terça-feira, novembro 18, 2014

A GLOBALIZAÇÃO TOTALITÁRIA E A SACRA DÍVIDA


I


Spielberg, no filme "Inteligência Artificial", procura abordar o comportamento humano, sobretudo quanto à invenção e ao poder, entre sentimentos de pertença, de género, assaz pelas vias da paixão, da vida e da morte eterna. Um absurdo excesso de produção dirigido a supostas necessidades de apoio à vida quotidiana das pessoas -- tarefas assistidas, as razões do amor, o peso da solidão, os hábitos comuns de passear o cão ou consumir uma enorme quantidade de minudências -- acabou por encher as sociedades de robots figurativos, homens, mulheres, crianças; bonecos, enfim, capazes de se confundirem com pessoas reais, embora dados a especialidades diversas, na cozinha, no jardim, na cama, na leitura, no tratamento certeiro das limpezas ou da educação canina. David, criança, era justamente a mais perfeita criação da indústria robótica, com um notável software, chegou a ser contrariado pelo filho da sua dona, a mãe. Mãe que não suportou a situação, acabando por abandonar David, mergulhando-o numa dolorosa deriva de procura de si mesmo, tentando ser uma criança real, condição para o amarem de verdade. Viveu assim a tormenta de passar a pertencer a um mundo de biliões de seres mecânicos, desempregados, ultrapassados por novas séries, sendo cada vez mais combatidos por uma parte dos homens e das mulheres que os acusavam de contribuírem para a dissipação da raça humana, dominando por fim as nações e destruindo assim a própria História. Com meios brutais e afinal rudimentares, esta parte da humanidade edificara "feiras da carne", caçavam milhares e milhares de humanos mecânicos para os destruir, despedaçando-os e atirando-os para enormes lixeiras.
David procura então, fugindo a tudo isso, uma Fada que (diz a lenda) pode tornar uma criança da série "MEC", por exemplo, em criança real. Teoricamente, qualquer robot é eterno, como a Fada Azul, e David  atravessa o mundo para descodificar tudo o que o impede de chegar à Fada mágica. Não tem resposta concreta, embora haja cumprido todos os passos da mitologia, e soçobra num tempo de 2.000 anos, sendo depois despertado por uma outra gente que habitava então o planeta Terra. Ao ser-lhe mostrada a mãe, oferta alucinatória que durou apenas um dia, David vê a mãe adormecer (morrer), adormecendo também, não alienado, humano, o primeiro robot que abdica da vida perene para morrer de facto, mas provando o sentimento de ser amado pela mãe que ousara conhecer e amar.






II

É tempo de pensarmos um pouco nesta poética naif para conseguirmos equacionar o espaço das nossas dependências, do nosso aprisionamento pelas tecnologias de ponta, vítimas de olhadores e ouvidores estatais, obrigados a consumir milhares de coisas inúteis, ou feitas para a criação de novas necessidades, assim amarrados e amordaçados às dívidas, ao excesso de escolhas, ao Big Brother, à grande e totalitária dívida.



Edward Snowden

Julian Assange

Estes são dois personagens relevantes de uma luta contra a alta espionagem, neste caso nomeadamente nos Estados Unidos. Porque Snowden acedeu a milhares e milhares de informações classificadas naquele país, revelando depois uma grande parte delas. Mas este fenómeno, sobretudo com a chamada competitividade da Globalização, cresce por toda a parte e das mais sofisticadas vias técnicas e/ou estratégicas. O que importa (não sabemos se evocar aqui alguma ética) é denunciar um crescente acesso às grandes manobras e projectos, às pessoas de grande relevo, embora tal manobra também se estenda a pequenos actores e famílias por todo o mundo. Edward acabou por ser acolhido na Rússia, enquanto Assange se recolheu, daí missionando  sobre esta matéria, na Embaixada do Equador em Londres. Falou há dias, em video-conferência, no Centro de Congressos do Estoril. Sobre esse facto O "Público" publicou um artigo de Kathleen Gomes: "A Missa de Domingo de Julian Assange".
Citação do texto: «Anti-capitalista e anti-autoritário, o fundador da WikiLeaks comparou as actividades de vigilância de agências secretas como a NSA às práticas levadas a cabo pela Stasi, a polícia política da ex-RDA (Alemanha de Leste, sob influência soviética). Mas os governos não são os únicos culpados. Companhias das áreas da informática tornaram-se aliadas, agentes privados cujo trabalho importa à máquina do Estado norte-americano. (...)» Quando as pessoas dizem: «Não tenho nada a esconder, porque é que hei-de preocupar-me com isso?», a nossa resposta deve ser: «o que há de errado consigo, se não tem nada a esconder? Deve ser uma pessoa incrivelmente aborrecida. Por favor, trate já de procurar qualquer coisa que tenha de esconder».
De facto. Parece estranho, entre tanto lucro sombrio, tanta miséria, haver gente limpa. E depois? Como viveriam  as grandes indústrias do segredo e da informação? Acabaria o mundo, que acabará depois do «Interstellar».
Pediram a Assange para prever o futuro:
«Para mim a questão é como evitar o totalitarismo. Com os avanços tecnológicos estamos muito rapidamente a chegar a um nível de centralização global, com muito poucos centros de poder. Precisamos de encontrar alternativas».

É estranho pensar que esta tentacular apropriação dos Estados e das pessoas possa adiantar-se à morte física do planeta e à morte eterna da humanidade. Porque as grandes Empresas que começam a centralizar todo o poder afundar-se-ão nele, arrastando consigo a massa dos seres inteligentes.
Disse Kathleen que, no fim, o oráculo desapareceu no imenso ecrã branco, sob forte aplauso, tão etéreo como surgira. Será esta uma nova vaga de Messias, séculos e séculos depois do Messias a quem chamaram Cristo? Ressurreição ou Morte?



III


enfim, o mundo moderno e as novas dívidas

O que acontece nos domínios atrás aflorados, acontece sobretudo com a indústria financeira e os efeitos da Globalização sobre esse enorme poder. Um poder que foi trabalhado para gerir as trocas e a expansão das redes habitacionais e de produção, associado entretanto à economia e à política, segundo as muitas ideologias que arrumam os países por máfias meio encobertas, começa a esmigalhar milhões de seres humanos, atirando-os para a miséria, e erguendo as classes ricas, coladas ao poder, para um falso paraíso na Terra, apesar de se saber que as dívidas contraídas em todos os continentes, e que alimentam os credores, deuses negros do trabalho escravo e do manejo dos juros, se escondem atrás das agências de notação, histéricas, trabalhando numa vertigem igual à das Bolsas, atando os pulsos de toda a gente remediada a sinais de códigos informáticos (AAA / BBB / CCC / C-lixo / Lixo irreparável). Há quem acredite que as dívidas são hoje uma entidade deificada, A DÍVIDA, coisa sem rosto, ingerível, que acabará com os últimos escravos. Ela paira sobre uma paisagem destroçada, meio submersa nos oceanos putrefactos, enquanto aquela falsa Fada Azul que se desfez aos olhos de David assim continuará, na morte eterna, no mais fundo dos mares globalizados.
Se permanecerem assim, como têm sido formadas, as regras vigentes da economia internacional podem levar-nos a imaginar o que acontecerá na maioria dos países do imenso Terceiro Mundo, e de outros mais avançados, intercalares: nenhum deles atingirá verdadeiramente o patamar de país desenvolvido. Desta forma,e a hora actual bem o indicia, não é cientificamente palpável que tais países estejam em vias de desenvolvimento, pelo contrário: um cerco de Dívida mantém-se emergente, ajudando as  cadeias  da   produção e da manipulação informativa a descarregarem novos apelos para novas encomendas; ou reiterando os ciclos viciosos de diferentes consumismos. Por isso, os países de certas periferias conceptuais, sinalizados pelas potências mais fortes, encontram-se afinal  em vias de empobrecimento  cada vez maior. A distância entre ricos e pobres não se reduz, aumenta. E este é, sem dúvida, no centro da nossa angústia, o maior escândalo destes tempos. Põe mesmo em causa os tão sublinhados Direitos Humanos.


habitat


Os restos dos grandes sonhos, teias de belas tapeçarias ou caixotes de um marginal habitat tão longe quanto possível das fezes fluviais, fragmentam os últimos habitantes da última e mais extensa civilização. Os precisos dados estatísticos de Rudolf Strahm acabam por se ajustar aos factos de uma certa decadência, exílio, almas solitárias. Ainda sobram juros extorsivos, depois de muitos povos terem pago assim, por duas vezes, a sua sacrossanta Dívida, logo descobrindo que haviam tentado remediar a fome e o vazio com mais encomendas de produtos de emergência. Os bancos ainda activos cobram juros muito altos: a vida no Olimpo, dos deuses ricos, é um enlevo de credores que eternizam novas dívidas, criando assim estranhas genealogias de novos Sísifos, eternos escravos da pedra que rola a cada transporte vazio de sentido. O aumento das taxas decidido arbitrariamente pelos credores, deve-se, na prática, a uma "espada de Dâmocles" que pesa inexoravelmente sobre os devedores acorrentados. 

As pessoas que lêem este blog, do outro lado do mundo, sabem que não há aqui páginas adicionadas, apenas citações breves, a dor é maior do que isso. Os conteúdos não se arranjam no mercado nem eu quero falar sobre mim, muito menos anunciar o mais sumário dos objectos. Quero, num limite indeclinável da vida, à beira da morte eterna, denunciar que vivo um tempo novamente selvagem, helenístico, embriagado, amoral, acultural, cada vez mais submerso no bojo horrendo da Arca de Noé, bebendo leite azedo de cabras febris.



Este post foi redigido sem ter que falar sobre mim, nem anunciar actualizações ou páginas de manejo mais fácil; não se trata de tornar familiar o que é acutilante e complexo. O design é ainda o mesmo, não me obrigo a convencer os outros à mesma dívida de sangue que brota, lenta, dos meus pulsos. E por último: não sou funcionário do nosso amável Google.

sábado, novembro 08, 2014

QUANDO OS OLHOS NOS OLHAM ANTES DA MORTE




Não há maneira de olhar o mundo da Globalização sem pressentir a turbulência que tem envolvido o planeta e em que tudo o que tomamos por humanidade se dilacera entre o pavor da memória longínqua e a fragmentação financeira que milhões de corruptores, fugindo à morte em nome de uma vida «para sempre», levam aos túneis da impunidade. Há cerca de dez séculos, quando as nações ainda estavam por decidir pelo império da Igreja Católica, caravanas marítimas e exércitos em terra, varriam os crentes de outros livros sagrados, ou de outras religiões, para longe, em nome de Cristo, que se deixara morrer na cruz (a mitologia o diz) para salvar os homens da demência e da crueldade. Nada se salvou em qualquer lugar até aos dias que passam. E no século XX, em jeito de um ajuste de contas e vontades territoriais, as nações já formadas entregaram-se ás duas maiores pelejas que já se viu no mundo. Antes disso, a Inquisição da Igreja Católica Apostólica Romana fez por toda a Europa grandes limpezas dos seus contraditores, mas abusou passando por cima de milhões de inocentes. Como agora acontece, de outras bandas, rolando cabeças e extinguindo-se etnicamente gente por fim cega, sem boca nem destino. Parece que o ponto alto da civilização amada depois das grandes guerras, tecnicista e até virtual, começa a retroceder para o abismo das noites sem alma, em nome do novo deus Global e com a lâmina suja de sangue, ao mesmo tempo ímpio e inocente. Todo o planeta sucumbe sob os fumos do excesso de gastos de matérias-primas e toda a humanidade se mistura, não para fazer um novo homem, mas clonagens de seres agressivos, vindos da mais longínqua escala da Darwin. Vamos ver o que nos diz o filme Interstelar.

quarta-feira, outubro 22, 2014

MAR SALGADO DE MIL EMIGRAÇÕES DESALMADAS

Esta paisagem é uma gravura feita com paixão por D.Carlos, 
por fim vítima dum dramático regicídio, no limiar abrasador da implantação da República


Ora Portugal tinha sido conquistado por terra e por mar, ficando amarrado àquele grande oceano, o Atlântico, a carpinteirar embarcações e amanhando a terra, numa distância de séculos antes da batata, coisa estranha e que tinha a alcunha de "veneno do chão". O chão foi muitas vezes o nosso mal, porque o tempo matava as plantas de comer e as árvores eram muito ocasionais para se aproveitarem. Claro que D. Dinis tratou do Pinhal de Leiria e há quem diga que, já nessa altura, numa vida tão rudimentar, alguns homens eram grandes, visionários. Teria o rei plantado tantos pinheiros por capricho, ainda por cima sem nada de substantivo para se comer? Diziam os historiadores menos científicos,  aqueles que pressentem a razão de ser das loucuras colectivas ou o imaginário que nos consome metade do cérebro: havia ali coisa, obviamente. Tanto pinheiro para tão pouca gente parecia mais o advento de uma indústria para ajudar em vários campos a instalação da vida. Não eram rosas, senhor, nem pão: eram os rolos da arte náutica, os planos de alargar a terra para além do mar, na primeira e talvez única visão a longo prazo de um governante do país.
Já ouviram falar dos Descobrimentos? Caravelas, naus, galeões, especiarias, paz de espírito, acção indiana, Brasis, Áfricas -- e tudo devagar, tudo pensado, desde a logística à alimentação e à cartografia. Fomos longe, fomos a vanguarda da Europa, e depois acantonámos a fazer gravuras e  perfumar monarquias decadentes. Da República nem se fala, porque acabou por mudar de número e fechar bocas e embocaduras com o Professor de botas lustrosas e uma ditadura em volta, por quarenta e oito anos, incluindo parte das guerras coloniais, ir e vir, mar, pastorícia dos espíritos, Cerejeira ao lado, uma visita jornalística, Só, Christine Garnier em São Bento, as pernas juntas, olhando a brancura do homem e o seu falejar em jeito de língua franco-portuguesa. Despediu-se um dia da porta, a mão ao alto, e ela no automóvel a apontar. De pé. E Só.

Mas vamos lá, tempos depois, "o 25 de Abril", "os capitães", "o Copcom da revolução", "o abaixo os latifundiários", "o deixa lá que do patrão tratamos nós", "o povo é quem mais ordena", "a Europa sopra ordens" e "os governos" (o nosso também), foram nessa. Euros em vez de escudos, uma União depressa desunida. Roubaram-nos as terras, a cortiça, mandaram abater os barcos que cumpriam a pesca, pagos enviesadamente, gente do mar metida em casa, com os restos, enquanto aquela gente também nos roubava o mar, as vinhas, o calibre natural das laranjas e das maçãs. Que reforma era esta? Em menos de um fósforo desapareceram a marinha mercante e as frotas da pesca longínqua, as aldeias dos imigrantes, tudo votado ao cimento armado, às auto-estradas contra os portos e as plataformas marítimas e ferroviárias da nossa ainda viagem, após as desastradas descolonizações, atrasadas, sem estrutura comunitária de raças e culturas. Voltámos para esta velha jangada (de pedra, como disse o Saramago) e um mar cada vez maior em volta. Um mar que vemos do ar, em vez de o aprofundarmos no mesmo e melhor intuito das antigas navegações por cima dele.
Nas listas das comissões nomeadas pelos partidos que arrumaram o país, com alguns militares, depois do "25 de Novembro", constam listas estranhas de bens alienados como lixo e pagos prémios de consolação em euros. Por isso vem lá, por ordem alfabética, os milhões de perdas: abóboras, abacates, albornozes, árvores (trinta mil espécies a favor do eucalipto) automóveis, casas, cadeiras, calmeirões, camaleões, canteiros, canais, dormitórios, donzelas, dormideiras, danças, enchidos, empilhadoras, escritores, editores, empreendedores, emblemas, exuberâncias, êxitos, além do ferro e dos ferros ou ferrovias, frémitos, fundos financeiros, deixando os forretas com quem se abriam novos negócios. Globalização mal-entendida e mal praticada, gente por ela empobrecida e as novas modas do ruído, governos sem governo, a deriva da água que secará um dia e os céus indomáveis pelos fumos cujo limite se aproxima do fim dos tempos, embora os grandes senhores das moedas em circulação, emparedados no seu fanatismo, se recusem a ter causas inteligentes cuja energia não vem das forças renováveis mas dos fósseis claramente destinados a provocarem desequilíbrios civilizacionais, mais doenças, mais catástrofes, mais indeterminação perante a própria vida solar.



Embaladas, assim, as nossas vísceras, numa galáxia longe da nossa depois da morte solar e do fim deste planeta cheio de fezes concentradas ao longo de milhões de anos, coisas destas poderão sofrer trasladações hoje impensáveis. A vida transporta-se a anos-luz de distância, mas vida desencontrada da sua raiz, reduzida à sua essência polar. Isto quer dizer que os governozinhos que nos governam, lambendo notas e atravancando tudo, a própria vida sem nome de espécie, cospem em bocados de barcos que nos restam pelos oceanos todos, espaço do que foi potencialmente um novo mundo. Não haverá mais retratos de presidentes, só insectos capazes de viver entre ambientes de metano ou calcinações inamovíveis. Se nada sobrar de nós, assim, nada mesmo, nem a alma, nem um resto de saudade, que vísceras parecidas com as nossas poderão chegar a sítios ainda limpos, derivados da mesma lógica energética que nos tem rodeado? Mais acasos, vidas acidentais, depois dotadas de coisas como neurónios e de percepção e de uma qualquer consciência? 

Há cada vez menos respostas sob o peso colossal da tecnologia avançada e dentro da carne enervada (mortal) que entrou em desistência de valores supremos perante a utopia da conquista do tempo, aprendendo, enfim, o Universo. O conhecimento rudimentar e confuso que formámos da infinitude universal, entre milhões de galáxias, todas elas com mais de cem mil anos-luz de comprimento, levou-nos ao horror de desistir das culturas da invenção e das iluminações, como se, de facto, nos aproximássemos de um Apocalipse acima de tudo o que já foi convocado pelos profetas da morte dos astros.
Se a vida voltar a acontecer depois de nós, ou de outros, será de novo uma vida sem sentido e sem continuidade.



morte das máquinas ou vísceras



    
Enquanto a vida se desfaz entre molezas morfológicas, os sistemas sociais que as máquinas apoiaram, engrandecendo e deturpando, desagregam-se das partes cívicas, acaba a tabuada, 3 vezes 4 ou 34, sobrando as tintas pardas da indefinição que nos iludiu sempre e se multiplicou, pela luz solar, em milhares de reflexos coloridos. O mundo chegou a parecer aprazível, percorrendo contudo uma linha de perda civilizacional, entre excessos e perdas incontáveis.
As coisas foram perdendo as relações que as moviam, já quase ninguém sabe a ordem do que foi feito, calhando ainda marcas da carpintaria geométrica, habitação pós-rupestre ou do campo no século XX. 

                                                

Os restos, já sem europas, parlamentos, desigualdades, pobrezas, os  ódios dos últimos degoladores da beleza, em nome de Deus, desembarcados na terra áspera de um território sem árvores nem céu, são talvez as nossas memórias, longe do mar salgado, longe das díásporas hemorrágicas. Antes da Morte nos ligar definitivamente ao infinito, acabará o mar que não aproveitámos, a terra que despovoámos, as casas e o património todo que sepultámos, as crianças que não tivemos, os impérios que não partilhámos, a solidão e a solidariedade que não conjugámos; tudo isso fica aqui, desalinhado, nestes breves destroços que só a arte pressentiu.



                                            DULOS                                                                                                               SAPIENS


quinta-feira, outubro 16, 2014

DAVID DE ALMEIDA MORREU NO CENTRO DE SI


David de Almeida  

Morreu  o artista gravador David de Almeida, um grande amigo que levou a gravura a um domínio minimalista esplendoroso. Aqui fica o meu pesar e a notícia para outros pares. Há alguns anos tive oportunidade de acompanhar por dias David de Almeida, no seu atelier, estudando, com as suas obras e as suas palavras (conceitos), todo aquele processo criativo. A seu pedido, viera para ver e saber se teria interesse técnico e cultural em escrever um livro sobre aquela produção. Foi um trabalho a que perdi o rasto, mas creio que chegou a ser publicado. 
Morreu mais um amigo, mais um homem de cultura, vítima de uma doença difícil,  deixando ao país um espólio, em colecções e museus, de grande nível no domínio da gravura, explorada na variedade dos meios e materiais, na unidade, entre a simetria e o lado geométrico do pensar que a decidia. Portugal, agora muito desatento a estas figuras e à importância do seu trabalho, assinala cada vez de forma mais baça os seus artistas, cientistas, homens do pensamento e da cultura. David de Almeida é mais um testemunho de que essa solidão no silêncio só nos acelera a decadência.

quinta-feira, outubro 02, 2014

MORREU O ARTISTA PLÁSTICO ESPIGA PINTO

ESPIGA PINTO

Inesperadamente, para mim, que estou isolado em Lisboa, morreu ontem, no Porto, um grande amigo e colega nas artes plásticas, Espiga Pinto. Foi penoso para mim, tão sem sentido, ele que seguia a minha obra escrita, publicada pela sua companheira Manuela Morais, conversando ou escrevendo. Desde há muito que acompanho esta obra, a sua, as figuras de grande qualidade gráfica, gente do Alentejo, até outras viragens na figuração e nos círculos e na geometria de um certo universo fantástico, salpicado de astros e de deuses ou símbolos zodiacais, tornando a ornamentalidade num jogo de pressentimentos metafísicos.
Espiga Pinto, natural de Vila Viçosa, ganhou, além de outras distinções, o Prémio da Bienal de São Paulo, no Brasil, em 1973. Tratava-se de cenografia para a Gulbenkian, A Dulcineia. Espiga Pinto foi, aliás, bolseiro daquela Fundação, em 1973 e 1974. Tanto quanto se pode avaliar, em termos curriculares, o pintor (também experimentador da escultura) realizou mais de 80 exposições individuais, participando em muitas outras de carácter colectivo. O seu trabalho foi sempre multidisciplinar, operando em pintura, escultura, desenho, medalhística, design grafico, sobretudo nas belas capas que produziu para a Ulisseia. Está representado em grande número de colecções, algumas verdadeiramente importantes, tendo recebido, por outro lado, diversos prémios, da Academia de Belas-Artes, 1987, e Prémio Coty, dos Estados Unidos, 2000, pela melhor moeda (moeda comemorativa do planeta Terra).
Foi professor de Desenho no Instituto de Artes Visuais (IADE, Lisboa, entre 1979 e 1987. Nomeado membro da Academia Nacional de Belas-Artes e sócio da Federação Internacional da Medalha.

Esta nota, sob um sentimento de perda, não passa da notícia terminal que o mundo nos vai obrigando a traçar, cada vez, com menos palavras, com menos caracteres, com mais silêncio. Espiga Pinto, apaixonado pelas coisas e temas que invadiam o seu imaginário, deixou sinais artísticos de grande valor gráfico ou pictórico. Sendo um dos mais dotados artistas do seu tempo, trabalhou muito e aparentemente numa espécie de recanto, sem trombetas nem viagens engalanadas. Aprendeu muito, no capismo, a dar rosto a vários livros, na editora Ulisseia. Um nome, afinal, de míticas partidas e românticas chegadas.




sábado, agosto 16, 2014

CLAMAM A DEUS E MATAM A SEGUIR CEGAMENTE


Cristãos minoritários são queimados vivos por muçulmanos sunitas radicais na Nigéria. Tudo acontece com a maior frequência, numa barbaridade que os próprios cristãos assumiram há muitos séculos, com as suas Santas Cruzadas, e a partir de uma civilização teísta. Foi há muito tempo. E a distância tem agora, na Nigéria, um cunho de maior dádiva aos céus do que os seguidores de Cristo e de um Deus omnipresente e omnisciente. A contradidção religiosa, nos nossos dias, dissimulando outras razões, tem usado os mais absurdos pretextos para redifinir o poder e os territórios, separando as etnias. Estas imagens obscenas estão a ser divulgadas por gente indignada com o aumento de tal pestiferação e, sobretudo, com a anemia dos muitos povos civilizados, dotados de meios e de cultura incompatíveis com este alastramento da ganância, da vileza, das mais terríveis cegueiras.

              COMO SE FALA  ALÁ? E A QUE DEUS FALA CRISTO?

segunda-feira, agosto 04, 2014

REGREDIR AOS DEUSES EM FÚRIA




O mundo inchou na inquietante metamorfose da globalização. A Europa era uma área civilizada que pertencia à ideia, em parte derivada do sistema de alianças concretizado após a segunda guerra mundial, e a cujo sentido se dava o nome de civilização ocidental. Apesar de ter vencido a guerra com os Aliados Ocidentais, a União Soviética, fria, comunista, dona de uma partilha que levou Estaline a destroçar mais de vinte milhões de camponeses em nome de uma unificada reforma agrária, considerava o como lado do inimigo, o Ocidente dos males do consumo e da tecnologia da morte, cheio de ricos e pobres. Por cima de tudo isto mandava Deus (unificação dos deuses da antiguidade, mais humanos e divertidos). Deus, felizmente, não existe: o que, parecendo um ardil, nos salva de maiores asneiras e patéticos destinos do absurdo. Havia os que afirmavam ter o homem sido feito à imagem e semelhança de Deus: pobre criatura, o homem. Nunca mais entendeu as semelhanças que o distinguem  de todos os outros seres vivos (ou sobretudo) nem a diferença perante os seus irmãos, paradoxo de uma grandeza criadora. Preferir a destruição e o genocídio é negar a própria História e os homens invulgares que ajudaram a descobrir milhões de bens após a Era da Obscuridade, longa, penosa, laboral. só têm, por vezes, homenagens litúrgicas.
Li há dias uma crónica da Clara Ferreira Alves que me comoveu e fez relembrar a grande inquietação que sinto ao ver muitos dos meus pressentimentos confirmados pelo mundo fora, desde a  moscas amarelas, aos milhões, que atravessam os nossos céus, numa mobilidade da internacionalização e dos gostos um pouco pueris dos homens fugirem (de novo nomadizados) em busca de dinheiro e conforto, exílios cruzados, aves de metal atravessando os oceanos ou mergulhando neles para sempre. Trocam, a cada acidente de descida das bolsas, de país e de identidade, nomadizam-se como  nas sangrentas marchas da pré-história. Desta vez até foram para a Austrália e Nova Zelândia, alguns voltaram intoxicados pela diferença e pelo trabalho escravo que jamais aceitariam no Alentejo ou em Trás-os-Montes.
Clara escreve: «Eram civis apanhados numa guerra». Eram e mal sabiam que céu atravessavam. «Morreram cruelmente, desnecessariamente.» Tratou-se de um missil militar, manejado, na Ucrânia, por uns travestis de rebeldes (orientados pela Rússia) e ajudados por eles em quase tudo: no disfarce, na conquista de terras ucranianas, na escolha do dedo que apertou o último botão: deus em baixo a destruir mais de duas centenas de seres humanos, assaz grandes cientistas, só porque sim, porque  aquilo  podia  ser do inimigo,
porque as costas estavam quentes e a logística estava mesmo ali à mão de semear. Tratou-se de uma monstruosa operação dos interesses russos, Putin impávido, os ocidentais embaraçados com o dinheiro e as suas assimetrias de poder. Infelizmente, a Alemanha é muito grande para a Europa e pequeníssima para mandar nos outros à sua volta, da América aos Estados da Ásia.
Caíram cadáveres do céu. Os tais rebeldes apressaram-se a caçar as caixas negras e a enxovalhar os mortos e os destroços que deveriam ficar inertes, intocáveis, para que os peritos internacionais devolvessem com dignidade os restos a quem de direito. A esta gente nada importa, porque o seu clube não tem princípios e Putin gargalhou perante as sanções europeias e americanas, ele que tem meios para ripostar e gosta da grande memória que o cerca, entre novos companheiros carregados de ouro e especiarias da corrupção. Disseram em Chipre, eu não vi.
Um pouco de tudo ao mesmo tempo, o Afeganistão continua a viver em guerra, o Iraque desmantela-se, a Síria continua a arder, enquanto a ONU, inutilizável, emite despachos para que a rapaziada tenha juizo. Gaza está na agenda e os jornais (de venda) esquecem os outros pontos. Seja como for, a arrelia dos Israelitas começa a ser insuportável, como o seu homónimo Hamas -- e digo assim porque Israel não reconhece a urgência em sedimentar os Estados da zona Palestina, enquanto o senhor do Hamas grita: "sem a destruição do Estado de Israel, que foi roubado à região, não haverá nem paz nem legitimidade devidamente enquadrada." Israel rompe mais fogo, quer deixar uma marca profunda e desproporcionada em Gaza. É claro que nunca mais pensou nas guerras que encenou e nos territórios que ocupou e onde fez construir centenas e centenas de colonatos. Parte das terras em que combate são de outros, ainda que tenham estado sob a sua ocupação, como continua a acontecer, o que parece estar para aumentar, extensível a outras zonas.
Enquanto o mundo arde desta forma, havendo cerca de 2.000 mortos em 25 dias de combate na faixa de Gaza, uma guerra é travada, na multiplicação das páginas, pela imprensa, um jornalismo rasca e explorador do efeito de horror, sem, a par disso, aprofundar a história e as linhas de desenvolvimento destes conflitos. O mesmo faz a televisão, a nossa menos, porque decidiu entretanto intoxicar toda a gente com um tal Portugal, Danças, ruidosos Concursos, publicidade e Novelas. Um dia tem que se legislar sobre o modo de alinhar os programas, respeitando os seus conteúdos, claramente para melhor, estabelecendo aí onde e como devem ficam as coisas, qual a sua arrumação. Neste momento vê-se mais publicidade do que televisão séria. A cultura, massificando-se, regride, salpica-mos a cara de lama em sucessivos cortes por todo o lado, por cima dos filmes ou novela, entre fracturados programas, trinta minutos de palhaços para voltarmos ao tema do programa anunciado nos jornais.
Morre-se um pouco por toda a parte. Até com o Ébola. Clara acentua a sua análise a certa altura e eu vou terminar aqui:
Na Europa um crime contra a humanidade foi cometido com a benção e as armas de Putin, e as audiências, opiniões, manchetes e poderes constituídos decidiram que não tinha importância.

Já me esquecia: enquanto não prendem os meliantes da finança, os cidadãos portugueses foram hoje, ordeiramente, informar-se junto do BES (agora NOVO BANCO) como estava a sua situação e como deveriam ir esperando e procedendo. O melhor Povo do Mundo, dizia justamente um ministro das finanças, nosso, que já voa pelo FMI e fartara-se de fazer ajustamentos. 

quinta-feira, julho 31, 2014

GAZA MORRE SOB O IMPÉRIO JUDAICO






A cidade de Gaza foi fundada aproximadamente no século V a.C. por piratas do Mediterrâneo que se denominavam Filisteus e chamaram a região de Filisteia.
Após diversas invasões(tribos israelitas, babilónicos, persas e assírios), caiu nas mãos dos macedônios, cujo processo de imperialização possibilitaram-na o contato com a cultura das hélades gregas (helenismo).
Quando os romanos invadiram Israel, também submeteram a cidade de Gaza e região.
Por muito tempo ficou em poder dos bizantinos e árabes, foi dominada pelos otomanos e, enfim, pela Inglaterra ao fim da Primeira Guerra Mundial.

Partilha de 1947


Mapa da Palestina realizado pela ONU em 1947 após a partilha.

Durante centenas de anos, o Império Otomano dominou Gaza, até que o território - junto com o restante da Palestina - passou para o controle dos britânicos, com o final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Durante a primeira Guerra árabe-israelense, logo após a criação do Estado de Israel, Gaza absorveu um quarto das centenas de milhares dos refugiados palestinos expulsos das áreas que hoje fazem parte de Israel.[1] [2] Com o fim do mandato britânico Gaza ficou sob domínio egípcio.
Guerra dos Seis Dias de 1967
O território ficou sob controle do Egito entre 1949 e 1967, exceto em um curto período, durante a crise do Canal de Suez, quando foi ocupado por Israel. Depois da Guerra dos Seis Dias, Israel passou a dominar a Cisjordânia, Jerusalém Oriental (ambos anteriormente controlados pela Jordânia) e a Faixa de Gaza. Em todos estes territórios, o governo israelense promoveu a construção de assentamentos de colonos judeus.

Acordos de Oslo de 1993

Retirada israelita de Gaza

Em 2005, o então primeiro-ministro Ariel Sharon executou um plano de retirada de todos os 8 mil colonos israelenses da Faixa de Gaza, bem como as tropas que os protegiam. O plano também previa que Israel continuaria a controlar o espaço aéreo de Gaza, seu mar territorial e todos as passagens de fronteira.[3] [4] Em setembro, a retirada israelense foi concluída.[1]

A situação na Faixa de Gaza começou a se deteriorar depois que o Hamas venceu as eleições legislativas palestinas, obtendo 76 das 132 cadeiras do Parlamento Palestino, em janeiro de 2006.[5] No entanto, as profundas divergências políticas entre o presidente Mahmoud Abbas da Autoridade Nacional Palestina, pertencente ao Fatah, e o primeiro-ministro, Ismail Haniyeh, do Hamas, resultaram em violentos confrontos entre militantes das duas facções rivais na Faixa de Gaza, em 2006 e no início de 2007, com um grande número de mortos e feridos.[1] [6]

Confrontos em 2006

Em junho isto  2006, as Forças de Defesa de Israel lançaram sua primeira grande operação militar contra a Faixa de Gaza, desde a retirada dos colonos judeus do território palestino. Chamada de Operação Chuvas de Verão, a ação de Israel visava a resgatar o soldado Gilad Shalit - capturado no dia 25 de junho

Estes dados servirão sumariamente para se perceber um pouco do drama que se vive naquela região há tantos anos e sem que à parte lesada se tenha feito um mínimo de justiça. Israel foi implantado no território palestino onde havia população e actividades vitais ou de sobrevivência.
O dinheiro, a emigração e a tecnologia alargaram a força de Israel e a capacidade de impor pontos de vista não negociados, nem entendimentos sem invasão de territórios não integrados no acordo a favor daquele país. Israel não reconhece os palestinos nem o seu direito à formação de um país. E o movimento radical Hamas grita, a todos  os ventos, que a sua nação será erguida a troco da irradicação de Israel, quer em termos de presença, quer em termos de Estado. É caso para se dizer: tudo isto vem tarde demais. Mas um dia, não se sabe quando, Israel terá autoridade para impor um sistema a todo o Médio Oriente? Nunca será submerso? Todas as grandes potências do mundo vão poder usar da força sempre, e sempre a favor de Israel, cuja crença no destino divino acham que lhes pertence? Mas eles não sabem que Deus, visto nessa perspectiva, é também um abismo, milhões de vezes maior do que o maior buraco negro do Seu Universo?

quinta-feira, julho 24, 2014

CPLP + GUINÉ EQUATORIAL + GODOT




A presença de Portugal na CPLP «esteve em risco», caso não tivesse dado carta verde à entrada da Guiné Equatorial, confidenciou à Comunicação social uma fonte do Governo conhecedora das negociações. Depois de anos de resistência portuguesa, e com a cimeira de Díli a aproximar-se, as negociações tornaram-se mais difíceis. Dilma Rousseff e José Eduardo dos Santos, presidentes do Brasil e Angola, forçaram a entrada. Com uma ameaça: se Portugal tivesse insistido em dizer não, os outros países ameaçavam formar «união jurídica, uma união PALOP mais o Brasil», explicou a mesma fonte. Um exemplo ilustra a determinação de Dilma nesta recta final do processo: o Brasil «queria que a Guiné Equatorial ficasse já com a presidência da CPLP», na cimeira desta semana em Díli. Teodoro Obiang Nguema «nasceu do demónio e alimenta-se do medo de um povo medroso». Sentado no Centro Cultural Espanhol, em Malabo, capital insular da Guiné Equatorial, Luís Nzó, 49 anos, não cala as críticas ao Presidente que governa o País com mão de ferro desde 1979, entre várias acusações de violações de direitos humanos, torturas e assassínios de opositores. «Pode escrever o meu nome. Morto já estou eu porque não posso desfrutar da minha vida. Eu já morri», diz Luís, que nasceu na terra natal do Presidente, Mongomo. Já foi exilado, voltou em 1990, confiante no início do processo de democratização e envolveu-se na vida partidária. Foi preso e agora está sem emprego, a viver numa barraca no centro de Malabo à espera da queda de Obiang. 
De etnia Fang, a mesma do Presidente, Luís é duro nas acusações e deseja que Obiang seja castigado pelos crimes que cometeu pelo próprio povo «e não que esperasse pela sua morte». O tema da sucessão está presente nas conversas das ruas da capital, entre apoiantes e opositores. O chefe de Estado tem como um dos vice-presidentes o seu primogénito Teodoro Nguema Obiang Mangue, conhecido por Teodorín. «Se o filho ficar no poder será muito pior e mais complicado para todos nós», desabafa Damien, morador no centro da cidade, o Centro Cultural Espanhol, em Malabo, capital insular da Guiné Equatorial. 


Memória selectiva da ditadura
Luís oferece-se para percorrer as zonas mais pobres de Malabo e mostrar a outra face do país. No dia seguinte, aparece vestido com uma t-shirt com uma foto de Francisco Macías, o ditador derrubado por Obiang em 1979. As organizações internacionais de direitos humanos consideram o regime de Macías como uma das ditaduras mais brutais de África, com a morte de milhares de opositores, a destruição do sistema de ensino e de todo o sistema produtivo (encerrou roças de café e cacau e chegou a proibir a pesca). Mas para Luís, «a ditadura foi sempre a mesma. Ele [Obiang] era quem fazia as coisas». Obiang, sobrinho de Macías, passou a ser o principal responsável militar da ilha de Bioko (antiga Fernando Pó), onde estava a capital política, quando o ditador foi para a sua terra natal, Mongomo, no início da década de 1970.
Alguns elogios ao antigo ditador ouvem-se na rua, por oposição ao actual presidente. Desempregado há sete anos – «apenas por ser da oposição», diz – Andrés Ondo Mayie recorda que «Francisco Macías tinha um dom natural para falar com as pessoas» mas «não tinha decisões próprias», porque quem «decidia tudo era a sua mão direita», Obiang. Maye não tem dúvidas: «Macías ditava mas apenas porque era o chefe de Estado» e «foi melhor Presidente porque ajudou a construir infra-estruturas e telecomunicações». Além disso, «Macías sabia que havia petróleo mas exigiu que fossem empresas e técnicos guineenses a fazer a investigação», ao contrário do governo actual que «está a colocar o dinheiro todo nas mãos dos estrangeiros».
Apesar de tudo, o desejo de democracia levou-o a colaborar no golpe de 1979. Ainda guarda cicatrizes no corpo de um estilhaço de bala mas Maye diz-se desiludido com Obiang e mesmo com a independência, tendo em conta a «miséria em que o povo vive hoje». Durante o tempo colonial, «ganhava-se pouco, mas chegava para colocar os filhos a estudar na escola e os encarregados das quintas até conseguiam pô-los em Espanha».
Hoje Mayie, o antigo professor de hotelaria, com curso de Marbella (Espanha), diz que o país vive «em medo permanente». Assim se explica o receio das fotografias que existe em todo o território. São proibidas fotos e as pessoas reclamam quando um estrangeiro fotografa na rua. «Pode até ir preso. Há casas fotográficas mas não há quem tire fotografias porque as pessoas têm medo», diz.

Medo é pilar do regime
Luís Nzó diz que os guineenses que permanecem no país vivem «paralisados pelo medo». É esse «medo aterrorizador» que bloqueia qualquer tentativa de derrubar o regime. A isso soma-se a desorganização dos opositores e a ausência de recursos militares, porque o exército é liderado e controlado por elementos do clã presidencial, Esangui. O líder do único partido da oposição com assento parlamentar (um lugar em cem eleitos), o Convergência para a Democracia Social (CPDS), concorda e diz que o regime assenta parte da sua sobrevivência no medo. «A ditadura assenta sobre três pilares»: a pobreza, a ignorância e o medo. «O regime começou por empobrecer a população e deixou os cidadãos completamente dependentes do poder», começa por explicar Andrés Esono Ondó. Depois, a prioridade é a «desinformação e a ignorância». O «regime procura cultivar a ignorância e, apesar do petróleo, não constrói escolas para formar as pessoas, porque sabe que as escolas não ensinam apenas conhecimentos, mas também dão uma educação cívica e social». Resta o medo. «O regime não apenas marginaliza, também tortura e assassina. A política é a morte. Um cidadão que queira fazer política corre o risco de sofrer prisão, torturas e mesmo a morte», diz o dirigente, que esteve preso «várias vezes». Quando são as eleições, «obrigam-nos a votar publicamente no partido do poder» e os «guineenses estão incapazes de reagir ao que estão a sofrer».

segunda-feira, julho 07, 2014

EM DEFESA DA LÍNGUA PORTUGUESA



 Em defesa da língua portuguesa, 
o remetente desta mensagem  não  adopta o 
«Acordo Ortográfico» de 1990,
devido a este ser inconstitucional, linguisticamente
inconsistente, estruturalmente incongruente (para além de, comprovadamente, ser causa de crescente iliteracia em publicações oficiais e privadas, na imprensa e na produção em geral


José Miguel Gervário

terça-feira, julho 01, 2014

MORTE DE TRÊS JOVENS ISRAELITAS


Os três jovens israelitas, desaparecidos ontem, foram encontrados mortos perto da localidade de Halbul, em território palestiniano.
Eram seminaristas e foram vistos pela última vez no colonato judaico de Gush Etzion. Tratava-se de Eyal Yifrah, de 19 anos, Gilad Shaaer, de 16 anos e Naftali Fraenkel, também de 16 anos e dupla nacionalidade israelo-americana. Da parte de Israel as culpas foram atribuídas ao Hamas, tendo o primeiro-ministro declarado que «O Hamas vai pagar». Isto é tanto mais grave quanto o Hamas proclamar a necessidade de apagar na região o Estado judaico. Israel retaliou rudemente, como é seu requisito estratégico, e mais rupturas se abrem na região. Só não se percebe é porque razão Israel, ao não reconhecer nem autorizar um Estado Palestiniano, tendo aproveitado conflitos armados para construir verdadeiras cidades de colonatos em territórios que nunca lhe pertenceram (pela convenção estabelecida sobre Israel entre a Palestina, a Inglaterra e a França). Até quando julgam poder bater-se, sem a América atrás, com todos os Hamas, os que subsistem e os palestinianos em geral, votados a uma terra que não podem governar, explorar, amar, já que existem ali desde épocas bem remotas?

terça-feira, junho 10, 2014

AS COMADRES ALFACINHAS NO PÓS-TROIKA


Alguém chegou ao limite do seu tempo, sobretudo nas horas da mentira. 17 de Maio, em 2014? Qual quê? Portugal tinha recorrido à velha manha de não prevenir leis ou orçamentos ao Tribunal Constitucional: o Presidente assina e promulga e a bicharada recorre àquele orgão de soberania, latidos e risos, urros e cuteladas: «Queiram V. Exas tomar na devida medida o nosso protesto contra certas reformas, protesto de direito através do qual assinalamos a maior dúvida sobre a constitucionalidade de cortes nos restos dos salários dos funcionários (outrora) públicos, linchamentos de reformas dos velhotes a que falta o toucinho da dupla ração, além da SES (é mais bonito assim), coisa que arrasa de novo pensionistas e outros, tendo passado de uma falsa solidariedade para uma impossível sustentabilidade.»
E assim tendo sido, «quatrocentos» anos depois, o tribunal Constitucional escreveu 150 páginas de «acordeon» para dizer que a lei proposta era inconstituicional, o que equivalia a uns 600 milhões de euros. É preciso remendar esta bronca com mais colheitas, até chegar aos 1200 milhões da mesma moeda.
Estado: «Então que chacota é esta? Mais cortes, menos dinheiro, menos toucinho, mais sustentabilidade? A gente não vai nisso. Negociamos com a troika, que ainda nos deve dinheiro, e partimos para amanhã, pedindo ainda ao juízes que nos expliquem se aquele recorte se aplica amanhã ou hoje. Como fazer com o que já se pagou em duodécimos e agora tem de se continuar à tranchada rápida.» 
Estava o país nesta fantochada (que se estava mesmo a ver desde a não prevenção) quando o António Costa (aquele da costela indiana) arrebatou do comunicador e comunicou que decidira candidatar-se a secretário geral do PS e o Mário Soares bateu palmas. Seguro, cada vez mais irritado com a falta de papel para desempenhar, disse: «nunca me demitirei».
Não se faz nada, um Congresso nem nenhuma farsa dessas. A democracia às bases. (Otelo regougou de satisfação: «Eu não disse? Que isto só ia com a verdadeira participação das bases?») E pouco depois já Seguro assegurava que era preciso mandar os estatutos do partido às malvas, começando por avaliar a vontade dos militantes e simpatizantes numas eleições primárias, coisa que ele mesmo tinha julgado impróprio para o PS, na sua representação da cultura popular do país. Começou a balbúrdia, eleições para eleições, perguntando a pseudo simpatizantes: «Ouça lá! Já alguma vez votou no Partido Socialista? * Eu cá não, não senhor...* Bom, mas isso não quer dizer que não simpatize agora com estas figuras , o José Seguro como secretário...» * «Se calhar. Assino aonde?» * Aí em baixo, onde diz CONCORDO» * E o povo assina. Não importa que aquilo não esteja nos estatutos: é preciso ganhar tempo e abater a onda de fundo que o Costa já arrasta numa enorme Surfada. Pois bem. Isto dito assim até parece leve, mas o facto é que demonstra a insanidade da nossa política e outras coisas undergrownd: uma constituição para rasgar, uma austeridade para banalizar, uma aldrabice de ditos e não ditos, a troika toda contente porque talvez se safe de pagar aos lusitos a última tranche.
Tudo isto vem daqueles monstros que os americanos inventaram para dar cabo do cinema e das mentes infantis.

terça-feira, maio 27, 2014

EUROPA: PS VITÓRIA DE PIRRO. VER LEGISLATIVAS





Uma verdade crua e nua, esta vitória saudada no primeiros minutos como uma indiscutível ordem de varrer as regras para avançar com eleições antecipadas, eis uma derrapagem emocional sem pés nem cabeça. O grande partido que é o PS não ultrapassou os quatro pontos de diferença da coligação e esta, proporcionalmente, nem sequer foi ao fundo. Mas os nossos carnavais são assim, cabeçudos, repetitivos. Toda a gente sabe que o secretário geral do Partido Socialista continua, desde o início, agarrado a uma espécie de disputa propedêutica com a Aliança de governo, entre birras de bancada e discursos sem doutrina nem fundamentos estratégicos para um futuro verdadeiramente pós troyka, incluindo a reforma do Estado, coisa que Passos Coelho e Paulo Portas embrulharam numa lista de generalidades sem estudos adequados, espaços de interacção, organograma permitindo a viagem desses vários racords e a avaliação dos recursos, tecnologias, reforço da formação de quadros. Ainda bem que Paulo Portas chamou guião ao seu esboço: porque toda a gente sabe que um guião guia, raramente estrutura: nas artes do espaço e do tempo, o guião é transformado em projecto e na forma conjuntural de algumas ideias: pode ajudar a realizar o modo de formar e a própria forma estruturada que o projecto já anuncia.
Um trabalho assim não precisa de biliões de euros; mas tem de ser feito num grande espaço adequado a diversas escritas, sobretudo da informática e gabinetes de coordenação e estudo dos elementos quantitativos e qualitativos, entre actividades, conseguidos com antecipação.
Ora nada disso foi feito e os partidos disputaram, como legislativas, as eleições europeias, ficando todos, excepto o PCP, em má posição. José Seguro louvou o PS como nos velhos tempos e discursou mais uma vez sem ideias, nem qualidade formal, nem coisa nenhuma. Todo o percurso do PS nestes três anos foi prejudicado por esse personagem e os votos são expressivos de uma perigosa renúncia a um primeiro ministro com aquele perfil. Não fiquei espantado, no «noticiário da Uma», ouvir António Costa dizer que está na disposição de disputar o lugar de Seguro, tendo agendado um encontro leal com ele. Seria bom que esse percurso arrancasse e mudasse as neuras, antigas raposas, astenias e anemias. Ao contrário, talvez haja uma abstenção de terror.

sábado, maio 24, 2014

A EUROPA AINDA JUSTIFICA O NOSSO VOTO?

eurocracia


Diz um conceituado jornalista português:«Quantos ainda acharão que a Europa vale uma ida às urnas?»
Em boa verdade, este é um dos mais graves problemas que o país viveu nos últimos quarenta anos, desde aquelas horas, após catorze anos de guerra nas colónias, quando, em vez de descolonizar, abandonou quase de súbito, aos trambolhões e sem contrato sobre valores de toda a humanidade, os tais territórios reivindicados pelo mundo inteiro. Territórios que se chamavam eufemisticamente "Províncias Ultramarinas"e são hoje países a reemergir, tendo em conta a riqueza e as ajudas de novas massas de emigrantes (entre os quais, quatrocentos mil portugueses) para trabalhar, projectar e coordenar. São os novos colonos, sob novas leis e novas alcunhas: os portuga passaram a praga dos portugueses.
Mas voltemos à Europa (chamada agora, com cinismo, União Europeia) e às metamorfoses que vem sofrendo a senda terrorista da globalização.
As grandes potências que constituem hoje a União Europeia, todas antigas nações colonialistas, no melhor e no pior sentido, livraram-se muito  a tempo e com importantes compensações dos enormes territórios que exploravam, ainda hoje a funcionar de forma sorrateira e à distância, e depois da última guerra, em que a Alemanha, mais uma vez, perdeu as pretensões de governar o mundo por mil anos, as nações enfim desocupadas e o espírito dos países Aliados, sobretudo com os dólares do Plano Marshall, entenderam-se com um sentido de razoabilidade, partindo para a grande reconstrução das nações atingidas pelo conflito. A partir de maiores patamares da estabilidade, grandes personalidades do tempo, como Konrad Adenauer, Joseph  Bosch, Gaspari, entre vários outras, sobretudo Jean Monnet, Robert Schuman ou Willy Brandt, estabeleceram e lutaram por um decisivo projecto europeu, tendo em conta um sentido solidário entre os Estados, paridades de certos direitos estruturais. O peso da Alemanha, ou da França, ou da Inglaterra, desviaram da coesão necessária o quadro dos valores de consenso e, fustigando os países em dificuldades, em particular perante uma moeda (o euro) talvez mal construída,  mal usada e relacionada, fizeram centralizações de direcção (Alemanha), o que desarticulou a construção geral, a própria comissão, o poder do parlamento (orgão vital e de orientação de conceber e planear a base legislativa), entrando a região numa enorme crise económica e financeira, apesar do papel do Banco Central, países como Portugal sujeitos a resgates humilhantes e de duvidoso resultado futuro, tudo a depender da ganância especulativa dos credores escondidos atrás das histéricas agências de "rating" a manobrar os créditos a juros do inferno e códigos de jogos de computador.
Esta Europa, a realidade que nos resta, não é a que foi desenhada nos tratados de Roma. Desenvolveu-se em derivas imprevisíveis, pressões inesperadas, numa geral impreparação para corrigir desvios e novos tratados tóxicos. A memória, cultura e e novas perspectivas de desenvolvimento das várias nações integradas na UE mal percebem que estão cada vez mais aptas a aceitar conceitos alheios sobre economia, reajustamento, austeridade, cortes de toda a espécie, em nome de um futuro modesto mas pacífico. Ora não é isso que decorre do manejo dos juros entre grandes e pequenos países, decisões unilaterais, degradação do espírito e nobreza anteriores. A falta de resposta das políticas europeias aos problemas concretos que as famílias enfrentam todos os dias, incluindo pelo contexto político, atrai os grupos políticos de uma direita que aponta aos nacionalismos, e desfaz uma já mal desenhada federalização.
As eleições para o parlamento europeu passam por tratos de insensatez, desligando-se dos grandes debates sobre a Europa e remoendo quezílias de cada país, o que nos faz pensar na má qualidade das futuras prestações e sobretudo na incapacidade de fazer frente à xenófoba divisão norte/sul.
Diz hoje Miguel Sousa Tavares, na sua crónica do Expresso: «Talvez um dia a História desminta, mas, até lá, vou continuar a acreditar que o alargamento da Europa a Leste, até ao ingovernável conjunto de 28 países que hoje constituem a UE, foi um sábio plano premeditado pela Alemanha para, de duas uma: ou liquidar a UE, tornando-a ingovernável, ou tomar conta dela, sob o pretexto de ser ingovernável.»
Como votar? Para quê votar? Votar é um direito constitucional de escolha para a gestão dos países ou grupos de países, entre outras situações. Mas agora, em Portugal,  depois de uma terraplanagem e de um governo sem voz na UE, as listas para os  parlamentares europeus são ilegíveis, em certos casos mesmo impensáveis. Há muitos cidadãos que pretendem exercer o seu direito de voto anulando a escolha, abatendo a legitimidade do boletim. Mas o não-voto por abstenção, ainda que lamentável  por todos os que se vêem cercados de vazios, é também uma escolha: a percentagem abstencionista tem a sua leitura, terrí-vel mas legítima. Escolher numa lista entre várias, por mero descargo numérico e sem confiança, pode cuidar de certos perigos, mas nunca para uma boa solução, quando não há concretamente soluções por este método eleitoral, que os políticos sabem bem que já devia ter sido substituído, a bem do país e de todos os eleitos e eleitores.
Talvez não chova amanhã.

sexta-feira, maio 02, 2014

RUI MÁRIO: MORREU UM PENSADOR DAS ARTES


RUI MÁRIO

Quando me contaram não me ocorreu o que deveria dizer. Morrem os amigos e os que pensam sobre coisas que também nos movem. Um aneurisma, um assalto sem honra nem limite. Conheci Rui Mário na altura em que tinha já alguns anos de docência na antiga Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. E na SNBA. E na AICA. Escrevi nos mesmos jornais e revistas onde ele se exprimia como crítico de arte. Discutimos o fim e o princípio das artes, a escrita, a pedagogia neste âmbito. E um dia ele escreveu o único verdadeiro ensaio que alguém escreveu sobre a minha obra, no catálogo de uma exposição na Judite daCruz. Um dia, na Bucchholz, que ele então dirigia, tocou-me no braço, parou, olhou-me com grande precisão e disse-me: «Você tem ali um grande livro». Eu voltara de Angola e escrevi vinte anos depois um livro sobre a guerra em que participara. Era sobre esse livro que ele me falava. Era ao mesmo tempo sério e divertido, discutindo sobre arte com os dois tons no mesmo tom. Tinha o sentido da luta mas não da violência. E habitava as crenças maiores do século XX quanto à arte moderna.
Irmão de Eurico Gonçalves, outro grande amigo, licenciado em Ciências Físico-Químicas mas interessado desde muito cedo pelas artes plásticas. Dedicou-se à crítica de arte e desenvolveu, como professor de Estética, muitas iniciativas entre estudantes. Recebeu o Prémio Gulbenkian de Crítica de Arte, tendo colaborado nas melhores revistas nacionais, além de jornais. Leccionou também no Curso de Formação Artística da SNBA e trabalhou para a televisão e sobretudo na RDP (Antena 2). Foi membro da Sociedade de Gravura e do respectivo Conselho Técnico.
Das suas obras, podemos destacar "Pintura e Escultura em Portugal" | "O Imaginário da Cidade de Lisboa, 85 | "Dez anos de Artes Plásticas" - 1974-84. O seu currículo ultrapassa o limite desta sombra, deste resumo como perfil e memória. Lembrando as figuras que Rui Mário mais estudou, elas surgirão na sua companhia, daqui a algum tempo, amanhã, depois, mãos dadas a Dacosta, Almada, Amadeo, Cruzeiro Seixas.

segunda-feira, abril 28, 2014

VASCO GRAÇA MOURA, UM HOMEM RARO


VASCO GRAÇA MOURA

Apesar da fragilidade transferida pela doença, vinda do nada, ele resgatou até aos últimos dias a imponência conquistada: na voz da escrita, nas palavras redescobertas das traduções, nos poemas quase ocasionais que grava aqui e além e em vários livros decisivamente importantes. O que admira, nesta vida plural, de muito trabalho e forte intervenção, é a persistência, a continuidade, a iniciativa. E sobretudo as exímias traduções (Shakespeare ou Dante) que espantam de forma profunda pelo rigor, interpretação e pela qualidade de excelência.
Morreu no sábado, com 72 anos, respondendo sem recurso a poemas ou referências literárias. Homem da palavra, viu-se confrontado, nos últimos anos, com uma das mais difíceis espécies de cancro. Essa luta, como muitas outra, passou também pelo seu vertical desacordo do «famoso» acordo ortográfico da língua portuguesa, entorse incompreensível a uma língua rica, aliás bem utilizada nas grandes traduções que Vasco Graça Moura realizou e lhe fez merecer o prémio de melhor tradutor do mundo, pela escolha da Itália.
Tinha, no Centro Cultural de Belém uma posição nítida e empenhada, recebeu uma das mais significativas condecorações portuguesas.
Ele diz: «Em Portugal está a faltar muita poesia. Não eche a barriga, mas pode ajudar a encher o espírito. Tudo o que importa a uma dialéctica de opostos é importante. Pelo menos um embrião de conflito. A unanimidade é a mais banal e empobrecedora das situações.1

                             
                                                 A pena de todas as escritas

1 citado da Visão

terça-feira, abril 22, 2014

CALVET, UM NOME E UMA OBRA PARA SEMPRE


Carlos Calvet, arquitecto e pintor, 86 anos, morreu ontem. Carlos Frederico Calvet nasceu em Lisboa, estudou na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (também na do Porto) tendo obtido a sua licenciatura em 1957. Além de arquitecto interessou-se muito pela Fotografia e foi sem dúvida um dos nossos mais significativos artistas plásticos. Trabalhou em Cinema, Fotografia, Pintura e Serigrafia. Era assim, inicialmente como arquitecto, um autor pluridisciplinar, algo que acontece frequentemente no nosso meio, talvez devido aos apelos do meio e da própria dimensão das hipóteses de pesquisa enquanto falha no mercado.
Carlos Calvet expunha desde 1947, individual e colectivamente, tanto em Portugal como em vários países da Europa e Ásia.
Próximo do Grupo Surrealista de Lisboa, em cuja exposição de 1949 participou, a par de Mário Césariny e Cruzeiro Seixas, iniciou a sua produção fotográfica anos depois, em 1956, motivado pela sua formação em arquitectura, o que o levou também a interessar-se pelo Cinema.
A maior parte destas palavras foram retiradas dos documentos inscritos na internet, mas posso acrescentar que ainda acompanhei e estudei a obra de Calvet, tendo mesmo participado em exposições com ele. Embora soubesse a idade que atingira, tendo esperado por uma conversa que tínhamos combinado há muito, ontem fiquei chocado com as duas perdas: a do artista e a da conversa com que ele aceitara ter comigo.

terça-feira, abril 08, 2014

NÃO É SEMÂNTICA NEM INCUMPRIMENTO


Reestruturar a dívida, no caso actual do nosso país, não deve suscitar nenhum pavor apocalíptico, nem falar como se ouviu dos socialistas: "estruturar nunca, é dizer que não se paga". Não sei se os mercados ficam incomodados com o sentido da palavra, ou se ela tem tradução imperfeita em inglês, que é a única língua que por lá se fala. Só sei é que em português trata-se de alterar uma ordem para lhe conferir outra mais confortável para todos. Deve dizer-se: Ninguém perde mais, ninguém ganha mais. Se, por inércias absurdas, tudo gira em ruído e erro, tanto mais que hoje os juros trabalhados no mundo são barbaridades de perfeita agiotagem e não se controlam com rectidão e bom senso, isso já não passa pela tal palavra.