terça-feira, novembro 22, 2016

algumas declarações de ANTÓNIO BARRETO

                                                                         

algumas declarações de ANTÓNIO BARRETO
cientista social e cronista.
é meu intuito declarar aqui o grande apreço por esta personalidade,
intérprete da realidade portuguesa e dos valores nacionais e sociais
que nos desenham e explicam. Rocha de Sousa

perante o «desastre» da eleição de Trump nos EUA, linguagem corruptiva e de um excesso estranho, Barreto declarou que a habitual arrogância da esquerda produz em geral efeitos com aquele recorte.
esta frase, que me ocorreu tempo depois de a ler deve ser escrutinada sociológica e politicamente

OBSERVADOR: Afinal, Antóno Barreto é detentor de um percurso intelectual, o que remete certas declarações para um modelo de ambiguidade do pensamento  (ontológico).

            traduzido do inglês

sábado, outubro 29, 2016

AS PALAVRAS DO MINISTRO DAS FINANÇAS ALEMÃO

Não há palavras que possam comparar-se com aquelas que,mais uma vez o ministro das Finanças da Alemanha expeliu para as câmaras. Disse: «Dantes, Portugal fez um trabalho de excelente efeito, na gestão do país; agora vemo-nos confrontados com critérios de duvidoso resultado para 2016/17.
Como é que um governante desta notoriedade se atreve a dizer para as câmaras o que muito bem lhe  apetece, sem que os assuntos tenham sido abordados em comissão e partilha, equilibrando-se com os contextos e a história e a cultura do respectivo povo?

domingo, junho 26, 2016

A BREXIT MANIA ENTRE PERDA


Andava toda a gente a remoer as decisões  europeias e já a fina flor do Reino Unido lançava luz sobre uma certa promessa inicialmente feita pelo Primeiro Ministro: tratava-se do mais simples referendo atraavés do qual os nobres ingleses (todos) iriam dizer se queriam ou não  permanecer na União Europeia.
Houve forte ruído em torno disso, mas o Parlamento do Reino Unido lançava luz sobre a promessa inicialmente feita pelo Primeiro Ministro, David Cameron: o que parecia ao simples cidadão, e apesar dos apertos de Bruxelas, a questão não parecia assim tão simples, mais ou menos como a dentada na maçã. Há dentes que sangram após essa atitude natural.
Um só dia depois do referendo, documentado nas televisões como uma bela lição de civismo, incluindo esse facto patético de dois velhos terem morrido após o acto de votar. A grandeza desta tragédia. Pois sim: eles haviam ouvido os debates, gente rangendo da pior maneira contra outra gente, campanha absurda que certamente aterrorizou muita gente: os tais velhotes, pelo menos. É que, durante a votação e a contagem dos votos o imaginários dos velhos ainda vivos deve ter-se encantado com os cenários, os grandes espaços cobertos  de mesas lado a lado, rapazes e raparigas lado a lado,trabalhando os montes de papéis e outros, em fila indiana, passando as urnas brancas e pretas de mãos em mãos. Tais imagens abrandavam o nosso medo de estrangeiros e mostravam uma peça engendrada com requinte, como se no fim não houvesse senão um empate e um abraço entre todos.
Contra as bizarras sondagens ingleses (já se viu isso em eleições gerais), a contagem deu a vitória à saída da União Europeia, coisa que anda no ar desde as ofensas aos gregos em reuniões de trabalho.
Agora toda a gente, da esquerda à direita, anda por essa Europa fora a fazer ameaças de fazer também um referente: em Portugal, uma importante figura do Bloco de Esquerda gritou que faria um referendo se Bruxelas insistisse em manter sanções contra este país por décimas acima no déficit decretado.
Ora se este rapariga, enrouquecendo, fez esta ameaça de um cantinho partidário, bem se pode imaginar o que vão ser as negociações para consolidar a saída do Reino Unido, horas e horas de senhores cinzentos barafustando não tanto a saída mas a reconquista de um império já inexistente, ou seja, negócios
retomados noutra perspectiva, com mais liberdade e menos pressão burocrático. Talvez não passe de uma utopia mas os ingleses sabem tratar de si.
Pelo contrário, o que restará agora da Europa ou se revê num trato mais coeso e menos amarrado a regras cruzadas. Porque este espaço e 27 países não se pode tornar numa fortaleza medieval mas duríssima, flagelando a população no fundo das dos altos muros. Dentro, a polícia abre espaço aos carregadores de negócios, enquanto uma espécie de exército espreita as ruas contra os alucinados jihadistas que pululam, convertidos, por toda aparte e são bem capazes de se fazerem explodir no meio de uma praça, gritando Alá é Grande! Estão enganados com as oferendas (femininas) do céu para onde caminham os bocados das almas estilhaçadas. Todos eles já deviam ter aprendido a perceber que não há deuses bons e que oferecem afecto e mulheres meigas. Em todas as religiões a noção de pecado é maior ou menor mas mlenar, com ameaças de castigos sem nome. Todas são assim e o homem aprendeu a defender-se, não através do nem mas pela guerra e pelos genocídios.
A Europa desta ignóbil globalização que estragou meio mundo, devia refazer-se
com os seus parceiros, jogando pacificamente, sem choques, as bolas de um bilhar simbólico. As soberanias não são mitologias: são a história, a civilização e a cultura. Amarrá-las sobre o bilhar, sem liberdade e sem trocas amistosas, é apenas apressar o apocalipso.

sexta-feira, março 25, 2016

O MUNDO AGRILHOADO, MORRENDO EM FÚRIA


Não me lembro de ter assimilado uma ideia nobre, concertada, harmoniosa da multidão a que chamamos Humanidade, nunca a paz e a harmonia de que falam os artistas, os poetas, os ditadores da Antiguidade e da contemporaneidade. Havia sempre problemas à minha volta: anos difíceis da vida dos meus pais, gente a prender centenas de operários da indústria transformadora da cortiça, pessoas isoladas no campo, trabalhando de sol a sol, muitas vezes roubadas por ladrões ou simplesmente assassinadas por resistirem timidamente. Em Portugal vivia-se sob a tutela de Salazar, ditador guardado em São Bento, incapaz de pensar o futuro apesar do império feito de colónias mal tratadas, para onde ninguém imigrava a sério, como fizeram nos anos 60, portugueses deslumbrados com a aventura da casa, do dinheiro, de trabalhar para os senhores da Europa e do mundo, já esquecidos que haviam sabido atravessar os mares (quando era natural fazer isso e descobrir terras), quase no patamar da verdadeira grandeza, aquela que permite viver bem e partilhar razoavelmente as coisas. Nada disso, pequenos em quase tudo na sua terra inicial, os portugueses desataram a fugir em todas as direcções, para o mundo em volta, trabalhando como escravos ou chegando a patrões. Hoje são os licenciados que partem, depois de estudos arrancados a custo de escudos e pobres bolsas e remedeio: já acabara o Império mas subsistia a memória da história dessa gente afinal trabalhadora, que enchia bolsas de imigrantes de um lado ao outro do mundo, mesmo em plena época de novas guerras no Afeganistão, no Iraque, no Paquistão, na Argélia, no Irão, entre Islamitas, Muçulmanos, Iraquianos, Talibãs, Xiitas ou Sunitas, crentes de Alá e inimigos dos Cristãos, os das Cruzadas, senhores, durante séculos, de grandes áreas do mundo, partes do planeta com a Índia, norte, centro e sul de África, américas latinizadas, para não falar do Brasil explicado pelos portugueses e dos Estados Unidos da América, Estados e Estados a Norte, mistura de raças e interesses acerca de um tal El Dorado, submissão dos Índios.
De tudo isto, após séculos de Igreja católica apostólica romana, desaparecidas as não muito remotas civilizações da Grécia do Egipto, da Índia ou da China, desaparecidas como os Incas que falavam com o céu ou simplesmente transformadas pelo engenho tecnológico e demoníaco da genérica civilização ocidental, aquela que (mesmo em grande avanço) se envolveu com a Alemanha em duas guerras mundiais, sob o horror nazi e os campos de concentração e o holocausto, judeus presos e mortos ao que parece porque podiam competir com a «raça ariana», mito daquele cabo de guerra, Hitler, que teve de apagar corpo e alma com uma cápsula de cianeto.
Passaram várias décadas de aparente paz e desenvolvimento, a Alemanha e os tecnocratas da austeridade passaram a apertar uma já agrilhoada União Europeia. Por aqui todos tinham ajudado a criar um Estado mítico, Israel, senhor de si e dos outros, ensinando o mundo que, a partir de agora, com gente como o Daesh e os atentados de homens-bomba, uma academia do horror que nos obrigará a aprender a "viver com medo2. Diz ajuizadamente Clara Ferreira Alves na sua crónica de hoje: «Nos campos de refugiados, na degradação e na humilhação, novos radicalismos se formarão com outros nomes. A integração desta população de apátridas que só tem o Islão como pertença impossível.»



Temos aqui, de facto, um problema radical. Terrorismo Islâmico, que não brotou de nenhuma doença divina, começo nma rede de roubos, emboscadas, mistificações. Allah desceu furiosamente à Terra com a maior vontade de aplicar regras brutais, irracionais, aos homens que o amassem e que matassem em nome Dele, acedendo a um céu Total, com ofertas femininas virginais, símbolo aberto do que a mente obscura deles tornara, na terra, vítimas assimétricas das burcas, dos xailes, dos escondimentos, e de penas por pecados fundamentais. Sujeitas, em grandes áreas, ao corte do clitóris, podem vir a ser punidas, por adultério, com a morte à pedrada, na Praça Pública. Os guerreiros Jihadistas tratam os vencidos com a degolação, numa ritualidade difícil de encontrar nas épocas mais remotas. E o ESTADO Judaico ISRAEL, encravado numa zona que a Inglaterra e a França escolheram, imposta aos  palestiniamos, sabe esperar por tudo isto com as suas próprias guerras e o seu medo. Rompe compromissos, implanta Gaza, constrói muros, declara que nunca consentirá na instauração de um próximo Estado Palestiniano, embora esta gente seja dali e tenha o direito a trabalhar e a morrer ali, entre pedras, poeira e plantas secas.
A Turquia, candidata à Europa mas ainda não julgada apropriada pelos altíssimos deificados tecnocratas dos gabinetes neo-europeus, é contudo um país tampão (no caso dos refugiados vindos da Síria e outras terras lavradas a sangue). E então, a austera e mitigante Europa, sem pudor, cortejou a Turquia, pela sua especial posição geográfica para se encarregar de travar mais vagas de emigrição, deportando os despojados de injustificada ânsia. A Turquia aceitou receber para tais ensaios de novos holocaustos, empresa sórdida, a quantia de três mil milhões de euros, cuja vida e fortunas ninguém sabe onde irá parar.
Diz Clara Ferreira Alves. «Entretanto, a Grécia e a Itália sucumbem ao peso que a Europa atiçou ou malbaratou, as do Afeganistão e Iraque, da Líbia e Síria.» Obama, apesar da sua entrevista à revista ATLANTIC, lamentando o comportamento dos parceiros Cameron e Sarkozy, foi liminarmente ludibriado. E a Nato? E a ONU? Aqui, Clara escreve sumariamente: «O que é, hoje, o Oriente?» (...) «A que Médio Oriente do século XX ainda se dá existência? Esse Médio Oriente terminou ou foi terminado. Israel não é Israel. É hoje um Estado acossado e dominado politicamente por conservadores e zelotas, com um primeiro ministro que tem a certeza de que a Palestina nunca existirá.»
O Daesh talvez seja invencível. Vamos esperar, no medo, que a sua própria o eliminará. Haverá então outros refugiados, gente degradada, a humilhação formará novos imigrados e os Messias voltarão para mistificar o futuro e um deus novo, todo poderoso.
Rocha de Sousa

terça-feira, fevereiro 09, 2016

TUDO VAI MUDAR ANTES DA MORTE DO PLANETA


As grandes cidades, após milénios de fausto e negócios de batota, criando vícios de toda a espécie, escravatura, sequestro, violação de crianças e brutais roubos por todo o planeta, o dinheiro escondido por aqui e por ali, empresas mamutianas emigrando de latitude em latitude, besuntando de restos tudo o que sobrava das falências e dos retornos, tudo isso define agora uma coisa que se chamava planeta Terra e onde milhares de espécies viveram e vivem, comendo-se entre si. Os países estão em guerra, o Médio Oriente arde todos os dias e o Daesh corta cabeças, promove atentados pelo chamado mundo civilizado, quer invadr sobretudo a Europa, depois o mundo, enterrando cabeças degoladas e atirando os corpos para o meio do asfalto ou para o fogo dos desertos. Nada disto tem sentido, sob o comando das altas tecnologias, aviação sofisticada, vasos de guerra, Assad sempre empoleirado na sua fortaleza, Putin afagando-o, Czar moderno que faz luta-livre e passa por altas portas douradas, além da datcha que não mostra e dos barcos  em que passeia. Bush não foi preso pela guerra que mentirosamente justificou com estranhas bombas atómicas que nunca ninguem viu. Hussein foi enforcado. O Iraque ficou orfão, com lutas inenarráveis entre xiitas e sunitas, além das outras etnias que colam aos jihadistas. Um dia chegarão todos a toda a Europa, que já começaram a invadir, preferindo a poderosa Alemanha, e lutanto numa praça de Colónia, aproveitando raparigas para esbofetear e violar. A grandeza da Alemanha estremece, é preciso repovoar o mundo com mais senso. Mas antes, com esta gente a atravessar o Mediterrâneo, é preciso  obter direitos germânicos, ter bom tratamento, casa, segurança social. Porquê? Nada disto vale a pena porque faltam cem anos para um meio afogamento do mundo inteiro. Xiitas e Sunitas terão de combater debaixo de água, mesmo com guelras de abrótea.


Eu nunca pensei fugir de Portugal, emigrar, ser rico na Suiça. Estive numa guerra que houve em Angola, era a guerra de libertação em nome da independência. Desisti, estou velho, as velhas casas caiem aos bocados produzindo belas «instalações». Os cargueiros dão à costa, mortos suspensos das amuradas. E a marinha de guerra varre o Mediterrâneo em paz, salvando meninos, meninas e velhos. As mulheres que se desenrrasquem com as suas burcas e as bóias ao pescoço. Mas a Alemanha, que gostaria de ter tomado enfim toda a Europa, tem de a partilhar com 11 milhões de foragidos e meia dúzia de califados.

                                      

Portugal,o mais antigo reino da Europa, fechou as praias e recebeu os cadáveres de ferro, além de corpos humanos sem fim. Mudou de Governo e a Comissão de Bruxelas não gostou. Todos os bichos das bolsas e dos mercados rangeram os dentes. Costa, o primeiro ministro português, cortou parte do seu orçamento e ofereceu molduras douradas ao Bloco de Esquerda. O PC perdeu votos, entrou para o apoio ao governo (a fingir, mais ou menos) e fala do alto de uma torre (Jerónimo) contra os capitalistas, os blocos de riqueza, as novas teorias da austeridade. Costa quer resgatar cortes. Viu-se logo batido por todos os lados, ainda por cima rodeado de bancos roubados ou em perda.
            A Europa, que em breve vai ser abocanhada pelos Árabes e Estado Islâmico, insiste nas regras. Nada de consumos, de compras, de déficits. Agora é como dizia Lutero, retirando os bonecos religiosos das paredes das capelas. Reuniões duram meses, semanas, o Costa vai ter que raspar as gorduras com as quais pretendia rejuvenescer Portugal, dando-lhe banhos de mar ao sol do Verão. Mal sabe ele que as praias vao desaparecer e que os donos do Norte da Europa, invadidos pelos gelos derretidos, terão de emigrar para o sul, lado a lado com pigs, ali por Marselha ou, se calhar, pendurados dos multibancos da Grécia. E todos os sistemas do Centro, Esquerda e direita, vão desaparecer no regime enviezado (com z), que tem a vantagem de riscar o espaço na oblíqua e misturar ricos e pobres, na grande partilha das belas casas com as favelas importadas do Brasil. 
          A Inglaterra, poderosa, terá à vista os telhados dos casinhotos revivalistas e os lords vão procurar asilo na Escócia, subida com uma hidráulica famosa, toda feita na clandestinidade. Portugal apresenta rachas junto a Espanha. Há quem diga que o enorme espírito de Saramago, saneador por excelência e Nobel  por mérito de carpintaria está de picareta astral em punho dando corpo à Jangada de Pedra. Os Açores insistem que devem colar-se ao Algarve, em Pleno Atlântico e que o Panteão pode passar para Madeira, bem fixa ao fundo e capaz de ser regida por 30 ou 40 anos de cada vez.
               A jangada tem uma vantagem: turismo livre e liberdade frente à congeladora Europa, seus tratados absurdos e seus orçamentos de pedra. Ninguém aí sobreviverá sem abelhas nem galinhas. Peixes fogem, o trigo será por cotas miseráveis. Muitos russos emigrarão para a antiga República Alemã Oriental. Entretanto acabará o futebol, os jogadores utilizados para fabricar pão (em contas) e os iates serão vendidos, dois a dois à Suiça, últimos ricos, ficando o resto a pagar taxas para a Segurança Social. Nas Igrejas serão produzidas mantas para suprir a hipotermia que se torna endémica cada vez mais. Todos os ditadores de África vão ser presos e fuzilados em jeito dominó. Todas as cidades com mais de vinte andares de cimento armado, serão reduzidas a dez andares (até r/c, além de replicadas em zonas mais ou menos equidistantes por esses campos fora. Nunca mais poderá haver um velho habitante solitário de uma solitária aldeia.
Sousa Carneiro lendo Rocha de Sousa

segunda-feira, janeiro 04, 2016

UM PAÍS APRISIONADO NAS GRADES DO MUNDO



                                                                 
Velho e quase enterrado no excesso de uma civilização entretanto contaminada por todas as pestes antigas e modernas, esqueço-me do que disse e desejaria ainda dizer. A chamada crise baralhou tudo até ao abismo. E já estávamos inseridos na Europa a que tinhamos aderido com esperança. Mas a Europa não é, entretanto, um espaço de solidariedade, de novas e respeitadas fecundações. Quase inerte perante os luxos das suas instalações na Bélgica, cavaqueando propostas por vezes cintilantes mas que os grandes grupos parlamentares chumbam liminarmente, a «União Europeia» parece esquecida dos seus tratados, todos eles cada vez mais carecidos de remoção ou aperfeiçoamento, a fim de que não se tornem fomento de totalitarismos e outras pestes. Porque muitas coisas mudaram, a idade dos  paises  difere muito entre si, e a Alemanha (apesar das suas  fecundações e peso económico) quase dirige, convoca e adia, apressa e repete  fórmulas, cada grupo de trabalho  está  por ela atempadamente tocado seja para o que for. Ignorando-se a perigosa grandeza das tecnologias mais avançadas, sobretudo as da comunicação, e a inchada globalização que nivela tudo, absorve tudo, movimenta excessivamente empresas, energias, fronteiras em perda. E isto perante a convulsão de todos os roubos e conflitos em curso, o que deveria implicar outra vigilância e um atendimento inicial aos refugiados. Nada daquilo a que se assistiu durante estes últimos tempos, vendo morrer milhares de pessoas no Mediterrâneo, deixando que os especuladores lhes comessem todas as quantias possíveis e empurrando-os, com barcos super-lotados, para as águas frias. E eles, os que se salvaram em maioria, começaram a tomar como gare de partida para a Alemanha os países a que chegavam, Itália e Grécia. Isto não podia ter acontecido assim. Tinha que haver acordo com os países de partida para identificar, coordenar e embarcar de forma segura aqueles que tivessem fortes razões para fazer a passagem. Ou eles ou a Alemanha  julgavam que tudo podia caber ali, com  uns  grupelhos por aqui e por ali, no bem melhor que houvesse. Agora tudo está ensarilhado, é preciso técnicos de recepção, novos lugares, melhores distribuições, previsíveis retornos a países recuperados, como a Síria que já devia estar ocupada por forças da ONU, vindas de todo o mundo, Assad reformado, a reconstrução em curso, enquanto houvesse meios de tratar do Daesh, que tem a força que tem porque as etnias e religiões politizadas nunca tiveram mais do que uns turistas já em fuga.


terça-feira, novembro 17, 2015

MITOLOGIAS DA POLÍTICA E GOVERNOS ADIADOS





Presidente Cavaco Silva

Em Portugal, entretanto inundado por programas de televisão em regime de continuidade sobre os atentados acontecidos em Paris pela mão Daesh, as eleições legislativas já ocorreram há um mês, tendo o governo minoritário de Passos Coelho sofrido o efeito derrubante de uma moção de censura. O partido socialista, que, a seu tempo, aceitou complexas operações para apear António José Seguro (secretário geral do Partido) a fim de realizar uma linha eleitoral em que concorria àquele lugar António Costa (na altura presidente  da Câmara Municipal de Lisboa). Após um tempo infinito, entre debates e movimentos vários, António Costa ganhou largamente o lugar, arrebatando-o a Seguro. Não parece bonito, mas naquele tempo muita gente achava pouco substancial a argumentação política e de projecto da parte de José Seguro.
Só perto das eleições legislativas António Costa se pôs a caminho, registando-se nas sondagens iniciais que lhe eram muito favoráveis, na zona da maioria absoluta.
O governo da Coligação continuava  afagando um vago sucesso depois de troika e abordava a necessidade de reformas estruturais, sobretudo no aparelho central do Estado, agilizando sectores e formas de abertura a novas relações com as feridas do país. Não houve, contudo, senão um papel redigido por Paulo Portas, umas folhas que tivemos oportunidade de ler e que não tinha qualquer dote sequencial e orgânico no sentido de uma verdadeira reforma do Estado. Dir-se-ia que o autor se esquecera do assunto e apressadamente enunciara umas duas dezenas de linhas indicadoras. Ninguém se dispunha a considerar isso um projecto e reforma, nem os cortes nas contas públicas como uma via certa e de conexões funcionais para a tão almejada reforma. Só se verificaram, um pouco mais para o fim da legislatura, certas medidas pontuais, qualquer coisa como «esta medida de Janeiro passa a ser tomada em Março», «aquele nível de subsídio passa do nível x para um aumento y de 0,9%»
Este governo caíu e os seus líderes (com aliados) mostraram grande azedume. O partido Socialista, quer baixara a sua fasquia ao ponto de perder votos perante os da Coligação, tratou do caso em sucessivos golpes negociais com o Bloco de Esquerda e o Partido comunista, além do Partido Os Verdes, procurando obter uma maioria na Assembleia  da República, algo mitigada entre programas alheios e o seu próprio programa. Foi um trabalho invulgar, talvez uma experiência de todos em novas partilhas, mas os membros desses partidos não entraram ara membros do futuro governo do Partido Socialista. Um golpe de prudência perante navegações de risco e uma forma de tratarem à rectaguarda os apoios à gestão do governo (de novo negociada, em casos que fossem além dos já estabelecidos).
Alguns disseram que era golpe, outros que estava dentro das regras constitucionais, o país dividia-se ao meio. Seja como for, no primeiro embate na Assembleia, ainda era fácil prever que frutos se obtenham. E o resto ficaria a dever-se ao Presidente da República. O Presidente torcera o nariz e »desertou» até à Madeira, onde ainda se encontra à hora em que escreve. E, curiosamente, o Costa, ontem à noite na televisão, explicou o sentido da sua reforma com exemplar limpidez, tranquilo, exemplificando a mecânica dos arranjos. E hoje as pessoas andavam agitadas: porque o residente falara, de longe, num governo de gestão que comandara durante 5 meses. Cinco meses nesta hora, com a Europa que temos e as crispações que vão pelo mundo, é coisa não menos que bizarra.
Imagino que o Presidente chega hoje. Amanhã vai ouvir mais gente, bancos, sindicatos, pescadores, gestores qualificados. Por aí. Depois as forças Armadas, penso, porque Holande está em guerra com os jihadistas e não sabemos se o Partido Comunista ou a Catarina já se converteram ao islamismo radical. Será que no terceiro ou quarto dia, ainda o Presidente ouvirá o Conselho de Estado? E se eles estão infiltrados



quinta-feira, outubro 22, 2015

MAIORIAS ESTÁVEIS NO LIMITE DA COSTA FALÉSIA


Acabou um ciclo, dizem; temos de voltar e escolher as novas luminárias do novo ciclo. Em boa verdade, o país, Portugla do nosso esquecimento, está em vias de ficar mais deserto no interior, afundando o Algarve em mais betão, mais passeantes vindos de toda a Europa, Américas, Médio Oriente, Índia, China, Eritreia.

Neste mesmo Outubro de 2015, os portugueses foram chamados às urnas (não estou a falar dessas nem a chorar o 1º de Novembro). Acabou o tempo do governo de Passos Coelho e foram escaladas as eleições nacionais: gastando um tempo imenso e mal temperado de estudos, mensagens políticas, sessões de debate sereno, voltou tudo ao mesmo: o governo  de Passos, A COLIGAÇÃO, que é uma forma um pouco secreta de diluir os dois partidos implicados, não engraçou muito com demasiada exposição, descansou, planeou e tratou de algumas armadilhas, ficou a ver os austerizados passando e só se atirou ao lobo nos escassos e mal organizados debates desta fase. Deu tudo mal para aqueles que se julgavam na frente da maratona, sobretudo o partido Socialista. Com tanta fome de verdadeiro poder, os socialistas andaram em sondagens de ouro, a par do  silêncio bondoso dos coligacionistas. Chegou, enfim, a hora das arruadas das quais Passos se defendeu bem, conciliando o seu discurso de «palavras sobrepostas» com os lamentos dos pobres e algumas palavras soezes.


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E tudo acabou (para começar dias depois) com umas estranhas abadas de votos. Aqueles que já não vão em simbolismos radicais, indo votar branco, ficaram em casa e cacarejaram durante a noite do grande espectáculo, coisa que nem a Teresa Guilherme saberia gerir (o que não quer dizer que seja boa a sua gestão) nem a Cristina Ferreira gritaria melhor (o que não significa que essa apresentadora grite bem).



Os senhores da coligação, que passavam por ser os vencedores com maioria absoluta, perderam 700.000 votos (foi um modesto corte em nome da Troika) e tiveram de pousar na terra da maioria relativa. Os senhores socialistas, comandados pelo António Costa (que viera substituir democraticamente o jovem Seguro) não passaram dos 32% e perderam perante os coligados, que ficaram senhores de um osso relativizado mas razoável.
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Vieram os do Bloco de Esquerda, com as suas duas meninas Catarina e Mortágua, e fizeram-se ao bife: mais que duplicaram o seu eleitorado e como que piscaram o olho ao Costa, um caso (pensou ele) verdadeiramente histórico nestas quentes esquerdas. O BE arrecadou 19,9/% de votos. E o hirto Partido Comunista-PEV (uma outra coligaçãozita) incendiaram a memória de Jerónimo (chorando por Álvaro Cunhal) com a módica meia-tinta de 8,25 % de votação.
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Pensava eu, e outros como eu, que este resultado ainda segurava, por algum tempo, A COLIGAÇÃO PSD/CDS. Porque o partido mais votado apresentaria o seu líder ao presidente da República para que este o indigitasse à formação de governo. Situação frágil mas conhecida. O Passos foi à vida sem ser indigitado mas com o recado de estudar a formação do governo. E pensou: o meu segundo cenário vai para o Costa, embora também esteja fraco.
Fraco? Já andava a namorar o Bloco de Esquerda, para formar uma nova maioria à esquerdina, coisa que não houvera nestes cenários pós-25 de Abril. Namoraram duas vezes e foram visitar pela primeira vez a casa do Passos. Passos estava com a alma deslavada e atirou-lhes com vinte papelinhos integrando pontos para juntar aos do Costa. Ora o Costa estava mais interessado noutra vitalidade. E lá foi para enviar o roteiro geminável à coligação. Não deu em nada e o Passos cuspiu para a televisão que esta atitude não os levaria a nada e nem iria volta a reuniões com o PS. Recebeu o plano e escandalizou-se: «Isto é o programa de governo do PS, feito pelo Centeno». Acabou-se. E já o Costa vinha à televisão explicar a dinâmica mais mobilizadora do Bloco de Esquerda. Explicou os pontos acordados, contando também com a discreta presença do PC.
O locutor questionou: «Mas como é que o senhor resolve a posição desses partidos que não querem o euro, nem a Europa, nem a Nato, nem o Tratado Orçamental». Costa sorriu: «Tudo resolvido. Eles garantiram que nada reivindicam a esse respeito, guardam na gaveta, podemos confiar. Nem é o programa deles que funciona, é o nosso em justos acertos».
O entrevistador abriu muito os olhos e mandou o Costa para outra entrevista.
Cavaco sabe o que fazer porque (diz) montou quatro cenários. Um deles vai resultar. E ele pensa nos estranhos presidentes que o vêm substituir na contenda para a escolha (provável) de um idoso catedrático de direito, há mais de uma década comentador político de televisão.
Pedi ao Goucha para supervisionar este texto. Disse-me, afunilando os dedos, falta um pouco mais de sal, senhor professor... Pensei que esta salada intriguista, sonsa, em que nada inspira confiança, talvez empurre mais emigrantes para as calendas, aumentando os abstencionistas para uma ordem de 100% e grandes bolsas geridas pela Santíssima Trindade de três troikas.


segunda-feira, outubro 12, 2015

COSTA PINHEIRO, FALECIDO ENTRE O EXÍLIO E A IMIGRAÇÃO



Eu gostava dele, mesmo sem ter a certeza de o conhecer e tendo trocado um monte de palavras com os seus óculos a brilhar. Depois disse-me que as pinturas chamadas de Reis eram a lembrança da nossa História e apareciam-lhe das cartas e dos livros e dos sonhos de criança. «Não, não sou nem um imigrado nem um artista votado ao exílio. Os que emigram procuram empregos, cidades e escritórios. Eu não tenho nada disso.» 
Andávamos por ali, ás voltas, na exposição do KWY, como no livro de Herbert o Hélder, aquele que se chama OS PASSOS EM VOLTA e é uma obra prima da literatura portuguesa.

Costa Pinheiro morreu em Munique, com 83 anos. Aqui mesmo dois quadros dele dedicados a Fernando Pessoa, génio incontestável. Lembro-me do que ele disse nessa linha de desocultações: «A imaginação domina o corpo. E o corpo vive equilibrado com as emoções e os sentimentos naturais.» Fernando Pessoa podia ter dito algo assim, no seu «Livro do Desassossego».



A frase-lema de Costa Pinheiro: A imaginação é a nossa liberdade.

terça-feira, outubro 06, 2015

A MULHER QUE NOS OLHA DE FRENTE E VÊ: futebol, miudezas da fé, televisão de novelas e publicidade, política atrapalhada, a morte em casa e o império perdido

*Há vários anos que me sinto enganado no curso anunciado da nossa verdadeira história, porque nos tolhem os passos, dos anteriores até aos posteriores, e tão lento me fazem ser que só me restam imagens abaixo desta, deusa do Loge.*
Vou ao sabor do que me ocorre. 
Começo pelo passado dia 4 de Outubro, domingo, 2015: foi dia de eleições legislativas,Portugal, depois de sondagens favoráveis à coligação PSD/CDS, que governou o país sob um horrível clima de compressão, entre cortes impiedosos nos vencimentos e nas pensões, altos níveis, vagas de emigração, altas percentagens de desemprego, vagas de emigração, mitos da utopia europeia sob o rigor assimétrico da Alemanha, miséria, suicídios, greves, sobras de riqueza entre aqueles que nunca se mostram como podem ganhar 100.000 euros por mês no mesmo país onde o ordenado mínimo pouco passa dos 500 euros.
Não vou contar a miséria da queda do Império, do tempo da ditadura, dos "retornados" de África, feridos ainda hoje sem o devido ressarcimento, populações a quem tudo foi roubado, empurradas para a Metrópole através de uma ponte aérea e à mercê de hotéis, pensões, albergues, casas de família. Dizem-me ao ouvido que Portugal conseguiu um feito notável ao resgatar cerca 

                                      

750.000 cidadãos, integrando-os em  pouco tempo. Quem  me  sopra  assim  ao  ouvido é um velho amigo daquele almirante careca que desarmou toda a gente, baralhou  as  forças  armadas  já desautorizadas, trabalhou a favor de um Movi- mento que tinha a benção de Leste  mas  deveria,  em vez de arrebatar de forma totalitária  o poder, teria  sido  melhor que o  partilhasse com os outros. Falo de Angola,  onde  os  próprios  cubanos  abancaram  para  ajudar o  governo  pouco sabido  em  guerra  guerrilheira  e tinha já  os  sul-africanos  subindo  pelo terri-tório. Os cubanos   combateram,  empurraram a malta do sul e ficaram também à espera de retornar a Cuba, tratando de se pagar  com  carros, carrões  e  carri- nhos, ou fábricas quase inteiras. Vieram sem custos. Depois daquele tempo,  al- guma  oferenda  haviam  de  receber "Retornaram"  a  Portugal,   estiveram   em hotéis  pensões,  tiveram   subsídios  e receberam a boa televisão metropolitana e a política  gritada, com  arruadas, sem faltar a direita e a esquerda.

Mas não é bem disto que me apetecia escrever algumas notas:
Das eleições ocorridas no domingo, a coligação que estava no governo voltou a ganhar a maioria (por absurdo que pareça). O PS, que andou sempre mozambúzio, enleado num secretário geral muito jovem e sem verdadeiras ideias de projecto, José Seguro, acabou por se fracturar numa complexa luta por aquele lugar, António Costa contra Seguro. Perdeu Seguro mas as tendências internas do partido misturaram caldeiradas requentadas e foram para as eleições com um bom método de Costa mas ainda sem capacidade interventiva e científica. A coligação não tinha senão as ideias da espinha do peixe, o programa era esse, chupar a espinha, em perfeita estabilidade, até porque havia dinheiro emprestado pelos mercados (mais dívida) e um cus-cus de vapor económico, embora houvesse acabado a troika. Enquanto a Europa se fechava na fascinação da ordem, da regra, do poder da Alemanha, na mania dos gregos em terem ainda o seu Olimpo, o direito a escolhas, coisas menores que lhe valeram uma enorme malhada humilhante na reunião com uma espécie de mutantes da grandeza e da escassez azeda.
Ontem à noite, os canais de televisão, embora sem prescindir do futebol e dos respectivos marretas, debateram os resultados e voltaram aos dados constitucionais, chegando a propor que se escolhesse a maioria pelo aumento de votos à esquerda (mas não de deputados), ao contrário da geografia matemática que mandavam as regras e o bom senso. O PS não é da mesma esquerda que o Bloco de Esquerda e amanhã talvez apresente um papel de serviço. Senhores do Olimpo, que futuro há para nós nesta tormenta de gente insana ou neste pánico quase suicida?



                                              Mortágua em nome do BE+PS

 As diferenças são tão notórias que é impensável advogar aquela linha para essa duas áreas. Nem com o resto. E a balbúrdia instalou-se, amainou hoje, mas os resultados vão encalhar em várias assembleias de guerrilha, porventura com mais eleições a meio da legislatura. Se então reaparecer a troika, sairão do país mais 500.000 jovens sequiosos por mais dinheiro, menos campo e mais mitologia urbana , tropeçando em euros.
Devem ter todos cuidado com os refugiados, não porque eles sejam feras, mas porque são nações, por vezes pequenas nações, adoçadas o melhor possível à nossa cultura e antiga história. A Alemanha tem a RDA vazia, onde pode criar um novo mundo de mesclas, mas vai regando a terra seca da perdida solidariedade europeia e finge desconhecer que as cheias e as intempéries têm agora uma escala avassaladora, anunciando que os continentes de grandes dimensões têm afinal potencialidades para revitalizações enormes e nunca um destino de infinitos  esvaziamentos..





Portugal não é a formiga pig que anunciam os lordes do norte, e outros mais ou menos. Portugal é um país que desbravou muito mar e abriu terras ao futuro, deixando por lá marcas e gente de assinalável sentido da aventura, da busca e das trocas comerciais. Da lonjura da Ásia às pontas do Brasil, da África ocidental e oriental até à Índia, o nosso sangue e o nosso engenho ainda sobram enquanto memória e nações. O oceano rodeia toda a nossa fronteira virada a oeste e dispomos de uma área marítima (que muitos nos querem retalhar) capaz de ainda ter petróleo e que alberga, de certeza, vastos campos de investigação geológica, biológica, entre o que se desconhece nas grandes profundidades; pode assim ajudar-se a salvar quem é, incluindo a deter a degradação do planeta como o homem tem vindo gananciosamente a fazer, queimando o ar e alguns apenas pensam o país como a verdadeira"jangada de pedra" que Saramago inventou, impossivelmente eterna e imperdível.
A humanidade tem ensandecido cada vez mais, deixando-se arrastar pela invenção tecnológica e, com ela, empolar os efeitos colaterais, maléficos, da globalização.

Mas falando de coisas caseiras e quase inenarráveis:
1. Um canal português de televisão produziu, entre muitas outras, uma novela intitulada MULHERES. Era um trabalho bem feito, um pouco amassado nas repetições formais e de mobilidade. Tratava o problema da vida de vários casais e pessoas, no âmbito profissional do imobiliário, duas empresas, uma de mulheres a libertar-se do baixo jogo comercial. Curiosamente, entre os primeiros episódios, as actrizes faziam um depoimento sobre o sentido da sua entrega e qual o seu projecto de vida. Isso foi depressa abandonado. Os casos eram interessantes e rodados com simplicidade, a despeito dos problemas humanos e sociais que emergiam em certa progressividade.



Ora esta curiosa novela passou para o fundo da noite e depois, embora fosse quadricularmente bem organizada, a televisão produtora resolveu desligar tudo para a ponta da semana: ou ao sábado ou ao domingo, recordando planos anteriores obsessivamente antes do tardio genérico, aliás com publicidade no declínio mal «avisado» do retalho breve da semana. Estes abusos (do seu próprio trabalho e dos actores) são cada vez mais frequentes na televisão portuguesa, para a qual parece que ninguém aponta a necessidade de lhe restituir verdadeiros planos deontológicos e a devida legislação formal ou punitiva.
Faz rir, no entanto, saber-se hoje que a Instituição que trata da atribuição dos prémios Emy nomeou as nossas pobres MULHERES para a hipótese de receberem um daqueles galardões.

2. Este caso fez-me estudar problemas paralelos: e são brutalidades contra o bem estar e a boa comunicação de entretenimento (já que não passam disso).
Um outro canal da nossa prolixa televisão, começou por somar telenovelas em horas depois dos noticiários  da noite. Por último, a par de outras novelas de outros canais, tudo por cima de tudo -- e tudo encravado ao "segundo" por cortes gerais de publicidade -- o canal a que nos referimos já acumula cinco capítulos até cerca da uma hora da manhã, uns cortados ao meio, outros colados aos seguintes, chegando mesmo a apresentar no fim a notável novela IMPÉRIO, cortada num pequeno revisionamento e em mais duas metadinhas atravessadas pela famosa publicidade que concorre, assim proposta, para delitos domésticos de faca e alguidar. Dada a impressão em que os próprios intervenientes se embrulham na sequência programática cada vez mais, até  a actual REGRA DO JOGO (brasileira), sendo um objecto assinalável, acaba estropiada na malandragem em grande gritaria e com tanta gente em campo (por vezes) que apetece encurtar  com um  breve perfume Done contra seu próprio modo de ser.



Noutros campos, o futebol é um dos maiores factores de doença colectiva que alastra pelas televisões. E não me refiro apenas aos jogos, esses mesmos cada vez mais rebenta pedras e menos bamboleia, tudo brutal e custando milhões.  A indústria de homens para a bola chega a ser chocante nas assimetrias e no horror das maningâncias de dinheiro, honorários e muitas outras despesas.
Algo de semelhante, mais sofisticado, pago de fora, acontece com as indústrias da comunicação audo-visual ou só de som (se fosse possível refrear a montagem de «utilidades» no mesmo objecto de consumo). As redes sociais corrompem a natureza humana (quanto mais se sabe mais se insiste) e os processos comunicacionais queimam consciências, limitam os tempos de lazer ou trabalho. Cada rapariguinha, cada rapaz, além dos homúnculos a deslizar ecrãs e senhoras castigando teclas com a ponta dos dedos, têm várias máquinas como ardósias a seu lado, no banco do jardim. Enquanto dedilham uma, as outras esperam. Serão os amanhãs que cantam?

Só sobre o nosso dia a dia, na cidade, sobram casas, taxas, impostos, erros de construção e fios acumulados sobre as portas por causa das zonas e dos meos, sabe-se lá que mais entre tubos da água com cem anos, que se rompem, e esgotos incapazes de susterem as cheias vasculares, inundando de fezes e água barrenta as belezas da Avenida da Liberdade, do Marquês de cima abaixo, não é?



Lisboa nunca será assim, felizmente

terça-feira, setembro 08, 2015

O NOVO TEMPO DAS TRÁGICAS MIGRAÇÕES


  Deus ou o Horror?

Há dias, ao ver cenas indescritíveis das marchas desamparadas de ondas de imigrantes, após a retenção sem nome das pessoas na Hungria, lembrei-me de ter escrito: "Ninguém sabe se Deus existe e de que morte padece o Homem, crente do nada". A percepção das vagas humanas que se metiam em barcos de borracha e tentavam atravessar o Mediterrâneo, morrendo metade pelo caminho, concentrava-se depois nas chegadas às costas da Itália -- um monte de mulheres, crianças e homens, tropeçando nos próprios passos, a morte na alma. A grande Europa, que ainda há bem pouco tempo juntava eminências da finança e da política para julgar os «pigs» gregos, zurzindo os ministros daquele país da forma menos cortez que já se viu em situações assim, por razões colossais, capazes de assombrarem os santos, pareceu não ter-se dado conta do que estava a acontecer nas suas barbas e nem um fio de força humanitária sobrou das suas assembleias e grupos encarcerados de trabalho ou decisão. Nada parecia estar a acontecer, nem no auto-proclamado Estado Islâmico, nem nas terras queimadas da Síria, com uma guerra que produz milhares de mortos e deveria ser parada em nome da decência civilizacional. Campos de refugiados da Síria já existem há anos em varios sítios, a Jordânia que o diga, e o símbolo trágico de Yarmouk devia tirar sono a alguns senhores políticos do norte da União, padecida de si mesma, esses que desconhecem as horas e trabalho a sul e a história que alguns povos dessa zona gravaram na memória do mundo.
De súbito, por mar e por terra, mais dezenas de milhares de imigrantes surgiram de todos os lados, visando estabelecer-se no norte da Europa, nomeadamente na Alemanha. Alemanha, essa, que pediu então a solidariedade dos outros  povos  europeus,  gregos  também  --  pode imaginar-se  --  e engalanou  gente para receber os refugiados da guerra Síria, sobretudo, enquanto alguns protagonistas da fuga, bem avisados, chamavam a atenção de outros companheiros para o facto de, nas diferentes multidões, terem eventualmente viajado jihadistas activos, infiltrados  que poderão, nos países de chegada, garantir uma ideia menos pacífica do futuro, a desencadear no paraíso do euro.

Esta imagem do menino morto na praia, à qual uma revista associou o holograma de uma menina que saúda o espaço e o amor, num gesto incisivo, do coração, é hoje um dos mais trágicos símbolos das viagens em fuga, contra a guerra, a chacina e todos os totalitarismos emergentes ou sedimentados desde há muito.



Muitos povos, ao longo dos séculos, produziram diásporas imensas. Portugal é um país com mais de oito séculos de existência e sempre emigrou para longínquas partes do mundo, onde fez valer o seu direito ao trabalho e ao respeito pela sua condição. A História das Navegações Portuguesas marca o próprio desenvolvimento dos conhecimentos sobre a Terra, Continentes e Culturas. Nada disso poderá ser apagado, continuando a ensinar, mesmo na actualidade, muitas linhas de saber sobre migrações, sustentabilidade dos territórios, emigração, imigração integrada. Mas o que está a acontecer com as actuais migrações, sobretudo da Síria e das zonas onde o Estado Islâmico faz a guerra em completa barbaridade, não é um ideal de descoberta e de esperança. É particularmente um vasto impulso de fuga, sobretudo em direcção à Alemanha, na presunção de que o trabalho para todos, incluindo os direitos humanos, estarão todos ali, assegurados e sem racismo. O país vai acolher 800.000 refugiados. A catástrofe alarga-se em vários sentidos, pensa-se que até ao insuportável, e é certo que nas zonas de guerra há ainda, pelo menos, cerca de 11 milhões de pessoas esperando uma oportunidade de sair em direcção ao norte.


Não há razões, nem humanitárias, nem culturais ou religiosas, para que toda a gente acossada por alienados do poder, genocidas profissionais, tenha que rumar em direcção à Europa, apesar do déficit demográfico desta. A Europa, aliás, está a reaprender a solidariedade, porque a União com que sonhava está praticamente congelada em regras e orgãos especiais. Um melhor ajustamento dessa forma de gerir um espaço tão completo não pode depender das pressões económico-financeiras nem de ideologias mitificantes da História. Os refugiados, diferentes entre si, filhos de nações igualmente de perfis próprios, não podem ser apartados (à força do terror) do senso que desenha todo um tempo e toda uma história. A  África não se move apenas como esta parte em dura viagem. Depois disso, e pela grande realidade que sempre representou antes e depois da colonização, esse continente não tem necessariamente que se esvaziar. Além de que os países totalitários e sanguinários dessa zona devem ser levados a compreender as suas máculas, a relação entre as diversas etnias. Porque, no quadro actual, os que hoje fogem da morte, muitos dizem não compreender a razão daquilo lhes acontece, já com saudade da sua casa e das suas realidades. Um dia, muitas dessas pessoas poderão evocar o direito de regressar a tais paisagens, tendo os deveres assumidos e numa comunidade capaz de relacionar trabalho e liberdade. Os deslocados que entretanto choram os seus lugares de nascimento e de vida devem, amanhã, poder decidir de forma digna e segura a escolha aberta à vida que conceberem, sem medo, sem perdas. Infelizmente, já houve nos últimos dias sinais de desencanto, vozes que evocam as suas casas abandonadas, o dia-a-dia vivido com natural proximidade dos vizinhos, dos amigos, lugares de costumes elencados no trajecto da história a que pertenceram. "Até parece que a comunidade internacional não sabe como parar aquela guerra". O próprio presidente da Síria, só para acrescentar uma breve nota a tantas coisas ocultadas, também não sabe a forma de parar tantos males e pessoas em fúria, atrás de uma utopia sem rei nem roque. 

 

 HORAS DE PARTIR, HORAS DE CHEGAR, HORAS DE REGRESSAR

sexta-feira, agosto 14, 2015

FALECEU EM FEVEREIRO O ARTISTA VICTOR BELÉM


VICTOR BELÉM

Quase te conheci desta forma, porque assim conversámos e abrimos a alma aos encontros de outros tempos, muitas galerias e a SNBA, chacoteando um pouco os vícios da fama alheia ou o céu quase súbito das inaugurações guardadas por uma burguesia que se fechava para os sonhos dos outros -- e ainda mal se sabia que o 25 de Abril estava por perto, depois engalanado com seduções, utopias e esquisitos conflitos entre pares e ímpares. Bom foi convivermos mais tarde, por cima de algumas décadas: fazer textos, ver exposições, aplaudir as tuas e alguns livros meus, de mistura com as colagens que levei à 111.
Soube tarde da tua morte, agora mesmo, no fim de contas. Tinha bonecos teus para publicar mas prefiro esta austeridade como sinal de revolta por ninguém ter accionado as ferramentas públicas para que o país  te oferecesse a exposição tua, da tua obra, que era merecida e necessária,  anterior que foste, no sarcasmo e na ironia, a muitos triunfadores da pop, da bad, dos vários neos e minimalistas, novas representações do sagrado objectualista.
Escrevi mails, chamei por ti, mas só agora me disseram que estavas sofrendo e que havias morrido em Fevereiro. Preservaste a tua dignidade perante um Universo mandador e absurdo.
Disseram na Net que "Cascais e a cultura nacional perderam um dos maiores vultos das artes plásticas da segunda metade do século passado e início do corrente. Victor Belém (Cascais 1938-2015) destacou-se pela sua modernidade e irreverência, primeiro como artista plástico e mais recentemente com trabalhos de fotografia ficionada." Dizem ainda que te formaste na Escola António Arroio e como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. E mais, ou por isso, que trabalhaste dois anos sob a orientação de Júlio Pomar.
Depois dizem mais algumas coisas, mas poucas, porque não sabem dos teus segredos, a do papel higiénico, o da fisiologia em secagem, as bandeiras e certas instalações. Mas lembraram-se que estás representado em colecções e museus, em Portugal e no estrangeiro. Nos bons dicionários. E sem palavras sobre os corações onde permaneceste, entre o riso e a melancolia. Nem sobre os registos daquela Maternidade que os talentos da malta representou no teu ateliê. Grande ópera a apregoar o fim do Mundo e o Início do Seguinte.

segunda-feira, agosto 03, 2015

DÚVIDAS NÃO CALAM A LIBERDADE DE EXPRESSÃO


NENHUM REQUIEM À ENTRADA DESTA CITAÇÃO

ESTA CITAÇÃO ENVOLVE UM TEXTO COM O QUAL SE
PROCURA CONTEXTUALIZAR O POST SEGUINTE


                      
                                   

A TERRA ONDE VIVEMOS É ESTA, NÃO CONSTA QUE TENHA SIDO FEITA PARA DOENÇAS FINANCEIRAS NEM PARA DEMÊNCIAS SUICIDAS

sábado, agosto 01, 2015

O MUNDO VIVE EM REDE CONSPIRATIVA



Cheguei a uma cidade do sul e não vi ninguém. Terá sido outra onda de emigração? Vão e voltam os turistas, enchem os restaurantes e comem tudo o que vêm. Os moços da chamada hotelaria vão e voltam, trazem as lagostas nos  pratos. E nem ligam às pernas das raparigas, mil vezes mais ofuscantes, no desenho e na cor, do que mil lagostas ou sapateiras. Morre gente nas estradas, ou em casa, de velhice, as pensões são cortadas e no futuro serão minguadas e beneficiar da liberdade (princípio fundamental da democracia) de saltarem para o espaço privado, aquele  em que se embrutece pelo dinheiro e por ganhos que nada se relacionam com Estado Social ou ramos da solidariedade. Dizem que a Coligação (do governo em fim de festa) já afia as facas para os cortes resilientes da austera harmonia futura, permitindo que as autoridades possam colocar o país entre os dez mais competitivos do  mundo. É verdade que já somos dos mais despachados a emigrar, sem ligar à terra e a uma secular plantação de géneros hortícolas. Perdedores de barcos e de sardinhas com uma zona marítima das mais vastas do mundo, este lugar já navegou até às sete partidas desse mesmo mundo -- e quando era mais pequeno em gente, tornando-se endemicamente rico para grandes não se sabe porquê, nem os comunistas que se julgaram capazes de gerir o mundo com ordenados mínimos para todos e um remanescente em poder militar, na fome de todas as ucrânias. Viu-se. E vê-se, quando Putin tira a camisa, alarga os ombros e manobra no seu mar de recreio uma vedeta que dava para duplicar o ordenado a todos os russos, incluindo os velhinhos acamados numa serra de gelo. Mais a ocidente, a Europa ordenou o desmantelamento de milhares de embarcações, marinha mercante e frota de pesca.


Mas deixemos essa gente  distante e geneticamente austerizada. 

Li uma coisa esquisita num jornal que talvez fosse o Diário de Noticias. Via-se que o articulista (não digo o nome podem aparecer aí alguns talibãs e jihadistas). O artigo dizia logo à cabeça: «PLANO VINGATIVO DA EUROPA PARA PRIVATIZAR A GRÉCIA». Parece um capítulo da "Teoria da Conspiração". O homem diz que «no dia 12 de Julho, a Cimeira congregou os líderes da zona euro e ditou os seus termos de rendição ao primeiro ministro Alexis Tsipras, que, atemorizado com as alternativas, terá aceitado todos. Um desses termos dizia respeito à disposição dos restantes activos públicos da Grécia.1
Os líderes da zona euro exigiram que os activos públicos gregos fossem transferidos para um fundo do género Treuhand -- plataforma de venda urgente semelhante ao dispositivo utilizado após a queda do muro de Berlim para privatizar rapidamente, com grande prejuizo financeiro e com efeitos devastadores no emprego de toda a propriedade pública do Estado Alemão Oriental que se desvaneceu. 
O Treuhand grego foi indicado para ser sediado no Luxemburgo (esperem por isso!) e orientado pelo ministro das Finanças da Alemanha, Wojfgang Schauble, aliás, ele mesmo, autor do esquema. Tal operação, no caso da Alemanha Ocidental (desvanecendo a Oriental por 1 geminação integral) foi acompanhada pela Colossal Conspiração investimentos maciços em infraestruturas por parte da Alemanha Ocidental e por transferências sociais em larga escala para a população do lado Oriental. Estas situações não são comparáveis ao método imposto à Grécia, mas de todo em todo bem diferente. No caso desta eventualidade passar a facto histórico, o que se sabe é que a Grécia não receberá nenhum benefício correspondente e de qualquer espécie.
Seja como for, o actual ministro das Finanças grego, há duas semanas, fez por diluir certos desastres ocasionados pelo método e conseguiu que o Treuhand se centralizasse em Atenas. Por estranho que pareça, este político logrou achar para o efeito alguns abrandamentos dos credores, a chamada troika da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacioal.1

citado de um artigo de Yanis Varoufakis (ex-ministro das Finanças do actual governo Grego)

Mas que havemos de pensar de tudo isto? Ainda que a Grécia possa ser um companheiro difícil, isso não pode significar o tratamento dos seus representantes a que assistimos no tal dia 12. Não há nenhuma Europa em regime de União (que não pode ser só financeira) que seja sustentável daquela forma e do modo como os seus orgãos funcionam de momento. Todos se voltam para a Alemanha e para o seu fogoso Ministro das Finanças. Estas personagens, horas e horas desfazendo uma soberania ou a ideia de uma solidariedade antiga, relevam de um fundo histórico que se pensou ter mudado após a derrota nazi na última Grande Guerra. O mundo tem picos e personagens que simulam a Colossal Conspiração e que emergem um pouco por toda a parte, e isso bem se vê em todo o Médio Oriente, na Ucrânia, e em grande parte do continente Africano. Morrem os emigrantes vindos da selva (selva de Poderes) e a Europa, atulhada em dinheiros assimétricos insiste num silêncio de qualquer Grande Herança: o pior é se se devora a si mesma, recebendo genéticas ímpias do sul. Não há Sul nem Norte. Cuidem que o sol continue a nascer Leste e a descansar a Oeste. Podemos ainda travar mais uma guerra Universal (não Mundial) mas depois disso não haverá mais "plano Marshall" que nos salve e as doenças do planeta terão progredido até à fuga dos restos populacionais para contentores no espaço. Calais e o Canal  da Mancha terão desaparecido. Há quem diga que os últimos sobreviventes, em coma induzido em escalas mais ou menos conhecidas consoante as rotas gravitacionais, teráo 5% de ressurreição, mas nada se saberá quanto aos que poderão sair desta galáxia e entrar noutra.



   UNIÃO EUROPEIA 2015
depois da emigração em massa dos humanos em condições de o fazer ninguém mais soube pensar o universo

segunda-feira, julho 13, 2015

TRAGÉDIA DA GRÉCIA NO CERCO DA EUROPA


Após 17 horas de negociações exacerbadas, após fábulas e cercos numa Europa cada vez mais encriptada, a Grécia conseguiu manter-se na zona euro, sob o peso de mil calhaus sisifianos. Merkel adoptou um pensar e um ser mais doce, talvez (quem sabe?) para travar os arranques destroçantes do seu ministro das finanças. Hora ideológica e de grupos batalhando às cegas.
João Ferreira da Cruz, economista, escreveu hoje no «Público» um pequeno artigo sob a designação (agora inquietante) de MAASTRICHT II:
Ontem, o dilema da zona euro era «sobreviver ou prosperar». «Com epicentro em Atenas, a catástrofe esteve iminente. Temeu-se pela solidariedade europeia, mas o euro sobreviverá com o repto lançado, em conjunto, por Juncker, Tusk, Dijsselbloem, Draghi e Schulz. No turbilhão da crise e na emergência da resposta para a Grécia, questiona-se o momento e o tempo que levará a "Concluir a União Monetária Europeia". Com objectivos claros, o documento dos cinco presidentes pretende averbar ganhos e progressos nas quatro uniões: económica, financeira, orçamental e política. Na primeira fase (1 de Junho de 2015 a 30 de Junho de 2017), recorrendo aos instrumentos disponíveis e ao bom uso dos Tratados, estimulam instituições e países da zona euro a impulsionar a competividade, a convergência estrutural para completar a União Financeira garantida por políticas orçamentais sustentáveis, com reforço da responsabilização democrática. Na segunda fase, o mais tardar até 2025, deverá ser completada a arquitectura económica e institucional, tornando o processo de convergência vinculativo, com critérios de referência comumente aceites, juridicamente assumidos e alcançados, condição para a participação na zona euro. Substantivamente, a convergência deixará de ser nominal, como se previa em Maastricht, para ser real. Urge colmatar os defeitos da arquitectura inicial do euro que gerou pesados custos, sofrimento social e graves tensões políticas dentro e entre Estados-membros. Sem referir explicitamente o Fundo Monetário Europeu nem o seguro de desemprego europeu, nem a agência para a gestão da dívida, nem a "regra de ouro" para o investimento (subtraído ao cálculo do défice), sequer o plano Junker ou a capacidade orçamental reforçada para recursos próprios, mas capaz de responder a choques assimétricos e apoiar reformas para a convergência, promovendo emprego, reduzindo assimetrias com regresso à coesão social, o relatório vai no sentido certo. O alarme da saga grega reclama aceleração no aprofundamento da UEM e não a espera por Maastricht II.»

Este relato desapaixonado, técnico, mostra a complexidade do processo. Mas não mostra a tensão nacionalista das populações, quase toda nas costas dos quais foi implementado o euro e a estrutura da União, nome que nem sequer se pode convocar agora, com toda a abertura, bom senso e o espírito pacificado. Os orgãos de gestão têm de funcionar, usando a rede que terá de ser remuniciada, agilizada e temporalmente eficaz. A meio de uma reunião deste tipo, não é crível que o ministro das Finanças Alemão e Merkel, cessem tudo para irem trocar pontos de vista a sós. Quem convoca quem? E quem apaga os egoismos nordestinos e as humilhações a sul? A tragédia grega não tece, desta vez, um mítico personagem que prefere a cegueira a viver à luz do seu transcendente pecado.