segunda-feira, julho 22, 2013

MORRE OUTRA CIDADE CENTRO MÍTICO DO MUNDO

                                                            


«Detroit já não é o centro do mundo»

Frase lapidar na gíria daqueles que assistiram à grandeza progressiva da cidade de Detroit, nos Estados Unidos da América, centro fulcral da indústria automóvel, exemplo de um certo modo de vida e da arranjo arquitectónico das novas cidades, aliás sobrecarregadas em altura e rodeadas de guetizações e fábricas ou monumentais armazéns de estruturas monolíticas, afinal frágeis, numa ideia do descartável e de futuras substituições através da implosão.
Estas estranhas transformações ligam-se cada vez mais com os modelos económicos e a mobilidade no voraz cuidado com o dinheiro. Tim Lee, Presidente da General Motors nas operações fora da América do Norte, foi o inventor daquela sarcástica caracterização da actual cidade de Detroit. Pode haver ali um quartel general, mas a cidade já não tem força nem poder para honrar a sua história e desagrega-se de forma patética, como todos vimos há dias na televisão, numa amarga fotogenia do abandono. Ali havia brilhante vida nocturna e força económica,  mais  de um  milhão  de  habitantes,  e  agora  as  autoridades  locais  esforçam-se o mais possível para dar algum sentido aos seiscentos mil cidadãos sobrevivendo ao desemprego/emprego. É a mistificação habitual, como entre nós, mercearias pinocas multiplicadas por vários países e com sede na Holanda, por causa de uns troques dos impostos. No caso aqui noticiado, há vários Estados Americanos, e até mesmo no México, onde a mão de obra é mais barata. A Chrysler, agora parceira global da Fiat, vai desenvolver cada vez menos produtos na sua matriz e priorizar modelos já consagrados na Europa. Cá está a Europa, velha de si mesmo, com um euro mal instalado e uma Alemanha a travar tratados e outras cintilações, por agora à espera de umas eleições em Setembro. E em Detroit, a sobreviver a todo o vapor, apesar de tudo e da anunciação dos desertos pós-civilização global e do dinheiro, a Ford cola-se aos Brasileiros e aos Chineses, prioridade aos emergentes e outras utopias assim.
Diga-se ainda: e a agricultura em volta? Enquanto a agricultura não chega, muitos empresários locais mobilizam-se para adaptar os  seus negócios à nova realidade. Que realidade? Antigas empresas montadoras, produzindo peças para automóveis, enfrentam a queda da demanda por parte de outros parceiros. Um senhor Walker disse há dias que decidiu abrir a sua logística e o seu projecto à agricultura, tornando-se o «maior produtor rural do mundo.» Compram-se áreas abandonadas e abre-se uma rede de dependências a partir da futura agricultura naquela zona, com mais empregos e abastecendo de perto a decadente cidade. Diz um tal Hantz: DETROIT VAI SER A MAIOR FAZENDA URBANA DO MUNDO. 
Não importa mais nada. Oxalá ele enfrente a globalização sufocante, com dez milhões de chineses recomprando terras e enlameando tudo com um novo o arroz feito por pobres que enriquecem na conquistas das próprias arábias. E anda Portugal a julgar-se devastado e periférico quando é o maior país da Europa, com uma plataforma marítima imensa onde há de tudo, até chineses com guelras. Habituados aos serviços, os portugueses emigram para trabalhar sob gabinetes de néon e fazem agricultura biológica. Já nem lutam pela sua maior riqueza (O MAR) e, embora sábios da engenharia náutica, deixam-se governar por governos que até Sines esquecem, bem como todos os estaleiros que poderiam florescer nesta faixa de terra abandonada para os lados de Espanha, sendo afinal, olhando para o Oceano, o verdadeiro ROSTO DA EUROPA. Fernando Pessoa o disse. Mas era um poeta e não vivia na Linha.

sexta-feira, julho 05, 2013

A CRISE E O NERVOSISMO DOS COMENTADORES

CONSTANÇA
Esta senhora não é funcionária pública e parece não correr o risco de ir parar à imensa multidão dos desempregados em Portugal. Mas se é uma profissional de comunicação televisiva, agora com bastante trabalho como comentadora política, a solo ou coordenando debates, então é urgente que se contenha nesta última situação, interrompendo os participantes e metendo em cunha perguntas a despropósito. Por outro lado, embora o ecrã de televisão seja carinhoso com ela, a sua intervenção individual mostra-se nervosa, demasiado afogueada e com falhas de respiração. Sem ofensa, parece que a estação onde trabalha possam dar-lhe oportunidade de reciclar a sua formação vocal e o modo como deve ritmar e colocar tanto a voz como a qualidade gestual da sua  presença.

quinta-feira, julho 04, 2013

MAIORIA GOVERNAMENTAL OU MINORIA MORAL?



No limite mais extremo da situação precária em que Portugal se encontra, a depender do maior bom senso e cada vez menos das idiossincrasias  partidárias e pessoais,  Paulo Portas quis seguir a ruptura, esquecendo-se de atar a corda ao pescoço. Mandou apenas um bilhete como o senhor Vitor Gaspar. O PÚBLICO disse: «surgiu ontem ao país como o arauto de uma causa justa, a do crescimento que o chefe do Governo quer arruinar. Mas bastaram 24h para se perceber que as suas palavras representavam mais a imprevidência do que a sensatez, mais a irresponsabilidade do que o sentido de Estado. Feitos os estragos, Portas apresenta condições para manter o Governo, mas sabe-se que o faz mais por instinto de sobrevivência política do que por convicção.

Vitor Gaspar, Ministro das Finanças de um Governo de graves falhas, é só parte da actual crise. Deu-lhe parte de si mesmo, fiel a uma certa teocracia da austeridade. A crise foi aprofundada com a sua tecnicista prosa de uma tecnicista e pessoalíssima retirada de cena. Como se isso fosse banalmente remediável e sem ninguém reparar, Gaspar abriu a porta da gaiola, cogitou um adeus avaro e talvez tivesse pensado que a malta depressa curava a feridaSó abriu a cova europeia e paulista pronta a receber o país. E alguém disse que o rosto de terror só se desvenda ao fim de dois anos.
O primeiro ministro, sempre muito senhor de si, discursou em tom patético perante o país, disse que não se demitia, não abandonava Portugal, e desandou para Berlim, onde anunciou e lamentou o caso Portas, a má vontade contra Maria Luis Albuquerque, e voltou a Lisboa ainda a tempo de perceber que a malta do CDS não havia embandeirado em arco com a gestualíssima retirada de Portas. E recebeu o homem do Independente pela noitinha, em negociações, para remendar a situação. O país vive em suspensão, Cavaco vai ouvir os partidos (que partidos?) e José Seguro, pomposo e ingénuo, grita por eleições, quer o poder sem saber que não há poder em Portugal, e nem ouviu Medina Carreira dizer: «Eleições agora era o pior que se podia fazer.»

quinta-feira, junho 27, 2013

BIG BROTHER: A TELEVISÃO DE RISCO, INSANÁVEL

A televisão corresponde a uma das mais extraordinárias invenções da civilização humana durante o século XX. Hoje liga-se ao mundo e liga o mundo em instantes incontáveis e permite ligar todo o planeta a um evento de suprema importância. E contudo, nas suas estruturas normativas, a televisão em si, como meio de comunicação e de entretenimento, tornou-se inútil, desconstrutiva, refém das receitas de publicidade e da luta pelas audiências, explorando vertiginosamente os piores níveis de invenção formal, da telenovela aos mais aberrantes concursos, da exploração de sorteios ao jogo com a demagogia das artes fúteis, do cançonetismo irrisório, da velocidade capaz de tornar a maravilha ilegível e subliminar, tudo sem regras, em cascata de ataques visuais e de constantes passagens de séries banais, castanhas, armadas, estereotipadas, entre vozes de comentadores do futebol (horas seguidas, marretas mais marretas) e a fala dos analistas políticos frente a coordenadores sem capacidade de aprofundamento e de zelar pela ordem, o que submete os telespectadores a vozes cruzadas, sobrepostas, sem a menor inteligibilidade. Depois há as galas de tudo e de nada, as fantasiosas importâncias deste e daquele, as intrigas, as banalidades, a imitação do génio, o humor do pior Parque Mayer de outrora. É uma infinidade de atrozes brutalidades contra os direitos dos espectadores, entre vinte a trinta minutos de publicidade por tudo e por nada, cortando mesmo fatias de ficção, minutos de telenovelas, sem lei nem roque.
Isto ocorre no momento em que um canal publica durante meses o famoso "Big Brother", coisa já muito repetida lá fora e com os maiores disparates de sensacionalismo erótico de atracção monetária. Em Portugal, a vedeta que conduz aos Domingos este programa, é a Teresa Guilherme, a quem muitos apontam grandes qualidades. Ao Domingo é tudo para ela e para invenções perfeitamente estúpidas a fim de amaciar o tédio e a histeria dos concorrentes encerrados num pseudo-modernismo, sem ligação a nada do exterior, entregues à sua cultura básica e instintos primários de qualquer pequeno grupo enjaulado e cercado de possíveis expulsões muito antes da chamada final e dos seus 30.000 ou 50.000 euros. A voz do Big Brother dá ordens e os desgraçados cumprem, mesmo que estupidificando-se, coisa que os sindicatos, cá fora, não tolerariam nem a Deus, quanto mais ao B.B. É verdade que o encarceramento pedagogicamente orientado, solicitando respostas pedidas à razão, à cultura perante o mundo, ao trato comportamental, poderia surgir como uma experiência frutuosa, analisável por técnicos, psicólogos e antropólogos. Seria uma mais valia para espectadores e pessoas que ainda não se deixaram vencer pela alienação deste tipo de consumismo. E sem a necessidade de gastar os Domingos, a ler a sua escrita laboriosa em fichas dos pacientes. Que viagem é esta, senhores?

 

O SUCESSO CUSTE O QUE CUSTAR,
MESMO A PERDA DA DIGNIDADE

sábado, junho 22, 2013

O BRASIL JÁ ESTÁ A ARDER? SÃO GRITOS DO POVO


Toda a gente ouviu falar no aumento dos transportes em S.Paulo, Brasil. A presidente tinha acabado de visitar Portugal, com alguma simpatia mas sem participar no 10 de Junho, dia de Camões e da Pátria, mãe do grande Brasil, feito de brasileiros a que os portugueses gostam de chamar irmãos. E, de súbito, o povo de S.Paulo veio para as ruas, protestar: era um pequeno erro da engrenagem política. Dez cêntimos a mais no bilhete. Num país que tinha crescido até há pouco a sete por cento, vindo de um desenvolvimento que retirara muita gente da pobreza mais dura, a febre pela História de amanhã abriu festa por todo o lado: para receber o próximo campeonato do mundo em futebol, com dez novos estádios, e tudo o que é preciso para, a seguir, se realizar ali as Olimpíadas, além de, durante os próximos anos se aceder à realização de grandes eventos desportivos, aberto ao planeta. Ora só a Copa do Mundo implica o gasto de quarenta bilhões de euros e os outros casos onze bilhões, incluindo ainda mais aeroportos, portos e hotéis, entre reforço e modernização dos transportes.


Com o passar dos dias, as multidões invadiram cerca de cem cidades em todo o Brasil, sofrendo batalhas com as forças da ordem, por fim exauridas com a desproporção dos factos. Havia protestos em ordem à melhoria dos serviços de saúde, da educação em todos os seus níveis, bem como protecção social, habitação, sistemas viários. O que parecia resolvido no Brasil, era ainda um mundo carecido de maior expansão infraestrutural. O que se compreende, apesar do desenvolvimento entretanto verificado, num país com muitos milhões de habitantes e zonas de menor avanço, por razões endémicas e outras, a extensão da terra, os custos cada vez maiores das coisas e das tecnologias. 
O governo já começou a reunir, procurando anunciar um plano que reforce os campos apontados pelas manifestações de rua. É preciso que os brasileiros agora se convençam da demora de todos os grandes projectos e do combate à corrupção, enviesamento cultural e civilizacional que a globalização veio favorecer num imenso espaço onde as sociedades cada vez menos são capazes de sustentar o tal «admirável mundo novo» de que tanto se falou nos anos 60 e durante as vertiginosas descolonizações que criaram independências e contracções de povos sem recursos de saber para desenvolver com harmonia os territórios onde o horror urbano e as assimetrias da população atrasam o amanhã.
 



                                  POLÍCIA MONTADA,
                                  DEDOS QUE APONTAM   
                                  A CORRIDA E A QUEDA,
                                  OS GRITOS E OS GESTOS




quinta-feira, junho 13, 2013

NEGAM AGORA AOS ARTISTAS O DIREITO DE AUTOR?


 ALEGORIA DO HORROR
    

 Não parece possível. Nada nos deveria dar direitos ao governo para, nem à Europa para nos roubar propriedade intelectual, direitos de autor, aos autores  das manifestações artísticas no teatro, no cinema.  
 Num texto publicado ontem no Facebook, o veterano ator revela-se indignado com o ministro das Finanças, que acusa de “institucionalizar o roubo”, perante “o silêncio do Primeiro–Ministro  e os olhos baixos do Presidente da República. 
   Ruy de Carvalho esclarece que decidiu manifestar  a sua indignação e depois de ter recebido  uma carta das Finanças que indica que já não é “artista” e passou a ser apenas “prestador de serviços”, deixando de ter direitos conexos e de propriedade intelectual.

          Da carta

  

terça-feira, maio 28, 2013

MEMÓRIA DOS MORTOS OU BANIMENTO PELO FOGO

Múmia de grande antiguidade

Certos povos, da antiguidade e dos nossos dias, perante a morte e os seus mortos, cuidam de os preparar para a eternidade, e desenvolvem liturgias da cremação, muitas vezes ao ar livre e com a participação dos que, assim, apelam a uma vida expurgada dos males da terra e purificada. A chamada civilização Ocidental, à medida que avançou no conhecimento do Homem e das suas expectativas, entre a memória, a História, as artes, as técnicas e o sentido de preservação dos espólios de ligação à família e aos seus bens materiais e espirituais, sempre deu prioridade, em face da morte e dos mortos, à conservação mínima dos entes falecidos, quer nos cemitérios convencionais, quer em jazigos ou grandes túmulos e templos, muitas vezes ditando mais tempo, ou todo o tempo, através da mumificação, à conservação dos mortos, alegando a sua ressurreição e o conforto na longa espera. 
    
As mais longínquas sepulturas, embora trabalhadas com um grande sentido de intimismo e permanência, são já a ideia de que a absurdidade da morte só pode ser temporária. Tal como nas mais sofisticadas e personalizadas mumificações, muito desenvolvidas, quer corpo a corpo, quer em túmulos de importância quase inexplicável, talvez tanto como a da própria morte, como aconteceu no Egipto, quase dando a entender na existência de crenças, em especial para os faraós endeusados, que toda a comunidade girava em torno de uma gigantesca luta contra a morte, na preservação sobretudo dos que melhor, no futuro, poderiam voltar a representar a Nação, as suas glórias e de novo o conteúdo histórico das narrativas, cultos, História, heróis ressuscitáveis. Isto configura passos civilizacionais que explicam ou iluminam a própria contemporaneidade, apesar das modernas tecnologias, viragem das sociedades para a produção diversificada, intensificação das metrópoles e da vertigem consumista, entre desenhamentos filosóficos que foram inquirindo o sentido e o não sentido da própria vida, o corte radical da morte, a ilusória guarda de cadáveres ainda com algum sentimento de luta contra a perda. Os existencialistas e os intérpretes da corajosa literatura do absurdo, assumiram a vida nas suas representações de escassa duração, apesar dos serviços e indústrias trabalhadas para durar por séculos e séculos. Assim se minimizava o Homem, sem o deificar enquanto pensador e criador no curto tempo da sua vida. A morte em massa das duas Grande Guerras e a frente de cariz industrial  de uma espécie de indústrias da morte, com os campos de concentração dos nazis, intuito obscuro de apagar da face da terra o povo judeu; a morte, embora sublinhada de forma trágica, foi sufocando os grandes cemitérios e levando à banalização dos seres humanos, sublinhados em vida com importantes direitos, quase destituídos de tudo, da sua própria memória, depois da morte.



Os velhos cemitérios são hoje cada vez mais controversos, não tanto pela sua desnecessidade, mas por uma indiferença pelo sentido da vida, até pelo sentido do seu não sentido, começam a dar abertura às razões de espaço e de várias mercantilizações. O dinheiro substitui tudo o que vai perdendo estatuto e os governos, na globalização que lançou estranhas crises por todo o mundo, não desdenham erguer novas pirâmides -- só que, desta vez, para arranhar os céus e albergar gente, serviços, tecnologia da comunicação, milhares e milhares de presenças apressadas e cada vez mais doentes entre doenças novas e, noutros continentes, doenças velhas. Vive-se da moda e da marca, enfrenta-se a austeridade ou fome disfarçada e abrandamento das dívidas. Os nossos mortos não são propriamente atirados para a vala comum, mas são submetidos a um novo serviço funerário -- a cremação. Se isto é tão óbvio, resumindo-se depois a uma taça cujo pó obtido pelo fogo fica meio cheia de cinzas, as quais podem ficar numa prateleira ou espalhar-se pelo mar, entre flores em agonia, porque não se institui, então, um serviço público de apagamento corporal dos mortos? Se tudo é a bem do sentido prático e da economia de recursos territoriais, porque é que as novas funerárias do fogo ainda metem o corpo numa urna cara e pagam-se sumptuosamente pela fogueira que a Inquisição gostaria de ter inventado?

 porventura, século XXI, a morte
de funeral de marca e muito prático 


 portanto ao pó voltarás

sábado, maio 18, 2013

ENTRE CORTES E EMBUSTES, PORTUGAL NEM SEQUER SE FAZ AO MAR



Primeiro Ministro, ontem, rezando ao povo


Chovia copiosamente a um mês do Verão e alguns lisboetas iam comer pipocas para cinemas em miniatura, olhando filmes cuja expansão sonora tem provocado tantas doenças dos ouvidos como cancros da mama. E eu, cidadão K, encontrei um velho amigo do tempo do décimo quarto ano da guerra "colonial". «Olá, velho amigo, só nos encontrámos duas vezes depois daquela fuga de Angola. Ah, e também na Fonte Luminosa, depois do 25 de Abril.» O velho amigo disse: «É verdade, as voltas que a vida dá. É bom encontrar-te, K. Sabes, eu já estou aposentado, juntei uma pequena poupança, mais de cem mil euros, mas agora com a crise e a ladroagem dos sistemas tive que dividir aquilo por três bancos, porque a Europa Unida já se esqueceu dos direitos e deveres humanos: dizem que só são sacrossantos os tais cem mil, qualquer cêntimo a mais pode vir a ser engolido (roubado) em maiores crises ou complexas situações dos bancos (falências, que hoje até se fingem).
Coloquei a mão sobre o ombro do meu velho amigo e disse: 
«Podes guardar metade em casa ou meter tudo num paraíso fiscal.»
«Não sou capaz. Já dividi as tranches. Como a reforma (pensão) vai sempre para o banco, e como eu até há meses confiava nos bancos, nunca contei sequer a seriedade dos depósitos. Ontem fui lá e vi um pequeno aumento na conta à ordem: era da pensão, mas quase por metade. Fui saber: o empregado, triste, disse-me que isso era o resultado dos vários cortes feitos nas pensões desde o entendimento com o plano da Troika para o plano de ajustamento. O que é isso? E ele, pesaroso: «é o plano de austeridade.» Encrespei-me: «mas a reforma de um trabalho de mais de 40 anos passa por um direito inalienável, para isso servem contratos, cálculos, a própria vigilância do Tribunal Constitucional. Quando querem adiantamentos por conta do IRS, mandam pelo correio um papelito com a conta: é um aviso de dívida que eu não contraí mas sempre é um aviso. Agora não: sou confrontado com um corte silencioso e cego, sem que ninguém tentasse saber se eu não entraria logo na falência, porque as despesas com senhorios e outros ganhadores do mesmo tipo podem provocar despejos, palavra imunda para figurar em qualquer lei, mesmo essa.»
«Oiça, meu velho amigo, há um deserto à nossa frente e eles andam a discutir se fingem que pagam mais taxas (cortes) nas pensões ou engolem mesmo as medianas pensões e reformas com mais cortes, o que lhes está à mão de semear e não tem nada de reajustamento nem de civilizado, é só mais fácil, como num casino falsificado em que se arrecadam jogo perdido a três milhões de cidadãos frequentadores». E o homem, meu velho amigo, arregalou os olhos: «então estou frito: ou mato-me ou mato parte dessa gente que manda de olhos vendados. Isto começou com o Saramago e o Nobel: cegou as pessoas de manhã, em branco, deu cabo deles todos, e depois fugiu para Lanzarote, deixando o mundo submetido aos cegos mafiosos, que violavam mulheres e roubavam tudo o que podiam.»
«Eu, K, do "Projecto K" já pertenci a uma PP e tenho as massas arrecadadas na Suiça. Ultimamente tenho sentido vergonha e trouxe algumas poupanças para Lisboa. Os debates estão cada vez mais acesos, o tempo corre, as decisões contradizem-se, o dinheiro desaparece, o governo vai assiduamente passear à Alemanha e beijar a senhora Merkel, a recessão começa a surgir um pouco por toda a parte. A Troika não sabe nada do nosso país, senão através de papéis e de relatórios básicos para medidas absurdas, sem amanhã, iguais para todos os países, a Europa praticamente desfeita do sonho inicial, nacionalismos outra vez, os países do norte doidos de sobranceria, dizendo que a malta aqui não trabalha. O sul é que gerou o mundo onde eles se acoitaram, metidos no frio e na noite, fumegando carvão até ao fim da Revolução Industrial. O fim? Talvez. Agora é só velocidade de cruzeiro e balelas de grandes grupos económicos a sugarem novas energias, novas tecnologias, para não terem concorrência e ajoujarem os clientes/contribuintes. A Síria arde e o mundo é um mundo sem razão. A ditadura das finanças abarca tudo e não abre a porta à economia e à recuperação inovada de uma perspectiva de desenvolvimento sustentado. Qualquer cidadão percebe hoje que o aumento dos prazos para pagamento de dívidas é o aumento do deserto e em Portugal, onde toda a população se acomoda miseravelmente ao litoral e às grandes cidades, com uma qualidade de vida aviltante, há muito deserto interior para preencher, revertendo propósitos e dependências. Passos já não sabe onde esgaravatar o dinheiro, porque só quer dinheiro e não ideias, projectos. Avanços. O Gaspar ensinou-o assim, trabalha sem ver o mundo e sem comparar os momentos da História, dos homens e dos dinheiros. Não basta um computador e uma teoria já falida, desempenhada por funcionários hirtos, meros contabilistas apenas com gente a seus pés.» 
O senhor K ficou pensativo: fez contas e chegou à conclusão que tinha de emigrar para a Suiça ou fazer retornar o dinheiro. Porque o plano da União de Bancos (na Europa), a revisão dos tratados, a intervenção consensual do BCE, emissão cuidada de moeda e ajudas de um fundo Orçamental Europeu, apurar funções e poderes do parlamento e da comissão, ajuizar das capacidades e neutralidades do Conselho Europeu.
Em Portugal, por outro lado, é preciso dizer ao governo, nem que seja a poder de raptos e formação forçada, que despedir quadros em nome de uma reforma da Administração que ainda não está dimensionada, é de loucos, mais aquela coisa eufemística da "requalificação". É urgente fazer ver aos nossos governantes que arranjar mil biliões de euros aqui e além não é reforma nenhuma do Estado. É preciso primeiro saber o que se quer que o Estado seja, perante a História, a Cultura e as realidades da miséria actual: isso é trabalho de  sábios (não de gestores bem pagos), incluindo as Universidades e certas Instituições técnicas. O plano da reforma só precisa de papel, canetas e computadores, além de secretários para configurarem organogramas e textos pré-legislativos. Depois, a forma final discute-se e só  então se avialiam os montantes para os diferentes sectores e projectos a médio e longo prazo, quantias para o trabalho e para os sectores de controlo e gestão de recursos. Ouve-se falar em dinheiro e parece que só com ele logo a reforma resulta: não resulta "coisíssima nenhuma". É preciso planear, inovar os planos, avaliar bem os recursos. Porque é que os nossos políticos ainda não recuperaram o conceito do mar, do oceano, e de tudo o que ele nos pode dar? O Atlântico mata a nossa periferia, por muito que a Alemanha se arranhe: o Atlântico garante-nos a CENTRALIDADE -- de nós, nos vários sentidos para as Américas e África e Europa, placa giratória de distribuição e pontos para onde exportar as nossas originalidade e competência científica e tecnológica.

O amigo do Senhor K suicidou-se hoje, perto da Assembleia da República e deixou ao país uma nota nova de 5 euros e um jantar oferecido por um restaurante solidário.  

segunda-feira, abril 15, 2013

MUSEU DA CORTIÇA, EM SILVES, DESBARATADO PELOS CARRASCOS DO PATRIMÓNIO




Confirmaram-se os piores receios. O espólio do Museu e da Fábrica foram encontrados destruídos e, quanto ao Museu, o seu complexo acervo, segundo informações, terá sido espalhado por vários lugares da freguesia de Silves. Apesar de uma deslocação para exposição em Faro, de alguns materiais, segundo um protocolo com o Arquivo Distrital da capital algarvia, não se apurou se tais peças terão regressado, quando e como. Este crime, que revela a irracionalidade dos executantes de tal barbaridade, foi (bem tarde) fruto de uma queixa por furto de materiais e equipamentos à GNR.
 
Um prémio europeu  que consagrava o museu e toda a história da indústria corticeira nesta cidade



sábado, março 30, 2013

JOSÉ SÓCRATES E DUAS CITAÇÕES BEM OPORTUNAS

Desta vez não vou escrever apenas por minha conta: vou viajar por dois textos notáveis, de grande lucidez relativamente à insanidade global deste mundo cada vez mais perigoso, profundamente castigado pela voracidade do dinheiro e do poder, a Europa em perda e os mais poderosos fracturando o que deveria ser uma União solidária na própria pacificação das diferenças.


José Sócrates, ex-primeiro ministro em Portugal, derrotado de forma polémica em 2011, fez votos de silêncio e partiu para França, onde se dedicou, durante dois anos, ao estudo da ciência política. A ausência ainda foi enrolada, pelos "mentideros" de Lisboa, em celofane dourado, boatos de vida luxuosa, mais boatos que é típico, entre nós, fazerem de notícia e alimentarem os jornais. Sócrates, em terrenos de surpresa, voltou a Portugal e, a convite da RTP, concedeu uma entrevista de auto-defesa, retrato do que terá feito de correcto no nosso país e comparando situações, nomeadamente perante o caos de austeridade que nos vai engolindo. Usando uma metáfora, Sócrates comparou a estratégia do governo a um mergulho num poço, no fundo do qual, entre lamas, continua a escavar para aprofundar a famosa austeridade. E disse: se eles se deixassem convencer seria preciso gritar-lhes -- parem de escavar no fundo do poço. Daí nunca mais poderão voltar. É preciso parar a escavação.

Clara Ferreira Alves

«A neurose colectiva fez de Sócrates uma celebridade administrada pela ausência em vez de um chefe político. (...) E os comentários dizem tudo sobre os famosos ajustes de contas. Pode ser que Sócrates tenha regressado para ajustar contas com o Presidente e os outros, mas os jornais usaram esse regresso para ajustar contas com Sócrates. Nem sei bem porquê. (...) Acho tão inútil odiar Sócrates como odiar Merkel. No dia em que em que ao espião privatizado Silva foi oferecida uma sinecura na Presidência do Conselho de Ministros, acto político que nos deveria fazer vomitar, as pessoas escolhem odiar Sócrates. No ano em que soubemos que uma quadrilha de amigos do Presidente não paga o que deve ao BPN e temos nós de pagar por eles, milhares de milhões, as pessoas escolhem odiar Sócrates. No mês em que a nossa saída do euro está por um triz, as pessoas escolhem odiar Sócrates. Que lhes faça bom proveito. (...)
«Se Sócrates fosse o bandido que fugiu para Paris e para uma vida de luxo com dinheiro roubado no Freeport (campanha mais infame do que a da homossexualidade) não tinha regressado. Vi um homem de consciência tranquila. A pergunta que me interessava ninguém a fez. E a Europa? (...) O que faria Sócrates hoje para acabar com a austeridade e garantir os pagamentos? Tenho curiosidade de fazer esta pergunta a  um  líder político  em  vez  de esperar que  um  funcionário, o actual chefe do governo ou o da oposição, me responda.»



Miguel Sousa Tavares

«Primeiro que tudo e para memória futura (até porque o tempo se encarrega de inverter  situações e posições): que fique registado que muito boa gente defendeu, sem pudor, que José Sócrates devia ser silenciado para sempre.
posto isto, a questão imediatamente relevante era a de saber porque quis, ele próprio, regressar agora. "Por direito e por dever e porque está na hora", respondeu Sócrates. Quanto ao direito, com aquela ferocidade e eficácia que é bem conhecida e justamente temida: dois anos da "narrativa" de que todos os males de que padecemos se devem aos dois anos de governação irresponsável de Sócrates, entre 2009 e 2011 -- em que ele sozinho terá contrariado a vontade de todas as forças políticas, todas as forças económicas e todo um povo, que nada mais suplicavam do que poupanças do Estado -- tudo isso ficou seriamente abalado depois da longa prestação televisiva do réu. Compreende-se bem porque o queriam calar para sempre. (...)
«Desde ontem que anda um animal feroz à solta na cidade.»

domingo, março 17, 2013

UM REQUIEM PARA REFUNDAR QUE PORTUGAL?

jornais e quotidianos de um país que se enganou na Europa

de um filme de Paulo Rocha

Abri mais uma vez o jornal e senti uma grande tristeza e rasguei aquelas folhas de papel atulhadas de fotografias e de letras subitamente encavalitadas na névoa dos meus olhos: pareciam flutuar numa qualquer água suja, fundo de terra afundando-se. Havia por lá palavras como «espécie humana», como «sangue», «recua» ou «Kyoto». Antes de minorar o fumo tóxico que chega a encobrir Pequim, obrigando a população a usar máscara, devia pensar-se no sentido que tomou a actual civilização, nos impérios falidos e nos que se julgam com direitos sobre os pobres que sobraram. Para que serve a arrogância nórdica, incluindo a germânica e a britânica, se o Mediterrâneo ainda está a atear a sua Primavera e a China está para chegar (já poluída) se calhar abraçada à Índia, pujante e fracturada, espalhando violações por grandes manchas humanas sem segurança mas carregadas da maior produção de cinema coleante do mundo.
Portugal fez uma descolonização tão repentina e aberrante como o surto de austeridade da Troika, depois de uma guerra de catorze anos, em que houve tempo para todas as refundações e não se tentou nenhuma, tendo sido espoliados dos seus bens, afectos e velhas famílias, quase um milhar de portugueses, aos trambolhões, numa ponte aérea internacional, voraz, sem que os militares tivessem, no mínimo, assegurado a nossa honra e a dos adversários, que visivelmente não estavam à altura da sua. Mário Soares não tem nada que se molestar com isto, eu estive em Angola e sei o que digo: nem a guerra tinha razão de ser nem o epílogo podia ser decidido por gente ensandecida, apaixonada ou politicamente de cabeça quente. E as forças armadas que não se amofinem, porque se tinham pressa em sair dali, o que já podiam muito antes de haver tentado, no mínimo reformavam-se, a par das populações que o desejassem, e CONTINUAVAM LÁ, em plena independência dos emergentes países, até que os verdadeiros cidadãos e suas naturais reformas fossem transferidos para lugares apropriados, sobretudo na Pátria que segurara as pontas com tanto sacrifício. Salazar pensou assim, recusou emendas, e teve lá o seu voto julgando-se sempre Presidente do Conselho. A sua visão do futuro, mesmo quando a guerra já durara uma década, era mais do mesmo. Essa loucura repete-se hoje, aqui, no desemprego e na fome.
Como agora, numa Europa a que aderimos em jeito cosmopolita, e que, após o desenho da utopia, começa a desmoronar-se, fracturando-se por nações que se habituaram a ser diferentes entre si, respeitando-se assim até lhe derramarem dinheiro novo por cima, desde que cedessem (como aconteceu a Portugal) meios e produções centenárias. Falam no esbanjamento do Sócrates, mas o desastre começou logo com o PREC, com as apropriações de bens alheios sem medida jurídica, sem lei nem roque, sem amanhãs cantando. Aquilo não era bem uma revolução e por isso não tinha nenhuma legalidade revolucionária, o que se pode analisar caso a caso, antes de se restabelecer a justiça (lenta e por vezes mesmo cega) e um princípio constitucional que chegou a estar cercado no edifício da Assembleia que o procurava democraticamente definir.
Por isso chegou a vontade de recolher as algas da maré: calibrando maçãs e laranjas. Mas os frutos bons que não tivessem a medida da Europa caducavam para espaços de mendicidade. Os velhos do vinho foram comprados para venderem as vinhas, os pescadores para abaterem a frota, os agricultores para se aconchegarem em casinhas com uns milhares de euros para a sopa. O governo abriu braços e pernas, desatou a usar dinheiros e fortunas, fundando «fundações» de betão, políticas de crédito à habitação e mil e uma coisas que atingiram as compras lunáticas dos Ferrari. Os grandes impérios económicos, cada vez mais habituados a reinarem sobre ditaduras e democracias, envenenando a economia e  tudo o que a pobreza enganara de sonhos, caíram sobre povos inteiros, uns rebentando do miolo, com o dólar, outros prosseguindo a sua globalização e mandando os credores pararem créditos, exigindo pagamento de dívidas (colossais) com as quais afinal haviam vivido à tripa-forra.
Veio o governo de Passos e de Gaspar. O país estava de rastos e os mais ricos sopravam dinheiros para tudo quanto era sítio seguro. Foi sempre assim. Os «cortes nas gorduras» é uma expressão afinal popular e não técnica; e a mando da Troika a austeridade, com mais impostos e raspagens de emergência, fizeram o país ajoelhar em menos de um ano, sempre num descasque mal esclarecido e sem qualquer conotação com as reedificações económicas perante milhares e milhares de falências e milhares e milhares de desempregados, sobre os quais se somam, pelo menos, duzentos mil emigrantes. Uma espera digna, com manifestações dignas, tem facilitado a vida a um governo de palavras intermitentes e de nenhuma narrativa capaz de explicar cada fase do mergulho. O ministro das Finanças, é cada vez mais um personagem beckettiano e menos ministro.
Projecta bonecos e fala palavra a palavra, por vezes redundante, apesar da escrita. Todos, lá fora, o consideram figura de destaque. Os pobres de Portugal não percebem nada disso. Dizem: aquela história da idade do gato era uma saudade qualquer dos gatos que lhe faltam.
Agora faltam ainda, por mais um ano, ou dois, ou dez, ou vinte, mais quatro milhões. Em que país civilizado tais reviravoltas continuavam a ter credibilidade ou gente com paciência para tanta raspagem do tacho sem um abrir de janela. Que não há alternativa. Que vamos no caminho certo. Os gregos aprenderam depressa essa lição. Aqui há tempo, Passos prometeu que «não ia esticar a corda» -- falava da austeridade sobre os portugueses. O pior é que a corda já partiu e ele não deu por isso, continuando a ver passar o rio da austeridade sem saber como pôr o país a flutuar.
António José Seguro ensandeceu, faz demagogia, ergue cada vez mais a cabeça, mas afunda o PS com a actual maioria.
E a alternativa?
Pois meus amigos: lembram-se da ponte aérea e do colonialismo despachado num ápice? É o que temos de fazer. As coisas que estão a mais e ainda disfarçadas devem ser roubadas ou destruídas. As forças de investigação e judiciais devem controlar todas as saídas patrimoniais e, no plano virtual, assaltar os bancos e os grandes vendedores cujo dinheiro voa para parte incerta, desfazendo tais nós e recolhendo valores mal parados. As rendas voltam a subir, pela mão dos tais senhorios bondosos: qualquer buraco custa 800, 1200, 2000 euros. Daqui a cem anos vão chorar porque ninguém pode fazer obras com rendas da 1200 euros. Um estado moral e moderno deveria criar tectos de compra, de aluguer, sempre numa escala que não despejasse as pessoas na rua nem as mandasse emigrar, antes as colocasse num grande plano ordenador do território, entrando pela terra adentro e criando condições novas para a agricultura e cidades redimensionadas. O que há para refundar não é o país, propriamente dito, mas a rede de contradições do governo e a falta de perspectiva  para tornar paralelos o nivelamento ajustador (reequilibrando o que for necessário) e o plano inclinado (a subir) onde já brilham muitos sucessos e faltam outros espaços de produção bem ponderada e inovadora. 
Esse trabalho não pode ser como uma guerra de catorze anos e um milhar de espoliados: está-se a repetir, com duzentas mil casas novas mas vazias, o abandono das propriedades primeiro arrancadas aos famosos latifundiários e os oportunismos perante quem chega de mãos a abanar ou quem parte da mesma maneira. Essa já não pega. As grandes e cegas teimosias alastram pelo território sem nada produzirem. Depois ficam impunes aqueles indivíduos que chuparam o BPN (não gosto deste lugar comum mas é o que temos de mais sensacional, depois das relvas e da idade dos gatos). O medo não é o do filósofo, medo de ser português. O medo é o de não ser português em Portugal, onde há tantos recursos fora do manejo golpista dos dinheiros e das megalomanias estradistas, surfistas, futobolísticas.
Do Editorial Diário de Notícias 17-03-2013
O ministro das Finanças conseguiu retirar o País de uma encruzilhada e empurrá-lo para um beco sem saída. A austeridade não é, como prometeu Vítor Gaspar, o passe matemático que nos levaria ao crescimento. Falhou. Não se trata de deificar as previsões. Todas podem falhar. Até Passos Coelho já diz que «previsões são apenas previsões». O pior é que não são apenas. O País não é uma previsão, a recessão que nos arrasta para a pobreza não é uma previsão, o défice que ultrapassa todas as barreiras não é uma previsão, a dívida que cresce descontroladamente não é uma previsão os direitos perdidos e ameaçados não são uma previsão.
Hoje mesmo Vítor Gaspar disse «não sei», «não tenho plano B, nem plano C», numa conferência de imprensa onde se colocava o problema da inconstitucionalidade eventualmente confirmada até dois mil milhões de euros pelo Tribunal Constitucional. De súbito, a incompetência constitucional do governo pode colocar-se como um impasse e uma demissão. O euro não poderia ter sido desenhado assim nem estar sujeito a uma indevida partilha: quase pleno emprego a norte, colapso quase mortal a sul, já com xenofobias intragáveis.
O líder socialista, que agora assume a ruptura definitiva com o Governo e já não exclui uma censura parlamentar, mesmo que ineficaz, sabe que está mais próximo de ter de assumir as suas responsabilidades.
Mas qual é o caminho para o futuro  que propõe António José Seguro? As sondagens são aterradoras no balanço entre os dois maiores partidos: dir-se-ía que o país não olha para os líderes dos partidos, todos, incluindo o CDS, comentando «venha agora o outro». Não: o que o país, mesmo aquele que não vem para a rua, está a afirmar é que, no termo (ou antes) deste mandato, todos têm de jogar para a mesma baliza. Será uma espécie de ruptura com o sistema, uma obrigação ética, política e nacional.