domingo, janeiro 13, 2013

A MODA DOS BELOS E ASSASSINOS SUPER CÃES

Em cima, um dono de Rottweiller encapuçado
e em baixo os belos exemplares que gostam de carne humana bem tenra
Cada vez mais, no nosso "jardim à beira mar plantado", cães de raças muito agressivas por natureza, difíceis de treinar e domesticar por um qualquer cidadão urbano, no seu apartamento de duas assoalhadas e varanda, têm provocado graves acidentes, em grande parte mortais, envolvendo adultos e crianças . A situação, que já deveria ter sido tratada com mais zelo e legislação apropriada, porque há "culturas" do pior senso possível, quer na cidade quer mesmo em lugares dedicados à agricultura, quintas e zonas um pouco isoladas. Hoje mesmo, a propósito do último acidente mortal com uma criança, uma senhora teve o desplante de dizer para a comunicação social: «filho meu nunca seria deixado a atravessar a cozinha, quase às escuras, tendo um cão desses em casa, fora ou dentro da varanda.» Esta senhora zela mais pela comodidade do seu cão mimado, que um dia lhe pode comer a mão bondosa, do que pelos direitos naturais do próprio filho.
Nos bairros de Lisboa, este facto alarga-se aos cães facilmente treináveis e que chegam a parecer capazes de assumir um certo lado humano, de presença e companheirismo. As noções de risco, que vêm dos desportos ensandecidos e coisas assim, são agora trazidas para o espaço urbano, mesmo o mais apertado, contrariando a postura familiar dos cães educáveis e fidelizados, rasgando, a par das sujidades que quase nenhum dono limpa do passeio, o equilíbrio destas concepções cívicas.
Ao ler problemas deste tipo, a propósito das mitologias dos comportamentos humanos actuais, consultei a par disso as questões legais que envolvem o convívio com estes animais.
Diz lá, sob o título de animais perigosos, que são vistos assim:
1. Se mordeu, atacou ou ofendeu o corpo ou a saúde de uma ou mais pessoas.
2. Que tenha ferido gravemente ou morto animal e pessoa fora da propriedade do detentor.
3. Que tenha sido declarado como tal pelo seu comportamento detentor à junta de freguesia da sua área de residência.
4. Que tenha sido considerado como tal pela entidade competente devido ao seu comportamento agressivo ou especificidade fisiológica.
Depois são especificadas estas alíneas, identificadas as raças perigosas, incluindo o alargamento da perigosidade pelos cruzamentos efectuados.
Tudo parece cuidado, em conta, e são indicados os procedimentos específicos, em termos legais, os quais terão de ser cumpridos contra multas ou coimas.
Os textos são mais vastos. Mas neles falta, se a moda continuar e os tais cães continuarem a ignorar, de súbito, a tal domesticação que os donos muito louvam: é conveniente, para cidadãos timoratos ou proprietários sensatos, criar (como já se viu no cinema, em super polícias biomecânicos) polícias robotizados ou mesmo carapaças para crianças e cidadãos que se deslocam  em certos locais, incluindo jardins. A gravura acima presume o efeito pretendido. De resto, apesar de tanto nos encantarem os pombos, quase essenciais às cidades e aos seus espaços de recreio, que  nenhum mal nos  fazem  excepto  nos brindarem com alguma caca de passagem, porque razão sanitária as câmaras municipais envenenam discretamente uma boa parte dessas aves, nos períodos em que a sua demografia começa a ser contra-indicada para as pessoas?

sábado, janeiro 12, 2013

"O EIXO DO MAL" OU OS MALES DO EIXO

do pré-genérico do Eixo do Mal

O programa televisivo «O Eixo do Mal» é uma tentativa curiosa de abordar em troca de depoimentos, através de cinco participantes, os problemas actuais da política na crise que o país atravessa. O autor deste blog confessa o seu apreço pelas crónicas e outros trabalhos de Clara Ferreira Alves. Quanto aos outros elementos que participam no jogo, o nosso conhecimento é relativo, embora tenha havido contacto ao nível das colunas que assinam na imprensa. Terá de ser dito, sem ironia e com pena, que os  protagonistas desta "série", momentos depois de começarem um "episódio", parecem subitamente transferidos para «A Casa dos Segredos», deixando-se como que contaminar pelo fechamento do lugar, sem contactos, claustrofóbicos e compulsivos nas falas e nos atropelos, perdendo, em parte, aquilo que melhor os poderia identificar: parecem, de facto, os meninos e as meninas da "Casa", nos melhores momentos de crise de despersonalização, uivando uns sobre os outros. Para além da muito longa pastagem por terrenos temáticos que se poderiam reduzir a dois ou três minutos, todos querem o malho e malham à vez ou todos de uma vez, o que torna ininteligível uma prestação que, em certos casos, caso a caso, poderia mobilizar o espectador. E se falam em comunicação a propósito da crise de entendimento dos  discursos  políticos (que hora são, ora não são), aumentam o ruído e descomunicam por completo. A sua prestação torna-se assim, lamentável. Estamos assim, num meio como a televisão, que tem que se lhe diga, perante uma prestação lamentável e inútil, mal assumida por pessoas porventura capazes de o fazer com boa medida e boa interacção.

domingo, janeiro 06, 2013

PÚBLICO: A SÍRIA ESTÁ A MORRER

                                          Jornal Público
A Síria está a morrer, escreveu em título o jornal PÚBLICO. E escreveu com razão, escreveu com as palavras nos olhos, com as imagens no coração. Foi assim que eu próprio pensei quando escrevi sobre esse Apocalipse e lhe reservei a forma de livro: «NARRATIVAS DA SUPREMA AUSÊNCIA». Escrevi durante dois meses, convulsivamente, rodeado de jornais e de gravações, pensando nos mortos que se revelavam dia a dia e que hoje a ONU, assumindo apenas o papel de observadora, conta por 60.000. Depois, como nem os povos, nem as nações nem os organismos internacionais se mobilizavam mais do que as minhas narrativas, parei de escrever e selei o monte de páginas em forma de livro. Ao contactar com as editoras, entre silêncios e escusas, apesar de eu insistir que estas vozes são mais importantes, na hora, do que as notícias sobre os campos de golfe, ao lado da nossa própria crise, os mails não tiveram resposta e as secretárias enviaram-me respostas automatizadas.
Dizia eu a certa altura:
A terrível realidade agora vivida na Síria ganhou sentidos e contornos apocalípticos. O mundo está perigoso. Os heróis não arrastam consigo nem a ética nem a razão. Transformaram-se em demónios do massacre e da petrificação da História, em o menor temor perante as cidades que destroem, o futuro que empurram para nunca mais, o suicídio bombista que os faz desaparecer, a eles e a centenas de outros em volta, gritando contra os tiranos ao accionarem a arma mais mortífera de que dispõem, sagração ímpia que atinge os homens e é premiada por Deus. É preciso que a religião tenha infectado a alma e a razão, a própria consciência das pessoas, para que o martírio adquira este estatuto leviano e cego, numa luta que vinga Deus oculto dos seus inimigos mais cépticos, antigos ou em espírito. Oculto, isto é: ausente.
Parece que falar desta forma, mesmo por alguém que já publicou muitas palavras, não bate certo, ou seja: não faz sucesso nem negócio. É assim a suprema ausência e a cegueira dos surdos que não nos podem ouvir porque ainda sabem contar o dinheiro só com os dedos.

segunda-feira, dezembro 31, 2012

"SIGHT & SOUND" TROCA CITIZEN POR VERTIGO.

Imagens de Citizen Kane por Vertigo

A revista Sight & Sound, fazendo a vontade aos cultores de Hitchcock e outros lobbies mais ou menos esquisitos, retirou Citizen Kane de melhor filme de todos os tempos e colocou lá um bem carpinteirado filme do velho mito de Hollywood, Vertigo, do cineasta atrás referido. É talvez um processo de ensandecimento e de vénia comercial a um autor sem dúvida de grande mérito, mas cuja obra (depois do seu primeiro período) foi sucessivamente louvada pelas mais diversas razões, assaz sempre discutíveis e em geral menores. Porque o realizador Hitchcock tem uma obra de base americana, engenhosa mas não universal, e que, quanto a nós, nem mereceria (com Vertigo) estar em segundo lugar. A América já colonizou demais os outros espaços culturais e cinematográficos com as mais diversas bugigangas da indústria do cinema, donde nos habituaram a extrair de facto grandes obras, como Citizen Kane, num mar imenso de variedades de consumo, ainda que em muitas delas a marca vertiginosa da técnica e dos meios seja apreciável. 
Acontece que Citizen, de Orson Welles, é uma excepção difícil de superar, feita por um génio do cinema quando ainda tinha 24 anos, um rapaz prodigioso e que já angariara fama nas suas peças de teatro e intervenção radiofónica. Ao tocar em problemas magnos da América do capital e dos grandes influenciadores do poder político, como W. Randolph Hearst, Orson Welles quebrou as estratificações conservadoras do cinema americano e da própria América. Houve depois outros, como Kazan. O cinema de Orson foi sempre excessivo e comprometido com a densidade da realidade humana e do mundo em geral. No filme em questão havia mesmo pontos coincidentes entre as biografias de Hearst e Kane. Para além disso, o filme marcou a linguagem cinematográfica com importantes inovações, tanto nas técnicas narrativas como nos agentes significantes da escrita visual. Foi considerado, por grande parte da crítica especializada, como o maior filme da história até ao momento: figura em primeiro lugar na lista do American Film Institute.
Alguns filmes de Kazan (América, América ou Um Rosto na Multidão) podiam colocar-se à frente do excelente carpinteiro de filmes policiais, freudianos e de suspense made in América, que é Hitchcock. Vertigo não passa de um dos seus mais hábeis exercícios de piscar o olho ao espectador. Nick James, da própria revista Sight & Sound, mostrou-se surpreendido com esta exclusão ou troca. Outros continuam a falar em obra estadudinense. E os comentários feitos à troca de lugares, muitas vezes sob anonimato (porque será?), apontam quase todos, para o melhor filme até hoje, a extraordinária obra de Tarkovsky «Andrei Rubliov». Esta escolha atesta a favor de uma sensibilidade e cultura cinematográficas que podemos situar, com efeito, acima de Citizen.



Planos de VERTIGO, de Hitchcock

domingo, dezembro 30, 2012

MORREU ONTEM O CINEASTA PAULO ROCHA

  
cineasta Paulo Rocha
falecido, com 77 anos, a 29.12.2012
 

        
 plano do seu último filme


                plano do seu primeiro filme «Verdes Anos»

plano de «Ilha dos Amores»

A morte de Paulo Rocha, cineasta que chegou a ser assistente de realização na rodagem do filme «Acto da Primavera», de Manoel de Oliveira, fez o cinema português perder mais uma figura de referência: o jovem que soube pesquisar aspectos da Lisboa dos anos 60, no seu primeiro filme («Verdes Anos») aqui ilustrado. Ele morre pouco tempo depois de Fernando Lopes, de tão grande importância, gerando assim, como que simbolicamente, um vazio nos vazios do nosso país desde há três anos a esta parte. João Mário Grilo escreveu sobre este acontecimento, dizendo: «É um momento muito triste para a cultura portuguesa (...) Paulo Rocha foi o que melhor soube fazer, a relação entre a poética do cinema e a poética do país.» Tanto ele como Fernando Lopes souberam usar a arte para interpretar a vida» coisa que não é nada fácil entre transformações que, durante todo o século XX e parte do actual, descarnaram saberes e técnicas em nome da novidade pela novidade, encobrindo o visível que Klee tentou explicar para pôr ao nosso alcance a complexidade do real. Cada filme de Paulo Rocha, nesse sentido e nas suas normas de simplicidade, é uma luta contra as diversas novas vagas de que foi contemporâneo. «Há uma conjuntura que Paulo lê muito bem e incorpora-a». E assim procura dar a cada filme a natureza dos objectos singulares (como em toda a obra de arte mais rara sempre acontece), de tal modo relacionando personagens e história. Ou, como diz Grilo, fazendo desses filmes, também, invulgares ou grandes documentários sobre a vida portuguesa.
Paulo Rocha pertenceu ao tempo em que «as pessoas tinham muito poucos meios para filmar». Bem sabemos que isso joga contra os  verdadeiros autores, pois o cinema só se torna possível através de alianças muito sólidas, desde os fundos económicos aos meios técnicos e logísticos. Por isso a personalidade aqui citada sublinha com eloquência: o ecrã é também uma pele muito fina entre o cinema e a vida.
Aqui dizemos, pela nossa parte; os homens do cinema já aprenderam, em Portugal, a sua linguagem e a maneira de poupar os meios sem deixar de zelar pelo sentido da imagem e voz que nos oferecem. Os distribuidores e exibidores não aprenderam nada: minimizam os meios, oferecem caixas claustrofóbicas e rudimentares como salas de projecção, para desdobrar, na maior tacanhez, os sítios de «exibição», nunca em nome do cinema, sempre em nome do dinheiro. É preciso acrescentar a isto, na morte de alguém que sofreu na pele tamanha exiguidade, que as salas onde se explora entre nós o cinema não ganham  qualquer «reajustamento»  através de tão equívoca austeridade. E sempre aos berros, como se as máquinas servissem para triturar imagens e bandas sonoras.

segunda-feira, dezembro 24, 2012

TAP NÃO FOI VENDIDA A SALDO, HÁ CARAVELAS

                   TAP, PARTE DA IDENTIDADE DE PORTUGAL

Foi publicado neste lugar um post que contradizia a venda da TAP e fazia algumas considerações sobre o sentido dela mesmo num espaço de crise, denunciando os males físicos e humanos do nosso país em dificuldades. Aqui se enunciavam as catástrofes políticas, sociais e culturais a que temos estado sujeitos, num lamento contra a perda da TAP, última esquadra a lembrar as caravelas do secular destino oceânico dos portugueses, vínculo de uma gasta aventura já em névoa nos testemunhos de tal grandeza nas várias partidas do mundo.
Alguém se zangou com o post e procedeu à sua remoção, facto que denuncio aqui sob forte protesto, sacudindo as más recordações censórias de outros tempos.
Com um avião igual ao publicado há dias, voando em sentido contrário, aqui reforço a notícia de que o governo teve de suspender a venda da TAP, por problemas financeiros não clarificados a tempo pelo comprador. A teimosia na venda continua,
mas ontem, na televisão, Marcelo Rebelo de Sousa forneceu a ideia de um processo de alienação da Empresa cuja ligação a Portugal seria mantida pela pluralidade dos meios e dos acordos entre compradores, inclusive entre grupos nacionais.

quarta-feira, dezembro 05, 2012

CENA NO DIA DA MORTE DE JOAQUIM BENITE, TMA


JOAQUIM BENITE | encenador

Jonas acreditava na sua estrela


Joaquim Benite, homem que se dedicou desde longa data ao teatro e ao seu tratamento através de encenações recuperadas de vários ângulos da modernidade, nomeadamente no Teatro Municipal de Almada. O teatro em si foi uma grande aquisição para o meio e a programação absorveu as mais diversas peças, do clássico à contemporaneidade, tendo como condutor relevante o próprio Joaquim Benite, de quem fui amigo e cujo trabalho só me foi possível seguir à distância, por razões de saúde. Morreu hoje, esse batalhador por uma arte que tanto tem sofrido com as massificações das indústrias culturais e crise civilizacional. Morreu de forma quase fútil, com uma pneumonia pertinente e absurda. Lembro-me das nossas conversas e do muito que ele apreciava Camus. E pelo facto de eu ter feito uma adaptação de Jonas (novela de Camus) ao teatro, a ele a confiei, embora soubesse quanto era árdua a sua montagem. Chegou a estar agendada e numa altura em que eu ainda estava disponível. Fica aqui a capa, não para uma publicidade inútil e logo absorvida nos habituais azedumes e equívocos. É a minha homenagem a Benite, um trabalhador incansável no âmbito do teatro, redescobrindo actores e processos para dar a ver difíceis mensagens de uma arte do espaço e do tempo, vivida num frente a frente entre actores e público. Que Almada possa continuar esta obra.


sábado, novembro 17, 2012

NOVA IORQUE NÃO É SÓ MANHATTAN VISITÁVEL

Nova Iorque 
 
Nova Iorque ou a América e o seu lado invisível

Após a passagem sobre Nova Iorque do violento furacão "Sandy", muitos americanos terão perguntado se a América é de facto a grande fortaleza que pode desafiar o planeta e se as zonas atacadas por aquele fenómeno terão condições para se adaptarem a um clima mais bizarro e aterrador, fruto das leis cósmicas ou da poluente actividade humana. Clara Ferreira Alves escreveu no Expresso desta semana uma pungente e lúcida crónica sobre este acontecimento e acerca da América em geral, os seus recantos mais encobertos onde vivem populações mistas, relegadas para quotidianos absurdos, em graus de medianos e de pobreza incompatíveis com mais furacões.
Viajando numa boleia especial para aceder às Rockaways e à catástrofe no seu melhor perfil, Clara fala-nos de de túneis «fechados, inundados» e de escolas que tentam recomeçar a sua vida embora nem todos os transportes públicos estejam a funcionar. «O caos nas ruas é evidente e os táxis buzinam e quase atropelam as pessoas nas passadeiras. Uma medida de civilidade começa a escassear com a passagem do tempo. Bloomberg, o mayor de Nova Iorque, foi às Rockaways e foi insultado por meia dúzia de moradores desesperados.» A  América, em boa verdade e perante os aspectos obsoletos de muitos equipamentos, tem de repensar as suas infraestruturas e a sua dependência energética. Na recente situação, as centrais nucleares resistiram ao "Sandy," mas as redes de distribuição eléctrica e as vias logísticas capotaram. Os que não abandonaram as casas, por pensarem que acabariam roubados caso se afastassem delas, ficaram na mesma sem nada e agora também não podem  deixar o que lhes resta, porque os assaltantes andam por ali. Alguém contou à jornalista que, num escasso tempo de vinte minutos, ficara com água pela cintura. Usaram o sótão. E viam o mar pelas ruas, enquanto o vento era tal que não ouviam as vozes uns dos outros. «O trauma é imenso.» Uma lágrima desce pela cara de um cidadão, Gary: é uma lágrima silenciosa que ele enxuga com luvas sem dedos.

EM PORTUGAL, ONTEM, UM TORNADO
PROVOCOU DESASTRES DEVASTADORES
NO ALGARVE, EM LAGOA E SILVES

Tornado em aproximação da
costa Algarvia 

passagem por estradas

varrimento em Silves

dezenas de carros destruídos

centenas de árvores arrancadas dos
parques, avenidas e outros locais 

 talvez as alterações do clima e
respectivas catástrofes não sejam
nenhuma história boateira em Quioto
 

E assim decorreu um dia: a Câmara de Silves apelou aos cidadãos do Concelho para uma ajuda. Apareceram cerca de mil pessoas com camiões, carrinhas, serras mecânicas, todos os utensílios. Limparam numa manhã todos os destroços da baixa e ainda colocaram as telhas no edifício da Câmara Municipal, entre outras ajudas assim. O que digo aqui sobre Quioto é que, no dia da sua assinatura, países como os EUA não assinaram, desdenhando dos «boatos» sobre as transformações naturais e produzidas pelo Homem no clima do planeta. Não alinhei nesse boato. Há muito que sei o que esta civilização pode  provocar, refém de certas tecnologias e do petróleo, além de teimar nas apocalípticas concentrações urbanas.
RS

sábado, novembro 10, 2012

BARACK OBAMA VENCEU A AMÉRICA CONGELADA

BARACK OBAMA

Com as crises que assolam o mundo, e apesar de um eleitorado que se deixou congelar com a perda das expectativas criadas há quatro anos por Obama, a América viveu um tempo eleitoral dramático, com os candidatos  praticamente empatados. Dos três debates, Obama saiu por cima nos dois últimos. E o seu mandato foi sacudido por graves problemas, sobretudo com o crash de Wall Street e muitos dos seus efeitos em cadeia, as oposições ao serviço de saúde, a emergência dos sectores multimilionários (como o seu rival  Mitt Romney) numa colagem às forças mais conservadoras. Nos Estados mais propícios a um discurso menos acossado pelos adversários, definindo-se na sua lógica e na sua perspectiva humanitária, Obama arrancou de facto a vitória, logrando um número muito mais expressivo de representantes para o Colégio Eleitoral (303). O futuro que o espera, apesar do seu talento e uma perspectiva mais moderna e aberta para os EUA, não é fácil de enfrentar, mas as suas palavras reeditam bem, de novo, a esperança e a vontade.

ÂNGELA MERKEL, SEGUNDA - FEIRA, 12, EM LISBOA

CHANCELER ÂNGELA MERKEL

Clara Ferreira Alves, na sua crónica da revista do Expresso, escreveu hoje, sábado, a dois dias da chegada a Lisboa da poderosa Ângela Merkel: «o que quer que se tenha desatado na solidariedade da zona euro, está desatado para sempre.»
É inquietante, talvez releve da globalização e de certas heranças alucinantes para mil anos, mas, seja como for, trata-se de um fenómeno cada vez mais impiedoso. A Europa, a que já chamámos verdadeira e polo avançado da civilização Ocidental, já não existe, soçobra na conspiração universal de um capitalismo inominável, com mecanismos odiosos e criações ilusórias, selvagens, sob domínios que se acentuaram com a pulverização  do comunismo e a enxurrada que atravessou (de várias maneiras) o destruído "muro" de Berlim, além do equívoco "jardim" das chamadas grandes potências emergentes. A Alemanha zela por si, mesmo que venha a ser submersa num oceano de milhões de chineses, trazendo de volta as fabriquetas que para lá exportaram. A Alemanha trata dos seus traumas de guerra, reconquistando o velho jeito de mandar, de cobrar a regra, cabelos louros, raça única, amiga dos antigos países ocupados pela União Soviética (onde ganha fortunas) e dos enregelados mas superiores países do Norte, e hoje, com Merkel, é o símbolo avassalador de panos económicos (austeridade e pobreza em vez de destruição de fábricas e bens fúteis) que relevam de previstas destruições do equilíbrio federativo e solidário, estados cada vez mais equívocos neste mundo que nem respeitam uma das mais raras criações do Universo o Homem.
Cercada pelos agiotas da conspiração do dinheiro, da guerra financeira que vai esmagando toda a civilização contemporânea, a Europa, com países afundados ou quase, a caminho de uma pobreza generalizada, é hoje um «lugar de catástrofe». Em redor dos areópagos de cínicas escolas de economia, soprados pelo crash de Wall Street, propagam-se guerras completamente irracionais, na Síria, na Ásia, no Médio Oriente, assaltos militares, golpes de Estado, terrorismo, um clima ao qual a Natureza responde com outras agressões, apesar das populações vitimadas continuarem a voltar ao fanatismo do crescimento, multiplicando o nomadismo das unidades industriais em nome do progresso (apenas dinheiro assimétrico), tudo numa desagregação imparável, milhões de mortes encobertas e de riquezas expurgadas a povos ainda primitivos, «libertados» euforicamente pelas elites da descolonização, continentes abandonados, territórios vazios e cidades explodindo de ensandecidos rios de gente.
Fazemos votos pelo bem estar da senhora Merkel e desejamos que, ao chegar à Alemanha, não a encontre submersa por 500 milhões de chineses, todos finalmente bem pagos.

quinta-feira, novembro 01, 2012

O HOLOCAUSTO NÃO SE ENSINA POR CONTRATO

Numa sessão dedicada à relação Portugal/Israel, o embaixador israelita Ehud Gol no nosso país teceu críticas ao papel das autoridades portuguesas na escassa abordagem do Holocausto e outras tragédias judaicas. Foram muitas as pessoas que se espantaram. Sobretudo os que conhecem muitos casos de apoio aos judeus através de Lisboa e o extraordinário trabalho de Aristides de Sousa Mendes, entre outros. Ehud Gol, com muito zelo e pouco respeito pela história alheia, lamentou que Portugal tenha sido o único país que colocou a sua bandeira a meia haste durante três dias quando soube da morte de Hitler. Entre várias considerações desrelativizadas, o embaixador considerou, em «Portugal e o Holocausto», que, por concordância entre os dois países, o Holocausto deveria passar a ser ensinado no nosso plano escolar, agora e de futuro.
Tudo isto é um pouco estranho: primeiro, porque em Portugal, sem contratos, sempre ouvi referências, filmes, peças de teatro, tendo, a par, lido livros em português sobre aquele assunto, tema, aliás, que toca de perto a minha própria obra artística. A bandeira a meia haste mostra bem como certas entidades estiveram de costas voltadas para os efeitos e mordaças do regime de Salazar. Ele foi responsável por essa bandeira chorando o mito e uma derrota justa. Esta espécie de marketing desenvolvido em torno do Holocausto, quase proferindo a conveniência do seu ensino por contrato, é hoje um mau culto da memória desse infausto acontecimento, sobretudo quando Israel não prima pelo respeito dos vizinhos que conquistou e pelo precário ensino que desdobra sobre o mundo contemporâneo, reclamando para si direitos muitas vezes desfocados ou inexistentes. A evocação, no século XXI, do Holocausto deveria preocupar o senhor embaixador a par de outras realidades em que houve participação internacional e portuguesa, incluindo a morte, em dois meses, de 800.000 cidadãos  entre o Uganda a o Ruanda, bem como a tragédia da Somália, o avanço soviético pelo Afeganistão, a caducada intervenção nesse país dos EUA, as manchas de obscurantismo e grande número de assassinatos de marca talibã, um movimento de medonhos contornos como ameaça à parte mais avançada e lúcida da civilização contemporânea. Enquanto os nazis procuravam exterminar judeus de forma pragmática e absurda, os Aliados cediam à História quarenta milhões de mortos e ainda contribuiram, sem verdadeira legitimidade geográfica, demográfica e histórica, para instaurar na área palestiniana o Estado de Israel.
O reitor da Universidade de Coimbra, perante a referência da «nódoa» da bandeira a meia haste, disse: «Recuso-me a suportar o peso dessa nódoa. O passado é doloroso. O Portugal de hoje não é o mesmo do passado, como a Alemanha de hoje também não é a mesma do passado.» Gol ainda insistiu que os países têm de assumir as responsabilidades pelo passado, depois de ter exclamado que o facto citado «é uma nódoa para nós, judeus, vai aparecer sempre associada a Portugal». Era preciso chamar a atenção ao senhor embaixador para o contexto dos factos e sobretudo para as próprias responsabilidades de Israel, que os países europeus têm reconhecido e ajudado, incluindo Portugal em diversos campos, naturalmente sem o poder e os interesses americanos.