quarta-feira, maio 02, 2012

FERNANDO LOPES: TALVEZ UMA ABELHA NA CHUVA

MORREU  FERNANDO LOPES
 
câmara lenta

Tive o privilégio de assistir à primeira projecção, com Fernando Lopes e Vitor Silva  Tavares, do filme «Uma Abelha na Chuva», que será sempre, para mim, a melhor peça da obra do realizador de «Belarmino» e de «O Delfim», entre outros. Não é possível esquecer. Não é possível deixar de lamentar, hoje, esta morte que agrava os silêncios que se abatem sobre a nossa cultura, no cinema, na literatura, nas artes plásticas, entre partilhas e desenvolvimentos legados pelo século XX. Fernando Lopes, eu o convoco, homem sábio e sensível, referência inalienável do Cinema Novo português. Todos os lembram pelo culto da amizade, profundo saber e felicidade na vida. Segundo as palavras do seu filho mais velho, Fernando Lopes, de 76 anos, vítima de cancro, esteve sempre lúcido; depois «apagou-se devagarinho; foi uma coisa muito suave.»

 EM CÂMARA LENTA

É bom quando se pode deixar aos outros uma visão do mundo e das pessoas, seja qual for a obra «acabada». Também, desse tempo, muitos lembrarão «Verdes Anos», primeira obra de Paulo Rocha, que será depois superado em «Abelha na Chuva», no qual Fernando Lopes nos mostra como desde cedo sabia reflectir sobre a vida, como nessa aventura da personagem feminina perante a dureza do marido e a chuva envolvente, tudo nos mostra a solidão, solidão mais profunda do que aquela que «Verdes Anos» inaugurara em tempo domingueiro nos subúrbios de Lisboa. O último filme de F. Lopes («Em Câmara Lenta ») é  mais do que uma viagem ao fundo do mar, é sobretudo, pelas memórias da personagem, uma reflexão sobre a vida e a condição humana, gente que aparece e desaparece, que nos guia para a luz que deverá receber-nos.


BELARMINO

Fernando Lopes entra pela vida fora, trabalha esse boxer da margem, Belarmino, faz um «cinema da verdade», leva-nos pela mão e pelas entrevistas ao pugilista na deriva nocturna de Lisboa, uma espera, um último combate, o tempo a passar. A maturidade e a criatividade de Lopes ganham aqui uma espécie de rampa de lançamento para a (talvez) primeira obra do Cinema Novo Português, «Uma Abelha na Chuva». Peça fundamental da nossa cinematografia e cuja rodagem decorreu com meios escassos mas sob a batuta encantatória do realizador, alguém que dá ao cinema outro campo de invenção e a voz peculiar do romance de Carlos de Oliveira. Este filme tem uma sensibilidade mais rara, é em certa medida claustrofóbico, abstracto, interiorizado. «Abriu a porta à vertente obsessiva e quase experimentalista de Fernando Lopes,» algo quase mágico e surpreendente nas hipóteses formais, que outros filmes posteriores talvez não contenham na mesma dose de perturbação.


Uma Abelha na Chuva
Excepcionais interpretações de Laura Soveral, João Guedes, Zita Duarte e Ruy Furtado

Aqui deixamos uma breve homenagem a um grande artista português a quem o país tem o dever de realizar uma apresentação de toda a sua obra, menos complexo e dispendioso, creio, do que as pomposas exposições rectrospectivas de artistas plásticos portugueses e estrangeiros. O cinema é uma grande arte da comunicação, sintetizando todas as outras artes  da imagem, do espaço e do tempo.

             UM DOS PLANOS INICIAIS DE «UMA ABELHA NA CHUVA»

quarta-feira, abril 25, 2012

MIGUEL PORTAS: MORREU A DEFENDER UM IDEAL


MIGUEL PORTAS


Ao falar-se de alguém que defendeu sempre um ideal, contra a própria dilaceração da doença, sublinhamos um caso verdadeiro de coragem e de grande sentido do dever para com as próprios companheiros. É, sem dúvida, o caso do deputado europeu Miguel Portas, que morreu ontem vítima de um cancro, contra o qual  também resistiu arduamente, a par do cumprimento do seu trabalho como cidadão, estudioso e político. O jornal «Público» publicou uma página inteira sobre Miguel Portas, dizendo dele, em título, uma vida contra a corrente. Na sequência desse título, escreve ainda que o europeu do Bloco de Esquerda morreu aos 53 anos, num percurso marcado pela inteligência e heterodoxia. «Culto e afável, orador brilhante e grande dialéctico, entrou na política quando adolescente».
Muito novo ainda, no VII Congresso Extraordinário do PCP, em 1974, já como delegado mostrou-se senhor da sua liberdade de pensar e absteve-se numa resolução política. A sua grande personalidade anunciava-se desde logo.
Antes do 25 de Abril, filho do arquitecto Nuno Portas e de Helena Sacadura Cabral, Miguel era irmão do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas: de linhas ideológicas diferentes, os dois irmãos mantinham uma profunda relação de amizade fraternal e de respeito.
Miguel Portas, economista «em abstenção», dedicou-se à política e a diversas intervenções de carácter cultural, sendo bem conhecida a sua actividade como documentarista (para formato televisivo), área onde prestou testemunhos de grande valor pedagógico sobre os despojos de civilizações antigas.
Zita Seabra acentua que Miguel Portas escrevia muito bem. Sempre pensou pela sua própria cabeça, revelando-se de uma rebeldia saudável».
Miguel, lutando sempre na sua perspectiva conceptual, abordou desde logo os dissidentes do PC, procurando saber bem o curso das ideias e das fracturas. A sua fundada inquietação levou-o a sair do PC em 1991. A sua inquietude mostrava o debate que trava consigo mesmo e a honestidade que o caracterizava. A sua lisura intelectual, cultura bem fundada, deixavam-no desconfortável com as chamadas ideias feitas. A sua postura de humanista era mais decisiva, no afecto pelas pessoas, do que qualquer linha radicalista. Foi o ser humano de amável recorte, que o apartava das ideologias fechadas em cânones opacos.
Portas será homenageado no teatro São Luiz a 1 de Maio. Completaria nesse dia 54 anos.
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texto baseado em diversos excertos, nomeadamente da secção Obituário, de Nuno Ribeiro




 Miguel Portas, memória de um percurso que ainda se pode admirar
    e cujo lugar na História nos dará perspectivas
 e futuras relações de ideias

sexta-feira, abril 20, 2012

A PERGUNTA RESULTOU NESTE LÚCIDO TEXTO


Anónimo   deixou um novo comentário na sua mensagem "BREIVIK DIZ QUE MATOU EM LEGÍTIMA DEFESA":

Todas as épocas históricas registam a presença de indivíduos capazes das maiores violências para chamarem a atenção para as suas ideias e para si próprios. Alguns, defendendo ideais em nome do coletivo, justificando monstruosidades com a razão pura, outros satisfazendo impulsos incontroláveis, outros ainda obedecendo a "vozes interiores". Todos se consideram seres superiores, seres iluminados, profetas isentos de culpa e acima da justiça, que desprezam assumindo orgulhosamente os seus atos. O século XX (e está visto que o XXI também começou mal)parece particularmente representado (com destaque para Charles Manson e família)mas apenas por estar mais presente na memória coletiva e à facilidade com que os mass media produzem e desfazem mitos, ao sabor de interesses quase sempre nebulosos. As fobias epidémicas que conduzem aos fundamentalismos têm geralmente um desses ideólogos como ponto de partida, como iniciador ou coordenador, cujos atos são mitificados a ponto de se tornarem acertados e até justos, por muito bárbaros que sejam. O problema não reside assim no facto de essa gente existir, grave é haver gente que se diz responsável e que sonha com uma sociedade mais justa, a considerar esses indivíduos visionários, tal como em muitas sociedades se achava que os deuses falavam pela boca dos loucos, e assim angariam apoios e seguidores. Não é difícil imaginar as possibilidades de aproveitamento político destes "visionários" criminosos. Aceito que falte coragem a terceiros para assumir os seus erros e partilhar responsabilidades, mas custa-me aceitar que os desculpem com conversa filosófica onde raramente cabem aqueles que se esforçam por tratar corretamente o seu próximo.
E cuidado com esta geração "Ickeana" (inspirada por David Icke e afins)! "O sonho  da razão produz monstros" (Goya).

SR

terça-feira, abril 17, 2012

BREIVIK DIZ QUE MATOU EM LEGÍTIMA DEFESA

Breivik

OSLO: Tribunal começou a julgar autor do episódio mais sangrento da Noruega do pós-guerra

Vários assassinatos em massa deixaram o mundo estupefacto e perplexo. Mas o caso de Breivik, na Noruega, é um dos mais espantosos e abre (ou fecha) portas para nos questionarmos um pouco mais a sério do que temos feito. Os orgãos de comunicação social cobriram largamente a intervenção bombista de Breiviki em Oslo e o assassinato colectivo que realizou e assumiu na ilha UTOYA. Na primeira sessão do seu julgamento, por ter assassinado 77 pessoas, quase todas jovens, numa calculada chacina, Anders Behring Breivik, de 33 anos, reiterou a confissão dos seus crimes, de que não se considera arrependido, e no primeiro instante da sessão saudou a assembleia com o braço direito erguido, punho fechado, procurando delinear o seu perfil desde logo.
Durante a sessão, declarou: «Reconheço os factos, mas não reconheço a minha culpabilidade no sentido penal.» Impassível, Breivik assumiu a autoria dos seus actos sanguinários mas recusou a ideia de culpa, ao mesmo tempo que considerava o tribunal incompetente para o julgar. Em atitude de desafio ás mais de duas centenas de pessoas que assistiam a esta primeira sessão do julgamento, Breivik adiantou: «Invoco a legítima defesa», explicando que actuou contra «traidores da pátria, culpados de entregar a sociedade norueguesa ao Islão e ao multiculturalismo.»
Ao indagarem a sua profissão, respondeu: «escritor.»
Quanto à legitimidade do tribunal, Breivik afirmou que não reconhece os tribunais noruegueses porque receberam o seu mandato dos partidos políticos que apoiam o multiculturalismo.
Embora mostrasse alguma comoção quando viu um vídeo ideológico de sua autoria, diz-se universitário, amante da música clássica e da «Crítica da Razão Pura», de Kant, além de se considerar cristão conservador.
É caso para questionar esta segurança e este absurdo, a razão pura e o cristão que mata gente contaminada pelo multiculturalismo. Ele teme o Islão porquê? Ele faz saneamento mortal e termos de que princípio: prevenção? Defesa contra os «pervertidos»? Aviso ao Estado de que se está, em nome de uma problemática modernidade, a deixar envolver na provocação do islamismo? Terá ele a percepção de uma morte anunciada da civilização ocidental e do perigo (para valores transcendentes) das potências avassaladoras que emergem do Oriente?

Um amigo meu mostrou-se inquieto com os factos: «Nós não podemos aceitar prevenções deste tipo e profecias sangrentas. Mas não compreendo como se fala só de crime com tanta facilidade num caso tão especialmente encenado e com fundamentos ideológicos, discutíveis, é certo, mas implícitos nas nossas próprias contradições? E se ele tiver razão?»
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texto inicial com base num artigo  de Lumena Raposo, do Diário de Notícias

domingo, abril 08, 2012

A MORTE TRÁGICA DE DIMITRIS CHRISTOULAS

Parlamento Grego

Memória de Dimitris Christoulas

manifestações por Christoulas reprimidas

A pressão das medidas de austeridade aplicadas à Grécia, na crise do euro, passa por ser remédio do equilíbrio financeiro de um país altamente endividado para permanecer com normal legitimidade na União Europeia. O empobrecimento da população em geral tem desencadeado revolta e perturbações da ordem pública, isolando os mais despojados. O farmacêutico aposentado, Dimitris Christoulas, reagiu à situação em que acabou por se ver envolvido: chegou de Manhã à praça Sintagma, diante do Parlamento Grego, buscou sombra de uma árvore secular, pronunciou algumas palavras, e disparou contra a sua própria cabeça um revolver que empunhava. Deixou algumas palavras escritas, onde se lia sobretudo: «Quero morrer mantendo a minha dignidade, antes que me veja obrigado a procurar comida nos restos das latas do lixo». Dimitris perdera 30% da sua pensão, todos os subsídios para os remédios que tomava, tornando-se incapaz de controlar todas as contas, em particular os preços em subida brutal dos bens de consumo regulares.
A morte do aposentado, naquela quarta-feira de trevas, em Atenas, lança sobre as consciências uma sombra de revolta e uma grande perplexidade. As manifestações de pesar pela sua morte surgiram no próprio dia, em reflexão. Depois disso, a polícia teve de lutar com jovens desesperados, entre distúrbios que deixam para sempre marcas de sangue nos centros da actual ditadura financeira.

terça-feira, março 27, 2012

MORTE ESTÚPIDA EM LLORET DE MAR, ESPANHA


Já nem a crise trava os desejos cosmopolitas dos adolescentes e das suas finalizações festivas, sem objectivos pedagógicos ou culturais. Há dias, em Lloret de Mar, Espanha, um estudante excursionista despenhou-se da varanda do hotel em que festejava coisa nenhuma com os colegas.
Morreu e as televisões estão cheias da notícia. O rapaz era de Castro Verde, a população ficou consternada, o presidente da Câmara cuida da privacidade dos outros estudantes logo retornados
(gesto maior nesta deriva de sonhos) e trata do funeral enquanto espera pelo envio do corpo.
Aconteceu. Mas o contexto é estranho. Ninguém ia com os jovens (já crescidos) e o objectivo naquele local em Espanha torna-se inenarrável em substância. Como acontece, poucos dias passados, a uma mesma peregrinação sem «rei nem roque». Só que, desta vez, cerca de 60 adultos vão guardar a caravana dos meninos ladinos. Claro que se lamenta a morte. Claro que se lamenta a metodologia que sustenta tais viagens. Claro que se aceita algum bom senso, por parte de adultos vigilantes, em ordem aos grupos viajantes. Mas é bom perguntar se este, no país e na situação actual, é projecto com alguma cabeça, com um sentido recreio, saudável convívio, dispensado de um eventual contacto com estudantes espanhóis, «cicerones» em sua terra, partilhando a chegada e a fala de todos. Resta saber se as famílias dos jovens estão assim reféns do apelo dos filhos e se têm boa fé nos adultos que alguém escolhe para apoiar os rapazes e raparigas, se é gente com prática e métodos adequados às assimetrias comportamentais cada vez mais nítidas nos estudantes em tais condições.

O MAIS PORTUGUÊS DOS ESCRITORES ITALIANOS


Um grande autor, italiano de nascimento, português por ter ancorado em Portugal e por se ter apaixonado por esta terra e estas gentes e estes poetas, algo que só os próprios portugueses não descortinam.
António Tabucchi era um escritor, disse o Público, que gostava mais da dúvida do que da perfeição. Ficcionista dos mais consagrados entre os europeus da actualidade, morreu no domingo em Lisboa, vítima de cancro. Havia chegado a Portugal há cinquenta anos, trazido sobretudo pelos versos de Fernando Pessoa, obra que estudou profundamente, tornando-se um dos melhores conhecedores do poeta. O país tornou-se a sua segunda pátria.
Traduziu Fernando Pessoa para italiano e dedicou à literatura de ficção uma boa parte do seu talento. O seu primeiro êxito internacional foi bem marcado com o livro «Nocturno Italiano» (1984), adaptado ao cinema. A sua obra ganhou uma sabedoria
transversal à experiência da vida e ao conhecimento das pessoas. Em 2001 estreia-se no romance epistolar «Está a Fazer-se Cada Vez mais Tarde». São estas palavras o talhe de um destino, a verificação que qualquer coisa anunciava a aproximação de um certo limite que tanto justifica muitas e surpreendentes obras.

domingo, março 25, 2012

OS ROSTOS DO ESCONDIMENTO MÍSTICO-SURREAL

Ninguém sabe explicar bem, na mais limpa das racionalidades, porque é que rostos como este têm de circular escondidos atrás de vestes bizarras em certas e amplas regiões do planeta, guardadas de males indeterminados, talvez sob a autoridade do regime ou dos homens, porventura na linha litúrgica das suas religiões e chefes simultaneamente do céu e da terra. É bem estranha a sexualidade de certos povos ou a sua denegação pelo supremo criador dos corpos fecundantes e fecundáveis. Como é que se deitam na cama? Como é que se lavam? Porque razão lhes permitem, não sempre, pintar os lábios na perfeição? E que limitações têm os homens, além das enormes barbas e dos pés comidos pela terra? Quem escreve estas palavras é um leigo em tais matérias, mas conhece os efeitos de comportamento de tais sagrações e tais ritos.
Que esta moça descanse em paz, a olhar-nos nos olhos.

quinta-feira, março 15, 2012

AINDA GRITOS E MORTES DE CRIANÇAS NA SÍRIA

foto Bulent Kilic/AFP

POR MUITO QUE NOS DIGAM OS CRENTES
DE ASSAD, O MUNDO ASSISTE A ESTAS
MORTES INÚTEIS

documentos da imprensa nacional e internacional

Os momentos de horror que se multiplicam na Síria, onde crianças são mortas com balas de equipamento militar, constituem um problema não só daquele país mas da comunidade internacional. Uma cidade, pelo menos, foi destruída quase por completo e abandonada ao silêncio da morte. Escapam animais que farejam os destroços, procurando sobreviver. Não há razões de Estado ou de Ideologia que justifiquem a ausência de diálogo, a persistência numa repressão cega, de terra queimada, e os fundamentalismos cá e lá que neguem de ponta a ponta estes factos, os testemunhos de jornalistas, alguns dos quais se sacrificaram pelo seu trabalho, e as imagens e os refugiados e tudo o que é dito para minimizar a brutalidade de um Governo contra o seu próprio Estado, tudo a ferro e fogo na imensa desproporção dos grandes martírios.

domingo, março 11, 2012

VELHOS AO ABANDONO NUM PAÍS SEMPRE ADIADO

É nosso costume apontar a história de oito séculos que nos representa. É vulgar falar sobre as velhas famílias e os velhos avôs, irmandade e pais batendo a terra, gente sentada nos valados, os netos ao colo. Portugal foi-nos sempre mentido nas derrotas e nas vitórias, entre coroas, mortos, viagens pelos mares, povoamentos de terras descobertas, conquistadas e ocupados por mais de cinco séculos.

Hoje dizem-nos, de verdade ou novamente a mentir, que o país está em crise, o mundo também, os próprios senhores do poder por essa Europa fora, América ou Rússia, quase todo mundo, excepto os antigos impérios colonizados ou culturas milenares, a China, a Índia, alguns importantes povos asiáticos e uma orla de África, homens ganhando fortunas com o petróleo e a primavera árabe frutificando devagar e em diversas tonalidades mortais.

Ninguém se atreve a falar de velhos, preferem dizer idosos, eufemismo do medo e do desinteresse. Velhos não são os trapos. Veja-se, neste país sempre adiado, como sobram velhos por todo o lado, mais do que jovens, e frequentemente perdidos em aldeias quase desertas, casas inóspitas, paisagens de uma indevida agricultura de subsistência. Um velho sábio, aqui, conserva a força do olhar a pensar ainda no futuro. E há casas a cores, em aldeias de 200 habitantes e até um pouco menos ou mesmo abandonadas. Para 400984 velhos no interior e nas cidades, há uma taxa de mortalidade avassaladora. 35% daqueles velhos vivem sem ninguém por perto em caso de urgência; e em melhor proximidade 22%. Morreram 28722 velhos em 2011 e 103 já contados em Janeiro deste ano, 2012. Os jovens não passam de metade da população mais velha e os filhos nascem cada vez menos: a média da composição das famílias, entre pais e filhos, é apenas de 2,8.

As casas que morrem são velhas, sobretudo nas aldeias, e país abandonou-as para povoar o litoral, onde se situam as grandes cidades, num pavoroso ordenamento do território, tudo cada vez mais feio e a paisagem tomando conta de si. O mar de outrora é dedicado como ciclorama do betão onde pernoitam turistas: já não há caravelas, nem idas nem vindas, nem pesca sequer. As pessoas têm a nova religião (irracional da praia e do bronze), compraram e venderam casas, vogaram no sonho que os bancos apregoaram e hoje ouvem falar, espantadas, que Portugal tem uma grande zona marítima cheia de riquezas.


Nas grandes cidades, e mesmo na outras, mais pequenas, morrem velhos em total solidão. São descobertos por vezes dois anos depois da morte, ou meses, ou dias, caídos no chão, enrodilhados na cama, a decompor-se e sem sinal de suicídio. Morreram por que sim, porque a sociedade já não o é, e se as famílias mal têm filhos (porque já não podem na escravatura do trabalho moderno e precário) os velhos avôs e avós ficam desempregados, sem netos nem filhos, vivendo de pensões miseráveis. Porque sim. Se não comem nem pedem esmola, adoecem na sua casa de sempre, poeirenta e desarrumada, e morrem de fome, entre memórias e esquecimentos, como Deus manda. 28.722 mortos solitários, sem assistência, sem nada, nem um grito ou sinal de socorro. Deixaram-se ficar, a vida é assim. Este ano já se contam 103, só em Janeiro, como se disse, de idades entre os 70 e os 90 anos.

Não há fogo que não os ronde na terra desabitada, ervas secas em volta, casas isoladas no monte, sonho de outrora em que se ouviam gargalhadas dos netos, as fanílias ainda tinham média de dois filhos, hoje nem um lhes sobra.






Quem é esta gente que nos abandona, apesar dos socorros de comida e mantas e afectos de psicólogos? Esta gente não é ninguém, tornou-se anónima nas enormes distâncias que as cidades estabelecem entre eles e os que magoam a vida por trabalhos de duração curta. Novos e homens de meia idade. Dizem os senhores do poder, que de humanidades sabem um calhau: «Trabalho para toda a vida? Que disparate e que desperdício, a mobilidade é tudo e tudo assim nos faz felizes.» Esta gente fez cidades erradas e destruiu as actividades de manutenção de qualquer comunidade. Têm pressa, não se sabe porquê. Nem porque raio guardam o dinheiro em paraísos fiscais. Então a vida não é mobilidade, transumância, pica e corre, como o pardal urbano. O país arrisca-se a cair ao oceano: e os velhos das aldeias terão um país inteiro para eles, agradável e de pastoreio. Sem televisão. Sem Internet. Sem realidades a mais. O mar está chegando junto da bicharada e o bronze vai deixar de estar na moda.

sexta-feira, março 02, 2012

NOVA ESCRAVATURA NESTA EUROPA CIVILIZADA?


HOLANDA

SUIÇA

Falou-se há tempo na agricultura para discutir estratégias de combate. Mas onde deveria ser recrutada a mão de obra para trabalhar montanhas? Gente obscura tratou disso. A Europa civilizada, entre a Suiça, a Holanda e alguns mais, entrou em crise e fez com que o sul se catalogasse como periferia e outras coisas mais, desde pigs a candidatos à nova escravatura. Há angariadores um pouco por toda a parte, sobretudo nos países intervencionados, como Portugal ou a Grécia. Gente desesperada com a falta de trabalho e meios de sobrevivência é aliciada para postos de trabalho não identificado na Holanda, por exemplo, com remunerações à volta dos euros. As pessoas deitam tudo para trás, pagam 190 euros para serem transportadas de «táxi» (leia-se carrinha) até ao destino. Que vão ficar num hotel. Que vão trabalhar numa GPA (empresa desconhecida). Não vão nada para hotel nenhum, nem para uma vivenda. Vão para casas rústicas, tipo bungalow, nas quais, por estranho que pareça, há mini-quartos para duas e quatro «hóspedes», em certas circunstâncias dois homens e duas mulheres, ou mais tarde em casas isoladas, tipo vivenda, onde são alojados nove indivíduos, os quais pagam equipamento e outros «deveres». Pagam certas coisas à cabeça, ficam a dever a um patrão oculto, só sabem dizer quem os contratou, uma tal Manuela que tem terras em Portugal e uma casa de campo de bom aspecto e nunca abre a porta a jornalistas ou simples vizinhos. Mas ela angaria os novos trabalhadores e a filha transporta a malta no «táxi», desaparecendo à chegada. O marido da Dona Manuela fica na Holanda, distribuindo serviços e cobrando dívidas. Porque o trabalho errático e diverso logo se desvanece para dois ou três dias de cada semana, sem alimentos nem direitos de função. Os portugueses mais antigos, que ainda vivem naquele «planeta» à espera de pagar as dívidas e ganhar algum para o regresso, todos eles se queixam e há mesmo organizações embrionárias, crentes em Fátima, que procuram criar condições mínimas a esta gente minimamente tratada, esquecida, escravizada numa «não periferia», a senhorial e rica Europa, a norte, no frio, onde os carros de alguns aventureiros trabalham noites inteiras a fim de que os donos, dormindo, possam sobreviver aos 15º negativos, uma vez que nunca receberam o prometido alojamento de trabalho. A TVI deu hoje uma entrevista sobre estes casos, alguém ofereceu a cara para contar, para testemunhar, porque dos regressados ao pobre sul, afinal rosto atlântico da tal europa, ninguém se atreveu a correr esse risco. Mas há riscos? Alguém acena que sim com a cabeça. «Até os que experimentaram na Suiça e voltaram sem futuro e sem alma». Isto são casos entre milhares, na Europa que se desagrega do seu projecto, sob o «jugo» de duas figuras cimeiras, o presidente da França e a Chanceler da Alemanha. Seria este o plano que se pensava para sociedades do século XXI, esta exploração miserável do trabalho como no requiem dos antigos impérios, como na África onde a política pode resolver-se através de genocídios e de dinheiros por lavar? Procurem no coração dos despojados. Façam de conta que estão interessados. Imaginem que a mafia os recebe em hotéis de cinco a dez estrelas, ao lado de sulcos em terras de ninguém, onde o povo italiano protesta, procurando mostrar que há desalojados (e perigos para a produção agrícola) se aquele TVG Turin/França for concluído. Um luxo em plena crise para a grandeza de conquistar ao tempo três horas de morte adiada.

quinta-feira, fevereiro 16, 2012

LIÇÃO DA HOLANDA NA FEIRA DE ARTE DE MADRID


A Holanda tem sido um paraíso para os artistas, os de dentro e os de fora. Bem apoiada pelo Estado, com meios de acolhimento e trabalho excepcionais, mais uma vez esse país nos dá a ver em Madrid (Feira de Madrid) o produto qualificado desse investimento. A obra aqui presente, cuja técnica ainda não vem garantida nas notícias, vai ao fundo da tradição pictórica da Holanda e mostra como a representação, seja ela qual foi, pode ter esta força de testemunho e a grandeza serena das mensagens que nos lega.

sexta-feira, fevereiro 10, 2012

DEPOIMENTO SOBRE A ACTUAL CRISE EUROPEIA

Angela Merkel

CITAÇÃO

Num acutilante texto que publicou no «Diário de Notícias» de hoje, António Catita exorta o leitor a recordar exemplos passados e lamenta o comportamento da Alemanha no contexto da actual crise europeia:
«Não nos basta o que a Alemanha, a besta nazi, causou de terrível em quase toda a Europa; não nos basta o perdão das dívidas de guerra, para que ela pudesse reerguer-se; não nos basta o mau exemplo de não cumprir os acordos de paz e de se rearmar entre as duas grandes guerras; não nos basta outro mau exemplo, o de não ter cumprido, já na UE, o défice limite fixado. Agora fala em solidariedade e em dispor-se a ajudar a Grécia. Mas que hipocrisia. Como se ajudam parceiros europeus, que tanto fizeram o mundo evoluir, impondo-lhes empréstimos a juros usurários e a queda no empobrecimento e na indignidade? Que retrocesso. E quanto à Madeira (e ao continente, podia também acrescentar), ela tem razão Mas erros, todos, afinal, cometem. Há é que seguir em frente, sempre em conjunto, obedecendo a regras equilibradas de apoio, controle e supervisão, e fazendo funcionar direitos e deveres. Só assim a Europa e a própria Alemanha se podem
salvar.
10.02.2012 António Catita, Lisboa


quarta-feira, janeiro 18, 2012

A MAIS RELES DIABOLIZAÇÃO DAS TELENOVELAS

A EXEMPLAR EXPLICAÇÃO DO CRIME

Portugal é um excessivo produtor de telenovelas, procurando imitar os piores exemplos do Brasil. Começa a exportar estes subprodutos e, na luta tão absurda pelas audiências como a das agências de rating classificando países e empresas de simples lixo, tem nos canais televisivos o melhor veículo daquela produção, produtoras que obrigam excelentes actores a fazerem comédia, tragédia e farsa na mesma cena, se for preciso. Tais produtoras inventam histórias onde muitos lobos comem muitas meninas e onde o luxo encenático mente a todos com todos os dentes. Uma cena dramática, de recorte plausível (são sobras da indigência do imaginário corrente) é quase sempre acompanhada por canções em Inglês ou Português, completamente inadequadas para o efeito e passando para primeiro plano com um som que absorve tudo e em geral obriga a prolongamentos da representação (em detrimento da expressão fílmica) para que haja espaço farto a tão edificante estética melódica, canções em geral rascas, pelo menos desfocadas do seu valor intrínseco pelo uso patético, pelo contexto errado. A cena morre sob o efeito do som.
Mas os valores humanos que poderiam ser tratadas com as mesmas audiências (era só preciso um bocadinho de tempo) desapareceram deste horizonte de horror e pesadelo, entre mil beijos por cada novela. O crime organizado até ao impossível, numa luta contra seres intocáveis, em nome de interesses inconfessáveis, faz-se à base de guiões enovelados e promotores de uma violência perversa, plural, avassaladora, em toda a renda do enredo e só com alguma reedificação benévola (mas pirosa) no fim. Tudo se perdoa no fim e às vezes com dúvida.
Houve uma excepção razoável a isto, e com grande nível de feitura: «Olhos nos Olhos». Aí se verificou a capacidade invulgar dos actores, de uma direcção criativa, de um abrir de portas para a qualidade formal e problemas sócio humanos. Mas agora, tudo vai de mal a pior. Bastou-me ver aquele episódio de «Rosa de Fogo» para chegar a esta indignação mínima, porque vejo cenários, luxos, luzes e trabalho de câmara, entre outros aspectos benignos, engolindo sem fim capaz milhões e milhões de euros para um produto enganador, perverso, anti-pedagógico, inteiramente diabolizado por uma moda que a televisão, como grande invento do Homem para o Homem, não merecia. E parece que o mal, em linguagens vertiginosas e nos vários campos temáticos, se generaliza a todo o mundo. Era bom que a técnica digital se tornasse alérgica a esta grosseira manipulação, de todo em todo amoral.













1. Este senhor diz chamar-se Pedro e faz-se passar por filho
(perdido) de uma senhora dona de um império
da cosmética.
Quer ficar com tudo, encomendando assassinatos,
partir as pernas de uma bailarina, batendo na amante
e na jagunça de serviço, falsificando documentos,
armadilhando empecilhos, chantageando o seu obediente
faz-tudo, matando até o cão da menina para ela se julgar
assassina do seu bicho muito estimado e protector.

2. Adormece
a amante.







3. adormece o
chantageado
jagunço
a quem
obrigou
a drogar
a bailarina e
a menina

4. adormece
a menina
e acorda-a
para ela ver
o seu cão
morto













5. Mas há mais danados colaterais. Esta «menina»
faz as maiores patifarias para roubar o
patrão à amada bailarina.
Trata de uma Alzheimer com falso desvelo,
drogado-a e drogando o filho dela
para o alucinar a seu favor.









6. Esta senhora recusa o tratamento de um
cancro, mentindo aos familiares, para levar ao
absurdo a defesa da sua gravidez e do filho.
É mais amiga da vida alheia do que dela mesma,
no fundo suicidando-se em contradição à elegia da
vida. Parece querer acabar com
a lei do aborto, abortando-se e sem ter garantias
de que o filho vive bem, sem ela, e a substituta.
Estas novelas têm, assim, mensagens subliminares
que configuram uma humanidade patológica,
cega por mitos e cânones, decisivamente
antropofágica. Em cadeia, três ou quatro
por cada noite de impaciência.









7. Este senhor, enfermeiro, é irmão da senhora
grávida. Desvia um ventilador e põe a vítima
inconsciente, em assistência artificial, esperando
o fim da gravidez: ambos, obviamente
psicopatas, esperam assim a
consolidação e o nascimento do bebé.
Não sei como acaba essa história,
mas por mim, em coerência, ela devia morrer
sem o benefício almejado de abraçar o filho
oxigenado numa simulação comatosa
da mãe.

terça-feira, janeiro 17, 2012

QUE NÃO PENSAR É ESTE PENSAR TÃO ÓBVIO?

A fala é um gesto facial parcialmente engolido

O que parecia coisa assente era a de que «só consegue pensar quem é capaz de articular palavras. Diz-nos Ana Gerschenfeld: A mente humana terá surgido graças a uma capacidade inata para a linguagem falada? O psicólogo propõe uma narrativa da origem da linguagem e do pensamento radicalmente diferente do que estipula a linguística moderna. O credo que Noam Chomsky enunciou há 50 anos poderá estar a abrir brechas. A obra recente de Michael Corballis (Universidade Auckland, Nova Zelândia) intitulada The «Recursive Mind: the origins of Human Language, Thought, and Civilization» aborda, na perspectiva da psicologia experimental, comportamentos humanos ao nível da linguagem. Aí se lê que os neandertais eram tão inteligentes como nós, capazes de de pensar e comunicar e de comunicar espontaneamente, embora de forma não verbal. Aproxima os chimpanzés, em certa medida, desta condição. Corballis defende não só que as origens da linguagem humana são gestuais e não vocais, mas que o pensamento não precisa da linguagem para surgir. Isto estabelece um corte importante com a ideia defendida até há pouco, a de que sem linguagem não pode
haver pensamento, tendo este surgido por capacidades verbais inatas do homem, mercê de uma evolução recente, repentina e única na história das espécies.
Corballis, falou recentemente em Lisboa e disse que era preciso reposicionar os seres humanos modernos numa perspectiva de continuidade natural com a evolução da vida na Terra. Em entrevista publicada no Público, aquele psicólogo considerou que não é a fala que nos torna humanos. «É verdade que a linguagem é algo que apenas temos nos humanos, mas acho que não precisa de ser falada. A linguagem gestual é tanto uma linguagem como a fala.»
Existe um grande debate à volta disto, entre os especialistas que se revêem em Chomsky e os que estão mais próximos das ideias de Everett. Há quem pense, por exemplo que a estrutura recursiva da linguagem surgiu quando a escrita apareceu. (...) Jornal: Ou seja, caímos na armadilha de pensar que o nosso próprio pensamento é linguístico, porque tanto temos jeito para rotular as nossas imagens mentais? «Sim, acho que caímos nessa armadilha. Mas eu acho que o pensamento, de forma mais provável, foi sendo composto de pantominas, dessa forma de imaginar os acontecimentos como se estivessem a acontecer».

É talvez preciso começar a encarar, mais profundamente, o papel da percepção visual, pois ele activa muito antes de haver gritos organizados. Ver um animal caçável pressupõe o gesto que aponta, o gesto que mata. A imagem é mãe de muitos dos mais importantes e vários aspectos mecânicos, orgânicos e estruturais da (das) linguagem. Como seriam verbalizadas as figuras representativas da linguagem gráfica egípcia?

quinta-feira, janeiro 12, 2012

TAPEÇARIA COMO SUPORTE E DÁDIVA DA BELEZA

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a invenção da esperança
contra o leite derramado



TETYANA CHKYRYA

Em contraste com o que veremos a seguir, temos aqui a autora de uma experiência juvenil no âmbito da tapeçaria moderna, a peça transformada em vestido com elaboração no tear e duas pequenas asas/mãos que emergem dos ombros. Tapeçaria no limite, instalação, performance, tecelagem ainda. Tetyana foi aluna da cadeira de tapeçaria da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Desde a reforma de 76/79 que têm sido efectuadas as mais variadas experiências, estudos de renovação, provocações e revisitações à tapeçaria de raíz clássica, numa longa viagem que nunca teve, senão desta vez em Portalegre, um reconhecimento público através das actividades mais avançadas daquela instituição. Artes Plásticas sim, a decrescer. Desenho e design também. Mas é preciso coleccionar bons acervos destas linhas de formação tendo em vista a montagem de exposições bem contextualizadas e explicadas.

sem leite derramado

A EUROPA TEM DE MAMAR EM SOLIDARIEDADE

A MAMADA INCONFESSÁVEL


Todos os povos da Europa, e não só, esperam que a ganância se transforme em fome e que a fome seja vencida em solidariedade, tenha mais força unificadora, nos direitos e nas prestações do que esta imagem pressupõe: um membro da troika, fraco e perto do resgate, alimentado às escondidas pela mamãe chanceler, no recato do escondimento.

domingo, janeiro 08, 2012

COLISEUS COM RELVA E GLADIADORES NO SÉC XXI



Não há forma de olhar para a violência destes «gladiadores» sem nos lembramos de outros (igualmente do nosso tempo mas menos disfarçados). No caso do rugby (futebol americano), toda a patética blindagem dos jogadores é uma defesa que apenas excita maiores expedientes tácticos de brutalidade: não há desporto, não há verdadeiro respeito pelo ser humano como personagem de um jogo, o espectáculo é avassalador no Coliseu contemporâneo.
O futebol que se pratica em Portugal e um pouco por todo o mundo, enferma dos mesmos males, apesar de parecer mais leve e as defesas do corpo serem mínimas, limitando-se às caneleiras para as pernas. O espaço onde se joga é um recinto rectângular, com chão relvado, e grandes bancadas em volta, por vezes separadas do campo por valas ou redes de contenção do público. Porque a evolução deste espectáculo industrializado tribalizou muito os grupos, tornou-os rivais e não adversários desportivos, promoveu a criação de claques agressivas que saltavam para o relvado e chegaram a provocar verdadeiras catástrofes, tendo sido a Inglaterra o país que mais legislou sobre o assunto e tomou medidas radicais com a proibição das claques organizadas em grupos capazes da prática do vandalismo e de agressões premeditadas aos adeptos de outras equipas.
É uma espécie de carnificina, sem equilíbrio nem ritmo, o que os espectadores de futebol vão, parece que em jeito de catarse, olhar e seguir nos nossos estádios. O endeusamento dos «gladiadores» do futebol exacerba tudo em volta e a própria engenharia financeira de compra e venda de «intérpretes» funciona na mais promíscua das trocas e especulação de um lado para o outro. É suposto haver regras no futebol. E não são poucas. Equipas de arbitragem seguem de perto toda a partida e zelam pela marcação de faltas que contribuam para um jogo mais leal e menos lesivo da própria estética que envolve. Há países, em especial a Inglaterra, espaço de origem do futebol, em que os treinadores e as equipas primam, em larga medida, por disputas territoriais de malha larga, com precisão nas trocas de bola e mesmo na corrida de combate ou nos cruzamentos sobre a grande área. O que vemos, nesses casos especiais, são jogos de forte personalidade atlética em bons espectáculos de futebol, um ritmo bem balanceado entre estruturação e ataque, descongestionamentos na boa conta das lateralizações, tudo em ordem a que a violência corpo a corpo a corpo não se verifique ou não seja mais do que afloramentos sem dolo.
Em Portugal, para não falar noutras áreas da chamada latinidade, o investimento no futebol é desproporcionado e a cultura pela excelência um mito, incluindo treinadores (os «misters») e tropas de defesa e ataque, desde portugueses a reforços internacionais de grande cotação na respectiva bolsa de valores. Uma certa corrupção indisfarçável capeia em alguns recintos e linhas «tribais mistas». O arrebatamento é mal travado, os árbitros não conseguem fazer escola, os dirigentes especulam com as mediatizações. E o que vemos no terreno é um péssimo futebol, onde estiolam jogadores bons, por vezes bandos de gladiadores a perseguirem o condutor da bola, corridas tolas, sem nexo nem bom fim, tudo se misturando numa pequena área do campo. Cruzam-se pontapés de ameaça, outros de desconcerto, muitos corpo-a-corpo em que os jogadores disputam a vantagem sobre a bola com prisões às camisolas, travagem com braços e pernas, assim durante quase toda a partida, com lesões, paragens infinitas, faltas de cartão amarelo ou vermelho, abundância de livres e infracções graves para penalti, casos de indecisão e disputa verbal contra a marcação do erro ou contra a sua improbabilidade.
Para abreviar, o futebol praticado desta maneira, nada tem a ver com desporto ou espectáculo. Tudo se passa numa arena de lutas e assombrações. E o que me faz assinalar esta questão, apelando para se estudar a melhoria do jogo e das regras, é justamente por pensar que o corpo dos jogadores está cada vez mais exposto à barbárie pela vitória, sendo fácil listar os «crimes» cometidos ao longo de um ano.
Proponho daqui, é apenas um acto de cidadania, que se implemente um futebol (novo) em que não seja permitido o contacto físico jogador a jogador, apenas dispensando de sanções ocasionalidades óbvias. Isto permitiria civilizar e abrir o jogo, o qual passaria a ser feito em maiores áreas de avanços e recuos por troca de bola. Esta concepção de um outro futebol teria certamente um vasto incremento do apuro técnico e físico dos intérpretes, menos recurso à fraude e quesílias, a par
de aprofundamento das linhas de arbitragem e do ritmo e da beleza de um jogo cuja matriz mais evoluída é alinhada, com efeito, por esta perspectiva prática e teórica, a registar em regras adequadas.

SEPARADOR*** SEPARADOR*** SEPARADOR

sábado, janeiro 07, 2012

MORREU O PINTOR JOSÉ CÂNDIDO, HOMENAGEM

Pintor e Designer José Cândido

O autor dos blogues Desenhamento e Construpintar , Rocha de Sousa, homenageia o artista José Cândido e associa o seu pesar ao pesar de outros colegas, amigos e família deste homem de espírito aberto. Veja o conteúdo desta homenagem no blogue CONTRUPINTAR02