e pesadelo, entre mil beijos por cada novela. O crime organizado até ao impossível, numa luta contra seres intocáveis, em nome de interesses inconfessáveis, faz-se à base de guiões enovelados e promotores de uma violência perversa, plural, avassaladora, em toda a renda do enredo e só com alguma reedificação benévola (mas pirosa) no fim. Tudo se perdoa no fim e às vezes com dúvida.
Houve uma excepção razoável a isto, e com grande nível de feitura: «Olhos nos Olhos». Aí se verificou a capacidade invulgar dos actores, de uma direcção criativa, de um abrir de portas para a qualidade formal e problemas sócio humanos. Mas agora, tudo vai de mal a pior. Bastou-me ver aquele episódio de «Rosa de Fogo» para chegar a esta indignação mínima, porque vejo cenários, luxos, luzes e trabalho de câmara, entre outros aspectos benignos, engolindo sem fim capaz milhões e milhões de euros para um produto enganador, perverso, anti-pedagógico, inteiramente diabolizado por uma moda que a televisão, como grande invento do Homem para o Homem, não merecia. E parece que o mal, em linguagens vertiginosas e nos vários campos temáticos, se generaliza a todo o mundo. Era bom que a técnica digital se tornasse alérgica a esta grosseira manipulação, de todo em todo amoral.













1. Este senhor diz chamar-se Pedro e faz-se passar por filho
(perdido) de uma senhora dona de um império
da cosmética.
Quer ficar com tudo, encomendando assassinatos,
partir as pernas de uma bailarina, batendo na amante
e na jagunça de serviço, falsificando documentos,
armadilhando empecilhos, chantageando o seu obediente
faz-tudo, matando até o cão da menina para ela se julgar
assassina do seu bicho muito estimado e protector.

2. Adormece
a amante.







3. adormece o
chantageado
jagunço
a quem
obrigou
a drogar
a bailarina e
a menina

4. adormece
a menina
e acorda-a
para ela ver
o seu cão
morto













5. Mas há mais danados colaterais. Esta «menina»
faz as maiores patifarias para roubar o
patrão à amada bailarina.
Trata de uma Alzheimer com falso desvelo,
drogado-a e drogando o filho dela
para o alucinar a seu favor.









6. Esta senhora recusa o tratamento de um
cancro, mentindo aos familiares, para levar ao
absurdo a defesa da sua gravidez e do filho.
É mais amiga da vida alheia do que dela mesma,
no fundo suicidando-se em contradição à elegia da
vida. Parece querer acabar com
a lei do aborto, abortando-se e sem ter garantias
de que o filho vive bem, sem ela, e a substituta.
Estas novelas têm, assim, mensagens subliminares
que configuram uma humanidade patológica,
cega por mitos e cânones, decisivamente
antropofágica. Em cadeia, três ou quatro
por cada noite de impaciência.









7. Este senhor, enfermeiro, é irmão da senhora
grávida. Desvia um ventilador e põe a vítima
inconsciente, em assistência artificial, esperando
o fim da gravidez: ambos, obviamente
psicopatas, esperam assim a
consolidação e o nascimento do bebé.
Não sei como acaba essa história,
mas por mim, em coerência, ela devia morrer
sem o benefício almejado de abraçar o filho
oxigenado numa simulação comatosa
da mãe.

terça-feira, janeiro 17, 2012

QUE NÃO PENSAR É ESTE PENSAR TÃO ÓBVIO?

A fala é um gesto facial parcialmente engolido

O que parecia coisa assente era a de que «só consegue pensar quem é capaz de articular palavras. Diz-nos Ana Gerschenfeld: A mente humana terá surgido graças a uma capacidade inata para a linguagem falada? O psicólogo propõe uma narrativa da origem da linguagem e do pensamento radicalmente diferente do que estipula a linguística moderna. O credo que Noam Chomsky enunciou há 50 anos poderá estar a abrir brechas. A obra recente de Michael Corballis (Universidade Auckland, Nova Zelândia) intitulada The «Recursive Mind: the origins of Human Language, Thought, and Civilization» aborda, na perspectiva da psicologia experimental, comportamentos humanos ao nível da linguagem. Aí se lê que os neandertais eram tão inteligentes como nós, capazes de de pensar e comunicar e de comunicar espontaneamente, embora de forma não verbal. Aproxima os chimpanzés, em certa medida, desta condição. Corballis defende não só que as origens da linguagem humana são gestuais e não vocais, mas que o pensamento não precisa da linguagem para surgir. Isto estabelece um corte importante com a ideia defendida até há pouco, a de que sem linguagem não pode
haver pensamento, tendo este surgido por capacidades verbais inatas do homem, mercê de uma evolução recente, repentina e única na história das espécies.
Corballis, falou recentemente em Lisboa e disse que era preciso reposicionar os seres humanos modernos numa perspectiva de continuidade natural com a evolução da vida na Terra. Em entrevista publicada no Público, aquele psicólogo considerou que não é a fala que nos torna humanos. «É verdade que a linguagem é algo que apenas temos nos humanos, mas acho que não precisa de ser falada. A linguagem gestual é tanto uma linguagem como a fala.»
Existe um grande debate à volta disto, entre os especialistas que se revêem em Chomsky e os que estão mais próximos das ideias de Everett. Há quem pense, por exemplo que a estrutura recursiva da linguagem surgiu quando a escrita apareceu. (...) Jornal: Ou seja, caímos na armadilha de pensar que o nosso próprio pensamento é linguístico, porque tanto temos jeito para rotular as nossas imagens mentais? «Sim, acho que caímos nessa armadilha. Mas eu acho que o pensamento, de forma mais provável, foi sendo composto de pantominas, dessa forma de imaginar os acontecimentos como se estivessem a acontecer».

É talvez preciso começar a encarar, mais profundamente, o papel da percepção visual, pois ele activa muito antes de haver gritos organizados. Ver um animal caçável pressupõe o gesto que aponta, o gesto que mata. A imagem é mãe de muitos dos mais importantes e vários aspectos mecânicos, orgânicos e estruturais da (das) linguagem. Como seriam verbalizadas as figuras representativas da linguagem gráfica egípcia?

quinta-feira, janeiro 12, 2012

TAPEÇARIA COMO SUPORTE E DÁDIVA DA BELEZA

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a invenção da esperança
contra o leite derramado



TETYANA CHKYRYA

Em contraste com o que veremos a seguir, temos aqui a autora de uma experiência juvenil no âmbito da tapeçaria moderna, a peça transformada em vestido com elaboração no tear e duas pequenas asas/mãos que emergem dos ombros. Tapeçaria no limite, instalação, performance, tecelagem ainda. Tetyana foi aluna da cadeira de tapeçaria da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Desde a reforma de 76/79 que têm sido efectuadas as mais variadas experiências, estudos de renovação, provocações e revisitações à tapeçaria de raíz clássica, numa longa viagem que nunca teve, senão desta vez em Portalegre, um reconhecimento público através das actividades mais avançadas daquela instituição. Artes Plásticas sim, a decrescer. Desenho e design também. Mas é preciso coleccionar bons acervos destas linhas de formação tendo em vista a montagem de exposições bem contextualizadas e explicadas.

sem leite derramado

A EUROPA TEM DE MAMAR EM SOLIDARIEDADE

A MAMADA INCONFESSÁVEL


Todos os povos da Europa, e não só, esperam que a ganância se transforme em fome e que a fome seja vencida em solidariedade, tenha mais força unificadora, nos direitos e nas prestações do que esta imagem pressupõe: um membro da troika, fraco e perto do resgate, alimentado às escondidas pela mamãe chanceler, no recato do escondimento.

domingo, janeiro 08, 2012

COLISEUS COM RELVA E GLADIADORES NO SÉC XXI



Não há forma de olhar para a violência destes «gladiadores» sem nos lembramos de outros (igualmente do nosso tempo mas menos disfarçados). No caso do rugby (futebol americano), toda a patética blindagem dos jogadores é uma defesa que apenas excita maiores expedientes tácticos de brutalidade: não há desporto, não há verdadeiro respeito pelo ser humano como personagem de um jogo, o espectáculo é avassalador no Coliseu contemporâneo.
O futebol que se pratica em Portugal e um pouco por todo o mundo, enferma dos mesmos males, apesar de parecer mais leve e as defesas do corpo serem mínimas, limitando-se às caneleiras para as pernas. O espaço onde se joga é um recinto rectângular, com chão relvado, e grandes bancadas em volta, por vezes separadas do campo por valas ou redes de contenção do público. Porque a evolução deste espectáculo industrializado tribalizou muito os grupos, tornou-os rivais e não adversários desportivos, promoveu a criação de claques agressivas que saltavam para o relvado e chegaram a provocar verdadeiras catástrofes, tendo sido a Inglaterra o país que mais legislou sobre o assunto e tomou medidas radicais com a proibição das claques organizadas em grupos capazes da prática do vandalismo e de agressões premeditadas aos adeptos de outras equipas.
É uma espécie de carnificina, sem equilíbrio nem ritmo, o que os espectadores de futebol vão, parece que em jeito de catarse, olhar e seguir nos nossos estádios. O endeusamento dos «gladiadores» do futebol exacerba tudo em volta e a própria engenharia financeira de compra e venda de «intérpretes» funciona na mais promíscua das trocas e especulação de um lado para o outro. É suposto haver regras no futebol. E não são poucas. Equipas de arbitragem seguem de perto toda a partida e zelam pela marcação de faltas que contribuam para um jogo mais leal e menos lesivo da própria estética que envolve. Há países, em especial a Inglaterra, espaço de origem do futebol, em que os treinadores e as equipas primam, em larga medida, por disputas territoriais de malha larga, com precisão nas trocas de bola e mesmo na corrida de combate ou nos cruzamentos sobre a grande área. O que vemos, nesses casos especiais, são jogos de forte personalidade atlética em bons espectáculos de futebol, um ritmo bem balanceado entre estruturação e ataque, descongestionamentos na boa conta das lateralizações, tudo em ordem a que a violência corpo a corpo a corpo não se verifique ou não seja mais do que afloramentos sem dolo.
Em Portugal, para não falar noutras áreas da chamada latinidade, o investimento no futebol é desproporcionado e a cultura pela excelência um mito, incluindo treinadores (os «misters») e tropas de defesa e ataque, desde portugueses a reforços internacionais de grande cotação na respectiva bolsa de valores. Uma certa corrupção indisfarçável capeia em alguns recintos e linhas «tribais mistas». O arrebatamento é mal travado, os árbitros não conseguem fazer escola, os dirigentes especulam com as mediatizações. E o que vemos no terreno é um péssimo futebol, onde estiolam jogadores bons, por vezes bandos de gladiadores a perseguirem o condutor da bola, corridas tolas, sem nexo nem bom fim, tudo se misturando numa pequena área do campo. Cruzam-se pontapés de ameaça, outros de desconcerto, muitos corpo-a-corpo em que os jogadores disputam a vantagem sobre a bola com prisões às camisolas, travagem com braços e pernas, assim durante quase toda a partida, com lesões, paragens infinitas, faltas de cartão amarelo ou vermelho, abundância de livres e infracções graves para penalti, casos de indecisão e disputa verbal contra a marcação do erro ou contra a sua improbabilidade.
Para abreviar, o futebol praticado desta maneira, nada tem a ver com desporto ou espectáculo. Tudo se passa numa arena de lutas e assombrações. E o que me faz assinalar esta questão, apelando para se estudar a melhoria do jogo e das regras, é justamente por pensar que o corpo dos jogadores está cada vez mais exposto à barbárie pela vitória, sendo fácil listar os «crimes» cometidos ao longo de um ano.
Proponho daqui, é apenas um acto de cidadania, que se implemente um futebol (novo) em que não seja permitido o contacto físico jogador a jogador, apenas dispensando de sanções ocasionalidades óbvias. Isto permitiria civilizar e abrir o jogo, o qual passaria a ser feito em maiores áreas de avanços e recuos por troca de bola. Esta concepção de um outro futebol teria certamente um vasto incremento do apuro técnico e físico dos intérpretes, menos recurso à fraude e quesílias, a par
de aprofundamento das linhas de arbitragem e do ritmo e da beleza de um jogo cuja matriz mais evoluída é alinhada, com efeito, por esta perspectiva prática e teórica, a registar em regras adequadas.

SEPARADOR*** SEPARADOR*** SEPARADOR

sábado, janeiro 07, 2012

MORREU O PINTOR JOSÉ CÂNDIDO, HOMENAGEM

Pintor e Designer José Cândido

O autor dos blogues Desenhamento e Construpintar , Rocha de Sousa, homenageia o artista José Cândido e associa o seu pesar ao pesar de outros colegas, amigos e família deste homem de espírito aberto. Veja o conteúdo desta homenagem no blogue CONTRUPINTAR02

terça-feira, dezembro 13, 2011

EXPERIÊNCIAS QUE BUSCAM A PARTÍCULA DE DEUS


LHC, o maior e mais potente
colisionador de partículas do mundo

O homem, pelos meandros das crenças e na positividade das ciências, jamais aceitou ficar só no Universo, sem estar preso às raizes de uma criação de si e das coisas em volta, até ao infinito. As posições a este respeito têm evoluído em vários campos de investigação, sobretudo no domínio da física quântica. A organização europeia de investigação nuclear (CERN) gastou mais de 10 anos para construir o LHC, o maior e mais potente colisionador de partículas do mundo, instalado num túnel de 27 quilómetros, debaixo do chão, a cem metros de profundidade. Está situado perto de Genebra, na fronteira franco-suiça. O LHC levou década e meia a conceber e a desenvolver, a construir e a montar, estando agora a operar, com resultados na física, desde Março do ano passado.
Esta estranha máquina, perante a qual a Ficção Científica parece coisa menor, tem em vista, por aceleração nuclear e velocidades calculadas para colisão de partículas sub atómicas, procurar o que a teoria parece ter estabelecido a fim de explicar o mundo material e as suas leis: a existência de uma partícula invisível, (como que não existente)a qual foi nomeada Bosão de Higgs. Na verdade, apesar de ter sido previsto há mais de três décadas pelo físico que lhe deu o nome, para explicar esse passo fundamental que é a aquisição de massa pelas outras partículas, o Bosão de Higgs nunca foi encontrado. Nas últimas décadas, os físicos do CERN procuraram sem descanso esta partícula. Isso tem sido feito através da colisão de outras partículas no Large Electron Positron, antecessor do LHC. Com este novo dispositivo e com as experiências nele desenvolvidas, os cientistas pensam encontrar, em 2012, o Bosão de Higgs ou, como se diz popularmente, a partícula de Deus.
Hoje será comunicado ao mundo o ponto em que estão as investigações após um total de quatrocentos mil milhões de colisões, havendo, segundo se crê, indicações estimulantes. A prova da colisão que se espera obter explicará uma cadeia de fenómenos capazes de sustentarem a aquisição de massa pelas partículas conhecidas e a ordem dos desenvolvimentos físicos, no espaço e no tempo.
Para alguns cientistas, aquela partícula infinitesimal, em colisão reveladora, será a própria coisificação de Deus, mesmo invisível. A relação entre um Deus impalpável e criador de todas as coisas com esta minúscula centelha capaz de desencadear a dinâmica das outras partículas e de todas as somas cósmicas em movimento. Sendo pouco, é muito ou é Tudo. Nunca passará de um símbolo, não de uma inteligência suprema na omnisciência e omnipresença consagradas por algumas religiões. O nome e a indução da descoberta são humanos, Deus também, mas a finita humanidade passará a dispor de um jogo inicial donde extrairá melhores indicações para a formatação de um como inenarrável para esta aventura em que acabaremos por desaparecer sem alcançar a transcendência de um pai universal.
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Dados extraídos, em parte do Diário de Notícias, textos de Filomena Nave

segunda-feira, dezembro 12, 2011

OS ESCRAVOS QUE NOS HABITAM A ALMA


cemitério de escravos em Lagos

Li num jornal, por acaso, levado pelo poder de atracção das imagens. Tratava-se da descoberta, em Lagos, de um cemitério de escravos, alguns enterrados sem grande cerimónia, os que morreram antes de partir, certamente, não os outros, porque esses nunca voltavam.
Creio que os negreiros que caçavam esta gente o faziam perto da costa da Guiné, era mais perto e bem mais rendoso. Trazidos para o sul de Portugal, os escravos, presumo ser necessariamente aí que os apuravam duramente no sentido de os valorizar em termos de comércio, do outro lado do Atlântico. Não vou confirmar nada disto porque, a partir da certeza arqueológica, o resto vem de longe dentro das nossas almas reencarnadas e hoje somos de novo testemunhos de mais escravatura, outra, menos regulada e mais aterradora. África ainda ganha o vértice da maioria, mas entretanto as coisas confundiram-se entre guerras e fomes e falsas independências. Os Tuiti e os Undo, há bem pouco tempo, mostraram-no à saciedade, entre notícias escorreitas, apesar dos corpos, em dois meses, terem obstruído um rio de importante caudal. Os escravos dos escravos, delineados em etnias, ainda sentem o direito à liberdade, agora não dos exércitos brancos, agora dos seus próprios irmãos de raça. É outro tipo de escravatura, quando é.
Na velha Europa em decadência, que talvez só agora esteja a reflectir e perda dos impérios e da decisiva mão de obra da escravatura, as relações humanas perdem em cultura o que ganham através de diversos tráficos, processo entre irmãos mafiosos, para trabalhos forçados nas quintas espanholas, enviesadamente na construção civil, ou para servirem, ainda tenros, nos negócios da expurgação e venda de órgãos logo prontos para entrega nos Centros de transplante.
Na imagem em baixo, o esqueleto mostra sinais de manietamento, embora essa prisão não tenha sido feita com objecto de metal, como correntes, mas muito provavelmente com cordas. Vários esqueletos foram encontrados assim no local. A descoberta arqueológica, dizem, é importante e abre vários campos de pesquisa.
E agora? Isso é relevante?
Estaremos perto de mais um património material da humanidade, assinado pela Unesco?
Porventura.

domingo, dezembro 04, 2011

PORTUGAL: A FRONTEIRA OCIDENTAL DA EUROPA



Foi Fernando Pessoa quem antecipou o que a geografia mostrava sem eufemismos.
Ele o disse, na mensagem da sua poética: Portugal é o rosto da Europa. A grande manobra financeira que veio sobrepor-se, entre perdas, à memória histórica e geográfica da Europa, tudo sob uma moeda única, o euro, diluídas as fronteiras, concentradas as nações na ideia de União. Era um dos mais arrojados projectos no âmbito da realidade contemporânea. Mas, para além dos grandes fundadores, os tratados sucessivamente instituídos nunca foram amplamente aprovados pelas populações; e o referendo, grande instrumento democrático, escassamente usado nos vários pontos onde a voz do povo deveria assim ser consultada, teve votações negativas, acabando pateticamente por ser repetido até que a pressão política se encarregou de desfazer a teimosia «de quem mais ordena». Aquilo que pode ser, bem, o colapso do capitalismo (pelo menos na sua forma actual) veio assolar o mundo sob o peso ruinoso da globalização. Era a crise. A Europa utópica tremeu. As assimetrias aceites em solidariedade e projecto de partilha passaram a secar no quadro das evidentes fracturas de interesse e grandeza. A incompetência dos políticos tornou-se notavelmente evidente, enquanto o chamado eixo franco-alemão (donde vem esta palavra?) se sobrepôs aos órgãos estruturais da União: Sarkozy e Angela Merkel uniram os trapinhos dos respectivos interesses e calendário eleitoral, multiplicando-se em encontros supremos, assíduos, após os quais aquele bizarro casal de trabalho (sem legitimidade institucional) declarava novas ideias e novas decisões. Merkel tem vindo a abusar dos avisos aos que revelem menos ordem e menos disciplina (só financeira?), sempre a insistir, em mero disfarce, nos países da periferia, logo chamados periféricos, coisas menores, gente pobre e sem capazes métodos de vida comunitária. Falou-se em abandono da periférica Grécia, da sua saída do euro, hipótese que parecia envolver toda a periferia, criando-se duas velocidades para a mobilidade progressiva da Europa. A catástrofe começou a ser anunciada, nessa ou noutras formas, como próxima.
O
mundo agita-se, os resgates de países em dívida denegam os princípios, e a Alemanha, discordando de tudo o que pode pedir-lhe um sacrifício solidário, ajuda à perda, às contradições silenciosas, ao reforço da ideia de uma periferia minimizada e talvez dispensável. No que mostra sobrepor aos outros uma ideia centralista das fronteiras políticas e geográficas deste grande espaço, no qual uma boa parte da história universal foi fortemente influenciada pelos países mediterrânicos, a sul, e pelo lado de Portugal e Espanha, sendo o primeiro, claramente, com toda a sua importância dantes e hoje, durante quase nove séculos, a fronteira (a costa) ocidental da Europa. E isto deve começar a entrar na cabeça da chanceler da Alemanha. É deste lado que muitas coisas foram outrora pensadas e executadas, devendo passar a haver mais treino quanto à ideia de mudança. Mudar tratados não é como mudar um copo de um lado da mesa para outro lado dela, pois dessa forma tudo fica na mesma ou muito perto disso. O que importa é fazer diferente. E para isso torna-se imperativo deitar para o lixo as instituições rapaces de notificação, porque esse é que é o reino da periferia mal escondida, que nos degola na maior conspiração de sempre. E não é uma conspiração da teoria, é o rompimento da ganância e das distorcidas áreas de corrupção. Antes que a Alemanha, e a própria França, fiquem cercados de periferias sem nome, os órgãos europeus devem tomar medidas de respeito mútuo, reconhecendo que à costa ocidental da Europa (fronteira secular e aberta ao futuro, pelo Atlântico fora) é parte importante da História do espaço de civilização avançada, pós colonial, este nosso caminho de ligação entre as Américas e a União, periferia dourada, incluindo a costa voltada a sul mas pertencente à mesma coesão geográfica.
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Considerações em torno de uma recente entrevista televisiva de Pedro Bidarra, defensor desta tese

sexta-feira, novembro 25, 2011

EDUARDO BATARDA, OBRA E SUAS MUTAÇÕES

EDUARDO BATARDA

Nasceu em Coimbra em 1943. Filho de professores universitários, começou por estudar Medicina. Mas foi na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa que havia de estudar pintura, passando depois mais três anos no Royal College of Arts, em Londres. Na década de 60, as suas aguarelas pop mexeram com o mundo artístico nacional. O seu humor corrosivo e a ironia acutilante traçaram um percurso que só veio a romper-se nos anos 80. De lá até hoje, cada vez mais monocromático e austero, Eduardo Batarda manteve a singularidade da figura fundamental que representa na arte contemporânea portuguesa. Depois de ter sido galardoado com o Grande Prémio EDP, Serralves dedica-lhe a partir do próximo sábado, dia 26, uma grande retrospectiva.
citado da revista Única do Expresso


As obras que deram a Eduardo Batarda um lugar súbito e relevante na pintura portuguesa, entre os anos 60 e 80, partem de representações pop, trabalhadas a tinta da China e aguarela, com recurso a uma iconografia agressiva, vinda sobretudo da banda desenhada e das conquistas da sociedade de consumo, vaidades vãs, adolfes pequenos, suásticas voando, céus líquidos onde os papagaios flutuavam, anjos toscos, sibilinos, além de abutres conjugados com bandeiras, larvas, heróis americanos, de lá ou da Inglaterra, em dissolvência com fantasmas das mitologias locais e jogos perversos já então anunciados.
Eduardo Batarda passou por se divertir com essa produção e é verdade que ainda o vi, nas aulas da ESBAL, riscando com destreza linhas surpreendentes e figuras ainda mais no suporte de papel. Bonecos de sarcasmo e figuras caricaturais, da finança, da política ou das forças armadas. Tudo em composições que abarrotavam de sinais e símbolos, esquartejadas pela ironia de um imaginário muito raro entre nós, mesmo quando o humor era pedra de toque da nossa cultura.


A partir dos anos 80, e tendo o artista assumido a docência na Escola Superior de Belas Artes do Porto, hoje, a par da de Lisboa, integradas como faculdades no Ensino Universitário, Universidades do Porto e de Lisboa. As grandes mutações da obra de Batarda começaram próximo deste ciclo. O artista passou a abordar o recorte de planos sobrepostos, aproximando-se de tons pardos e em continuidade. Essa sua produção está a viver de forma plena, mutável, embora não nos faça esquecer, nem a primeira parte deste percurso nem a grandeza dos espaços negros onde surgiam, a branco e de forma algo porosa, traçados arquitecturais, bolbos suspensos, esboços de objectos cuja origem nos agarrava de forma obscura, e ainda coisas da mecânica arqueológica, sempre num projecto inconcluso, corolas de flores perdidas.


Em recente entrevista concedida à revista Única, Batarda falou amplamente de si, procurando defender a sua viragem e a problemática que decide a sua pintura actual. Mas falou também da condição dos autores em Portugal, do esquecimento e das presenças mitigadas, ser ou não ser citado no art World, entre a análise acutilante do que é preciso fazer para triunfar e ter sucesso específico em Portugal. Ele não está esquecido, tem agora a sua grande consagração, mas é verdade o que diz no que respeita às cedências públicas e publicitárias, no trajecto do tráfico de influências que nos cerca todos.
Muito bela foi a sua homenagem ao trabalho da filha, a actriz Beatriz Batarda, bem como as afirmações destacadas de que acredita na literatura e na arte, em todas as coisas que o comovem.

quinta-feira, novembro 24, 2011

UMA PRIMAVERA DIFÍCIL NO NORTE DE ÁFRICA


Depois da Tunísia, reformatada em democracia, os países da região trovejam em nome da liberdade e da Primavera, na rangente e princial praça da capital da Síria, ainda na Líbia, outra vez no Egipto, onde se fala em duas revoluções, a primeira dirigida à queda de Mubarak, a segunda para exigir que o Supremo Conselho Militar deixe de vez o poder, entregando-o ao governo de transição e apressando as eleições para a Assembleia Constituinte. De novo a luta assimétrica entre o povo e um cinismo bélico dos militares que bombardeiam as multidões e anunciam actos mais significativos, em nome da ordem democrática, lá para Julho de 2012. Como se pode esperar esse engano? O que vemos na imagem acima é a luta da segunda revolução, é o sangue que salpica o pó e um derradeiro gesto na direcção de palavras escondidas que tombaram dos manuais de luta sobre o piso revolvido. Dia após dia, este povo quer ordenar, insiste em resistir, acredita nos exemplos já iniciados em volta das suas terras.
Estranhamente, a retirada Europa não sabe o que fazer de si mesma, nem que ordens pode derramar sobre antigas colónias, sonhos perdidos, vivendo agora a sua própria cotacão em torno do euro, alheia à solidariedade que apregoou e que recusa entretanto à proclamada União, entre uma Alemanha intrigante na teimosia da recusa e uma França que já se esqueceu de antigas humilhações.

O PATRÃO DOS PATRÕES, GREVE GERAL HOJE

Carvalho da Silva
cerca de 40 anos no poder

Não se compreende muito bem, sobretudo no domínio sindical e de acordo com a sua mobilidade própria, que este homem seja a figura de ponta no vértice de comando, Secretário Geral, há mais de 40 anos, na CGTP. Presumo que é votado pelos trabalhadores sindicalizados nos sindicatos dessa Central, em períodos regulares e regulamentados, numa ampla maioria repetida, sem adversários, nem mesmo de acordo com um sucessor que Carvalho da Silva fosse apontando, concorrente mais novo e mais apetrechado para encarar um sindicalismo modernizado. Desde há dias que as vozes tremendistas vão, como é hábito, anotando razões e possíveis consequências: greve geral «porque alguma coisa tem de ser feita». «Os trabalhadores estão indignados». «Muitos trabalhadores não vinham aos plenários; agora participam e vêm-nos perguntar se podem parar mesmo não estando sindicalizados» (F.Gomes, CGTP). «Há muita revolta e pânico». Os directores mantêm os privilégios e, para os outros, «toma lá os sacrifícios». «O governo tem tentado dividir os trabalhadores.» «O que deveria era mobilizar todos e dividir os sacrifícios de acordo com o que cada um tem. Mas não». «Se a greve não surtir efeito e se não se entrar em diálogo social a sério, as coisas tenderão a endurecer».
Este tipo de discurso não se baseia em verdadeiras análises
da situação, não tem uma consistente base científica, está estratificado no slogan e na gíria da ameaça. Daqui não se está a barafustar contra o direito à greve: o que se propõe é que os quadros se renovem e que a relação com os trabalhadores seja clara e pedagógica. Os patrões podem ser derrubados, em nome das bases, como diria Otelo, mas os problemas do mundo, neste século, vão ter outras exigências e outros níveis de profundidade, mesmo que a cultura e o equilíbrio social se diluam na massificação.

quinta-feira, novembro 10, 2011

JOANA SANTOS ÀS VOLTAS COM OS BRASILEIROS

Joana Santos

Por muito que os modelos comerciais destruam a verdadeira qualidade que as novelas podem ter, ao certo sabemos, contudo, haver em Portugal uma grande quantidade de actores potenciais ou de facto bons: os audio-visuais afundam-se em horas e horas de publicidade, o cinema está a ser atacado pelos corredores comerciais, o paleio do entretenimento, o gosto do público, tudo contra a expressão de maior profundidade, o vínculo a um património universal feito de autores e de obras sublimes.
Joana Santos distinguiu-se numa recente novela da SIC. Olhar o seu rosto quando mudava em silêncio a expressão de falso júbilo para um ódio calculado era uma experiência de grande absorção e interesse intelectual. É esse talento, essa medida, essa especial mudança de registo, que devemos louvar e cultivar. A arte de representar (no caso das artes temporais) deve munir-se de meios para criar referências cada vez mais nobres. A actriz Joana Santos foi considerada ideal para o papel de Júlia Matos, papel já assumido por Sónia Braga, na novela de de Gilberto Braga. A actriz portuguesa está naturalmente entusiasmada e consta que, na relação produtiva Portugal/Brasil, frequentará aulas e orientações para o seu trabalho. É certo que não confio muito nos brasileiros, apesar do êxito das suas telenovelas, e por isso receio que a qualidade nata de Joana Santos seja inquinada por lances e maneirismos infecciosos. O Brasil é um país que amamos, bem como, em geral, os brasileiros, mas a estagnação de novelas com bandas de som estereotipadas, cenas arrastadas para suportarem canções de fundo (afinal a morderem o primeiro plano), tudo isso, as misturas decorativas, as histórias dentro da história, Ad hoc, tudo isso, enfim, vai fazendo «escola» na nossa televisão, a TVI, a SIC. Há toda uma teoria para este campo de criação que está por explorar. Quanto a servir o prato de que o público gosta, isso é um simples embuste. O gosto educa-se, faz-se evoluir, não se cristaliza em modelos fossilizados.
A maior lucidez para Joana Santos, que já fez provas convincentes.

sábado, novembro 05, 2011

O HOMEM QUE ABALOU OS SENHORES DA EUROPA


directórios da Europa

Alguém disse, a propósito da crise em volta do euro: «Eles não sabem o que fazer. Mas a Europa só tem um caminho para sair do pântano da sua escassez e chefes menores. A Europa tem que ser refundada. Eis o que parece uma ideia acertada. Porque o desacerto em que se caíu é de tal forma profundo e desrespeitador das regras e instituições europeias, incluindo tratados, onde não se vê nada no fundo da caneca. A Comissão ou o Parlamento praticamente não contam para nada e o directório Merkel/Sarkozy ostracizam o que for preciso para defender a sua parte (parte de leão) e ditam ordens por sua própria iniciativa, sem que se saiba onde está o Presidente (talvez os presidentes) e que passos encobertos os leva aqui e além, lado a lado, com o seu ar patético e periférico, em demanda de novos arranjos, novos modos de manipular o poder. Entretanto, sempre em sufocação, a Grécia mal dava conta dos problemas internos, com uma direita quezilenta e indiferente aos procedimentos para uma verdadeira salvação, país da periferia (como os nórdicos gostam de chamar à malta que bodeja o Mediterrâneo e o Atlântico, a sul). Para essa gente, a periferia, que foi esbulhada da sua cultura produtiva, não tem importância nem verdadeiros direitos, irracionalidade que tem infectado a vida dos países em geral, enquanto a Alemanha mantém, subjacente ao seu projecto, relações com os países nórdicos e com todos aqueles que, tendo aderindo à União Europeia sem entrar no euro, são agora enteados do Poder Germânico, vendendo o que podem, governando independências, conservando o gosto pela soberania tantas vezes rasurada.
Perante as dificuldades da Grécia, guardando um tratamento imperial desse país doente, Sarkozy teve o destempero de dizerque a salvação do euro não passa por resgates inesgotáveis, enquanto a Chanceler da Alemanha vagia: «O euro pode viver perfeitamente sem a Grécia».
E de súbito, depois de reuniões à margem, preparatórias da intervenção no G20, a Grécia lança o caos e o pânico no mundo político e financeiro. Assim titulava o Diário de Notícias a sua primeira página do dia 2. Papandreou determinara um referendo que parecia poder perguntar ao povo Grego se concordava ou não com as novas medidas da troika ou se mantinha interesse em continuar no euro. E o pequeno país do sul (periférico e arruinado) pôs Sarkozy em sentido, com as sobrancelhas mais descaídas que nunca e a senhora Merkel a andar em círculos. Os chamados mercados, essa entidade obscura cujos centros técnicos e tecnológicos a comunicação social não tem coragem para investgar, fotografando monitores, decisores, nomeando empresas e gestores em forma de polvo, saltaram de irritação e medo. O euro está a ser destruído, para um lauto banquete, a longo prazo. De um momento para o outro, as tão faladas contaminações podem precipitar tudo, fazer explodir o euro e a Europa, pulverizar as próprias dívidas. É perfeitamente surreal como a chamada civilização ocidental, tão senhora de si e dos seus antigos impérios, cerra agora os dentes, puxa as orelhas aos seus próprios líderes (incompetentes) e estes convocam Papandreou a fim de lhe puxar pelos colarinhos e obrigá-lo a desdizer-se. Não pode haver referendo, o euro não pode ser posto em causa por um aleatório juízo popular. Ninguém esquecerá essa vingança ferida que Papandreou atirou à grande Europa, a dos grandes Mitos e Pequenos homens (entretanto). É que essa gente, pasmada como está, sem inciativa e capacidade refundadora, precisa afinal que a Grécia não saia porta fora e os deixe com uma virose de todo o tamanho.
Aqui se pergunta, por nossa conta, quando é que a Europa se regenera, se refunda, quando entra em verdadeira solidariedade e se liberta de tanta hipocrisia? Quando é que as verdadeiras democracias lutam contra os monstros do dinheiro, as empresas de julgamento AAA lixo, as caprichosas agências de rating a decretar níveis de miséria por toda a parte, no escândalo dos juros a 80%? E quando é que os grandes países, todos os emergentes fortes rebentam com todos os offshores, recuperando para o mundo os biliões de euros e dólares escondidos?
O que aconteceu entretanto, e enquanto a Grécia se encolhe e manobra saídas da sua actual tragédia, foi um aviso laminar. O pânico regressou às bolsas, coisa que podia ser varrida da face da terra, e que me perdoem os economistas tal heresia, pois quem somos nós sem bolsas, sem perdas de dinheiro e de valores por uma espécie de batota?
Mas veja-se: a Grécia apenas não ficou resignada com um perdão que a coloca permanentemente num limbo de indigência (disse Viriato S. Marques). Tudo está a serenar para uma pasmaceira de morte lenta (se não houver, dentro em breve uma luta a sério) e, como diz Vasco Pulido Valente, a «Grécia pode destruir não só financeira mas politicamente, a União Europeia. O que não deixa de ter uma certa justiça poética, porque a Grécia foi metida quase à força na "Europa" por puras razões políticas. Até Staline, na famigerada divisão que fez com Churchill do império de Hitler, reconheceu que 100 por centro da Grécia ficava para o Ocidente.» E hoje, depois das horas de desprezo e desespero, os europeus, por medo de um provável contágio, pretendem, seja como for, salvar os gregos de si próprios. (V.P.V.)
O pior é que a luz muda de valor, o tempo amortece a vista, e a dificuldade que o pintor sentia em fixar a beleza instantânea do marmeleiro (no célebre filme de Victor Erice), será maior para os europeus mal comandados, comendo dívida ao jantar, um champagne à mistura, vivendo à custa de um fundo monetário contrafeito pelos chineses.

quarta-feira, novembro 02, 2011

UMA NOTA CERTEIRA DE BAPTISTA-BASTOS

Alves Redol


A MEMÓRIA DOS AMIGOS | EXCERTO DE UMA CRÓNICA DE BAPTISTA-BASTOS

«O Governo deixou passar em escuro os centenários de Alves Redol e de Manuel da Fonseca. São dois dos maiores escritores da literatura portuguesa. Mas eram neo-realistas e, por isso, desdenhados pela miuçalha que voeja nos canais da cultura. E o Governo actual não é propriamente um arfante frequentador de livros. Basta ouvi-los. Aquela constante troca de expressão "competitividade" por "competitividade" causa apreensão. Enfim, a verdade é que qualquer dos dois autores nos legou uma obra incomum e algumas obras primas».

Dois livros inesquecíveis: BARCA DOS SETE LEMOS, de Alves Redol
SEARA DE VENTO, de Manuel da Fonseca