E partindo precisamente deste pedido de perdão,
desejaria que este nosso encontro e as reflexões que partilharei convosco se
tornassem, para todos nós, apoio e estímulo a um verdadeiro exame de
consciência a fim de preparar o nosso coração ao Santo Natal.
Pensando neste nosso encontro veio-me à mente a
imagem da Igreja como Corpo místico de Jesus Cristo. É uma expressão que, como
explicou o Papa Pio XII “brota e como que germina do que é frequentemente
exposto na Sagrada Escritura e nos Santos Padres”. A este respeito, São Paulo
escreveu: “Porque, como o corpo è um todo tendo muitos membros e todos os
membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo, assim também é Cristo” (1
Cor 12,12).
Neste sentido, o Concílio Vaticano II lembra-nos
que “na edificação do Corpo de Cristo há diversidade de membros e de funções.
Um só é o Espírito que, para utilidade da Igreja, distribui seus vários dons
segundo suas riquezas e as necessidades dos ministérios (cf. 1 Cor 12,1-11)”.
Por isto “Cristo e a Igreja formam o «Cristo total» – Christus totus -. A
Igreja é una com Cristo».
É belo pensar na Cúria Romana como sendo um
pequeno modelo da Igreja, ou seja, um “corpo” que procura séria e
cotidianamente ser mais vivo, mais sadio, mais harmonioso e mais unido em si
mesmo e com Cristo.
Na realidade, a Cúria Romana é um corpo complexo,
composto de muitos Dicastérios, Conselhos, Departamentos, Tribunais, Comissões
e de numerosos elementos que não têm todos a mesma tarefa, mas são coordenados
para um funcionamento eficaz, edificante, disciplinado e exemplar, não obstante
as diversidades culturais, linguísticas e nacionais dos seus membros.
Em todo o caso, sendo a Cúria um corpo dinâmico,
ela não pode viver sem alimentar-se e sem cuidar de si. De fato, a Cúria – como
a Igreja – não pode viver sem ter uma ralação vital, pessoal, autêntica e
sólida com Cristo. Um membro da Cúria que não se alimenta cotidianamente com
aquele Alimento tornar-se-á um burocrata (um formalista, um funcionalista, um
mero empregado): um ramo que seca e pouco a pouco morre e é lançado fora. A
oração diária, a participação assídua nos Sacramentos, de modo especial, da
Eucaristia e da reconciliação, o contato cotidiano com a palavra de Deus e a
espiritualidade traduzida em caridade vivida são o alimento vital para cada um
de nós. Que todos nós tenhamos bem claro que sem Ele nada poderemos fazer(cf Jo
15, 8).
Consequentemente, a relação viva com Deus
alimenta e fortalece também a comunhão com os outros, ou seja, quanto mais
estivermos intimamente unidos a Deus tanto mais estaremos unidos entre nós
porque o Espírito de Deus une e o espírito do maligno divide.
A Cúria está chamada a melhorar-se, a melhorar-se
sempre e a crescer em comunhão, santidade e sabedoria a fim de realizar
plenamente a sua missão. No entanto, ela, como todo corpo, como todo corpo
humano, está exposta também às doenças, ao mau funcionamento, à enfermidade. E
aqui gostaria de mencionar algumas destas prováveis doenças, doenças curiais.
São doenças mais costumeiras na nossa vida de Cúria. São doenças e tentações
que enfraquecem o nosso serviço ao Senhor. Penso que nos ajudará o “catálogo”
das doenças – nas pegadas dos Padres do deserto, que faziam aqueles catálogos –
dos quais falamos hoje: ajudar-nos-á na nossa preparação ao Sacramento da
Reconciliação, que será um passo importante de todos nós em preparação do
Natal.
1. A doença do sentir-se “imortal”, “imune” ou
até mesmo “indispensável” transcurando os controles necessários e habituais.
Uma Cúria que não faz autocrítica, que não se actualiza, que não procura
melhorar é um corpo enfermo. Uma visita ordinária aos cemitérios poderia
ajudar-nos a ver os nomes de tantas pessoas, algumas das quais pensassem talvez
que eram imortais, imunes e indispensáveis! É a doença do rico insensato do
Evangelho que pensava viver eternamente (cf Lc 12, 13-21) e também daqueles que
se transformam em senhores e se sentem superiores a todos e não a serviço de
todos. Esta doença deriva muitas vezes da patologia do poder, do “complexo dos
Eleitos”, do narcisismo que fixa apaixonadamente a sua imagem e não vê a imagem
de Deus impressa na face dos outros, principalmente dos mais fracos e
necessitados. O antídoto para esta epidemia é a graça de nos sentirmos
pecadores e de dizer com todo o coração «Somos servos inúteis. Fizemos o que
devíamos fazer» (Lc 17, 10).
2. Outra doença: doença do “martalismo”
(que vem de Marta), da excessiva operosidade: ou seja, daqueles que mergulham
no trabalho, descuidando, inevitavelmente, “a melhor parte”: sentar-se aos pés
de Jesus (cf Lc 10,38-42). Por isto Jesus chamou os seus discípulos a
“descansar um pouco’” (cf Mc 6,31) porque descuidar do descanso necessário leva
ao estresse e à agitação. O tempo do descanso, para quem levou a termo a sua
missão, é necessário, obrigatório e deve ser lavado a sério: no passar um pouco
de tempo com os familiares e no respeitar as férias como momentos de recarga
espiritual e física; é necessário aprender o que ensina o Coélet que «para tudo
há um tempo» (3,1-15).
3. Há ainda a doença do “empedernimento” mental e
espiritual, ou seja, daqueles que possuem um coração de pedra e são de “dura
cerviz” (At 7,51-60); daqueles que, com o passar do tempo, perdem a serenidade
interior, a vivacidade a audácia e escondem-se atrás das folhas de papel,
tornando-se “máquinas de práticas” e não “homens de Deus” (cf Hb 3,12). É
perigoso perder a sensibilidade humana necessária que nos faz chorar com os que
choram e alegrar-se com os que se alegram! É a doença dos que perdem “os
sentimentos de Jesus ” (cf Fl 2,5-11) porque o seu coração, com o passar do
tempo, endurece e torna-se incapaz de amar incondicionalmente ao Pai e o
próximo (cf Mt 22,34-40). Ser cristão, com efeito, significa ter os mesmos
sentimentos de Jesus Cristo» (Fl 2,5), sentimentos de humildade e de doação, de
desapego e de generosidade.
4. A doença do planeamento excessivo e do
funcionalismo. Quando o apóstolo planeja tudo minuciosamente e pensa que,
fazendo um perfeito planeamento, as coisas efectivamente progridem,
tornando-se, assim, um contador ou um comercialista. Preparar tudo bem é
necessário, mas sem jamais cair na tentação de querer encerrar e pilotar a
liberdade do Espírito Santo, que é sempre maior, mais generosa do que todo
planeamento humano (cf Jo 3,8). Cai-se nesta doença porque «é sempre mais
fácil e cômodo adaptar-se às suas posições estáticas e imutadas. Na realidade,
a Igreja mostra-se fiel ao Espírito Santo na medida em que não tem a pretensão
de regulamentá-lo e de domesticá-lo… – domesticar o Espírito Santo! – … Ele é
frescor, fantasia, novidade».
5. A doença da má coordenação. Quando os membros
perdem a comunhão entre si e o corpo perde a sua funcionalidade harmoniosa e a
sua temperança, tornando-se uma orquestra que produz barulho, porque os seus
membros não cooperam e não vivem o espírito de comunhão e de equipe. Quando o
pé diz ao braço: “não preciso de ti”, ou a mão à cabeça: “quem manda sou eu”,
causando, assim, mal-estar ou escândalo.
6. Há também a doença do “alzheimer espiritual”:
ou seja, o esquecimento da “história da salvação”, da história pessoal com o
Senhor, do «primeiro amor» (Ap 2,4). Trata-se de uma perda progressiva das
faculdades espirituais que num intervalo mais ou menos longo de tempo causa
graves deficiências à pessoa, tornando-a incapaz de exercer algumas actividades autónomas, vivendo num estado de absoluta dependência das suas visões, tantas
vezes imaginárias. É o que vemos naqueles que perderam a memória do seu
encontro com o Senhor; naqueles que não têm o sentido deuteronômico da vida;
naqueles que dependem completamente do seu presente, das suas paixões,
caprichos e manias; naqueles que constroem em torno de si barreiras e hábitos,
tornando-se, sempre mais escravos dos ídolos que esculpiram com suas próprias
mãos.
7. A doença da rivalidade e da vanglória. Quando
a aparência, as cores das vestes e as insígnias de honra se tornam o objectivo
primordial da vida, esquecendo as palavras de São Paulo: «Nada façais por
espírito de partido ou vanglória, mas que a humildade vos ensine a considerar
os outros superiores a vós mesmos. Cada qual tenha em vista não os seus
próprios interesses, e sim os dos outros» (Fl 2,1-4). É a doença que nos leva
a ser homens e mulheres falsos, e a vivermos um falso “misticismo” e um falso
“quietismo”. O mesmo São Paulo os define «inimigos da Cruz de Cristo» porque se
envaidecem da própria ignomínia e só têm prazer no que é terreno» (Fl 3,19).
8. A doença da esquizofrenia existencial. É a
doença dos que vivem uma vida dupla, fruto da hipocrisia típica do medíocre e
do vazio espiritual progressivo que formaturas ou títulos acadêmicos não podem
preencher. Uma doença que atinge frequentemente aquele que, abandonando o
serviço pastoral, se limitam aos afazeres burocráticos, perdendo, assim, o
contato com a realidade, com as pessoas concretas. Criam, assim, um seu mundo
paralelo, onde colocam à parte tudo o que ensinam severamente aos outros e
começam a viver uma vida oculta e muitas vezes dissoluta. A conversão é por
demais urgente e indispensável para esta gravíssima doença (cf Lc 15,11-32).
9. A doença das fofocas, das murmurações e do
mexerico. Já falei muitas vezes desta doença, mas nunca é suficiente. É uma
doença grave, que começa simplesmente, quem sabe, para trocar duas palavras e
se apodera da pessoa, transformando-a em “semeadora de cizânia” (como
satanás), e em tantos casos “homicida a sangue frio” da fama dos seus colegas e
confrades. É a doença das pessoas velhacas que, não tendo a coragem de falar
diretamente, falam pelas costas. São Paulo nos adverte: «Fazei todas as coisas
sem murmurações nem críticas a fim de serdes irrepreensíveis e inocentes» (Fl
2,14-18). Irmãos, guardemo-nos do terrorismo das maledicências!
10. A doença de divinizar os chefes: é a dos que
cortejam os Superiores, esperando obter a benevolência deles. São vítimas do
carreirismo e do oportunismo, honrando as pessoas e não a Deus (cf Mt 23,8-12).
São pessoas que vivem o serviço, pensando exclusivamente no que devem obter e
não no que devem dar. Pessoas mesquinhas, infelizes e inspiradas só pelo seu
próprio egoísmo (cf Gal 5,16-25). Esta doença poderia atingir também os
Superiores, quando cortejam alguns seus colaboradores para obter a sua
submissão, lealdade e dependência psicológica, mas o resultado final é uma
verdadeira cumplicidade.
11. A doença da indiferença para com os outros.
Quando alguém pensa somente em si mesmo e perde a sinceridade e o calor das
relações humanas. Quando o mais esperto não coloca o seu conhecimento a serviço
dos colegas menos espertos. Quando se chega ao conhecimento de algo e o esconde
para si, ao invés de compartilhar positivamente com os outros. Quando, por
ciúme ou por astúcia, se sente alegria ao ver o outro cair, ao invés de
erguê-lo e encorajá-lo.
12. A doença da cara funérea. Quer dizer, das
pessoas grosseiras e sisudas que pensam que, para ser sérias, é necessário
assumir as feições de melancolia, de severidade e tratar os outros –
principalmente os que consideram inferiores – com rigidez, dureza e arrogância.
Na realidade, a severidade teatral e o pessimismo estéril são muitas vezes sintomas
de medo e de insegurança. O apóstolo deve esforçar-se por ser uma pessoa
amável, serena e alegre que transmite alegria por toda parte onde quer se
encontre. Um coração repleto de Deus é um coração feliz que irradia e contagia
de alegria todos os que estão à sua volta: é o que se vê imediatamente! Não
percamos, portanto, aquele espírito jovial, cheio de humor, e até autoirônico,
que nos torna pessoas amáveis, mesmo nas situações difíceis. Quanto bem nos faz
uma boa dose de sadio humorismo! Far-nos-á muito bem recitar muitas vezes a
oração de São Tomás Moro: rezo-a todos os dias; me faz bem.
13. A doença de acumular: quando o apóstolo
procura preencher um vazio existencial no seu coração, acumulando bens
materiais, não por necessidade, mas só para sentir-se seguro. Na realidade,
nada de material poderemos levar conosco, porque “a mortalha não tem bolsos” e
todos os nossos tesouros terrenos – mesmo que sejam presentes – jamais
poderão preencher aquele vazio; pelo contrário, torná-lo-ão cada vez mais exigente
e mais profundo. A estas pessoas o Senhor repete: «Dizes: sou rico, faço bons
negócios, de nada necessito – e não sabes que és infeliz, miserável, pobre,
cego e nu … Reanima, pois, o teu zelo e arrepende-te» (Ap 3,17-19). A
acumulação só pesa e freia inexoravelmente o caminho! E penso numa anedota: um
tempo, os jesuítas espanhóis descreviam que a Companhia de Jesus era como a
“cavalaria leve da Igreja”. Lembro-me da mudança de um jovem jesuíta que,
enquanto carregava num caminhão os seus muitos bens: bagagens, livros, objetos
e presentes, ouvi um velho jesuíta, que estava a observá-lo, dizer com um
sorriso sábio: e esta seria a “cavalaria leve da Igreja?”. As nossas mudanças
são um sinal desta doença.
14. A doença dos círculos fechados onde a
pertença ao grupinho se torna mais forte do que a pertença ao Corpo, e, em
algumas situações, ao próprio Cristo. Também esta doença começa sempre de boas
intenções, mas com o passar do tempo, escraviza os membros, tornando-se um
câncer que ameaça a harmonia do Corpo e causa tanto mal – escândalos –
especialmente aos nossos irmãos menores. A autodestruição ou o “tiro amigo” dos
camaradas é o perigo mais sorrateiro. É o mal que atinge a partir de dentro; e,
como diz Cristo, «todo o reino dividido contra si mesmo será destruído» (Lc
11,17).
15. E a última: a doença do proveito mundano, dos
exibicionismos, quando o apóstolo transforma o seu serviço em poder e o seu
poder em mercadoria para obter dividendos humanos ou mais poder; é a doença das
pessoas que procuram insaciavelmente multiplicar poderes e, com esta
finalidade, são capazes de caluniar, de difamar e de desacreditar os outros,
até mesmo nos jornais e nas revistas. Naturalmente para se exibirem e se
demonstrarem mais capazes do que os outros. Também esta doença faz muito mal ao
Corpo porque leva as pessoas a justificar o uso de todo meio, contanto que
atinja o seu objetivo, muitas vezes em nome da justiça e da transparência! E
vem-me aqui à mente a lembrança de um sacerdote que chamava os jornalistas para
lhes contar – e inventar – coisas privadas e reservadas dos seus confrades e
paroquianos. Para ele a única coisa importante era ver-se nas primeiras
páginas, porque assim se sentia “potente e convincente”, causando tanto mal aos
outros e à Igreja. Pobrezinho!
Irmãos, estas doenças e tais tentações são
naturalmente um perigo para todo cristão e para toda cúria, comunidade,
congregação, paróquia, movimento eclesial e podem atingir quer em nível
individual quer comunitário.
É necessário esclarecer que só o Espírito
Santo – a alma do Corpo Místico de Cristo, como afirma o Credo
Niceno-Costantinopolitano: «Creio… no Espírito Santo, Senhor e e vivificador» –
pode curar todas as enfermidades. É o Espírito Santo que sustenta todo esforço
sincero de purificação e toda boa vontade de conversão. É Ele que nos faz
compreender que todo membro participa da santificação do corpo ou do seu
enfraquecimento. É Ele o promotor da harmonia: “Ipse harmonia est”, diz São
Basílio. Santo Agostinho diz-nos: «Enquanto uma parte aderir ao corpo, a sua
cura não é desesperada; mas o que foi cortado não pode nem curar-se nem sarar».
O restabelecimento é também fruto da consciência
da doença e da decisão pessoal e comunitária de tratar-se, suportando
pacientemente e com perseverança a terapia.
Somos chamados, portanto – neste tempo de Natal e
por todo o tempo do nosso serviço e da nossa existência – a viver «pela prática
sincera da caridade , crescendo em todos os sentidos, naquele que é a Cabeça,
Cristo. É por Ele que todo o corpo – coordenado e unido por conexões que estão
ao seu dispor, trabalhando cada um conforme a atividade que lhe é própria –
efetua esse crescimento , visando à sua plena edificação na caridade » (Ef
4,15-16).
Amados irmãos!
Certa vez li que os sacerdotes são como aviões:
só fazem notícia quando caem, mas há tantos que voam. Muitos criticam e poucos
rezam por eles. É uma frase muito simpática, mas também muito verdadeira,
porque delineia a importância e a delicadeza do nosso serviço sacerdotal e
quanto mal poderia causar um só sacerdote que “cai”, a todo o corpo da Igreja.
Portanto, para não cair nestes dias em que nos
preparamos à Confissão, peçamos à Virgem Maria, Mãe de Deus e Mãe da Igreja,
que cure as feridas do pecado que cada um de nós tem no seu coração e que
ampare a Igreja e a Cúria a fim de que sejam sadias e saneadoras; santas e
santificadoras para a glória do seu Filho e para a nossa salvação e do
mundo inteiro. Peçamos a Ela que nos faça amar a Igreja como a amou Cristo, seu
Filho e nosso Senhor, e que tenhamos a coragem de nos reconhecermos pecadores e
necessitados da sua misericórdia e que não tenhamos medo de abandonar a nossa
mão entre as suas mãos maternais.
Os melhores votos de um santo Natal a todos vós,
às vossas famílias e aos vossos colaboradores. E, por favor, não vos esqueçais
de rezar por mim! Obrigado de coração! (a)
(a) transcrição do discurso publicado na Internet.