segunda-feira, outubro 21, 2013

CRÓNICA REVOGÁVEL DA CRISE SOBERBA

uma imagem que atormenta o homem
uma imagem que atormenta o fim do homem

fila de autocarros na passagem da ponte
 25 de Abril, manifestação da CGTP

19 de Outubro 2013, em Lisboa

Há cada vez mais faladores falando nas televisões sobre as lamas que elas próprias vomitam e transmitem, entre doses mamutianas de publicidade. São gente sem origem  ou sem rosto, marionetes da imprensa escrita e falada, opinadores das dúvidas actuais, embora capitalizando euros sem conta em volta dos conceitos medievais que os governantes do nosso país defendem com brio fundamentalista por causa da dívida soberana. Os faladores comentadores comentam falando acerca das sucessivas medidas cortantes que vão desabando sobre milhares e milhares de portugueses, funcionários públicos, novos e velhos, nos salários e nas pensões, tudo em massa e tudo pelas ordens olímpicas de credores encobertos, enormes, gananciosos, cuja tradicional corrente de créditos foi de súbito travada, um pouco por toda a parte, cobardemente, sob o jugo das famosas agências de cotação, claramente histéricas e nada subtis. Começou tudo onde teria de começar, nos EUA, entre fraudes financeiras indizíveis e pelo seu expansionismo negro a grande parte do mundo, já de si endividado e trocando as fronteiras pela cancerígena globalização. Os tratados que configuravam atrapalhadamente a União Europeia foram sendo esquecidos e as mãos alvas  da Alemanha e da França deram-se ao luxo de pensar e mandar por eles, os tratados, emitindo ordens, penalizações, níveis de deficit, planos "troikanos" de ajustamento austero e feitos de roubos benemértos, calculadamente. O mundo ardia sem perceber como, nós na linha de fogo, sem império, pobres antecipadamente pela ordem da Europa sobre os bens de trabalho e produção, barcos, searas, vinhos, mares, gente, terras ou culturas. Deram-nos dinheiro para restaurar patrimónios, infraestruturas, vias de rodagem, serviços, se calhar sevícias disfarçadas. E tudo recomeçou pela mão do Passos e do Gaspar e do Portas. Tinham tesouras fabricadas em Dresden, geriam cavalgaduras recentes, da JSD, JSDD, JSKD, entre outras. A linha liberal enrolou-se em voltas de lana caprina, afastando-se da coroa «grisalha», ministros do tempo de Mário Soares, antigo lider do PS e agora arauto da caverna da oposição, arredores dela, bramando palavras de apito, porque tudo é demais, até parece «delinquência». Já a esperança se esvai e a ministra das Finanças, esbelta de falas rápidas, diz que lá para diante tudo se arranjará. Logo os povos passaram a manifestar-se em oceanos de pessoas, descrendo de terem que passar fome para pagar em pouco tempo a dívida insana, com juros altíssimos, impróprios de qualquer civilidade, no conjunto somando o dobro ou o triplo da própria dívida, soberana e desalmada. Ninguém percebe nada, nem Deus.
Ora os faladores explicaram mal os casos normais de personalidades angolanas que, colocando dinheiro em Portugal, entre elas se desentenderam, accionando processos em Luanda e depois em Lisboa. As coisas andavam nas bocas do mundo dos dois países e hoje as gargantas desafinam, parecem falar de fanatismos clubistas. Rui Machete, nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros, ao falar na Rádio de Angola, adocicou o caso dos processos, que a fundo ninguém conhece, pediu desculpa por coisas mal entendidas e menores. Desabou tudo em blasfémias, o Jornal de Angola acusou os intelectuais portugueses de corrupção. E o hoje Estado Independente compra milhões de coisas na avenida da Liberdade, em Lisboa e arredores, porque em Luanda e em toda a Angola ninguém adjectiva feio. A grande fortuna do país, onde o povo gosta de muita gente de cá que fala português como eles e da sua diáspora por cá, como a nossa por lá. Oxalá os angolanos possam nivelar melhor as diferenças entre pobres e muito ricos, pois há nesse peadaço de África poder para isso. Eduardo dos Santos falou para dizer que as coisas por aqui não iam muito bem, coisa que é do mundo inteiro, incluindo Angola, a própria América ou a China. Os Agolanos que compram e investem largamente nas lojas luxuosas de Lisboa sabem bem dos seus irmãos bem colocados que vivem em Portugal, ocupando linhas de decisão e poder notáveis, muitos dos quais já sedimentaram para o futuro uma vida aqui. Falando simples, por mim penso que se a nós não cabe emitir lições de moral, a verdade é que Angola também não tem esse direito, nem todas as mãos são alvas, sem um torrãozinho de sujidade. Ninguém tem tal coisa assim, sejamos justos. Os nossos procuradores são vítimas da grande liberdade em redor, mas esse preço é minimizado, pois eles procuram zelar pela justiça, sem distinguir generais de soldados, entre melindres difíceis de gerir. Como se reclamou para iguais personalidades em Luanda. O discurso chantagista não deve acontecer nem lá nem cá. As escritas de ambos os lados devem esquecer os euros e os dólares e os quanzas, porque qualquer dia Deus acorda desta longa e suprema ausência, zurzindo toda a gente em todos os continentes. Acabará com o petróleo e derramará dilúvios para harmonizar os restos em bonomia, uma Arca de Noé para cada pedaço de terra. Já dizia a Bíblia, que foi sobretudo falada para adormecer os meninos maus vindos do tempo neolítíco, entretanto neo-liberal. Então, Obama, acaba com isto e os teus empedernidos republicanos. Olha que vamos todos terminar como talibãs.

quinta-feira, outubro 17, 2013

É PRECISO CALAFETAR A CARAVELA PORTUGUESA




Portugal criou as mais diversas embarcações, entre as quais as caravelas, belas naves de navegar e de que todos nos lembramos. Desenhámos e modelámos em bom pinho outras peças de maior calado, as naus, grandes veleiros que transportavam tropa, mercadorias e demais dentes através dos oceanos, o Índico, o Atlântico, ligando Lisboa a África, ao Brasil e à Índia. Sofreram muito os nossos marinheiros, edificaram-se fortalezas nos pontos fulcrais da costa deste império. Para os que governavam o país, entre a corte e os soldados, o povo, os camponeses, os que andavam por fora (sem comunicações céleres) sobravam um pouco os nossos primeiros imigrantes, emigrantes, moços que por vezes viviam povoando as terras, mandado nelas, casado com mulheres de lá, morrendo longe. Afinal como agora, numa altura em que nada nos resta dessa memória, tudo se foi esquecendo, até na Escola, tudo foi dando lugar à mediania, à República e à Ditadura. A Ditadura, ao querer honrar aqueles tempos, foi sempre incompetente na escolha dos artistas e dos monumentos, apesar de subsistir para todos (os que tivessem olhos) o mosteiro dos Jerónimos e outros casos assim. Mas era só para olhar, esquecendo. E o que foi mesmo para olhar, foi a Exposição do Mundo Português, que deixou sequelas, novas fantasias, novos academismos.
Estamos enfim na Europa, enganados mais uma vez, porque esse espaço é um antigo teatro de duas Grandes Guerras (com a Alemanha como adversário principal) e nunca aqui se ganhou um verdadeiro sentido de solidariedade, sendo mais uma vez a Alemanha o motor centralista de tudo, sem que os tratados funcionem, nem o euro, nem os resgates. E por isso Portugal, a quem abateram a frota pesqueira, a marinha mercante, grande parte da agricultura e alguns outros bens da nossa tradição e da nossa natureza, sendo afinal o verdadeiro rosto que a Europa tem virado para o Oceano a ocidente, está hoje empobrecido, abandonado por novas vagas de emigrantes, o casco roto, as velas rasgadas, a carga vendida ao desbarato, sem rei nem roque, sufocando pelas assombrações do Governo, na falta do dinheiro escondido, pelas fundações e institutos ou empresas públicas. 
Um dos nossos principais políticos desta viagem dita democrática, Mário Soares, foi tudo um pouco, redentor e Primeiro Ministro e Presidente da República, está entretanto na onda dos 90 anos e continua escrevendo e «descolonizando» tudo em volta. Não sei se recebe a sua reforma de Presidente nem o subsídio do Estado para a sua Fundação. É aventureiro ainda, muito depois de ter permitido, entre Governos Provisórios, que se consentisse na trasladação violenta da população branca que se encontrava em Angola, lá deixando bens, indústrias, tudo, e a isso chamando descolonização. Vê-se, com o devido respeito que nada disso aconteceu, basta ouvir o Presidente de Angola, Eduardo dos Santos e o Jornal de Angola que nos acusa de vivermos sob o mando de elites intelectuais corruptas e um garbo intolerável de paternalismo. Esta do paternalismo era do tempo das revoluções e das guerras pela independência. Já não tem cola, é preciso inventar melhor. E se Mário Soares, que o país continua a saudar, se esqueceu da necessidade de contenção ou da fala apropriada para tratar governantes nacionais e estrangeiros? Não seria bom que os rapazes do governo, a quem ele chamou  delinquentes, palavra juridicamente irrevogável, lhe  movessem um processo por difamação ou falta de respeito. Houve mais graças destas e pela parte do mesmo autor. Eu estou em desacordo com o Governo, posso chamar-lhe os nomes que quiser em casa, mas em público e publicadamente não me atreveria, apesar do mal que já me fizeram -- porque em nada vivi acima das minhas possibilidades, asneira que apenas cobre anteriores entidades de gestão e certos grupos de casino ou empreitadas deslizantes. 
Delinquentes? E os mercados? E as empresas de anotação? E os erros da Europa, o escárnio com que nos tratam os SENHORES do Norte? Essa dicotomia e o modo como um só país manipulou os destinos da Europa, impedindo medidas, convocando reuniões, passando ao lado do Parlamento e da Comissão? Que plano é este da Troika e que júbilo os nossos amigos europeus exprimiram perante o actual Orçamento de faca e alguidar? Eu acho sinceramente que a escala mamutiana dos juros da dívida, que a tornam impagável, deviam ter tectos de concertação internacional, porque os actuais, por qualquer minuto esquizofrénico dos mercados, são de um nível de agiotagem sem nome.
Um abraço ao Dr. Mário Soares: a perspectiva da sua linguagem de hoje deve ser corrigida. Porque este Governo pode ganhar pontos de desculpa e o senhor pode perder o nosso  antigo respeito. Ou então solicite a dos Santos para nos dizer se tem conservado bem o património que milhares de portugueses tiveram de abandonar, sem preço, à avalanche de gente que foi empurrada para uma estúpida ponte aérea, sem futuro nem passado. Falo da maioria, dos verdadeiros inocentes.

terça-feira, setembro 24, 2013

PAÍS SEM DINHEIRO E OS MARRETAS DO RESGATE

                                  Passos, o nosso Primeiro


Medina, o nosso Carreira


Medina Carreira, bom arauto das análises económicas e nunca pronunciador da mais vulgar descoberta de soluções substantivas, disse ontem que não há dinheiro, Portugal não tem dinheiro, e por isso é inevitável cortar segunda ou terceira vez as pensões dos que alguma vez trabalharam, sob tutela do Estado, para o país. Um amigo meu telefonou-me e disse-me que estava à beira da falência, porque a sua pensão de professor universitário tinha sido cortada logo no início do actual processo de ajustamento e iria, com os novos cortes, ficar reduzida a 1200 euros, o que colidia com o aumento irracional da renda da casa de 100 para 1000 euros, pelo que lhe restavam uns inacreditáveis 200 euros e ninguém acreditaria, nem as Finanças nem o Primeiro Ministro, que ele, sua  mulher e filho, pudessem ter no Banco apenas 5000 euros. Vivera tempos difíceis com doenças dos velhos pais, um a seguir ao outro, situação que o obrigara, além da bondade do Serviço Nacional de Saúde, a tratar em casa tanto a sua mãe, com um cancro irreversível mesmo depois das arrasantes quimioterapias, e o pai, três anos seguidos, com o pavoroso mal de Alzheimer.
Fiquei a pensar nisto e em muitas outras coisas semelhantes, no contraditório e selvagem mundo de hoje, um mundo sem razão. O Primeiro Ministro anda a meter medo a toda a gente, porque um novo resgate não é uma harmoniosa continuação do tal ajustamento: é sobretudo uma bruta reedição daquela  austeridade mítica, forma de arrasar equilíbrios, classes e patrimónios históricos e culturais. O FMI, que não aplica à prática as suas deduções técnicas dos últimos tempos, a ideia da austeridade bruta e rápida que apenas traz autodestruição, tem troikas metódicas, laminares, sem nenhuma perspectiva do particular e do humano. Nunca resolveria os equilíbrios que salvariam o meu amigo reduzido a 200 euros. Medina também não, a ronronar com piada e a mostrar evidências, obviedades: bem diz ele que basta fazer as contas. Ele soma e sobretudo subtrai. A troika subtrai, em nome de credores sem rosto, de mercados esquizofrénicos e irracionais, de gente que empresta dinheiro e tem depois um espaço sem lei, sem medida, para exigir o pagamento em dois anos, três anos, custe o que custar. A juros paranoicos.

sábado, agosto 24, 2013

O DELFIM E OS SÁBIOS DA LÍNGUA PORTUGUESA




«Andar a esconder adjectivos não tem sentido.»
  

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sexta-feira, agosto 09, 2013

CORTES, DESERTOS E AS REFORMAS POR FAZER


Chegou uma nau muito atrasada, trazia mortos a bordo de mistura com especiarias para venda aos outros impérios, sempre através de gente de travessias curtas e distribuições gananciosas, entre a Inglaterra e outras monarquias do Norte. Portugal tinha um Império, sempre mal gerido, é verdade, mas cheio de invenções e batalhas e descobertas. Desta vez ficámos à espera, mordendo enguias e fulanizando eventos nobres, outros populares, actos ímpios da Primavera. Mas a Europa estava por moldar e só depois do século XIX se viu, no avanço da revolução industrial, qualquer coisa de jeito, uns comendo outros, uns separando-se dos outros, era quase a Europa, a Península ainda dividida do lado de Castela, Portugal unificado mas empobrecido, a nobreza caçando, pintando, com gente pela rédea ou fazendo empobrecer o rei por se apalaçar cada vez mais. E assim matámos um rei e empurrámos a República para a rua, partidos, lutas, criações modernas, barafunda como hoje e pouco depois uma ditadura entre brandos costumes, gente remediada ou pobre, pagando indústrias maneirinhas, continentes à nossa mercê mas caros de frequentar para sempre. E vieram as guerras da Europa, Primeira e pouco tempo depois a Segunda, a Alemanha andava cheia de si, até amparou o Hitler, um agente não sabe de onde, que proclamava que a raça ariana iria conquistar o mundo por um longo período de mil anos. Morreram quarenta milhões de pessoas, o Hitler suicidou-se, os países aliados ocuparam o país, logo se arranjaram para deixar o que era justo e pagaram para que a Alemanha se construísse. Assim foi e continua, a leste do grande projecto da União Europeia, agora a falhar sob a tutela de Ângela Merkel, senhora da antiga Alemanha de Leste e que governa a unificada Alemanha, mais a própria Europa, ajudando a dissipar as solidariedades e os tratados de há 60 anos para cá, de tal sorte decidindo com Sarkozy (que já foi) as grandes assembleias entre países do euro, ministros todos, eles acima de Presidente e Banco central, ordenando não sei como, desbaratando a construção em desconstrução e países arruinados como a Grécia, Portugal, Espanha, Itália, Irlanda, Chipre, entre os que disfarçam. Países em resgate, troika igual para todos, cortes a sangrar, gente a pagar impostos, duas, três vezes, um governo roubado da grandeza socialista, com Sócrates e o PEC 4 a perecerem na última maravilha dos combóios dos 300 à hora. Era o desvario de não perder a honra entre tanto boato e tantos recuos sob o disparar das línguas no vento das fugas.
Vieram o Passos e o Portas e o Gaspar, os principais mareantes da nau que afinal se afundava e que já estava nas mãos, pela terceira vez, do FMI, um plano feroz de empobrecimento do país para correcção do déficit e abrir condições para iniciar o pagamento da dívida. O país rendeu-se, de joelhos, alguns voltados para Meca, comunistas e sindicalistas ocupando festivamente as ruas com manifestações engalanadas e muitas palavras de ordem. Parecia o PREC sem Copcon nem o povo é quem mais ordena. 
Havia dois anos de pelintrice, Gaspar (finanças) falando cada vez mais em cortes, (cortes enormes, colossais) até se ter demitido com uma carta cínica, de falência pessoal e dedo apontado a outros como um cata-vento. A enigmática figura da entretanto nomeada Ministra das Finanças, Maria Luis Albuquerque, foi logo acusada (por uma palavrosa e ensandecida oposição) de génio do neoliberalismo. E logo ela foi chamada à «Comissão dos swaps,» ali foi espadeirada pela Ana Drago durante quatro horas, na mais impiedosa e humilhante batalha de palavras que jamais me foi dado ver. Pensei logo, porque o Portas já se demitira por não gostar desta gente e até do próprio teimosismo do Passos: isto vai mesmo para o maneta, dizia-se. Mas ainda não era a hora e o Presidente da República criou um jogo charada para os meninos se reunirem, incluindo o avesso Seguro (o homem que apitava eleições já), coisa que eles fizeram a contra-gosto, enquanto Cavaco saltitava soberania pelas ilhas Selvagens, cheias de ecossistemas e cagarras. Quando voltou só havia cábulas escritas, ouviu cada um dos parceiros, mandou que Passos reunisse o governo remodelado, revogada a irrevogável demissão de Portas: tudo feito em 24 horas e reiterado em 24 minutos.
Mas a malta comentadora, televisões, congressos, professores, toda a gente do Bloco e do PC, alguns independentes, todos barulhavam contra, governo podre, bancos exíguos, para a rua tudo, é preciso negociar a dívida, não aos cortes, que é isso de 4,7 mil  milhões de euros COMO  reforma do Estado?
Peço desculpa: era aqui que eu queria chegar: não há nada para fazer a reforma do Estado correndo com funcionários antes de se saber quantos os necessários, quanto custa refazer estruturas, ordem e graduação das gentes, o que fazem, para quê e para que país, incluindo uma constituição novinha em folha. Os 4,7 mil milhões é para o que quiserem (pagar juros, abrandar o déficit, juntar em espectáculo para recolher credibilidade nos mercados, tudo menos a reforma do Estado). O Estado é uma realidade nuclear do país, com a sua forma, a sua rede de serviços e prestações, tem de ser pensado, ajustado a um novo contexto e a novos objectivos, sobretudo desenhado, municiado, adestrado. Já ouviram falar em organogramas? O Estado não se monta sem ter primeiro o seu organograma e a narrativa técnica e filosófica dos seus conteúdos. Saber onde se organizam os pontos de projecto e decisão, os lugares da logística, os funcionários necessários e onde, no centro e no país em geral, com que ligações e mínimo gasto. Que serviços integra e presta. E, no fim de todo o projecto desenhado e narrado e calculado (quanto custa) poderá falar-se em números. E isto não deve ir em bruto para a Assembleia da República, onde se grita cada vez mais e os partidos cavam a própria sepultura na indigência teórica e populista a que chegaram. São clubes de futebol em dívida e a swapar jogadores. Fico nulificado quando vejo o bom Mário Crespo a ter no seu programa o tema dos swaps, durante oito dias seguidos, como agenda de trabalho, entre vozearias. A comunicação social atingiu, sem pensar a sério sobre nada, o vértice do pouco, sem reinventar os dados da reflexão.
E ainda uma coisa. Ao governo actual: se vão cortar pela segunda vez pensões, façam favor de ver se há constitucionalidade nisso. E sobretudo avisem por escrito as vítimas. Não recebi nada sobre tudo o que intempestivamente  me comeram de forma subreptícia e iníqua. em perda, enquanto os cortes da governança vieram sem notícia, deixando a fome alastrar pelas caves. É isto que querem fazer hoje. E as rendas? Não falo das PP. Falo das casas, habitação é um direito: as rendas têm de subir caso a caso, com percentagens que não matem mais gente e criem maiores assimetrias. Uma renda de 100 euros (prédio com vinte anos, duas assoalhadas, em Telheiras) não pode, é crime, subir para 1000 euros. Senhora Ministra das Finanças: gostei da sua velocidade a pensar e a falar com uma boa parte de razão; mas neste caso devia ser um pouco mais activa, picando os seus colegas e renegociando desde já a assombrosa lei das rendas.
Espero para ver. A nau que chegou ali perto do farol inclinou e parou: trazia mortos e vivos. E os vivos tinham salários cortados e em atraso, o capitão fora mandado fazer isso no «limite», dando apenas água aos desapossados jazendo nos porões. Em terra já fazem isso há que tempos, encolhendo os ombros aos que emigram cada vez para mais longe, para a enorme Austrália. E já viram portugueses doutores nos desabrigos de Detroit.

segunda-feira, julho 22, 2013

MORRE OUTRA CIDADE CENTRO MÍTICO DO MUNDO

                                                            


«Detroit já não é o centro do mundo»

Frase lapidar na gíria daqueles que assistiram à grandeza progressiva da cidade de Detroit, nos Estados Unidos da América, centro fulcral da indústria automóvel, exemplo de um certo modo de vida e da arranjo arquitectónico das novas cidades, aliás sobrecarregadas em altura e rodeadas de guetizações e fábricas ou monumentais armazéns de estruturas monolíticas, afinal frágeis, numa ideia do descartável e de futuras substituições através da implosão.
Estas estranhas transformações ligam-se cada vez mais com os modelos económicos e a mobilidade no voraz cuidado com o dinheiro. Tim Lee, Presidente da General Motors nas operações fora da América do Norte, foi o inventor daquela sarcástica caracterização da actual cidade de Detroit. Pode haver ali um quartel general, mas a cidade já não tem força nem poder para honrar a sua história e desagrega-se de forma patética, como todos vimos há dias na televisão, numa amarga fotogenia do abandono. Ali havia brilhante vida nocturna e força económica,  mais  de um  milhão  de  habitantes,  e  agora  as  autoridades  locais  esforçam-se o mais possível para dar algum sentido aos seiscentos mil cidadãos sobrevivendo ao desemprego/emprego. É a mistificação habitual, como entre nós, mercearias pinocas multiplicadas por vários países e com sede na Holanda, por causa de uns troques dos impostos. No caso aqui noticiado, há vários Estados Americanos, e até mesmo no México, onde a mão de obra é mais barata. A Chrysler, agora parceira global da Fiat, vai desenvolver cada vez menos produtos na sua matriz e priorizar modelos já consagrados na Europa. Cá está a Europa, velha de si mesmo, com um euro mal instalado e uma Alemanha a travar tratados e outras cintilações, por agora à espera de umas eleições em Setembro. E em Detroit, a sobreviver a todo o vapor, apesar de tudo e da anunciação dos desertos pós-civilização global e do dinheiro, a Ford cola-se aos Brasileiros e aos Chineses, prioridade aos emergentes e outras utopias assim.
Diga-se ainda: e a agricultura em volta? Enquanto a agricultura não chega, muitos empresários locais mobilizam-se para adaptar os  seus negócios à nova realidade. Que realidade? Antigas empresas montadoras, produzindo peças para automóveis, enfrentam a queda da demanda por parte de outros parceiros. Um senhor Walker disse há dias que decidiu abrir a sua logística e o seu projecto à agricultura, tornando-se o «maior produtor rural do mundo.» Compram-se áreas abandonadas e abre-se uma rede de dependências a partir da futura agricultura naquela zona, com mais empregos e abastecendo de perto a decadente cidade. Diz um tal Hantz: DETROIT VAI SER A MAIOR FAZENDA URBANA DO MUNDO. 
Não importa mais nada. Oxalá ele enfrente a globalização sufocante, com dez milhões de chineses recomprando terras e enlameando tudo com um novo o arroz feito por pobres que enriquecem na conquistas das próprias arábias. E anda Portugal a julgar-se devastado e periférico quando é o maior país da Europa, com uma plataforma marítima imensa onde há de tudo, até chineses com guelras. Habituados aos serviços, os portugueses emigram para trabalhar sob gabinetes de néon e fazem agricultura biológica. Já nem lutam pela sua maior riqueza (O MAR) e, embora sábios da engenharia náutica, deixam-se governar por governos que até Sines esquecem, bem como todos os estaleiros que poderiam florescer nesta faixa de terra abandonada para os lados de Espanha, sendo afinal, olhando para o Oceano, o verdadeiro ROSTO DA EUROPA. Fernando Pessoa o disse. Mas era um poeta e não vivia na Linha.

sexta-feira, julho 05, 2013

A CRISE E O NERVOSISMO DOS COMENTADORES

CONSTANÇA
Esta senhora não é funcionária pública e parece não correr o risco de ir parar à imensa multidão dos desempregados em Portugal. Mas se é uma profissional de comunicação televisiva, agora com bastante trabalho como comentadora política, a solo ou coordenando debates, então é urgente que se contenha nesta última situação, interrompendo os participantes e metendo em cunha perguntas a despropósito. Por outro lado, embora o ecrã de televisão seja carinhoso com ela, a sua intervenção individual mostra-se nervosa, demasiado afogueada e com falhas de respiração. Sem ofensa, parece que a estação onde trabalha possam dar-lhe oportunidade de reciclar a sua formação vocal e o modo como deve ritmar e colocar tanto a voz como a qualidade gestual da sua  presença.

quinta-feira, julho 04, 2013

MAIORIA GOVERNAMENTAL OU MINORIA MORAL?



No limite mais extremo da situação precária em que Portugal se encontra, a depender do maior bom senso e cada vez menos das idiossincrasias  partidárias e pessoais,  Paulo Portas quis seguir a ruptura, esquecendo-se de atar a corda ao pescoço. Mandou apenas um bilhete como o senhor Vitor Gaspar. O PÚBLICO disse: «surgiu ontem ao país como o arauto de uma causa justa, a do crescimento que o chefe do Governo quer arruinar. Mas bastaram 24h para se perceber que as suas palavras representavam mais a imprevidência do que a sensatez, mais a irresponsabilidade do que o sentido de Estado. Feitos os estragos, Portas apresenta condições para manter o Governo, mas sabe-se que o faz mais por instinto de sobrevivência política do que por convicção.

Vitor Gaspar, Ministro das Finanças de um Governo de graves falhas, é só parte da actual crise. Deu-lhe parte de si mesmo, fiel a uma certa teocracia da austeridade. A crise foi aprofundada com a sua tecnicista prosa de uma tecnicista e pessoalíssima retirada de cena. Como se isso fosse banalmente remediável e sem ninguém reparar, Gaspar abriu a porta da gaiola, cogitou um adeus avaro e talvez tivesse pensado que a malta depressa curava a feridaSó abriu a cova europeia e paulista pronta a receber o país. E alguém disse que o rosto de terror só se desvenda ao fim de dois anos.
O primeiro ministro, sempre muito senhor de si, discursou em tom patético perante o país, disse que não se demitia, não abandonava Portugal, e desandou para Berlim, onde anunciou e lamentou o caso Portas, a má vontade contra Maria Luis Albuquerque, e voltou a Lisboa ainda a tempo de perceber que a malta do CDS não havia embandeirado em arco com a gestualíssima retirada de Portas. E recebeu o homem do Independente pela noitinha, em negociações, para remendar a situação. O país vive em suspensão, Cavaco vai ouvir os partidos (que partidos?) e José Seguro, pomposo e ingénuo, grita por eleições, quer o poder sem saber que não há poder em Portugal, e nem ouviu Medina Carreira dizer: «Eleições agora era o pior que se podia fazer.»

quinta-feira, junho 27, 2013

BIG BROTHER: A TELEVISÃO DE RISCO, INSANÁVEL

A televisão corresponde a uma das mais extraordinárias invenções da civilização humana durante o século XX. Hoje liga-se ao mundo e liga o mundo em instantes incontáveis e permite ligar todo o planeta a um evento de suprema importância. E contudo, nas suas estruturas normativas, a televisão em si, como meio de comunicação e de entretenimento, tornou-se inútil, desconstrutiva, refém das receitas de publicidade e da luta pelas audiências, explorando vertiginosamente os piores níveis de invenção formal, da telenovela aos mais aberrantes concursos, da exploração de sorteios ao jogo com a demagogia das artes fúteis, do cançonetismo irrisório, da velocidade capaz de tornar a maravilha ilegível e subliminar, tudo sem regras, em cascata de ataques visuais e de constantes passagens de séries banais, castanhas, armadas, estereotipadas, entre vozes de comentadores do futebol (horas seguidas, marretas mais marretas) e a fala dos analistas políticos frente a coordenadores sem capacidade de aprofundamento e de zelar pela ordem, o que submete os telespectadores a vozes cruzadas, sobrepostas, sem a menor inteligibilidade. Depois há as galas de tudo e de nada, as fantasiosas importâncias deste e daquele, as intrigas, as banalidades, a imitação do génio, o humor do pior Parque Mayer de outrora. É uma infinidade de atrozes brutalidades contra os direitos dos espectadores, entre vinte a trinta minutos de publicidade por tudo e por nada, cortando mesmo fatias de ficção, minutos de telenovelas, sem lei nem roque.
Isto ocorre no momento em que um canal publica durante meses o famoso "Big Brother", coisa já muito repetida lá fora e com os maiores disparates de sensacionalismo erótico de atracção monetária. Em Portugal, a vedeta que conduz aos Domingos este programa, é a Teresa Guilherme, a quem muitos apontam grandes qualidades. Ao Domingo é tudo para ela e para invenções perfeitamente estúpidas a fim de amaciar o tédio e a histeria dos concorrentes encerrados num pseudo-modernismo, sem ligação a nada do exterior, entregues à sua cultura básica e instintos primários de qualquer pequeno grupo enjaulado e cercado de possíveis expulsões muito antes da chamada final e dos seus 30.000 ou 50.000 euros. A voz do Big Brother dá ordens e os desgraçados cumprem, mesmo que estupidificando-se, coisa que os sindicatos, cá fora, não tolerariam nem a Deus, quanto mais ao B.B. É verdade que o encarceramento pedagogicamente orientado, solicitando respostas pedidas à razão, à cultura perante o mundo, ao trato comportamental, poderia surgir como uma experiência frutuosa, analisável por técnicos, psicólogos e antropólogos. Seria uma mais valia para espectadores e pessoas que ainda não se deixaram vencer pela alienação deste tipo de consumismo. E sem a necessidade de gastar os Domingos, a ler a sua escrita laboriosa em fichas dos pacientes. Que viagem é esta, senhores?

 

O SUCESSO CUSTE O QUE CUSTAR,
MESMO A PERDA DA DIGNIDADE

sábado, junho 22, 2013

O BRASIL JÁ ESTÁ A ARDER? SÃO GRITOS DO POVO


Toda a gente ouviu falar no aumento dos transportes em S.Paulo, Brasil. A presidente tinha acabado de visitar Portugal, com alguma simpatia mas sem participar no 10 de Junho, dia de Camões e da Pátria, mãe do grande Brasil, feito de brasileiros a que os portugueses gostam de chamar irmãos. E, de súbito, o povo de S.Paulo veio para as ruas, protestar: era um pequeno erro da engrenagem política. Dez cêntimos a mais no bilhete. Num país que tinha crescido até há pouco a sete por cento, vindo de um desenvolvimento que retirara muita gente da pobreza mais dura, a febre pela História de amanhã abriu festa por todo o lado: para receber o próximo campeonato do mundo em futebol, com dez novos estádios, e tudo o que é preciso para, a seguir, se realizar ali as Olimpíadas, além de, durante os próximos anos se aceder à realização de grandes eventos desportivos, aberto ao planeta. Ora só a Copa do Mundo implica o gasto de quarenta bilhões de euros e os outros casos onze bilhões, incluindo ainda mais aeroportos, portos e hotéis, entre reforço e modernização dos transportes.


Com o passar dos dias, as multidões invadiram cerca de cem cidades em todo o Brasil, sofrendo batalhas com as forças da ordem, por fim exauridas com a desproporção dos factos. Havia protestos em ordem à melhoria dos serviços de saúde, da educação em todos os seus níveis, bem como protecção social, habitação, sistemas viários. O que parecia resolvido no Brasil, era ainda um mundo carecido de maior expansão infraestrutural. O que se compreende, apesar do desenvolvimento entretanto verificado, num país com muitos milhões de habitantes e zonas de menor avanço, por razões endémicas e outras, a extensão da terra, os custos cada vez maiores das coisas e das tecnologias. 
O governo já começou a reunir, procurando anunciar um plano que reforce os campos apontados pelas manifestações de rua. É preciso que os brasileiros agora se convençam da demora de todos os grandes projectos e do combate à corrupção, enviesamento cultural e civilizacional que a globalização veio favorecer num imenso espaço onde as sociedades cada vez menos são capazes de sustentar o tal «admirável mundo novo» de que tanto se falou nos anos 60 e durante as vertiginosas descolonizações que criaram independências e contracções de povos sem recursos de saber para desenvolver com harmonia os territórios onde o horror urbano e as assimetrias da população atrasam o amanhã.
 



                                  POLÍCIA MONTADA,
                                  DEDOS QUE APONTAM   
                                  A CORRIDA E A QUEDA,
                                  OS GRITOS E OS GESTOS




quinta-feira, junho 13, 2013

NEGAM AGORA AOS ARTISTAS O DIREITO DE AUTOR?


 ALEGORIA DO HORROR
    

 Não parece possível. Nada nos deveria dar direitos ao governo para, nem à Europa para nos roubar propriedade intelectual, direitos de autor, aos autores  das manifestações artísticas no teatro, no cinema.  
 Num texto publicado ontem no Facebook, o veterano ator revela-se indignado com o ministro das Finanças, que acusa de “institucionalizar o roubo”, perante “o silêncio do Primeiro–Ministro  e os olhos baixos do Presidente da República. 
   Ruy de Carvalho esclarece que decidiu manifestar  a sua indignação e depois de ter recebido  uma carta das Finanças que indica que já não é “artista” e passou a ser apenas “prestador de serviços”, deixando de ter direitos conexos e de propriedade intelectual.

          Da carta

  

terça-feira, maio 28, 2013

MEMÓRIA DOS MORTOS OU BANIMENTO PELO FOGO

Múmia de grande antiguidade

Certos povos, da antiguidade e dos nossos dias, perante a morte e os seus mortos, cuidam de os preparar para a eternidade, e desenvolvem liturgias da cremação, muitas vezes ao ar livre e com a participação dos que, assim, apelam a uma vida expurgada dos males da terra e purificada. A chamada civilização Ocidental, à medida que avançou no conhecimento do Homem e das suas expectativas, entre a memória, a História, as artes, as técnicas e o sentido de preservação dos espólios de ligação à família e aos seus bens materiais e espirituais, sempre deu prioridade, em face da morte e dos mortos, à conservação mínima dos entes falecidos, quer nos cemitérios convencionais, quer em jazigos ou grandes túmulos e templos, muitas vezes ditando mais tempo, ou todo o tempo, através da mumificação, à conservação dos mortos, alegando a sua ressurreição e o conforto na longa espera. 
    
As mais longínquas sepulturas, embora trabalhadas com um grande sentido de intimismo e permanência, são já a ideia de que a absurdidade da morte só pode ser temporária. Tal como nas mais sofisticadas e personalizadas mumificações, muito desenvolvidas, quer corpo a corpo, quer em túmulos de importância quase inexplicável, talvez tanto como a da própria morte, como aconteceu no Egipto, quase dando a entender na existência de crenças, em especial para os faraós endeusados, que toda a comunidade girava em torno de uma gigantesca luta contra a morte, na preservação sobretudo dos que melhor, no futuro, poderiam voltar a representar a Nação, as suas glórias e de novo o conteúdo histórico das narrativas, cultos, História, heróis ressuscitáveis. Isto configura passos civilizacionais que explicam ou iluminam a própria contemporaneidade, apesar das modernas tecnologias, viragem das sociedades para a produção diversificada, intensificação das metrópoles e da vertigem consumista, entre desenhamentos filosóficos que foram inquirindo o sentido e o não sentido da própria vida, o corte radical da morte, a ilusória guarda de cadáveres ainda com algum sentimento de luta contra a perda. Os existencialistas e os intérpretes da corajosa literatura do absurdo, assumiram a vida nas suas representações de escassa duração, apesar dos serviços e indústrias trabalhadas para durar por séculos e séculos. Assim se minimizava o Homem, sem o deificar enquanto pensador e criador no curto tempo da sua vida. A morte em massa das duas Grande Guerras e a frente de cariz industrial  de uma espécie de indústrias da morte, com os campos de concentração dos nazis, intuito obscuro de apagar da face da terra o povo judeu; a morte, embora sublinhada de forma trágica, foi sufocando os grandes cemitérios e levando à banalização dos seres humanos, sublinhados em vida com importantes direitos, quase destituídos de tudo, da sua própria memória, depois da morte.



Os velhos cemitérios são hoje cada vez mais controversos, não tanto pela sua desnecessidade, mas por uma indiferença pelo sentido da vida, até pelo sentido do seu não sentido, começam a dar abertura às razões de espaço e de várias mercantilizações. O dinheiro substitui tudo o que vai perdendo estatuto e os governos, na globalização que lançou estranhas crises por todo o mundo, não desdenham erguer novas pirâmides -- só que, desta vez, para arranhar os céus e albergar gente, serviços, tecnologia da comunicação, milhares e milhares de presenças apressadas e cada vez mais doentes entre doenças novas e, noutros continentes, doenças velhas. Vive-se da moda e da marca, enfrenta-se a austeridade ou fome disfarçada e abrandamento das dívidas. Os nossos mortos não são propriamente atirados para a vala comum, mas são submetidos a um novo serviço funerário -- a cremação. Se isto é tão óbvio, resumindo-se depois a uma taça cujo pó obtido pelo fogo fica meio cheia de cinzas, as quais podem ficar numa prateleira ou espalhar-se pelo mar, entre flores em agonia, porque não se institui, então, um serviço público de apagamento corporal dos mortos? Se tudo é a bem do sentido prático e da economia de recursos territoriais, porque é que as novas funerárias do fogo ainda metem o corpo numa urna cara e pagam-se sumptuosamente pela fogueira que a Inquisição gostaria de ter inventado?

 porventura, século XXI, a morte
de funeral de marca e muito prático 


 portanto ao pó voltarás

sábado, maio 18, 2013

ENTRE CORTES E EMBUSTES, PORTUGAL NEM SEQUER SE FAZ AO MAR



Primeiro Ministro, ontem, rezando ao povo


Chovia copiosamente a um mês do Verão e alguns lisboetas iam comer pipocas para cinemas em miniatura, olhando filmes cuja expansão sonora tem provocado tantas doenças dos ouvidos como cancros da mama. E eu, cidadão K, encontrei um velho amigo do tempo do décimo quarto ano da guerra "colonial". «Olá, velho amigo, só nos encontrámos duas vezes depois daquela fuga de Angola. Ah, e também na Fonte Luminosa, depois do 25 de Abril.» O velho amigo disse: «É verdade, as voltas que a vida dá. É bom encontrar-te, K. Sabes, eu já estou aposentado, juntei uma pequena poupança, mais de cem mil euros, mas agora com a crise e a ladroagem dos sistemas tive que dividir aquilo por três bancos, porque a Europa Unida já se esqueceu dos direitos e deveres humanos: dizem que só são sacrossantos os tais cem mil, qualquer cêntimo a mais pode vir a ser engolido (roubado) em maiores crises ou complexas situações dos bancos (falências, que hoje até se fingem).
Coloquei a mão sobre o ombro do meu velho amigo e disse: 
«Podes guardar metade em casa ou meter tudo num paraíso fiscal.»
«Não sou capaz. Já dividi as tranches. Como a reforma (pensão) vai sempre para o banco, e como eu até há meses confiava nos bancos, nunca contei sequer a seriedade dos depósitos. Ontem fui lá e vi um pequeno aumento na conta à ordem: era da pensão, mas quase por metade. Fui saber: o empregado, triste, disse-me que isso era o resultado dos vários cortes feitos nas pensões desde o entendimento com o plano da Troika para o plano de ajustamento. O que é isso? E ele, pesaroso: «é o plano de austeridade.» Encrespei-me: «mas a reforma de um trabalho de mais de 40 anos passa por um direito inalienável, para isso servem contratos, cálculos, a própria vigilância do Tribunal Constitucional. Quando querem adiantamentos por conta do IRS, mandam pelo correio um papelito com a conta: é um aviso de dívida que eu não contraí mas sempre é um aviso. Agora não: sou confrontado com um corte silencioso e cego, sem que ninguém tentasse saber se eu não entraria logo na falência, porque as despesas com senhorios e outros ganhadores do mesmo tipo podem provocar despejos, palavra imunda para figurar em qualquer lei, mesmo essa.»
«Oiça, meu velho amigo, há um deserto à nossa frente e eles andam a discutir se fingem que pagam mais taxas (cortes) nas pensões ou engolem mesmo as medianas pensões e reformas com mais cortes, o que lhes está à mão de semear e não tem nada de reajustamento nem de civilizado, é só mais fácil, como num casino falsificado em que se arrecadam jogo perdido a três milhões de cidadãos frequentadores». E o homem, meu velho amigo, arregalou os olhos: «então estou frito: ou mato-me ou mato parte dessa gente que manda de olhos vendados. Isto começou com o Saramago e o Nobel: cegou as pessoas de manhã, em branco, deu cabo deles todos, e depois fugiu para Lanzarote, deixando o mundo submetido aos cegos mafiosos, que violavam mulheres e roubavam tudo o que podiam.»
«Eu, K, do "Projecto K" já pertenci a uma PP e tenho as massas arrecadadas na Suiça. Ultimamente tenho sentido vergonha e trouxe algumas poupanças para Lisboa. Os debates estão cada vez mais acesos, o tempo corre, as decisões contradizem-se, o dinheiro desaparece, o governo vai assiduamente passear à Alemanha e beijar a senhora Merkel, a recessão começa a surgir um pouco por toda a parte. A Troika não sabe nada do nosso país, senão através de papéis e de relatórios básicos para medidas absurdas, sem amanhã, iguais para todos os países, a Europa praticamente desfeita do sonho inicial, nacionalismos outra vez, os países do norte doidos de sobranceria, dizendo que a malta aqui não trabalha. O sul é que gerou o mundo onde eles se acoitaram, metidos no frio e na noite, fumegando carvão até ao fim da Revolução Industrial. O fim? Talvez. Agora é só velocidade de cruzeiro e balelas de grandes grupos económicos a sugarem novas energias, novas tecnologias, para não terem concorrência e ajoujarem os clientes/contribuintes. A Síria arde e o mundo é um mundo sem razão. A ditadura das finanças abarca tudo e não abre a porta à economia e à recuperação inovada de uma perspectiva de desenvolvimento sustentado. Qualquer cidadão percebe hoje que o aumento dos prazos para pagamento de dívidas é o aumento do deserto e em Portugal, onde toda a população se acomoda miseravelmente ao litoral e às grandes cidades, com uma qualidade de vida aviltante, há muito deserto interior para preencher, revertendo propósitos e dependências. Passos já não sabe onde esgaravatar o dinheiro, porque só quer dinheiro e não ideias, projectos. Avanços. O Gaspar ensinou-o assim, trabalha sem ver o mundo e sem comparar os momentos da História, dos homens e dos dinheiros. Não basta um computador e uma teoria já falida, desempenhada por funcionários hirtos, meros contabilistas apenas com gente a seus pés.» 
O senhor K ficou pensativo: fez contas e chegou à conclusão que tinha de emigrar para a Suiça ou fazer retornar o dinheiro. Porque o plano da União de Bancos (na Europa), a revisão dos tratados, a intervenção consensual do BCE, emissão cuidada de moeda e ajudas de um fundo Orçamental Europeu, apurar funções e poderes do parlamento e da comissão, ajuizar das capacidades e neutralidades do Conselho Europeu.
Em Portugal, por outro lado, é preciso dizer ao governo, nem que seja a poder de raptos e formação forçada, que despedir quadros em nome de uma reforma da Administração que ainda não está dimensionada, é de loucos, mais aquela coisa eufemística da "requalificação". É urgente fazer ver aos nossos governantes que arranjar mil biliões de euros aqui e além não é reforma nenhuma do Estado. É preciso primeiro saber o que se quer que o Estado seja, perante a História, a Cultura e as realidades da miséria actual: isso é trabalho de  sábios (não de gestores bem pagos), incluindo as Universidades e certas Instituições técnicas. O plano da reforma só precisa de papel, canetas e computadores, além de secretários para configurarem organogramas e textos pré-legislativos. Depois, a forma final discute-se e só  então se avialiam os montantes para os diferentes sectores e projectos a médio e longo prazo, quantias para o trabalho e para os sectores de controlo e gestão de recursos. Ouve-se falar em dinheiro e parece que só com ele logo a reforma resulta: não resulta "coisíssima nenhuma". É preciso planear, inovar os planos, avaliar bem os recursos. Porque é que os nossos políticos ainda não recuperaram o conceito do mar, do oceano, e de tudo o que ele nos pode dar? O Atlântico mata a nossa periferia, por muito que a Alemanha se arranhe: o Atlântico garante-nos a CENTRALIDADE -- de nós, nos vários sentidos para as Américas e África e Europa, placa giratória de distribuição e pontos para onde exportar as nossas originalidade e competência científica e tecnológica.

O amigo do Senhor K suicidou-se hoje, perto da Assembleia da República e deixou ao país uma nota nova de 5 euros e um jantar oferecido por um restaurante solidário.