sexta-feira, agosto 14, 2015

FALECEU EM FEVEREIRO O ARTISTA VICTOR BELÉM


VICTOR BELÉM

Quase te conheci desta forma, porque assim conversámos e abrimos a alma aos encontros de outros tempos, muitas galerias e a SNBA, chacoteando um pouco os vícios da fama alheia ou o céu quase súbito das inaugurações guardadas por uma burguesia que se fechava para os sonhos dos outros -- e ainda mal se sabia que o 25 de Abril estava por perto, depois engalanado com seduções, utopias e esquisitos conflitos entre pares e ímpares. Bom foi convivermos mais tarde, por cima de algumas décadas: fazer textos, ver exposições, aplaudir as tuas e alguns livros meus, de mistura com as colagens que levei à 111.
Soube tarde da tua morte, agora mesmo, no fim de contas. Tinha bonecos teus para publicar mas prefiro esta austeridade como sinal de revolta por ninguém ter accionado as ferramentas públicas para que o país  te oferecesse a exposição tua, da tua obra, que era merecida e necessária,  anterior que foste, no sarcasmo e na ironia, a muitos triunfadores da pop, da bad, dos vários neos e minimalistas, novas representações do sagrado objectualista.
Escrevi mails, chamei por ti, mas só agora me disseram que estavas sofrendo e que havias morrido em Fevereiro. Preservaste a tua dignidade perante um Universo mandador e absurdo.
Disseram na Net que "Cascais e a cultura nacional perderam um dos maiores vultos das artes plásticas da segunda metade do século passado e início do corrente. Victor Belém (Cascais 1938-2015) destacou-se pela sua modernidade e irreverência, primeiro como artista plástico e mais recentemente com trabalhos de fotografia ficionada." Dizem ainda que te formaste na Escola António Arroio e como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. E mais, ou por isso, que trabalhaste dois anos sob a orientação de Júlio Pomar.
Depois dizem mais algumas coisas, mas poucas, porque não sabem dos teus segredos, a do papel higiénico, o da fisiologia em secagem, as bandeiras e certas instalações. Mas lembraram-se que estás representado em colecções e museus, em Portugal e no estrangeiro. Nos bons dicionários. E sem palavras sobre os corações onde permaneceste, entre o riso e a melancolia. Nem sobre os registos daquela Maternidade que os talentos da malta representou no teu ateliê. Grande ópera a apregoar o fim do Mundo e o Início do Seguinte.

segunda-feira, agosto 03, 2015

DÚVIDAS NÃO CALAM A LIBERDADE DE EXPRESSÃO


NENHUM REQUIEM À ENTRADA DESTA CITAÇÃO

ESTA CITAÇÃO ENVOLVE UM TEXTO COM O QUAL SE
PROCURA CONTEXTUALIZAR O POST SEGUINTE


                      
                                   

A TERRA ONDE VIVEMOS É ESTA, NÃO CONSTA QUE TENHA SIDO FEITA PARA DOENÇAS FINANCEIRAS NEM PARA DEMÊNCIAS SUICIDAS

sábado, agosto 01, 2015

O MUNDO VIVE EM REDE CONSPIRATIVA



Cheguei a uma cidade do sul e não vi ninguém. Terá sido outra onda de emigração? Vão e voltam os turistas, enchem os restaurantes e comem tudo o que vêm. Os moços da chamada hotelaria vão e voltam, trazem as lagostas nos  pratos. E nem ligam às pernas das raparigas, mil vezes mais ofuscantes, no desenho e na cor, do que mil lagostas ou sapateiras. Morre gente nas estradas, ou em casa, de velhice, as pensões são cortadas e no futuro serão minguadas e beneficiar da liberdade (princípio fundamental da democracia) de saltarem para o espaço privado, aquele  em que se embrutece pelo dinheiro e por ganhos que nada se relacionam com Estado Social ou ramos da solidariedade. Dizem que a Coligação (do governo em fim de festa) já afia as facas para os cortes resilientes da austera harmonia futura, permitindo que as autoridades possam colocar o país entre os dez mais competitivos do  mundo. É verdade que já somos dos mais despachados a emigrar, sem ligar à terra e a uma secular plantação de géneros hortícolas. Perdedores de barcos e de sardinhas com uma zona marítima das mais vastas do mundo, este lugar já navegou até às sete partidas desse mesmo mundo -- e quando era mais pequeno em gente, tornando-se endemicamente rico para grandes não se sabe porquê, nem os comunistas que se julgaram capazes de gerir o mundo com ordenados mínimos para todos e um remanescente em poder militar, na fome de todas as ucrânias. Viu-se. E vê-se, quando Putin tira a camisa, alarga os ombros e manobra no seu mar de recreio uma vedeta que dava para duplicar o ordenado a todos os russos, incluindo os velhinhos acamados numa serra de gelo. Mais a ocidente, a Europa ordenou o desmantelamento de milhares de embarcações, marinha mercante e frota de pesca.


Mas deixemos essa gente  distante e geneticamente austerizada. 

Li uma coisa esquisita num jornal que talvez fosse o Diário de Noticias. Via-se que o articulista (não digo o nome podem aparecer aí alguns talibãs e jihadistas). O artigo dizia logo à cabeça: «PLANO VINGATIVO DA EUROPA PARA PRIVATIZAR A GRÉCIA». Parece um capítulo da "Teoria da Conspiração". O homem diz que «no dia 12 de Julho, a Cimeira congregou os líderes da zona euro e ditou os seus termos de rendição ao primeiro ministro Alexis Tsipras, que, atemorizado com as alternativas, terá aceitado todos. Um desses termos dizia respeito à disposição dos restantes activos públicos da Grécia.1
Os líderes da zona euro exigiram que os activos públicos gregos fossem transferidos para um fundo do género Treuhand -- plataforma de venda urgente semelhante ao dispositivo utilizado após a queda do muro de Berlim para privatizar rapidamente, com grande prejuizo financeiro e com efeitos devastadores no emprego de toda a propriedade pública do Estado Alemão Oriental que se desvaneceu. 
O Treuhand grego foi indicado para ser sediado no Luxemburgo (esperem por isso!) e orientado pelo ministro das Finanças da Alemanha, Wojfgang Schauble, aliás, ele mesmo, autor do esquema. Tal operação, no caso da Alemanha Ocidental (desvanecendo a Oriental por 1 geminação integral) foi acompanhada pela Colossal Conspiração investimentos maciços em infraestruturas por parte da Alemanha Ocidental e por transferências sociais em larga escala para a população do lado Oriental. Estas situações não são comparáveis ao método imposto à Grécia, mas de todo em todo bem diferente. No caso desta eventualidade passar a facto histórico, o que se sabe é que a Grécia não receberá nenhum benefício correspondente e de qualquer espécie.
Seja como for, o actual ministro das Finanças grego, há duas semanas, fez por diluir certos desastres ocasionados pelo método e conseguiu que o Treuhand se centralizasse em Atenas. Por estranho que pareça, este político logrou achar para o efeito alguns abrandamentos dos credores, a chamada troika da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacioal.1

citado de um artigo de Yanis Varoufakis (ex-ministro das Finanças do actual governo Grego)

Mas que havemos de pensar de tudo isto? Ainda que a Grécia possa ser um companheiro difícil, isso não pode significar o tratamento dos seus representantes a que assistimos no tal dia 12. Não há nenhuma Europa em regime de União (que não pode ser só financeira) que seja sustentável daquela forma e do modo como os seus orgãos funcionam de momento. Todos se voltam para a Alemanha e para o seu fogoso Ministro das Finanças. Estas personagens, horas e horas desfazendo uma soberania ou a ideia de uma solidariedade antiga, relevam de um fundo histórico que se pensou ter mudado após a derrota nazi na última Grande Guerra. O mundo tem picos e personagens que simulam a Colossal Conspiração e que emergem um pouco por toda a parte, e isso bem se vê em todo o Médio Oriente, na Ucrânia, e em grande parte do continente Africano. Morrem os emigrantes vindos da selva (selva de Poderes) e a Europa, atulhada em dinheiros assimétricos insiste num silêncio de qualquer Grande Herança: o pior é se se devora a si mesma, recebendo genéticas ímpias do sul. Não há Sul nem Norte. Cuidem que o sol continue a nascer Leste e a descansar a Oeste. Podemos ainda travar mais uma guerra Universal (não Mundial) mas depois disso não haverá mais "plano Marshall" que nos salve e as doenças do planeta terão progredido até à fuga dos restos populacionais para contentores no espaço. Calais e o Canal  da Mancha terão desaparecido. Há quem diga que os últimos sobreviventes, em coma induzido em escalas mais ou menos conhecidas consoante as rotas gravitacionais, teráo 5% de ressurreição, mas nada se saberá quanto aos que poderão sair desta galáxia e entrar noutra.



   UNIÃO EUROPEIA 2015
depois da emigração em massa dos humanos em condições de o fazer ninguém mais soube pensar o universo

segunda-feira, julho 13, 2015

TRAGÉDIA DA GRÉCIA NO CERCO DA EUROPA


Após 17 horas de negociações exacerbadas, após fábulas e cercos numa Europa cada vez mais encriptada, a Grécia conseguiu manter-se na zona euro, sob o peso de mil calhaus sisifianos. Merkel adoptou um pensar e um ser mais doce, talvez (quem sabe?) para travar os arranques destroçantes do seu ministro das finanças. Hora ideológica e de grupos batalhando às cegas.
João Ferreira da Cruz, economista, escreveu hoje no «Público» um pequeno artigo sob a designação (agora inquietante) de MAASTRICHT II:
Ontem, o dilema da zona euro era «sobreviver ou prosperar». «Com epicentro em Atenas, a catástrofe esteve iminente. Temeu-se pela solidariedade europeia, mas o euro sobreviverá com o repto lançado, em conjunto, por Juncker, Tusk, Dijsselbloem, Draghi e Schulz. No turbilhão da crise e na emergência da resposta para a Grécia, questiona-se o momento e o tempo que levará a "Concluir a União Monetária Europeia". Com objectivos claros, o documento dos cinco presidentes pretende averbar ganhos e progressos nas quatro uniões: económica, financeira, orçamental e política. Na primeira fase (1 de Junho de 2015 a 30 de Junho de 2017), recorrendo aos instrumentos disponíveis e ao bom uso dos Tratados, estimulam instituições e países da zona euro a impulsionar a competividade, a convergência estrutural para completar a União Financeira garantida por políticas orçamentais sustentáveis, com reforço da responsabilização democrática. Na segunda fase, o mais tardar até 2025, deverá ser completada a arquitectura económica e institucional, tornando o processo de convergência vinculativo, com critérios de referência comumente aceites, juridicamente assumidos e alcançados, condição para a participação na zona euro. Substantivamente, a convergência deixará de ser nominal, como se previa em Maastricht, para ser real. Urge colmatar os defeitos da arquitectura inicial do euro que gerou pesados custos, sofrimento social e graves tensões políticas dentro e entre Estados-membros. Sem referir explicitamente o Fundo Monetário Europeu nem o seguro de desemprego europeu, nem a agência para a gestão da dívida, nem a "regra de ouro" para o investimento (subtraído ao cálculo do défice), sequer o plano Junker ou a capacidade orçamental reforçada para recursos próprios, mas capaz de responder a choques assimétricos e apoiar reformas para a convergência, promovendo emprego, reduzindo assimetrias com regresso à coesão social, o relatório vai no sentido certo. O alarme da saga grega reclama aceleração no aprofundamento da UEM e não a espera por Maastricht II.»

Este relato desapaixonado, técnico, mostra a complexidade do processo. Mas não mostra a tensão nacionalista das populações, quase toda nas costas dos quais foi implementado o euro e a estrutura da União, nome que nem sequer se pode convocar agora, com toda a abertura, bom senso e o espírito pacificado. Os orgãos de gestão têm de funcionar, usando a rede que terá de ser remuniciada, agilizada e temporalmente eficaz. A meio de uma reunião deste tipo, não é crível que o ministro das Finanças Alemão e Merkel, cessem tudo para irem trocar pontos de vista a sós. Quem convoca quem? E quem apaga os egoismos nordestinos e as humilhações a sul? A tragédia grega não tece, desta vez, um mítico personagem que prefere a cegueira a viver à luz do seu transcendente pecado.




sexta-feira, julho 10, 2015

OS MUROS CEGOS E MUDOS QUE CERCAM OS POVOS


Este é o velho muro de Berlim, ainda de pé, hoje já apagado e as duas Alemanhas unificadas. Esta não foi a primeira tragédia, neste domínio, vem de longe a ideia de sequestro, de corte de vias, de aprisionamentos perante o fluxo vital de certas populações, trabalhando, afinal, do outro lado, em regime escravo.
A grande agitação que atravessa o mundo em todos os sentidos, abrindo e fechando vias de negócio, envolve vagas humanas de migrantes. Milhares de pessoas procuram furar esse hediondo muro horizontal, o Mediterrâneo, em busca de melhores condições de vida no norte da Europa. A União Europeia endurece. E apesar disso vemos uma Itália humanitária atenta aos milhares de emigrante espoliados na fonte por 80.000 euros às mãos de traficantes que os atiram, em carradas suicidas, para barcos de borracha ou embarcações sobejamente danificadas. 


Milhares de emigrantes que atravessam o Mediterrâneo até Itália, morrendo por vezes às centenas, visando, em terra, aceder ao norte, pedem alojamento, alimentação e medicamentos.                  




A ONU aborda (é uma palavra curiosa) o impacto humanitário do muro de bloqueio na Palestina - Portal Vermelho. Onde terá ficado, em fatias, o muro de Berlim, nódoa que se espalhou, como se vê por diversas áreas de conflito, e as ornamentou e se tornou símbolo? Monumento ainda, em pedaços, vozes da libertação e peso grafitado de todas as esperas que ainda nos esperam.
Em 2002, o governo israelense, liderado por Ariel Sharon, decidiu implementar a construção de uma "barreira de segurança", como ficou conhecido em Israel o muro segregador, alegando o objectivo de impedir ataques de palestinos contra israelitas. Um exemplo "benemérito" dos judeus outrora torturados e mortos pelo império Hitleriano.



Vem a propósito assinalar esta imagem dos muros no século XXI: aqui vemos, simplesmente, não  os judeus a caminho das câmaras mortíferas, mas simples palestinos aguardando junto de um dos portões do muro israelita. E há muito para dizer na faixa de Gaza, a tal zona que mais parece um campo de concentração e que o Estado Islâmico tem em vista assaltar, degolando os chefes.
O problema foi também assumido pelo sombrio governo da Hungria: o país pediu autorização à União Europeia (e esta concedeu) para a realização de um muro de bloqueio, contra as vagas emigrantes, obra apenas com quatro metros de altura e 175 kms de comprimento. Será que isto vai acontecer nas costas do norte, do sul e do ocidente? Não pedimos nada disso e a Grécia solicitou um acordo onde algumas escolhas soberanas favorecessem a sua dieta.



Não é difícil perceber quem são estes personagens e que construção tão minimalista é esta parede em módulos, sem janelas nem portas.



Seja como for, neste mundo dourado faz-me lembrar, sem apelo, aquele solitário suicida descendo em pleno espaço, de cabeça para baixo e uma perna dobrada quando do atentado às torres de Nova Iorque pela al Qaeda.

domingo, julho 05, 2015

LI E DESEJEI TER DITO ESTAS PALAVRAS

 
O exemplo de uma civilização agora desentendida na sua tradição para as concepções actuais da realidade comunitária e das democracias


Miguel Sousa Tavares escreveu a propósito da situação na Grécia:

«Faço minha a pergunta de Martin Wolf no Financial Times: se eu fosse grego, como votaria amanhã? A pergunta não tem uma resposta boa porque ninguém sabe o que se seguirá, quer ganhe o sim quer  ganhe o não. Ninguém sabe o que fará o errático Governo grego, que tão depressa faz discursos inflamados contra os credores, como logo a seguir aceita todas as suas exigências. E ninguém sabe até onde irá a vontade primitiva dos credores, pois só isso os move: do ponto de vista negocial, eles já colocaram à Grécia de joelhos, com excepção de uns míseros pontos de diferença no IVA para  as ilhas e mais uns cortes em algumas pensões de reforma. Mas, pior ainda, ninguém sabe ao certo o que esta gente quer fazer da Europa. Ou mesmo se a querem.  


A Europa que eu vi formar-se e abrir as portas a Portugal era dirigida por gente como Willy Brandt, Helmut Schmidt, François Mitterrand, Olof Palme, Harold Wilson, James Callaghan, Bettino Craxi, Felipe González, Mário Soares. Todos eles tinham uma ideia de Europa onde se espalhavam os melhores valores da civilização europeia, como um todo, e oculta da grande finança para expulsar do euro os que só enfraquecem a moeda; há quem pense que se trata antes de uma vendetta histórica da direita sobre décadas de predomíno intelectual e político da esquerda e uma oportunidade imperdível de aplicar a sua agenda em termos irreversíveis. Mas provavelmente é tudo menos grandioso do que isso: apenas uma terrível combinação entre ignorância e insensibilidade. Fixemos os seus nomes para memória futura: Merkel, Schäuble, Dijsselbloem, Lagarde, Junker, Rajoy, Passos Coelho, e alguns outros personagens menores.»
                   

e então há quem pergunte
QUEM É ESTA GENTE?


segunda-feira, maio 25, 2015

ESCRAVATURA E COBARDIA NO MUNDO GLOBAL


os novos olhares

Há  35,8  milhões   de escravos  em  todo  o  mundo, globalizado  em   nome  da  eficácia,  da mobilidade e da fortuna. No ano passado verificou-se, na soma dos desastres, 29 milhões de escravos  modernos.  Os  homens  transformam-se  cada  vez  mais  em  seres  híbridos,  que nascem aqui e além, experimentando muito cedo a fome de outras paragens, os  paraísos  de betão, informatizados, ainda capazes de encher cidades e  reformatar os  postos de  trabalho que restam depois do avanço meio  cego  a  robotização e o desinteresse pelos espaços quase desertos e contudo perfeitamente adequados a enquadrar populações humanas e a invenção de  novos  alimentos  para  o  corpo  e  o  espírito. O  exclusivismo  das  selvas  de  gente  feia, desordenada  nos  modos  e  nos  vícios,  menos  reprodutiva,  menos  culta,   esquizofrénica, gritando nos concertos de ruídos medonhos, heroicamente metais, que vão co os tímpanos e favorecendo  a  infinita  mastigação  dos   produtos  psicóticos,  que  um  professor  sem  fala acabou  de indicar  na televisão que deviam ser dados à liberdade  (felicidade) de  cada  qual, porque ninguém tem o direito de andar triste.


imigração para a Europa


                                                           a África para os africanos
                                           
Pertenço a uma geração que andou por África, dizia-se que a defender as Colónias, neste caso portuguesas, Angola e Moçambique, sobretudo. Durou tudo 14 anos e num enorme espaço onde a escravatura já acabara há muito. Havia lá famílias com mais de cem anos de fixacção, por isso com direitos em nada vindos da corrupção ou da ocupação. Embalados pelos intelectuais dos anos 60 e por uma América que já intervira em muitos sítios do mundo, ajudara na Segunda Guerra Mundial, contra uma Alemanha ensandecida por Hitler e que hoje, poderosa, praticamente dá ordens na Europa, sem abrir as concepções nem censurar a mania das grandezas dos países nórdicos, sem franquear a solidariedade e actualizar os tratados, todos deixando à Itália a «apanha» dos fugitivos da SUA África, gente que os donos dos países saídos da colonização persegue e assassina em massa. Aqueles que gritaram «África para os africanos», emigram agora para a tal famosa Europa das colonizações, sem parança nem miopia, até mesmo sem qualquer desejo de combater ao lado dos senhores do Estado Islâmico, que se dão ao luxo de «reconquistar» terras e abater preciosidades arquitectónicas e escultóricas da História humana. É um autoproclamado Estado, usando tácticas de homens bomba, todo o género de armas e facas dedegolar gente raptada, vestida como os presos de Guatamano. A guerra imperialista decorre há tempo, valores históricos e artísticos derrubados, milhares de vítimas, mais de um milhão de refugiados. Que África é a esta?

                                                               
O quadro das vítimas

Milhões de pessoas voam para toda a parte, cruzando-se no espaço e procurando ver outras gentes, explorá-las ou arranjar por lá outros empregos, todos técnicos, bem pagos, dentro de casas  «inteligentes» A tecnologia das comunicações põe tudo onde se quiser, compra e vende à distância, mas ninguém se importa com os desastres principais, do Nepal às Filipinas. O planeta não é tão eterno como julgam as tribos desta nossa humanidade da fashion e outras passagens vermelhas.
Um alienígena que se confunde  com os humanos disfarçados de palhaços pergunta à saída do estádio de futebol de Guimarães:
Bom, lindo, divertido, desporto de placagens e despachos, multidões gritando de alegria, apitos, mortos, feridos -- o futebol. Cem anos? E ainda se faz assim? Quando pensam que ele termina? Quem escolhe quem?


os novos deuses
Agora vivemos no presente, aglutinação de passados e memórias. O futebol não é uma mania, é uma indústria, uma religião, uma batalha de coragem.
E os escravos? Depois de povoado (mal) o mundo que vos restam, que razão resta para raptarem trabalhadores e os prenderem a uma plantação de jagunços, beterraba ou lama com diamantes?
O senhor não sabe do que fala. As relações entre zonas da economia e da finança, onde se alimenta a indústria de produtos rapidamente alimentares, são uma conquista moderna onde o trabalho rende pouco mas é uma conquista para amanhã.
Por uma batata amanhã o senhor paga a esta gente desenquadrada um ordenado de 200 a 500 euros, coisa que não dá nem para alimentar um cão, desses de qu etato gostam e tantas vezes abandonam? Asilos de cães. Asilos de velhos. Aldeias do sonho com demografias aviltantes: um habitante, dois, uma família com uma menina que vai à escola pela madrugada e chega a casa às 20 horas da noite, última passageira de uma carrinha da Câmara Municipal que dista daqui cerca de  100 kms.Sabe que isto não é sobrevivência, nem direitos? Sabe que isto é sobejamente um crime?
As pessoas têm apego à sua terra. Trabalham na sua subsistência. É uma gente simples e esforçada.
Claro que sim, mas os que dilatam as cidades com casas vazias, de, luxo, e nem sabem as doenças que desencadeiam, a vileza da vida doméstica, os assassinatos, o excesso de jovens em bandos bebendo, mal sabendo que o mundo restante é direito seu também, lá longe, nas belas serras onde a felicidade é possível sem a canga das celas urbanas?
Já tenho pensado nisso. Há dezenas de guerras em todo o mundo e a mitificação do dinheiro, excesso de coisas e de migrações e o dinheiro todo desviado para cofres secretos debaixo do mar ou na Ilha dos Piratas. A gente indigna-se e a nossa História está cada vez mais desaprendida. (pausa) Afinal, donde veio o senhor ou lá 0 que é?





                                                           mortos à beira da estradas                                                 
                                                                     crucificações

Do outro lado do Universo, desde há um milhão de anos. Nunca intervimos na vossa evolução. Mas se uma guerra Mundial rebentar, estamos prontos para os tratar compulsivamente, sem o vosso vil metal e uma carteira electrónica com a qual viverão o dia a dia durante cem anos. Reordenaremos o território e havemos de transferir para junto de nós 25% de amostras colectivas dos humanos mais ricos e dos mais pobres.Implementaremos um apocalipse de limpeza. Podem lembrar-se a partir de agora: estamos em toda a parte, aqui, e em muitos casos dentro das vossas estruturas mentais. Desde o próximo mês metade das vossas actividades de risco e inúteis, vão começar a ser pulverizadas. Como aquela dos seiscentos milhões nas pensões. É mesquinho e carecido de invenção. Em poucos anos, tudo estará na mesma. As fontes para a Segurança Social, têm de ser várias e capazes de repetição todos os anos. A vossa classe gestora consome milhões e milhões de euros de vencimentos: uma suave fatia a cada membro, proporcionalmente, fará maravilhas todos os anos.E isso será acompanhado por outras baixas nos altos salários, nos altos lucros. Pelas nossas contas, quase sem se dar por isso, triplicarão por ano a verba de reforço da S.Social.A tal TSU pode mesmo ser abandonada no mais fundo do Mar dos Sargaços
Está visto. E bem Visto. E não nos podem ajudar na fundação do Banco de Fomento?
Claro que sim. O dinheiro não foi para lá. Está tudo às escuras, menos os gabinetes daqueles que foram nomeados para os altos cargos e JÁ GANHAM O SEU FARNEL. Também podem falar com o Francisco: ele sabe o que dizer e até sabe o que fazer. Portugal? O último habitante da última aldeia?



                                              Portugal? O último habitante desta aldeia?






quinta-feira, abril 02, 2015

MORREU HOJE MANOEL DE OLIVEIRA, CINEASTA VIVO COM 106 ANOS PARA A HISTÓRIA


MANOEL DE OLIVEIRA

Não vou fazer nenhuma pesquisa, lembrar-me de tudo o que vi deste nosso cineasta, discutir o que discutia nele, louvar o que o mundo descobriu nele, a sua originalidade, a sua geometria espacial, as suas metáforas, o lado insólito e de assombração de muitos dos seus planos, dos próprios filmes. Premiado e louvado no país e no estrangeiro, Manoel de Oliveira acaba por marcar o cinema europeu, nessa Europa que tende a esquecer-nos e tanto se espantou com algumas obras surgidas depois do 25 de Abril.


Vou apenas lembrar ao país, aos dirigentes, aos  educadores,  aos artistas todos que  este  homem realizou quatro dezenas de filmes -- 

e sábios dos investimentos exteriores para artistas com talento, aviso aos incautos e aos ricos ( porque sim) no sentido de perceberem que a cultura foi sempre o que melhor nos distinguiu, bem como  a inovação, o sentido de descoberta, a saudade e o riso dentro dela.




terça-feira, março 24, 2015

A MORTE GANHOU O MESTRE, HERBERTO HÉLDER


Herberto Hélder, morreu ontem, em
sua casa, aos 84 anos

O primeiro livro que li, da autoria de Herberto Hélder, foi «OS PASSOS EM VOLTA». Um livro que me deixou marcas e despertou um maior interesse pela escrita. Mas esse livro-pórtico (para mim e caminhando para este grande artista que tanto escreveu) abriu caminhos à poesia, à fala por dentro, à nossa voz interior. Antes dele, Fernando Pessoa. Mas, depois de Pessoa, só Herberto Hélder me encerrou tanto dentro de uma obra-vida.
Escreveu-se:
«A MORTE GANHOU O MESTRE. MORREU HERBERTO HÉLDER.»
Também foi dito: «Em 1994, o poeta Herberto Hélder foi distinguido pela sua obra, que "ilumina a língua portuguesa". E foi também dito «De tão anónimo que fez questão de ser, Herberto Hélder não dava entrevistas, nem queria ser notícia a não ser pela sua poesia». Talvez ele não tivesse a percepção íntima de quanto dizia aos outros por dentro dos seus versos, no silêncio falante deles. Mas uma tal insularidade monástica nunca o tirou do mundo que os outros achavam nele. Mas houve longos poemas inteiros, Obra completa, Biografia, Textos, reflexões e pensamentos de Herberto Hélder. Poema: sobre um Poema. E o que importa, através da sua Obra Completa, é percebermos que só uma nação de longa vida, longas aventuras, erros e achamentos, descobertas e encontros com outros povos, tem, mesmo em escassa população, homens como este, em volta de nós, dentro de nós, a melancolia insular nuns olhos que nos fitam, pacíficos, sem temor.


«Um poema cresce inseguramente na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser».


sábado, março 14, 2015

EDITOR EM EXTINÇÃO, LETRA, PAPEL & ETC | HOJE, 21 DE SETEMBRO, TOMO CONHECIMENTO DA MORTE DESTE HOMEM E GRANDE AMIGO


VITOR SILVA TAVARES |VER NO FIM
Encontrei este homem, então director editorial da Ulisseia, no Café Monte Carlo. Eu tinha chegado recentemente de Angola e trazia um recado para ele, um livro também, enviados pelo desaparecido Aníbal Fernandes, angolano de gema, filho de Sá da Bandeira. Havia uma «senha» para este encontro, porque eu não conhecia, na altura, o homem da Ulisseia: ele tinha certo livro sobre a mesa e eu transportava na mão outro livro do mesmo autor. Abraçámo-nos e rimos. O gajo era porreiro, embora tocado por uma subtil e sorridente teimosia. Estivera em Benguela, fora director do jornal O INTRANSIGENTE. Sabia de Cinema e de Literatura, era formado nas cadeiras da Brasileira e senhor mais ou menos lasso, como diria Camus, dos bairros como a Mouraria, onde creio que nascera, entre as preciosidades que começavam a desaparecer ao ritmo dos anos 60, com emigração, comunistas clandestinos, gente fina da esquerda inteligente, populares do Bairro Alto e da Lisboa underground, bem à moda do que Paris ainda debitava, e os Almadas, os modernistas, os surrealistas, os primeiros retornados da arte abstracta, "Obra Aberta", o novo cinema, Godard, Truffaut, Resnais, além dos da América, Kazan, Lumet, entre grandes ícones, Brando, James Dean. Mas isto era para gente comum. O editor da revista "& etc", com formação em notário e tudo, grafitava escritas novas, gente que se esgueirava por fora do institucional. O França não cabia ali, mas era respeitado, andara com os ventos do surrealismo e as gares do Almada, fizera a Sorbonne, em Paris, tinha um hífen no nome, ainda é vivo quando escrevo.
Aquele homem ali em cima chama-se Vitor Silva Tavares e sempre trabalhou de esguelha, no modo mais raro, do lado dos malditos, encolhido na sua cave e conhecedor da malta do cinema novo português, dos "Pachecos", "Comunidade" sempre citada como o monumento da nossa Literatura ao contrário, nada de neo-realismo, nem de visionários premiáveis, as "Lídias", as "fofas", as ouvidoras da prática nocturna, avatar, o Vitor cinéfilo, falando lasso, quem dera o Truffaut o ouvisse. Estava-se quase no 25 de Abril, a cave do «& etc» enchia-se de jovens génios a zunir escada acima, escada abaixo. O nosso amigo, que ressuscitou tipografias do início do século XX, vivia a promoção de um futuro indefinido, sob as imagens tutelares de Marx e Lenine, os equívocos da direita ocidental e da esquerda totalitária, sendo a cultura maior nas esquinas das luzes. Mas a empresa Engrenagem & etc nunca reunira uma assembleia geral, na melhor das democracias. Vendi a minha quota por 1 escudo, sem papel nem nada, e disse ao Vitor que um dia trabalharia para a renovação de tal dinheiro, o mundo não ia acabar só moderno, como dissera Gillo Dorfles: ponto final situado na arte abstracta. Burgueses é que não, mas todos, estudantes de algibeiras leves, não fazíamos outra coisa do que ler Existencialistas e fazer os trabalhos de casa, burgueses afinal de uma pobre classe média com pais longe, em casas velhas, provincianos da orla do comércio e do comércio da cortiça em vias de exportação na condição de prancha, matando assim, para travar os comunistas e outros, a grande indústria transformadora desse material verdadeiramente singular, a pele do sobreiro. 
Agora estou velho e raramente vejo o Vitor Silva Tavares, o homem que me encomendou os meus primeiros trabalhos nas artes gráficas, para a Ulisseia. O Público publicou hoje aspectos da vida desse esperto editor: gostei de ler, gostei de o ver posar, já o ouvira botando falas memorialistas na televisão, a propósito do Luís Pacheco, eterno e bem resistente escritor de pequena obra, apesar de coroada pelos velhos amigos das vielas e dos Cafés, «Comunidade» em papel manteiga e livrinho, Contraponto (a exemplarmente austera editora), «A Libertina passeia por Braga», ou quase, um soldado de mão nas virilhas, maldita condição humana. 
Aqui está, Vitor, nunca condecorado, nem sequer a reconhecer-se editor, o homem de uma certa cultura, dos bairros populares, resistente à emigração e às licenciaturas. É bom haver casos destes entre nós, feitos de uma exemplar capacidade do contraditório, sabendo os nomes, os filmes, os novos poetas, inventores do "português suave", vinho tinto verdadeiro, sardinhas, os gajos da memória fundamental, lusitana sem nacionalismo, as margens do Tejo, a luz fria da noite no quente da tertúlia que baralhava as cartas da política caseira, Salazar e a cadeira preguiçosa, lá no forte solitário, em pedra, as tropas indo e vindo para nada.
Pois agora, meus amigos, o Vitor escreveu. Escondido, com coisas soltas, dizia que isso não contava, era preciso refazer as coisas. Toma. Sai um livro de poesia, acho que caído aos pedaços para uma caixinha que alguém guardava, e as palavras viveram. Ricardo Álvaro, poeta, andou de volta e pediu um poema ao homem da Engrenagem. «Sei lá», disse ele. «Estão por aí. Púsias em qualquer buraco. Púsias, aí está, e todo o envolvimento de quem não quer saber o que os jornais tratam de gerar, incluindo a Cruz de Santiago. Porta fora da aula da poesia, é o que é.» Esta é a história de um livro de poesia que é um sobressalto em algum ramerrame da paisagem editorial portuguesa e do editor que o escreveu. Vitor Silva Tavares. É também a história de quem não queria falar do seu livro. Não por isto, nem por aquilo, mas porque não. O editor não queria despir a pele. Não teve de o fazer.
Há uma certa verdade em tudo isto que reinventa as sombrias vidas dos talentos em perda e das indústrias pusilâmines da chamada cultura de ponta. Sem ponta, afinal. A fingir de rica e de luminosa. Vão ver: Púsias ali.


Morreu de facto, enfim, esse grande amigo. Como lhe prestara esta sentida homenagem decidi não escrever outra legenda (agora a confirmar a extinção). Foi notíciada a morte de Vitor Silva Tavares, o criador de &etc, entre outras coisas. Só sei também, como alguém escreveu entretanto, que ninguém voltará a fazer livros como Vitor Silva Tavares os fazia. E sei também que já não vou ter oportunidade de ler o seu único livro, Pusias.
Rocha de Sousa

sábado, fevereiro 21, 2015

HELDER BATISTA, ESCULTOR ENTRE GEOMETRIAS

FALECEU HOJE, 21 DE FEVEREIRO DE 2015, UM GRANDE ARTISTA PLÁSTICO, ESCULTOR EXÍMIO, INVENTOR DE NOVOS RITMOS, RESTOS DE ARQUITECTURA. FIGURAS EM RITMO DE DANÇAS LITÚRGICAS. MEDALHÍSTICA COM PRÉMIOS INTERNACIONAIS, POETA DO ESPAÇO E DO TEMPO.


Helder Ernesto Coelho Batista (Vendas Novas, 1932) foi escultor de invulgar mérito, acolhido às formas de uma modernidade experimental e diversa. Professor na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, aliado a uma especial intuição pedagógica,  de bom trato e visível reconhecimento público nos meios artísticos do país, em parte também no estrangeiro, o testemunho que nos deixa tem marcas particulares de um futuro a fazer-se. Arte em si. Arte também em géneros específicos, como a medalhística, onde desenvolveu porventura a obra mais vasta e de qualidade, premiada dentro e fora do país em várias ocasiões, de rosto português.
Artista muito trabalhador, profissional de sério recorte, Helder Batista, durante décadas (entre 57 e 2013), participou com assiduidade no espaço artístico do país, entre exposições colectivas e várias individuais, tendo desenvolvido igualmente obra pública de bom perfil.
Foi admitido nas três grandes exposições da Fundação Calouste Gulbenkian (1957,1961, 1986). E ainda XXI FIDEM; Colorado Springs, USA 87; Europália Portugal 91, Medalha Portuguesa no Século XX, Namur e Bruxelas (1991), XXIII FIDEM, Londres, Prémio Calouste Gulbenkian (1992); Contemporary Portuguese Medal Art - Budapeste; XXIV FIDEM Budapeste; Prémio Johnson para a melhor Medalha cunhada (1994); XXV FIDEM, Neuchatel (1996); Anverso e Reverso +3, Quioto, Japão, XXV FIDEM, Haia (1998); The Stanford Saltus Awards Into The Next Century, New York (1999); XXVII FIDEM, Weimar (2000), entre outras.
Helder Batista também executou várias esculturas para espaços públicos: relevo em Escola Primária de Benfica (1968), Estátua de Vasco da Gama, Vidigueira (1969); escultura em betão policromado, LNEC, Lisboa (1970); escultura em pedra para o Hospital do Funchal (1973); escultura em bronze para a Faculdade de Economia, Porto (1974); escultura em ferro, Direcção Geral dos Portos, Lisboa (1980); Monumento a Pina Manique, Casa Pia de Lisboa (1992); Monumento ao 4 de Outubro de 1910, Loures (1992); Monumento à Paz, Seixal (1994); Monumento ao Resistente Antifascista Alentejano, Montemor-o-Novo (1996); Monumento ao 25 de Abril, Oeiras (2000).

Obra de um artista persistente e renovador; intervenção pedagógica no ensino superior artístico, entre participações em actos sobre géneros de arte. A sua morte ocorreu hoje, mas o futuro conservará este vasto e inovador testemunho.



quarta-feira, fevereiro 11, 2015

A MORTE DE KAYLA SOB O ISLAMISMO RADICAL

A FÉ CEGA QUE MATA UMA JOVEM DEDICADA A AJUDAR CRIANÇAS, TENDO VIAJADO PARA A SÍRIA NUM SENTIDO HUMANITÁRIO, APONTA AO MUNDO A INVIABILIDADE  DE  LEITURAS  TÃO  ERRÁTICAS  SOBRE DEUS E  O  VALOR  DA VIDA DOS POVOS, OS QUE SE RESPEITAM ENTRE SI, OS QUE ACEITAM PARTILHAR AS COISAS, ACEITAR  AS DIFERENÇAS, ASSUMIR A COLABORAÇÃO COM OUTRAS COMUNIDADES, PRÓXIMAS OU DISTANTES.

Kayla Jean Mueller

Trata-se de mais um caso inscrito a sangue no teatro de operações alimentado pelo auto-denominado Estado Islâmico. Uma luta contra vários povos em redor, contra o próprio Ocidente, inclusive, onde se recrutam combatentes estranhamente convertidos ao islamismo, por vontade paradoxal de ALA, que significa paz, e visando também uma espécie de antigo império por todo o sul da Europa e norte de África. Os guerreiros islamitas têm exercido grande devastação nas terras que chamam a si, condenando à morte, por degolação, inúmeros reféns ou gente rebelde à sua óptica ideológica, ou pessoas raptadas em vários pontos da região, longe dela também, as quais são postas perante os países de origem em situação de resgates multimilionários, fonte de grandes poupanças para o movimento em total alucinação afirmativa e de conquista. Muitos países têm negado tais pagamentos e os islamitas filmam e divulgam por todo o mundo os rituais da degolação.
Raptada em 2013, Kayla ainda dirigiu uma carta aos pais mas nunca mais se soube do seu paradeiro. Era claramente refém do Estado Islâmico. A sua morte foi considerada por aquela entidade embrionária, entretanto condenada por quase todos os povos e na sua absurda voracidade sobre os que anatemiza sem juízo: os islamitas atribuíram a morte de Kayla aos bombardeamentos da aliança ocidental. Nada indica que esse facto tenha ocorrido incidentalmente. Kayla dedicava-se a prestar assistência a crianças órfãs ou separadas das suas famílias, o que não deveria intrigar os seus raptores. De resto, o quadro humanitário da rapariga americana, passa para uma dimensão de outra escala, devendo pertencer a áreas onde os acasos de flagelações aéreas seriam muito pouco prováveis, tendo em conta a sua orientação para ajuda a curdos no sul da Turquia ou ataques e logísticas bem mapeados nas várias acções e no seu tempo próprio.
O sorriso de Kayla fala-nos de amor, de afecto, não de ódio ou dura determinação contra os princípios que a nortearam até à idade que tinha: 26 anos.
Esperemos que um dia se possa saber dela, do seu empenho, como de outras pessoas que não emigram para a Síria para se integrar nas forças islâmicas. Há os meros observadores de aventuras travadas em más poeiras ou os jornalistas e aqueles que também aplicam a ciência à natureza e geoestratégia destes conflitos. Se ALA é grande, mensageiro da transcendência do Universo, não é com certeza tutela sem alma de uma tragédia imensurável, que o denega.


segunda-feira, fevereiro 09, 2015

CABRITA REIS, GÉNIO CONTRA O HORROR


pedro cabrita reis

                                                       
OBRA EM TOULON

Cabrita Reis é um artista de grande projecção internacional, obra plural e problemática, representado por muitos museus , colecções e coleccionadores, algo excêntrico, sábio a pensar o seu ofício, o discurso da sua arte. Jean François Chougnet nomeia-o de génio, porventura em termos de fascínio a par de profunda complexidade das aparentes ocasionalidades de alguns dos seus arranjos, instalações performativas. Há uma certa discrição no espectáculo humano e artístico de Cabrita Reis: como no cinema onde também actua, pode parecer um monstro sagrado; na relação quotidiana, e de país em país, não explora a mediatização, não viaja obra em cacilheiro, prefere o cobre e a madeira às plumas. 
Nesta fase, repare-se: obra feita de calhas de alumínio, iguais lâmpadas fluorescentes, cabo eléctrico, molduras de janelas, portas usadas. No Hotel onde se encontra instalado diz que um bom artista é «mudo».
«Em arte -- sublinha Cabrita Reis -- nada vem do zero. Cada objecto parte de uma longa história. E eu estou dentro dessa história, tal como as minhas obras, que espelham a forma como eu e elas nos posicionamos no mundo. E é o conjunto desses olhares que constrói civilização. A civilização não se baseia em ataques assassinos, como recentemente se viu em Paris. É justamente por isso que temos sempre de nos manter curiosos face à arte: é absolutamente necessário manter muito alto a criação, a liberdade e a imaginação -- contra o horror.» 

_________________________________________
citações a propósito de um texto de Chougnet, em encontro com Cabrita Reis em Toulon

sexta-feira, janeiro 30, 2015

UMA INVULGAR PRIMAVERA NA GRÉCIA ACTUAL


ATENAS

Após um percurso combativo de vários anos, Alexis Tsipras, figura angular do Syriza, partido grego (até há pouco considerado de esquerda radical), alcançou, nas eleições antecipadas que se verificaram há dias naquele país, uma vitória a roçar a maioria absoluta. A Europa, cada vez mais soturna e dominada pelos países mais poderosos e mais amarrados ideologicamente à lógica da austeridade (austeridade sem complementaridades), estremeceu de desconforto, apesar do seu Banco Central já ter começado a trabalhar num processo financeiro capaz de reanimar as forças económicas, activando uma União afinal dividida. Absorvendo a dívida, o Banco tenta estimular a liquidez e as dinâmicas da produção, contra a anemia latente, deflaccionária, que tem sido protagonista de um dos maiores desastres desta zona do Globo. 
Primavera pode significar alegria, bem estar, sucesso; aqui não é tanto assim, mas o governo grego, formado em apenas dois dias e com uma pragmática coligação à direita, após recusas estratégicas, mostra-se decidido e coordenado por maior moderação do que a radicalidade anterior. Após um primeiro Conselho de Ministros, as prioridades anunciadas contemplam o ordenado mínimo, a imediata suspensão das privatizações em curso, fornecer electricidade grátis a 300.000 desfavorecidos, reverter o processo de despedimento de funcionários públicos, como os trabalhadores da área da limpeza, pessoal da antiga Televisão Pública, a ERT.
Estas e outras atitudes, coordenadas numa espécie de Estado de Graça, empenharam já o Ministro das Finanças a percorrer pontos cruciais da Europa a fim de explicar a medida do plano apontado, incluindo os termos da estruturação da dívida, sem arrogâncias nem arruaças. Uma única marca formal: todos os ministros operam como cidadãos comuns e não fazem uso da gravata.
Segundo lemos no «Diário de Notícias», este governo, contra a corrente mas refundador da soberania do país (assim parece querer), declarou:
«Temos um plano grego para fazer reformas sem criar défice, mas sem superáveis primários asfixiantes», declarou o primeiro ministro, numa altura em que as medidas previstas no programa económico do Syriza têm um custo avaliado em 12 mil milhões de euros. «Estamos aqui para acabar com o clientelismo político e com a corrupção, para pôr um ponto final num Estado que funcionava contra o que são os interesses da sociedade». Muitos dirão que estas palavras não passam de mera demagogia; contudo, o aperto feito aos países mais pobres, a maquinal suficiência da Troika, a desmontagem para os privados de forças estratégicas colossais, electricidade, controlo de produtos energéticos, venda dos grandes portos gregos, tudo isso desenha uma paisagem ao mesmo tempo com laivos conspirativos e «religiosamente» fixistas. A divisão artificial entre Europa do Norte, rica e trabalhadora, e Europa do Sul, pobre e desgovernada, parece coisa vinda de muito longe, ferindo, em nome do poder financeiro, a História e a criatividade de povos como os gregos, que nem experimentaram o efeito da ocupação Nazi. Tais crises foram ultrapassadas, mas é bem certo que o Norte, e especialmente a Alemanha, não se reabilitaram de um dia para o outro, após a guerra. O auxílio financeiro em grande escala e a solidariedade favoreceram muita coisa e delinearam um período de paz e prosperidade.

Alexis Tsipras

Sejam quais forem as perspectivas políticas e económicas do Syriza, sem ruptura trágica mas sobretudo revendo à frente aspectos de salvação do país e da Europa (apesar de nem tudo ser viável), os actuais contactos, a visita de ministros do aparelho europeu, a possibilidade de linhas de partilha e de compreensão mútua não parecem motivo para a habitual histeria dos credores e dessa rede de mercados, onde os computadores são mais do que seres humanos e o jogo bolsista cai todos os dias a pique, enquanto os juros da dívida grega (para falar só nessa) progridem em setas apontadas ao alto de forma cínica e demencial. É uma luta assimétrica e sobretudo baseada em organizações bloqueadoras do espaço e da criatividade, capazes de imensas conspirações obtusas, destrutivas e sem nexo para além do dinheiro de alguns), um efeito paralisante por um lado, de dominó tóxico por outro. O que há para desdobrar a este respeito, na miséria que a Globalização impõe, só pode concentrar-se numa vasta reconstrução dos dados, dos princípios, das inter-relações. E oxalá que sem guerras vinte vezes piores do que as últimas, sem contar com tudo o que se passa em muitas partes do mundo, agora, nomeadamente, através do islamismo radical e do uso indevido, mediático e impuro, das religiões e dos profetas e dos deuses, todos afinal míticos e pensados pelo imaginário humano como uma última salvação do Homem.


as ruas da esperança