sábado, fevereiro 21, 2015

HELDER BATISTA, ESCULTOR ENTRE GEOMETRIAS

FALECEU HOJE, 21 DE FEVEREIRO DE 2015, UM GRANDE ARTISTA PLÁSTICO, ESCULTOR EXÍMIO, INVENTOR DE NOVOS RITMOS, RESTOS DE ARQUITECTURA. FIGURAS EM RITMO DE DANÇAS LITÚRGICAS. MEDALHÍSTICA COM PRÉMIOS INTERNACIONAIS, POETA DO ESPAÇO E DO TEMPO.


Helder Ernesto Coelho Batista (Vendas Novas, 1932) foi escultor de invulgar mérito, acolhido às formas de uma modernidade experimental e diversa. Professor na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, aliado a uma especial intuição pedagógica,  de bom trato e visível reconhecimento público nos meios artísticos do país, em parte também no estrangeiro, o testemunho que nos deixa tem marcas particulares de um futuro a fazer-se. Arte em si. Arte também em géneros específicos, como a medalhística, onde desenvolveu porventura a obra mais vasta e de qualidade, premiada dentro e fora do país em várias ocasiões, de rosto português.
Artista muito trabalhador, profissional de sério recorte, Helder Batista, durante décadas (entre 57 e 2013), participou com assiduidade no espaço artístico do país, entre exposições colectivas e várias individuais, tendo desenvolvido igualmente obra pública de bom perfil.
Foi admitido nas três grandes exposições da Fundação Calouste Gulbenkian (1957,1961, 1986). E ainda XXI FIDEM; Colorado Springs, USA 87; Europália Portugal 91, Medalha Portuguesa no Século XX, Namur e Bruxelas (1991), XXIII FIDEM, Londres, Prémio Calouste Gulbenkian (1992); Contemporary Portuguese Medal Art - Budapeste; XXIV FIDEM Budapeste; Prémio Johnson para a melhor Medalha cunhada (1994); XXV FIDEM, Neuchatel (1996); Anverso e Reverso +3, Quioto, Japão, XXV FIDEM, Haia (1998); The Stanford Saltus Awards Into The Next Century, New York (1999); XXVII FIDEM, Weimar (2000), entre outras.
Helder Batista também executou várias esculturas para espaços públicos: relevo em Escola Primária de Benfica (1968), Estátua de Vasco da Gama, Vidigueira (1969); escultura em betão policromado, LNEC, Lisboa (1970); escultura em pedra para o Hospital do Funchal (1973); escultura em bronze para a Faculdade de Economia, Porto (1974); escultura em ferro, Direcção Geral dos Portos, Lisboa (1980); Monumento a Pina Manique, Casa Pia de Lisboa (1992); Monumento ao 4 de Outubro de 1910, Loures (1992); Monumento à Paz, Seixal (1994); Monumento ao Resistente Antifascista Alentejano, Montemor-o-Novo (1996); Monumento ao 25 de Abril, Oeiras (2000).

Obra de um artista persistente e renovador; intervenção pedagógica no ensino superior artístico, entre participações em actos sobre géneros de arte. A sua morte ocorreu hoje, mas o futuro conservará este vasto e inovador testemunho.



quarta-feira, fevereiro 11, 2015

A MORTE DE KAYLA SOB O ISLAMISMO RADICAL

A FÉ CEGA QUE MATA UMA JOVEM DEDICADA A AJUDAR CRIANÇAS, TENDO VIAJADO PARA A SÍRIA NUM SENTIDO HUMANITÁRIO, APONTA AO MUNDO A INVIABILIDADE  DE  LEITURAS  TÃO  ERRÁTICAS  SOBRE DEUS E  O  VALOR  DA VIDA DOS POVOS, OS QUE SE RESPEITAM ENTRE SI, OS QUE ACEITAM PARTILHAR AS COISAS, ACEITAR  AS DIFERENÇAS, ASSUMIR A COLABORAÇÃO COM OUTRAS COMUNIDADES, PRÓXIMAS OU DISTANTES.

Kayla Jean Mueller

Trata-se de mais um caso inscrito a sangue no teatro de operações alimentado pelo auto-denominado Estado Islâmico. Uma luta contra vários povos em redor, contra o próprio Ocidente, inclusive, onde se recrutam combatentes estranhamente convertidos ao islamismo, por vontade paradoxal de ALA, que significa paz, e visando também uma espécie de antigo império por todo o sul da Europa e norte de África. Os guerreiros islamitas têm exercido grande devastação nas terras que chamam a si, condenando à morte, por degolação, inúmeros reféns ou gente rebelde à sua óptica ideológica, ou pessoas raptadas em vários pontos da região, longe dela também, as quais são postas perante os países de origem em situação de resgates multimilionários, fonte de grandes poupanças para o movimento em total alucinação afirmativa e de conquista. Muitos países têm negado tais pagamentos e os islamitas filmam e divulgam por todo o mundo os rituais da degolação.
Raptada em 2013, Kayla ainda dirigiu uma carta aos pais mas nunca mais se soube do seu paradeiro. Era claramente refém do Estado Islâmico. A sua morte foi considerada por aquela entidade embrionária, entretanto condenada por quase todos os povos e na sua absurda voracidade sobre os que anatemiza sem juízo: os islamitas atribuíram a morte de Kayla aos bombardeamentos da aliança ocidental. Nada indica que esse facto tenha ocorrido incidentalmente. Kayla dedicava-se a prestar assistência a crianças órfãs ou separadas das suas famílias, o que não deveria intrigar os seus raptores. De resto, o quadro humanitário da rapariga americana, passa para uma dimensão de outra escala, devendo pertencer a áreas onde os acasos de flagelações aéreas seriam muito pouco prováveis, tendo em conta a sua orientação para ajuda a curdos no sul da Turquia ou ataques e logísticas bem mapeados nas várias acções e no seu tempo próprio.
O sorriso de Kayla fala-nos de amor, de afecto, não de ódio ou dura determinação contra os princípios que a nortearam até à idade que tinha: 26 anos.
Esperemos que um dia se possa saber dela, do seu empenho, como de outras pessoas que não emigram para a Síria para se integrar nas forças islâmicas. Há os meros observadores de aventuras travadas em más poeiras ou os jornalistas e aqueles que também aplicam a ciência à natureza e geoestratégia destes conflitos. Se ALA é grande, mensageiro da transcendência do Universo, não é com certeza tutela sem alma de uma tragédia imensurável, que o denega.


segunda-feira, fevereiro 09, 2015

CABRITA REIS, GÉNIO CONTRA O HORROR


pedro cabrita reis

                                                       
OBRA EM TOULON

Cabrita Reis é um artista de grande projecção internacional, obra plural e problemática, representado por muitos museus , colecções e coleccionadores, algo excêntrico, sábio a pensar o seu ofício, o discurso da sua arte. Jean François Chougnet nomeia-o de génio, porventura em termos de fascínio a par de profunda complexidade das aparentes ocasionalidades de alguns dos seus arranjos, instalações performativas. Há uma certa discrição no espectáculo humano e artístico de Cabrita Reis: como no cinema onde também actua, pode parecer um monstro sagrado; na relação quotidiana, e de país em país, não explora a mediatização, não viaja obra em cacilheiro, prefere o cobre e a madeira às plumas. 
Nesta fase, repare-se: obra feita de calhas de alumínio, iguais lâmpadas fluorescentes, cabo eléctrico, molduras de janelas, portas usadas. No Hotel onde se encontra instalado diz que um bom artista é «mudo».
«Em arte -- sublinha Cabrita Reis -- nada vem do zero. Cada objecto parte de uma longa história. E eu estou dentro dessa história, tal como as minhas obras, que espelham a forma como eu e elas nos posicionamos no mundo. E é o conjunto desses olhares que constrói civilização. A civilização não se baseia em ataques assassinos, como recentemente se viu em Paris. É justamente por isso que temos sempre de nos manter curiosos face à arte: é absolutamente necessário manter muito alto a criação, a liberdade e a imaginação -- contra o horror.» 

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citações a propósito de um texto de Chougnet, em encontro com Cabrita Reis em Toulon

sexta-feira, janeiro 30, 2015

UMA INVULGAR PRIMAVERA NA GRÉCIA ACTUAL


ATENAS

Após um percurso combativo de vários anos, Alexis Tsipras, figura angular do Syriza, partido grego (até há pouco considerado de esquerda radical), alcançou, nas eleições antecipadas que se verificaram há dias naquele país, uma vitória a roçar a maioria absoluta. A Europa, cada vez mais soturna e dominada pelos países mais poderosos e mais amarrados ideologicamente à lógica da austeridade (austeridade sem complementaridades), estremeceu de desconforto, apesar do seu Banco Central já ter começado a trabalhar num processo financeiro capaz de reanimar as forças económicas, activando uma União afinal dividida. Absorvendo a dívida, o Banco tenta estimular a liquidez e as dinâmicas da produção, contra a anemia latente, deflaccionária, que tem sido protagonista de um dos maiores desastres desta zona do Globo. 
Primavera pode significar alegria, bem estar, sucesso; aqui não é tanto assim, mas o governo grego, formado em apenas dois dias e com uma pragmática coligação à direita, após recusas estratégicas, mostra-se decidido e coordenado por maior moderação do que a radicalidade anterior. Após um primeiro Conselho de Ministros, as prioridades anunciadas contemplam o ordenado mínimo, a imediata suspensão das privatizações em curso, fornecer electricidade grátis a 300.000 desfavorecidos, reverter o processo de despedimento de funcionários públicos, como os trabalhadores da área da limpeza, pessoal da antiga Televisão Pública, a ERT.
Estas e outras atitudes, coordenadas numa espécie de Estado de Graça, empenharam já o Ministro das Finanças a percorrer pontos cruciais da Europa a fim de explicar a medida do plano apontado, incluindo os termos da estruturação da dívida, sem arrogâncias nem arruaças. Uma única marca formal: todos os ministros operam como cidadãos comuns e não fazem uso da gravata.
Segundo lemos no «Diário de Notícias», este governo, contra a corrente mas refundador da soberania do país (assim parece querer), declarou:
«Temos um plano grego para fazer reformas sem criar défice, mas sem superáveis primários asfixiantes», declarou o primeiro ministro, numa altura em que as medidas previstas no programa económico do Syriza têm um custo avaliado em 12 mil milhões de euros. «Estamos aqui para acabar com o clientelismo político e com a corrupção, para pôr um ponto final num Estado que funcionava contra o que são os interesses da sociedade». Muitos dirão que estas palavras não passam de mera demagogia; contudo, o aperto feito aos países mais pobres, a maquinal suficiência da Troika, a desmontagem para os privados de forças estratégicas colossais, electricidade, controlo de produtos energéticos, venda dos grandes portos gregos, tudo isso desenha uma paisagem ao mesmo tempo com laivos conspirativos e «religiosamente» fixistas. A divisão artificial entre Europa do Norte, rica e trabalhadora, e Europa do Sul, pobre e desgovernada, parece coisa vinda de muito longe, ferindo, em nome do poder financeiro, a História e a criatividade de povos como os gregos, que nem experimentaram o efeito da ocupação Nazi. Tais crises foram ultrapassadas, mas é bem certo que o Norte, e especialmente a Alemanha, não se reabilitaram de um dia para o outro, após a guerra. O auxílio financeiro em grande escala e a solidariedade favoreceram muita coisa e delinearam um período de paz e prosperidade.

Alexis Tsipras

Sejam quais forem as perspectivas políticas e económicas do Syriza, sem ruptura trágica mas sobretudo revendo à frente aspectos de salvação do país e da Europa (apesar de nem tudo ser viável), os actuais contactos, a visita de ministros do aparelho europeu, a possibilidade de linhas de partilha e de compreensão mútua não parecem motivo para a habitual histeria dos credores e dessa rede de mercados, onde os computadores são mais do que seres humanos e o jogo bolsista cai todos os dias a pique, enquanto os juros da dívida grega (para falar só nessa) progridem em setas apontadas ao alto de forma cínica e demencial. É uma luta assimétrica e sobretudo baseada em organizações bloqueadoras do espaço e da criatividade, capazes de imensas conspirações obtusas, destrutivas e sem nexo para além do dinheiro de alguns), um efeito paralisante por um lado, de dominó tóxico por outro. O que há para desdobrar a este respeito, na miséria que a Globalização impõe, só pode concentrar-se numa vasta reconstrução dos dados, dos princípios, das inter-relações. E oxalá que sem guerras vinte vezes piores do que as últimas, sem contar com tudo o que se passa em muitas partes do mundo, agora, nomeadamente, através do islamismo radical e do uso indevido, mediático e impuro, das religiões e dos profetas e dos deuses, todos afinal míticos e pensados pelo imaginário humano como uma última salvação do Homem.


as ruas da esperança

quarta-feira, dezembro 24, 2014

O PAPA NA CÚRIA ROMANA: PALAVRAS QUE LAVAM



Leiam todos, pela primeira vez, todos, 
e sintam o testemunho, a palavra cortante e mansa, que não degola mas demanda o sentido do homem.

“Tu estás acima dos querubins, tu que transformaste a miserável condição do mundo quando te fizeste como nós” (Santo Agostinho)

Amados irmãos,
Ao final do Advento, encontramo-nos para as tradicionais saudações. Dentro de alguns dias teremos a alegria de celebrar o Natal do Senhor; o evento de Deus que se faz homem para salvar os homens; a manifestação do amor de Deus que não se limita a dar-nos algo ou a enviar-nos uma mensagem ou alguns mensageiros, doa-se-nos a si mesmo; o mistério de Deus que toma sobre si a nossa condição humana e os nossos pecados para revelar-nos a sua Vida divina, a sua graça imensa e o seu perdão gratuito. É o encontro com Deus que nasce na pobreza da gruta de Belém para ensinar-nos a potência da humildade. Na realidade, o Natal é também a festa da  luz que não é acolhida pela gente “eleita”, mas pela gente pobre e simples que esperava a salvação do Senhor.
Em primeiro lugar, gostaria de desejar a todos vós – cooperadores, irmãos e irmãs, Representantes pontifícios disseminados pelo mundo – e a todos os vossos entes queridos um santo Natal e um feliz Ano Novo. Desejo agradecer-vos cordialmente, pelo vosso compromisso quotidiano a serviço da Santa Sé, da Igreja Católica, das Igrejas particulares e do Sucessor de Pedro.
Como somos pessoas e não números ou somente denominações, lembro de maneira especial os que, durante este ano, terminaram o seu serviço por terem chegado ao limite de idade ou por terem assumido outras funções ou ainda porque foram chamados à Casa do Pai. Também a todos eles e a seus familiares dirijo o meu pensamento e gratidão.
Desejo juntamente convosco erguer ao Senhor vivo e sentido agradecimento pelo ano que está a nos deixar, pelos acontecimentos vividos e por todo o bem que Ele quis generosamente realizar mediante o serviço da Santa Sé, pedindo-lhe humildemente perdão pelas faltas cometidas “por pensamentos, palavras, obras e omissões”

E partindo precisamente deste pedido de perdão, desejaria que este nosso encontro e as reflexões que partilharei convosco se tornassem, para todos nós, apoio e estímulo a um verdadeiro exame de consciência a fim de preparar o nosso coração ao Santo Natal.
Pensando neste nosso encontro veio-me à mente a imagem da Igreja como Corpo místico de Jesus Cristo. É uma expressão que, como explicou o Papa Pio XII “brota e como que germina do que é frequentemente exposto na Sagrada Escritura e nos Santos Padres”. A este respeito, São Paulo escreveu: “Porque, como o corpo è um todo tendo muitos membros e todos os membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo, assim também é Cristo” (1 Cor 12,12).
Neste sentido, o Concílio Vaticano II lembra-nos que “na edificação do Corpo de Cristo há diversidade de membros e de funções. Um só é o Espírito que, para utilidade da Igreja, distribui seus vários dons segundo suas riquezas e as necessidades dos ministérios (cf. 1 Cor 12,1-11)”. Por isto “Cristo e a Igreja formam o «Cristo total» – Christus totus -. A Igreja é una com Cristo».
É belo pensar na Cúria Romana como sendo um pequeno modelo da Igreja, ou seja, um “corpo” que procura séria e cotidianamente ser mais vivo, mais sadio, mais harmonioso e mais unido em si mesmo e com Cristo.
Na realidade, a Cúria Romana é um corpo complexo, composto de muitos Dicastérios, Conselhos, Departamentos, Tribunais, Comissões e de numerosos elementos que não têm todos a mesma tarefa, mas são coordenados para um funcionamento eficaz, edificante, disciplinado e exemplar, não obstante as diversidades culturais, linguísticas e nacionais dos seus membros.
Em todo o caso, sendo a Cúria um corpo dinâmico, ela não pode viver sem alimentar-se e sem cuidar de si. De fato, a Cúria – como a Igreja – não pode viver sem ter uma ralação vital, pessoal, autêntica e sólida com Cristo. Um membro da Cúria que não se alimenta cotidianamente com aquele Alimento tornar-se-á um burocrata (um formalista, um funcionalista, um mero empregado): um ramo que seca e pouco a pouco morre e é lançado fora. A oração diária, a participação assídua nos Sacramentos, de modo especial, da Eucaristia e da reconciliação, o contato cotidiano com a palavra de Deus e a espiritualidade traduzida em caridade vivida são o alimento vital para cada um de nós. Que todos nós tenhamos bem claro que sem Ele nada poderemos fazer(cf Jo 15, 8).
Consequentemente, a relação viva com Deus alimenta e fortalece também a comunhão com os outros, ou seja, quanto mais estivermos intimamente unidos a Deus tanto mais estaremos unidos entre nós porque o Espírito de Deus une e o espírito do maligno divide.
A Cúria está chamada a melhorar-se, a melhorar-se sempre e a crescer em comunhão, santidade e sabedoria a fim de realizar plenamente a sua missão. No entanto, ela, como todo corpo, como todo corpo humano, está exposta também às doenças, ao mau funcionamento, à enfermidade. E aqui gostaria de mencionar algumas destas prováveis doenças, doenças curiais. São doenças mais costumeiras na nossa vida de Cúria. São doenças e tentações que enfraquecem o nosso serviço ao Senhor. Penso que nos ajudará o “catálogo” das doenças – nas pegadas dos Padres do deserto, que faziam aqueles catálogos – dos quais falamos hoje: ajudar-nos-á na nossa preparação ao Sacramento da Reconciliação, que será um passo importante de todos nós em preparação do Natal.

1. A doença do sentir-se “imortal”, “imune” ou até mesmo “indispensável” transcurando os controles necessários e habituais. Uma Cúria que não faz autocrítica, que não se actualiza, que não procura melhorar é um corpo enfermo. Uma visita ordinária aos cemitérios poderia ajudar-nos a ver os nomes de tantas pessoas, algumas das quais pensassem talvez que eram imortais, imunes e indispensáveis! É a doença do rico insensato do Evangelho que pensava viver eternamente (cf Lc 12, 13-21) e também daqueles que se transformam em senhores e se sentem superiores a todos e não a serviço de todos. Esta doença deriva muitas vezes da patologia do poder, do “complexo dos Eleitos”, do narcisismo que fixa apaixonadamente a sua imagem e não vê a imagem de Deus impressa na face dos outros, principalmente dos mais fracos e necessitados. O antídoto para esta epidemia é a graça de nos sentirmos pecadores e de dizer com todo o coração «Somos servos inúteis. Fizemos o que devíamos fazer» (Lc 17, 10).

2. Outra doença:  doença do “martalismo” (que vem de Marta), da excessiva operosidade: ou seja, daqueles que mergulham no trabalho, descuidando, inevitavelmente, “a melhor parte”: sentar-se aos pés de Jesus (cf Lc 10,38-42). Por isto Jesus chamou os seus discípulos a “descansar um pouco’” (cf Mc 6,31) porque descuidar do descanso necessário leva ao estresse e à agitação. O tempo do descanso, para quem levou a termo a sua missão, é necessário, obrigatório e deve ser lavado a sério: no passar um pouco de tempo com os familiares e no respeitar as férias como momentos de recarga espiritual e física; é necessário aprender o que ensina o Coélet que «para tudo há um tempo» (3,1-15).

3. Há ainda a doença do “empedernimento” mental e espiritual, ou seja, daqueles que possuem um coração de pedra e são de “dura cerviz” (At 7,51-60); daqueles que, com o passar do tempo, perdem a serenidade interior, a vivacidade a audácia e escondem-se atrás das folhas de papel, tornando-se “máquinas de práticas” e não “homens de Deus” (cf Hb 3,12). É perigoso perder a sensibilidade humana necessária que nos faz chorar com os que choram e alegrar-se com os que se alegram! É a doença dos que perdem “os sentimentos de Jesus ” (cf Fl 2,5-11) porque o seu coração, com o passar do tempo, endurece e torna-se incapaz de amar incondicionalmente ao Pai e o próximo (cf Mt 22,34-40). Ser cristão, com efeito, significa ter os mesmos sentimentos de Jesus Cristo» (Fl 2,5), sentimentos de humildade e de doação, de desapego e de generosidade.

4. A doença do planeamento excessivo e do funcionalismo. Quando o apóstolo planeja tudo minuciosamente e pensa que, fazendo um perfeito planeamento, as coisas efectivamente progridem, tornando-se, assim, um contador ou um comercialista. Preparar tudo bem é necessário, mas sem jamais cair na tentação de querer encerrar e pilotar a liberdade do Espírito Santo, que é sempre maior, mais generosa do que todo planeamento humano (cf Jo 3,8). Cai-se nesta doença porque  «é sempre mais fácil e cômodo adaptar-se às suas posições estáticas e imutadas. Na realidade, a Igreja mostra-se fiel ao Espírito Santo na medida em que não tem a pretensão de regulamentá-lo e de domesticá-lo… – domesticar o Espírito Santo! – … Ele é frescor, fantasia, novidade».

5. A doença da má coordenação. Quando os membros perdem a comunhão entre si e o corpo perde a sua funcionalidade harmoniosa e a sua temperança, tornando-se uma orquestra que produz barulho, porque os seus membros não cooperam e não vivem o espírito de comunhão e de equipe. Quando o pé diz ao braço: “não preciso de ti”, ou a mão à cabeça: “quem manda sou eu”, causando, assim, mal-estar ou escândalo.

6. Há também a doença do “alzheimer espiritual”: ou seja, o esquecimento da “história da salvação”, da história pessoal com o Senhor, do «primeiro amor» (Ap 2,4). Trata-se de uma perda progressiva das faculdades espirituais que num intervalo mais ou menos longo de tempo causa graves deficiências à pessoa, tornando-a incapaz de exercer algumas actividades autónomas, vivendo num estado de absoluta dependência das suas visões, tantas vezes imaginárias. É o que vemos naqueles que perderam a memória do seu encontro com o Senhor; naqueles que não têm o sentido deuteronômico da vida; naqueles que dependem completamente do seu presente, das suas paixões, caprichos e manias; naqueles que constroem em torno de si barreiras e hábitos, tornando-se, sempre mais escravos dos ídolos que esculpiram com suas próprias mãos.
7. A doença da rivalidade e da vanglória. Quando a aparência, as cores das vestes e as insígnias de honra se tornam o objectivo primordial da vida, esquecendo as palavras de São Paulo: «Nada façais por espírito de partido ou vanglória, mas que a humildade vos ensine a considerar os outros superiores a vós mesmos. Cada qual tenha em vista não os seus próprios interesses, e sim os dos outros» (Fl 2,1-4). É a doença que nos leva a ser homens e mulheres falsos, e a vivermos um falso “misticismo” e um falso “quietismo”. O mesmo São Paulo os define «inimigos da Cruz de Cristo» porque se envaidecem da própria ignomínia e só têm prazer no que é terreno» (Fl 3,19).

8. A doença da esquizofrenia existencial. É a doença dos que vivem uma vida dupla, fruto da hipocrisia típica do medíocre e do vazio espiritual progressivo que formaturas ou títulos acadêmicos não podem preencher. Uma doença que atinge frequentemente aquele que, abandonando o serviço pastoral, se limitam aos afazeres burocráticos, perdendo, assim, o contato com a realidade, com as pessoas concretas. Criam, assim, um seu mundo paralelo, onde colocam à parte tudo o que ensinam severamente aos outros e começam a viver uma vida oculta e muitas vezes dissoluta. A conversão é por demais urgente e indispensável para esta gravíssima doença (cf Lc 15,11-32).
9. A doença das fofocas, das murmurações e do mexerico. Já falei muitas vezes desta doença, mas nunca é suficiente. É uma doença grave, que começa simplesmente, quem sabe, para trocar duas palavras e se apodera da pessoa, transformando-a em  “semeadora de cizânia” (como satanás), e em tantos casos “homicida a sangue frio” da fama dos seus colegas e confrades. É a doença das pessoas velhacas que, não tendo a coragem de falar diretamente, falam pelas costas. São Paulo nos adverte: «Fazei todas as coisas sem murmurações nem críticas a fim de serdes irrepreensíveis e inocentes» (Fl 2,14-18). Irmãos, guardemo-nos do terrorismo das maledicências!

10. A doença de divinizar os chefes: é a dos que cortejam os Superiores, esperando obter a benevolência deles. São vítimas do carreirismo e do oportunismo, honrando as pessoas e não a Deus (cf Mt 23,8-12). São pessoas que vivem o serviço, pensando exclusivamente no que devem obter e não no que devem dar. Pessoas mesquinhas, infelizes e inspiradas só pelo seu próprio egoísmo (cf Gal 5,16-25). Esta doença  poderia atingir também os Superiores, quando cortejam alguns seus colaboradores para obter a sua submissão, lealdade e dependência psicológica, mas o resultado final é uma verdadeira cumplicidade.

11. A doença da indiferença para com os outros. Quando alguém pensa somente em si mesmo e perde a sinceridade e o calor das relações humanas. Quando o mais esperto não coloca o seu conhecimento a serviço dos colegas menos espertos. Quando se chega ao conhecimento de algo e o esconde para si, ao invés de compartilhar positivamente com os outros. Quando, por ciúme ou por astúcia, se sente alegria ao ver o outro cair, ao invés de erguê-lo e encorajá-lo.

12. A doença da cara funérea. Quer dizer, das pessoas grosseiras e sisudas que pensam que, para ser sérias, é necessário assumir as feições de melancolia, de severidade e tratar os outros – principalmente os que consideram inferiores – com rigidez, dureza e arrogância. Na realidade, a severidade teatral e o pessimismo estéril são muitas vezes sintomas de medo e de insegurança. O apóstolo deve esforçar-se por ser uma pessoa amável, serena e alegre que transmite alegria por toda parte onde quer se encontre. Um coração repleto de Deus é um coração feliz que irradia e contagia de alegria todos os que estão à sua volta: é o que se vê imediatamente! Não percamos, portanto, aquele espírito jovial, cheio de humor, e até autoirônico, que nos torna pessoas amáveis, mesmo nas situações difíceis. Quanto bem nos faz uma boa dose de sadio humorismo! Far-nos-á muito bem recitar muitas vezes a oração de São Tomás Moro: rezo-a todos os dias; me faz bem.

13. A doença de acumular: quando o apóstolo procura preencher um vazio existencial no seu coração, acumulando bens materiais, não por necessidade, mas só para sentir-se seguro. Na realidade, nada de material poderemos levar conosco, porque “a mortalha não tem bolsos” e todos os nossos tesouros terrenos – mesmo que sejam  presentes – jamais poderão preencher aquele vazio; pelo contrário, torná-lo-ão cada vez mais exigente e mais profundo. A estas pessoas o Senhor repete: «Dizes: sou rico, faço bons negócios, de nada necessito – e não sabes que és infeliz, miserável, pobre, cego e nu … Reanima, pois, o teu zelo e arrepende-te» (Ap 3,17-19). A acumulação só pesa e freia inexoravelmente o caminho! E penso numa anedota: um tempo, os jesuítas espanhóis descreviam que a Companhia de Jesus era como a “cavalaria leve da Igreja”. Lembro-me da mudança de um jovem jesuíta que, enquanto carregava num caminhão os seus muitos bens: bagagens, livros, objetos e presentes, ouvi um velho jesuíta, que estava a observá-lo, dizer com um sorriso sábio: e esta seria a “cavalaria leve da Igreja?”. As nossas mudanças são um sinal desta doença.

14. A doença dos círculos fechados onde a pertença ao grupinho se torna mais forte do que a pertença ao Corpo, e, em algumas situações, ao próprio Cristo. Também esta doença começa sempre de boas intenções, mas com o passar do tempo, escraviza os membros, tornando-se um câncer que ameaça a harmonia do Corpo e causa tanto mal – escândalos – especialmente aos nossos irmãos menores. A autodestruição ou o “tiro amigo” dos camaradas é o perigo mais sorrateiro. É o mal que atinge a partir de dentro; e, como diz Cristo, «todo o reino dividido contra si mesmo será destruído» (Lc 11,17).

15. E a última: a doença do proveito mundano, dos exibicionismos, quando o apóstolo transforma o seu serviço em poder e o seu poder em mercadoria para obter dividendos humanos ou mais poder; é a doença das pessoas que procuram insaciavelmente multiplicar poderes e, com esta finalidade, são capazes de caluniar, de difamar e de desacreditar os outros, até mesmo nos jornais e nas revistas. Naturalmente para se exibirem e se demonstrarem mais capazes do que os outros. Também esta doença faz muito mal ao Corpo porque leva as pessoas a justificar o uso de todo meio, contanto que atinja o seu objetivo, muitas vezes em nome da justiça e da transparência! E vem-me aqui à mente a lembrança de um sacerdote que chamava os jornalistas para lhes contar – e inventar – coisas privadas e reservadas dos seus confrades e paroquianos. Para ele a única coisa importante era ver-se nas primeiras páginas, porque assim se sentia “potente e convincente”, causando tanto mal aos outros e à Igreja. Pobrezinho!
Irmãos, estas doenças e tais tentações são naturalmente um perigo para todo cristão e para toda cúria, comunidade, congregação, paróquia, movimento eclesial  e podem atingir quer em nível individual quer comunitário.
É necessário esclarecer que só o Espírito Santo  – a alma do Corpo Místico de Cristo, como afirma o Credo Niceno-Costantinopolitano: «Creio… no Espírito Santo, Senhor e e vivificador» – pode curar todas as enfermidades. É o Espírito Santo que sustenta todo esforço sincero de purificação e toda boa vontade de conversão. É Ele que nos faz compreender que todo membro participa da santificação do corpo ou do seu enfraquecimento. É Ele o promotor da harmonia: “Ipse harmonia est”, diz São Basílio. Santo Agostinho diz-nos: «Enquanto uma parte aderir ao corpo, a sua cura não é desesperada; mas o que foi cortado não pode nem curar-se nem sarar».
O restabelecimento é também fruto da consciência da doença e da decisão pessoal e comunitária de tratar-se, suportando pacientemente e com perseverança a terapia.
Somos chamados, portanto – neste tempo de Natal e por todo o tempo do nosso serviço e da nossa existência – a viver «pela prática sincera da caridade , crescendo em todos os sentidos, naquele que é a Cabeça, Cristo. É por Ele que todo o corpo – coordenado e unido por conexões que estão ao seu dispor, trabalhando cada um conforme a atividade que lhe é própria – efetua esse crescimento , visando à sua plena edificação na caridade » (Ef 4,15-16).
Amados irmãos!
Certa vez li que os sacerdotes são como aviões: só fazem notícia quando caem, mas há tantos que voam. Muitos criticam e poucos rezam por eles. É uma frase muito simpática, mas também muito verdadeira, porque delineia a importância e a delicadeza do nosso serviço sacerdotal e quanto mal poderia causar um só sacerdote que “cai”, a todo o corpo da Igreja.
Portanto, para não cair nestes dias em que nos preparamos à Confissão, peçamos à Virgem Maria, Mãe de Deus e Mãe da Igreja, que cure as feridas do pecado que cada um de nós tem no seu coração e que ampare a Igreja e a Cúria a fim de que sejam sadias e saneadoras; santas e santificadoras  para a glória do seu Filho e para a nossa salvação e do mundo inteiro. Peçamos a Ela que nos faça amar a Igreja como a amou Cristo, seu Filho e nosso Senhor, e que tenhamos a coragem de nos reconhecermos pecadores e necessitados da sua misericórdia e que não tenhamos medo de abandonar a nossa mão entre as suas mãos maternais.
Os melhores votos de um santo Natal a todos vós, às vossas famílias e aos vossos colaboradores. E, por favor, não vos esqueçais de rezar por mim! Obrigado de coração!  (a)

(a) transcrição do discurso publicado na Internet.


quarta-feira, dezembro 17, 2014

OBSERVATÓRIO DO MUNDO GLOBALIZADO

                             
 Dezembro de 2014: talibãs matam 132 crianças na escola de Peshawar, Paquistão. Ataque sem precedentes neste país. As autoridades continuarão a lutar contra estas criaturas inomináveis 

   na morte de Mohammed Ail Khan,
           de 15 anos        


Muitos outros trágicos acontecimentos se verificaram um pouco por todo o mundo. Este foi um dos mais bárbaros factos a registar ontem: extremistas, mal sabendo a fala do homem inteiro, disseram que as mortes das crianças e centenas de feridos, incluindo nove adultos, se cingiu a uma vingança contra o governo. E garantiu que a luta vai continuar. Lumena Raposo, do «Diário de Notícias», escreveu hoje: «Vi crianças a cair que choravam e gritavam.»
Este foi o pior ataque no país desde os atentados de 2007, em Carachi, que fizeram 150 mortos. Os movimentos regressivos da Humanidade em quase todo o mundo têm, nos talibãs, cujos ódios e restrições individuais se conhecem, o exemplo mais inquietante de um fim sangrento, da morte do Homem pelas suas próprias mãos, esvaziado de toda a cultura, proibido de ver, ouvir, cantar, dançar, pintar, aprender as ciências e a história dos povos antigos. Perante este acontecimento a Prémio Nobel da Paz, Malala, denunciou-o como um ataque «atroz e cobarde».

domingo, dezembro 07, 2014

MÁRIO SOARES, HOJE, COMPLETA 90 ANOS DE VIDA


Mário Soares, ex-presidente da República Portuguesa, celebra hoje 90 anos de idade. Tem sido uma figura incontornável na história do país, mesmo antes do 25 de Abril de 1974. A democracia que se definiu no país após a revolução, orlada pela Constituição de 1976, elegeu Mário Soares a um plano invulgar no àmbito das transformações que se viveram entretanto, com uma trágica mas inevitável descolonização, fruto de intransigência de Salazar, que rejeitou a oferta dos americanos para apoio a um plano progressivo de autonomia das chamadas Províncias Ultramarinas, com eventual Federação de Estados no futuro. A luta ideológica entre o Partido Socialista (Mário Soares) e Partido Comunista (Álvaro Cunhal) marcou profundamente o país no início das grandes transformações verificadas no espaço português, à partida na iluminada manifestação da Fonte Luminosa da Alameda Afonso Henriques, e depois, sob o comando dos militares democratas, como Ramalho Eanes, Salgueiro Maia e Jaime Neves, tendo como Presidente o General Costa Gomes, o perigoso confronto  do 25 de Novembro (no qual o general Otelo, entre outros, visava a instituição de um regime de esquerda), intentona perdida a favor da estratégia seguida pelas forças comandadas por Ramalho Eanes.




Mário Soares integrou o cargo de Primeiro Ministro, tendo sido Presidente da República.


Nascido em Lisboa, foi o segundo filho de João Lopes Soares, ex padre e pedagogo, ministro na I República e combatente do Salazarismo, e de Elisa Nobre Baptista. Co-fundador do Partido Socialista de Portugal, a 19 de Abril de 1973, Mário Soares foi um dos mais famosos resistentes ao Estado Novo, pelo que foi preso doze vezes (num total de cerca de três anos de cadeia) e deportado sem julgamento para a ilha de São Tomé, em 1968, até se exilar em França, em 1970.

Mário Soares licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1951, e em Direito, na Faculdade de Direito da mesma universidade, em 1957.1 . Foi nos tempos de estudante que, com apoio do pai, iniciou o seu percurso político — pertenceu ao MUNAF - Movimento de Unidade Nacional Anti-Fascista, em Maio de 1943, integrou a Comissão Central do MUD - Movimento de Unidade Democrática, Em 1946, foi fundador o MUD Juvenil e membro da primeira Comissão Central, no mesmo ano. Em 1949, ano em que, a 22 de Fevereiro,  casou-se na prisão,  registo na 3.ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa, com Maria Barroso. Foi secretário da Comissão Central da candidatura do General Norton de Matos à Presidência da República. Em 1955 integrou o Directório Democrático-Social, dirigido por António SérgioJaime Cortesão e Azevedo Gomes e, em 1958, pertenceu à comissão da candidatura do General Humberto Delgado à Presidência da República. Foi militante do Partido Comunista Português e, como advogado, defensor do Dr. Álvaro Cunhal.
Desempenhou funções docentes no Ensino Secundário Particular e chegou a dirigir o Colégio Moderno, fundado pelo pai. Como advogado, defensor de presos políticos, participou em numerosos julgamentos, realizados no Tribunal Plenário e no Tribunal Militar Especial. Representou a família de Humberto Delgado na investigação do seu alegado assassinato. Juntamente com Adelino da Palma Carlos, defendeu também a causa dinástica de Maria Pia de Saxe Coburgo e Bragança. Ainda na década de 1950 foi membro da Resistência Republicana e Socialista, redactor e signatário do Programa para a Democratização da República em 1961, candidato a deputado pela Oposição Democrática, em 1965, e pela CEUD, em 1969.
Aquando do seu exílio em França, em 1970, foi chargé de cours nas universidades de Paris VIII (Vincennes) e Paris IV (Sorbonne), e igualmente professor convidado na Faculdade de Letras da Universidade da Alta Bretanha, em Rennes, que lhe atribuiu o grau de Doutor Honoris Causa. Em 1973, foi o primeiro fundador do Partido Socialista, de que foi secretário-geral e ainda hoje é militante.
Estando ainda aí, em 1972, foi à loja à loja maçónica parisense " maçonaria, segundo ele próprio, optando depois por ficar "adormecido"4 .
A 28 de Abril de 1974, três dias depois da Revolução de 25 de Abril, regressou do exílio em Paris, no chamado "Comboio da Liberdade".5 Dois dias depois, esteve presente na chegada a Lisboa de Álvaro Cunhal. Ainda que tivessem ideias políticas diferentes, subiram de braços dados, pela primeira e última vez, as ruas da Baixa Pombalina e a avenida da Liberdade.
Durante o período revolucionário que ficou conhecido como PREC foi o principal líder civil do campo democrático, tendo conduzido o Partido Socialista à vitória nas eleições para a Assembleia Constituinte de 1975.
Foi Ministro dos Negócios Estrangeiros, de Maio de 1974 a Março de 1975, e um dos impulsionadores da independência das colónias portuguesas, tendo sido responsável por parte desse processo.
A partir de Março de 1977 colaborou no processo de adesão de Portugal à CEE, vindo a subscrever, como primeiro-ministro, o Tratado de Adesão, em 12 de Julho de 1985.
Foi primeiro-ministro de Portugal nos seguintes períodos:


Presidente da República entre 1986 e 1996 (1.º mandato de 10 de Março de 1986 a 1991, 2.º mandato de 13 de Janeiro de 1991 a 9 de Março de 1996).

Os que ainda combatem Mário Soares apontam-lhe a sua recusa em reformar-se. Ele recusa deixar de ser personagem central da vida política. É amado e odiado em medidas proporcionais. Mário Soares, o «actor que, mesmo assobiado pelo público, insiste em representar. A comemoração dos seus 90 anos tem actos públicos e declarações contra o empobrecimento do pais. O Partido Socialista tenta alcançar de novo o poder em 2015/2016.

sexta-feira, dezembro 05, 2014

O IMPERADOR CLÁUDIO E A PASSADEIRA VERMELHA



Imperador em termos de «Coordenador». Coordenador de um programa televisivo que se chama, em jeito de revista badalada nos consultórios médicos, Passadeira Vermelha e acontece num cenário de mau gosto excelente, com vários maples brancos, puffs por ali, em meia-lua, as câmaras todas arrumadinhas do nosso lado, do lado do telespectador. O plano geral mostra tudo com clareza, enquanto Cláudio se espreguiça ou deita nos bancos à esquerda, esperando que os outros falem ou falando ao mesmo tempo de todos.
Procurando o primeiro plano, ou um protagonismo em gritos e palavreado fragmentário, Cláudio não tem as divisas todas, segundo o manifesto oficial deste regular evento. «Ligada desde o primeiro minuto à SIC CARAS, Liliana Campos confessa-se feliz com este desafio profissional que chegou há menos de um ano à sua vida.» (sic)

Liliana Campos, de facto  a Imperatriz

Liliana, que faz o trabalho de casa com esmero, falando depois  dos modelos e das actrizes em cascata, incluindo há dias um belo requiem pela Duquesa de Alba, considera o balanço do programa positivo. Está a gostar muito de «fazer o projecto». E acrescenta: Identifico-me cada vez mais com a «Passadeira Vermelha»

Fornecidos estes primeiros dados, entre a apresentação de modelos enrolados em vestidos intragáveis, piores ainda pelo cacarejo sobreposto de todos os presentes, ou a dor escondida da Jolie, ou pareceres sobre famílias reais, e ainda, no prato do mesmo dia, a problemática da homossexualidade, novas famílias, meninos sem trauma, por aí adiante, sem rigor nem citações capazes. Claro que é uma vergonha pôr em causa a orientação sexual das pessoas, o seu direito à adopção, constituindo uma verdadeira família. Só que esta causa social não é assim tão simples e as fontes de saber sobre ela deveriam ser abordadas com muito mais profundidade. O mesmo se pode apontar àquelas falas disfuncionais sobre as relações sexuais, comportamentos femininos e masculinos, diferenças e semelhanças, um ruído constante onde se ouvem vocábulos como tamanho, posturas, coisas prosaicas, o assunto rolando no acaso do que vem à boca.


Plano geral que confirma o dispositivo atrás referido. O programa «Passadeira
Vermelha» é um talk-show em directo, de segunda a sexta-feira, no canal SIC CARAS. A apresentação desta pérola dos audio-visuais está a cargo de Andreia Rodrigues, Liliana Campos e Sofia Cerveira, as quais são acompanhadas do painel de comentadores Cláudio Ramos, Pedro Crispim e Luísa Castel-Branco, todos dizendo diferentes «abordagens e olhares sobre a actualidade social, nacional, internacional» -- sempre «com humor e boa disposição», acentua a propaganda. Até se fala, para  breve, em várias iniciativas, como lançamentos de livros, exposições, estreias de cinema. É preciso abrir já as gavetas dos nossos talentos. De contrário, aparecem os amigos e os génios de circunstância. Mas não é assim que se faz isto assim.

terça-feira, novembro 25, 2014

UMA QUARENTENA POR DOENÇAS DO CAPITAL





O thriller desempenhado pelo ex-primeiro Ministro José Sócrates ocorreu à sua chegada de Paris, tendo sido usada a manga de evacuação por emergência. Ele sabia que seria detido no aeroporto: entidades policiais e tributárias, carros ligeiros, descaracterizados, as televisões e os jornais, todos parecendo seguros do que se passava, na hora certa. Estavam lá. O segredo de justiça era, mais uma vez, divulgado  e envolvia  presunções graves sobre crimes cometidos por José Sócrates: fraude fiscal, corrupção e branqueamento de capitais. 
No Campus da Justiça, ao qual aportaram os carros, autoridades e o indiciado daquelas acções verdadeiramente graves e surpreendentes, toda a gente dos noticiários e jornais da manhã mostrou-se paciente, profissional, durante longas horas. Entre as dez e onze horas daquele dia, uma funcionária leu o comunicado do juiz inquiridor, Carlos Alexandre, no qual se esclarecia, em nome da tranquilidade pública e do interesse das investigações, que a José Sócrates era desde logo atribuída a medida de coação correspondente a Prisão Preventiva.

Nos dias seguintes, jornais, televisão e rádio dedicavam as mais diversas abordagens sobre tão excitante assunto. Eu próprio cheguei a descrever aqui a acção rocambolesca da detenção de Sócrates e da sua ida, naquele mesmo dia, para a Penitenciária de Évora, recentemente cuidada e dedicada aos detidos de especial importância nos domínios sociais, políticos, económicos. Desde então, houve especiais cuidados no Partido Socialista, à beira de um Congresso, e debates os mais diversos. A minha atenção fixou-se ontem, dia 30, na conversa em que participou, com especial relevo, António Vilaverde Cabral: a sua análise das situações relativas ao regime português, ao comportamento da justiça, às sequelas de muitas derrocadas nos últimos tempos, incluindo  ilicitudes agravadas e um desgaste geral cujo aprofundamento começa a abrir espaços problemáticos ao futuro do país, tudo isso me deixou assombrado, numa espécie de revelação iluminada.
Por isso achei curial sintetizar a notícia que detalhara sobre a viagem de Paris para Lisboa do ex-primeiro ministro José Sócrates. É verdade que não concordo com acções deste género provocando demasiados efeitos de ricochete. De resto, não sei se a Justiça está agora mais rápida perante os crimes de colarinho branco e novelas sucateiras. Pode parecer mas não sei, não posso afirmar, embora me pareça que o país precisa cada vez mais de clareza nas decisões e de um forte entrosamento das diversas áreas de criação e produção. Fico gelado quando me anunciam crimes hediondos preteridos por gastos de tempo de pesquisa e escrituração. 
Apreciei, no seu primeiro mandato, muitas das ideias avançadas por Sócrates, aliás numa altura em que a própria União Europeia abria fundos para o desenvolvimento de infra-estruturas modernizadoras, projectos sociais ou de qualificação, bases de melhor sustentação quanto à escolaridade, ensino superior, planos tecnológicos. Depois desse tempo, quando as eleições deram ao partido Socialista, e a Sócrates, uma vitória relativa, a crise começava a cavalgar na mobilidade grosseira da  globalização. E cá estamos nisso, num tumulto de guerras e fanatismos sem limite. A Europa perde uma boa parte da sua luz.
Qualquer processo desta natureza, há muito anunciado e hoje ancorado tecnologicamente no maior vórtice, massifica quase tudo, baixa os indicadores culturais, os índíces de desenvolvimento em harmonia. Talvez tudo, assim. deva recomeçar por vastas áreas de  inquérito e avaliação. A comunicação social tem de regular as suas fontes, sem bolas de cristal nem dinheiro mal parado.  
Não é meu intuito afirmar o céu na terra, nem qualquer favor público a certas personalidades cuja acção ou obras atraíram muita gente e levaram outra aos domínios da ira e da negação. Há sombras e claridades um pouco por todo o lado. Dentro de um mundo assim é nosso dever avaliar com propriedade quando figuras de perfil histórico nos conduzem a tomar as nossas próprias decisões comportamentais, de cidadania, perto ou longe da política. Se é que se pode despolitizar a vida em comunidade e o desenho intrínseco da nossa identidade.