terça-feira, setembro 25, 2012

CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE ALBERT CAMUS


ALBERT CAMUS  
prémio Nobel da Literatura 1957

Vivemos uma época de grandes conflitos, global mas fracturante, refém do dinheiro e de várias submissões, em guerras depois da última Grande Guerra, e são cada vez menos os que festejam os grandes artistas que marcaram a história e a cultura de forma indelével. Está a ser gerida uma mostra dedicada a Albert Camus, ancorada na data do seu nascimento. E parece que este grande escritor, prémio Nobel de forma cristalina, é outra vez Estrangeiro numa França que, segundo se lê nos jornais, se encrespou em torno desta exposição, vivendo uma «guerra civil da cultura». A PESTE voltou e não foram os ratos que a trouxeram. Ao abrirmos esse livro podemos ler uma citação da Daniel DeFoe: «É tão razoável representar uma espécie de encarceramento por uma outra como representar qualquer coisa que realmente existe por qualquer coisa que não existe». 
Mas, atendendo à morte aparente do bacilo da peste, Camus avisa-nos que ele de facto não morre, persiste nos mais recônditos lugares, anos a fio, «nos lenços e na papelada e que virá, «talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordará os seus ratos e os mandará morrer numa cidade feliz».
Algo de semelhante está a acontecer e confundimos tudo com crise e progresso.

terça-feira, setembro 18, 2012

SÍSIFO CAÍU DA MONTANHA ENROLADO NA PEDRA



Passos Coelho, primeiro ministro de Portugal, e Paulo Portas, ministro nos Negócios Estrangeiros, envelheceram nestes últimos dias amareladamente: um deles queria representar o papel olímpico de Sísifo, há um ano que transporta a pedra do castigo para o alto da montanha. Mas, à quinta vez, escorregou numa casca de banana e enrolou-se no bloco que o arrastou  para o fundo da Segurança Social. Portas ficou com o papel ímpio na mão e falou no belo estilo dos "homens de Estado": não concordava com a ideia da TSU
os trabalhadores aumentados na taxa social, que ofertavam aos patrões a fim de que esses obtivessem melhores condições para aumentar os postos de trabalho. Do fundo do buraco negro da «Segurança Social,» Coelho geme e grita que nada o fará recuar, nem mesmo o poço cósmico em que se encontra. Paulo repete que não pensa desfazer a coligação, pois sabe que vai logo parar ao inferno, pede apenas algum «manejo», uns retoques mas, seja como for, está tudo bem. Há um ano sonâmbulo, o povo veio todo para a rua, mais comportado do que os seus políticos.
Realmente, que raio, agora que já se esbulhou (excepto os ricos) quase toda a gente e que a Troika até nos acompanhará até 2014, que raio de birra é esta: há pelo menos vinte maneiras de arranjar uns trocos, tanto mais que os patrões até vão oferecer aos trabalhadores a cobrança para eles projectada, equilibrando os dinheiros de todos e inventando maneiras menos pobres de tratar do aumento dos postos de trabalho, pois aquela solução era pior que um eufemismo e nem sequer engordava os nobres empreendedores. Lá porque mora onde mora e faz dieta, o primeiro ministro Coelho (Passos) não deve disfarçar teimosia e arrogância em jeito de menino bem comportado e nada arrogante. Dobre lá o papel. Divida isso em partes iguais. E mande flores à Merkel, um galo para o Elyseu, dois biliões de tostões aos amigos gregos. Para Espanha basta uma caçadeira e para o CDS a medalha de bom comportamento. Daqui a oito dias faça uma festa, visite o BCE com um pacote de dívida portuguesa (da melhor casta) e diga ao maior banco alemão que até os grandes se esvaziam e que até em Portugal há bancos chiquérrimos.
É que os senhores não têm nenhum problema entre mãos. têm a pedra. Façam dela um monumento à Troika e mandem outro "cão-de-água" ao Obama.
Não se esqueçam de começar a prender os corruptos, os que já mandam em vocês, incluindo o catedrático a quatro bancos. Barrela, limpeza, avante pelas autoestradas acima.

DE GATO A LEÃO, MIA COUTO COM O SEU MELHOR

Enfim
TERRA SONÂMBULA
A CONFISSÃO DA LEOA
Encalhei durante muito tempo na escrita de Mia Couto, porque a tentativa de dizer África e os seus mitos e os seus povos, tudo passava por uma bondade inocente e por certa disneylândia de neologismos assaz ruidosos que salpicavam poquenos livros ou contos.
Desejando corrigir o que hoje tem, para mim, outra face, agradeço ao próprio Mia Couto ter sabido alcançar uma grandeza literária bem engrenada no espaço e na cultura africana, na devida extensão, na imagética e vaga fantasmagoria de gente ou espíritos, com leões que anunciam restos de erros, assimetrias do poder e do território. Este Mia Couto é quem há muito eu esperava.
Foi com estes dois livros que me deixei convencer, porque a paisagem vista do "velho autocarro" mistura duas tragédias, milhares de memórias, ou suprema deambulação dos mortos sobre os destroços das guerras. A escrita concebe-se naquele continente a flutuar, em terra e no oceano, espaço todo feito por referências de eleição. Quando se lê «não havia aldeias no desenho do nosso futuro» estamos a navegar sem restos de canas fingidas (neologismos) a cada mergulho das pás dos remos. E a respiração aproxima-se da nossa interioridade e da próxima experiência de África, no cume do desastre que muitos de nós viveram.
Quando li a sinopse deste segundo livro, talvez pela redacção de banda desenhada, ali parecia ostentar-se um outro escritor (inicial) que não ultrapassara a curiosidade invulgar pela história real convocada. E pensei que se perderia uma colossal metáfora sobre a memória da construção colonial, entre erros e sonhos, da imensidade dos povos em espera. Mas não. Tratava-se de uma obra maior, verdadeiramente inesquecível.

terça-feira, setembro 11, 2012

O GRANDE CINEMA CUJA VIDA ESTÁ EM PERIGO

                                                                                            1
 
                                                                                         2

Cito aqui dois filmes que se notificaram em Cannes. Os festivais são ainda o que sobra das melhores escolhas de arte no espaço empestado da civilização sobrevivente, gananciosa, infectada de bolsas de infecção industrial e de outros estereótipos.

1- filme de Kim Ki-duk, PIETA (Leão de Ouro)
2 - filme de Wang Bing, THE SISTERS (Prémio Secção Horizontes).

Aqui se lamenta, mais uma vez, que os monopólios da distribuição, em Portugal, continuem a facilitar o caos de gostos e de falsos entretenimentos, sem um ciclo sequer de obras actuais e no plano histórico, produção especial de autores exemplares para que aconteça um pouco o que aconteceu quando o Quarteto passou toda a obra de Tarkovsky e a Cinemateca fez ciclos de Kazan e Welles, os eternos pilares que estiveram acima de toda a indústria do cinema em desenvolvimento, hoje corroída pela doença crónica do imaginário americano, monstros e efeitos irreais, ruído, um largo tsunami de lixo que muitos copiam e mal.

domingo, setembro 02, 2012

AFUNDEM O SERVIÇO PÚBLICO DA RTP1 NA RELVA

MATEM A RTP2
ÀS MÃOS DO CAVALEIRO DAS TREVAS
SEMPRE A MELHOR ESCOLHA 
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Logo ao pequeno almoço, João Lopes, crítico de cinema e de olhar apurado, apeteceu-lhe variar um pouco e comer uma boa taça de morangos, a par da projecção do fabuloso e bem apoiado filme MORANGOS COM AÇUCAR. Toda a gente sabe do que se trata, justamente na hora em que o governo, sem tabus nem histerias, se prepara para vender ou concessionar o canal 1 da RTP e fechar a sete chaves o canal 2, onde ainda perpassa um leve perfume de cultura, integrando notícias e referências de quase todas as artes sobreviventes em Portugal e no estrangeiro. Ao lado do repasto, o crítico tinha uma nota e uma imagem sobre o filme «Oslo, 31 de Agosto», filme da Noruega, sem morangos.
Ao começar, pouco depois, a escrever a sua coluna para o DIÁRIO DE NOTÍCIAS, acentuando, nomeadamente: «não se pode esperar que um público educado por Morangos com Açucar mostre o mínimo interesse em ver, por exemplo Oslo, 31 de Agosto, um belo filme norueguês, estreado no mesmo dia de Morangos, que não passou em nenhum noticiário televisivo. Tem a ver com quê? O ser ou não ser jovem, a dificuldade de amar e a dependência de drogas. E tem alguns actores sem tiques publicitários, a começar pelo brilhante Anders Danielsen Lie.»

«Oslo, 31 de Agosto»
João Lopes chama a atenção para o ostracismo a que vai ser remetido este filme. As performances das bilheteiras «desenham uma fronteira intransponível.» Reconhecendo Esse desastre cultural, Lopes acrescenta apenas «que o comércio é a primeiríssima forma de cultura. Na sua inquestionável inteligência, os responsáveis pela operação Morangos com Açucar sabem que esse evento existe «como um perverso ministério da cultura, com um poder simbólico superior ao de qualquer instituição educacional.» E sublinha: «Meus senhores, eis a crua verdade: os grandes agentes culturais são vocês».


o homem do leme: deixa a RTP 1 para um opaco campo de relva

Pela nossa parte, esta intervenção de João Lopes é exemplar: e este tipo de «discurso» deveria constar do contrato de concessão da RTP1 a uma «agência privada». Por conceder apenas, e à borla: não compensa em nada o país, nem a história nem a descoberta científica ou cultural. A excelência dos privados (mito lusitano sem nexo) vão tratar da sua courela, criar outras e mais clientelas acéfalas, desbaratar um fio condutor que deveria ser moderno e isento.
Sobre este bizarro e mal anunciado evento, João Lopes é oportunamente sarcástico: «A conjuntura apela ao desespero da caricatura. Assim, depois de pelo menos duas décadas de metódica degradação populista do espaço televisivo, nasceu das pedras da calçada uma avalancha de gente preocupada com os destinos da RTP, incluindo alguns políticos que nunca ligaram ao assunto. António Borges foi o santo milagreiro: com meia dúzia de palavras displicentes, conseguiu consagrar o reconhecimento de uma verdade rudimentar, regularmente enunciada por alguns críticos de televisão nos desertos do nosso pensamento democrático: que a televisão (e, em particular, a RTP) é uma questão absolutamente prioritária na conjuntura político-cultural portuguesa.»

Diremos nós, deste sítio de reflexão, oiçam as palavras deste homem e olhem para as sombras que restam na vil exploração das imagens e das consciências.


OREMOS

quinta-feira, agosto 30, 2012

UMA CIVILIZAÇÃO DO DESPERDÍCIO E DA BELEZA


fotografia de Miguel Baganha

Desde que apareceu no firmamento das artes visuais em Lisboa, Miguel Baganha pintou e fotografou, acedendo a galerias, iniciando uma aventura hoje tão difícil e agarrando o sentido  da experiência, interagindo entre o ver e o fazer em dois campos fundamentais das artes da imagem. No caso presente, há uma ironia e uma tragédia, desde a ideia que envolve utensílios do quotidiano, cruzetas, formas de plástico amolecido, em monte, e a memória de um certo belo horrível que ainda emerge das valas comuns da última Guerra Mundial, documentos de milhares de corpos nus assassinados metodicamente nas câmaras de gás. O uso daqueles materiais  precários,  ferramentas de plástico, não basta para cumprir a modernidade, a instalação original: é preciso, fundamentalmente, entrar com isso no domínio dos conteúdos de referência ou metáfora, o mundo da simbologia inerente à própria vida espiritual e cultural da Humanidade. Aquelas matérias e elementos, convocados assim, podem resvalar para uma prática populista, mera curiosidade de  efeitos frívolos, ao contrário do que se espera na instauração da forma artística lugar de comunicação no qual valores estéticos e conceptuais responsabilizam a mensagem como sempre aconteceu nas diversas civilizações ao longo das épocas,  sentido dos sentidos inerentes à realidade humana.

sábado, agosto 11, 2012

FABRICO DE MENINOS MORTOS PARA MÃES CEGAS

olhem primeiro para estas crianças:
estarão a descansar, algumas a dormir
ou todas mortas por serem fictícias?

Não é fácil aceitar tudo o que as grandes indústrias das falsas necessidades nos impingem, desde um porta-chaves com horas e sinais sonoros incorporados até crianças fictícias para ajudar mães cegas de amor ou de frustração, talvez apenas maníacas dos jogos da moda. Colocam à nossa disposição brancas de Neve e Bruxas, Batmans e Super Homens, livros electrónicos e telemóveis que cantam as nossas canções preferidas. E porque não bebés de vinil, realistas, hiperrealistas, à escala real, acabados de nascer (mortos) ou sorrindo e susceptíveis de lavar (sem vida)? A fantasia das nossas cada vez mais comuns falências chega a este limite de non sense, produzindo filhos inviáveis que certas senhoras estéreis ou saudosas do seu próprio corpo compram e tratam a fingir, vestindo-os como se fossem passear em carrinhos no jardim do bairro. A invenção pagável do homem chegou ao ponto cego de superar Deus, manipulando os homens e as mulheres até se enganarem com falsos filhos que vestem, fazendo ressoar o seu coração a pilhas, para que os falsos iludidos se deleitem com maiores ilusões. As crianças que morrem lá longe, ou ali à esquina, podiam fazer melhor encenação; e a segurança social que as sequestra e que não incentiva a sua adopção, em processos bem semelhantes aos da Inquisição, melhor seria que enterrasse os bonecos, ursos e bonecas de borracha, vestidos com trapos e meias rotas.
Entre os artigos que saíram tratando este ímpio fenómeno, um deles diz: «Trocam-lhes fraldas, dão-lhes biberões em dias de frio e investem em cadeirinhas de segurança para os poderem transportar de carro.» Uma senhora diz no seu blogue: «A minha bebezinha é a coisa mais linda do meu mundo.» O amor desta mulher brasileira, a caminho dos 50 anos e com dois filhos adultos exprime-se agora através do seu Bebé de vinil, que veste e trata com desvelo: «Os meus filhos ficaram mais felizes e mais iluminados depois desta bebé».
Esta barbaridade sem nome, que explica muitos desvios psicológicos vindos da nossa colossal civilização de embustes e objectivos dissolvidos no dinheiro e na futilidade, chega assim a um novo pico de loucura, como se não bastassem as odiosas e incultas barbies. Agora, pela técnica reborn, um novo sucesso  entra nos bolsos do mundo das frivolidades e das neuroses coloridas, entre meninos e meninas pretos ou brancos, a dormir ou mortos à partida.
Que é que andamos a fazer às pessoas e com a sua cada vez maior falência irracional?

terça-feira, agosto 07, 2012

VERSALHES, JOANA VASCONCELOS E A LOGÍSTICA

Publiquei aqui, há tempo, um comentário sobre a exposição de Joana Vasconcelos em Versalhes e sua alegada projecção de Portugal além fronteiras. Indústria cultural importava pouco, dizia-se por cá, o que conta é que ela derrame marcas lusitanas sobre o mundo. Ora eu não venho desdizer os meus pontos de vista, os quais apontam para uma projecção portuguesa mais substancial, aberta e pluralmente qualificada, como acontece com alguns dos nossos cientistas.
Seja como for, ouvi pela televisão uma análise ao excelente trabalho de montagem da equipa portuguesa que apoiou Joana, à logística impecável nas soluções e a todo o envolvimento de comunicação que chegou a vergar os franceses mais cépticos. Esse aspecto é relevante e quero acentuá-lo para que o meu olhar seja mais justo e mais completo.

segunda-feira, julho 23, 2012

UMA NOVA PARTÍCULA, TALVEZ O BOSÃO DE HIGGS

gráfico da colisão de partículas

Julga-se que o maior acelerador de partículas descobriu o «Bosão de Higgs». A colisão reveladora de uma partícula calculada teoricamente por Peter Higgs, há cerca de 50 anos, é um facto científico da maior importância. A partícula que colidiu com outras de natureza semelhante, sub-atómicas, tem as características da que pré-anunciou Higgs: sendo invisível, o seu embate noutros componentes que rodeiam o átomo aumenta a massa deles — e é a este princípio que os cientistas se agarram como explicação da origem do universo. Ninguém pode garantir que o universo terá tido essa origem, mas em termos da lógica da ciência e das sucessivas colisões em sucessivos aumentos de massa, agregação e expansão, tudo durante milhões e milhões de anos, algo parece fazer sentido. Mas, pelo meio, ficam descobertas e perguntas sem resposta, quer sobre as galáxias, a sua forma e dinâmica, os buracos negros, a matéria negra e a interacção das forças gravitacionais responsáveis por manter a coesão da massa e tudo o que se conjuga dentro e entre os espaços galácticos, as velocidades alcançadas, a vida e a morte de biliões de matérias configurantes no simples colapso incalculável de uma estrela, que pode desaparecer ou tornar-se mil vezes maiores.
Em cima, vemos parte do grande acelerador de partículas, o CERN, onde já se trabalha e se analisa o tipo de colisões acontecidas num percurso circular de 28 quilómetros, no sub-solo. Milhões e milhões de colisões de protões lançados a velocidades extremas, foram analisados desde 2010, tendo sido possível, agora, detectar a nova partícula (simbólica e popularmente chamada «partícula de Deus»). Rolf Heuer, director geral do CERN, respondeu a diversas perguntas numa conferência de imprensa e referiu-se à «pegada da partícula» como podendo ser um bosão de Higgs, o que não limita o resultado, pois tudo parece indicar que não há apenas um bosão, o de Higgs, mas muitos derivados dos mesmos cálculos. Há outros cenários (mais interessantes) que também preveêm bosões de Higgs. O Modelo Padrão pode completar-se em torno de outros dados. Perante o desconhecimento do que seja a matéria negra, o cientista aponta para uma hipótese de aquela não ser a partícula calculada por Higgs e «isso poderia vir a funcionar como um portal», dando acesso a novos territórios do conhecimento.
Muito ainda há que fazer para que este ramo do conhecimento descubra algum sentido no universo, as suas conexões, a sua finitude que parece em lançamento alucinatório para a infinitude, tão absurda como nós pensarmos isto e a nossa consciência, cheia de certezas e perguntas, se poder apagar, transformando-se em nada, com a morte do homem.

sexta-feira, julho 20, 2012

JOSÉ HERMANO SARAIVA MORREU HOJE, 92 ANOS

José Hermano Saraiva

Nesta atitude, durante muitos anos, José Hermano Saraiva, historiador, contava (e cantava) episódios da História de Portugal, enveredando depois pelo estudo das regiões, municípios, regimes patrimoniais e cidades de valor de fundo. Fazia-o na televisão, tendo nos seus melhores momentos, sabido coloquiar muito bem com o espectador, levando-o a ver o que ele via, mantendo em off a voz de continuidade. A realização desse programa criou metodologias expeditas e de bom entrosamento para tornar apreciável e compreensível o que o contador das coisas, pessoas e histórias contava. O professor Saraiva deixa assim, para além da sua bibliografia, actividade política e cultural, um património de grande valor científico, assumido em palavras e imagens numa decorrência por vezes poética, outras vezes técnica e enquadrada no espaço português de todos os tempos.

terça-feira, julho 17, 2012

BABILANDO NA ASSEMBLEIA DO EIXO DO MAL

o eixo do mal
 



O mundo parece desfazer-se sob o véu de lixos que a sacrossanta globalização espalha sobre os povos emergentes (entre os muitos indigentes), e estes senhores do painel acima assinam um programa televisivo (O Eixo do Mal) onde operam as mais raras diatribes contra os pequenos males deste pequeno país cheio de gente ensandecida, acocorada junto do litoral, sobretudo nas grandes cidades. Por sua vez, estes senhores aceitam sentar-se num cenário de ficção científica pimba -- futurista e tudo. Pela colaboração dos participantes, o espectador é levado a suspeitar que cada qual fala por si e para si. E espera também que um fale depois do outro, em nome da boa comunicação e do bem pensar que tanto exigem dos políticos e respectivos aprendizes. Reitero o respeito que todos me merecem, meu apreço particular por Clara Ferreira Alves, sentada ao centro, como Cristo na última ceia, e tiro o chapéu ao canal televisivo que aposta neste género de algazarra de humor azedo, por vezes cínico, por vezes meramente risível -- Sócrates é convocado muitas vezes porque desbaratou as nossas confusas riquezas, às vezes lá vem a sua licenciatura de papel e agora incha o escândalo do ministro Relvas (que terá comido relva num jardim privado e logo saiu de lá licenciado, currículo irrelevante e mais quatro cadeiras que não frequentou, caricaturas reais da pequena vida nacional). Mas um programa semanal, enfatizado, merece tão pouco génio? Depois desse supremo ministro vem o pobre ministro Álvaro, arvorado em incompetente da economia, e, sempre que dá jeito e é possível, a estranha retórica do super ministro Gaspar, fala lenta e martelada que os protagonistas do mal não percebem mas vem a propósito da anedota. «Devagar, devagar, um dia ele deixa de falar». O primeiro ministro, Jesus dos Passos, dito Coelho, um homem que emagrece com o fardo da Troika e é teimoso em nome do milagre futuro. É um crente e por vezes fala tão junto do chão que ninguém sabe donde vem a esperança. E Babel é excitada, as escrituras passam a falas tonitroantes, Portas ausente, os erros de todas as explicações, Crato sem saber como justificar Educação e massificação, anos e anos de austeridade vandalizante e a Economia desidratada e anémica. É quase tudo mau, em Portugal, na Europa, e a prova chamejante são estes tribunos de aviário que cacarejam todos ao mesmo tempo a partir de uma qualquer fala isolada do início.
Mas como? Será  que não sabem nada de televisão ou, performativos, insistem em ouvir-se, sobrepondo-se, cortando a palavra a este e àquele, metendo buchas, Passos espalmado, Relvas outra vez, antecedentes e sombrias relações, tudo bombeado para a "caricatura gaguejada". E, contudo, a estes senhores foi-lhes dado, de bandeja, um espaço de intervenção excepcional, espaço que eles tratam mal em nome do mal, jamais em torno do eixo. Este meu estado de indignação, como se diz agora, não se refere só ao conteúdo das intervenções, sobremaneira erráticas, mas a elas mesmas, à forma e ao grito, uma balbúrdia de fazer inveja ao agora mais institucional Pacheco Pereira. E, depois, é o desperdício, senhores, é a falta de respeito para com as pessoas apetrechadas a tratar aqueles temas, a ouvir e a compreender. Ali sucumbe a democracia, aflora a lei do mais forte. Até o mal rebenta irredutivelmente com o eixo.

quarta-feira, julho 11, 2012

A MEGALOMANIA PORTUGUESA EM VERSALHES

Joana, feliz e poderosa, a saborear a derrota deste luxo
perante a sua obra de escala industrial, portuguesa e internacional

Tenho um certo receio de ser mal entendido ao escrever estas frases de mil sentidos, entre o luxo e o provincianismo atirado, à americana, além fronteiras, em Versalhes e sem risco de qualquer decapitação. Mesmo assim, devagarzinho, escrevo sobre a grande aventura de Joana Vasconcelos espantando assim os novos burgueses e virtualizando, na França dos nossos imigrantes, os tontos luxos daquele palácio totalizante, resto patrimonial do tempo em que as monarquias podiam romper eternamente o déficit. Com panelas, plásticos e tontura na escala, esta jovem artista portuguesa e cidadã do mundo, goza a rotunda alegria do seu triunfo. Os sapatos feitos com panelas apontam a América e uma actriz famosa. E eu acho que, além de mais tampões a fingir cristal, a Joana deveria fazer uma hambúrguer (McDonald's) que enchesse a Praça da Concórdia ou flutuasse no Sena. Não era preciso trazer essa obra para Portugal. Talvez fosse de grande oportunidade fazê-la pousar em Bruxelas com uma carta endereçada aos pobres europeus e uma ginja gigante dirigida à senhora Merkel. A liberdade de expressão, que respeito muito e por isso escrevo, assim, num espaço onde sou (por agora) bem livre, deve ainda ser suficiente para tais devaneios, embora aquele "incidente dos tampões" teria tido muito mais repercussão se Joana recusasse expor as outras peças sem essa emblemática criação, indiciando tanta coisa. Mas, recusas dessas custam caro (e não só em dinheiro): Sartre bem o disse, vertical e zarolho, ao recusar o Prémio Nobel da Literatura.
No domínio das artes a nossa Joana deveria, depois de França, começar a inventar um arranha-céus com a forma de uma das torres que Bin Laden deitou abaixo. Pode ser feito em esferovite, com a "prata da casa", e decorado em relevo e cor num estilo bordalesco, cheio de Zés Povinhos. Outra ideia boa é construir em poliéster um imenso porco, oferta dos países do sul da Europa aos balofos do norte dela. É que aquela piscinazinha de plástico, que nunca mais sai donde não devia estar, um Portugal oco e com torneiras, é mesmo muito pobrezinha e compreende-se que não esteja, com água e espuma, nos jardins geométricos de Versalhes.
A propósito dos sucessos lentos a pulso, de antigamente, Valter Hugo Mãe escreve hoje um curioso artigo no JL. E é daí que vem a fotografia publicada aqui. Não tenho espaço nem paciência para montar e desmontar as mensagens duras ou subliminares de tal peça. Mas destacarei o destaque: «Em Versalhes, diante da portugalidade digna da Joana Vasconcelos, eu era uma testemunha de uma certa emigração que se orgulha hoje de ter uma história honesta».
Aqui está, em suma, uma daquelas grandes frases, sem tampax nem Amálias de plástico. Claro que ninguém põe em causa a liberdade das artes. O mal que elas fazem é que pode ser estudado nas Universidades.

segunda-feira, junho 11, 2012

NA MORTE DE MARIA KEIL FICAM OS AZULEJOS

Maria Keil do Amaral /1914

Uma das mulheres portuguesas que dedicou às artes grande parte do seu talento, deixou obras urbanas de grande adequação, na época e na arquitectura: esta artista morreu ontem, cumprindo uma longa vida e desenvolvendo formas de arte integrada, parietal, em cerâmica e azulejo. Viveu com um homem, Keil do Amaral, arquitecto, cuja obra exerceu sem dúvida forte influência sobre esta pintora, nascida em Silves, minha terra natal também. Esta pintora, que colheu no espaço urbano e arquitectural, bem como na geometria aplicada aos modos de formar nas artes plásticas, o melhor da sua modernidade serena, entre a memória do mar, gente do litoral piscatório, velas a caminho da barra, mar picado, conchas e outros indícios da vida marinha — contos meridionais e outros que acompanham gares do metropolitano de Lisboa e muros interiores ou exteriores onde a pintura em azulejo humaniza e ornamenta o espírito dos espaços.


Maria Keil (ou só Maria como gostava de ser tratada) partilhou grande parte da sua vida com o arquitecto Francisco Keil do Amaral. A sua obra é extensa, muito diversificada, mal louvada pelos críticos do óleo e tela, e sempre estudou a modernidade através de sínteses figurativas ou modelos construtivistas abstractos. Trabalhou muito na ilustração, aliás de forma admirável e pedagógica, tanto para adultos como para crianças.
Para a história da sua arte, importa sobretudo assinalar o estudo e a bela produção de pintura parietal em azulejo. Ergueu milhares de peças desse género, espalhadas pelo país, incluindo painéis monumentais. Acedendo à exclusão figurativa que se travava na época em Portugal, Lisboa sobretudo, estudou a padronização rítmica para os azulejos do Metro, onde talvez se escondam algumas figuras, e donde recebeu os efeitos do desajuste financeiro da Empresa, a qual nem os azulejos parecia disposta a pagar. Mas o trabalho, executado na «Viúva Lamego», é uma grande contribuição para o património da cidade. Parecerá estranho o que Portugal continua a fazer com os seus artistas, premiando a futilidade e a espectacularidade: de facto, pagos os azulejos, todo o trabalho de excelência de Maria Keil foi entregue de borla. Para que  os lobos não infestassem a raridade do monumento, ou porque Maria funcionava assim mesmo, foi possível ler na altura: Maria Keil decidiu oferecer o seu enorme trabalho à cidade de Lisboa e a seu «jovem» Metropolitano. Valeria a pena saber como entendem as instituições públicas artistas como Sarmento, Joana, Cabrita Reis — muitos dos que ganharam quase de súbito projecção remunerada.

grelhas cerâmicas

padrões de superfície
e trabalho ornamental de interiores


Maria Keil foi pintora, ilustradora e ceramista portuguesa. Frequentou a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Casou aos 33 anos com o arquitecto Francisco Keil do Amaral. A obra desta artista é plural nos meios e coerente nos meios e nas escritas. Pintou naturezas mortas e retratos, tendo feito parte do Pavilhão de Portugal na Exposição Internacional de Paris. Até aos anos 40 participa em várias exposições colectivas e expõe individualmente, em especial com desenho e pintura. Participou na Exposição do Mundo Português com uma pintura mural. Trabalhou em publicidade, com Fred Kradolfer, José Rocha, Carlos Botelho e Bernardo Marques. Foi Prémio Revelação Amadeu de Sousa Cardoso com «auto-retrato». Trabalhou  arduamente para o Metropolitano de Lisboa (50 a 60), desenvolvendo intensa pesquisa e produção como criadora de painéis de azulejo, numa altura em que havia ainda preconceito contra esse meio. A ela se deve a recuperação, em espaços públicos, do azulejo e em contra-corrente. Alcançou grande prestígio neste domínio, tendo trabalhado para 19 estações do Metro e assim fez renascer a Viúva Lamego. O seu reconhecimento artístico e público através destes e outros trabalhos não cobriu de vergonha a direcção do Metro de Lisboa, na altura, fugindo ao pagamento da obra artística. Como terá sido com os esplendores das mais recentes estações, sumptuárias e dadas a vários artistas? 
Maria Keil participou em diversas exposições em Portugal e no estrangeiro. O museu do Azulejo dedicou-lhe uma retrospectiva, marco importante de uma arte que está longe de mobilizar o país, arquitectos e faculdades de Belas Artes. Maria Keil, aos 80 anos, ainda explorou a fotografia, expondo sob o tema «Roupa a Secar no Bairro Alto». Foi uma artista de grande seriedade e muito trabalho, enquadrando no espaço ornamentos de subtil modernidade. Era simples e sincera.

sábado, junho 09, 2012

PORTUGAL, ARRUMADINHO E ENCARCERADINHO

um pormenor de de como se constrói em Portugal

Eu não faço a menor ideia de quanto custou o mosteiro dos Jerónimos. Mas sei como esta construção cega, casinhas de papel, geminadas como um enorme lego e ditas para habitação, venda ou arrendamento, custam os olhos da cara e varrem do horizonte tudo o que são, no mundo civilizado, as regras de ocupação e ordenamento do território. Os Jerónimos são parte indefectível da nossa história, cultura e identidade. E sei, por outro lado, que esta imagem nos traduz uma concepção inhumana do negócio imobiliário, numa irredutível avalanche contra a regras urbanas, o sentido de civilização e os direitos humanos. É assim que uma alucinada emigração para as grandes cidades e para o litoral as-simetriza esquizofreneticamente os meios e a implantação dos conceitos sobre a estabilidade humanizada do espaço, no mais grotesco engaiolamento de seres que mal conseguem sair desta «cidade branca» e regressar a ela a horas capazes de permitirem um fim de dia em família, jantar sem pressas, convívio com os filhos, incluindo o acesso à alegria e à ajuda dos que, por vezes, fogem da escola sob a crueldade vandalizadora das relações entre colegas, onde, pelo contrário, deviam usufruir de bem estar, na formação equilibrada da identidade e noção de cidadania.

quinta-feira, junho 07, 2012

MORREU BRADBURY: UM FICCIONISTA DE FUTUROS

Ray Bradbury

 Morreu ontem o escritor Ray Bradbury, nascido a 22 Agosto de 1922 (Waukegan, Los Angeles). Faleceu em 6 de Junho de 2012 e foi um notável escritor no género da ficção científica: o seu registo não era apenas narrativo e as suas histórias, no género aqui referido, investiam num claro valor poético, profético, atento às tecnologias de ponta e àquelas que mal afloravam no horizonte das grandes descobertas da civilização contemporânea, gerando assim, por outro lado, um espaço intemporal onde a consciência humana se confrontava com alegorias, visões simbólicas, avisos ficcionistas que inventavam futuros. O futuro. Há assim uma ideia moral nas histórias de Bradbury, as quais são tecidas para além das nossas habituais verosimilhanças e em ordem a um certo tipo de idealidade no amanhã, algo que nos introduzia numa visão cósmica cuja infinitude envolvia de perto o próprio homem e os seus  poderes de criação ou de antecipação de outras ordens para o mundo.
 
livro Crónicas Marcianas | filme "Marcianos"

Bradbury é hoje mais conhecido pelas suas obras «Crónicas Marcianas» (1950) e pelo filme de Truffaut, de 1966, «Fahrenheit 451» baseado na obra homónima de 1953. O grau de simbolismo sarcástico faz desta obra uma profunda questionação ao valor da civilização e da cultura e às forças da denegação que procuram massificar e apagar os comportamentos aí enraizados. Numa espacialidade urbana mecanizada e asséptica, cheia de automatismos  e de normas dogmáticas, os bombeiros não se dedicam a apagar fogos, são antes uma força política e policial que usa lança-chamas para queimar na praça pública todos os livros e documentos similares que fossem encontrados. Quando esta hipérbole se visualiza no filme, e o dogmatismo embaraça o bombeiro ainda inocente, um terrível retrato das sociedades opressoras e dos preconceitos culturais nos travam num consumismo fútil. 
Mas há sempre os resistentes, os últimos seres a honrar a sua dignidade e a evolução da espécie: fugindo para as florestas, organizando-se de forma comunitária, grupos de homens e mulheres lêem em voz alta obras fundamentais salvas do holocausto e, depois de as decorarem, vão espalhar por outras memórias, oralmente, literaturas raras. A republicação era feita dessa maneira, numa longa deriva em trabalho, e por forma a salvar a memória do próprio homem.
 
Arrancados às bibliotecas clandestinas resmas de livros, um bombeiro subalterno recolhe as provas do pecado envolvido na cultura literária, arquivo de outros saberes.
As chamas reeditam assim muitos outros tormentos da cegueira dos homens e dos seus mal 
avisados poderes: os livros ardem em montanhas, um pouco por toda a parte, lembrando o fervor terrível com que a Inquisição queimava bruxas, sábios e hereges.


Bradbury terminou os seus estudos em 1938 e publica o seu primeiro livro de ficção científica em 1939, estreando-se, profissionalmente, com «Pendulum». «The Lake» é de 1944, entretanto, publica também vários contos e muitas outras obras como «Crónicas Marcianas», «O Homem Ilustrado», «Fahrenheit 451», «Something Wicked This Way Comes» ou «Death Is a Lonely Business» (1985.). A sua obra continua actual.

sexta-feira, junho 01, 2012

MENINO MORTO POR VIRUS, TESTEMUNHO HOJE


A morte é assim, também guarda os seus patrimónios. Os mais antigos, os mais singulares na escassez da exemplaridade do céu e da terra. Esta criança, por exemplo, quase mumificada, assim conservada pelo frio das montanhas, tornou-se uma hipótese testemunhal trinta mil anos depois. Morreu de morte natural, atacada por um vírus cujo ADN foi possível decompor e classificar, tendo sido descoberto que tal agente patogénico já existia naquele tempo, era mortal, e ainda se faz sentir nos nossos dias, embora condensado numa das vacinas usadas e portanto praticamente inutilizado para matar crianças sub-alimentadas e alguns meninos contemporâneos, correndo os riscos da obesidade.
Olho para esta imagem, lindíssima na sua enganadora fealdade, e penso como terá sido frugal (também) a sua história. Alguém tratou dela, em parte, e procurou suavizar a sua viagem, não se sabe para onde. Os tecidos espessos encobrem todo o corpo e há um resto de cabeça que ainda parece capaz de nos olhar. Aqui, contudo, já não existe ninguém, existem peças estruturais do corpo, a despeito da fascinante presença dos resíduos. Milhares de anos depois de uma morte, se o corpo não for destruído pelo fogo, como acontece hoje por moda e falsas razões de espaço. São sobretudo razões financeiras e culturais, e as cinzas da cremação acabam depositadas numa simples caixa, mais ou menos adornada e luxuosa. As liturgias modernas, anexadas ao bom tom de uma certa poética, levam a que muitas famílias despejem as cinzas dos seus mortos sobre a terra de origem, ou na corrente de um rio amado, ou no oceano onde o sujeito terá tido prazeres de juventude e de pujança física, nadando em bom estilo e posando na areia, depois, os seus belos músculos molhados.
Nada disto tem importância, obviamente, mas é possível questionar as escolhas. Congelados na terra e na urna de madeira dura, os meus parentes serão agora ossos sem qualquer metafísica. Mas são dados (como na arqueologia) existentes que se podem investigar, saber a história de um tifo a que se escapou ou os sinais de anomalias que explicam a tristeza dos passos.