quinta-feira, setembro 30, 2010
QUE EUROPA É ESTA, ESMAGADORA E SONSA?
terça-feira, setembro 07, 2010
TALVEZ A ARTE MINTA PARA DIZER A VERDADE
A vida é feita de uma falsa continuidade e a arte procura alcançá-la com propriedade de sentido e valores expressivos de diferente projecção no espaço perceptivo de cada um de nós: porque somos dotados de um sistema visual de grande resolução objectiva, revestindo-se de notória propriedade na absorção do real, apesar de depender de um conjunto de regras redutoras da natureza integral dos objectos percepcionados. A resolução das imagens no cérebro permite-nos nomear conceptualmente as coisas e colar a elas um saber plural, capaz de descodificar uma aparência e oferecer à vigília consciente a forma tridimensional da coisa vista, guardando dela e do próprio espaço envolvente o significado inteiro, grande parte das informações aí achadas. Esta questão tem de ser ajuizada convenientemente nos actos de reresentação do visível, quer pelo desenho ou pela escrita alfabética, entre muitos outros géneros de instaurar discursos artísticos, como nas artes plásticas, no cinema e na fotografia, na poesia ou na literatura em geral. A arte contorna as evidências (porque elas encobrem de certa maneira o real) a fim de tornar visível cada parte registada pelo olhar e pelo fundo enganador da visão. Em certo sentido, já tem sido dito que a arte transforma as aparências (mentindo) para as dar a ver com mais verdade. Estas notas ocorrem-me a propósito de uma estranha controvérsia gerada a partir da reacção dos militares, sobretudo declarada pelo Presidente da Associação dos Ex-Combatentes. O alarido tomou conta de muita gente, uns que defendiam o escritor e outros que o julgavam pela negativa, considerando parte de uma peça inserida no 2º livro de crónicas de António Lobo Antunes. E há quem, nessa ira, se esqueça do atroador «Cu de Judas», uma das primeiras obras daquele escritor sobre a guerra de Angola, testemunho magoado e nada louvando, peça que muitos de nós leram com um nó na garganta. O problema, desta vez, é que a frase mais destacada do protesto, parece mesmo, antes de qualquer literatura declarada, um outro testemunho, laminar, decisivo, destituído de ficção ou simbologia -- a verdade apenas, por mais absurda que a pequena história se apresente. Ao contrário do que costuma acontecer nas crónicas de Lobo Antunes, cujos textos surgem quase sempre orvalhados de um segundo sentido, entre símbolos e metáforas finais, a crónica apontada contém um período tão limpo como a verdade da própria verdade. Escreveu, a certa altura, Lobo Antunes: «Eu estava numa zona onde havia muitos combates e para poder mudar para uma região mais calma tinha de acumular pontos. Uma arma apreendida ao inimigo valia pontos, um prisioneiro ou um inimigo morto outros tantos pontos. E para podermos mudar, fazíamos de tudo, matar crianças, mulheres, homens. Tudo contava e, como quando estavam mortos valiam mais pontos, então não fazíamos prisioneiros».
Trata-se, com efeito, de uma implícita afirmação de grande gravidade. Também estive em Angola, mais ou menos na mesma altura, em Zala e Nambuangongo, onde perdemos vidas, mas a guerra ainda não adquirira o grau de sofisticação para provocar tais «ajustes de contas». Vinte anos depois de ter regressado de África, escrevi um livro a que chamei, talvez impropriamente, «Angola 61, crónica de guerra». O livro só será crónica porque todos os factos e pessoas nele abordados correspondem à pequena e grande história do batalhão, embora transmitidos por uma forma literária a lembrar a expressão ficcional, incluindo um forte apelo ao cinema. Mas há nele denúncias aterradoras, como tenho lido noutros textos e, em particular, na obra de Lobo Antunes, a que toca militares e a que não toca. Mentiras dizendo verdades cortantes, da guerra à Inquisição e a muitos outros estados de várias idades históricas do nosso país. Um colega amigo, a propósito do assunto aqui abordado, chamou-me a atenção para o lado gélido, como que imparcial ou neutro, da redacção daquele parágrafo de Lobo Antunes: o desinteresse pela forma literária, assaz mal falada, e o batimento seco e sintético dos factos e dos métodos com que eram contabilizados. Para este meu amigo, trata-se de um forte indício de que o escritor testemunhou aquele procedimento, quase impensável, mesmo para quem esteve na guerra colonial, ou através da filmografia sobre o Vietnam. Mas nada disto é assim tão simples e o problema (visto que tantos outros foram deslidos) parece residir no facto aparentemente institucional em si, difícil de esconder dos não alinhados ou dos oficiais da companhia. Até porque, num outro ponto da crónica, Lobo Antunes declara que pertencia a um batalhão de 600 homens, dos quais morreram 150, percentagem altamente desajustada de todas as estatísticas conhecidas, entre as mais isentas. Aliás, o escritor acedeu a desfazer esse eqívoco em carta para o Presidente dos Ex-Combatentes, carta onde não explica a questão dos espólios e dos pontos; porque sempre disse que a escrita dele só pode ser lida como expressão simbólica, mesmo nos eventuais eventos que decorram de factos presenciados. Isto é verdade que nos acontece; e Lobo Antunes, apesar de tudo, não estava ali a escrever um relatório para enviar a um qualquer chefe do Estado-Maior. Feitas estas distinções e abertas estas disponibilidades de circulação pelo sentido da obra de Lobo Antunes, aquela e outras do mesmo índice de acutilância, atrevo-me, sem querer assumir-me como advogado de defesa de um escritor que muito admiro, a adiantar mais duas ou três questões de valor substantivo: a) Em Angola, anos 60, uma companhia era constituída por 3 grupos de combate, cerca de 160 homens, entre soldados, cabos, sargentos, alferes, um tenente e um capitão, comandante da unidade. O tenente em geral era o médico, e os alferes milicianos concretizavam a cadeira superior hierárquica, com vértice no capitão. Os sargentos comandavam secções de 9 homens, integrando o grupo de combate. O problema posto pelo texto de António Lobo Antunes, enfrenta os seguintes (possíveis) problemas: ou o sistema de pontuação por acções desenvolvidas em combate e similares situações era circunscrito a um grupo de pessoas, secreto, e nesse caso a transferência do que mais pontuasse seria negociada por subterfúgios, ou esta roleta implicava toda a companhia, facilitando a transferência do vencedor para uma «unidade pacífica», o que coloca dentro da sigilosidade da operação toda a gente, desde o capitão ao último dos soldados. Apesar de tudo o que me foi dado ver, negociatas, abastecimentos directos e sem a menor transparência, escolhas de materiais passando por percentagens, desgaste não explicado nos géneros entregues às companhias, promiscuidade entre militares e civis em preparações especiais de aquartelamentos, pressão disciplinar sobre aqueles que não acatavam trocas obscuras entre chefias consoante interesses pessoais e vantagens financeiras, violência aplicada a dois prisioneiros, a verdade é que nunca estive perante situações tão abjectas quanto as referidas por Lobo Antunes. Podemos duvidar delas na base de um raciocínio técnico como aquele que sintetizei atrás, mas não podemos condenar o seu relato, mesmo que em relação directa com a realidade passada. Porque o contexto, o género da crónica, absorvem o significado dos conteúdos para o domínio do símbólico, da analogia com outras possíveis crueldades, em metáfora capaz de desmontar o real e a sua verdade numa outra verdade. Em termos litrários, Lobo Antunes pode ter-se socorrido de um jogo promocional cruel para dizer outras verdades, assinalando a brutalidade de muitos meios bélicos, aceites como norma. O próprio treino militar, antes de qualquer prontidão, chega a ser cínico e bárbaro, e bem me lembro disso em Mafra. Já não falo das mortes de jovens em instrução militar ligada aos comandos nem da criação de sistemas de dependência psicológica.
Resta talvez anotar que a forma dos artistas se assumirem como testemunhas empenhadas perante desvios sociais, políticos, religiosos, militares, seja qual for o grau de possível sanção (ilegal) que as corporações accionem contra eles, tem sido entre nós muito pobre. Há mais casos na literatura do que nas artes plásticas, e há uma infinidade de documentos expressivos em cinema, com graus aterradores de verosimilhança perante casos históricos amplamente conhecidos. De resto, quem são os portugueses ainda vivos, participantes sem escolha numa guerra dita colonial com 14 anos de extensão, que não tenham percebido como esses milhões de factos e resíduos traumáticos foram omitidos até ao maior dos desrespeitos por um povo assim sacrificado, com muitos dos seus mortos enterrados no teatro de operações e que só agora, lentamente e sobretudo pelas famílias, começam a ser resgatados, em recato, sem pompa nem circunstância. Todos as pequenas intrigas futebolísticas com que as televisões nos intoxicam sem medida, entre outras coisas idênticas, deveriam desde há muito ter sido substituidas em parte por debates, revelações, a história da guerra travada teimosamente por Portugal em Angola, Moçambique e Guiné. Muitos ainda esperam por isso, mas só lhes cabe ouvir as migalhas de programas com filmes de arquivo e testemunhos de patentes superiores. A guerra não foi nada disso. E Lobo Antunes, que era tenente miliciano no teatro de operações e sabe que não é preciso mentir num universo com tantos exemplos reais para abordar, tem de facto razão quando lidera frases assim: eu poderia escrever que na minha companhia, formada por 150 homens, morreram 150; e no batalhão, de 600 homens, morreram também todos eles, isto numa forma de exprimir que ninguém se salva após tão terrível experiência. O escritor, na correspondência travada com o Etado-Maior, diz que quanto mais simbólica é a linguagem mais verdadeira se torna. E asseverou que o tema acarreta «reacções emocionais fortes», até porque «a guerra colonial foi profundamente injusta. Pode esquecer-se a guerra mas ela não nos esquece. Deu cabo da nossa juventude e há-de dar cabo da nossa velhice. A negação de nada serve e a guerra continua a ser uma experiência muito dolorosa para mim. Quando venho de um almoço com os meus camaradas, essa noite é muito difícil. Todos nós morremos um bocadinho na guerra».
foram consultados materiais publicados no blog de ALA e por José Roldão
segunda-feira, setembro 06, 2010
POR MAPUTO: REDESCOLONIZAÇÃO EM VIOLÊNCIA
Há sempre semelhanças entre estes desastres: Moçambique dividiu-se, logo após o cessar fogo das tropas portuguesas e o seu abandono do território, em duas forças opostas, em litígio bélico de intensidade muito menor do que o de Angola, mas, apesar de tudo, largamente danoso para o país. A FRELIM, desde o início da guerra colonial, apostada nos ditames libertadores, teve à sua ilharga, ainda durante esse tempo, o movimento homónimo RENAM, débil, menos municiado e ideologicamente impreciso. Mas, quando vieram as eleições de tipo democrático, a FRELIM foi vencedora, tendo na Assembleia Nacional de confrontar-se comos deputados que a RENAM conseguiu eleger. Esse perfil das forças que iniciaram os caminhos da independência não era preocupante e a sucessão dos vários presidentes tem decorrido com consensos quase nada pertrubadores. O problema, dada a escassez de meios imediatos de riqueza, coisa já existente em Angola, passou a residir nas políticas de de contenção, realidade agravada pela explosão populacional em Maputo, em termos por vezes capazes de provocar repugnância, desde o lixo, às sujidades dos imóveis e dejectos em avenidas principais. Tudo isto foi sendo combatido, como quem rema contra a corrente, pois o tipo de cultura das populações do interior não era ajustável às regras da vida citadina nesta escala. A situação, há pouco tempo, começou a degradar-se. Até que, em revolta contra o aumento dos bens básicos de consumo, a população, recrutada por SM S, entrou em estado de revolta, bloqueou a cidade, o próprio achefe de aeroporto, acabando por cometer alguns desacatos sobre lojas e pessoas. O governo reagiu em termos de espera, socorrendo-se da PSP para situar algum recato. algumas dispersões. O Chefe de Estado falou em nome do apaziguamento, sublinhado o dinheiro que se perdia em cada dia de paralisação da cidade, o que ocorreu, de forma completa, durante pelo menos dois dias. Apesar dos destroços, mortos e feridos, este incidente esbateu-se depressa: seja como for, não deixa de ser um sério aviso para aqueles que vivem acima de maior parte das pessoas, em assimetrias monstruosas, fio em certa medida anunciador dos erros cometidos nos anos 70, por Portugal e pelas Colónias. Esvaziadas dos quadros técnicos e administrativas competentes, o esforço de equilíbrio e de ordem social gerou ou agravou diversos tipos de «epidemias» que este género de subdesenvolvimento costuma tornar crónico. É o salto na contemporaneidade, seguido de catástrofes indizíveis.
Tudo isto poderia ser diferente, pausado, seguro, equilibrado, partilhado, num Continente que, em vez de entrar em agonia, deveria ser tomado pela humanidade como fundo de garantias em diferentes plataformas de produção e comservação? Por mim, penso que sim, não por achar que a descolonização estava fora do projecto nacional. De resto, a ditadura teve todos os sinais para salvar a face e os povos. Um «génio» chamado Salazar castrou toda um país com as suas sobrevivências e referências através das colónias. O que penso é que a descolonização não devria ter sido feita sob uma espécie de efeito de derrota, sem nada se preservar, indústrias, fecundação da terra, organização social, disciplina. Os portugueses e moçambicanos brancos que tiveram de abandonar de súbito aquele país, como aconteceu ao mesmo tempo em Angola, foram apenas martirizados por slogans e dirigentes cobardes que não souberam negociar e agilizar as tropas numa ajuda pós-militar. Alguém me poderá garantir, com razões técnicas e humanas de valor indesmentível, porque carga de água um exército que combate em três ferentes sem destruir os territórios e as populações tem de se retirar à pressa, com a tralha mal atada à cintura e uma cerveja para refrescar o «regresso» a Metrópole? Tratou-se de um erro grotesco, o que aliás veio reflectir-se em Portugal, num PREC maníaco-depressivo, falsamente chamado de revolucionário, proletarizando o campesinato e procurando mesmo a tomada do poder por um golpezinho patético, o qual o país conseguiu travar em pião -- e sem sanear verdadeiramente os que haviam ensandecido pelos quartéis e pelas quentes veredas do Alentejo. Assim ficaram as coisas, pela teimosia inerente a Salazar, pela incapacidade assombrosa de Caetano, pelo varrimento de toda a ética militar dos chefes que tinham «trabalhado» nas ditas colónias durante 14 anos, conhecedores dos problemas e do apoio que podiam dar no próprio espaço da independência e durante os primeiros tempos da mesma.
domingo, agosto 29, 2010
DO TERROR RELIGIOSO AO ABUSO DO DINHEIRO
Diante das realidades que constituem a estrutura e a substância do nosso sistema civilizacional, entre crises e cristalizações, devemos estabelecer algumas questões sobre a razoabilidade do que nos é dado ver. É preciso que indaguemos a natureza dos vários desenvolvimentos, que fundamento têm e que futuro proporcionam. A análise crítica de Husserl sobre o estado das ciências e das culturas, tendo em conta o propósito filosófico relativo ao século XX, parece mostrarà que a ideia de crise não se circunscreve ao domínio do económico. O mundo em que vivemos é afinal um espaço extremamente dividido quanto vasta qualificação do trabalho e isso obriga-nos a indagar a natureza das directivas do fazer, dos factos produtivos, como é que se projectam, quais as suas referências humanas e vitais, quadro sobre o qual se espalha uma névoa baptizada com o nome de crise (crise financeira e económica) no qual muitos pensadores actuais, perplexos, encurralados, crentes ou ´cada vez mais envolvidos em diversos processos de dúvida. Porque foram impelidos a pensar se a crise pode ser avaliada e desmontada como um dado em si ou deve enquadrar-se em planos que superam a fixidez do binómio onse se juntam as razões financeiras e económias. A passagem do estilo românico ao gótico, ligada às edificações de carácter religioso, teve certamente uma base económica consoante a realidade financeira (executante) dos tempos. Contudo, a caracterização dos projectos, que implicava pesquisa e orçamentação, tinha por raiz mais funda intuitos ou satisfações de base cultural, a demarcação de um imaginário largamente religioso, vontade sócio-política de garantir o poder para a salvação. À superfície, o próprio consumo, materializado através dos sonhos e dos desejos viciosos ou culturalmente definidos, tende a ser distendido ou controlado por duvidosos métodos de natureza moral -- limite sempre a dissolver-se pelo aumento de necessidades inventadas e pela permissividade onde o poder se justifica, entre a tolerância calculista e a defesa totalitária dos sistemas mais conservadores ou orientados para a estabilidade das escilhas maniqueistas. Esta questão foi aborada pelo professor Weber no sentido de uma pesquisa a montante, onde começa e engrandece a riqueza, tendo ele preferido ligar a crise a causas ainda mais remotas, embora hoje dissipadas pelos métodos de análise, ou seja: o esforço de compreensão da crise, mesmo na sua perspectiva actual, deve integrar outros afctores além dos habituais -- factores psicológicos, culturais e teológicas. Em entrevista ao expresso, Weber evocou então um esquema que relaciona a teologia e a economia na «questão do dinheiro». Disse ainda: «Um dos motibos do fascínio pelo dinheiro é a especulação financeira, o facto de usar o dinheiro para produzir mais dinheiro. Já citei uma frase muito conhecida de Benjamim Franklin, que Max Weber comentou no seu livro sobre a relação entre o calvinismo e o desenvolvimento do capitalismo. Aí já temos uma relação entre teologia, religião e economia. Retomei essas teses de Weber (anotou Samuel Weber para tentar saber se o fascínio pelo dinheiro estaria ligado à tradição teológica, sobretudo a cristã) que tanta pensar ao mesmo tempo um Deus único e criador imortal e as suas criaturas humanas, imortais na origem mas que se tornaram mortais devido ao pecado e à culpa». 1
o banqueiro multiplicador .
Esta perspectiva da origem do capitalismo liga-se ao problema da ética, que tem persistido. Em boa verdade, a única regra para produzir mais riqueza e o máximo lucro no manor limite de tempo, é uma das lógicas que tem levado ao descontrolo do sistema, perto do abismo terminal, donde não haverá verdadeiro retorno. Foi esta, de resto, a lógica que comprometeu a estratégia da Emrom, nos Estados Unidos, pois aí, contra toda a ética, «implantara-se um sistema sem orientação e que funcionava unicamente para produzir mais lucro e riqueza a favor de um número reduzido de pessoas».
o banqueiro duplamente multiplicador
Destaque incontornável: a acumulação de riquezas sem limites escita uma resposta defensiva contra o medo de que o tempo caminhe para a destruição do indivíduo. Basta observar as grandes catedrais (o Vaticano é exemplar) e o poder de certas Igrejas para se perceber quanto o fascínio por tal exibicionismo tentava impor aos crentes na doutrina por elas representada a ideia da salvação material, a única capaz de assegurar a pertectuação à posteriori do indivíduo. Algumas das mais abjectas alucinações do capitalismo selvagem assentaram no cavo arbítrio antropofágico que o dinheiro comporta, deificando o seu detentor. Bernard Madoff, embora pudesse ter atingido, na legalidade, a maior fortuna de todos os tempos, prosseguiu pela ilegalidade, dei a si mesmo o privilégio de se considerar Deus.
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1. baseado em «Samuel Weber», entrevistado por António G uerreiro
2. plano de um filme de Anthony Hopkins
3. Plano de um filme de Anthony
sexta-feira, agosto 27, 2010
UM PAÍS ARRASADO PELA LAMA E APESAR DA FÉ
Todos aqueles, povos e governos, que se distanciam destes problemas e jamais os desejarão relacionar com males cíclicos, desta vez entrosados e precipitadas pela acção humana, terão de suportar um dia (nem sequer muito longínquo) em que a sua sbrevivência se encontrará perto do ponto zero de algum amanhã, como que entrando na mais pobre de qualquer verificação substantiva. A cadeia de incêndios, todos os anos repetida nem sequer pelo poder divino, continuará a ser ateada por negligência, falta de civismo ou mãos assassinas ao serviço de obscuros «projectos» e dos mais sórdidos interreses, numa ganância que também se globaliza. E enquanto ninguém pensa nisso, retardando políticas ambientais profundas, os sistemas de sustentação planetária vão começando a caducar, mares subindo, gelos escorrendo, territórios desertificando-se, a atmosfera como que mudando de natureza. A brutalidade do que aconteceu no Paquistão em nada demove os terroristas do «saque». No norte do país, os agentes da polícia têm ordens para disparar sem aviso contra os saqueadores. Enquanto isso, e onde ainda se podem tentar resgates materiais, a população retira das suas casas em ruínas parcos haveres, coisas utilizáveis, guardando tais bens onde for viável, já que os ladrões se atiram a quaisquer valores transacionáveis, aparelhos, frígoríficos, fogões, tudo o que, nessa linha, cai na sua aproximação. Os agricultores têm sido os mais atingidos por esta praga não menos odiosa do que a diluviana.
Tanta desolação, em tão grandes áreas, é realidade que merece grande reflexão da parte de toda a gente, dos próprios paquistaneses agora vítimas dos seus compatriotas profissionais das armas, da guerrilha, do saque seja a quem for. Enquanto o actual sistema económico mundial agrava crises e promove trocas imensas nos corredores do banditismo internacional, das lutas religiosas e sectárias, parece que os homens desafiam os deuses da sua fé, perdendo-se entre causas atroadoras, entre várias hipóteses de fomentarem um inqualificável confronto civilizacional.
Malik Fiyyaz, um agricultor de 50 anos que perdeu dez hectares de plantações e teve um prejuizo de setenta e três mil euros, queixou-se da seguinte forma: «Estamos a viver na miséria». Ele recordou a morte de um dos seus vizinhos ao ver todas as suas colheitas perdidas e a história de outros dois que perderam todo o seu gado, sobretudo roubado por saqueadores. Também eles comentaram, segundo a revista «Sábado»: «Vai levar tempo até conseguirmos reconstruir os nossos recursos, mas havemos de o fazer. Não temos outra opção».
E as crianças, que opção têm elas?
domingo, agosto 22, 2010
RUY DE CARVALHO:VOU LÁ VISITAR PASTORES
FALECEU RECENTEMENTE RUY DUARTE DE CARVALHO
ANGOLA
Ele o disse: «Eu cumpri a minha tarefa cívica, que é a de alertar para uma outra percepção das coisas»
Tive o privilégio de conhecer pessoalmente Ruy de Carvalho e de me sentir seu amigo. Foi naqueles anos 60 de uma guerra antecipadamente perdida, conversando em Luanda, num dos meses em que nos davam disponibilidade, e depois no fim da comissão, quando aguardava embarque e privava de perto ccom um outro grande amigo, engenheiro Anibal Fernandes, branc natural de Angola, que fez o favor de me dar a conhecer muitas das coisas que não pudera sondar enquanto andava pelo mato, nos exílios de Zala, Nambuangongo, ou na bela costa do Ambriz. Ruy de Carvalho arrancava a sua viagem africana e cultural, escrevia muito, poesia, depois estudos sobre o que via e ouvia, já nómado, partindo e regressando de mais à frente, conhecedor de Angola como ninguém, observador das gentes, dos seus percursos e formas comunitárias de vida. Ruy fazia uma clara caminhada de antropólogo e etnógrafo, áreas do saber que viriam a integrar parte da sua formação universitária. Ele deu aulas em Coimbra, deu aulas noutros pontos e de outro modo, observando, registando, atravessendo línguas e linguagens. Deixou uma obra icontornável nesse domínio, um legado científico, poético e literário, à terra a quem se ligou, angolano por escolha, institucionalmente. Por dentro também, num bem-amar de filho cujo território maternal tinha em si nome de mulher, alma de toda a sua vida.
«Morreu inesperadamente. Deixa análises antropológicas, ensaios, quase romances, poemas, filmes, esculturas, fotografias. Era como um príncipe, altivo, simples mas pertinaz, quer entre homens do poder e senhores da guerra, quer entre ou pastores»
Estas são palavras lapidares de António Lopes Neves, que entrevistou Ruy Duarte por ocasião da saída do seu livro «Actas da Maianga - Dizer da(s) Gerra(s) em Angola.
Adeus, Ruy, sei que perguntaste por mim várias vezes. Notícias tiveste, mas não pudemos partilhar melhor o que ambos fizemos. Eu não sou figura pública. Isso não me impede de resgatar aqui a tua memória, como a senti naqueles dias de brasa.
domingo, agosto 08, 2010
A CONDIÇÃO HUMANA EM MEMÓRIA DE J.BOSCH
O SACRIFÍCIO DE TÂNTALO OU O SER DE HAMLET
MUITA GENTE AZOUGADA E PODERES INQUIETOS
sábado, agosto 07, 2010
CHUMBOS PARA A CAÇA, ADIA-SE QUEM NÃO SABE
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OS EVENTUAIS BEATOS DO FREEPORT NATURA
A pergunta não se dirige a Mário Crespo, obviamente, figura respeitável do nosso universo televisivo. A pergunta deve ser colocada por ele, que todos os dias, semanas e semanas a fio, tem indagado o Processo Freeport até à exaustão, um pouco em surdina, como é agora seu hábito, outras vezes interrompendo de razões algum dos muitos convidados: políticos, juristas, ecologistas, gente do mundo e do estrelato. Eu não percebo porque é que um homem desta craveira, que estudou lá pelas Américas ou coisa semelhante, se obstina desta forma com um tema vulgar, enovelado em telenovela pelos jornais e pelas malfeitorias dos julgadores de rua. Fala-se (isso já percebi) em políticos implicados, porventura o próprio 1º Ministro, na concessão de licença para a obra, colada a uma área de conservação natural, processo esse que teria trazido às mãos de alguém quantias significativas. Agora, como toda a gente já sabe, do processo resultaram dois incriminados, sendo o mesmo arquivado, resmas e resmas de papel com inquéritos e audições em torno do tema, nos quais foram ouvidas muitas e muitas personalidades de nome solene. Mas, ao darem ordem de arquivar todas essas inquirições, que sobraram da gesta do Seixal, dois procuradores vieram a correr juntar, da sua parte, 27 perguntas dirigidas ao 1º Ministro, mais um acontecimento por acontecer na corrida dos boatos e tempo disponível, cerca de seis anos. Penso: cá está o gato com o rabo de fora. Era o 1º Ministro que toda aquela gente farejava, para ser pelo menos arguido e se vendesse mais papel, se arranjasse um longo processo em caso de haver provas q.b. capazes de abalarem algum juiz, ou, enfim, se fechasse tudo, uma década mais tarde e sem indemnizações, por alegada falta de provas, porque as que pareciam bastar não comoveram uma Justiça de olhos vendados. Será esta a história do ensaio da cegueira, presumido para o futuro por Saramago? O Jornal de Sexta, da TVI, interpretado por Manuela Moura Guedes, caíu por causa desta história e ficou tudo mal contado, incluindo o desabafo do 1º Ministro, já então personagem nebulosa da história, personalidade que, desde o Freeport e do comentário feito àquele especial magazine de TVIsexta, nunca mais deixou de ser zurzida em canal aberto e até interrogado por uma Comissão de Inquérito, nomeada, para esse assunto, pela Assembleia da República.
Eu estou inocente, garanto. Estou a interrogar interrogando-me, a fim de ver para além da névoa que esconde, desde há séculos, D. Sebastião. Parece-me óbvio que Sócrates não tem condições para ousar parecer o rei sem norte. Mas, certamente, há-de perguntar a si mesmo, porque carga de água anda o Mário Crespo neste imenso pantanal, sem se cansar, descurando as suas virtudes técnicas e culturais.
sexta-feira, julho 30, 2010
MORREU ANTÓNIO FEIO: DAQUI JÁ O SAUDAMOS
quinta-feira, julho 29, 2010
MUSEU DO CÔA COM GRAVURAS AFUNDADAS
O MUSEU DO CÔA será inaugurado amanhã, sexta-feira, 30 de Julho. A grandeza e originalidade deste projecto, além de todo o parque cuja visão de futuro e abertura ao conhecimento dos testemunhos civilizacionais da humanidade enobrece o país dos Descobrimentos, não parece capaz de resistir à crise, uma vez que, tanto quanto se sabe hoje, 29, só a Ministra da Cultura presidirá ao decorrer da cerimónia. Mas não é isso o mais importante. O mais importante (e desconcertante) é o sinal enganador com que as autoridades nos presenteiam: uma inabalável exposição temporária de gravura («Gesto e Inscrição»), com obras coleccionadas pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. São 38 trabalhos, entre os quais nove artistas portugueses, nomeadamente Pedro Cabrita Reis, Fernando Calhau, José Pedro Croft, Julião Sarmento, Michael Bibertein, Alberto Carneiro, Carlos Figueiredo, Ângelo de Sousa e Francisco Tropa.
Sendo o Museu e o complexo do Côa uma forte realidade que marcará muitos reconhecimentos de vários períodos relativos aos riscos iniciais, à emergência encantatória da arte na marcha evolutiva do Homem, terrível é o modo como os portugueses de hoje, abúlicos e manipulados pelos que julgam ser vértices da nossa inteligência, parecem incapazes de um gesto de indignação perante aquela não escolha de obras, todas de artistas respeitáveis, conhecidos sobretudo fora da gravura que nos honra, embora capazes de surgirem ali, sem regra nem abertura, pois a sua reputação curricular não os classifica como gravadores e nem é sábio Portugal fazer-se notar no início deste património com nove artistas apenas, no quadro de uma omissão irreverente e descuidada da verdade. Nem sequer é preciso ir muito longe para nos tornarmos maiores: ali faltou a coragem de nomear objectivamente GIL TEIXEIRA LOPES, BARTOLOMEU CID e DAVID DE ALMEIDA. Esta nota precisa de que se diga haver muitos mais gravadores portugueses da época moderna, mas, dedilhando as ranhuras dos antiquíssimos desenhos que nos distinguem, mais atrás e justamente poderíamos chegar ao ponto de distinguir outras figuras de outros tempos, espíritos que nos honram ainda, bem como a nossa fecundidade criadora, a arte que tanto esquecemos e dividimos. É grave que o hábito de usar cassetes modernas mas irremediavelmente afundadas além das outras faça com que as instituições próprias inaugurem este importante património com um gesto de pequenez, incapaz de se tornar velame de 500 ou lâmina da primeira implantação de um povo de pouca força, mas cuja diáspora, hoje, vale bem um resto de indignação perante arranjos com este perfil, nem crise nem sonho, gente enfim disfarçada, sem convencimentos, gente borboleta, de breve vida, nomes de ontem e de agora colocados no canto de nada, como se o mundo não os tivesse visto antes de nós mesmos. Bom era que abrissem os museus tumulares, nos quais há património de gravura que bem poderia (aqui) fazer a ponte entre a grandeza de um fragmento da nossa verdade artística específica e o horizonte longínquo no qual tanta gente retratou tantos animais, entre o desejo e da esperança.
quarta-feira, julho 21, 2010
CONSTITUIÇÃO MEIO RASGADA, AINDA DE NOME SOCIALISTA E JÁ AMPUTADA DA JUSTA CAUSA
sexta-feira, julho 02, 2010
BONS OFÍCIOS DOS MERCADOS LIVRES E CEGOS
segunda-feira, junho 28, 2010
AS TERRAS QUE NOS FALAM DE OUTRAS TERRAS
Os cineastas que, desde cedo, procuram sugerir paisagens claramente de outros lugares noutros planetas, a fim de encenarem as cenas do nosso imaginário de encontros fora da terra, voos gravitacionais a planetas próximos ou longínquos da nossa galáxia, depois de uma longa investigação drecta e automática do sistema solar, procuram por vezes lugares como este. É um lugar que parece deserto e impróprio para a vida humana, não passa de uma paisagem, aliás deslumbrante, de certa zona da Islândia. Os trabalhos de produção de um filme naqueles termos exigem deslocações a sítios destes, registos, documentação, correspondências, o menos onerosas possível, relativamente ao projecto e determinadas se quências. Mas o que faz com que outros homens, sem qualquer função criativa, se aventurem a desbravar caminhos para terras assim, a montanhas inenarráveis, perdendo-se ou morrendo, chegando em muitas situações a pontos da Terra onde ninguém mais chegou? Esse é outro mistério: talvez simplesmente o desejode superação de obstáculos que caracteriza o ser humano. Talvez ainda, e por outro lado, a remota memória que há em nós todos de um paraíso, de um lugar fora do planeta, a quietude, a grandeza dos espaços, o anonimato dos seres. Há quem diga que os portugueses estão possuídos deste mal ou desta interior grandeza -- porque se espalharam por todas as terras que lhes evocam terras escondidas dentro de si. O enfrentamento, aliás metódico, dos oceanos pode ser um indício de uma transcendência que só há poucos anos estamos a escavar, através de telescópios colocados em órbita, e que, apontados a certas zonas do Universo, acabam por nos mostrar milhares de fotografias de acontecimentos colossais verificados há milhões de anos luz. A luz chega-nos entretanto de outras terras e já nos falam substancialmente delas. O mistério resta no próprio Universo, para o qual na há hipótese de explicação, nem mesmo pelo embate de partículas circulando no espaço negro. E circulando ou movendo-se porquê, para quê? Um padre disse que falara com Deus a esse respeito, ao que Ele teria respondido: «Não sei nada de Partículas. Isso são invenções do homem»
Ele também, como se sabe.
O MISTÉRIO INIMITÁVEL DOS ESPELHOS
Por vezes as imagens projectadas nos espelhos e reflectidas por eles parecem insinuar que todo aquele regresso da coisa enviada, é impossível, mesmo que virtual, e mais se assemelha a um mistério dos prestigitadores em sala de recreio, algo como se fazia há um século. Os macacos, seres de grande inteligência na escala darwinista, ainda não perceberam, embora já saibam agitar a sua própria imagem para que o seu homónimo o imite de imediato. Mas até isso é inimitável. E há momentos de impaciência, como acontece durante a aprendizagem humana, em que o macaco percebe o limite da imagem, espreitando à direita e à esquerda, passando mesmo para o outro lado do espelho, onde, estranhamente, nenhum irmão seu se encontra. Na guerra colonial, havia soldados que fitavam longamente as fotografias da família, da namorada, deles mesmos. E levavam muito tempo para se reconhecerem, presos de angústia quando o registo da sua imagem pertencia a um tempo recuado e eles eram outros, perdidos numa rua da aldeia ou levando fato de domingo para o alto dos penhascos. Alguns desses homens, mais sombrios e menos capazes de aceder ao sentido intemporal da imagem, isolavam-se na depressão e chagavam a suicidar-se. Aqui não, descansem os espírtos sensíveis: aqui vemos a coisa projectada e a imagem reflectida: são siamesas e não há ninguém que as separe verdadeiramente.
quinta-feira, junho 24, 2010
MANUELA, CONTRA SÓCRATES, DESAFIA JUSTIÇA
Este jornal da TVI, às sextas feiras à noite, com a apresentação encenada de Manuela Moura Guedes, era de facto truculento. Conheço desde há muito, através da televisão, a figura e a acção desta apresentadora e lembro-me do seu lado algo risonho e gracioso, inclusivamente a cantar numa festa da Estação. Fazia-se, para muitas pessoas, apresentadora de referência. E assim durou até uma súbita passagem do tempo, incidentes da natureza ou da vontade. Quando voltou aos ecrãs da TVI, parecia um pouco estranha, na fisionomia, mas sobretudo na forma de dizer. Não em tudo, com certeza´, mas de certeza no famoso jornal de sexta-feira, à noite, com o tempo todo para ela e um só assunto da política portuguesa: o governo socialista, o desgoverno do país, a inaceitável maneira de decidir do 1º Ministro, as obscuras relações dele com outros, o seu enleio na Freeport, numa licenciatura de «aviário», no desnorte das escolhas e na queda em crise, algo de perturbante, de mistura com o processo da «face oculta», cuja existência era bem antiga e até infligida pelos gastos de Gueterres, um homem brilhante que esteve, contudo, quase a afogar-se no pântano, donde se furtou a tempo e em nome das Grandes Causas. Durão Barroso, que calhou na sequência de poderes, fugiu antes de pronunciar a perigosa palavra pântano. Limitou-se a dizer que o país estava de tanga (ele também) e tratou de lutar para que o fizessem presidente da Comissão Europeia, onde se tem mantido, afrancesado, falando em inglês e metendo o português no bolso. Não era tanto o trabalho de Moura Guedes que feria a nossa sensibilidade, quer apreciássemos ou não José Sócrates: eram os esgares que fazia com todo o rosto, olhando de soslaio, em pausa, para acentuar um sentido pseudo-oculto do que acabara de dizer. Saramago concorreu com ela em questões mais sérias e numa simples entrevista: Deus havia cometido erros grosseiros e o caso de Caim empolgara o escritor de «Levantados do Chão». Devagar, nem sempre a ganhar, ele procurava levar a água ao seu moinho e descobrir que bispos usavam capachinho. O Presidente da Ordem dos Advogados foi questionado, no tal jornal de sexta, pela então já renovadamente famosa, Manuela Moura Guedes. O homem não é de ficar aterrado, fala em rajadas de velocidade apreciável, cala as interrupções vibrantes de Manuela Guedes, e diz coisas que o Pº Ministro nunca lhe disse: «o que a senhora faz não é jornalismo, não tem nenhuma dignidade, esboroa-se em ataques soezes e longe do mínimo respeito deontológico na dignidade dos actos públicos, profissionais, institucionais, com a postura a que devia aspirar». Ponho aspas para sinalizar o muito que esse senhor disse, a reprodução não é à letra, mas o sentido sim, além do muito mais que ele disse. Não houve réplica no outro número, Sócrates desceu ao proscénio, a face oculta, tudo isso mas nem tudo isso, porque os eventuais personagens dessa «Nova Ordem do Mundo» nunca eram citados por inteiro, a horas, em percentagem. Vejamos um pouco desta telenovela:
Sócrates: Acham que aquilo [o jornal sexta] é um telejornal? É um telejornal travestido feito de ódio e perseguição pessoal (...) A liberdade de imprensa quando é utilizada para injuriar está afinal a difamar essa liberdade.
Manurla M. Guedes: Não me senti incomodada por outros governos. (reagindo à pergunta)De alguma forma, mas eles são uns anjinhos, comparados com este Governo. Meu Deus do Céu, verdadeiros anjinhos»
Sócrates: Tenho tomado conhecimento da divulgação pela TVI de uma gravação contendo referências ao meu nome a propósito do caso Freeport e esclareço o seguinte: No que me diz respeito, essas afirmações são completamente falsas, inventadas e injuriosas».
Manuela M. Guedes: Sócrates não cala os jornalistas da TVI com ameaças e críticas. Tentou tirar credibilidade ao jornal mais visto pelos portugueses. Não vai conseguir e vai responder em tribunal.
E assim por diante, sem dizer chega. Sócrates defendeu-se com o direito que lhe cabe quando é objectivamente atacado pelos orgãos da comunicação social. Nem sempre o fará da melhor forma, mas o que lhe compete não é escrever colunas de resposta por tudo quanto e sítio (de má língua). O que me espanta, neste tricot à portuguesa é a volubilidade de tudo, a perda de tempo e de ideias, o lado tendencioso das colunas de jornais, das «colunas» das televisões. Falam em audiências e competitividade: é coisa que não há, porque começa por não haver bem cultural nem competência: como é que se concorre com outros publicando o mesmo que eles (mal) e à mesma hora? Como é que o jornal de sexta queria respeito das pessoas mais sérias se não fazia televisão séria, levantando (sobre os problemas de Sócrates e da Governação) questões de fundo, problematizando métodos, sistemas, relações económicas, concepções sobre o mundo e a globalização, entrevistando (sem medo da régie no último minuto) personalidades bem posicionadas sonre essas questões -- e mesmo sobre alguns comportamentos do 1º Ministro.
Anjinhos, Manuela? Quem são os anjinhos se você não batia as asas, batia os lábios?
sexta-feira, junho 18, 2010
JOSÉ SARAMAGO MORREU HOJE EM LANZAROTE
terça-feira, junho 15, 2010
ESCREVERAM NO PAPEL: ONDE VAMOS MORAR?
Usando as próprias palavras com que os ARTISTAS UNIDOS falam do espectáculo que baseiam em Beckett/Joyce, eis um espaço de fascínio e muitas imagens entretanto perdidas para a mordaça do consumo:
As palavras inconfundíveis de dois dos maiores escritores do século XX através de cartas, excertos, do monólogo de Molly Bloom ao monólogo de Lucky, uma visita demorada a dois dos grandes mistérios da literatura.
Com Gaça Lobo, Virgílio Castelo e Jorge Silva Melo; tradução de Miguel Esteves Cardoso, José Maria Vieira Menes, Jaime Salazar Sampaio.
integrado no Festival do Silêmcio, Instituto Franco-Português, quarta,16, 21,30, entrada livre
sexta-feira, maio 28, 2010
A CASA GRANDE E OS LAMENTOS DE OUTRORA
Terra longe na distância do Quevec.
E os passos outrora quentes,
quase brancas as manhãs, brancas as casas,
colmo de abrigo e de repente as asas,
inteiras, ligeiras em frente
e por força do mundo em redor,
já rodando, redondo, no rosto da gente.
Oiçamos os velhos sábios de outrora.
Vozes começando devagar.
Resmungações dos animais, demais,
pateando o caminho de terra e capim,
uma porta, a primeira, rangendo sim,
preguiçando nos gonzos sem folga
ou abrindo céus ainda brandos de cinza
apesar da mornidão adivinhada
na brisa já lavada,
insectos de trajectos em volta,
também cruzados, zumbindo,
distâncias se calhar de outro calcular.
Bem logo passos inivisíveis a lavrar
os fios todos sinuosamente
como certos rios,
grandes, grandes mas sem navios.
Ficam aqui e além os camponeses em brios
por vezes em passos largos decididamente sim
a par das vozes renovadas
e cada vez mais além e assim.
Cheira a homens e a bichos.
Cheira a terra e a flores.
Abrem-se os olhos cismando amores,
tudo certo no excesso de tudo,
o morro mais alto escolhido no gesto mudo,
magia, geometria,
seria nele erguida a Casa Grande.
Assim se fizeram as paredes de massa elementar,
paus atravessados, zonas de adobe,
e os quartos de chão revestido,
e as salas de cozinhar e de comer,
colmo por cima, as madeiras aqui,
os tapetes além,
a bela crueza de tudo
e as faces pálidas dos avôs,
dos bisavôs, ali se fizera um mundo,
todos juntos na regra e na matriz
do sonho profundo.
Nesse tempo lembrado em agonia, a lenda
era dividida em histórias para contar à noite,
lus de fogo, suspensa, misteriosa, como na tenda,
outros, pois sim, zelando pela paz em turnos,
cada olho no fundo da noite,
no perfil da mata,
enquanto os ouvidos escolhiam rumores,
destrançando acasos e sinais.
Ainda ninguém sabia que esse modelo de vida
estava a ser esmagado a qui e além, em ferida,
requiem que os cânticos e as danças
ainda se refaziam contra o medo
e contra as lanças.
